O assoberbamento de qualidades pessoais face à insignificância dos defeitos dos outros

[Leitura] Mt 7, 1-5; 2 Reis 17, 5-8. 13-15a.18

[Meditação] Hoje, o Médico Jesus acolhe-nos numa consulta de oftalmologia, para nos ajudar a colocar no olhar uma graduação de “lente” muito importante: a que nos permite não projetarmos sobre os outros os defeitos pessoais, correndo o risco de assoberbarmos as qualidades pessoais, por vezes insignificantes, diante da real insignificância dos defeitos dos outros, que, para esconder os próprios, tendemos a aumentar nos outros.

No dicionário, “argueiro” é um cisco ou corpúsculo que se pode introduzir nos olhos, enquanto que “trave” é uma peça de madeira comprida. A metáfora fala por si e não precisa de explicação. O que é necessário é, diariamente, fazer o que está ao nosso alcance: um corajoso exame de consciência pessoal, que nos permita tender a ser mais condescendentes com os outros a partir de uma séria exigência pessoal. Sempre sabendo que Deus é paciente com todos!

Assim, também as instituições (sejam elas quais forem – sociais ou eclesiais) deixarão de funcionar menos como plataformas de que as pessoas se servem para expandir as referidas projeções pessoais, passando a funcionar melhor como ambientes de serviço para o bom desenvolvimento de todos. Afinal, do que se trata é da salvação da humanidade! Talvez esta consulta oftalmológica nos ajude reler a proposta do  Papa Francisco para “uma renovação eclesial inadiável” , onde não se perca tanto tempo com o pensamento à volta de teorias inúteis (que só servem a autoreferencialidade) e se passe a uma refletida mudança de estratégias (em favor de uma sadia alteridade):

Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de «saída» e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade. Como dizia João Paulo II aos Bispos da Oceânia, «toda a renovação na Igreja há-de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial».

— PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, n. 27

Na “tela” da Hóstia consagrada vejamos os rostos de quem se assoma à paixão de Cristo!

Milagre em Piedras Negras, Coahuila, México.

[Leitura] Jo 6, 51-58

[Meditação] Já que este ano não podemos correr o risco de ficarmos infetados ou de infetar alguém por causa do Covid-19 com as procissões do Corpo de Deus − o que seria um contracenso, uma vez que Ele é Pão de Vida e não de morte, e seria igualado ao maná que não livra da morte física − ao menos, deixemos que Ele palmilhe as ruas do nosso interior, dando-Lhe tempo e espaço, através de uma significativa paragem e o silêncio com que O podemos contemplar, qual mistério de vida vindo de Deus.

A par da origem desta celebração solene − o Milagre de Bolsena e a bula Transiturus do Papa Urbano IV − a Solenidade do Corpo de Deus nasceu para se declarar qual o centro e o alimento deste Corpo Místico que é a Igreja: o Jesus que se dá na Eucaristia como alimento. E este alimento é para ter forças para cumprir, pois, o mandamento da caridade, que dá sentido à esperança que a fé proclama.

Milagre na Arquidiocese de Thalasserry, numa cidade a cerca de 60 km a oeste de Vilakannur, em Kerala.

Em muitas comunidades, muitas horas se reservam, assim como o cultivo de bonitas flores, para sobre as suas passadeiras “caminhar” pelas nossas ruas o Mestre da Verdade. Uma vez que, neste ano pandémico, não o podemos fazer, porque não “enfeitarmos” o nosso ser interior com aqueles sentimentos de acolhimento, vendo na “tela” da Hóstia sonsagrada os rostos de quem se assoma com o seu sofrimento à Paixão de Cristo, para não comungarmos em vão. Conforme está prometido, os que n’Ele morreram, com Ele irão ressuscitar para a vida eterna (cf. Rm 6, 4). E se sem Cruz não haveria Ressurreição, também sem a comunhão com os irmãos que sofrem não haverá comunhão de Jesus na Eucaristia! Como Paulo diz: «Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão».

 

 

 

No Vaticano, o Papa sublinhou que solenidade do Corpo e Sangue de Cristo não se vai assinalar, este ano, com “manifestações públicas”, por causa das limitações impostas pela pandemia, mas todos podem viver uma “vida eucarística”.

“A hóstia consagrada encerra em si a pessoa de Cristo: somos chamados a procurá-lo diante do sacrário, na igreja, mas também no tabernáculo que são os últimos, quem sofre, as pessoas sozinhas e pobres. O próprio Jesus o disse”, referiu, na audiência geral desta quarta-feira.

O Papa desejou que todas as pessoas possam encontrar na Eucaristia “as energias necessários para viver com fortaleza cristã os momentos difíceis”.

FONTE

Dizer “sal” e “luz” com os segredos da Música!

[Leitura] 1 Reis 17, 7-16; Mt 5, 13-16

[Meditação] Hoje foi-me inspirado falar das metáforas evangélicas de “sal” e “luz” através de dois factos da música:

“Ser sal” é, para mim, semelhante à “vibração por simpatia”, em que um corpo musical reage harmonicamente à ressonância de outro instrumento musical. Assim, a força de que Jesus fala pode ser comparável à sensibilidade para vibrar. Vale muito, aqui, considerar o ditado popular “conforme se toca assim se dança”. De facto, não basta que o Evangelho fique fechado nas páginas da Bíblia ou do Lecionário; é necessário que seja proclamado e meditado. E mesmo isto não basta – é necessário que os seus valores sejam vividos ou testemunhados na prática, para que as pessoas que não conhecem o Evangelho-feito-carne que é Cristo possam ser salvas por Ele.

Daqui vem que, para mim, “ser luz” seja mostrar Cristo como, um dia, Feliz Mendelssohn Bartholdy (1809-1847) descobriu e divulgou ao mundo, novamente, as composições de J. S. Bach (1685-1750), que correram o risco de se perder, apesar de tão importantes para a época do Barroco. Conta-se, curiosamente, que Mendelssohn chegou a encontrar folhas de partituras de Bach a servir de embrulho para a carne na cozinha! Assim é a luz do Evangelho: não deve ficar fechada nas páginas de um livro grosso (a Bíblia!) a segurar os outros livros da prateleira (na pior das hiopóteses) ou a enfeitar numa das divisões da casa com o pó do tempo a cobrir as folhas inertes de vidas rotineiras, ignorando as as surpresas de Deus.

Seja como for: o meio mais (sobre)natural que me parece que Deus usa para Se acomodar aos nossos desajeitamentos de tempo e de espaço é o testemunho de uma pessoa que escuta e age segundo a Palavra, imitando o estilo de vida do Mestre, apontando para o eterno na própria carne.

A viúva de Sarepta invocava “jurava por Deus” para invocar a morte diante da falta de bens; o profeta Elias invocava a vida diante do poder de Deus diante da pobreza.

Que a nossa vida cristã não seja um mero trasladar de ossos, como acontece com uma memória de meros contos teóricos, mas o deixara que Deus ilumine a nossa experiência através da ressonância do seu Amor.

A proximidade do Reino de Deus é o amor feito ao próximo

[Leitura] Mc 12, 28b-34

[Meditação] É surpreendente (divino) que Jesus tenha acrescentado um segundo mandamento “semelhante” ao primeiro, afirmando que não havia mais nenhum superior a estes. Foi o próprio escriba que ficou surpreendido com essa junção, sendo levado a dar razão ao Mestre. Mas os mandamentos da Lei de Deus não são um mero objeto da razão; ou seja, não basta sabê-los de cor. É preciso praticá-los. É o praticar que prova que os sabemos a partir do coração (a partir de onde se gere a vontade) e não meramente a partir da mente (onde se gerem os conhecimentos).

A Venerável Madaleine Delbrêl (1904-1964) escreveu que «só através dos outros podemos devolver a Deus amor por amor», amar todos os homens «sem preferências, sem categorias, sem exceções», para não cairmos no perigo de que o segundo mandamento se transforme no primeiro. Seja como for: vale mais exagerarmos em misericórdia do que exagerarmos em legalismo. Exagerar neste, faz-nos querer substituir Deus; exagerar naquela faz-nos ganhar o que promete uma das bem-aventuranças proclamadas por Jesus: «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5, 7).

O «não estás longe do Reino de Deus» que Jesus oferece como resposta ao escriba é um repto para uma vida mais prática, quanto à caridade, e não tanto teórica. Os presentes entenderam isso, ao não terem coragem em interrogá-Lo mais. Jesus amou de uma forma humanamente divina. É possível e preciso imitá-Lo! E, como paira já nas redes sociais por aí fora, Ele não amava a religião, mas amava as pessoas! É isto que leva o Apóstolo Paulo a dizer a Timóteo, em nome da fidelidade ao Senhor: «é preciso evitar contendas de palavras, que não servem para nada, senão para a perdição dos que as ouvem…» São precisos operários, como também Santo António pregava: «Cessem as palavras e falem as obras».

Transmissões da Semana Santa na Sé de Viseu

Horários:
Domingo de Ramos: 11H
Quinta-Feira Santa (Missa da Ceia): 18H
Sexta-Feira Santa (Paixão do Senhor): 15H
Sábado Santo (Vigília Pascal): 21H
Domingo de Páscoa: 11H

O acolhimento da Palavra de Deus e o tipo de resiliência que permite vir a dar frutos

Na parábola do semeador (Mc 4, 1-20), acontece aquilo que leva o Papa Francisco a dizer que Jesus Cristo é o primeiro exegeta, afirnando que «Não só as Escrituras antigas tinham predito aquilo que Jesus havia de realizar, mas Ele próprio quis ser fiel àquela Palavra para tornar evidente a única história da salvação, que n’Ele encontra a sua realização» (cf. Aperuit illis, n.º 6). Podemos observar também este atributo de Jesus no caminho de Emaús, onde abre a mente dos discípulos, explicando-lhes as escrituras (cf. Lc 24, 13ss). Assim, quer neste caminho entre a realidade da ressurreição e uma mente fechada, quer na relação entre o antigo e o Novo Testamento, quer entre a multidão a que exorta em parábolas e o pequeno grupo de discípulos a quem explica o seu significado, não existe contradição, mas uma aproximação diferenciada que nos pode ajudar ainda mais a ser Igreja «em saída», através de um estilo afetivo que permita uma vinculação a Deus mais autêntica, uma vinculação às pessoas mais pacífica e uma vinculação a lugares mais realista e serena. Ler Mais

A compaixão, do fazer-se ao ser próximo

[Leitura] L 1 Deut 30, 10-14; Sal 68 (69), 14 e 17. 30-31. 33-34. 36ab-37 ou Sal 18 B (19), 8. 9. 10. 11 L 2 Col 1, 15-20 Ev Lc 10, 25-37

[Meditação] A dicotomia entre o ser e o fazer tem muito que se lhe diga, tendo em conta a ambiguidade da tensão entre essas duas dimensões do viver humano. Umas vezes sublinha-se a importância do ser em detrimento do fazer; outras vezes, contrariamente, eleva-se o fazer diminuindo-se a importância do ser. Porém, feitas bem as “contas”, na relação entre o ser e o fazer nunca pode haver cisões que obstaculizariam o seu equilíbrio em favor do objetivo com que se vive, ao encontro do horizonte que se espera ou pelo qual se deixa atrair. À reflexão sobre estas duas dimensões de uma operação ainda se pode juntar a consideração sobre a relação ente a realidade e a aparência ou as ideias. É curioso que o Papa Francisco, quando, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, fala da dimensão social da evangelização (cap. IV), refere que O tempo é superior ao espaço [222-225] A unidade prevalece sobre o conflito [226-230], A realidade é mais importante do que a ideia [231-233]O todo é superior à parte [234-237]. Percebe-se, na ordem lógica que as primeiras expressões (tempo, unidade, realidade e todo) prevalece em relação às segundas (espaço, conflito, ideia e parte); porém, na ordem cronológica, é muitas vezes a segunda que leva a considerar a importância das primeiras.

Um dos belos exemplos de boa síntese entre o ser e o fazer é a Regra de S. Bento, celebrado há pouco tempo na Liturgia (11 jul.), sintetizada na exressão “Ora et Labora” (reza e trabalha), dando lugar à primazia da graça de Deus no (des)equilíbrio do ser humano e do fazer que o desenvolve. As ordens religiosas tiveram sempre uma quota parte muito substancial de presença social no mundo, apesar de as suas comunidades serem muitas vezes vistas como “fechadas”. Mas perguntemo-nos: será por fazermos muitas coisas que estamos muito presentes na vida das pessoas? Por outro lado: as nossas divagações espirituais ou inquestionáveis rotinas tradicionais terão alguma concretização prática na resposta aos problemas humanos deste tempo?

Por isso (e por mais coisas que não cabem neste pequeno artigo), uma verdadeira compaixão há de ter muito de doutrina e muito de prática, mas, sobretudo, tem de ser um sentir como o Mestre as coisas do Pai e as coisas do mundo. À luz do exemplo de Jesus, não é bom vivermos a vida a questionar o que vem primeiro − se o ser se o fazer; se a teoria se a prática, como se da relação entre o ovo e a galinha se tratasse −, mas há que viver na relação de cumplicidade com o ser de Jesus e o estar no mundo. Assim, o fazer será sempre um ensaio acessório que favorecerá um ser cada vez mais conforme o desígnio de Deus para com todas as suas criaturas, quanto ao horizonte de vida eterna que Ele nos prometeu.

Ser próximo dos que mais precisam há de ser um ponto de chagada de muitas tentativas operativas que, projetadas e avaliadas em espírito de comunhão, levarão a algum porto onde o Mestre espera para dizer: «muito bem servo bom e fiel». É isto que parece estar a acontecer com o barco-hospital Papa Francisco, no rio Amazonas, juntamente com muitos milhares de iniciativas que a comunicação social não publicita, para dar espaço ao aparente sucesso do fazer em detrimento da plenitude do ser a que somos chamados.

Os talentos são muitos, mas os que os fazem render são poucos

[Leitura] L 1 Is 66, 10-14c; Sal 65 (66), 1-3a. 4-5. 6-7a. 16 e 20 L 2 Gal 6, 14-18 Ev Lc 10, 1-12. 17-20

[Meditação] É desta forma que, hoje em dia, leio a exclamação-lamento de Jesus «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos». É exclamação, porque Jesus, como nós, hoje, podemos notar como a Criação de Deus é tão grande e bela e quantos talentos semeou Ele na vida de todos os homens e mulheres à face da terra. Porém, são poucos os que os põem a render para o bem comum.

Hoje em dia, são abundantes as queixas de que há poucas pessoas disponíveis para aceitar um emprego que tenha que ver com grandes missões, sejam elas o cuidado das pessoas com limitações ou deficiência, seja o trabalho árduo em grandes latifundiários, seja até o trabalho que implique sujar literalmente as mãos em funções que não são vistosas, embora o trabalho

Qual é o tipo de trabalho que fere a dignidade humana? E o eterno descanso aqui na terra também não ferirá essa dignidade, quando a pessoa tem idade e saúde para tal? Naturalmente, o trabalho que fere a dignidade humana é o que não dá espaço ao descanso, intercalado por grandes momentos de entrega aos outros numa atividade que dignifica a pessoa humana. O bem-estar prolongado, deitado a um ócio contínuo, promovido por dinheiro que se recebeu sem esforço não dignificará a vida de quem tem saúde e idade para trabalhar. O problema não está só em quem está inscrito no chamado rendimento mínimo, mas nas políticas que favorecem este limbo existencial.

O mesmo acontece na dimensão da resposta ao chamamento universal à santidade: não basta participar numas tantas atividades espirituais para nos sentirmos dentro de uma redoma divina; é preciso dedicar a vida a algo permanente que valha a pena. Por isso, mais do que nunca, precisam-se investigadores de talentos e promotores de respostas práticas de uma dedicação comunitária eficiente.

Quem de nós não gosta de ver um campo de amendoeiras floridas? E um olival cheio de azeitonas? No entanto, no tempo da colheita, poucos gostam de ser convidados para ajudar a colher os frutos. Porquê?!

[Oração] Oração contra os respeitos humanos que impedem a resposta a Deus:

Amigo Jesus,

Tu nunca deixaste que os elogios e palavras humanas impedissem de anunciares o Reino de Deus com as tuas palavras e gestos;

Ajuda-nos a ler bem o coração das pessoas e o próprio coração,

não deixando que desejos e paixões desordenados

impeçam de dar uma resposta generosa a Deus

que chama cada pessoa, sem exclusão,

a amar com atitudes e no contínuo de uma opção fundamental de vida.

Ajuda-nos a imitar Maria, que se levantou para, apressadamente, ir até à casa da sua prima Isabel.

Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

As 3 liberdades do seguimento de Cristo

[Leitura] L 1 1 Reis 19, 16b. 19-21; Sal 15 (16), 1-2a e 5. 7-8. 9-10. 11 L 2 Gal 5, 1. 13-18 Ev Lc 9, 51-62

[Meditação] O caminho de fé aberto por Jesus é o resultado da declinação das 3 liberdades:

1ª – Ser livre quanto ao horizonte longínquo:
Quanto mais “ancorado” o sonho de vida estiver no horizonte que é a vida eterna, com os valores revelados como potenciadores dessa vida eterna, mais livre será a pessoa no que toca às coisas terrenas e na forma de ligar com elas, incluindo as criaturas. Para Jesus foi Jerusalém; qual é a “Jerusalém” de cada um de nós? Para isso, é preciso relativizar tudo o que nos “sedentariza” a alma («as raposas têm as suas tocas…»). Os discípulos de Emaús tiveram a tentação de fugir deste horizonte tentando regredir à sua infância. Manos mal que lhes apareceu o Ressuscitado no meio do caminho.

2ª – Ser livre quanto às circunstâncias do caminho:
Quer chova, quer faça sol; quer morra alguém que afinal já está no Reino para o qual Jesus nos quer dirigir… «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos…». Jesus não nos proíbe de fazer o luto. O problema é se, por causa do sofrimento da perda (nos casos mais delicados um estresse pós-traumático com o qual é preciso reaprender a viver), podemos perder de vista aquele horizonte longínquo que se revela já aqui. Há circunstâncias que nos podem prender ao efémero, não deixando que se dêem passos decisivos. Uma das frases que se vê por aí escrita em autocarros é «A mudança que você quer está na decisão que você não toma». Que nada, nem ninguém nos possa dificultar tomar uma decisão que é fruto de um verdadeiro discernimento iluminado pela vontade de Deus e o seu Espírito de Amor, a partir da referência que é Jesus Cristo.

3ª – Ser livre quanto aos laços com o passado:
A provocação «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás…» mostra-nos como Jesus estava muito à frente do Antigo Testamento (no qual Elias deixa que Eliseu faça boda e se despeça…). Hoje, também está muito à frente da Igreja, pois está no Reino Glorioso de onde nos atrai. O seu chamamento continua a ser “escandaloso”. Como disse S. Paulo, «Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou». E com o salmista rezamos: «O Senhor é a minha herança»! A vida de cada um e de cada uma ganha sempre um novo fôlego, quando cada pessoa consente de que Deus lhe mostre a sua originalidade. Ninguém é obrigado a ser cópia de alguém (já basta a carga genética). Quanto ao projeto de vida, ele é tanto mais feliz, quanto original, mesmo precisando do apoio da família e da comunidade/sociedade.

[Oração] Irving “Francis” Houle, um leigo “agraciado” com os estigmas da Paixão do Senhor, rezava assim:

Oh, meu Jesus!
Meu coração pesa tanto!
O que Tu carregas é pesado demais para mim.
Deixa-me, Jesus meu, carregar um pouco a Tua cruz, só para saberes que eu me importo.
Olha para mim, Senhor amado, com os olhos da Tua misericórdia.
Que a Tuas mãos curadoras estejam sobre mim.
Se for a Tua vontade, dá-me saúde, força e paz.
Amém.

 

(cf. https://pt.aleteia.org/2018/01/16/um-homem-comum-com-esposa-filhos-e-os-estigmas-da-paixao-de-cristo/)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Só com bom alimento é que pode haver bom prosseguimento

[Leitura] L 1 Gen 14, 18-20; Sal 109, 1. 2. 3. 4 L 2 1 Cor 11, 23-26 Ev Lc 9, 11b-17

[Meditação] Celebrámos a Solenidade do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja fundação remonta lá para o início da segunda metade do século 13, com a Bula “Transiturus de Hoc Mundo” do Papa Urbano IV, após o milagre acontecido em Bolsena, perto de Orvieto, que reativou a fé na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia de um sacerdote de nome Pedro (de Praga).

Ora, foi no meio de um caminho tortuoso de falta de fé que este homem de Deus viu acontecer o desígnio da ação divina que socorre no meio das tentações. de modo que a confirmação de uma tão grande Presença o levou a confessar o seu pecado da falta de fé.

A Eucaristia é um Sacramento de Iniciação Cristã (juntamente com o Batismo e a Confirmação), alimento necessário em qualquer idade para a “vida em Cristo”. Nas fontes neotestamentárias, este sacramento vê-se instituído como momento vespertino de um sacrifício maior que é possibilitado por este tão grande Dom. Notemos que a Última Ceia acontece “ao cair da tarde” (Mt 26, 20), antes da Paixão do Calvário; a multiplicação dos pães e dos peixes acontece quando “o dia começava a declinar” (Lc 9, 12), antes da transfiguração; após a Ressurreição, os discípulos de Emaús convidam o Senhor a entrar em casa, porque “a noite vai caindo e o dia já está no ocaso” (Lc 24, 29).

No meu humilde ver, não basta o “alimento” intelectual para que o caminho da fé se faça; é preciso também aquele verdadeiro Alimento que Se materializa, que é Jesus presente na Eucaristia. Se, por um lado, há muitos cristãos batizados que não se sentem missionários por se ficarem por uma mera pertença cultural, sem darem este crédito à Comunhão eucarística; por outro, há alguns cristãos batizados a quem, apesar de uma razoável catequização, é negado o acesso à referida Comunhão eucarística, limitando, mais do que já é a vida humana, a sua esperança de vida cristã.

Os Sacramentos da Cura (Penitência e Unção dos Doentes) são sacramentos para “endireitar” o caminho, sendo este realizado pelos Sacramentos do Serviço (Ordem e Matrimónio, não deixando de considerar o Batismo vivido nas várias formas de Consagração radical ao Evangelho). Delicado é perceber a gravidade daquele pecado chamado “mortal”, que não diminui a força do Sacramento da Presença real de Jesus sacramentado que tem consistência em si próprio (não é por alguém crer ou não crer que Ele está presente, mas porque Está e ponto), mas pode diminuir a eficácia do seu acolhimento para que seja força para a missão em que o cristão está chamado a colaborar.

A formação cristã pode ajudar alguém a acreditar no Mestre e, até, a saber por onde se pode entrar numa relação mais íntima com Ele. Porém, só a comunhão eucarística me parece ser suficiente para se ter a força para se renunciar a uma etapa e, aceitando essa mão do Mestre (que não é só teoria, mas também Presença substancia), dar um salto de qualidade na vida, saindo de um “novelo” de confusão e de dor. Só um Santo Paliativo como este é que poderá ajudar a recuperar de um espinho que foi tirado ou de um espinho que ainda dói. Desde outro ponto de vista, há cristãos que por terem deixado de comungar sem nada que os impedisse aparentemente, se vão esquecer até do viático que poderia tomar no final da vida; enquanto que há alguns que, por lhe ser adiada essa possibilidade, terão de esperar por essa “merenda” para o caminho após a morte. Quanta vida cristã não vivida, porventura em favor de outros. Urge empreender o caminho do discernimento já autorizado e amplamente sugerido pelo Magistério da Igreja. Há alguns que já não a tomam a Eucaristia por desconsiderarem a sua força; há outros que a têm em alto preço e não têm “economia” para a adquirir. Refiro-me à economia da salvação.

[Oração] Rezamos com Santa Faustina Kowalska:

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança em todos os sofrimentos e contrariedades da vida!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança na vida e na hora da nossa morte!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio das falsidades e das traições!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança nas trevas e na impiedade que submergem a terra!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio da nostalgia e da dor, em que ninguém nos compreende!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio dos afazeres e no enfado da vida quotidiana!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio das ruínas dos nossos anseias e esforços!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio dos ataques do inimigo e das investidas do Inferno!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança confio em Vós, mesmo quando as dificuldades superarem as minhas forças, e se achar os meus esforços inefica­zes!

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo