Tudo o que fazemos seja para que Se manifeste Jesus, que nos banha com o Espírito Santo e nos chama a viver o amor em CSS

Is 49, 3. 5-6; 1Cor 1, 1-3; Jo 1, 29-34 ─ no II Domingo do Tempo Comum (A); reflexão inspirada em Jose Antonio Pagola e em Comentário à liturgia do 2.º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Faço aqui um parêntesis informático performativo para informáticos:)
Uma das coisas mais interessantes que aprendi ao fabricar páginas na Internet ─ antigamente a partir da linguagem html/php e hoje a partir de plataformas open source/sistemas de gestão de conteúdos (CMS) que nos facilitam muito a vida na arte de comunicar pastoral on-line ─ foi a possibilidade de lidar com “folhas de estilo em cascata” (CSS ou Cascade Style Sheets). A sua função, ainda hoje muito importante, é a de criarmos uma folha fácil de carregar onde possam estar escritas todas as programações de estilo que poderão ser chamadas em qualquer página do sistema, quando o programador bem entender. Esta forma de comunicar permite não tornar pesado um sítio da Internet e de ter as coordenadas de estilo sempre à mão. Diante deste episódio do Batismo de Jesus, penso na partilha do Espírito Santo, do Pai para o Filho Unigénito e para nós, como uma “fonte de amor em cascata”: desde então, há uma forma de ser que pode ser acoplada ao mesmo Espírito segundo o Qual Jesus fala e atua. Podemos ver numa única folha de estilos para o governo da estética de um website como o único Espírito com que Deus Pai governa o mundo a partir de Jesus Cristo. Podemos ver isso de forma nítida em 1Cor 12,4-7: Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum.

No Evangelho de hoje recebemos o testemunho de João acerca do Batismo de Jesus no Rio Jordão, no início da Sua vida pública (descrito em Lc 3,21-22, em Mc 1,9-11 e em Mt 3,13-17 de maneira mais pormenorizada).

Logo após as celebrações do Natal, temos neste II Domingo do Tempo Comum a oportunidade para colher a identidade e missão de Jesus que é apresentado como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. É este o propósito da Encarnação de Jesus: a Paixão, Morte e Ressurreição para nossa salvação. É este o Mistério de Cristo que João Batista anuncia em duas etapas: anuncia a vida, chamando a “preparar o caminho do Senhor” e anuncia o seu percurso até à Páscoa.

Deste que constitui o primeiro dos mistérios luminosos, extraio as seguintes lições:

1 O amor incondicional de Deus manifestado no início da vida pública de Jesus é garantia do amor condicional que é destinado a todo o ser humano. Jesus coloca-se na fila dos pecadores que vão receber o batismo de água de João Batista, mesmo não sendo pecador. Na versão de Mateus Jesus responde ao Batista que “É conveniente que assim cumpramos toda a justiça”, interpretando-se como a “justiça superior” da compaixão ou misericórdia. Portanto, no início da vida pública de Jesus, a voz de Deus informa que o que quer realizar através do seu Filho Unigénito é um plano de amor para toda a humanidade. O amor incondicional de Deus é fonte de autoestima.

2 Neste Evangelho está bem patente a diferença do batismo de água que João administra e o batismo no Espírito que só Jesus é que pode realizar. Na Igreja, estes elementos aparecem unificados numa realidade só: no upgrade, ou seja, na atualização que Jesus fez, ao deixar-Se batizar. Jesus submerge os seus no Espírito Santo. Ele possui a plenitude do Espírito de Deus, podendo comunicar aos seus essa mesma plenitude. A grande novidade do batismo cristão é que Jesus Cristo pode “batizar no Espírito Santo”. Não se trata de um banho externo, mas um banho interior, no qual Jesus nos “empapa” do Espírito Santo para nos transformar o coração. A “pomba” é sinal da unção sobre Jesus, Aquele que vem restaurar os destinos de Israel. Ele traz a força, mas não é como esperavam: não vem impor nada pelo domínio ou manipulação dos outros, mas propor uma nova maneira de viver e de relacionar-se com Deus que parte do amor e da fraternidade universal. O amor incondicional é fonte de vida nova.

3 Ser batizados não é um mero requisito tradicional. Não podemos correr o risco de ficar pelo batismo de água ou de penitência, que o é, mas somos chamados a deixar que Jesus nos implique viver um novo nível de existência cristã, etapa após etapa, através de um estilo em que vivamos mais fiéis a Cristo Jesus. O Espírito de Jesus é o Espírito da Verdade, que nos permite não nos deixarmos enganar por falsas seguranças, dentro da nossa identidade irrenunciável de seguidores de Jesus. Para isso, é preciso abandonar caminhos que nos desviam do Evangelho, de interesses egoístas e do bem-estar que nos faz ser cobardes. O amor incondicional é fonte de liberdade.

4 É o Espírito Santo que transmitido por Jesus que nos permite fazer da fé um processo contínuo de conversão e não um caminho terminado. É o Espírito da conversão, que nos permite deixarmo-nos transformar lentamente por Ele, que nos ensina a vivermos segundo critérios e atitudes que manifestam o coração de Deus na nossa forma de nos relacionarmos com os outros. Os céus que se fecharam pela atitude os nossos primeiros pais, são agora abertos por Jesus, na nova relação que estabelece com o Pai. Deixemo-nos atrair pela novidade criadora deste relação, que pode despertar o que há de melhor no coração de cada um de nós e do interior da Igreja para fora. Pelo Espírito Santo, Jesus vem fazer uma proposta totalmente nova, original, mostrando-nos que valemos por aquilo que nós somos e não por aquilo que podemos dar. É o que se mostrará nos capítulos seguintes no Evangelho segundo João. Jesus é capaz de fazer os sinais manifestados porque Ele é o Messias esperado e enviado do Pai. O amor incondicional é fonte de renovação.

A compaixão é o ajoelhar do coração diante da necessidade fundamental do outro

Heb 3, 7-14; Mc 1, 40-45

É surpreendente o início da vida pública de Jesus, segundo o que nos relata o evangelista Marcos. A sua compaixão que não pede licença a preconceitos para agir imediatamente em favor daquele leproso, a quem, por causa da lepra, tinham tirado cidadania. Surpreende, também, humildade crente de pessoas carentes de um amor incondicional ─ como é o caso daquele leproso ─ necessitado de ser reconhecido tal como é e amado simplesmente por existir. Faz-nos lembrar todos aqueles que, hoje, vivem à margem dos sistemas políticos e religiosos, fechados num limbo por uma barreira de uma ética mal resolvida.

Menos surpreendente é a atitude dos que delimitam uma zona convivencial com um sistema político-religioso, através de uma moral que demora a perceber que a dignidade de uma pessoa é o imperativo categórico pelo qual não há preço a pagar, porque não vale dinheiro, mas unicamente a aceitação da pessoa, distinta do mal que é preciso curar nela, gaste-se o que se gastar. Esta atitude gerava em Jesus um sentimento oposto ao da compaixão: a ira. E se a compaixão O levava a curar sem demora, a ira levava-O a Ele para o deserto, para recomeçar de novo, num projeto divino que, para ter progresso messiânico, teria de implicar ruturas e continuidades em relação ao passado.

No tempo de Jesus, tal como no nosso, existia o perigo de uma sobre-excitação messiânica mal resolvida que derivava num movimento messiânico prematuro. Jesus fugia disto e advertia aos que curava de não o divulgassem, por causa do triunfalismo que isso poderia causar. O ex-leproso quebrou o “segredo messiânico”, aquele que permite “passar por meio dos pingos da chuva” tóxica que corrói a permeabilidade à graça de Deus. Esta é a única que responde e é capaz de colmatar as necessidades mais profundas do ser humano: a nível físico, psicológico e espiritual.

Verdade verdadinha: onde há sistemas (sejam eles de que tipo for) que não permitem a satisfação ou cura no que toca a necessidades básicas das pessoas ─ a nível físico, psicológico e espiritual ─ há ideologias que fogem ao espírito da interdiplinariedade (a nível da Igreja diremos de sinodalidade), com medo de perder a autossuficiência e autorreferencialidade. E está patente o abuso de poder. E quem cai nele habitualmente não deixa que o poder curador da compaixão de Jesus entre nele, para deixar cair prerrogativas humanas que resistem à vontade divina de salvar.

Como nos aconselha o autor da Carta aos Hebreus: é preciso aproveitar a oportunidade única do “hoje” para permanecermos firmes na fé em Jesus e na sua compaixão, acreditando que só Ele tem o poder de nos curar integralmente.

Acompanhamento no discernimento da vocação: o trespasse do testemunho para o encontro com Aquele que anima, forma e envia

1 Jo 3,7-10; Jo 1,35-42

Hoje, João Batista assume o papel de animador vocacional. Depois de várias temporadas de pastoral vocacional na minha diocese, em que cumprimos o propósito de lançar sementes, entre a escuta e o discernimento, na sequência das visitas pastorais do bispo diocesano, esperaria que ficassem nas paróquias e arciprestados pessoas como este grande precursor que, simplesmente (e já não é pouco!) aponta Jesus que passa, incentivando a segui-l’O. Sucessos não são fáceis de constatar, se é que o objetivo da missão cristã é o sucesso aparente!!

Os formadores dos seminários sabem que os jovens que passam pela experiência da formação na comunidade não têm ali morada permanente. Passam os dias e ocupam-se com os métodos formativos num modo semelhante ao de João Batista: o de apontar o dedo para o Bom Pastor a Quem são convidados a seguir e a configurar as suas pessoas. À medida que os anos da formação passam, tem de acontecer este trespasse do testemunho para o verdadeiro encontro, que vai desde uma inicial resposta à pergunta de Jesus «Que procurais?», com a qual se crivam as motivações verdadeiras para a idoneidade vocacional, até ao morar com Ele e como Ele a caminho, por uma síntese vocacional afora e nunca terminada, por entre cidades e aldeias, num acesso gradual à experiência pastoral, cada vez mais animada pela amizade com Cristo e a partir da demora com Ele (no italiano “habitar” é dimorare = “demorar-se”).

Por vezes, analisa-se o convite de Jesus «Vinde ver» meramente como sendo o “apeadeiro” que é o Seminário, como se este fosse o único e o último destino do testemunho de quem diz «Encontrámos o Messias». Sim, é verdade que Jesus muda de tal maneira a vida de alguns que lhes muda o nome, certificando uma expropriação em favor da sua missão. Porém, a comunidade do Seminário ─ como se fosse só “um dia” (que terá as suas réplicas ao longo da formação permanente) ─ dá lugar a um outro trespasse, o fundamental, para que a lógica da vocação cristã funcione: sentir a tensão que existe entre o demorar-se com Jesus e o testemunho aos outros, que tem de ser cada vez qualificado, de modo que outras pessoas possam sentir-se motivados pelo conhecimento que lhes é dado acerca da convivência com Cristo. Sim, tanto mais faz sentido a experiência de uma demora com Cristo numa casa de formação, quanto, na medida do possível e organizável, pudermos fazer a gradual experiência de O anunciar aos que vivem fora.

No meio do testemunho, a palavra ocupa um lugar fundamental, ainda que não o único, uma vez que a coerência das atitudes a certifica ou contradiz. É comummente aceite pela comunidade científica que a palavra falada tem um poder criador. E porque é que o seu uso é de grande importância? Segundo descobertas recentes no campo da neurologia, o centro nervoso da fala no cérebro controla todos os outros nervos do corpo. O que dissermos e a forma como dissermos, irá ajudar ou prejudicar a forma como os outros lidam com o objeto da nossa comunicação. A língua é o menor membro do nosso corpo, mas pode dominar o corpo todo. É curioso que já a antropologia bíblica dizia isto, sem o acesso aos instrumentos de investigação que temos hoje!

João apresentou o «Cordeiro de Deus» a dois, ou seja, apontou par a mansidão de Deus presente em Jesus que é capaz de se compadecer e, inclusivamente, de «tirar os pecados do mundo» (algo inédito e escandaloso naquele tempo…). Como não podia aliciar aqueles dois a irem ter com ele imediatamente? E aqueles dois foram diretos à melhor possibilidade a respeito de Jesus, não só um encontro esporádico, mas “demorar-se” com Ele, naquele dia. E logo aquele encontro se multiplicou, com o testemunho de André a seu irmão Simão que veio a chamar-se Pedro.

A força criadora da palavra, no testemunho, pode ser colocada ao serviço dos propósitos de Deus, por aqueles que se habituaram a privar com Ele: prova disso é a eloquência com que fala João na primeira leitura acerca da semente divina que está naqueles que, não pecando, praticam a justiça do amor aos irmãos. Através do testemunho que damos na relação com os outros (dentro e fora da comunidade formativa), falamos-lhes da relação que temos (ou não) com Deus. Portanto, a história de uma vocação não precisa de muitas palavras, sendo que as que são ditas são essenciais, quer para descrever o encontro de cada um com Cristo, quer para atrair outros a um pessoal encontro com Ele, mediado pelo entusiasmo que é o Espírito de Deus que habita em nós.

   O Verbo de Deus nasceu segundo a carne uma vez por todas. Mas pela sua bondade e condescendência para com os homens, deseja nascer sempre segundo o espírito para aqueles que O procuram, e faz-Se menino que se vai formando neles à medida que crescem as suas virtudes. Ele manifestou-Se em proporção com a capacidade de cada um, capacidade que Ele conhece perfeitamente. E se não Se comunica com toda a sua dignidade e grandeza, não é porque não o deseje, mas porque conhece as limitações das faculdades recetivas de cada um. Assim, o Verbo de Deus revela-Se sempre a nós do modo que nos convém, e contudo ninguém pode conhecê-lo perfeitamente, por causa da grandeza do mistério.    Por isso, o Apóstolo de Deus, considerando a força do mistério, exclama sabiamente: Jesus Cristo ontem e hoje e para sempre, entendendo que se trata de um mistério sempre novo, que nunca envelhece para a compreensão da inteligência humana. (…) A Encarnação divina é um grande mistério e nunca deixará de ser mistério. Como pode o Verbo, que está em pessoa e essencialmente na carne, existir ao mesmo tempo em pessoa e essencialmente no Pai? Como pode o Verbo, totalmente Deus por natureza, fazer-Se totalmente homem por natureza, sem detrimento algum da natureza divina, segundo a qual é Deus, nem da nossa, segundo a qual Se fez homem? Só a fé pode apreender estes mistérios, a fé que é precisamente a substância e o fundamento das realidades que ultrapassam toda a perceção e raciocínio da mente humana.

São Máximo Confessor, abade, Dos “Capítulos”, distribuídos em cinco centúrias

“Deixar-se afetar por” e “esperar a docilidade de” ─ não há outra forma de sonhar o encontro sempre original do primeiro anúncio de Jesus Cristo

Mt 4, 18-22; Festa de Santo André,

Este mês de novembro, que está a findar, é coroado com a Festa de Santo André, que acaba por dar-lhe o nome de “Mês de Santo André”, aberto pela celebração da Solenidade de Todos os Santos e, em particular, no dia 4, continuado pela celebração da memória de São Carlos Borromeu, padroeiro dos seminaristas, e sequenciado com a vivência da Semana dos Seminários.

Com Santo André destacamos duas dimensões fundamentais da fé, nem sempre lembradas em tempos de indiferença ao mistério cristão, que são (cf. testemunho de D. Manuel Pelino):

1ª ─ O entusiasmo pelo encontro com Cristo (estar com Cristo), experiência que André fez com João Evangelista, ambos discípulos que João Batista apresentou a Jesus, que os convidou a ir com Ele e a ver… Não basta teorias, doutrinas, ritos…, que nem sempre têm ou proporcionam este encontro pessoal com Cristo, como presença amiga.

2ª ─ A notícia do encontro com Cristo, transmitida pelo testemunho pessoal a outros, como André fez com seu irmão Simão. Portanto, a fé é um encontro e a fé leva-nos a conduzir outros até Jesus.

A estas duas dimensões, apoiado pelo Evangelho de hoje, juntaria uma 3ª que é: a sinodalidade do chamamento, tendo em vista a sinodalidade da missão (recordemos o júbilo de Jesus pelo envio dois a dois e o sucesso da missão dos 72 discípulos, no Evangelho de ontem).

Já o Papa Francisco nos garante que

A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quando se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo renasce sem cessar a alegria. (…) Da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído. (…) O bem tende a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e beleza procura, por si mesma, expansão; e qualquer pessoa que vive uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se.

EG n.º 1, 3 e 9

O Cristianismo é o anúncio de que Deus Se fez homem, nascido de uma mulher, num determinado lugar e num determinado tempo. O Mistério que está na raiz de todas as coisas quis dar-se a conhecer ao homem. É um Facto que acontece na história, é a irrupção no tempo e no espaço de uma Presença humana excecional. Deus deu-Se a conhecer revelando-Se, tomando Ele a iniciativa de colocar-Se como fator da experiência humana, num instante decisivo para toda a vida do mundo.

LUIGI GIUSSANI – STEFANO ALBERTO – JAVIER PRADES, Gerar rasto na história do mundo, Paulus, Apelação 2019, 13.

A excecionalidade da presença de Cristo era impressionante, para que aqueles que estavam da sua tarefa de subsistência primária ─ pois eram pescadores ─, de modo que não hesitaram em relativizar essa tarefa em favor do encontro que iria transformar as suas vidas para sempre.

Ainda ontem verificámos que a missão de Jesus é solidária, enviando os 72 discípulos dois a dois e alegrando-Se pelo êxito da missão, à luz do Espírito Santo. Hoje constatamos que Jesus também chama dois a dois para o discipulado, como se entre seguimento e missão não houvesse algum hiato, mas continuidade de um estar com o Mestre e ser enviado, na sequência de diversas etapas do viver cristão.

Há uma simpatia profunda que permeia o encontro daqueles homens que viriam a ser Apóstolos com Jesus ─ e que ultrapassa os laços de sangue ─ construída com a modalidade escolhida por Deus para que se desse o encontro: o acontecimento, não os nossos pensamentos ou criações mentais, sim, um acontecimento feito de vários factos inesperados. O “acontecimento” é diferente de evento (que representa um “vir de”); acontecimento representa sempre “ir a”, de modo que nunca se encontra fechado, mas aberto e solícito (cf. obra citada acima, 25). E o primeiro acontecimento da história é a Criação, a qual se desdobra em múltiplos acontecimentos até ao definitivo ato da Redenção.

Hoje, a palavra acontecimento está envolva em confusão, pois a coisa mais difícil de aceitar é que um acontecimento “seja aquilo que nos faz acordar para nós mesmos, para a esperança, para a moralidade” (ibidem, 27). Definindo: acontecimento é “a transparência do real emergente na experiência, enquanto proveniente do Mistério, ou seja, de alguma coisa que nós não podemos possuir e dominar” (ibidem, 26). Então, quanto tocados por uma presença assim, o homem deixa de identificar a totalidade da vida com algo parcial e limitado, dando-se conta que sozinho não consegue manter um olhar verdadeiro sobre o real.

O acontecimento cristão tem a forma de um encontro, num tempo e num espaço precisos, com uma diferença irredutível, qualitativa, que nos atrai, porque corresponde ao coração, passando também pela comparação e do juízo da razão, provocando a liberdade na sua afetividade. Como facto histórico totalizante, o encontro com Cristo não deixa ninguém indiferente, mas crente.

Como é que a memória do acontecimento passado se mantém viva na sua versão do presente? Através do reconhecimento da profundidade histórica desse mesmo encontro realizado na atualidade.

No encontro começa a fé, porque este traz consigo, veicula, torna presente, algo excecional, de não previsto, de não previsível, que investe radicalmente a vida, a ponto de lhe mudar o princípio do conhecimento, o princípio afetivo e a capacidade construtiva, de outra forma inefável, de Deus. (…) A palavra memória descreve, portanto, a história entre o acontecimento original presença inevitável, indestrutível, inegável: toda a riqueza do início se encontra no presente e é no presente que o homem descobre a divindade da origem. A memória é a história entre a origem e o agora.

Op. cit., 47-48.

Segundo “reza” o martirológio cristão, no calendário de hoje:

André, natural de Betsaida, irmão de Simão Pedro e pescador como ele, foi, primeiramente, discípulo de João Batista e, depois, seguiu a Cristo, a quem apresentou o seu irmão Pedro. Juntamente com Filipe, introduziu à presença de Jesus uns gentios que O queriam ver e foi ele também que indicou o rapaz que tinha os peixes e o pão. Segundo a tradição, depois de Pentecostes, pregou o Evangelho na região da Acaia, na Grécia, e foi crucificado em Patras. A Igreja de Constantinopla venera-o como seu mais insigne Patrono.

Como atrair, hoje, os nossos contemporâneos para Jesus Cristo? Propõe-nos Paulo: (1º) ter o nome de Jesus nos lábios (falar d’Ele); (2º) acreditar com um coração justo. Resumindo: vivendo diante dos outros com coerência entre o que dizemos de Jesus e a forma como praticamos a sua justiça. Só assim, o testemunho dos cristãos de hoje poderá servir de veículo para o encontro original e irredutível com Jesus Cristo.

Curiosamente, na ordem dos sentidos, primeiro conhece-se, depois é que vem o amor. Na ordem da experiência espiritual, primeiro acontece o amor, e só depois é que se procura conhecer ainda mais essa origem e objeto de amor. Na Igreja, temos de nos afastar da tentação de procurar que o “motor” seja meramente o saber, o poder, o fazer e o aparecer… dos mais fortes, os mais ricos, os mais hábeis, o mais célebre, o mais influente… que fazem de nós funcionários, em vez de discípulos-missionários (cf. FRANÇOIS-XAVIER BUSTILLO, no seu recente livro A vocação do padre perante as crises ─ A fidelidade criativa (Ed. do Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima 2022, 36). Portanto, só o muito deixarmo-nos amar e responder com o amor é que poderá levar-nos a saber mais e melhor acerca do mistério de Deus que nos envolve.

Anunciar o Evangelho com “pés formosos” é tatear com delicadeza o chão da realidade humana de hoje, persistindo naquilo que é essencial e fugindo da lógica mundana que cansa, reduz e não atrai os corações. A fraternidade humana universal poderá ser, na ótima de Francisco, um instrumento para desbravar novamente o caminho que leva até Cristo, que ajude a tirar os destroços de apegos que teimem em apagar a memória daquele encontro original que está no coração da história.

Numa das suas homilias sobre o Evangelho segundo João, São João Crisóstomo diz que

André, depois de permanecer com Jesus e de aprender muitas coisas que Jesus tinha ensinado, não escondeu o tesouro só para si, mas correu pressuroso à busca de seu irmão para o tornar participante da sua descoberta. Repara no que diz a seu irmão: Encontrámos o Messias (que significa Cristo). Vês de que modo manifesta tudo o que tinha aprendido em tão pouco tempo? Com efeito, por um lado manifesta o poder do Mestre que os tinha convencido desta verdade, e por outro lado manifesta o interesse e a diligência dos discípulos que desde o princípio se preocupavam em comunicar estas coisas. São as palavras de uma alma que deseja ardentemente a sua vinda, que espera Aquele que havia de vir do Céu, que exulta de alegria quando Ele Se manifestou e se apressa a comunicar aos outros tão grande notícia. A comunicação mútua das coisas espirituais é sinal de amor fraterno, de parentesco amigo e de afecto sincero.

Leitura do Ofício

Só a seguir a este afetar-se pelo seu irmão de André é que se segue a docilidade e a prontidão do seu irmão Pedro, com quem caminha na explicação de tudo o que vivenciou até que a este também arda o coração. “Deixar-se afetar por” e “esperar a docilidade de” ─ não há outra forma de sonhar o encontro sempre original no primeiro anúncio de Jesus Cristo.

Concluindo:
Em Mc 1, 16, André sabe ser irmão no encontro com o Senhor;
Em Jo 1, 40, André sabe ser mediador do encontro do irmão com o Senhor;
Em Jo 6, 8, André sabe ser um verdadeiro ecónomo da justiça de Deus informando sobre o menino que possui os pães e os peixes para a partilha;
Em Jo 12, 22, André é, também, mediador “fora da caixa” entre Jesus e os gregos que pedem para falar com Ele.

Não deixa de ser eloquente e irredutível a comunicação entre o nosso Santo Padre e o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, por ocasião desta Festa de Santo André, recordando o santo padroeiro da Igreja de Constantinopla e irmão de Pedro, prova viva da memória entre aquele encontro e seguimento originários da nossa mesma fé e seguimento de Jesus Cristo.

Na mensagem que lhe enviou hoje, o Papa Francisco, reconhecendo que as divisões são o resultado de ações e atitudes lamentáveis que impedem a ação do Espírito Santo, refere:

O pleno restabelecimento da comunhão entre todos os que acreditam em Jesus Cristo é um compromisso irrevogável para cada cristão, já que a “unidade de todos” (cf. Liturgia de São João Crisóstomo) não é apenas a vontade de Deus, mas também uma prioridade urgente no mundo atual. De fato, o mundo de hoje está precisando muito de reconciliação, fraternidade e unidade. A Igreja, portanto, deveria brilhar como “sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de toda a raça humana” (Lumen gentium, n. 1). (…) O diálogo e o encontro são o único caminho para superar os conflitos e todas as formas de violência.

A ânsia de quem verdadeiramente imita o Mestre é que os seus condiscípulos superem a sua missão, correspondendo aos desígnios do Espírito de Deus

Lc 10, 21-24; Is 11, 1-10

O júbilo espiritual de Jesus na sequência do envio missionário e da chegada dos 72 discípulos não deixa dúvidas de que ali se cumpriu o que muitos profetas gostariam de ver cumprido, uma missão que todo o judeu gostaria de ter visto e não viu. Este episódio ─ que é querido para Lucas e Mateus (cf. 10, 25-30) ─ faz-me lembrar a alegria de alguns de entre os padres idosos das nossas dioceses que, ao ver chegar novos irmãos presbíteros à vida pastoral ─ ou, então, ao comungarem a pastoral com a presença de uma variedade de ministros que vivem alegres a sua entrega no serviço ─ vislumbram, ainda sem ver, uma nova etapa pastoral para a qual eles deram o seu melhor, apesar de já não terem as forças que gostariam; assim, também, os padres mais novos se alegrem em perceber que é pela memória dos mais idosos que a sua força pode levar mais adiante os seus sonhos. A ânsia de todo o verdadeiro israelita era ver chegar a luz do Salvador. A ânsia de todo o verdadeiro servidor do Evangelho é que pelo seu “minus-ter” (ministério=serviço humilde) se cumpra o “magis-ter” de Deus (através do magistério da Igreja).

Esta exclamação de Jesus contrasta com os Seus sentimentos pela indiferença das cidades de Corazaín, Betsaida e Cafarnaum em não terem feito penitência diante dos milagres que Ele realizou (cf. Mt 11, 20-24; Lc 10, 13-15). A diferença com o episódio jubiloso é que é o mesmo Espírito Santo que está no envio feito por Jesus, na missão dos discípulos e no seu regresso vitorioso. A alegria é a marca de uma missão sinodal. Ao contrário, os habitantes daquelas cidades, não interagiram com a ação de Jesus, por mais extraordinária que fosse.

A análise destes dois episódios ─ em que Jesus manifesta quer imprecações, quer júbilo ─ pode perfeitamente ajudar-nos a avaliar a nossa pastoral entre a empatia à luz do Espírito Santo e a sua correspondente eficácia sinodal. Por vezes, aos mais sábios e inteligentes é dado experimentar um certo mal-estar existencial diante do insucesso de certas atividades pastorais para as quais gastaram muitas energias, com pouco efeito. Por vezes, é dado aos mais simples, com uma presença humilde, encetar caminhos que levam a uma verdadeira experiência de serenidade espiritual para todos os que estão envolvidos. A grande revelação da alegria manifesta-se na forma como todos nos relacionamos na missão e, depois, pela forma como todos partilhamos os frutos da missão: todos juntos e não uns por um lado e outros por outro, apesar de parte do mesmo projeto do Reino.1

O elenco de dons descrito pelo profeta Isaías ajuda-nos a pensar que sabedoria e inteligência não bastam para a missão. Precisamos de mais: a plenitude do Espírito Santo que estava em Jesus e que Ele partilhou com os seus ao enviá-los leva aqueles dons ainda mais longe. São precisos o conselho, a fortaleza, o espírito de conhecimento e o temor de Deus, para que não nos seja ocultada a verdade do seu Reino glorioso. E os dons levam aos frutos, passando pela tal penitência que Jesus esperava dos habitantes das cidades citadas. O convívio entre todos os animais e os seres humanos, sem deixar que as diferenças de raça e de cultura causem dano, é a causa de ânsia má para toda a humanidade (diferente daquela ânsia boa acima descrita, de quem espera que se cumpra a Palavra do Senhor). Quando a paz e a justiça ─ cantadas pelo salmista ─ que Jesus nos traz fizerem parte da bandeira de todos, então não haverá mais guerra entre os povos.

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1 A este respeito, FRANÇOIS-XAVIER BUSTILLO, no seu recente livro A vocação do padre perante as crises ─ A fidelidade criativa (Ed. do Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima 2022), dedica algumas páginas consideráveis sobre o não a dizer às vidas neuróticas, sugerindo que não deixemos que a nossa Igreja ceda à tentação de que o “motor” da pastoral seja o saber, o poder, o fazer, o aparecer… e o mais forte, o mais rico, o mais hábil, o mais célebre, o mais influente… que fazem de nós funcionários, em vez de discípulos-missionários de Jesus Cristo (pp. 36 e seguintes).

Um Reino dinâmico com uma só raiz e muitas ramificações

Ef 5, 21-33; Lc 13, 18-21

Admiro como nas comunicações digitais de hoje, a partir de um pequenino feixe de fibra ótima feito de um simples núcleo de vidro, é capaz de partilhar em milésimos de segundo tantas informações audiovisuais para um inúmero conjunto de plataformas informáticas; o mesmo se diga dos satélites para a comunicação intercontinental e para a orientação através dos mapas das estradas. Esta imagem ajuda-me a compreender o Evangelho, no qual hoje, usando comparações com as imagens do seu tempo, Jesus ajuda as pessoas a compreender o Reino de Deus.

As imagens da semente e do fermento ainda são muito atuais, hoje em dia, embora necessitemos, junto das gerações mais jovens, de usar outras imagens para os aproximar do mesmo princípio e horizonte da mensagem do Reino de Deus. No entanto, as comparações utilizadas por Jesus escondem dois elementos do Reino úteis para que nos sintamos envolvidos por ele e o habitemos com liberdade e entusiasmo: a semente designa que o Reino foi lançado por Deus nos nossos corações e recebe inputs (no dic. “introdução de dados”; na psic. “registo de estímulo”) em tudo o que foi criado por Deus; o fermento designa a força para que esses inputs se possam “germinar” no nosso interior e vir a dar frutos de vida eterna.

Mas estas comparações todas não podem ser em vão, quer dizer, não servem só para nos deixarmos conduzir como que numa visita de estudo na contemplação de uma paisagem. O objetivo é a provocação de outputs (psic. “produção de comportamento”) que nos impliquem a colocar “as mãos na massa” de forma a sermos a interventivos ou cooperantes na transformação da vida terrena. O Reino de Deus, entre a semente e os frutos, é uma construção que nos implica a todos, não só como beneficiários que se abrigarão na árvore e se alimentarão dos frutos, mas também aqueles que podem ajudar a cuidar da árvore, através de comportamentos de uma ecologia integral.

Na carta encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco apontou-nos São Francisco como “o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade” (LS 10). E diante da necessidade de defender o trabalho, escreveu:

Em qualquer abordagem de ecologia integral que não exclua o ser humano, é indispensável incluir o valor do trabalho, tão sabiamente desenvolvido por São João Paulo II na sua encíclica Laborem excercens. Recordemos que, segundo a narração bíblica da criação, Deus colocou o ser humano no jardim recém-criado (cf. Gn2, 15), não só para cuidar do existente (guardar), mas também para trabalhar nele a fim de que produzisse frutos (cultivar). Assim, os operários e os artesãos «asseguram uma criação perpétua» (Sir 38, 34). Na realidade, a intervenção humana que favorece o desenvolvimento prudente da criação é a forma mais adequada de cuidar dela, porque implica colocar-se como instrumento de Deus para ajudar a fazer desabrochar as potencialidades que Ele mesmo inseriu nas coisas: «O Senhor produziu da terra os medicamentos; e o homem sensato não os desprezará» (Sir 38, 4).

LS 124

Estas imagens do Reino também nos podem ajudar a compreender melhor o mistério da vocação a que fomos chamados, ao sermos plantados nesta experiência terrena. A relação entre o homem e a mulher, com palavras nem sempre fáceis de entender ou aceitar, por parte de algumas pessoas, dão-nos os verbos com que podemos, sem discriminar ninguém, colaborar com o Criador no cuidado da criação da qual fazem parte os nossos corpos: amar, respeitar, submeter-se ao bem do outro. Esta é a melhor definição de castidade que conheço e que pode vir a dar belos frutos de vida eterna. O modelo, porém, não é o da relação entre o homem e a mulher, mas o da relação entre Cristo e a sua Igreja. A possibilidade de relação entre o homem e a mulher é comparável a uma “semente”; a relação entre Cristo e a Igreja tema força comparável à do “fermento”. Independentemente das vicissitudes históricas no meio das quais vivemos, a germinação do Reino nas nossas vidas não tem limites, pois a caridade de Cristo não desiste de nos amar, nem de nos aceitar na colaboração na construção do seu Reino no dia-a-dia, a partir do caminho pessoal para ser feliz ajudando os outros a ser felizes. Esta é a melhor definição de vocação que conheço.

Nem trocar a humanidade pela animalidade, nem dividir os humanos entre sujeitos e objetos

Ef 4, 32 – 5, 8; Lc 13, 10-17

A Palavra de hoje faz-me regressar ao Twitter em que D. Manuel Linda publicou a seguinte afirmação:

Todos os contactos e relacionamento criam especiais laços de amizade. Mas os laços de sangue entre pais e filhos possuem uma tal força que nada os desfaz. Nunca os substituamos pelo apego a um qualquer animal de estimação, típico das sociedades decadentes.

D. MANUEL LINDA, Twitter

No site da sua diocese publicou uma reflexão sobre “Laços“, onde nos faz contemplar uma disparidade “de culto” entre relacionamentos familiares e relacionamentos com animais, “para desgraça de quem troca a humanidade pela animalidade”. As afirmações provocaram reações que se podem ler no Expresso.

Do tempo de Jesus para o nosso tempo, o contexto pode ter mudado muito, mas os problemas humanos continuam os mesmos. Mudou a forma de reação dos adversários de Jesus: outrora envergonhados pelas suas afirmações/mais tarde morto; hoje-em-dia, seria ridicularizado/outra forma de “morte”.

No seu recente artigo sobre Antropocentrismo, publicado no Ponto.SJ e republicado pelo Observador, o teólogo João Duque reflete:

Assumindo configurações próximas aos denominados estudos decoloniais, feministas e antirracistas, assim como à base teórica de muitos movimentos ecológicos, estas formas de pós-humanismo pretendem afirmar a inserção dos humanos na rede de relações que inclui todos os agentes planetários, com especial relevo para o conjunto dos seres vivos. Para isso, na maior parte dos casos, assume-se a realidade contínua da vida como base de todos os existentes, nas suas diversas configurações. Nesse sentido, as diferenças que possa estabelecer-se entre os seres vivos serão secundárias relativamente à sua pertença comum ao processo vital que tudo atravessa, como fluxo autorregulado e autopoiético. Trata-se, portanto, de um biocentrismo (ou zoocentrismo) fundamental, ou de um vitalismo monista de base, que relativiza todas as diferenças entre humanos e não humanos.

DOUTOR JOÃO DUQUE

O humanismo, se alicerçado na antropologia bíblica, poderá navegar até a um porto seguro, onde se vivem os valores da fraternidade, da justiça e da paz. Se, por outro lado, foge a um sério confronto com a antropologia bíblica, transforma-se num antropocentrismo que vai mudando de “pele” com camadas históricas que nos mostram vários desvios daquilo que se poderia sonhar, à luz da Sagrada Escritura, ser a experiência da dignidade humana. O próprio João Duque resume que “este paradigma, que considera os humanos como proprietários do resto do mundo, estende-se à relação entre os humanos, acabando por definir uns como sujeitos e outros como objetos”.

Jesus denuncia este desvio na pessoa do chefe da sinagoga que não aceitava que Jesus pudesse livremente curar aquela mulher doente havia 18 anos, que curvada não podia endireitar-se. Era obrigada, em dia de sábado, em que se deveria celebrar a dignidade humana, sob o jugo daquela doença. Já os bois e jumentos podiam, em dia de sábado, ser levados pelo seus donos a saciar-se.

A alegria da multidão é fruto deste sinal há muito esperado, da libertação de uma lei que subjugava em vez de libertar do que desdignifica a vida humana. Obviamente, ser humano não pode implicar o mau trato de animais domésticos e da natureza, pois todos fazem parte da criação. Também isso desdignifica a vida. Porém, acontece o contrário e frequentemente: políticas ideológico-económicas ou postulados religiosos pouco fundamentados que favoreçam menos o ser humano que os animais domésticos.

Quando o Apóstolo Paulo exorta aos Efésios “Irmãos: Sede bondosos e compassivos uns para com os outros e perdoai-vos mutuamente, como Deus também vos perdoou em Cristo” está a prefigurar o que já refletíamos acima: não faz sentido uma humanidade em que uns se sintam sujeitos e outros se sintam objetos. Frequentemente, o apego afetivo a animais domésticos significou um desapego de seres humanos, por causa de “imoralidades, impurezas, avareza, palavras indecentes, estultas ou maliciosas” provocadas por eles.

O caminho? Ser “imitadores de Deus, como filhos muitos amados”, como se canta no Salmo de hoje, o primeiro do Livro dos Salmos. O modelo de imitação está acima de todo e qualquer ser humano, porque a semelhança que há a procurar restaurar é com a imagem verdadeira de Deus. A glória de Deus é o homem vivo! Por isso, quer seja sábado, quer seja domingo, a prioridade é defender o que dá vida, ali no equilíbrio por entre os extremos que são as dependências afetivas e as autonomias exacerbadas.

Hoje, rezo para que educadores e pastores se unam num modelo educacional e formativo integral, não se contentando com o que certas ideologias postulam ao sabor do tempo ou segundo um modelo económico vigente.

Pastores segundo o coração de Cristo, que integrem a diferença e transbordem de claridade

Mt 5, 13-19; na Solenidade de São Martinho de Dume (Arquidiocese de Braga)

Em Braga, hoje, celebra-se a Solenidade de S. Martinho de Dume, bispo, Padroeiro principal da Arquidiocese.

As “letras pequeninas” dos contratos, que os advogados dizem que vão ficar maiores, para que possam ser bem lidas sem possibilidade de enganos, costumam ser assinadas sem que ninguém as leia, ficando-se quase sempre ou nunca por um pequeno resumo proferido por um intermediário. Com a Palavra de Deus e o contrato da Aliança que Ele realizou com a humanidade, por vezes, também pode acontecer que os pormenores fiquem sem serem lidos, estando contidos neles um bem maior que poderia despoletar um processo de mudança em favor de todos.

No Evangelho, Jesus diz-nos que no Reino de Deus é grande aquele que pratica e ensina os mandamentos. E sublinha que “antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra”. Transgredir, portanto, os mandamentos, por mais pequenos que sejam, leva a que o ensino sobre o reino de Deus fique coxo. Fica claro, no ensinamento de Jesus ─ o nosso máximo modelo de coerência ─ que a prática da Lei enobrece e dá eficácia o ensino da Lei. Já os nossos anciãos o dizem: “vale mais um bom exemplo do que mil palavras”.

Mas há uma coisa que me intriga entre estas afirmações de Jesus e o contexto em que elas são ditas, que me levam a revisitar o antes e o depois deste texto: acompanhamo-l’O no sermão da montanha em que Ele profere estas palavras após o discurso das bem-aventuranças. Para quem é que ele fala, agora, de forma radical quanto ao cumprimento da Lei: aos pobres, aos que choram, aos puros, aos perseguidos…? Sofrerão estes por não terem cumprido de forma exímia as leis ou porque alguém não cumpriu a Lei do Amor de Deus na prática como deveria de ser? No versículo 17, os biblistas não hesitam em afirmar que começa uma discussão severa contra os fariseus, que Mateus nos deixa relatado com num tom rabínico, uma vez que eles impunham a Lei aos outros e esqueciam-se de valorizar os pormenores da mesma Lei. Hoje diríamos: fixam-se na Lei de forma rígida e esquecem-se de cumprir e sugerir o espírito da Lei que é a Lei do Espírito de Deus e não dos pensamentos ou pretensões vãs dos homens.

Um exemplo de cumprimento da Lei de Deus ao pormenor: ser misericordioso. Outro exemplo: ser sal e luz. Provas destes exemplos de um cumprimento exímio da Lei até à pequenina letra são a Profecia de Ezequiel e o Testemunho de vida do Apóstolo. Cumprir até à pequenina letra implica não deixar de fora o mais pequenina possibilidade de a Lei de Deus favorecer alguém no seu crescimento, na proteção da sua dignidade, na sua inclusão comunitária, na defesa dos seus direitos mais fundamentais, na possibilidade de salvação eterna, etc. Até dar um copo de água, um litro de leite, um pão ou um medicamento ─ pensando em obras materiais ─ ou dar um minuto de escuta, fazer uma visita ou compreender a ferida de alguém, etc. ─ pensando em obras espirituais ─, pode exemplificar bem os pormenores da Lei a que Jesus dava e continua a dar importância.

Dentro do espírito do Evangelho, ser sal será ser integrador da diferença e ser luz é deixar transbordar a claridade do amor de Deus diante dela.

“O Senhor é meu Pastor, nada me faltará!” ─ Quem é que pode fazer esta exclamação? Todos os que quiserem deixar crescer dentro de si o ardor missionário, como aconteceu com São Martinho de Dume. Teve consciência de que o Bom Pastor nunca abandona as ovelhas enfraquecidas e, por isso, foi-lhe fiel ao não fugir à responsabilidade do cuidado para com os distantes. Este pastor da Igreja veio de longe (originário da Panónia e depois de ter crescido na Palestina) para as periferias não só geográficas, mas sobretudo existenciais, tendo em conta cidadania da fé. Destacou-se na luta em favor da erradicação de práticas pagãs, nas comunidades católicas. Assim foi o combate de São Paulo e todos os batizados, acompanhados pelos pastores que o Senhor coloca diante e a caminhar com eles, somos convidados a ter como garantia da mesma graça tão nobres testemunhas.

Ao convidar a Igreja para uma nova etapa evangelizadora marcada por aquela alegria de Cristo que enche o coração de quem se encontra com Ele, e que precisa de ser partilhada, o Papa Francisco revive a mesma profecia de Ezequiel. Na exortação apostólica “A Alegria do Evangelho” indica-nos caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos, precisamente para que aquela profecia que antecipa a encarnação do Evangelho que é Cristo, não deixe de se realizar também em nós e em todos os seres humanos nossos contemporâneos. No contexto do Dia Mundial das Missões que comemoramos neste fim-de-semana, o Santo Padre aponta a novos horizontes «geográficos, sociais, existenciais» para as comunidades católicas, afirmando:

Não existe qualquer realidade humana que seja alheia à atenção dos discípulos de Cristo, na sua missão. A Igreja de Cristo sempre esteve, está e estará ‘em saída’ rumo aos novos horizontes geográficos, sociais, existenciais, rumo aos lugares e situações humanos ‘de confim’, para dar testemunho de Cristo e do seu amor a todos os homens e mulheres de cada povo, cultura, estado social. (…) Exorto todos a retomarem a coragem, a ousadia, aquela parrésia dos primeiros cristãos, para testemunhar Cristo, com palavras e obras, em todos os ambientes da vida. (…) A missão realiza-se em conjunto, não individualmente: em comunhão com a comunidade eclesial e não por iniciativa própria. (…) O cuidado pastoral dos migrantes é uma atividade missionária que não deve ser descurada, pois poderá ajudar também os fiéis locais a redescobrir a alegria da fé cristã que receberam.

Ler Mensagem do Santo Padre na íntegra

A ORAÇÃO (que dilata o coração para Deus e para os irmãos) É O PRIMEIRO GESTO DE EVANGELIZAÇÃO!

Ex 17, 8-13; 2 Tim 3, 14 – 4, 2; Lc 18, 1-8 | XXIX Domingo do Tempo Comum C

Na semana passada, contemplámos a qualidade da gratidão na oração daquele samaritano que Jesus curou da lepra juntamente com os outros nove judeus. Oração é sempre uma das formas de regressarmos a Deus para Lhe agradecermos pelo facto de ser Pai e de velar por cada dum dos seus filhos em todas as circunstâncias.

Hoje contemplamos a oração na sua dimensão de súplica, através da parábola com que Jesus nos ensina “sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar”.

Desta vez, a referência é uma mulher viúva que, vivendo solitariamente indefesa, vai pedir ajuda a um juiz que lhe seja feita justiça diante dos seus adversários. Ela representa tantas e tantos que, hoje em dia, são marginalizados e injustiçados pela indiferença de muitos. Sem o saber, porque vai motivada pela sua defesa, aquela mulher vai ajudar o juiz a sair da indiferença que mata a fraternidade. É assim que Deus trabalha, utilizando os simples e indefesos para ajudar a crescer os que parecem “fortes”.

Por seu lado, o juiz iníquo “não temia a Deus nem respeitava os homens”, ou seja, era um incrédulo no tocante a Deus e indiferente aos problemas dos outros. Não era somente desprovido de inteligência espiritual, mas também de uma das mais altas formas de inteligência hoje conhecidas: a inteligência social. Mesmo através de uma ajuda de “descarte”, ele é colocado diante de Deus que está presente naquela mulher, sua eleita para o provocar ou “evangelizar”.

O encontro entre estes dois personagens acontece aqui como uma desreflexão*, quer dizer, uma provocação de contraste em relação à personagem que é Deus, representado por Jesus para descrever a relação d’Ele com os seus eleitos que são os mais pobres e vulneráveis da sociedade, apelando à fé na sua ação rápida e eficaz em favor deles.

Os adversários representam todos aqueles que, no mundo, vivem indiferentes quanto à situação dos mais vulneráveis, causando-lhes, ainda por cima e constantemente, a marginalização a partir da sua condição de vida. “Adversidade”, aqui, aparece como contrária à “fraternidade”. Porém, “adversários” podem ser também todos os aspetos sombrios do interior de cada um de nós, diante dos quais podemos ter aquela confiança de quem dizia: “não vou dizer só a Deus que tenho grandes problemas, mas vou dizer aos meus problemas que tenho um grande Deus”.

O parêntesis no título deste post inspira-se numa afirmação de Santa Teresa de Calcutá, que nos convenceu com o seu testemunho pessoal de que quem quiser ser capaz de amar tem de ser capaz de rezar. Ela não se refere a longas orações, mas a diálogos frequentes com Deus sem desistência, mas com humildade e coragem, como as crianças fazem em relação aos seus pais.

A liturgia de hoje é útil, também, para compararmos ─ a propósito da fé ─ os pedidos que fazemos a homens que nos podem resolver os problemas à oração crente que fazemos a Deus. Se as solicitações a homens nos livram dos outros, as suplicas a Deus podem obter-nos mais: não o livrarmo-nos uns dos outros, mas o tornarmo-nos irmãos!

No próximo dia 23 de outubro, seremos convidados a viver o Dia Mundial das Missões. Este ano, o Santo Padre anima-nos a partir do tema Sereis minhas testemunhas (Act 1, 8), colocando o nosso olhar diante do último colóquio que Jesus Ressuscitado teve com os seus discípulos antes de subir aos Céus:

«Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre
vós, e sereis Minhas testemunhas em Jerusalém, por toda
a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.»

Actos dos Apóstolos 1, 8

Com este tema, o Papa Francisco quer demonstrar que a Igreja não pode senão ser missionária. Ancorando este Dia das Missões naquela perícope dos Actos dos Apóstolos, ele quer lembrar-nos as três ideias chaves nela contidas que resumem os três alicerces da vida e da missão dos discípulos: (1) ser testemunha de Jesus, (2) até aos confins do mundo, (3) com a força do Espírito Santo. Portanto, todos os cristãos são chamados a testemunhar Cristo, através de uma missão evangelizadora universal, deixando-se sempre fortalecer e guiar pelo Espírito Santo.

As leituras de hoje, mostram-nos referências, como a viúva que ensina ao juiz iníquo a força de quem é impelido e escolhido por Deus; como Moisés a rezar, apoiado pelos seus companheiros e pelas aras que prefiguram o altar, enquanto Josué combatia em favor do povo; como Paulo apoiado na Palavra de Deus com a qual exorta Timóteo a que a proclame a propósito e a despropósito.

Sendo a petição de viúva apresentada por Jesus como modelo de oração crente ao supremo Juiz ─ que é Deus de bondade e Pai de todos ─ então, a oração cristã não pode ficar submersa no individualismo intimista, nem mesmo em assembleias de iguais: tem de sair à rua, quer dizer, tem de se tornar petição pública (como já acontece pelo que se vê hoje nas redes sociais), a favor das inflações que mais gravemente ferem a dignidade humana e a fraternidade universal. A Liturgia da Igreja é intitulado teologicamente de “culto público”, mas, por vezes, em relação a certos problemas que afligem a humanidade, não tem consequências práticas, porque se vive em assembleia e a sua aplicação fica por conta de cada pessoa individualmente. Se a Liturgia, que é a mais elevada oração da Igreja, é vivida em assembleia (em convocação), a missão também tem de ser um envio em “comunidade pública”. Nesta aventura, a Liturgia pode e deve “pedir ajuda” à piedade popular que, sem o sabermos, reúne mais pessoas diferentes em espaço público do que a Liturgia, por vezes, consegue unanimidade nas pessoas que se reúnem ao domingo dentro dos templos. É o caso das manifestações de peregrinação ao lado da imagem de Nossa Senhora de Fátima.

Testemunho vivo do que se refletiu acima ─ sobre a promoção da oração pública que também é evangelização ─ são: a Campanha da Mãe Peregrina e o Terço dos Homens, que desembocou numa manifestação pública na Praça do Comércio/Lisboa, no passado sábado 8 de outubro (cartaz ao lado). Outra iniciativa pública é a da Caminhada pela Vida promovida pela ADAV – Viseu.

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Alimentação. É uma efeméride oportuna para nos lembrarmos das pessoas que não têm o essencial para viver, entre a alimentação, saúde e ensino.

A comunidade crente é o lugar específico onde se completa o sentido de fraternidade, de experiência religiosa, essa fraternidade universal pode começar de uma fraternidade co-natural, irmãos e irmãs de sangue mas abre-se a outras experiências de fraternidade e cumplicidade no relacionamento e na vida que são aquilo que constitui o ser religioso.

PRESIDENTE DA CEP, no Congresso Missionário 2022

Estas manifestações públicas de fé e uma perspetiva missionária de cariz ecuménico são formas mais proféticas e prometedoras de que aquele encontro entre as “viúvas” e pobres de hoje possa continuar a acontecer com os juízes deste mundo. Quanto acontecem estas manifestações, significa que a Liturgia da Igreja cumpriu, da parte que nos toca, o seu papel (Jesus é sempre fiel e faz tudo o que Lhe compete para nos ajudar a cumprir a vontade de Deus).

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* Desreflexão era uma técnica usada por Viktor Franks na Logoterapia, na qual apresentava um exagero contrastante com o problema que uma pessoa lhe apresentasse, a pontos de ela mesma reparar a desproporcionalidade entre o seu problema e os problemas dos outros; no caso desta reflexão, aplico o termo entre a postura do juíz iníquo e o supremo e amoroso Juiz que é Deus.

Avisos à navegação para uma boa vivência da fé = mente esclarecida + coração compadecido + vivência comunitária

Ef 1, 1-10; Lc 11, 47-54

Um grupo de estudantes de Engenharia e seu professor receberam uma passagem de avião gratuita para ir de férias. Quando estavam dentro do avião, o piloto anunciou que estavam na aeronave que os alunos tinham construído. Todos se assustaram e, imediatamente, correram para fora do avião, exceto o professor deles que ficou lá com muita calma. Quando a hospedeira de voo perguntou por que é que ele não tinha saído com os seus alunos, ele respondeu rapidamente: “conheço as habilidades dos meus alunos muito bem, esta bodeguice de avião nem se sequer vai conseguir ligar”.

Moral da história: dá a impressão de aquele professor quis fazer passar os seus alunos por uma experiência de choque, para que eles pudessem a estar mais atentos aos ensinamentos importantes que tocam com a vida das outras pessoas. Por outro lado, não tinha conseguido ensinar-lhes tudo para que o avião funcionasse e nele se pudesse navegar em segurança. A verdade, é que nem eles mesmo se sentiram bem ao saber que o que tinham construído viesse a ter sucesso. Resulta uma experiência social de fuga.

Jesus acusa os doutores da lei de terem tirado “a chave da ciência”, não entrando e não deixando entrar. Ou não sabiam ou não queriam que alguém como os profetas e os apóstolos os ajudassem a levantar voo. E ainda por cima, limitavam as pessoas à não possibilidade de se abrirem ao projeto de Deus continuado por Jesus. Estavam diante da Nova Aliança e, mesmo assim, agiam conforme os seus antepassados corrompendo a compreensão da antiga Aliança.

No seu hino, o Apóstolo Paulo garante-nos que “do alto dos Céus [Deus] nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo”. E que a todos escolheu, “antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença”. Portanto, a adoção filiar divina é em Jesus Cristo, o Filho Unigénito, e não em qualquer outro ser humano à face da terra. É n’Ele e pelo seu sangue que “temos a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência (…) instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos Céus e na terra”. Por isso, nenhum pastor ou mediador pastoral se deve fazer “caro” quanto à partilha dos bens espirituais ou ao testemunho da fé, sem protelar o desenvolvimento pessoal ou levar a procrastinar no tocante às experiências da fé que salva.

Talvez andem à volta deste tema os “avisos à navegação” que o teólogo italiano Armando Matteo tem vindo a fazer nas suas recentes obras, onde fala abertamente de vários fatores de crise na vida cristã: a ignorância (Ensinar os ignorantes), a incredulidade (A primeira geração incrédula) e a imaturidade (Converter Peter Pan).

Qual será o Problema? E de quem será o problema? E qual será a solução? Parece-me que no desenvolvimento humano, entendido à luz da antropologia cristã que tem como modelo Jesus Cristo, tem de passar por três tipos de ordem: o reto pensar a que se pode chamar de ortodoxia, o reto sentir a que se pode chamar de ortopatia e o reto fazer que tem por nome ortopráxis. Jesus, em Si, tinha o Espírito Santo que o levava a demonstrar ter pensamentos, sentimentos e ações que eram conformes à verdade, à vontade e à ação divinas.

Na maioria das nossas dioceses, a formação cristã está a ser um “calcanhar de Aquiles”. Não faltam iniciativas e dinamismos e, até, tentativas de renovação não só das verdades a ensinar, mas sobretudo na forma como envolver todos os intervenientes. Algures, no processo de renovação, fica sempre a sensação de que existe a dificuldade em fazer das comunidades ambientes integradores onde seja possível desenvolver-se uma formação que seja integral, embora não totalitária. É por isso e para isso que se definem as Igrejas particulares como sendo os ambientes que têm tudo o que precisam para ser Igreja. Não será, porventura, que tenhamos esquecido algumas daquelas dimensões insubstituíveis para que cada pessoa possa fazer uma experiência integral da fé? Teremos nós partido do pressuposto que bastará mostrar na aparência que tudo vai moralmente bem para nos assumirmos no caminho cristão? Não faltará ainda mais valorizar o caminho comunitário como único viável para uma experiência feliz da fé que salva? Não será que estamos a pagar um preço, não só pelo ambiente criado pelos crimes de abuso sexual, mas também pelo ancestral fechamento à compreensão mais vulgarizada da Palavra de Deus e do que a mesma transmite?

Os profetas e os apóstolos, enviados por Deus e por Jesus Cristo, no Espírito Santo, a anunciar a salvação, são hoje toda a comunidade dos cristãos, não de forma desconjunturada, mas orgânica, onde todos ─ pastores (nos vários graus) e leigos (a partir dos variadíssimos carismas e serviços) ─ possam perceber-se membros de um Corpo ligado à sua Cabeça que é Cristo. De outra forma, seria o Frankenstein, de quem se fizermos a pergunta “de onde vens?” ouviremos a resposta “de muitas partes”. É, também, abuso de poder e de consciência quando temos muitas “partes” da verdade em nós e não ajudamos a conjunturar através de obras de participação comunitária. O poder exclusivo desta ou daquela pessoa facilmente cai num poder abusivo. Por isso, é que Jesus exerceu sempre um poder inclusivo.