Jesus vê-nos primeiro antes que comecemos a dar os primeiros passos do caminho

Ap 21, 9b-14; Sal 144 (145); Jo 1, 45-51 ─ Festa do Apóstolo São Bartolomeu (Natanael); pequena reflexão sobre Pastoral Vocacional

Nesta Festa estamos diante de um Evangelho que tece um verdadeiro diálogo vocacional, personalizado em Jesus, Filipe e Natanael (Bartolomeu). Quem dera que hoje repetíssemos mais vezes este diálogo, começando por afirmar na estrada “Encontrámos Aquele de quem está escrito…” e deixando que cada pessoa diga o que pensa acerca de Jesus, sem obrigarmos a uma imediata ou irrefletida profissão de fé sem consequências.

Vivemos numa época de grandes confrontos, não só o que se pensa e o que se diz, mas também entre o que se diz e o que os outros pensam, fonte de debates inacabados e de isolamento intelectual, tendencial a gerar patentes individualistas. Jesus aproveitou uma afirmação de Natanael não politicamente correta para o aproximar da verdade que Ele é. A autenticidade é uma qualidade dos que caminham, ao passo que o fingimento frena o passo para Cristo.

Estar “debaixo da figueira” não só diz de alguém que não está no caminho, como afirma a presença de mecanismos de defesa que impedem uma verdadeira relação a caminho. No entanto, Jesus também olha para os que não estão no caminho, aguardando que, por palavras ou atitudes desajeitadas, se comecem a dar os primeiros passos.

E tudo começa com o testemunho de alguém, não que este testemunho seja a fonte, mas a “torneira” insubstituível para que O possamos conhecer e seguir.

A pastoral vocacional hodierna sofre, no meu modo humilde de ver, de um utilitarismo exacerbado, que começa por querer dar a conhecer os objetivos da missão da Igreja e as leis com as quais se tece a entrega. Jesus não começou assim! Para Ele é sempre fundamental conhecer bem as pessoas, reconhecer o que elas valem e como se dispõem a ser acompanhadas como são naturalmente e com liberdade quanto à proposta sobrenatural. Muitos ziguezagues se têm sofrido entre a formação humana e a formação espiritual em comunidades de acompanhamento, por falta de um discernimento que tenha em conta não só os objetivos da missão, mas também a humanidade dos sujeitos.

Precisamos de, pois, de uma pastoral sem pressas. Maria foi apressadamente a casa de Isabel, mas permaneceu lá cerca de três meses (cf. Lc 1, 39-56). Portanto, ir rápido ao encontro, mas permanecer o tempo suficiente na casa dos vocacionados, sem proselitismo vocacional.

Seja como for, até que aconteça na vida de um/a jovem a decisão definitiva em abraçar um estado de vida (seja o matrimónio, o presbiterado ou a vida consagrada), deve ser dada oportunidade de que aconteça algo semelhante ao que se descreve no Livro do Apocalipse: fazer a experiência do cimo do monte, onde testemunhos felizes ajudem a ver as realidades que se prometem pelo caminho de uma entrega especial.

O vosso domínio estende-se por todas as gerações. O Senhor é justo em todos os seus caminhos e perfeito em todas as suas obras. O Senhor está perto de quantos O invocam, de quantos O invocam em verdade.

─ Sl 144 (145)

Para o Reino, o esforço é superior ao número de tentativas

Lc 13, 22-30 ─ XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM (C)

Um dia, um homem chegou ao céu e apresentando-se diante de Deus, disse-Lhe: Senhor, olha como as minhas mãos estão limpas. Ao que Deus respondeu: mas vejo que estão vazias...

Esta era a situação dos Israelitas diante de Jesus, a quem já o profeta Isaías tinha profetizado. Por serem o povo eleito, pensavam que já tinham garantido o acesso à salvação. Por isso, perguntavam a Jesus “São poucos os que se salvam?”.

Por muito que nos custe ouvir, a salvação não nos está garantida só por pertencermos à Igreja Católica ou estarmos batizados e sermos assíduos à assembleia litúrgica. O profeta Isaías anuncia-nos que o Senhor não acolhe somente a oferenda feita em vasos ou mãos puras dos Israelitas ou nossas no templo do Senhor ou diante do altar; também os que nunca ouviram falar d’Ele, levados de muitas maneiras ao monte do Senhor ou trazidos por caminhos errantes à oração, serão destinatários da sua glória ou escolhidos para o seu serviço.

E como responde Jesus? Com a imagem da porta estreita, Jesus demonstra que o acesso à salvação requer esforço, não importa o número de tentativas ou de pessoas, nomeadamente pela via da justiça que é um dos maiores atributos de Deus. A parábola do banquete do Reino acentua a imagem da salvação como comunhão com Deus e com a sua vontade.

Se, por um lado, a porta é estreita e muitos tentarão entrar nela sem o conseguir, por outro, as fronteiras de acesso alargam-se para lá da pertença étnica ao povo de Israel. Prova isso é o facto de nós estarmos aqui, não só na tentativa de celebrar a fé, mas também implicados no esforço de a viver por caminhos de justiça. E curiosamente, na parábola do Evangelho, até que o dono da casa se levante, a porta está aberta, para todos.

Empreender um caminho comunitário e pessoal que nos permita ser reconhecidos pelo Senhor à porta do Reino implica não só fazer uns planos de dieta física ou espiritual em certos tempos fortes, para depois tudo voltar ao mesmo. Também a nível da vida da fé as “dietas iô-iô” podem prejudicar-nos no sentido de que quando passarmos perto do Senhor, Ele diga que não nos conhece ou corramos o risco de não o reconhecermos a Ele.

A “porta estreita” pode ser a porta de um pobre com quem sou chamado a partilhar o que sou e o que tenho (o Papa Francisco costuma lembrar que a pessoa do pobre é um passaporte para o céu!). Pode ser aquela ocasião em que me esqueci de mim para tratar de uma pessoa doente. Pode estar diante de mim naquela pessoa desconhecida com quem tive de dialogar, ouvindo os seus sonhos e testemunhando-lhe as minhas convicções.

Portanto, o esforço que precisamos de fazer para entrarmos no Reino, começa e depende de aceitarmos a nossa condição de filiação divina, deixando que Deus nos corrija como Pai que nos ama. Como diz a Carta aos Hebreus, uma correção pode não ser motivo de alegria, mas de tristeza. Porém, quando recebida com docilidade, mais tarde faz-nos obter e saborear os frutos da paz e da justiça.

Assim está a acontecer com a Igreja Católica neste tempo de purificação por causa dos abusos.

Amor de Deus: um mandamento com duas declinações

Ez 37, 1-14; Mt 22, 34-40

Conforme Ezequiel foi convidado pelo Senhor a profetizar aos ossos e ao espírito, assim nós somos convidados por Jesus a amar a Deus e ao próximo.

Amando a Deus, reconhecemos o Seu amor em nós, condição para vermos os nossos ossos revigorados para podermos amar o próximo. Por sua vez, amando o próximo, veremos os seus ossos revigorados e, com o amor de Deus trespassado por nós, também o próximo viverá.

O amor de Deus em nós faz com que o que em nós estava morte possa reviver. Profetizar é, assim, um sinónimo de amar. Porque profetizando, anunciamos o amor por palavras e obras, assim como denunciamos as injustiças que nos roubam a vida.

O dever religioso de amar a Deus só será correto se amarmos os irmãos. Os Santos — pensemos, por exemplo, na Beata Teresa de Calcutá — hauriram a sua capacidade de amar o próximo de modo sempre renovado do seu encontro com o Senhor eucarístico; e vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade precisamente no serviço deles aos outros.

Cf. PAPA BENTO XVI, Deus caritas est, n.18

Sobre os ombros de um/a gigante

Mt 5, 1-12, Funeral de uma pessoa idosa

Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.

Isaac Newton

O discurso das Bem-aventuranças é, porventura, o que mais consegue unir o realismo e a esperança. O realismo acerca da vida terrena e a espera de um mais além bem sucedido. Jesus declarou-o no cimo de montanha.

De muitas formas se tem interpretado o texto das Bem-aventuranças. A que mais aprecio é a da integração psicoespiritual realizada pelo alemão Anselm Grün, frade psicoterapeuta, perscrutando nas bem-aventuranças o caminho para uma vida bem conseguida.

Esta interpretação parte da realidade em que, na experiência quotidiana, os nossos entes queridos conseguiram superar-se, escolhendo

  • a auto-estima, em vez do apego a uma máscara (1ª bem-aventurança);
  • o contacto com os recursos interiores com que se faz o luto, em vez de apegos substitutos que levam à depressão (2ª ba);
  • a doçura e não-violência (ou o não precisar de dar respostas a tudo), em vez da dureza do coração ou da auto-punição que leva a sofrer somatizações (3ª ba);
  • a coerência pessoal, em vez das ilusões que provocam divisões (4ª ba);
  • a misericórdia/simpatia/compaixão, em vez da desumanidade/insensibilidade/condenação (5ª ba);
  • a purificação das emoções (possibilitada inclusivamente por uma alimentação simples), em vez da intoxicação das ideias provocada por um desregramento corporal (6ª ba);
  • o fazer as pazes com que o há sombrio em cada pessoa, em vez de se gastarem demasiadas energias em não se assumir o mal (7ª ba);
  • uma quietude confiante e fecundidade responsável, em vez da fuga da própria realidade e das ameaças que nos rodeiam, fechando os olhos ao mundo (8ª ba).

A vida longa de alguns idosos, revisitada, pode ser a porta para a valorização dos aspetos mais essenciais da nossa existência que, afinal, não precisam de competir com os calculismos de um mundo que frequentemente os descarta (os idosos e o essencial). No final, fica registada a patente do tipo de coisas ou realidades que tivermos valorizado durante a vida terrena. E a mais essencial é a ternura que, sentida aos ombros dos nossos idosos, faz com que vejamos mais além numa perspetiva de esperança realista. A que verdadeiramente confere felicidade.

Mesmo após a existência terrena, estes “ombros” continuam disponíveis, porque a memória do que viveram e os valores de que deram testemunho são consistentes em si mesmos, não precisando de nenhuma balança comparativa. O Papa Francisco defende que a aliança entre idosos e jovens/crianças salvará a família humana. O testemunho credível de que são portadores os idosos faz com que os mais novos possam ir adiante. “O testemunho dos idosos une as idades da vida e as próprias dimensões do tempo: passado, presente e futuro, porque eles não são apenas a memória, são o presente e também a promessa”.

Ao mesmo tempo em que a despedida entristece o coração, demos graças por tão grandes testemunhas, que nos entusiasmam a continuar a vida com sentido de infinito, onde saber viver e saber morrer formam a mesma conquista.

Matrimónio: vocação de especial consagração? Vocação comunitária e vocação pessoal

Mt 19, 3-12

Há muito que defendo, como presbítero no acompanhamento vocacional, que o Matrimónio deveria ser urgentemente considerado como um caminho de especial consagração, onde também podem ser vividos a seu modo os conselhos evangélicos. Santa Joana Francisca de Chantal não consagrou só a sua vida após a morte do marido, sendo que, sob esta perspetiva, o seu percurso passaria por vários modos de consagração especial.

Ser “uma só carne” na liberdade fiel, fecundidade criativa e indissolubilidade esperançosa não é “empresa” fácil, nem é para todas as uniões entre homem e mulher. No entanto, há testemunhos de Matrimónio por detrás do pano de muitas vidas felizes, não reconhecidas por uma mais eficaz pastoral familiar e encobertas por uma sociedade que nos quer impor vários modelos de família, para além dos modelos criados pelas circunstâncias da vida.

Apesar de o Magistério da Igreja refletir sobre o acompanhamento das pessoas em todas as etapas da vida, na prática não é fácil manter os princípios essenciais da vocação comunitária sem perscrutar a diferenciação dos modos que definem os marcos de uma vocação pessoal. A existência desta diferenciação entre etapas e modos é comum a todos os estilos de vida e não é meramente uma constatação da vocação matrimonial, uma vez que as habitualmente chamadas “vocações de especial consagração” também passam por várias idades e circunstâncias.

Raramente se fala da formação permanente dos cônjuges unidos pelo Matrimónio, que certamente enriqueceria as famílias como “alfobres” vocacionais e de onde de espera que novas vocações possam partir como felizes ramificações. Nota-se como necessário este desafio nos pais dos atuais candidatos ao ministério presbiteral, muitas vezes aparecendo como estranhos aos meandros teológicos e práticos do desenvolvimento vocacional dos filhos que entregam à Igreja (vêm-se quase somente entre a porta do Seminário e a da Catedral). A atual Ratio Fundamentalis insiste numa maior interação nem sempre fácil de realizar.

A verdade é que da unidade de vida matrimonial depende, em certa medida, a unidade de vida de todos os vocacionados, seja na vocação presbiteral, seja de qualquer forma de consagração. A dureza do coração é apontada por Jesus como a causa não só das desuniões, mas também da consequente possibilidade de a falta de boas uniões contribuírem para que não haja um dos tipos de “eunucos” (os provocados por famílias destruturadas/destruturantes). Depreende-se das afirmações de Jesus que a questão não é tanto quanto à conveniência do casamento, mas quanto à conveniência de que haja uniões vocacionalmente fecundas. O/a que escolhe o Matrimónio renuncia ao seu passado e à sua terra para se unir ao/à seu/sua cônjuge, para formar com ele/a uma só carne.

Em todas as histórias de vida, cada um/a pode dizer: “a minha vocação é o meu caminho para ser feliz” (D. Ilídio Leandro).

Perdão e compaixão, “arco e corda” para uma “flecha” verdadeiramente livre

Ez 12, 1-12; Sal 77 (78); Mt 18, 21 – 19, 1

Como Santa Clara, antes de conhecer São Francisco de Assis, todos os seres humanos nasceram e cresceram num contexto natural e relacional de presenças e ausências que delimitaram “o arco” e determinaram a tensão da “corda” com que cada um foi lançado na e para a vida.

Eles tentaram e ofenderam o Altíssimo

e não observaram os seus mandamentos.

Foram infiéis e renegados como seus pais,

como flecha errante, desviaram-se do caminho.

Sl 77 (78), 56-57

Estes dois versículos do Salmo 77 (78) trazem à nossa meditação a possibilidade de um ser humano ser, percebendo-se ou não, como “flecha errante”. Nesta tradução, a causa do desvio recai sobre a orientação da própria flecha; na tradução da CEP (cf. http://conferenciaepiscopal.pt/biblia/index.php/Sl_78), a causa do desvio recai sobre o “arco sem força”.

Seja como for, o Evangelho possibilita ao ser humano a mudança quer de arqueiro, quer de arco e corda, quer de tensão, quer de direção, sem ignorar o contexto em que cada ser humano nasceu e cresceu. No entanto, o Reino de Deus é a direção ou o alvo para o qual o Arqueiro nos quer dirigir; o arco é o perdão cuja corda se tange com a força da compaixão.

A verdadeira liberdade deverá ser considerada primeiramente livre de determinismos que condicionem a possibilidade de um recomeço feliz para quem se transviou ou se sentiu errante. Todo o ser humano tem o direito (divino) a sentir-se incondicionalmente amado, como ponto de partida ou de repartida para o horizonte objetivado como o realmente promissor de verdadeira felicidade.

No caso de Clara de Assis, desde cedo que se sentia atraída a praticar a caridade. Porém, o contexto familiar de nobreza e riqueza que lhe queria proporcionar um casamento vantajoso não era o melhor. Para tal, abandonou o seu lar para abraçar a vida de pobreza inspirada em Francisco de Assis.

O Reino de Deus é um Reino de perdoados capazes de se compadecer e perdoar. Para o atingirmos, teremos sempre de partir sempre, da herança natural que recebemos para a herança sobrenatural que nos está prometida. A paciência de Deus será sempre o pano de fundo desta aventura misteriosa.

A pobreza é a maior síntese do amor

Jo 12, 24-26

O mandamento do amor, posto em prática, não pode não ter consequências de interação entre o divino e o humano, sendo que, ao mesmo tempo, implica a vivência de um paradoxo: amar a Deus com todas as faculdades pessoais e ao próximo como a nós mesmos implica, ao mesmo tempo, desprezar a própria vida neste mundo para a conservar para a vida eterna.

A pobreza e o pobre são, por isso, a melhor síntese do amor divino incarnado, porque são, ao mesmo tempo, portadores e destinatários do serviço que o incarna. O mandamento do amor e o desprezo da própria vida em favor dos outros são uma questão do “estar” ou agir e não meramente do pensar ou sentir. “Estar presente” com todas as faculdades da pessoa: coração, alma e entendimento (cf. Mt 22, 30), que poderão traduzir-se por vontade, memória e inteligência.

No momento da perseguição, o mártir São Lourenço estava inteiramente presente nos e com os pobres, o seu maior tesouro.

Meu filho, não temas, porque Eu estou contigo. Se passares pelo meio do fogo, nem a chama te abrasará nem o fumo te fará mal.

Antífona de Benedictus

Concretizando o desafio de estar totalmente presentes, poderemos vir a contemplar a promessa da presença divina nos momentos de maior tribulação. A irrepreensibilidade que São Paulo sugere no “espírito, alma e corpo” (1 Ts 5, 23) possibilita a que possamos contemplar a vinda de Jesus Cristo sem que alguma dimensão do nosso ser possa ficar de fora. O projeto pessoal de vida implica, pois, ter presentes estas dimensões do nosso ser, trabalhando reciprocamente em favor da vontade de Deus. Por vezes, pode acontecer que o espírito e a alma queiram e o corpo não, e vice-versa. Assim, o ato de servir Jesus Cristo implica segui-Lo.

O amor é o “estáter” superabundante tributado pela Palavra

Comentário a Mt 17, 22-27 e Ez 1,2-5.24-28c na Memória do presbítero São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores

Na história da humanidade, há figuras de homens de incontornável importância e esplendor que manifestam a glória de Deus a aproximar-se como “vento impetuoso… nuvem com grande clarão e um fogo cintilante”, cujo ruído das “asas” assemelha-se ao “marulhar das torrentes caudalosas, semelhante à voz do Omnipotente” (cf. Ez). Uma dessas figuras é Domingos de Gusmão, que não teve medo de renovar a forma da vida apostólica na Igreja, num tempo em que foi necessário lutar contra a heresia dos cátaros que, face aos maus exemplos, negavam a idoneidade do corpo e da matéria na sua relação com os fundamentos do espírito, com prejuízo, inclusivamente, para com a Criação de Deus e a Incarnação do Verbo.

Assim como o estáter é mais valioso do que a didrácma, a Palavra de Deus é mais valiosa do que qualquer matéria, sendo que esta costuma isolar as pessoas no egoísmo, ao passo que Aquela é caminho e soldo para todos.

Do cruzamento da vida de São Domingos de Gusmão e de todos os pregadores que Deus inspirou à Igreja num tempo em que foi chamada a repor a verdade, inclusivamente, com a renovação das formas apostólicas de vida (entre os quais, também, São Francisco de Assis e Santo António) e o Evangelho de hoje, ouve-se ainda mais alto a sensibilidade do Magistério atual, na fidelidade à Palavra, quanto à necessidade de a Igreja, quer dizer, as comunidades da Igreja, se reformarem na vida apostólica, para que a forma de lidar com os bens temporais não diminuam a importância da Palavra de Deus, nem esta seja proclamada em vão, quer dizer, sem sinais de mudança para o Reino.
A confirmação de uma boa incarnação da Palavra e da possibilidade de estarmos perto de Deus estará sempre na forma como lidamos com os pobres (seja de que conteúdo for), mais do que na defesa de uma cosmética aparente que, não raramente, se esquece deles.

O diálogo de Jesus com Pedro, fazem-me recorrer ao pensamento de Steven Pressfield, em “A guerra da arte”, que diz que os seres humanos organizam-se segundo duas fórmulas ou orientações: a orientação hierárquica, sob a qual uma sociedade quando se torna grande demais, essa orientação passa a ser praticada em grupos limitados (escola, religião, grupos sociais, etc.), levando as pessoas, na família como na profissão, a olhar para quem está acima (olhando o objetivo a alcançar), e para quem está abaixo (vigiando para não ser ultrapassado) e para fora (tentando saber o que os outros pensam delas e atender às suas demandas); a orientação territorial, por sua vez, faz-mos lembrar a dinâmica do caminho e da alma, onde cada pessoa é chamada a considerar os seus próprios talentos e a acolher os dons que a fazem cumprir o seu próprio propósito.

Divinamente, a Palavra de Jesus supera todos os dualismos, entre a mera obediência a preceitos externos e a iluminação da consciência pessoal, uma vez que anuncia a Ressurreição. Por isso,

Urge a capacidade de atendermos às demandas das próprias almas (e da alma comunitária da Igreja defendida pela sua Hierarquia), mais do que responder somente a expetativas. No caso da arte, por exemplo, responder só a expetativas externas vende ou faz perder a inspiração que enobrece a obra de arte. Na missão apostólica da Igreja, precisa-se de mais profetismo para que a salvação chegue a todos e não seja um bem só para alguns, nem tem que ver com alguma subsidiação espiritual em “cascata”, como acontece na economia, onde os bens são vertidos de maneira a que os primeiros arrecadam mais que os últimos. No Reino de Deus, que em Igreja somos chamados a instaurar, não é assim!

Urge a possibilidade de as comunidades da Igreja poderem ser uma experiência de união às provocações dadas pela Palavra de Deus, na diversidade dos ministérios e carismas, aprendendo cada um a ser e a fazer o melhor aquilo para que foi criado. Assim, cada pessoa aprende a superar-se não por um mero confronto de expetativas pessoais (em estilo de carreira), mas na realização do bem em si que é preciso fazer para que todos (ou o maior número possível) se sintam bem. Como se diz na vida e missão do padre, que se alimenta espiritualmente do que faz pastoralmente, também se pode dizer de qualquer pessoa crente, chamada a ser credível porque tira energia na coerência com aquilo que exerce em favor dos outros.

Requer-se, de facto, uma nova ordem, como a dos pregadores, contando que seja sempre a favor do Evangelho, unindo princípios a formas novas de possibilitar a abertura ao desígnio de salvação! O mandamento do amor não é dualista, uma vez que o Senhor nos pede que amemos a Deus e ao próximo como a nós mesmos. Jesus, neste episódio, não deixa de considerar o papel da criação, como é o caso do peixe que foi transporte do imposto devido.

A verdade desarma qualquer um: Jesus não vem de nenhuma elite

Jo 7,40-53

Apesar de haver alguns sinais ou “setas” no caminho dos judeus e dos fariseus, como João Batista, Nicodemos e parte de multidão que ouvia e seguia Jesus, aqueles não queriam saber a verdade, a não ser dar ouvidos aos desejos mesquinhos que lhes dava segurança. Abuso de poder religioso como o que hoje estamos a assistir onde há guerras.

Os dados dados essenciais estavam diante dos olhos dos judeus, para, juntando A + B, poderem também eles empreender um caminho de seguimento, na obediência à verdade que “desarma” de preconceitos e falsas seguranças.

É por isso que, hoje, é muito importante a sinodalidade na Igreja. Sem este “caminhar juntos” ela corre o risco de se deixar desviar por preceitos farisaicos, cujos objetivos não são os do Reino.

Se Jesus tivesse vindo de uma elite, passaria a sua vida pública a servir essa elite e a partir dela com sobranceria para os pobres e os das margens da sociedade. Mas não! Ele, sendo rico (na Trindade) fez-se pobre (encarnando como Verbo), para nos enriquecer com a sua pobreza.

Por isso, toda a transcendência que nãos e manifeste sob a forma de imanência é enganosa. Na história da salvação, foi sempre pedagogia de Deus acomodar-se à compreensão do seu povo, incentivando a segui-l’O livremente.

Escutar Deus e amar o próximo: a forma mais diret(ic)a de amar a Deus

Não há melhor forma de ser feliz para o ser humano do que perceber-se possuir uma unidade de vida interior em desenvolvimento, para a consolidação do seu eu como pessoa na relação com os outros.

O problema é querer desenvolver essa unidade de vida só voltado para Deus, sem se estar próximo dos irmãos. Parece-me impossível, não porque Deus não queira, mas porque a forma mais direta de estar com Ele é pelo “interface” mais semelhante a Ele: o ser humano. Neste sentido, não há ritos solitários que possam levar o homem a aceder a Deus com tanta eficiência do que a partir da caridade (que é, por definição, uma virtude solidária).

Jesus quis unir os dois mandamentos maiores ─ escutar/adorar a Deus e amar o próximo ─, diante da confusão de seis centenas de preceitos proibitivos e obrigativos, precisamente porque os mesmos, ainda que muitos, estavam a fragmentar o interior das pessoas que, mais do que as ajudar a ser livres, as manipulavam com o “confundir para reinar”.

Doravante, não há outra forma de retribuir a Deus o seu amor primeiro: só amando os irmãos, proativamente, a começar pelos mais pobres e distantes. Quantas vezes uma religião baseada em obrigações e proibições nos afastou dos irmãos, criando fronteiras de segurança anti-divina? Não há outra ética com que possamos anunciar o Evangelho. Não há escusas nem subterfúgios com que possamos fugir do pobre, com o risco de fugirmos também do verdadeiro Deus!

O tema da Semana dos Seminários que decorre entre este 31 de outubro e o 7 de novembro de 2021 ─ «Para estarem com Ele e para os enviar a proclamar» (Mc 3, 14) parece ter implícita na experiência dos primeiros discípulos o adorar a Deus, no estarem com Ele e escutando-O em Jesus, e o amor ao próximo, acolhendo o envio para a missão de proclamar a boa nova aos pobres e oprimidos. Não se pode, por isso, desligar o primado do amor a Deus do primado da missão no mundo. Seria em vão a nossa fé e seguimento. Só nesta lógica é que poderemos testemunhar a salvação e não numa lógica de autorreferencialidade ou de autosubsistência. Por isso, contribuir para os Seminários ─ com oração e bens materiais ─ é uma possibilidade que decorre da necessidade de as pessoas (dentro e fora das comunidades) terem mediadores mais bem preparados que nos permitam (continuar a) estar com Jesus para podermos aprender a adorar a Deus com todas as faculdades do ser, sem deixar de cuidar dos irmãos mais frágeis. Não se sustenta os seminários pelos seminários como fins em si próprios, mas ao cooperar com estas casas de formação, está a sustentar-se a identidade e missão da Igreja no mundo. Pois, a vocação ao sacerdócio ministerial não é um fim em si próprio, mas instrumento para que pelo Batismo e a vida que decorre deste Sacramento, todos sejam salvos.