A compaixão, do fazer-se ao ser próximo

[Leitura] L 1 Deut 30, 10-14; Sal 68 (69), 14 e 17. 30-31. 33-34. 36ab-37 ou Sal 18 B (19), 8. 9. 10. 11 L 2 Col 1, 15-20 Ev Lc 10, 25-37

[Meditação] A dicotomia entre o ser e o fazer tem muito que se lhe diga, tendo em conta a ambiguidade da tensão entre essas duas dimensões do viver humano. Umas vezes sublinha-se a importância do ser em detrimento do fazer; outras vezes, contrariamente, eleva-se o fazer diminuindo-se a importância do ser. Porém, feitas bem as “contas”, na relação entre o ser e o fazer nunca pode haver cisões que obstaculizariam o seu equilíbrio em favor do objetivo com que se vive, ao encontro do horizonte que se espera ou pelo qual se deixa atrair. À reflexão sobre estas duas dimensões de uma operação ainda se pode juntar a consideração sobre a relação ente a realidade e a aparência ou as ideias. É curioso que o Papa Francisco, quando, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, fala da dimensão social da evangelização (cap. IV), refere que O tempo é superior ao espaço [222-225] A unidade prevalece sobre o conflito [226-230], A realidade é mais importante do que a ideia [231-233]O todo é superior à parte [234-237]. Percebe-se, na ordem lógica que as primeiras expressões (tempo, unidade, realidade e todo) prevalece em relação às segundas (espaço, conflito, ideia e parte); porém, na ordem cronológica, é muitas vezes a segunda que leva a considerar a importância das primeiras.

Um dos belos exemplos de boa síntese entre o ser e o fazer é a Regra de S. Bento, celebrado há pouco tempo na Liturgia (11 jul.), sintetizada na exressão “Ora et Labora” (reza e trabalha), dando lugar à primazia da graça de Deus no (des)equilíbrio do ser humano e do fazer que o desenvolve. As ordens religiosas tiveram sempre uma quota parte muito substancial de presença social no mundo, apesar de as suas comunidades serem muitas vezes vistas como “fechadas”. Mas perguntemo-nos: será por fazermos muitas coisas que estamos muito presentes na vida das pessoas? Por outro lado: as nossas divagações espirituais ou inquestionáveis rotinas tradicionais terão alguma concretização prática na resposta aos problemas humanos deste tempo?

Por isso (e por mais coisas que não cabem neste pequeno artigo), uma verdadeira compaixão há de ter muito de doutrina e muito de prática, mas, sobretudo, tem de ser um sentir como o Mestre as coisas do Pai e as coisas do mundo. À luz do exemplo de Jesus, não é bom vivermos a vida a questionar o que vem primeiro − se o ser se o fazer; se a teoria se a prática, como se da relação entre o ovo e a galinha se tratasse −, mas há que viver na relação de cumplicidade com o ser de Jesus e o estar no mundo. Assim, o fazer será sempre um ensaio acessório que favorecerá um ser cada vez mais conforme o desígnio de Deus para com todas as suas criaturas, quanto ao horizonte de vida eterna que Ele nos prometeu.

Ser próximo dos que mais precisam há de ser um ponto de chagada de muitas tentativas operativas que, projetadas e avaliadas em espírito de comunhão, levarão a algum porto onde o Mestre espera para dizer: «muito bem servo bom e fiel». É isto que parece estar a acontecer com o barco-hospital Papa Francisco, no rio Amazonas, juntamente com muitos milhares de iniciativas que a comunicação social não publicita, para dar espaço ao aparente sucesso do fazer em detrimento da plenitude do ser a que somos chamados.

As 3 liberdades do seguimento de Cristo

[Leitura] L 1 1 Reis 19, 16b. 19-21; Sal 15 (16), 1-2a e 5. 7-8. 9-10. 11 L 2 Gal 5, 1. 13-18 Ev Lc 9, 51-62

[Meditação] O caminho de fé aberto por Jesus é o resultado da declinação das 3 liberdades:

1ª – Ser livre quanto ao horizonte longínquo:
Quanto mais “ancorado” o sonho de vida estiver no horizonte que é a vida eterna, com os valores revelados como potenciadores dessa vida eterna, mais livre será a pessoa no que toca às coisas terrenas e na forma de ligar com elas, incluindo as criaturas. Para Jesus foi Jerusalém; qual é a “Jerusalém” de cada um de nós? Para isso, é preciso relativizar tudo o que nos “sedentariza” a alma («as raposas têm as suas tocas…»). Os discípulos de Emaús tiveram a tentação de fugir deste horizonte tentando regredir à sua infância. Manos mal que lhes apareceu o Ressuscitado no meio do caminho.

2ª – Ser livre quanto às circunstâncias do caminho:
Quer chova, quer faça sol; quer morra alguém que afinal já está no Reino para o qual Jesus nos quer dirigir… «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos…». Jesus não nos proíbe de fazer o luto. O problema é se, por causa do sofrimento da perda (nos casos mais delicados um estresse pós-traumático com o qual é preciso reaprender a viver), podemos perder de vista aquele horizonte longínquo que se revela já aqui. Há circunstâncias que nos podem prender ao efémero, não deixando que se dêem passos decisivos. Uma das frases que se vê por aí escrita em autocarros é «A mudança que você quer está na decisão que você não toma». Que nada, nem ninguém nos possa dificultar tomar uma decisão que é fruto de um verdadeiro discernimento iluminado pela vontade de Deus e o seu Espírito de Amor, a partir da referência que é Jesus Cristo.

3ª – Ser livre quanto aos laços com o passado:
A provocação «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás…» mostra-nos como Jesus estava muito à frente do Antigo Testamento (no qual Elias deixa que Eliseu faça boda e se despeça…). Hoje, também está muito à frente da Igreja, pois está no Reino Glorioso de onde nos atrai. O seu chamamento continua a ser “escandaloso”. Como disse S. Paulo, «Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou». E com o salmista rezamos: «O Senhor é a minha herança»! A vida de cada um e de cada uma ganha sempre um novo fôlego, quando cada pessoa consente de que Deus lhe mostre a sua originalidade. Ninguém é obrigado a ser cópia de alguém (já basta a carga genética). Quanto ao projeto de vida, ele é tanto mais feliz, quanto original, mesmo precisando do apoio da família e da comunidade/sociedade.

[Oração] Irving “Francis” Houle, um leigo “agraciado” com os estigmas da Paixão do Senhor, rezava assim:

Oh, meu Jesus!
Meu coração pesa tanto!
O que Tu carregas é pesado demais para mim.
Deixa-me, Jesus meu, carregar um pouco a Tua cruz, só para saberes que eu me importo.
Olha para mim, Senhor amado, com os olhos da Tua misericórdia.
Que a Tuas mãos curadoras estejam sobre mim.
Se for a Tua vontade, dá-me saúde, força e paz.
Amém.

 

(cf. https://pt.aleteia.org/2018/01/16/um-homem-comum-com-esposa-filhos-e-os-estigmas-da-paixao-de-cristo/)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O Espírito do Pentecostes é como uma “pomba doméstica” que não regressará sozinha

[Leitura] L 1 Act 2, 1-11; Sal 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34 L 2 1 Cor 12, 3b-7. 12-13 ou Rom 8, 8-17 Ev Jo 20, 19-23 ou Jo 14, 15-16. 23a-26

[Meditação] De facto, uma das tendências mais delicadas do ser humano, no seu desenvolvimento para a adultez é a de fazer “ninhos” (na psicologia = nidificação), criar laços de segurança, relações que garantam o sentido de pertença. Porém, sem questionamentos e avaliação desses mesmos laços ou relações, verificando se eles estão a cumprir o objetivo, que não é só o de uma felicidade estável, mas também o crescimento da pessoa, o “ninho” vem-se a revelar um gerador de inconsistências.

O caminho inédito aberto por Jesus não se detém nas preferências humanas, cuja tendência é a da homologação de consciências, mas a abertura ao transcendente que surpreende. Por ocasião da celebração do Pentecostes, o Papa Francisco disse que «sem o Espírito, a Igreja é uma organização, a missão é propaganda, a comunhão é um esforço». Pois, a missão da Igreja neste mundo não é enraizar-nos nele, mas apontar-nos sempre o horizonte para o qual nos impele o sopro do Espírito Santo.

Ora, a Palavra proclamada no Pentecostes inspira-nos a viver num modo dinâmico, favorecendo com as faculdades humanas bem sincronizadas (afeto, inteligência e vontade) a pertença a um corpo místico, cuja cabeça é Cristo, que agora está à direita de Deus Pai. Se este corpo estiver bem conjunturado, tudo concorre para que a sua missão obedeça aos desígnios de Deus Pai, como Jesus, na sua vida terrena, fez.

É estranho pensar como na Igreja possa haver estruturas que sejam desproporcionais na sua forma de atuar e no seu objeto, sem discernimento eclesial, de modo que a fazer contemplar a Igreja como um “mutante”. Pode um corpo saudável ter duas mãos de tamanhos diferentes? Pode entre os pés não haver a simetria que lhe permite um andamento equilibrado? Podem os ouvidos ser de tal maneira abertos que diminuam a função dos olhos e da boca? Pode a língua dizer palavras que não se entendam? Então, não faz sentido os “crentes” viverem como se a função da Igreja na terra fosse somente a sua autorreferencialidade e não tendesse para o Reino de Deus.

O ser humano, por vezes, projeta no caminho de fé os seus distúrbios, sendo estes o “voo” não vigiado dos seus mecanismos de defesa, sobretudo aqueles não adaptativos à nova realidade do Reino que o Senhor Jesus no veio anunciar. “Joguemos” com o humor e a antecipação, aqueles mecanismos que, se usamos com equilíbrio e coragem (sem medo), nos permitirão relativizar as coisas da terra, para darmos valor às coisas que o Espírito Santo nos recordará, permitindo-nos o regresso àquela eterna Fonte, no apeadeiro definitivo da eternidade.

[Oração] Sequência do Pentecostes:

Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

 

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

 

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

 

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

 

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

 

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

 

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

 

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

 

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

 

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O que queres fazer PARA SERES GRANDE?

[Leitura] L 1 Act 13, 14. 43-52; Sal 99 (100), 2. 3. 5 L 2 Ap 7, 9. 14b-17 Ev Jo 10, 27-30; Mensagem do Papa Francisco para o 56º Dia Mundial de Oração pelas Vocações

[Meditação] Quase sempre, quando queremos provocar uma criança ou adolescente sobre o seu futuro, perguntamos «o que queres ser quando fores grande?» (basta o leitor colocar a frase do título deste post no Google e este troca imediatamente a pergunta pela trivial, não sendo encontrados resultados para a pergunta do título). Esta interrogação sublinha, sobretudo, a idade física no tempo, deixando para segundo plano aquilo que poderá ajudar a criança ou adolescente a ser grande. É curioso que nunca fazemos a pergunta desta forma a um jovem, de modo que, também, timidamente, fechamos esta questão no foro privado de uma consciência muitas vezes perdida ou desorientada. No entanto, podemos provocar: Jovem, sabes o que te poderá ajudar a fazer ser grande aos olhos de Deus? Queres discernir?

É neste sentido que o Papa Francisco nos convida a arriscar com coração na promessa de Deus que está em cada um de nós. Este “arriscar” é um deitar-se à aventura de descobrir o desígnio de amor que Deus sabe que poderá encher de felicidade duradoira a vida de cada pessoa. Neste Domingo IV da Páscoa − Domingo do Bom Pastor −, no Evangelho, Jesus deixa-nos claro que a sua voz é a “onda” de sintonização de cada “ovelha” com o seu Pastor. Conhecê-l’O é fundamental para cada um conhecer o seu caminho para o Pai. Aliás, ele mesmo é o caminho, a verdade e a vida.

Portanto, em catequese ou pastoral vocacional, talvez seja uma perda de tempo perguntar “que queres ser quando fores grande?”, embora se refira ao ser, mas é necessário colocar este ser em contacto, nas perguntas que fazemos, com as grandes possibilidades existenciais de ser o mais possível à imagem e semelhança de Deus, durante o tempo da esperança (humana e cristã) de vida. Perguntemos, pois: “o que queres fazer PARA SERES GRANDE?”. Trata-se de colocar o ideal a que se aspira ao fazer de hoje, no discipulado missionário. Trata-se de arriscar, hoje, com coragem, a promessa que aguarda ser cumprida no tempo de vida de cada um, na relação com os outros. A pergunta tradicional protela a formação. A pergunta revolucionária propõe trabalhar no ser, em colaboração com a preliminar graça de Deus, de modo que «Que queres fazer para seres grande?» é uma pergunta que pode fazer-se em todas as idades, sugerindo a pedagogia da gradualidade.

[Oração] Pelas Vocações:

Deus, nosso Pai,
ao enviares o Teu Filho Jesus,
quiseste vir ao nosso encontro.
Queremos agradecer-Te, hoje,
por continuares a chamar,
no barco da Igreja,
pescadores para o alto mar,
para a missão de chegar a todos.
Concede-nos,
pela graça do Batismo,
o dom da escuta da Tua voz
e da resposta generosa.
Desejamos abrir-nos ao “sonho maior”:
discernir a vocação
que nos torna servidores
da alegria do Evangelho.
Dá-nos a coragem de arriscar,
como a jovem Maria,
para sermos portadores da Tua promessa.
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A gratuidade da Ressurreição de Jesus: ponto de partida ou ponto de chegada?!

[Leitura] L 1 Act 10, 34a. 37-43; Sal 117 (118), 1-2. 16ab-17. 22-23 L 2 Col 3, 1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8 Ev Jo 20, 1-9

[Meditação] No acontecimento que foi o incêndio na Catedral de Notre-Dame, assistimos a duas manifestações não habituais, no que toca à monitorização noticiosa: que franceses se tenham ajoelhado na rua para rezar; que personagens milionárias se tenham posto a doar os seus bens para a sua reconstrução rápida. Terão sido estas manifestações de todo “gratuitas”?! O que parece ter sido um desastre está a ser acompanhado por acontecimentos similares que não são, com toda a certeza, acidentais, mas manifestações de ódio ao Cristianismo, pelo mundo fora. Onde estão, agora, essas manifestações aparentemente “gratuitas”?!

A experiência de fé no Ressuscitado “corre” em dois ritmos: o primeiro é a estafeta solitária de Maria Madalena que, dando-se conta de que o Corpo do Senhor não estava no sepulcro, vai a gritar isso aos outros discípulos. O alarme dos que sofreram mais de perto aquele incêndio deveria parecer-se com este grito. Após a notícia do sepulcro vazio, lá vão os dois discípulos – Pedro e João – a confirmar, também eles em correria, mas para, com o toque ou só a visão, declarar a fé na Ressurreição de Jesus. Daqui depreendemos que a Fé na Ressurreição de Jesus não é meramente um ponto de chegada de uma caminhada feita no contacto com a presença terrena do Mestre, mas, sobretudo, um ponto de partida (porque o Mestre já não está na mesma figura física) para uma nova aventura que implica compreender as Escrituras e incarná-las na vida.

De que vale ficarmos a olhar com mais piedade ou dinheiro para os sepulcros vazios onde a humanidade continua a jazer, vítima de ódios e desespero? Há que proagir (e não só reagir), em favor do que continuam a sofrer atrocidades que ferem a dignidade humana, à partida e não à chegada! Há que trabalhar pela promoção da dignidade humana sempre e ao encontro dos que correm o risco de a perder. Porque é que rezamos publicamente só quando acontecem males ou só quando é previsto pela diplomacia social dar azo à a que a Liturgia da Igreja saia à rua? Ela é um facto privado? Não, nem sequer público-privado! Por isso, não deverá ficar fechada em quatro paredes… mesmo que as tenhamos de preservar.

Quer na oração, quer na partilha, o que se reza e o que se dá não deverá esperar nada em troca, de modo que se deve rezar sempre sem desfalecer, mesmo que seja na rua, e se deve doar sempre sem arrecadar mais que o essencial, nem esperar dividendos do que se dá. Páscoa é transformação de consciências e de opções fundamentais, para que o mundo também seja restaurado dos males que o têm asfixiado. Páscoa é sinal certo de que é possível recomeçar sempre, voltando ao início restaurador da fé. E porque é cristã e se refere a um Deus que é família, declara a verdade de que não é possível voltar a um mero caminho religioso solitário ou autorreferencial.

[Oração] Como no dia pascal:

Cristo Ressuscitou. Aleluia! Aleluia!
Cristo vive para sempre no meio de nós. Aleluia! Aleluia!
Cristo encha de paz e alegria as nossas famílias. Aleluia! Aleluia!
Celebremos a Páscoa do Senhor, na vida e na comunidade. Aleluia! Aleluia!

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

As tentações, do «show off», pela Palavra “on”, ao Espírito “in”

[Leitura] L 1 Deut 26, 4-10; Sal 90 (91), 1-2. 10-11. 12-13. 14-15 L 2 Rom 10, 8-13 Ev Lc 4, 1-13

[Meditação] Toda a vida adulta saudável, do ponto de vista humano e cristão, precisa de iniciar e passar por provas; todas as energias e saberes que se vão adquirindo na fase a que se chama de iniciação infanto-juvenil servem para uma original felicidade, mas por onde e a que preço?

A teologia do 1º domingo da Quaresma mostra-nos como Jesus, o Filho de Deus, não descartou aqueles energias de «Filho do homem», mas conhecendo-Se a Si mesmo, utilizou o que nessa condição seria alavanca para fazer as escolhas de verdadeiro Filho de Deus. As três tentações apresentadas no Evangelho são três “ideologias” saídas da “caixa de pandora” que é a tendência primordial de o homem se substituir a Deus (cf. Gn 3), impondo o ter acima do ser, o poder acima do  e o prazer/aparecer acima do serviço. Os antídotos para essas “mordidelas” da serpente são: o “pão” da Palavra, a “força” da humildade e a “beleza” do serviço.

Com a esmola (na relação com os outros), a oração (na relação com Deus) e o jejum (na relação consigo próprio/a), restauramos a nossa forma psico-social de estar presentes, o que reverte a favor de uma ecologia integral, à maneira do que o Papa Francisco sugere, na sua Mensagem para a Quaresma de 2019. Numa sociedade que nos incentiva ao exibicionismo desumanizante e inútil, a Palavra de Deus é o caminho que nos leva a aventurarmo-nos pelas sendas do Espírito de Amor que nos garante a verdadeira felicidade.

[Oração] Salmo 91:

Tu, que habitas sob a proteção do Altíssimo, e moras à sombra do Omnipotente, diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela; meu Deus, em Vós confio». Nenhum mal te acontecerá, nem a desgraça se aproximará da tua morada. Porque o Senhor mandará aos seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra. Poderás andar sobre víboras e serpentes, calcar aos pés o leão e o dragão. «Porque confiou em Mim, hei de salvá-lo; hei de protegê-lo, pois conheceu o meu nome. Quando Me invocar, hei-de atendê-lo, estarei com ele na tribulação,

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Fazer de conta? Só para aprender a “jogar” a vida

[Leitura] L 1 Sir 27, 5-8 (gr. 4-7); Sal 91 (92), 2-3. 13-14. 15-16 L 2 1 Cor 15, 54-58 Ev Lc 6, 39-45

[Meditação] Neste VIII Domingo do Tempo Comum que antecede, neste Ano C do ciclo da Liturgia, o início da Quaresma, a parábola do Evangelho que Jesus conta aos discípulos pode ajudar a animar os dias de Carnaval que estamos a viver, no sentido de abrir um caminho novo de conversão e vida. Nela, Jesus utiliza a palavra grega “hipocrité”, quer quer dizer “ator” ou “máscara”, para afastar os seus discípulos de brincarem com coisas sérias, sobretudo na relação com os outros, que são chamados a não julgar. Para isso, utiliza, também, adágios frequentes na sua época: “um cego não pode guiar outro cego…”; “o discípulo  não é superior ao mestre, mas pode ser perfeito como ele…”; e “da árvore boa só podem vir bons frutos, da má virão maus frutos…”.

O jogo e a representação em teatro são componentes humanas e artísticas úteis ao desenvolvimento humano e não me parece que o Evangelho esteja contra elas, incluindo as nossas marchas carnavalescas. Nestas o ser humano esconde-se por detrás de “máscaras” para se repropor à redescoberta de si mesmo e dos outros. Porém, este jogo não se pode prolongar no tempo de forma indeterminada, com o risco de a pessoa se perder numa identidade que não seja aquele ser à imagem e semelhança de Deus, num percurso individual e comunitário que Deus designou à partida como história de amor.

Vai-se sabendo, entre a psicologia que se estuda e o mistério que se acolhe, que o desenvolvimento humano precisa do jogo e de uma educação que se desenvolva na expressão e no controlo, para que a pessoa consiga fazer a passagem da “bios” (vida…) ao “logos” (…com sentido), passando pela tensão do “pathos” (ação, paixão, decisão livre). O jogo sustenta os parâmetros onde, também, o mistério de concretiza. São eles: a alteridade e a contínua tensão entre o sujeito e um objeto; a temporalidade pela referência e avizinhamento entre jogo e cultura, servindo para ligar passado, presente e futuro; e os estádios, sendo a estrutura do jogo sempre precária e provisória, por um lado, e exprimindo um modo de afrontar a realidade que está em relação com o mistério, por outro.

Torna-se assim, o jogo da Sapiência! (cf. Pr 8, 27-31)

[Oração] Provérbios 8, 27-31:

Quando Ele formava os céus, ali estava eu;
quando colocava a abóbada por cima do abismo,
quando condensava as nuvens, nas alturas,
quando continha as fontes do abismo,
quando fixava ao mar os seus limites,
para que as águas não ultrapassassem a sua orla;
quando assentou os fundamentos da terra,
eu estava com Ele como arquitecto,
e era o seu encanto, todos os dias,
brincando continuamente em sua presença;
brincava sobre a superfície da Terra,
e as minhas delícias é estar junto dos seres humanos.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

«Que fizeste?» – Uma pergunta para dois tipos contrastantes de resposta

[Leitura] Dan 7, 13-14; Ap 1, 5-8; Jo 18, 33b-37

[Meditação] Depois que o ser humano correu o risco de romper a correspondência criatura-Criador, a ponto de Este lhe perguntar «Onde estás?» (Gn 3, 9), surgiu a pergunta «Que fizeste?». Ela aparece colocada por Deus a Caim (cf. Gn 4, 10) e por Pilatos a Jesus (cf. Jo 18, 35). A confusão sobre o ser criatura abre caminho para a inconsistência sobre o agir em conformidade.

A liturgia desta Solenidade de Cristo Rei é uma boa oportunidade para contemplarmos naquela declaração «ecce homo» a apresentação d’Aquele que vem, com a Redenção, responder em conformidade com os desígnios da Criação. Assim, também, o confirma o Apocalipse (cf. 1, 7).

Também para nós, o coração se torna um “pretório” onde pode acontecer que Jesus seja, porventura, prisioneiro, se >O deixarmos ficar fechado nas nossas projeções psicológicas, transformando-O em ídolo. Já na proclamação da Palavra Ele é a verdade que nos liberta, se a resposta àquela pergunta («Que fizeste?») for: procurei fazer o bem a meu irmão, dando a vida por Ele, sabendo que é criatura de Deus tal como eu.

Aquelas duas perguntas formam as traves  rudes da cruz de cada um e, também, na sua versão gloriosa, as traves mestras da Cruz de Jesus. Daí que para servir a Deus («Que fizeste?») seja preciso aderir à Verdade («Onde estás?»).

[Oração] Sal 92 (93)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Para a missão vale mais o ardor no coração do que a euforia na boca

[Leitura] Ef 1, 11-14; Lc 12, 1-7

[Meditação] Se formos fazer uma “reportagem” à conduta de Jesus nas cenas evangélicas, iríamos para o “estúdio” da nossa reflexão com mais fotografias de gestos do que com gravações de áudio. É curioso que a gravação áudio de todo o Novo Testamento demora a escutar 24 horas, pausadamente e com música de fundo, como se pode comprovar pela edição portuguesa da “Bíblia Falada”. Daqui concluímos que, na maior parte do tempo da sua vida pública (3 anos), Jesus caminhou ao encontro das pessoas e realizou gestos salvíficos, acompanhados das essenciais palavras que lhe conferiam significado.

A vida do cristão poderá ser uma coisa diferente desta conduta de Jesus? Não. Não seria vida cristã!

Temo que, por vezes, o nosso empenho profético-litúrgico-social seja intitulado de testemunho, mas vazio de gestos significativos, apesar dos “slogans” motivacionais. Talvez porque falta a estes “slogans” a linguagem gestual que dê sentido, não à atividade em si, mas aos destinatários do Evangelho. Está provado que os “slogans” em excessso poderão constituir “atalhos” para uma via sem sentido, porque descentrada do caminho exigente da cruz. A este respeito, é curioso constatarmos como a maioria das frases com que encabeçamos as nossas atividades eclesiais não concretizam diretamente os conteúdos evangélicos, mas atiram setas para a sede emotiva das pessoas, como “setas de cupido”, com a consequente possibilidade da frustração.

Quando o Papa Francisco nos convidava para uma nova etapa evangelizadora (Evangelii Gaudium, 17), era para sermos evangelizadores com o Espírito de Deus! É este o ardor (e não outro) que nos permite tomar a cruz de todos os dias e seguir Jesus Cristo ao encontro dos irmãos. O ardor prova-se no coração quando surge o confronto entre o impulso evangelizador e o confronto com uma adversidade, que nos pede ultrapassar o medo, na tentativa de deixar transparecer a verdade.

Assim, é mais fácil um fósforo ser capaz de reunir gente mais livre e motivada à volta de uma conversa de lareira, do que a buzina de um altifalante de uma torre de igreja trazer uma multidão crente à Missa. Quanto não poderiam fazer as nossas “velas de Batismo” juntas?!

[Oração] Sal 32 (33)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Alma de discípulos, espírito de missionários!

[Leitura] Sab 7, 7-11; Sal 89 (90), 12-13. 14-15. 16-17; Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30

[Meditação] No filme “A Lista de Schindler” (Steven Spielberg, 1993), um empresário alemão de nome Oskar Schindler salvou a vida de mais de mil judeus durante o holocausto nazi ao empregá-los na sua fábrica e gastando a sua fortuna ao mantê-los vivos, quase se acabando o seu dinheiro (com que subornava os oficiais para não investigarem as áreas de produção) ao mesmo tempo em que o exército alemão se rende, encerrando a guerra. Quando recebe a notícia do final da guerra, como membro do partido nazista, ele teve de fugir do Exército Vermelho. Entretanto, um dos seus trabalhadores, antes de ele se ir embora, entrega-lhe um anel com uma inscrição a citar o Talmude: “Aquele que salva uma vida salva o mundo inteiro”. Declarava-lhe, assim, que não o achavam um criminoso. Mas ele, derrete-se em choro ao perceber que com o carro teria salvo mais 10 pessoas e com o “pin” nazi em ouro que tinha no casaco teria salvo, pelo menos, mais uma pessoa. Fica, entretanto, profundamente envergonhado por ter desperdiçado tanta riqueza na sua vida.

Oskar Schindler, com o seu vil dinheiro, conseguiu salvar aquelas 1100 vidas. Jesus Cristo, sem dinheiro nenhum, conseguiu salvar a humanidade inteira. Aquele nesta vida, Jesus para a vida eterna. Por isso, o verdadeiro seguimento de Jesus não está tanto no que se ganha por se cumprirem todos os mandamentos, mas no que se é capaz de deixar para se ganhar a vida verdadeira. Para evitar aquele como todos os holocaustos, não são precisos bens materiais, mas unicamente o ser humano capaz de vencer-se a si mesmo na posse desmesurada de fama, poder e bens materiais.

A simpatia que Jesus nutre por aquele homem (ou jovem rico) que O procura para tentar obter a vida eterna que tanto almeja precisa, pois, de ser provada pela seriedade humana quanto ao dar verdadeiro valor (não material) à vida que Ele tem para nos dar. Não é à toa que as congregações religiosas, no acolhimento de novos membros, fazem sempre o teste do desprendimento dos bens patrimoniais.

É a Palavra de Deus (viva e eficaz) o verdadeiro “bisturi” que nos consente de perceber, entre a alma e o espírito humanos, como se pode dar o verdadeiro salto de qualidade entre o mero discípulo ao consistente discípulo-missionário. Os bens deste mundo podem possibilitar muitas coisas na vida de um discípulo, mas este só será missionário, no espírito evangélico, se deixar Deus realizar o impossível!

[Oração] Oração Missionária:

Senhor Jesus,
desperta em nós
um olhar missionário,
ajuda-nos a escutar
o coração do outro
e a ver o teu rosto
nos irmãos.
Ajuda-nos a ser audazes,
afastando-nos
dos nossos medos
e preconceitos.
Queremos, como Tu,
viver a linguagem do amor
e servir mais
do que ser servidos.
Só Tu és o Caminho,
dá-nos a coragem de Te seguir
e de ser Igreja missionária
aonde nos levares.
Aqui estamos, Senhor,
porque acreditamos
que ser cristão é ser missão!
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo