O bem-estar nem sempre é uma bem-aventurança! A ponte da felicidade verdadeira e os seus dois pilares fundamentais

[Leitura] L 1 Jer 17, 5-8; Sal 1, 1-2. 3. 4 e 6 L 2 1 Cor 15, 12. 16-20 Ev Lc 6, 17. 20-26

[Meditação] A boa notícia de hoje é que Deus tem um fraquinho pelos fracos. O discurso das bem-aventuranças foi-nos apresentado pelos varios evangelistas de formas diferentes, porque o que importa não era um código (já temos o decálogo), mas um modo revolucionário demonstrado por Jesus de perceber a vida, a relação com o mundo, com as coisas, com os outros e connosco próprios. Quanto mais estivermos com Jesus e partilharmos da sua vida, mas nos assemelharemos a Ele na contradição à lógica humana, que vê nos ricos, nos saciados, nos consolados o objetivo pleno da felciidade.

As bem-aventuranças são uma síntese de Jesus, um sinal de contradição para a lógica humana de felicidade. Não é que não devamos perseguir a felicidade, mas não a devemos colocar meramente na confiança das consolações terrenas, mas, como nos diz Jeremias, na confiança em Deus. A bondade de Deus ultrapassa todo o equilíbrio religioso da terra, porque Ele está acima de todas as coisas. Mesmo quando ninguém está com os últimos da terra, seja da Igreja ou da sociedade, Deus estará sempre. Daí que a Doutrina Social da Igreja proclame, a partir da lógica do Evangelho, a dignidade da vida humana, o bem comum e a opção preferencial pelos pobres como princípios básicos.

A riqueza torna-se uma maldição, quando não se dá aos outros. Vê-se isso na corrupção que diariamente se noticia e, mesmo assim, difícil de se erradicar da prática humana. Quando colocamos toda a nossa confiança nos bens materiais e na saúde que eles nos podem proporcionar, corremos o risco de não acreditar, na prática, na Ressurreição de Jesus e na nossa própria ressurreição. Já ouvimos falar da criogenia e dos triliões de euros que estão a ser gastos para se poder reanimar (não ressuscitar) alguém nesta terra?

Poderíamos, assim, concluir que a verdadeira felicidade é aquela travessa de ponte que deve estar assente em dois pilares: a confiança total em Deus (1ª leitura) e a fé na Ressurreição (2ª leitura), fazendo da felicidade pessoal, também, um estar próximos dos que sofrem tribulações (Evangelho).

[Oração] E porque nem sempre o bem-estar significa bem-aventurança, lancemos a escada da oração ao Pai como Jesus nos ensinou:

Pai nosso que estais nos céus,

Santificado seja o Vosso nome.

Venha a nós o Vosso Reino.

Seja feita a Vossa vontade,

Assim na Terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.

Perdoai-nos as nossas ofensas,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

E não nos deixeis cair em tentação,

Mas livrai-nos do mal.

Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O discipulado missionário é 7X3

[Leitura] L 1 Is 6, 1-2a. 3-8; Sal 137 (138), 1-2a. 2bc-3. 4-5. 7c-8 L 2 1 Cor 15, 1-11 ou 1 Cor 15, 3-8. 11 Ev Lc 5, 1-11

[Meditação] Da reflexão do Pe. David Palatino (cf. Liturgia Diária, Paulus) para este V Domingo do Tempo Comum, sintetizamos os seguintes sete elementos para podermos aferir se somos verdadeiros discípulos, a partir da experiência vocacional de Isaías, Paulo e Pedro:

1º – Oferecer espaço a Jesus, para Ele falar, no meio das contradições da nossa história, onde as expetativas humanas não podem superar a vontade de Deus.

2º – Querer ser aprendiz diante d’Ele, na arte de viver, muito para além do que já sabemos fazer, numa visão limitada pela noite da dúvida.

3º – Aprender a trabalhar em equipa, na comunidade eclesial, onde somos chamados a estar “todos, tudo e sempre em missão.

4º – Ser humilde no reconhecimento das nossas debilidades, prostrando-nos diante de Jesus e pedindo perdão.

5º – Querer colaborar com Jesus no resgate do ser humano do possível “naufrágio” do pecado.

6º – Renunciar a tudo o que nos impede de ser livres diante de Jesus, colocando o coração no essencial.

7º – Seguir Jesus para onde quer que Ele vá, aceitando as consequências que isso traz, estando disponíveis para ser mártires, sobretudo nos contextos onde possa existir uma certa oposição à sua Igreja.

X

Também a experiência de Isaías, Paulo e Pedro, nos mostram que há três pontos de partida ou espaços diferentes e, ao mesmo tempo, ambos capazes de ser espaço onde quer o Espírito de Deus, quer cada um de nós se pode “primeiriar”, sem nos fixarmos num só, uma vez que o processo da fé os vai atravessando no decorrer dos nossos dias:

1º – Com Paulo, podemos iniciar e fazer a experiência do seguimento no caminho, onde ele como nós foi/somos salvos das nossos erros e distorções da realidade. Podemos chamar esta possíbilidade de “via profética”, experimentada na catequese e na pregação, em que nos ajudamos a caminhar para uma visão cada vez mais clara do rosto de Jesus Cristo.

2º – Com Isaías, podemos iniciar e fazer a experiência do discipulado através dos espaços sagrados, onde a ação de Cristo nos sacramentos nos toca os lábios e o coração para nos ganhar para a sua missão. Podemos chamar esta de “via litúrgica”.

3º – Com Pedro, somos apanhados “nas margens” do descanso após o trabalho ou , porventura, na angústia do desemprego, onde é urgente dar espaço à Palavra de Deus que não nos deixa naufragar, dando o testemunho, diante das multidões, de que se opta por aquilo que Cristo diz, antes que a todas as técnicas e confortos humanos.

Diante deste 7X3 do seguimento, jamais podemos fechar-nos em “limbos” catequéticos, litúrgicos ou solidários, sem termos presente o todo do caminho até ao Reino de Deus, sem nos deixarmos ancilosar por “ismos” que nos prendam a “detritos de religião” que pouco ou nada têm a ver com o dinâmica da fé cristã, mas somente projeção do espírito humana, por vezes fechado ao Espírito do Amor de Deus. Não foi por acaso que o Sínodo Diocesano de Viseu (2010-2015) propõe o alargamento da ação deste tríplice múnus no que toca à Família e à Juventude: é para que se perceba e haja de facto um “caminhar com” as reais famílias e os reais jovens, nas periferias da existência e não só dentro do círculo da Igreja, chamado a ser círculo virtuoso e não vicioso, porque tecido de relações interacionais saudáveis e eficientes no que toca à propagação do Evangelho da Vocação e da Vida.

[Oração] Ao Espírito Santo:

«Espírito de amor, “descei sobre mim “, para que na minha alma se faça como que uma encarnação do Verbo, que eu seja para Ele uma humanidade de acréscimo, na qual Ele renove todo o seu mistério»

— Isabel da Trindade (NJ 15)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Deus manifesta-Se no amor e não no temor

[Leitura] L 1 1 Jo 4, 11-18; Sal 71 (72), 2. 10-11. 12-13 Ev Mc 6, 45-52

[Meditação] É no Espírito de Amor, e não no temor, que se pode ver Deus em nós. Era esta a convicção de São João que nos ajuda a perceber melhor as “fronteiras” da relação com Deus, marcadas pela relação entre o amor e o temor. Este foi muitas vezes considerado com um Dom, mas mal enunciado e mal interpretado. Temer a Deus é desaconselhado, ao passo que o temor de Deus é aquele dom de sabermos que Ele “teme” que nos percamos ou nos mantenhamos fora do acolhimento ou vivência do seu amor. Já temer a Deus é desaconselhado, porque Ele não tem que ser temido, mas amado. É ista força que nos atrai e não aquela. Temer é sinal de debilidade; amar é sinal de confiança.

[Oração] Oração contra todos os medos:

Senhor,
quero viver sem medos.
Com uma santa indiferença,
que hoje ainda não tenho.
Quero crescer e ser mais teu, Jesus,
mas não sei bem
como me desprender dos meus medos.

Por isso, eu te entrego cada um deles hoje
(recordar seus principais medos).
Abraça-me, Jesus,
para que meu medo vá embora.
Acompanha-me, Senhor,
para que eu saiba ser corajoso.

Ajuda-me a ter coragem,
a ser um santo que abraça com amor
a cruz de cada dia.
Eu te peço, Jesus,
que me libertes das minhas correntes.
Torna-me mais teu.
Ensina-me a amar como Tu amas.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Faça o ‘teste epifânico’: rivalidade de Herodes, indiferença dos ‘religiosos’ ou entusiasmo dos Magos?

[Leitura] L 1 Is 60, 1-6; Sal 71 (72), 2. 7-8. 10-11. 12-13 L 2 Ef 3, 2-3a. 5-6 Ev Mt 2, 1-12

[Meditação] Na “geografia” do episódio pós-natal da Epifania do Senhor, é-nos desenhado um mapa que pode ser útil para fazermos o “teste epifânico” contra a doença dos muros que, entre Jerusalém e Belém — assim como entre as cidades e as aldeias, os ricos e os pobres, etc. de hoje — nos separa da verdadeira manifestação do Emanuel como o Deus-com-toda-a-humanidade. Basta vermos o muro da rivalidade que separa os Estados Unidos da América e o México e o muro da indiferença que separa o Oriente e a Europa, para nos darmos conta de que esta mensagem é atualíssima!!

É muito fácil sentirmos hoje a perturbação de Herodes por medo de rivalidades e de religiosos do seu tempo pela indiferença aos sinais de Deus: tememos ser invadidos por quem nos possa tirar do lugar seguro que possuímos (ou que nos “possui”!) ou estamos muito apoiados nas nossas certezas humanas com que substituímos a Revelação de Deus. Mais difícil é, hoje, sentirmos o entusiasmo dos Magos, os pagãos que, não temendo sair de si e da sua terra, perseguem aquela estrela que os leva ao verdadeiro Deus que, por nosso amor, incarna. Os que vivem para cá daquele “muro” do medo, têm deficit do desejo de Deus, porque fecharam os olhos à maravilha e são só capazes de juízos e violência. Os Magos, pelo contrário, são como as crianças, capazes de ver coisas maravilhosas nos pequenos sinais sinceros feitos para eles, sabendo-se meter em jogo sem demasiados filtros de racionalismo, conveniências, prejuízos e medos.

Hoje, aqueles magos (de quem Mateus nem sequer diz o número) são todos os que buscam Deus. Ai de nós, os que de certa forma habitamos os ambientes sagrados, se não continuarmos a ser buscadores. Seremos postos fora de qualquer maneira, se não nos dispusermos a estar em saída, na missão. Na busca, seguindo a estrela do desejo interior ou dos subtis sinais exteriores que o Senhor nos quiser dar; no regresso, seguindo o sonho, da mesma maneira que José, para defender o Jesus que quer nascer nos pequeninos da nossa história contemporânea. Metamo-nos a caminho, amando sem medos e condicionamentos, metendo-nos em jogo na vida e na fé!

[Oração] Uma luz no caminho (de Florentino Ulibarri):

Agora que não há novidade na nossa vida nem nos caminhos da história,
Nem na nossa memória pessoal e coletiva,
Nem no que propõem os gurus e a ciência…
É tempo de refletir e aprofundar
Em tudo o que levamos às costas,
E nas zonas condenadas do mundo.
E das entranhas as nossas.

Agora que a tua palavra quebra nossos planos,
E as estrelas desaparecem do nosso horizonte,
E nos caminhos se misturam tantas pegadas,
E a vida se nos turva e fecha…
É tempo de fazer silêncio,
De esquecer os tristes sentimentos
E acolher sua insólita proposta
De ir ao verso da história.

Porque nesses lugares.
Você está sempre à vista,
Esperando nossa chegada
Para cuidar da vida
E nos oferecer sua boa notícia.
Que grande horizonte e tarefa, para não aborrecido,
E entretidos, nesta época triste e escura!

Vamos nos encontrar, Senhor,
Nas Encruzilhadas e caminhos,
Nas praças e nas casas que nós vivemos.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Jesus mora no irmão! E se Ele for um refugiado e quiser morar em ti?!

[Leitura] L 1 1 Jo 3, 7-10; Ev Jo 1, 35-42

[Meditação] A Liturgia da Palavra de hoje abre-nos a porta para o “Evangelho da Vocação”, como dinâmica cristã apontada por João Batista como definitiva, em Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Doravante, todos os que quiserem seguir Jesus, terão de passar por esta porta: a da vocação que implica a conversão. Por outras palavras: de ir respondendo ao projeto de amor divino, através do discípulado missionário. O substantivo a indicar um caminho contínuo de conversão; o adjetivo a sugerir que a resposta se faça por ações ou passos concretos de oferta de vida.

Quanto à conversão, ela esteve muitas vezes demasiadamente centrada em coisas do foro íntimo (afetivo etc.). Já o Papa Bento XVI, na obra “Jesus Cristo” que assinou como José Ratzinger, referiu que a moral da Igreja, a certa altura da história (medioevo), centrou demasiado a questão do pecado e da graça em coisas do foro sexual. Na verdade, ao lermos João, damo-nos conta de que não é de Deus não praticar a justiça e não amar o seu irmão. É claro que umas coisas levam às outras, no bem e no mal. No entanto, é uma questão de centramento. Mesmo partindo do pressuposto que a exigência para consigo próprio pode garantir uma maior disponibilidade para fazer o bem aos outros, não é garantido que a pessoa que se centra de forma obsessiva na perfeição da sua vida interior possa estar disponível para dizer sim a um desafio de cuidado (mais perfeito) para com os outros.

A dinâmica iniciada pelo Percursor, na qual Jesus engancha a sua missão, sugere que, doravante, a resposta ao chamamento de Jesus implica sempre um caminho de conversão e de serviço, sempre unidos. Notamos isso pela forma apressada como André foi logo chamar o seu irmão. E nem seque tinham ainda percebido o alcance da missão à qual os queria chamar o Mestre.

Se passarmos a vida cristã a buscar ou a visitar Jesus meramente em espaços físicos, corremos o risco de O ignorarmos no lugar onde Ele prefere morar: no irmão. Se repararmos bem, o evangelista João refere-nos uma hora (as quatro da tarde) e não um endereço postal ou coordenadas GPS. Responder ao convite de Jesus “vinde ver” implica mais o desafio de ir ao encontro e ocupar tempo com um irmão necessitado, como fez rapidamente André em relação a Simão, do que em “fecharmo-nos em copas” espirituais desincarnadas: uma caridade adiada por ensaios que não nos deixam sair das piedosas intenções. A ética cristã não é uma ética do lugar, mas uma ética do destinatário.

E se Ele for um refugiado e quiser morar em ti?! Vá que esta sua manifestação (epifania) te surpreenda!!

[Oração] Sal 97 (98)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O Papa Francisco é o Precursor de hoje na boa política para a paz mundial

[Leitura] L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8 L 2 Gal 4, 4-7 Ev Lc 2, 16-21 + Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz 2019

[Meditação] Já é de todos conhecida a exortação de os cristãos se devem meter na política, sem medo de que a Igreja os proíba. É, também, curiosa a constatação que soou nalgumas homilias deste primeiro de janeiro de 2019 de que quando os cristãos não “sujam as mãos” na política, existe a probabilidade de esta continuar em mãos ainda mais sujas, ecoando-se assim a mensagem do Papa para este Dia Mundial da Paz.

Na verdade, com a mensagem deste ano, em que acontecerão vários níveis de eleições, o Papa Francisco “mete-se” com a política por causa da Paz. É uma atitude corajosa, diria mesmo precursora (à maneira de João Batista), tendo em conta o elenco de vícios que o Pontífice diagnostica na que se pratica atualmente. De facto, a paz está acima da política e esta só a pode servir a partir de pressupostos éticos inalienáveis e irrefutáveis.

Na mesma mensagem, o Papa não se fica com críticas, mas parte para a construção da mesma paz, centrando-a no Mistério cristão e dando sugestões criativas que estão ao alcance da possibilidade de todos participarem, desde o próprio coração. Que esta declaração de bem-aventurança política nos ajude a viver um ano 2019 cheio da paz que o Senhor prometeu e que cabe a nós acolher!

[Oração] Oração a Nossa Senhora:

À vossa proteção recorremos,
Santa Mãe de Deus;
não desprezeis as nossas súplicas
em nossas necessidades;
mas livrai-nos sempre
de todos os perigos,
ó Virgem gloriosa e bendita.
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A vocação cristã é chamamento divino, não mero entendimento humano

[Leitura] L 1 Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-5 L 2 Col 3, 12-21 Ev Lc 2, 41-52

[Meditação] Um dos aspetos que me salta à vista da fé nesta Festa da Sagrada Família é, desde a proclamação do Evangelho, a total confiança em Deus e um coração aberto de Maria e José, para “gerirem” tudo o que acontecia com o Menino Jesus. Esta família é modelo para as nossas famílias, como igrejas domésticas, pela forma como, contando com a pureza de Maria e a castidade de José, se ajustavam diante dos fatores internos e externos do mistério que era o Filho de Deus humanado.

Aquela ocasião que tinha tudo para parecer um desastre — a perda do Menino no Templo entre os doutores — acaba por se mostrar um salto temporal no desenvolvimento da missão que Jesus viria a exercer na sua vida adulta, na vida pública. Esta forma de ver este episódio, pela dimensão vocacional, traz a lume algumas perguntas, cuja resposta é decisiva para o bem da nossa Igreja particular, desde a sua dimensão de famílias domésticas até à sua relação com a Igreja universal:

– Se a experiência dos acólitos se fica por uma mera diversão de infância, como poderá colocar-se uma futura resposta vocacional mais madura? (Jesus, desde que foi ao Templo a partir dos 12 anos, nunca mais deixou de lá ir!)
– Terá a inconsistência de uma resposta a um possível chamamento de Deus a uma via de consagração alguma coisa que ver com a inconsistência da fé nas famílias? (Maria e José acreditaram sempre, apesar das contradições presentes naquele Menino!)
– Que lugar a dimensão vocacional terá na dinâmica pastoral de uma Igreja particular (diocese), sem que outras dimensões a diminuam por uma simples razão prática ou social? (A atividade de Jesus foi sempre de anúncio e cura, sem deixar, pelo caminho, de chamar a Si colaboradores…!)

Muitas outras perguntas se poderiam fazer. Unicamente aqui se quer reforçar a mesma provocação que, neste dia da Sagrada Família, foi lançada a Maria e a José por Jesus, Palavra feita carne: «não sabíeis que deveria estar na casa de meu Pai?» Portanto, quando aos pais parece perder-se o controle sobre o futuro dos filhos, deverão perguntar-se: que desígnio de amor e de forma Deus Pai quererá realizar na vida deste menino ou desta menina?

[Oração] Oração à Sagrada Família

Jesus, Maria e José,
em Vós contemplamos
o esplendor do verdadeiro amor,
confiantes, a Vós nos consagramos.

 

Sagrada Família de Nazaré,
tornai também as nossas famílias
lugares de comunhão e cenáculos de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas.

 

Sagrada Família de Nazaré,
que nunca mais haja nas famílias
episódios de violência, de fechamento e divisão;
e quem tiver sido ferido ou escandalizado
seja rapidamente consolado e curado.

 

Sagrada Família de Nazaré,
fazei que todos nos tornemos conscientes
do carácter sagrado e inviolável da família,
da sua beleza no projecto de Deus.

 

Jesus, Maria e José,
ouvi-nos e acolhei a nossa súplica.
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Glamour e paradoxo: as duas faces do Natal cristão

[Leitura] Lc 2, 1-20; Jo 1, 1-18

[Meditação] Na Liturgia do Natal, enquanto o evangelista Lucas se preocupa com os aspetos históricos do nascimento de Jesus Cristo, o evangelista João interpreta teologicamente o acontecimento da encarnação do Verbo de Deus e a sua missão na história humana. Assim, estes dois tipos de abordagem (histórica e teológica) tentam descrever este evento grandioso e inaudito da entrada de Deus na história humana que o dia de hoje pretende celebrar.

No presente momento histórico, por um lado, procura celebrar-se o Natal com uma moldura de glamour, por causa do conforto humano com que se reveste a celebração desta quadra, dentro e, até, fora do âmbito da fé, sempre com motivos luminosos, manifestando ou escondendo os símbolos que nos ligam à origem desta quadra. Encontros familiares, presentes e ceias de Natal são frequentes, no ambicioso calendário natalício.

Por outro lado, os ouvidos mais atentos escutam o grito dos que se assemelham aos que viveram a primeira e verdadeira experiência do Natal, nas circunstâncias históricas relatadas por Lucas: rejeição, fuga, pobreza… Só mesmo um coração simples como o dos pastores e uma inteligência fundada na sabedoria divina como a dos Magos nos poderá ajudar a acolher a contradição para o envolvimento na sua sua resolução, nas circunstâncias atuais.

Para os que, como o evangelista João, conseguirem celebrar o Natal remontando ao antes da história humana (antes da encarnação do Verbo) e à presença de Jesus Cristo adulto na história da humanidade, não será fácil esconder a urgência da missão em que somos chamados a participar. As circunstâncias em que Jesus nasceu, infelizmente, repetem-se na vida de muitos, no hoje da nossa história. Cabe-nos a nós refugiarmo-nos no glamour do Natal comercial ou acitarmos habitar e caminhar por entre os escombros e desafios salvíficos do paradoxo nuclear do verdadeiro Natal. O centro da fé cristã é o Mistério Pascal de Jesus Cristo. Celebrar o Seu nascimento não tem outro objetivo que caminhar para ali e a partir dali, até que se cumpra toda a graça no decorrer na nossa experiência cronológica.

[Oração] Prefácio do Natal I:

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte. Pelo mistério do Verbo Encarnado, nova luz da vossa glória brilhou sobre nós, para que, contemplando a Deus visível aos nossos olhos, aprendamos a amar o que é invisível. Por isso, com os Anjos e os Arcanjos e todos os coros celestes, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo. O céu e a terra proclamam a vossa glória. Hossana nas alturas. Bendito O que vem em nome do Senhor. Hossana nas alturas.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O Natal diz-nos que só a caridade poderá esclarecer o culto que se celebra

[Leitura] Miq 5, 1-4a; Hebr 10, 5-10; Lc 1, 39-45

[Meditação] A teologia do 4º Domingo do Advento é como que o transbordar de alegria provocada pela Luz interior “acesa” pela Palavra de Deus e alimentada pela realização da Sua vontade. Quem já visitou a Basílica da Natividade (não como eu, que só a imaginei a partir do Google) teve de se baixar para lá entrar. Esta é uma metáfora do novo culto que Jesus veio inspirar, abolindo o primeiro culto feito de holocaustos e sacrifícios, enquadrando a celebração ritual no sulco que é a coerência de vida.

A verdadeira manifestação de Jesus não acontece meramente dentro de uma Igreja onde se celebrem belos ritos cristãos, mas na rua, entre os escombros da dúvida e do desespero reclamam por esta Luz do Amor divino. Para uma boa definição da missão da Igreja, na pequena Belém temos “o quê” – “casa do pão” e na casa de Isabel temos “o para quê”: a partilha de algo não só espiritual, mas também material que concretize a salvação numa situação de dificuldade humana.

Como Maria, a primeira missionária, os cristãos querem trazemos Deus dentro, confiamos n’Ele e disponobilizando-se a partilhar as suas graças. Para que a nossa vida seja uma grande manifestação do amor de Deus, teremos que, como Ela, fazermo-nos pequenos diante de Deus. Como acontece com a Páscoa, em que a Morte e a Ressurreição/Efusão do Espírito Santo (Pentecostes) são duas faces da mesma “moeda”, também, dentro do Mistério do Nascimento de Jesus, a Anunciação e a Visitação são duas expressões da mesma realidade que é o Amor de Deus em ato, com a generosa colaboração humana, de que Maria é primícia. Aprendamos com Ela a responder à urgência missionária!

[Oração] Sal 79 (80)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

 

E que tal (re)batizarmos o (pai) natal?!

Temos andado para aí com o debate entre o Menino Jesus e o Pai Natal, este defendido com antecipação pela tática consumista desta quadra e Aquele escondido, pela liturgia, dos presépios até à verdadeira data. Quem terá (mais) razão? Que caminho seguir, entre o choro das crianças que descobrem que, afinal, o homem que vem de trenó até á nossa chaminé não existe (ou já não virá pela chaminé?) e entre a aparente descristianização do Natal a que se reserva cada vez menos tempo de espera e preparação?

Sugiro uma dinâmica que não é original, mas que hoje nos poderá ajudar a recuperar o verdadeiro sentido do Natal, sem deitarmos fora as diversas partes. Proponho que “batizemos” o Pai Natal de Nicolau e o registemos nos Registos Civil e Eclesiástico como o Quarto Rei Mago. Qual é o problema? Não foram assim que surgiram todas as lendas? Sabem onde estão “registados” os nomes dos outros Três Reis Magos? Nos Livros intitulados de Apócrifos, cujo conteúdo não foi aceite nos Cânones Bíblicos por não se considerarem (após imenso estudo) inspirados por Deus, mas que não deixam de ter conteúdos que são muito úteis para a compreensão do mistério central da nossa fé. Na verdade, nesses “apócrifos” estão escritas, não as verdades da fé, mas os desejos humanos que ambicionam a manifestação do infinito.

Como “apócrifos” não significa “heréticos”, penso que não podemos andar para aí a “excomungar” o Pai Natal, desde que o “batizemos”, quer dizer, que não o ponhamos a cometer injustiças e a fugir de Jesus Cristo, mas pedindo-lhe que ajoelhe a seus pés, como fizeram os outros Três Reis Magos. Tenhamos em conta que “Herodes” deste quarto Rei Mago é o consumismo e via de solução para um bom regresso sem corrupção é a justa distribuição de bens essenciais entre os seres humanos. O Pai Natal é o “Rei Mago” sugerido pelos tempos modernos, uma vez que aqueles três já estão bem longe. Pode ser o pai ou a mãe, o avô ou a avó, o tio, a tia ou os padrinhos… ou um vizinho, para que chegue a todas as crianças o que mais precisam para viverem animados. Que cada dádiva natalícia faça presente o verdadeiro espírito cristão do Natal original.

— In Jornal Terras de Santa Maria Madalena, Campo 21/12/2018