A transparência é um escudo diante do mal e uma cura que nos faz ver o supremo bem

Dan 7, 9-10. 13-14; Ap 12, 7-12a; Jo 1, 47-51 ─ Festa dos Arcanjos S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael

Hoje, se alguém tiver alguma coisa a dizer do próprio Anjo da Guarda, para agradecer ou reclamar, é oportuno aproveitar a celebração dos Arcanjos, uma vez que o seu nome significa “chefe supremo dos anjos”.

A Igreja convoca os Arcanjos em festa, reconhecendo-lhes aquelas funções principais pelas quais refletem uma caraterística de Deus: Miguel reflete a Perfeição suprema de Deus (“Quem como Deus?”); Gabriel reflete a “Força de Deus”; e Rafael realiza a “Cura de Deus”. Estas manifestações da glória de Deus através destes Arcanjos é-nos retratada no livro de Daniel, na carta de Judas e no Apocalipse no que se refere a Miguel; no Evangelho, em torno da anunciação e nascimento de João Batista e de Jesus, quanto a Gabriel; no livro de Tobias fala-se de Rafael. Aparecem, portanto, em marcos importantes da história da salvação para mostrarem a transparência de Deus quanto aos seus atributos e vontade salvífica.

A leitura do Apocalipse mostra-nos a visão de um combate no Céu, uma luta de Miguel e os seus anjos contra o Dragão. No último Domingo, ouvimos o Apóstolo Paulo a exortar Timóteo a combater «o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas» (1Tim 6,11-16).

Atualmente, por causa de especulações provocadas pelos desenvolvimentos da física quântica, fala-se muito de universos paralelos ou multiversos, constatados como previsões de certas teorias, prevendo a existência de fenómenos impossíveis de serem observados. Ora isto dá uma grande confusão e debate na comunidade científica. E investigando um bocadinho damo-nos conta que para além do avanço comedido dos cientistas, existem as fakenews de alguns jornalistas a acrescentar sempre um pouco de fantasia.

Já no se refere ao combate no Céu relatado pelo Apocalipse e ao combate da fé na terra exortado por Paulo e assumido por Timóteo, poderemos falar de uma correspondência a que podemos dar o nome de transparência, embora nem sempre em tempo real, por causa dos limites da liberdade humana. É o que nos prova o Evangelho: Jesus viu primeiro Natanael, porque o seu olhar não conhece limites; porém, Natanael só vê o Mestre quando alguém lhe fala d’Ele (testemunho), passando por um estar na Sua presença tal como é, sem fingimento. E é neste ponto que Jesus lhe promete ver mais além.

Pois é assim que nós somos convidados, também, a estar diante do Senhor, Aquele que tem «o poder, a honra e a realeza» (Dn 7.9-10.13-14), como livros abertos, com o que está escrito e o que ainda está por escrever, para que Ele possa levar-nos a ver para além das aparências, colocando-nos ao seu serviço, como que a Céu aberto, para que a relação entre a sua Palavra e a nossa vida seja o mais correspondente possível (e não paralela).

Os Arcanjos são transparência de Deus, a anunciar e a defender a presença de Jesus em nós, curando-nos da possibilidade de nos afastarmos da dignidade de filhos. Repito, hoje somos colocados pela Liturgia da Igreja diante dos “capatazes” dos nossos Anjos da Guarda! Aproveitemos a oportunidade para, através deles, invocarmos o Espírito de Deus, a sua força e cura, para que possamos vencer o bom combate da fé no tempo oportuno em que os Arcanjos combatem no Céu, por mandato d’Aquele que está no trono.

Que a caminhada de cada um de nós possa ser crescimento em transparência. Esta é a melhor arma, capaz de nos defender do mal, e é procedimento de cura que nos fará ver o supremo bem. A definição do dicionário mostra-a como uma dupla qualidade: por um lado, de quem não tem nada a esconder; por outro, do que transmite a verdade sem a adulterar. Com a transparência, poderemos sempre ir a público, com caráter de quem não é fraudulento. É assim que Jesus precisa de nós para, imprimindo em nós o seu amor, possamos dar testemunho do mesmo amor à humanidade, como aconteceu com São Francisco de Assis, na “quaresma de São Miguel” e de tantos e tantas irmãs que deram testemunho da verdade, combatendo o bom combate da fé, graças ao sangue do Cordeiro.

As brigas e lutas exteriores reconduzem sempre a uma luta interna nas pessoas: o desejo, expresso por palavras ansiosas e invejosas, encontra-se com obstáculos e com frustrações que nunca chegarão a possuir ou obter o que se deseja. As paixões, antes mesmo de se tornarem guerra e brigas entre as pessoas, combatem dentro das mesmas pessoas. A luta interior, quando descartada imediatamente, para a luta exterior, sem uma resolução da luta interna, faz com que as respostas e conquistas não correspondam com os verdadeiros desejos e perguntas. Daí ser marcada pela violência.

É compreensível que as lutas humanas, por vezes, não vão a par das “lutas” próprias do Reino de Deus. Só pela fé é que poderemos perceber e atuar de maneira a que a manifestação do esplendor de filhos de Deus possa ajudar a dar resposta adequada às lutas humanas (cf. Gaudium et Spes, 40).

Porque o verdadeiro encontro pode representar a resposta mais adequada, então prefere-se renunciar a este encontro, optando-se pela fuga ao diálogo somente mascarado por tiros de armas. Está aqui patente o mistério da tensão humana entre a abertura infinita à verdade e ao bem, e os limites colocados a essa abertura do viver concreto no espaço e no tempo da corporeidade própria e alheia.

(cf. FRANCO IMODA 2005, 11-13)

Que o meu peregrinar seja também um bem para os outros, com admiração. Sentir-se “à altura” é não estar “à altura” do caminho aberto por Jesus

Lc 8, 1-3

Quando pensamos fazer uma peregrinação (caminhar “per agros”, pelo campo), quase sempre temos em mente um bem em favor próprio. Jesus, como nos relata Lucas, “caminhando por cidades e aldeias” andou sempre a pregar e a anunciar a boa nova em favor de todos.

Era tão bom que, à luz deste Evangelho, as iniciativas eclesiais, primeiro, deixassem de ser só dentro de quatro paredes, como se o que é comum é fechado em assembleia e o que é na rua é individualizado e privatizado. Hoje a Igreja sofre muito com a privatização da fé!

Neste relato, a enunciação dos Doze fica-se pelo número, enquanto que, quanto às mulheres, importa saber os seus nomes: Maria Madalena, Joana de Cusa, Susana e muitas outras. Dá a impressão que estas de quem sabemos os seus nomes seriam líderes de equipas de trabalho. É admirável que no processo sinodal que estamos a realizar, à luz do Espírito Santo, há uma questão direta que aparece em grande parte das sínteses: mais oportunidades para mulheres em cargos de liderança.

Entender a sinodalidade como uma maneira de ser Igreja no mundo de hoje implicará quer a refontalização, quer uma renovação, apoiadas na dinâmica que foi o Concílio Vaticano II. Porém há uma “balança da justiça de Deus” que terá de ser sempre colocada diante dos nossos olhos: aquela que coloca o peso na luz do Espírito Santo sem deixar de considerar as necessidades reais da humanidade de hoje, sem deixar que o peso de um bem-para-mim (dos meros desejos de cada pessoa) interfira ou danifique o valor que é o bem-para-os-outros. O que transfigura e salva não é uma autotranscendência egocêntrica ou meramente filantropico-social ─ ainda que tenham o seu devido valor para o desenvolvimento e a vida neste mundo ─ mas uma autotranscendência teocêntrica que, valendo para este mundo, nos promete a plenitude da vida.

Só a autotranscendência teocêntrica é que, não sendo autorreferencial, permite ler o Evangelho só a pensar nos Doze e esquecendo o nome das mulheres sem cujo serviço o papel dos Doze seria impossível no envolvimento e desenvolvimento da missão de Jesus. Deus quer homens e mulheres no seu projeto, senão não os tinha criado “homem e mulher” (cf. Gn). O problema é a acentuação indevida de papeis em detrimento de outros, levando a esquecer que a dignidade é a mesma. E esta é que é determinante defender como igual. Um parêntesis: o Papa Francisco, numa homilia proferida a Cardeais reunidos disse:

Irmãos, esta admiração é um caminho de salvação! Que Deus a mantenha sempre viva em nós, porque nos liberta da tentação de nos sentirmos «à altura», de nos sentirmos «eminentíssimos», de nutrir a falsa segurança de que hoje, na realidade, é diferente, não é mais como era no início, hoje a Igreja é grande, a Igreja é sólida, e nos situamos nos graus eminentes de sua hierarquia – nos chamam «eminências» –… Sim, há alguma verdade nisso, mas também há tanto engano, com que o Mentiroso de sempre tenta mundanizar os seguidores de Cristo e torná-los inofensivos. Este chamamento está sob a tentação da mundanidade que, passo a passo, priva-te das forças, priva-te da esperança, impede-te de ver o olhar de Jesus que nos chama pelo nome e nos envia. Este é o verme da mundanidade”.

PAPA FRANCSICO

Serviam Jesus e os discípulos com os seus bens. Só é possível, pois, sentir admiração pelo caminho percorrido e traçado por Jesus com a admiração de quem está diante de algo grande e não diante de um caminho em que tudo está previsto. Nem os homens, nem as mulheres estavam “à altura”; por isso, admiravam o estilo de caminhar de Jesus.

Conclusão: quanto maior for a autorreferencialidade, menor admiração pelas surpresas de Deus; quando menor for a autossuficiência, menor será o anonimato pastoral.

“Clipemos” bem o Evangelho para as decisões do dia-a-dia da pastoral prática: “Acompanhavam-n’O os Doze, bem como algumas mulheres…”!

O caminho da vida cruza-se com a procissão da morte pela compaixão que ressuscita, ou: os dons do Espírito que elevam cruzam-se com os ministérios sepultados pelo clericalismo

1 Cor 12, 12-14. 27-31a; Lc 7, 11-17; Na memória de S. João Crisóstomo

Uma das atividades pastorais que ocupa mais os padres a pé na estrada, é a dos funerais, entre a celebração da Missa de sufrágio nas igrejas e o sepultamento nos cemitérios ou cremação nos thanatórios. E a celebração das exéquias é uma daquelas oportunidades sem igual para nos encontrarmos com os que habitam em periferias da fé e da existência, uma vez que a compaixão muito raramente exclui alguém de estar na partida de um familiar, de um amigo, de um patrão ou de um colega de trabalho. Na vida de um padre, é uma oportunidade ímpar para dizer palavras e realizar gestos que aproximem as pessoas em luto da Pessoa de Jesus.

No entanto, constatamos uma realidade humana e eclesial que nem sempre nos deixam margem para imitar Jesus na sua compaixão para com quem sofre perdas. A pressa, a falta de delegação solidária de tarefas pastorais, o facto de se considerar unicamente o momento do funeral como a realização de acompanhamento no luto, a desconsideração do encontro entre a vida e a morte a par de outras atividades pastorais mais rentáveis, a secularização dos serviços ou das atividades fúnebres por parte das agências funerárias (que quase sempre se impõem como mediadoras entre as famílias e os pastores), etc. ─ são fatores, entre outros, que levam a desconsiderar a morte física como parte integrante da vida eterna.

Comparados a esta cena do Evangelho, em que o caminho vivo de Jesus se cruza com uma procissão de morte, muitos dos nossos funerais padecem de excesso de palavras genéricas (ignorando os particulares processos de luto) e ritos talismânicos (como procissões a pé a interromper ambulâncias em trânsito de emergência e paragens atualmente sem significado real) que levam as pessoas a estar ali mesmo por misericórdia ao amigo falecido e aos familiares em luto. Ou, quem sabe, para que na própria morte também alguém lhes possa retribuir com a sua presença. Jesus, primeiro, na estrada da vida, não fugiu dos cenários de morte; segundo, não foi excessivo em palavras e gestos, mas somente: “não chores” a quem sofria a perda e, tocando o caixão, “levanta-te” a quem estava morto. Ha! Quem nos dera que reaprendêssemos a força subliminar das palavras curtas, mas incisivas, e a força curativa dos gestos simples!

Antes de que o corpo ressuscite, no final dos tempos, é a alma que precisa de ser elevada à consciência de filhos e filhas muito amados(as), ancorada na rocha firme da Palavra do Senhor que promete salvação, não obstante as intempéries da vida e a passagem por esta condição comum que é a morte física.

Esta dimensão da pastoral cristã é das que mais precisa de um trabalho corporativo, conscientes os padres de não poderem fazer tudo sozinhos (os que não tiverem esta consciência, no meu modo humilde ou profético de ver, não deveriam ser padres!). Urge “tocar” os corações dos batizados e “levantar” os dons ou ministérios que estão sepultados pelo clericalismo (“Aspirai com ardor aos dons mais elevados”). Os processos de luto têm muitas etapas, onde são precisos muitos e vários tipos de dons. E a compaixão precisa de muitos corações, em vez de um só (o do padre), porque a morte não tem de ser uma experiência solitária, mas a amplificar os corações para a comunhão dos santos. São precisos apóstolos, profetas e doutores. “Vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte”. Não podemos deixar que os nossos funerais sejam procissões de morte ou meras atividades civis de negócio, mas caminho para a Vida.

A reflexão em torno dos funerais pode ajudar os presbíteros a considerar outras peregrinações, por aproximações graduais, ao encontro de realidades batismais “mortas” pela inércia de um “sempre se fez assim” (que na medicina já teria assassinado muita gente!), à maneira do Papa Francisco que, hoje mesmo e pela primeira vez, se dirige a caminho do Cazaquistão, fazendo-se o mais próximo possível dos lugares da guerra, levando uma mensagem de paz. O procedimento de Jesus Cristo avisa-nos de que se não caminharmos mudando a realidade com palavras e gestos simples não viveremos. Não se trata de transformar tudo e de qualquer maneira, mas de transformar o que já não eleva para Deus.

No contexto da formação dos futuros presbíteros, cabe-nos aqui considerar se os funerais serão futura e tendencialmente mais uma fonte de rendimentos ou se os presbíteros vão ser um entre muitos agentes pastorais dos processos de luto. Trata-se, enfim, de que "sepultar os mortos" seja definitivamente ou não uma obra de misericórdia. Quando, numa entrevista à Agência Ecclesia/RTP2, dizia que o Seminário procura formar 10 anos à frente, tinha em conta, como sempre tive, de que o que os formandos aqui aprendem vai, no primeiro acesso à realidade pastoral, passar pelo crivo da experiência, onde se celebra, por um lado a vitória dos conteúdos e estratégias estudadas e, por outro, se sofre a frustração diante de entre aspas “andores” à espera de que se lhe ponha em cima um Padroeiro comum ou “procissões” já vazios de sentido à espera de itinerários menos tortuosos que levem a Deus e aos irmãos. Curiosamente, em 2008, nos estudos sobre a formação sacerdotal em Roma, a estatística relativa ao abandono de novos presbíteros nos primeiros cinco anos do ministério, constatava-se como mais consequência da frustração pastoral do que qualquer outro motivo mais famoso (como eram as questões afetivas, psicologicamente entendidas como a "rama" de um tronco mais sério que era a dificuldade de levar à prática a sabedoria recebida como testemunho nos anos de estudo). Como o testemunho de São João Crisóstomo sugere, é com a vida assente na rocha firme da Palavra de Deus que se vencem as tribulações próprias da renovação da Igreja. D. José Cordeiro, na celebração da Eucaristia em Fátima, neste 13 de setembro, refletiu que "Na mudança de época que vivemos faz-nos bem peregrinar em busca do essencial da vida", onde a Igreja é chamada a “ser cada vez mais testemunha da misericórdia e da ternura".

Feliz é quem acolhe o Céu e não quem pensa que o merece

Lc 6, 20-26; 1Cor 7, 25-31

O texto das bem-aventuranças é sobremaneira importante, porque paradoxal, quase como se para uma sua compreensão precisássemos de uma “password” que só Deus possui. Por isso, compreender como a pobreza em espírito, o luto, a perseguição, etc. possam dar a paz da plenitude da vida é algo que só pode acontecer na relação com Deus.

A felicidade eterna é uma DECLARAÇÃO de Jesus PARA aqueles destinatários que Ele tem à frente, buscadores de sentido que só se pode obter com a fraternidade, a justiça e a paz. Por vezes, projeta-se, também, da sociedade na Igreja (e quiçá ao contrário também) uma mais manifesta ou mais subliminar luta de classes (no mínimo competição), como se uns já vivessem o céu garantido na terra e outros estivessem de esperar com ele (esperança, por vezes, bem “paga” com desespero e tristeza).

Portanto, o discurso de Jesus não DEDUZ a salvação tanto de um mérito alcançado pelo ser humano com as suas próprias forças, quanto a INDUZ na vida daqueles que esperam e procuram a felicidade eterna através da realização da fraternidade, da justiça e da paz.

O Apóstolo Paulo utiliza o mesmo método indutivo ao aconselhar e não mandar, pois ninguém deve mandar o que não lhe é mandatado. E o seu conselho é fiável pela confiança na misericórdia, que está fundada na justiça de Deus. Quer Paulo dizer: a confiança que o seu conselho merece vem da misericórdia do Senhor para com ele. O tema sobre o qual ele dá conselho é o da vida solteira, adequada para as dificuldades do seu tempo. Por entre linhas, dá a entender que no seu tempo era difícil de viver relacionamentos sérios, daqueles em que cada pessoa põe o bem do outro em primeiro lugar. Esta é a verdadeira definição de castidade. O contrário da castidade é o incesto (“in-castus”). Portanto, o verdadeiro sentido da castidade não é meramente não fazer isto ou aquilo; a verdadeira prática da castidade é fazer o bem em favor dos outros, sem segundas intenções ou interesses egoístas.

Ajuda, em vez de fazermos escolhas baseadas na expetativa de coisas terrenas, fazermos uma opção fundamental apostada na esperança da vida eterna.

Quer-se que o Seminário seja uma “píxide” com “pães ázimos”

1 Cor 5, 1-8; Lc 6, 6-11 ─ No início do novo ano formativo do Seminário Interdiocesano de São José

No início da vida comunitária para um novo ano formativo no Seminário, escutámos o Apóstolo Paulo a convidar-nos a ser “pães ázimos” da pureza e da verdade, a partir de uma nova massa sem o velho fermento da malícia e da perversidade. Assim, inspira-nos a pensar no Seminário ─ que acolhe novos aspirantes, acompanha os discípulos e forma os candidatos ao presbiterado ─ como uma píxide com pães ázimos que, um dia, serão levados ao altar do Sacramento da Ordem, para ser servidos e servirem como “outros Cristos” no Povo de Deus e para as multidões da humanidade.

No contexto que vivemos, em que, por um lado, a sociedade exige (a partir de uma comunicação social extenuante) a irrepreensibilidade da Igreja diante dos abusos sexuais e, por outro lado, a própria Igreja oferece reflexão aprofundada e atualizada sobre a “identidade relacional e ministério sinodal do presbítero” (cf. Simpósio do Clero), cada vez mais é preciso centrar a formação e a vivência do ministério presbiteral na vida de Jesus que mandava fazer aos seus discípulos e apóstolos e que Ele mesmo fazia: ensinar/pregar e cuidar/curar. Toda a vocação, em qualquer estado de vida apoiado no Batismo, que se ocupe da coerência entre o ensino e o cuidado para com os outros, não terá tendência a falir.

Com os desafios que se colocam ao mundo e à Igreja, os que o Senhor chama a imitá-lo mais de perto não podem ficar de braços cruzados e com a cabeça pendurada em ideias fundamentalistas, que ignoram as situações sofridas pela humanidade, como se nada fosse connosco. Os cristãos têm a missão de ser fermento de união e harmonia da comunidade, como “alma” do mundo. O individualismo gera omissões. Fazer a diferença implica profetismo, denunciando o mal que rouba ou mata a dignidade humana e anunciando o bem que nos faz viver eternamente.

Com a Humildade, lema do pontificado do beatificado Papa João Paulo I e definição de comunidade (“húmus” onde crescem as sementes da vocação), todos somos chamados a levantarmo-nos e a colocarmos diante do olhar o Mestre as nossas sombras e pecados, para que Ele nos torne crentes, credíveis e críveis.

Ser discípulos na ponte das preferências à deferência, para uma “fraternidade mística”

Sab 9, 13-19 (gr. 13-18b); Sal 89 (90); Flm 9b-10. 12-17; Lc 14, 25-33 ─ DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM

Antes da porta estreita do Reino, o caminho de Jesus para Jerusalém começa também a estreitar, de modo que à multidão que o segue propõe as condições para ser seu discípulo. Quem segue atrás de Jesus neste caminho da entrega da vida, precisa de afinar o passo pelo passo d’Ele.

O psicólogo comportamentalista norte-americano Martin Seligman sintetiza que a vida humana é feita de duas metades: a da expansão (primeira metade) e a do afunilamento (segunda metade). Na primeira metade, o ser humano tende a fazer todas as experiências, a saber o mais que puder e a obter o mais que puder. A segunda metade começa quando a pessoa dá conta de que nem tudo é preciso para ser verdadeiramente feliz; inclusivamente, já coisas boas que podem até prejudicar o caminho de uma entrega feliz. A expansão ajuda a solidificar a auto-estima necessária, apoiada em necessidades básicas e secundárias; o afunilamento programa a oblação que ajuda a acertar na meta, na consideração das escolhas essenciais.

Seguir Jesus implica um projeto, como o de construir uma torre ou proteger (mesmo que seja através de uma qualquer guerra) o campo que se comprou por se ter encontrado lá um tesouro. Ser vencedor ou não ser humilhado implica pôr em prática algumas condições; ser discípulo implica construir uma ponte para a outra margem que Jesus constantemente propõe aos seus discípulos, colocando nela os fundamentos necessários para que essa relação que promete felicidade não vá abaixo.

Então, quais são as condições para passarmos a “ponte” entre as nossas preferências pessoais e a deferência a Cristo? Por outras palavras: como manter a fidelidade e manifestar o amor a Cristo? Eis:

1 Fazer contas à vida, quer dizer, olhar para as exigências que Ele coloca ao longo do caminho. Não se trata meramente de verificarmos ou não se O podemos seguir; trata-se, antes, de partirmos para a aventura do seguimento conscientes das exigências que Ele nos coloca. Seremos capazes de abraçar essas exigências? Acatar as condições significa estar dispostos a segui-l’O de maneira incondicional.

2 Tratar Jesus com deferência, diante das muitas preferências que temos nos nossos relacionamentos humanos, incluindo os laços de parentesco. O texto original fala mesmo de “ódio”, tal é o “ciúme” com que Cristo nos ama incondicionalmente. Jesus deseja que o nosso desejo seja obter o máximo de vitória possível. São Paulo ajuda-nos a retomar todos os relacionamentos desde a “escravatura” das preferências humanas até à irmandade ou fraternidade livre fundada em Cristo Jesus (cf. 2ª leitura).

3 Carregar a cruz pessoal com vontade firme e liberdade crente no caminho, que não é passivo, de mera aceitação, mas numa decisão ativa de fazer o caminho do Mestre, apoiado na sabedoria insondável de Deus ou dos seus misteriosos e infinitos desígnios de amor (cf. 1ª leitura).

4 Fazer escolhas quanto ao essencial para se fazer um caminho inédito, deixando de querer expandir o coração quanto às coisas da terra e abrindo o seu olhar para horizontes longínquos, para além da realidade do mundo presente, pondo os corações a gostar e desejar o que o Senhor gosta e deseja, fazendo o que Ele faz.

Em suma, seguir o caminho inédito aberto por Jesus implica retomar a relação com as pessoas e as coisas de forma transformada e transformadora, provando aquela “fraternidade mística”, presente no capítulo segundo da Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, sobre “relações novas geradas por Jesus Cristo”:

Neste tempo em que as redes e demais instrumentos da comunicação humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o desafio de descobrir e transmitir a «mística» de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada. Assim, as maiores possibilidades de comunicação traduzir-se-ão em novas oportunidades de encontro e solidariedade entre todos. Como seria bom, salutar, libertador, esperançoso, se pudéssemos trilhar este caminho! Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem. Fechar-se em si mesmo é provar o veneno amargo da imanência, e a humanidade perderá com cada opção egoísta que fizermos

─ PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho n. 87

A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura

─ PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho n. 88

O Papa Francisco faz soar o alarme quando alerta para o perigo de buscar um “Cristo sem carne e sem cruz” (EG 88), ou “Jesus Cristo sem carne e sem empenho pelo outro” (EG 80). Faltam assim “vínculos profundos e estáveis” (EG 91) que respondam a propostas alienantes (EG 88) que “fazem adoecer” (EG 91).

Trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações; e aprender também a sofrer, num abraço com Jesus crucificado, quando recebemos agressões injustas ou ingratidões, sem nos cansarmos jamais de optar pela fraternidade” (EG 91). Mais do que nunca, no momento em que a “fraternidade” não é compreendida como óbvia, é preciso que seja evidenciada a sua dimensão mística ou contemplativa. A fraternidade mística ou contemplativa consiste no “olhar a grandeza sagrada do próximo” e no “descobrir Deus em cada ser humano”, “no suportar os seus males e de viver juntos unidos ao amor de Deus”, no “abrir o coração ao amor divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o Pai bom.

─ PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho nn. 91 e 92

No caminho estreito que leva à porta estreita do Reino, cabe a autêntica fraternidade, que é já experiência de Deus (cf. EG 87), assim como cabe uma nova relação com as coisas criadas, através da “mística do quotidiano” que Teresa de Lisieux experimentou “encontrando Deus em todas as coisas” (cf. LS 233).

O Papa João Paulo I (Albino Luciani) está a ser beatificado neste domingo, 4 de setembro, na Praça de São Pedro.

Conhecido pela sua simplicidade e capacidade de acolhimento, muitos testemunham o seu estilo humilde e próximo de toda a gente.

Vários testemunhos relatam o seu estilo simples e discreto de Luciani, sempre preocupado em não dar excessivo trabalho aos seus colaboradores, incluindo as religiosas que cuidavam do serviço doméstico no apartamento pontifício.

A irmã Margherita Martin contou esta sexta-feira aos jornalistas que, um dia, ao vê-la passar cuidadosamente a ferro uma sua camisa, João Paulo I lhe disse para não perder tanto tempo com ele. “O Papa parou junto de mim e disse: Irmã, basta passar os punhos, porque ninguém vê a camisa que trago por baixo da batina”, testemunhou a religiosa.

Em conferência de imprensa organizada pelo Vaticano, Stefania Falasca, vice-postuladora do processo de beatificação, sublinhou que Albino Luciani morreu com fama de santidade e que os 33 dias do seu breve pontificado “são a ponta de um grande icebergue escondido de magistério e importantes ensinamentos”.

─ Cf. RR

O saber nem sempre é compreender

Lc 4,31-37

O conhecimento humano fruto da experiência espiritual acontece em ordem inversa àquele que é fruto da experiência dos sentidos: nesta, primeiro conhecemos e só depois é que amamos, ou não, o objeto do conhecimento; na experiência espiritual, primeiro somos amados/amamos e só depois é que nos é dado ou procuramos conhecer.

Assim, o saber difere do compreender: este, antes de conhecer, abraça; aquele conhece a uma distância de segurança. Por isso, a Palavra de Deus age sempre como compreensão do ser humano, provocando o espírito impuro a restituí-li ao centro. O saber isto ou aquilo nem sempre protege o ser humano, antes, coloca-o à margem. A compreensão de uma situação sofrida por alguém nunca deita a perder a pessoa, mas procura libertá-la do que a oprime.

A autoridade de Jesus, portanto, é sempre serviço ao bem da humanidade, tantas vezes atribulada por falsas doutrinas que a impedem de ser feliz. De facto, entre a Palavra de Jesus e os problemas das pessoas, é preciso mandar calar, com a oração e a exortação, tudo o que não dignifica a vida do ser humano.

Um convidado inesperado e revolucionário, com etiqueta para todos

Sir 3, 19-21. 30-31; Sal 67 (68); Hebr 12, 18-19. 22-24a; Lc 14, 1. 7-14 ─ XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM C

Jesus entrou na casa de um dos principais fariseus, a um sábado. Deve ter sido convidado sem os començais o saberem, como se vê no olhar surpreendido de todos. No entanto, entra no banquete oferecendo-se como “mordomo”, recomendando etiquetas para todos.

Outrora tal sábado, hoje tal domingo! Imaginemos Jesus a entrar nas nossas casas em dia de festa sem ser convidado ou sem os nossos familiares e amigos saberem… deixá-Lo-íamos ser mordomo? Sujeitar-nos-íamos ao incómodo de alguma palavra ou proposta revolucionárias?

Na verdade, a forma como organizamos e vivemos as nossas festas domingueiras dizem um pouco da nossa fé, não só no irmos à Missa, mas também no estilo da convivência dentro das nossas casas ou vizinhanças. Aquela afirmação popular atribuída a um padre no final de uma Eucaristia – “Aqui na igreja somos todos irmãos, mas agora cada um vá comer a sua casa” – não é propriamente uma afirmação cristã, mas mundana! Não é que todos os domingos tivéssemos de fazer banquetes abertos a todos, o que provocaria uma séria calamidade, mas o facto é que desde a comunidade de Coríntios que o altar eucarístico está tão distante das mesas das casas dos fiéis, onde os primeiros cristãos se habituaram a celebrar o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Cor 10, 16; 11, 23-26), partilhando o que tinham uns com os outros.

O projeto da Igreja, que promove a entrada no Reino pela “porta estreita”, exige o caminho da justiça, como aprendemos no passado domingo. Fica esta para os dias feriais, ficando fora do domingo? Por isso, é cada vez mais urgente promover a reconciliação entre a mesa eucarística comunitária e a mesa das refeições caseiras, entre o credo dominical recitado e o credo ferial praticado, entre os dias santos de guarda e o tempo comum. Obviamente, não se trata de deixar de vir à Assembleia celebrar a Eucaristia, mas trata-se de, tendo a Eucaristia por referência, eucaristizar a vida no mundo, não deixando que se faça um apartheid entre a celebração da fé e a vida da fé.

Então, ─ O que fazer para o caso de Jesus nos aparecer infiltrado nas nossas reuniões festivas? ─ Como tomar a dianteira, organizando a festa dentro das suas mordomias revolucionárias, que antecipam a justiça do Reino? ─ Como levar a sério as etiquetas revolucionárias de Jesus, para que as nossas reuniões domésticas festivas sejam mais transparência do Evangelho?

1 – Primeiro, há que escolher ou perceber a Sua presença. Para cada festa convidemos Jesus a estar presente. Podemos fazer a Sua presença aos nossos convidados colocando a Cruz numa das paredes, florida, se possível e sobretudo em dias de festa. Outras imagens de Jesus (Sagrado Coração, etc.) poderão estar no espaço da refeição. A sua presença está também nas pessoas que se reúnem para partilhar a mesa. Dar atenção a cada uma em particular, na sua circunstância, enriquece a festa. É importante observar os comensais, ajudando cada um a perceber qual é o seu lugar.

2 – Pode aproveitar para se propor uma oração simples, evocando quem não está e que gostaríamos que estivesse: um familiar falecido, uma família ou pobre conhecido, ou um grupo social em grande sofrimento, por causa de alguma situação grave, como os incêndios ou a guerra. Um colega meu costuma dizer que comer sem rezar é como estar diante duma gamela e não numa mesa…

3 – Terceiro (porventura o menos frequente, porque mais difícil), convidar, ao menos uma vez por ano, algum(ns) pobre(s), pessoas doentes ou pessoas em profunda tribulação, com os quais partilhar a refeição. Costuma dizer-se popularmente que “acrescenta-se mais água no tacho da sopa para mais um”. Sem esta presença, como recomenda o nosso Mestre mordomo, as nossas mesas ficarão sempre incompletas, correndo o risco de não podermos vir a obter a justa retribuição que só no Reino nos poderá ser atribuída.

4 – Quarto (contracorrente): organizar a nossa despensa e refeição de maneira éticamente sustentável, sem (inter)ferir, direta ou indiretamente, nas pessoas que vivem sem as mesmas condições. Organizar as festas sem desperdícios e, quando sobrar, dar às sobras um destino honroso, como a partilha (e porque não confecionar a contar já com a partilha?).

Esta gradação parece uma estafeta de coragem, como a subida a um monte. Tentar subi-la poderá levar-nos a vivenciar algo que nos dará uma sabedoria não alcançada pelos meros festins familiares ou amigáveis. A presença de convidados improváveis poderá ensinar-nos muito na balança entre a humildade e a soberba, como reflete a primeira leitura, e levar-nos a ganhar um lugar no banquete celeste. Como nos inspira o Salmo 67, e se Deus estiver naqueles que convidados com total gratuitidade (sem nos poderem pagar de nenhum forma)? Alegrando-nos seremos justos, “exultando e transbordando de alegria”. Então, preparar e realizar um banquete não nos fará iniciar uma semana com cansaço, mas destinatários de uma “chuva de bênçãos” por termos feito como Jesus manda.

Como reflete a Carta aos Hebreus, acolhendo um comensal improvável, não estamos diante de fogo, nuvens, trevas ou tempestade (a tristeza, a pobreza, a tribulação da pessoa ou a ridicularização de alguém por o termos feito), mas estamos diante do “monte Sião, a cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, de muitos milhares de anjos em reunião festiva, de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu”. Afinal, quando cantamos o “Santo, Santo, Santo” na Missa, não evocamos a corte celeste? Porque não evocá-la às nossas mesas (de casa ou do restaurante) com a presença de quem não nos pode retribuir?!

Os talentos, entre a abundância de tempo e o funil da vontade

Mt 25, 14-30

Muito tempo nos deu o Senhor, entre a universal sementeira de talentos e o derradeiro juizo final. A este juizo seremos chamados para ser avaliados, não pela mesma tabela, mas de forma diferenciada, “conforme a capacidade de cada qual”.

Acontece, porém, que a razoável diferenciação na distribuição de talentos, não nos dispensa de exercermos a unânime vontade em gerir bem o tempo.

Nesta demanda de gerirmos bens que nos foram dados gratuitamente para serem administrativamente duplicados, requer-se a coragem de saber distinguir-se, também, o mal que está na preguiça e o bem que é a fidelidade.

No final das contas, todos os servos conheciam o modo de proceder do seu Senhor e dispuseram da mesma abundancia de tempo para realizar os desafios que, embora diferenciados, necessitavam do mesmo multiplicador comum: a vontade que permite exercer a fidelidade. No tempo, ela é como que um “funil” que, do ponto de vista comportamental, exige uma concentração na escolha do essencial na forma como fazemos render os nossos específicos talentos.

É preciso nobreza espiritual para se não sentir diminuído pela posse de um só talento, que, à semelhança de coisas pequenas que podem levar alguém a aprender a ser fiel nas grandes, pode levar ao assumir de uma grande e necessária responsabilidade.

O “salário” do Reino é igual para todos: “Vem tomar parte da alegria do teu Senhor”. O desperdício de telentos não condiz com esta alegria.

Expetativa vs. esperança ou o vazio vs. o ideal nas almotolias

Mt 25,1-13; Com ajuda de Lúcia Helena Galvão em Reflexões sobre a ansiedade

Dez virgens vão ao encontro do esposo. Cinco são insensatas e cinco prudentes. Aquelas sem azeite nas almotolias, estas com suficiente para chegarem à meta.

Diria que as pessoas insensatas vivem o caminho ansiosas, porque apoiadas em expetativas irrealistas. Não têm em conta que o depois é consequência natural do presente. O ideal está no futuro, mas não é tanto um objeto de desejos, quanto uma referência de direção (Kant). A ansiedade gerada pela insensatez nasce como consequência de momentos vazios, mecânicos. Só fazem algo (comprar azeite) se vierem a ganhar tal coisa (ter o esposo só para elas), em vez de fazerem o que se deve para realmente poderem vir alcançar o que esperam (imperativo categórico de Kant).

As pessoas prudentes têm um objetivo intrínseco, que as livra da ansiedade gerada pelas coisas difíceis, fazendo-as saber que vai valer a pena. Porque tudo o que tem valor (ligado a uma meta) tem um valor intrínseco (já assumido no caminho que leva àquela meta). Alcançam o ideal criando momentos ideais. Sabem que a soma de momentos ideias levam ao ideal e que momentos vazios não levam a ideal nenhum, a nenhum grande lugar ou encontro. Sabem qual é a meta, mas não desconsideram a maneira de como se faz a viagem.

Assim, “azeite nas almotolias” pode significar conhecimento (descartado por alguns que querem chegar ao final de um curso sem estudar, não pensando no bom desempenho que fariam depois), esperança ou perseverança (descartada por uma auto-humilhação exagerada, não colocando os próprios talentos ao serviço se uma causa), etc.

O diálogo entre as virgens insensatas e as prudentes parece o debate entre a expetativa e a esperança. Enquanto esta se apoia no realismo aquelas perdem-se na fantasia que gera angústia, esquecendo-se de aplicar a imaginação e criatividade, derivando para um campo de possibilidades fantasioso e esperando recursos espetaculares ou um lance de sorte. A expetativa não dá espaço a um bom planeamento da criatividade, porque apoiada mais na emoção que na razão, não permitindo estado ideal para superar obstáculos e conquistar objetivos. A expetativa provoca o medo e a premência de resultados, colocando-nos num péssimo estado de eficiência.

A esperança é a que nos permite caminhar no estado da lucidez. Não é só espera, mas demanda de vontade e criatividade, reunindo todas as ferramentas, usando tudo o que tem de melhor. Não minimiza as possibilidades do ser humano, mas mobiliza-as para que possa atingir um bom resultado. Enquanto que a expetativa leva a uma vida ausente a esperança leva a uma vida presente.

A esperança alimenta-se da fé. Não se compra. E a esperança, por sua vez, alimenta a caridade. As virtudes teologais são interdependentes, porque provêm das da Santíssima Trindade, concedidas gratuitamente à humanidade para que, assumidas livre e reciprocamente, a possam transcender para Deus.

Quando partires em viagem para Ítaca

faz votos para que seja longo o caminho,

pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.

Os Lestrigões e os Ciclopes,

o feroz Poseidon, não os temas,

tais seres em teu caminho jamais encontrarás,

se teu pensamento é elevado, se rara

emoção aflora teu espírito e teu corpo.

Os Lestrigões e os Ciclopes,

o irascível Poseidon, não os encontrarás,

se não os levas em tua alma,

se tua alma não os ergue diante de ti.

Faz votos de que seja longo o caminho.

Que numerosas sejam as manhãs estivais,

nas quais, com que prazer, com que alegria,

entrarás em portos vistos pela primeira vez;

para em mercados fenícios

e adquire as belas mercadorias,

nácares e corais, âmbares e ébanos

e perfumes voluptuosos de toda espécie,

e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;

vai a numerosas cidades egípcias,

aprende, aprende sem cessar dos instruídos.

Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.

É teu destino aí chegar.

Mas não apresses absolutamente tua viagem.

É melhor que dure muitos anos

e que, já velho, ancores na ilha,

rico com tudo que ganhaste no caminho,

sem esperar que Ítaca te dê riqueza.

Ítaca deu-te a bela viagem.

Sem ela não te porias a caminho.

Nada mais tem a dar-te.

Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.

 Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência,

 já deves ter compreendido o que significam as Ítacas

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)