Para a missão vale mais o ardor no coração do que a euforia na boca

[Leitura] Ef 1, 11-14; Lc 12, 1-7

[Meditação] Se formos fazer uma “reportagem” à conduta de Jesus nas cenas evangélicas, iríamos para o “estúdio” da nossa reflexão com mais fotografias de gestos do que com gravações de áudio. É curioso que a gravação áudio de todo o Novo Testamento demora a escutar 24 horas, pausadamente e com música de fundo, como se pode comprovar pela edição portuguesa da “Bíblia Falada”. Daqui concluímos que, na maior parte do tempo da sua vida pública (3 anos), Jesus caminhou ao encontro das pessoas e realizou gestos salvíficos, acompanhados das essenciais palavras que lhe conferiam significado.

A vida do cristão poderá ser uma coisa diferente desta conduta de Jesus? Não. Não seria vida cristã!

Temos que, por vezes, o nosso empenho profético-litúrgico-social seja intitulado de testemunho, mas vazio de gestos significativos, apesar dos “slogans” motivacionais. Talvez porque falta a estes “slogans” a linguagem gestual que dê sentido, não à atividade em si, mas aos destinatários do Evangelho. Está provado que os “slogans” em excessso poderão constituir “atalhos” para uma via sem sentido, porque descentrada do caminho exigente da cruz. A este respeito, é curioso constatarmos como a maioria das frases com que encabeçamos as nossas atividades eclesiais não concretizam diretamente os conteúdos evangélicos, mas atiram setas para a sede emotiva das pessoas, como “setas de cupido”.

Quando o Papa Francisco nos convidava para uma nota etapa evangelizadora (Evangelii Gaudium, 17), era para sermos evangelizadores com o Espírito de Deus! É este o ardor (e não outro) que nos permite tomar a cruz de todos os dias e seguir Jesus Cristo ao encontro dos irmãos. O ardor prova-se no coração quando surge o confronto entre o impulso evangelizador e o confronto com uma adversidade, que nos pede ultrapassar o medo, na tentativa de deixar transparecer a verdade.

Assim um fósforo é capaz de reunir mais gente livre à volta de uma conversa de lareira, do que a buzina de um altifalante na torre de uma igreja hoje trará uma multidão à Missa.

[Oração] Sal 32 (33)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

São Lucas: permanecer fiel para estar/ir em missão

[Leitura] 2 Tim 4, 9-17b; Lc 10, 1-9

[Meditação] Escreveu-nos o Papa Francisco, na sua Mensagem para o Dia Mundial das Missões (21 out. 20118):

A Igreja, ao anunciar aquilo que gratuitamente recebeu (cf. Mt 10, 8; At 3, 6), pode partilhar convosco, queridos jovens, o caminho e a verdade que conduzem ao sentido do viver nesta terra. Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, oferece-Se à nossa liberdade e desafia-a a procurar, descobrir e anunciar este sentido verdadeiro e pleno. Queridos jovens, não tenhais medo de Cristo e da sua Igreja! Neles, está o tesouro que enche a vida de alegria. Digo-vos isto por experiência: graças à fé, encontrei o fundamento dos meus sonhos e a força para os realizar. Vi muitos sofrimentos, muita pobreza desfigurar o rosto de tantos irmãos e irmãs. E todavia, para quem está com Jesus, o mal é um desafio a amar cada vez mais. Muitos homens e mulheres, muitos jovens entregaram-se generosamente, às vezes até ao martírio, por amor do Evangelho ao serviço dos irmãos. A partir da cruz de Jesus, aprendemos a lógica divina da oferta de nós mesmos (cf. 1 Cor 1, 17-25) como anúncio do Evangelho para a vida do mundo (cf. Jo 3, 16). Ser inflamados pelo amor de Cristo consome quem arde e faz crescer, ilumina e aquece a quem se ama (cf. 2 Cor 5, 14). Na escola dos santos, que nos abrem para os vastos horizontes de Deus, convido-vos a perguntar a vós mesmos em cada circunstância: «Que faria Cristo no meu lugar?»

Pois, tanto o Sumo Pontífice como Paulo relatava no texto proclamado hoje da sua Carta aos Gálatas, nos ajudam a ver como também os evangelizadores de hoje, por vezes, se sentem sozinhos e abandonados. Mas esta solidão e abandono não são razão para desistências, mas “lugar” para oportunidades. Estas implicam, porém, a capacidade para aprender a “gerir” estes momentos com o que de mais importante o apóstolo tem para (sobre)viver: a fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo. É desta fidelidade que todos os verdadeiros discípulos partem para a missão.

Também hoje o Papa e os Bispos partem da fidelidade a Jesus (e não meramente das suas terras de proveniência física). E é essa fidelidade à Verdade que, por vezes, os faz sentir sozinhos e abandonados por aqueles que pensam que a Igreja é meramente uma instituição terrena. De perto e ao longe, os Bispos vão afirmando a sua união com o Papa, como aconteceu com a Carta ao Papa Francisco. Porque não fazerem o mesmo os paroquianos ao seu pároco, os filhos aos seus pais, os catequizandos ao seu catequista, etc.? Porque, por vezes, a Verdade que alguém transporta na sua debilidade fica encarcerada na prisão do preconceito de muitos. Precisa de ser liberta com a solidariedade dos fiéis, ainda que de poucos!

[Oração] Sal 144

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A árvore que dá os frutos do Espírito está enraizada no Céu

[Leitura] Gal 5, 18-25; Lc 11, 42-46

[Meditação] Deixarmo-nos conduzir pelo Espírito, como S. Paulo nos sugere, não está em cumprirmos meramente as tradições humanas, que por vezes são con-tradições em relação à vida nova que nos é oferecida nos Seus frutos. Viver os Seus dons é ancorar a vida no Céu e não na terra, porque esta mensagem não foi nenhum homem que a inventou, mas Deus que no-la fez “chover” em Jesus Cristo, no Espírito de Amor. Por isso, não basta a lei (embora esta ainda seja precisa), mas é preciso dar espírito (fogo) à mesma para que ela nos “semeie” no Céu.

Por isso, «viver segundo o Espírito» é «caminhar no Espírito», saindo de nós mesmos ao encontro daquela imagem de perfeição que Deus Pai idealizou para cada um dos seus filhos e filhas. Por isso, a vida cristã não trata de impor «fardos», mas de propor caminhos de encontro ao grande Caminho de Salvação que é Cristo. O Filho assumiu-Se como Filho do homem, para nos ajudar a percorrer o caminho até ao horizonte onde estão ancoradas as nossas vidas, onde nos reconheceremos em Deus muito para além da “roupagem” com que nesta terra somos (in)vestidos. Aqui na terra, todas as leis hão de ser revistas, porque subsidiárias da única Lei que não será revista: a do Amor a Deus e ao próximo como a nós mesmos.

[Oração] Sal 1

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Alma de discípulos, espírito de missionários!

[Leitura] Sab 7, 7-11; Sal 89 (90), 12-13. 14-15. 16-17; Hebr 4, 12-13; Mc 10, 17-30

[Meditação] No filme “A Lista de Schindler” (Steven Spielberg, 1993), um empresário alemão de nome Oskar Schindler salvou a vida de mais de mil judeus durante o holocausto nazi ao empregá-los na sua fábrica e gastando a sua fortuna ao mantê-los vivos, quase se acabando o seu dinheiro (com que subornava os oficiais para não investigarem as áreas de produção) ao mesmo tempo em que o exército alemão se rende, encerrando a guerra. Quando recebe a notícia do final da guerra, como membro do partido nazista, ele teve de fugir do Exército Vermelho. Entretanto, um dos seus trabalhadores, antes de ele se ir embora, entrega-lhe um anel com uma inscrição a citar o Talmude: “Aquele que salva uma vida salva o mundo inteiro”. Declarava-lhe, assim, que não o achavam um criminoso. Mas ele, derrete-se em choro ao perceber que com o carro teria salvo mais 10 pessoas e com o “pin” nazi em ouro que tinha no casaco teria salvo, pelo menos, mais uma pessoa. Fica, entretanto, profundamente envergonhado por ter desperdiçado tanta riqueza na sua vida.

Oskar Schindler, com o seu vil dinheiro, conseguiu salvar aquelas 1100 vidas. Jesus Cristo, sem dinheiro nenhum, conseguiu salvar a humanidade inteira. Aquele nesta vida, Jesus para a vida eterna. Por isso, o verdadeiro seguimento de Jesus não está tanto no que se ganha por se cumprirem todos os mandamentos, mas no que se é capaz de deixar para se ganhar a vida verdadeira. Para evitar aquele como todos os holocaustos, não são precisos bens materiais, mas unicamente o ser humano capaz de vencer-se a si mesmo na posse desmesurada de fama, poder e bens materiais.

A simpatia que Jesus nutre por aquele homem (ou jovem rico) que O procura para tentar obter a vida eterna que tanto almeja precisa, pois, de ser provada pela seriedade humana quanto ao dar verdadeiro valor (não material) à vida que Ele tem para nos dar. Não é à toa que as congregações religiosas, no acolhimento de novos membros, fazem sempre o teste do desprendimento dos bens patrimoniais.

É a Palavra de Deus (viva e eficaz) o verdadeiro “bisturi” que nos consente de perceber, entre a alma e o espírito humanos, como se pode dar o verdadeiro salto de qualidade entre o mero discípulo ao consistente discípulo-missionário. Os bens deste mundo podem possibilitar muitas coisas na vida de um discípulo, mas este só será missionário, no espírito evangélico, se deixar Deus realizar o impossível!

[Oração] Oração Missionária:

Senhor Jesus,
desperta em nós
um olhar missionário,
ajuda-nos a escutar
o coração do outro
e a ver o teu rosto
nos irmãos.
Ajuda-nos a ser audazes,
afastando-nos
dos nossos medos
e preconceitos.
Queremos, como Tu,
viver a linguagem do amor
e servir mais
do que ser servidos.
Só Tu és o Caminho,
dá-nos a coragem de Te seguir
e de ser Igreja missionária
aonde nos levares.
Aqui estamos, Senhor,
porque acreditamos
que ser cristão é ser missão!
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

The ‘Bolsonaro’ Effect (mais do mesmo porquê?)

Muitos nos perguntamos porque foi ganhar o Bolsonaro a primeira volta das eleições presidenciais no Brasil, assim como nos perguntamos porque foi ganhar o Trump nos Estados Unidos. (Já não perguntamos porque ganhou o Costa as eleições para a governação de Portugal, porque já sabemos!). Ouso chamar a este efeito de “Bolsonado”, parafraseando o título da série televisiva “The Carbonaro Effect” que se presta, com uma câmara escondida, a apanhar os desprevenidos com brincadeiras, utilizando as artes mágicas (cf. Sic Radical).

Provavelmente não estamos a colocar as perguntas certas. E se perguntássemos, antes: − Porque será que as multidões andam a seguir estes candidatos à presidência ou governação? − Porque é que candidatos cristãos não se aguentam consistentemente na realização do poder político ao mais alto nível? − Porque será que ações políticas de longo alcance perdem diante de promessas de curto alcance? − Onde estão as ações consequentes da doutrina pregada durante tantos anos na consequência prática do viver dos que creem em Deus (ou dos postulados éticos para os que só professam o humanismo)?

Certamente há bons cristãos na política, mas que ao mais alto nível não se conseguem aguentar porque se sentirão sozinhos. Mas não é só na política…! Este vídeo sobre o pensamento de Hannah Arendt pode elucidar-nos sobre como, na política, os seres humanos tendem a deixar de ser pessoas com pensamento próprio, deixando acontecer o contrário daquele objetivo que a política deveria servir: o bem de toda a humanidade.

Enquanto alguns cristãos, inclusivamente católicos, andam a perder-se em questões minimalistas, por exemplo tentando provar a personificação do demónio, alguns andam a emprestar-lhe, com ações totalitaristas, todos os seus esforços pessoais. Com grande inteligência o Papa Bento XVI já tinha definido aquele “demónio” como “não pessoa”, porque caracterizado como “não-relação”. Ou seja, esse espírito maligno não pode ser pessoa, mas possuir pessoas, roubando-lhes a capacidade de pensar por si próprias e de agir em conformidade com o bem. O que está a acontecer na sociedade parece-me que não é consequência de extremismos políticos (de esquerda ou de direita), mas de uma extrema pobreza (entre crentes e não crentes) na educação, a todos os níveis, do ser humano.

Falta muita formação. Cesse o sacramentalismo estéril (celebrando-se os Sacramentos com o respeito reverencial que eles merecem como ações de Cristo). Dê-se início a uma nova era de profecia (re)fundada no Evangelho, com uma atrativa e permanente catequese de adultos! Com esta formação das consciências e vontades talvez nos possamos desviar dos malabarismos de alguns que já está à vista de todos nos ecrãs das nossas TVs e Computadores, com entretenimento que virá a sair caros para todos. É preciso reencontrar o equilíbrio entre os totalitarismos e os minimalismos. Penso que o Papa Francisco nos quer apoiar na direção deste equilíbrio. Jesus terá iniciado a sua experiência terrena por aí…

O Reino de Deus não se conquista, mas recebe-se e partilha-se com total igualdade de deveres e direitos (não de género)

[Leitura] Gen 2, 18-24; Hebr 2, 9-11; Mc 10, 2-16

[Meditação] Na Liturgia da Palavra deste XXVIII domingo do tempo comum não me foi fácil orientar a reflexão homilética, uma vez que há a tendência para nos fixarmos nos temas mais delicados da emergência relacional, como o cuidado para com os Matrimónios na eventualidade do divórcio. No entanto, como o Evangelho é sempre aquele tesouro onde um pai de família pode ir buscar coisas novas e coisas velhas (cf. Mt 13, 52), ousei apontar o foco da atenção para outro objeto: as mulheres e as crianças que, no tempo de Jesus, assim como no nosso tempo em certas regiões e circunstâncias, carecem que se lhes faça verdadeira justiça.

Antes, até, que o divórcio que Moisés autorizou às mulheres por causa da dureza do coração dos homens (porque estes as tinham como escravas, cf. Dt 24,1-4), chamou-me à atenção o “divórcio” que os discípulos estavam a correr o risco de provocar entre os mais pequeninos e o Reino de Deus, como se este fosse meramente uma coisa “de adultos” ou de gente ilustradamente bem comportada. Jesus não usou metáforas! Quebrou as fronteiras que relacionais que lhes estavam a ser impostas, para declarar, sem redundâncias: «Quem não acolher o reino de Deus como uma criança não entrará nele».

Pela tendência masculinizante da leitura das Sagradas Escrituras, ainda muito imposta pela cultura paternalista, corremos o risco de impor à sequela de Cristo um “caderno de encargos” exclusivo de características impostas pelo homem. Na verdade, como ele é apresentado por Jesus, o Reino de Deus é totalmente gratuito e é “de Deus”. Ele dá-o a quem quiser! Se assim não fosse, já não seria totalmente d’Ele. E Jesus declarou bem-aventurados os que padeciam de alguma coisa e não os que eram fortes em tudo! É aqui que insiro a questão do divórcio que, na Igreja, encontra sua versão correspondente à de Deuteronómio (24, 1-4) na atual e infelizmente cada vez mais frequente possibilidade de declaração de nulidade. Na verdade, é muitos casais pobres de consumação psíquica e espiritual do seu “matrimónio”, para além da eventual consumação física e da ratificação ritual e social. Perguntemos: São só bem-aventurados os “bem casados” (que o são por transportarem a sua cruz e seguirem Jesus neste estado de vida não isento de sofrimentos e lutas)? Ou, sê-lo-ão, também, aqueles que, sendo pobres em espírito ou perseguidos de alguma maneira, não chegam a conseguir consumar uma relação até ao seu auge espiritual sacramental, tendo em conta o seu modelo: a relação de Cristo com a Igreja? É por isso que o Papa Francisco avisa que «O sacramento do matrimónio não é uma convenção social, um rito vazio ou o mero sinal externo dum compromisso. O sacramento é um dom para a santificação e a salvação dos esposos, porque “a sua pertença recíproca é a representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo com a Igreja». E, ainda que não se possa requerer que os esposos imitem totalmente a relação de Cristo com a Igreja, «O matrimónio é uma vocação, sendo uma resposta à chamada específica para viver o amor conjugal como sinal imperfeito do amor entre Cristo e a Igreja. Por isso, a decisão de se casar e formar uma família deve ser fruto dum discernimento vocacional» (AL 72).

Concluindo, não estamos em tempos de impor legalismos. Estamos em tempos da urgências de exemplos de seguimento, na missão da Igreja!

[Oração] Sal 127 (128)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A vida cristã não é o jogo do monopólio da verdade!

[Leitura] Num 11, 25-29; Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43. 45. 47-48

[Meditação] Começo esta reflexão com a confissão de formador para o sacerdócio ministerial, que poderá ser alargada ao ser da Igreja, chamada a ser pedagoga e mãe que ajuda a caminhar para o Reino:

Na formação dos adolescentes e jovens para o sacerdócio, sempre que é difícil caminhar ao lado deles (por causa da falsa ambição de muitos afazeres pastorais) deste a imaturidade humana e cristã à aquisição de uma melhor vivência dos valores do ser padre, dei-me conta de que, institucionalmente, o mais fácil era defendermo-nos com o regulamento da comunidade, passando a pautar o (não) crescimento  pela atenção à observância das normas prescritas que nos ajudasse a avaliar o caminho e as etapas. No final, corremos o risco de ter um melhor ou pior cumpridor, em vez de uma afetiva configuração com Cristo Sacerdote.

Penso que é a mesma tendência da Igreja, quando dá mais importância às leis canónicas que às pessoas no seu caminho na busca da verdade, como se todos tivéssemos de o fazer desde os mesmos pressupostos existenciais. Se calhar, também se correm estes riscos da educação dos filhos nas famílias… Ora, aconteceu o mesmo na história: independentemente das filosofias ou pontos de vista com que se possa observar o acontecimento, a Inquisição teve lugar quando, de alguma forma, a eclesiologia falhou. Com esta afirmação pretende esclarecer-se o seguinte: quando, ao longo da história, foi necessário uma disciplina mais rígida para corrigir certos erros, não é só porque o mundo é mau… (ou qualquer outro “bode expiatório” para onde se queira transferir a responsabilidade dos maus atos humanos); mas, também, de algum modo, a missão da Igreja enfraqueceu, no que toca à evangelização com base na boa nova de Jesus.

Os discípulos de Jesus, com o desejo de ter monopólio sobre Ele, correram sempre este risco ao longo da história. O conhecimento teórico sobre a identidade divina de Jesus foi-se esclarecendo ao longo do estudo ou aprofundamento da fé. Mas, apesar dos instrumentos cada vez mais interdisciplinares, não é fácil passar dessa afirmação «tu és o Messias de Deus» à aceitação de que também façam parte do projeto de Jesus aqueles que não fazem parte na nossa versão institucional do ser Igreja. E facilmente, ao banirmos a possibilidade de que outros também preguem sobre Cristo ou exorcizem em nome dEle, acabamos por banir o próprio Cristo na sua identificação com os pobres e indigentes, segundo o espírito das bem-aventuranças.

Por isso, Jesus, desta vez a João, diz: «Não o proibais (…). Quem não é contra nós é por nós». No que toca à vida cristã, o caminho sinodal é o da comunhão de diferenças. No que toca à formação sacerdotal, o resultado que é o padre em missão será fruto de um caminho feito de síntese vocacional entre as vivências históricas de cada um e os valores que configuram com Cristo Sacerdote (e não a mera aspiração a estes valores, pela importância do modelo da incarnação). Para o seu projeto de salvação Deus quer contar com todos os de dentro e os de fora do Cristianismo, desde que não sejam contra o seu desígnio de amor eterno para todos.

[Oração] Sal 18 (19)

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Jesus é o “mostrador” da bondade infinita do Pai no “tic-tac” frenético da vida

[Leitura] Co 3, 1-11; Lc 9, 18-22

[Meditação] Ao escutarmos a leitura do Eclesiastes, temos a impressão de estarmos a ouvir o pêndulo de um grande relógio de sala, com a descrição do suceder das circunstâncias do tempo que nos é dado viver nesta terra: “Tem…..po. Tem……po. Tem…..po. …” (Parece, ou não, o bater do martelo no sino?!) Esta descrição sábia, mesmo sendo rica nos pormenores do que parece ser uma variedade das experiências que compõem os anos que nos é dado viver, não deixa de nos suspender diante da infinito poder criador de Deus, sem o qual nos sentimos remetidos como que a um labirinto temporal.

Na sua incarnação, o “Messias de Deus” veio ser como que o “mostrador” do Pai. Imagino que foi assim que Pedro O viu, no pêndulo das (falsas) esperanças em que os seus contemporâneos buscavam ver o messias. Por isso, seguir Jesus e transmiti-lo na missão da Igreja, poderá ser a experiência de sair do mero “tic-tac” voraz para o qual nos remete um mero ativismo temporal, para uma nova experiência em que o céu se abre a partir do dom que fazemos das nossas vidas, quando aceitamos viver como Jesus viveu, numa versão completa do tempo que antecipa e integra, desde já, a eternidade.

[Oração] Sal 143 (144)

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Alguma perplexidade é-nos útil para procurarmos a novidade de Jesus

[Leitura] Co 1, 2-11; Ev Lc 9, 7-9

[Meditação] Não eram só Pedro e os outros discípulos que tinham “provas” de que Jesus era o Messias de Deus, pelas coisas que presenciavam nEle. Pela negativa, também Herodes tinha provas de que Ele não era João Batista, a quem tinha mandado decapitar. Este Tetrarca vivia uma perplexidade que poderia ser muito útil aos atuais cristãos, ainda que não partam (de todo) do seu estado de vida dissoluta.

Na Igreja há o que podemos chamar de “santa perplexidade”, quando constatamos que, apesar de há dois mil anos Jesus ter vindo à terra e, depois de muitas mudanças epocais e até de era, ainda há vícios entre os cristãos que era suposto serem atribuídos a pagãos. Como diz o autor do Eclesiastes, parece que nenhuma memória ficou dos tempos antigos. Até os cristãos católicos da Idade Média parecem pensar que a única inspiração para a renovação da Igreja tem de regressar a essa média idade!

Tenho perplexidade em pensar que se Jesus nascesse e vivesse hoje teria de nascer, não entre os paninhos de uma casa pobre, mas nuns lençóis adamascados de uma casa nobre; e viver, não no caminho que leva ao encontro dos pobres, mas num palácio de governador. Haja inquietação, para que as almas dos cristãos não empederneça na figura daqueles que dificultaram a vida e missão de Jesus. Somos a ser, como S. Vicente de Paulo, ícones de Jesus e não caricaturas de uma tentativa de ser.

[Oração] Sal 89 (90)

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De pequeninos é que nos agarramos ao caminho

[Leitura] Sab 2, 12. 17-20; Tg 3, 16 – 4, 3; Mc 9, 30-37

[Meditação] Presenciei, numa ocasião em que fui a um hipermercado, um pai andar às compras com um filho pequenino, com este nada mais do que agarrando uma das suas pernas, para não se perder naquela parafernália de propostas de consumismo. Hoje em dia, os carrinhos de compras mais sofisticados já têm um assento mais cómodo para as crianças (e seus pais), com a (des)vantagem de lhes possibilitar a iniciação à tática hipnótica pro-consumismo.

Neste XXV domingo, também Jesus nos aparece (pela segunda vez segundo S. Marcos) como um eficiente publicitador do caminho que conduz à salvação, escolhendo o trilho da discrição e não se demorando a explicar aos Doze o que Lhe ia suceder, como acontece naquele curto reclame de TV de 20 segundos, que tem tudo o que é preciso para levar os discípulos a entusiasmarem-se com uma proposta, mas com a seguinte diferença: enquanto o reclame da TV esconde as coisas más (ilusão do baixo-preço, pouca durabilidade da satisfação que promete, etc.) e ativa (pelo tom, imagens e cores) o ciclo vicioso do consumismo, o “reclame” do caminho de Jesus declara toda a verdade do círculo virtuoso que nos atrai para o bem que é a ressurreição.

Na verdade, por detrás de qualquer cruz se esconde uma vitória que alimenta a esperança de vida eterna, enquanto por detrás de qualquer processo de atração consumista se esconde sempre a repetida necessidade de voltar à parafernálica posse de bens que não saciam. Os discípulos ainda não estavam preparados para aquele dom, mesmo sendo ele gratuito. Discutiam quem deveria ser o primeiro depois que Jesus viesse a ser morto. Nem sequer deram importância ao facto de a morte anunciada não era o final, mas o início de uma nova história: a do Ressuscitado a caminhar connosco. Jesus deixa-nos um testamento que, na verdade, é, na verdade, para “gastarmos” em favor da vida eterna: a humildade e o serviço. Para nos levar a “gastar” toda a atenção nesse “hipermercado” da graça, sugere-nos que sirvamos a Deus em todos os que são identificados com uma criança: os pequeninos, os fracos, os pobres, os marginalizados. Enfim, os que nunca ficariam à disposição da nossa atenção nas primeiras prateleiras de uma superfície comercial, caso fossem equiparados a objetos de consumo.

Atendamos: descartar as coisas difíceis do Evangelho é desviarmo-nos do horizonte para o qual nos aponta o mesmo. A realização pessoal à qual almejamos com tanto empenho só pode ser, na perspetiva da incarnação, um benefício colateral ao cumprimento da vontade de Deus que somos chamados a amar nos nossos irmãos com todas as forças do coração. Isto não se faz num ato, mas numa repetição de atos (ainda que alternados por quedas) que vão construindo a atitude. Dentro de uma opção fundamental de vida, proporá um caminho mais consistente… mesmo que a partir da consideração de sermos como os pequeninos! Porque… nos basta a graça!

[Oração] Sal 53 (54)

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