L 1: At 14, 5-18; Sl 113 B (114), 1-2. 3-4. 15-16; Ev: Jo 14, 21-26
Há várias causas de desumanização dos seres humanos. E não são só os vários tipos de miséria (material, moral e espiritual, como nos elucidou o Papa Francisco na Mensagem para a Quaresma em 2014). A tendência a idolatrar o ser humano ou de este se auto-divinizar também desumaniza. A plausível “divinização” só pode acontecer pela santificação que é obra de Deus, pela sua inabitação no seu humano, conforme este tiver a destreza de imitar o que Deus faz, realizando o que Deus manda (co-mmandments). Para isso, o ser humano é convidado, também, a fugir da indiferença do seu semelhante, vendo nele imagem de Deus e servindo-o.
A liturgia da Palavra, nestes últimos dias, tem-nos convidado a contemplar, por um lado, a relação chamada “pericorética” entre as três Pessoas da Santíssima Trindade, pela intimidade que Jesus nos tem revelado com o Pai, no Espírito Santo, e, por outro, as dificuldades que Paulo e os seus companheiros têm sentido e sofrido nas suas viagens apostólicas. A este respeito, temos visto duas posturas diante dos apóstolos: uns procuram maltratá-los, outros querem endeusá-los. No fundo, pode estar em causa a desconsideração do ser humano como sujeito de uma relação de intimidade com Deus, que se revela, e instrumento do amor revelado para os outros.
Dito por outras palavras: quer o maltrato do ser humano, quer o seu endeusamento têm por base uma falta de fé na revelação que Deus faz de Si, em Jesus Cristo, através do Espírito Santo.
O Evangelho convida-nos, também, a aprofundar o tema da “inabitação” de Deus no ser humano. Judas (não o Iscariotes) pergunta a Jesus «como é que Te vais manifestar a nós e não ao mundo?», ao que o Mestre lhe responte «Quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada». Numa dissertação disponível on-line, de IRMA GUARNIERI, com o título O Mistério da Inabitação Divina em Ir. Elisabete (Isabel) da Trindade, lemos:
Inabitação traduz a ideia da presença amorosa de Deus, do intenso e vivificante estar de Deus na pessoa humana. Constitui a forma de presença mais profunda no sentido da personalização da relação de Deus com o ser humano no mundo. O conceito teológico da Inabitação enuncia o modo específico do cristão se relacionar com a Trindade. É a presença de Deus Pai, Filho e Espírito Santo no crente. Deus torna-o participante da vida divina trinitária em um intercâmbio de entrega mútua. É o próprio Deus que se comunica à criatura.
Depois, a autora acrescenta que «na perspectiva da revelação, a Inabitação aparece não tanto como cimo da vida espiritual, mas, como fonte e raiz da mesma. É a compreensão essencialmente trinitária e pneumatológica da fé cristã». Quer isto dizer que a presença gratuita de Deus na sua criatura não é algo que tenha que ver com estudos ou títulos, mas é da suma vontade de Deus. A resposta de Jesus a Judas clarifica mesmo aquilo que a soteriologia diz ser a graça suficiente de Deus: é gratuita para todos. Tem tem que ver com “castas”, nem é só para alguns escolhidos. Precisa é de ser transmitida, para que muitos possam ter acesso a essa graça e possam atrever-se a viver o mandamento de Deus, que é adorá-lo a Ele amando os irmãos.
No “Isto é gozar com quem trabalha”, Ricardo Araújo Pereira entrevista aluna que tira 20 a tudo e que vai à NASA, a Lua que, em tom humorístico, disse ao entrevistador: «Quando eu era mais nova idolatrava-o, depois cresci». Este exemplo pode mostrar-nos como a idolatria denuncia sempre um estádio pueril do desenvolvimento humano, compreensível ou até aceitável quando a pessoa ainda não tem todas as coordenadas e rédeas para empreender a vida com protagonismo e liberdade. Mas menos compreensível e aceitável quando se é adulto, levando a diagnosticar uma falta de crescimento pessoal e relacional. São felizes aqueles que dão conta disso e se responsabilizam pelo seu desenvolvimento humano integral. Hoje é sabido que o maior tipo de inteligência é a metacognição (ter consciência de que se sabe) e ela começa no facto de se ter a consciência de que não se sabe tudo. Patológico seria não se saber que não se sabe.
Por isso, precisamos sempre do Espírito Santo que Deus Pai nos deu de antemão e sem condições através de Jesus Cristo, como ponto de partida nesta aventura da vida. Há que aceitá-lo livremente e que pedi-lo quando perdemos algumas coordenadas.
