A trágica presença do mal atestará sempre a benéfica imunidade do bem

[Leitura] Mt 13, 24-43

A liturgia deste XVI domingo do tempo comum vem-nos provar que o tempo que vivemos ainda não é o do juízo, mas da misericórdia. Ou seja: enquanto houver “tempo” haverá, da parte de Deus, a misericórdia. Porque será que o ser humano também não aprende a esperar a partir dessa atitude?

Há grandes artistas de palco nos grandes concertos que, para chegarem calmos no momento de começar a atuar, caminham para ele contando até 50, distraindo a atenção daquilo que lhes traz ansiedade que os perturba de ser bons artistas. Porque não contamos nós até 1000, na circunstância de caminharmos ao lado dos outros, distraindo as nossas mentes daquilo que nos leva a julgar de forma repentina? Assim, teremos oportunidade de ser mais humanos, considerando a complexidade de cada vida e procurando a dar valor ao que em cada pessoa é bom, para além de todos os defeitos que atrapalham as relações.

Jesus não nasceu neste mundo num trono de glória (onde agora está como Ressuscitado), mas por detrás do “pano” da existência terrena, dando-Se a conhecer aos mais frágeis como a face da misericórdia de Deus (com o título de “filho do homem) e contrapôs-Se diante de todos os que O quiseram acolher como “messias político”.

Com a sua vida terrana, Jesus indicou-nos o caminho e parece haver só uma maneira: amar e cuidar, tentar não acrescentar mais mal ao mal, mais violência à violência, mais doença à doença… mas quanto ao mal que já existe: ter paciência, no cumprimento do Evangelho e das normas de sanidade (física e mental). Celebrar juntos os sucessos quanto às curas que nos deixam ainda estar aqui por mais alguns tempos. E ser pacientes e misericordiosos. A paciência tudo alcança − é o que sabiamente diz o povo simples. E neste dito está resumida esta página do Evangelho.

A trágica presença do mal atestará sempre a benéfica imunidade do bem. Mesmo que, com critérios meramente humanos, quiséssemos erradicar todo o mal para nos “gloriarmos” do bem nesta terra, iríamos confrontar-nos sempre com o mal que no meio dele existe para o provar. Até pisarmos a outra “margem”… fora do tempo e do espaço. Podemos ver nesta parábola uma espécie de antídoto espiritual para todas as nossas dificuldades de vida e fé. Consta que, muito embora a origem do mal e do bem são diferentes, à nascença são muito parecidas, mas têm um resultado marcadamente diferente. Como dizia São Filipe de Néry: o homem, sozinho, não consegue fazer o mal… pensando que a origem do mal mais perigoso na vida de cada ser humano tem outra origem mais ampla. Assim, também não o conseguirá superar sozinho, mas coma ajuda e atenção dos outros.

Os “escapulários” e a subida do “monte” que é Cristo

[Leitura] Mt 11, 28-30

O Carmelo (ou Carmo) que os eremitas escolheram ao longo da história na Palestina para dedicar a vida à contemplação do mistério de Deus, sob a proteção de Nossa Senhora, é símbolo do “monte” que é Jesus Cristo. De facto, foi em lugares ermos que Jesus proferiu a sua mensagem mais importante, culminada com a doação da sua própria vida na Cruz. No séc. XII, alguns eremitas fundaram a ordem dos Carmelitas, entre os quais esteve São Simão Stock, como responsável geral. Ele recebeu das mãos de Maria o escapulário com a promessa de salvação a quem morresse vestido do mesmo.

Já sabemos que, para sermos salvos, não basta “vestir” símbolos do sagrado, mas, estar revestidos de Cristo através da prática das boas obras que nos são inspiradas pela Sua Palavra. O tecido que nos “veste” de salvação é feito daquele novelo de gestos que concretizam o Evangelho!

Gostaria de sugerir que o “escapulário”, para além de ser um distintivo pendente do pescoço sobre o peito e as costas, próprio de certas confrarias, fosse, de forma alargada, metáfora daqueles pequenos sinais que trazemos aos ombros do nosso dia-a-dia: o terço, as pulseiras identificativas de grupos e atividades cristãos e, até, os lenyards com o cartão de identificação dos acolhedores às portas das igrejas em tempo de pandemia. E porque não aqueles jaculatórias como a que digo desde pequenino: “Oh Virgem Santíssima não permitais que eu vive, nem morra em pecado mortal; em pecado mortal não hei de morrer, que a Virgem Maria me há de valer”.

Mais do que um “peso” de pertença a um grupo ou à repetição de certos ritos, o escapulário simboliza-me o abraço de Deus que cinge os nossos membros superiores, atraindo-nos para uma dinâmica de amor eterno.

O assoberbamento de qualidades pessoais face à insignificância dos defeitos dos outros

[Leitura] Mt 7, 1-5; 2 Reis 17, 5-8. 13-15a.18

[Meditação] Hoje, o Médico Jesus acolhe-nos numa consulta de oftalmologia, para nos ajudar a colocar no olhar uma graduação de “lente” muito importante: a que nos permite não projetarmos sobre os outros os defeitos pessoais, correndo o risco de assoberbarmos as qualidades pessoais, por vezes insignificantes, diante da real insignificância dos defeitos dos outros, que, para esconder os próprios, tendemos a aumentar nos outros.

No dicionário, “argueiro” é um cisco ou corpúsculo que se pode introduzir nos olhos, enquanto que “trave” é uma peça de madeira comprida. A metáfora fala por si e não precisa de explicação. O que é necessário é, diariamente, fazer o que está ao nosso alcance: um corajoso exame de consciência pessoal, que nos permita tender a ser mais condescendentes com os outros a partir de uma séria exigência pessoal. Sempre sabendo que Deus é paciente com todos!

Assim, também as instituições (sejam elas quais forem – sociais ou eclesiais) deixarão de funcionar menos como plataformas de que as pessoas se servem para expandir as referidas projeções pessoais, passando a funcionar melhor como ambientes de serviço para o bom desenvolvimento de todos. Afinal, do que se trata é da salvação da humanidade! Talvez esta consulta oftalmológica nos ajude reler a proposta do  Papa Francisco para “uma renovação eclesial inadiável” , onde não se perca tanto tempo com o pensamento à volta de teorias inúteis (que só servem a autoreferencialidade) e se passe a uma refletida mudança de estratégias (em favor de uma sadia alteridade):

Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de «saída» e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade. Como dizia João Paulo II aos Bispos da Oceânia, «toda a renovação na Igreja há-de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial».

— PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, n. 27

Dizer “sal” e “luz” com os segredos da Música!

[Leitura] 1 Reis 17, 7-16; Mt 5, 13-16

[Meditação] Hoje foi-me inspirado falar das metáforas evangélicas de “sal” e “luz” através de dois factos da música:

“Ser sal” é, para mim, semelhante à “vibração por simpatia”, em que um corpo musical reage harmonicamente à ressonância de outro instrumento musical. Assim, a força de que Jesus fala pode ser comparável à sensibilidade para vibrar. Vale muito, aqui, considerar o ditado popular “conforme se toca assim se dança”. De facto, não basta que o Evangelho fique fechado nas páginas da Bíblia ou do Lecionário; é necessário que seja proclamado e meditado. E mesmo isto não basta – é necessário que os seus valores sejam vividos ou testemunhados na prática, para que as pessoas que não conhecem o Evangelho-feito-carne que é Cristo possam ser salvas por Ele.

Daqui vem que, para mim, “ser luz” seja mostrar Cristo como, um dia, Feliz Mendelssohn Bartholdy (1809-1847) descobriu e divulgou ao mundo, novamente, as composições de J. S. Bach (1685-1750), que correram o risco de se perder, apesar de tão importantes para a época do Barroco. Conta-se, curiosamente, que Mendelssohn chegou a encontrar folhas de partituras de Bach a servir de embrulho para a carne na cozinha! Assim é a luz do Evangelho: não deve ficar fechada nas páginas de um livro grosso (a Bíblia!) a segurar os outros livros da prateleira (na pior das hiopóteses) ou a enfeitar numa das divisões da casa com o pó do tempo a cobrir as folhas inertes de vidas rotineiras, ignorando as as surpresas de Deus.

Seja como for: o meio mais (sobre)natural que me parece que Deus usa para Se acomodar aos nossos desajeitamentos de tempo e de espaço é o testemunho de uma pessoa que escuta e age segundo a Palavra, imitando o estilo de vida do Mestre, apontando para o eterno na própria carne.

A viúva de Sarepta invocava “jurava por Deus” para invocar a morte diante da falta de bens; o profeta Elias invocava a vida diante do poder de Deus diante da pobreza.

Que a nossa vida cristã não seja um mero trasladar de ossos, como acontece com uma memória de meros contos teóricos, mas o deixara que Deus ilumine a nossa experiência através da ressonância do seu Amor.

A proximidade do Reino de Deus é o amor feito ao próximo

[Leitura] Mc 12, 28b-34

[Meditação] É surpreendente (divino) que Jesus tenha acrescentado um segundo mandamento “semelhante” ao primeiro, afirmando que não havia mais nenhum superior a estes. Foi o próprio escriba que ficou surpreendido com essa junção, sendo levado a dar razão ao Mestre. Mas os mandamentos da Lei de Deus não são um mero objeto da razão; ou seja, não basta sabê-los de cor. É preciso praticá-los. É o praticar que prova que os sabemos a partir do coração (a partir de onde se gere a vontade) e não meramente a partir da mente (onde se gerem os conhecimentos).

A Venerável Madaleine Delbrêl (1904-1964) escreveu que «só através dos outros podemos devolver a Deus amor por amor», amar todos os homens «sem preferências, sem categorias, sem exceções», para não cairmos no perigo de que o segundo mandamento se transforme no primeiro. Seja como for: vale mais exagerarmos em misericórdia do que exagerarmos em legalismo. Exagerar neste, faz-nos querer substituir Deus; exagerar naquela faz-nos ganhar o que promete uma das bem-aventuranças proclamadas por Jesus: «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5, 7).

O «não estás longe do Reino de Deus» que Jesus oferece como resposta ao escriba é um repto para uma vida mais prática, quanto à caridade, e não tanto teórica. Os presentes entenderam isso, ao não terem coragem em interrogá-Lo mais. Jesus amou de uma forma humanamente divina. É possível e preciso imitá-Lo! E, como paira já nas redes sociais por aí fora, Ele não amava a religião, mas amava as pessoas! É isto que leva o Apóstolo Paulo a dizer a Timóteo, em nome da fidelidade ao Senhor: «é preciso evitar contendas de palavras, que não servem para nada, senão para a perdição dos que as ouvem…» São precisos operários, como também Santo António pregava: «Cessem as palavras e falem as obras».

Transmissões da Semana Santa na Sé de Viseu

Horários:
Domingo de Ramos: 11H
Quinta-Feira Santa (Missa da Ceia): 18H
Sexta-Feira Santa (Paixão do Senhor): 15H
Sábado Santo (Vigília Pascal): 21H
Domingo de Páscoa: 11H

O acolhimento da Palavra de Deus e o tipo de resiliência que permite vir a dar frutos

Na parábola do semeador (Mc 4, 1-20), acontece aquilo que leva o Papa Francisco a dizer que Jesus Cristo é o primeiro exegeta, afirnando que «Não só as Escrituras antigas tinham predito aquilo que Jesus havia de realizar, mas Ele próprio quis ser fiel àquela Palavra para tornar evidente a única história da salvação, que n’Ele encontra a sua realização» (cf. Aperuit illis, n.º 6). Podemos observar também este atributo de Jesus no caminho de Emaús, onde abre a mente dos discípulos, explicando-lhes as escrituras (cf. Lc 24, 13ss). Assim, quer neste caminho entre a realidade da ressurreição e uma mente fechada, quer na relação entre o antigo e o Novo Testamento, quer entre a multidão a que exorta em parábolas e o pequeno grupo de discípulos a quem explica o seu significado, não existe contradição, mas uma aproximação diferenciada que nos pode ajudar ainda mais a ser Igreja «em saída», através de um estilo afetivo que permita uma vinculação a Deus mais autêntica, uma vinculação às pessoas mais pacífica e uma vinculação a lugares mais realista e serena. Ler Mais

A compaixão, do fazer-se ao ser próximo

[Leitura] L 1 Deut 30, 10-14; Sal 68 (69), 14 e 17. 30-31. 33-34. 36ab-37 ou Sal 18 B (19), 8. 9. 10. 11 L 2 Col 1, 15-20 Ev Lc 10, 25-37

[Meditação] A dicotomia entre o ser e o fazer tem muito que se lhe diga, tendo em conta a ambiguidade da tensão entre essas duas dimensões do viver humano. Umas vezes sublinha-se a importância do ser em detrimento do fazer; outras vezes, contrariamente, eleva-se o fazer diminuindo-se a importância do ser. Porém, feitas bem as “contas”, na relação entre o ser e o fazer nunca pode haver cisões que obstaculizariam o seu equilíbrio em favor do objetivo com que se vive, ao encontro do horizonte que se espera ou pelo qual se deixa atrair. À reflexão sobre estas duas dimensões de uma operação ainda se pode juntar a consideração sobre a relação ente a realidade e a aparência ou as ideias. É curioso que o Papa Francisco, quando, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, fala da dimensão social da evangelização (cap. IV), refere que O tempo é superior ao espaço [222-225] A unidade prevalece sobre o conflito [226-230], A realidade é mais importante do que a ideia [231-233]O todo é superior à parte [234-237]. Percebe-se, na ordem lógica que as primeiras expressões (tempo, unidade, realidade e todo) prevalece em relação às segundas (espaço, conflito, ideia e parte); porém, na ordem cronológica, é muitas vezes a segunda que leva a considerar a importância das primeiras.

Um dos belos exemplos de boa síntese entre o ser e o fazer é a Regra de S. Bento, celebrado há pouco tempo na Liturgia (11 jul.), sintetizada na exressão “Ora et Labora” (reza e trabalha), dando lugar à primazia da graça de Deus no (des)equilíbrio do ser humano e do fazer que o desenvolve. As ordens religiosas tiveram sempre uma quota parte muito substancial de presença social no mundo, apesar de as suas comunidades serem muitas vezes vistas como “fechadas”. Mas perguntemo-nos: será por fazermos muitas coisas que estamos muito presentes na vida das pessoas? Por outro lado: as nossas divagações espirituais ou inquestionáveis rotinas tradicionais terão alguma concretização prática na resposta aos problemas humanos deste tempo?

Por isso (e por mais coisas que não cabem neste pequeno artigo), uma verdadeira compaixão há de ter muito de doutrina e muito de prática, mas, sobretudo, tem de ser um sentir como o Mestre as coisas do Pai e as coisas do mundo. À luz do exemplo de Jesus, não é bom vivermos a vida a questionar o que vem primeiro − se o ser se o fazer; se a teoria se a prática, como se da relação entre o ovo e a galinha se tratasse −, mas há que viver na relação de cumplicidade com o ser de Jesus e o estar no mundo. Assim, o fazer será sempre um ensaio acessório que favorecerá um ser cada vez mais conforme o desígnio de Deus para com todas as suas criaturas, quanto ao horizonte de vida eterna que Ele nos prometeu.

Ser próximo dos que mais precisam há de ser um ponto de chagada de muitas tentativas operativas que, projetadas e avaliadas em espírito de comunhão, levarão a algum porto onde o Mestre espera para dizer: «muito bem servo bom e fiel». É isto que parece estar a acontecer com o barco-hospital Papa Francisco, no rio Amazonas, juntamente com muitos milhares de iniciativas que a comunicação social não publicita, para dar espaço ao aparente sucesso do fazer em detrimento da plenitude do ser a que somos chamados.

As 3 liberdades do seguimento de Cristo

[Leitura] L 1 1 Reis 19, 16b. 19-21; Sal 15 (16), 1-2a e 5. 7-8. 9-10. 11 L 2 Gal 5, 1. 13-18 Ev Lc 9, 51-62

[Meditação] O caminho de fé aberto por Jesus é o resultado da declinação das 3 liberdades:

1ª – Ser livre quanto ao horizonte longínquo:
Quanto mais “ancorado” o sonho de vida estiver no horizonte que é a vida eterna, com os valores revelados como potenciadores dessa vida eterna, mais livre será a pessoa no que toca às coisas terrenas e na forma de ligar com elas, incluindo as criaturas. Para Jesus foi Jerusalém; qual é a “Jerusalém” de cada um de nós? Para isso, é preciso relativizar tudo o que nos “sedentariza” a alma («as raposas têm as suas tocas…»). Os discípulos de Emaús tiveram a tentação de fugir deste horizonte tentando regredir à sua infância. Manos mal que lhes apareceu o Ressuscitado no meio do caminho.

2ª – Ser livre quanto às circunstâncias do caminho:
Quer chova, quer faça sol; quer morra alguém que afinal já está no Reino para o qual Jesus nos quer dirigir… «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos…». Jesus não nos proíbe de fazer o luto. O problema é se, por causa do sofrimento da perda (nos casos mais delicados um estresse pós-traumático com o qual é preciso reaprender a viver), podemos perder de vista aquele horizonte longínquo que se revela já aqui. Há circunstâncias que nos podem prender ao efémero, não deixando que se dêem passos decisivos. Uma das frases que se vê por aí escrita em autocarros é «A mudança que você quer está na decisão que você não toma». Que nada, nem ninguém nos possa dificultar tomar uma decisão que é fruto de um verdadeiro discernimento iluminado pela vontade de Deus e o seu Espírito de Amor, a partir da referência que é Jesus Cristo.

3ª – Ser livre quanto aos laços com o passado:
A provocação «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás…» mostra-nos como Jesus estava muito à frente do Antigo Testamento (no qual Elias deixa que Eliseu faça boda e se despeça…). Hoje, também está muito à frente da Igreja, pois está no Reino Glorioso de onde nos atrai. O seu chamamento continua a ser “escandaloso”. Como disse S. Paulo, «Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou». E com o salmista rezamos: «O Senhor é a minha herança»! A vida de cada um e de cada uma ganha sempre um novo fôlego, quando cada pessoa consente de que Deus lhe mostre a sua originalidade. Ninguém é obrigado a ser cópia de alguém (já basta a carga genética). Quanto ao projeto de vida, ele é tanto mais feliz, quanto original, mesmo precisando do apoio da família e da comunidade/sociedade.

[Oração] Irving “Francis” Houle, um leigo “agraciado” com os estigmas da Paixão do Senhor, rezava assim:

Oh, meu Jesus!
Meu coração pesa tanto!
O que Tu carregas é pesado demais para mim.
Deixa-me, Jesus meu, carregar um pouco a Tua cruz, só para saberes que eu me importo.
Olha para mim, Senhor amado, com os olhos da Tua misericórdia.
Que a Tuas mãos curadoras estejam sobre mim.
Se for a Tua vontade, dá-me saúde, força e paz.
Amém.

 

(cf. https://pt.aleteia.org/2018/01/16/um-homem-comum-com-esposa-filhos-e-os-estigmas-da-paixao-de-cristo/)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O Espírito do Pentecostes é como uma “pomba doméstica” que não regressará sozinha

[Leitura] L 1 Act 2, 1-11; Sal 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34 L 2 1 Cor 12, 3b-7. 12-13 ou Rom 8, 8-17 Ev Jo 20, 19-23 ou Jo 14, 15-16. 23a-26

[Meditação] De facto, uma das tendências mais delicadas do ser humano, no seu desenvolvimento para a adultez é a de fazer “ninhos” (na psicologia = nidificação), criar laços de segurança, relações que garantam o sentido de pertença. Porém, sem questionamentos e avaliação desses mesmos laços ou relações, verificando se eles estão a cumprir o objetivo, que não é só o de uma felicidade estável, mas também o crescimento da pessoa, o “ninho” vem-se a revelar um gerador de inconsistências.

O caminho inédito aberto por Jesus não se detém nas preferências humanas, cuja tendência é a da homologação de consciências, mas a abertura ao transcendente que surpreende. Por ocasião da celebração do Pentecostes, o Papa Francisco disse que «sem o Espírito, a Igreja é uma organização, a missão é propaganda, a comunhão é um esforço». Pois, a missão da Igreja neste mundo não é enraizar-nos nele, mas apontar-nos sempre o horizonte para o qual nos impele o sopro do Espírito Santo.

Ora, a Palavra proclamada no Pentecostes inspira-nos a viver num modo dinâmico, favorecendo com as faculdades humanas bem sincronizadas (afeto, inteligência e vontade) a pertença a um corpo místico, cuja cabeça é Cristo, que agora está à direita de Deus Pai. Se este corpo estiver bem conjunturado, tudo concorre para que a sua missão obedeça aos desígnios de Deus Pai, como Jesus, na sua vida terrena, fez.

É estranho pensar como na Igreja possa haver estruturas que sejam desproporcionais na sua forma de atuar e no seu objeto, sem discernimento eclesial, de modo que a fazer contemplar a Igreja como um “mutante”. Pode um corpo saudável ter duas mãos de tamanhos diferentes? Pode entre os pés não haver a simetria que lhe permite um andamento equilibrado? Podem os ouvidos ser de tal maneira abertos que diminuam a função dos olhos e da boca? Pode a língua dizer palavras que não se entendam? Então, não faz sentido os “crentes” viverem como se a função da Igreja na terra fosse somente a sua autorreferencialidade e não tendesse para o Reino de Deus.

O ser humano, por vezes, projeta no caminho de fé os seus distúrbios, sendo estes o “voo” não vigiado dos seus mecanismos de defesa, sobretudo aqueles não adaptativos à nova realidade do Reino que o Senhor Jesus no veio anunciar. “Joguemos” com o humor e a antecipação, aqueles mecanismos que, se usamos com equilíbrio e coragem (sem medo), nos permitirão relativizar as coisas da terra, para darmos valor às coisas que o Espírito Santo nos recordará, permitindo-nos o regresso àquela eterna Fonte, no apeadeiro definitivo da eternidade.

[Oração] Sequência do Pentecostes:

Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

 

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

 

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

 

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

 

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

 

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

 

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

 

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

 

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

 

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo