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Só se torna impuro o que for contrafacionado pelo coração do homem

Gn 2, 4b-9. 15-17; Mc 7, 14-23

Uma das coisas que o Senhor Jesus fez rutura foi no tocante à definição do que é puro e impuro. Para os judeus, havia alimentos impuros, e as pessoas que os comessem eram declaradas impuras e afastadas da comunidade. Os judeus não sabiam distinguir impureza física e impureza moral. E impunham a conveniência de se proteger a saúde ou segurança física com uma lei moral rígida, que acabava por os favorecer social e religiosamente.

Há a hipótese de o segundo Evangelho ser de origem jucaico-helénica, fazendo com que a preocupação de Marcos fosse ultrapassar uma mera conceção de pureza ritual e cultual, mostrando-se claramente inclinado a espiritualizá-lo, atribuindo maior importância ao aspeto ético e espiritual do que ao ritual. Mesmo, assim, a este respeito, Jesus vai mais longe: não basta superar, sublimando-o, o antigo conceito de pureza ritual, mas é preciso rejeitá-lo nas suas premissas fundamentais. Precisamente, esta distinção entre uma esfera religiosa, divina, da vida e uma esfera quotidiana, que não pertencia a Deus, é totalmente rejeitada. Ao afirmar que as coisas do mundo nunca são impuras, mas que podem vir a sê-lo unicamente através do coração do homem, a comunidade de Jesus manteve a fé na bondade da criação, contra uma tendência ascética que olhava de revés para a própria criação de Deus.

Com esta lição, Jesus condena todo o automatismo da aplicação da lei, com a busca de zonas privilegiadas de refúgio, que bastaria alcançar para se sentir imediatamente salvo. Não há apriorismos sagrados, ou seja, não basta que uma pessoa, um lugar, uma casa tenham sido consagrados a Deus para se tornarem automaticamente sagrados e intocáveis. A única santificação possível vem a posteriori, quando o homem assume, livre e conscientemente, um comportamento conforme a vontade de Deus. Portanto, não há nada sagrado ou profano, puro ou impuro em si mesmo. A criação é secular: pode ser profana e pode ser sagrada. Só pelo diálogo entre Deus e o homem é que algo se torna sagrado e puro. É o que se torna claro com a revisitação do Génesis.

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Cf. VV.AA., Comentáros à Bíblia Litúrgica, Gráfica de Coimbra 2, Assafarge 2007, 980-981.

A bandeira da fé é a memória no tempo, tendo a Cruz por centro

Is 53, 1-10; Jo 19, 28-37 ─ Na Festa das Cinco Chagas do Senhor

No prefácio do livro dos Patronos da JMJ Lisboa 2023, D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa, quando fala de Chiara Badano e Carlo Acutis, refere-se à «proteção de dois jovens bem-aventurados que também “partiram”, mesmo quando a doença lhes imobilizou o corpo, mas não o coração. Como Cristo pregado na cruz, que daí mesmo partiu para o Pai e nos salvou a todos com a vida que entregou» (pp. 11-12). Estes, como os outros Patronos da JMJ, são-nos apresentados como companheiros na peregrinação de fé e alegria, pelo Cardeal Kevin Farrel, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida.

Hoje podemos pensar o mesmo do evangelista São João que, tendo sempre estado ao lado de Jesus, até na sua entrega na Cruz, nos ajuda a fazer viva memória do que viu: as chagas do Senhor antes e depois da Ressurreição. Esta devoção, que teve como grande impulsionador São Bernardo, e que entre os portugueses está viva desde os começos da nossa nacionalidade (como testemunham a literatura religiosa e a onomástica) refere-se ao culto das Cinco Chagas do Senhor, isto é, as feridas que Cristo recebeu na cruz e manifestou aos Apóstolos depois da ressurreição.

Ao contemplar de perto a crucifixão e morte de Jesus na Cruz, são João recapitula o que a Escritura tinha previsto a respeito de Jesus. O discípulo e apóstolo João aprendeu com Maria a guardar no coração todas as peças que prefiguravam este desfecho salvífico, para no-lo testemunhar com o objetivo da nossa fé.

[Para que também]Vós acrediteis: o uso do presente, em grego, significa que se trata de gente que já acredita, mas com dificuldade em aceitar a morte de alguém que era Messias e Filho de Deus, precisando, por isso, de fortalecer/corrigir a fé: Cristo morreu verdadeiramente, mas a sua não é uma morte estéril. O evangelista vê, no facto das pernas não quebradas e na saída de sangue e água, um significado cristológico, eclesiológico e soteriológico preparado ao longo da obra: é necessário receber um Cristo inteiro (uma cristologia sem fraturas), como forma de manter a unidade eclesiológica e, assim, receber os dons soteriológicos. O sangue significa a vida de Jesus, doada para que os homens tenham a vida divina (6,53ss), isto é, o Espírito Santo, anunciado como essa água que sairia do seio de Jesus aquando da sua glorificação (4,13-15; 7,35-39). Numa posterior camada de sentido, o sangue referir-se-á à eucaristia (6,55) e a água ao batismo (3,5), os sacramentos de que vive a Igreja.

Nota do vers. 35 do cap. 19 de João

O Papa Bento XVI, enquanto Joseph Ratzinger, num dos livros da sua trilogia Jesus de Nazaré ─ Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, garante que “todas as Escrituras tinham falado dos acontecimentos desta Paixão e a absurdidade descobre agora o seu profundo significado. No acontecimento aparentemente sem sentido, manifestou-se realmente o verdadeiro sentido do caminho humano; o sentido trouxe a vitória sobre a força da destruição e do mal” (p. 168). Referindo-se ao texto de Isaías que lemos na primeira leitura, Joseph Ratzinger garante-nos que na sua leitura “é possível apreender o assombro do cristianismo primitivo ao constatar como o caminho de Jesus Cristo tinha sido predito passo a passo. E acrescenta que “o profeta fala como evangelista” (p. 170).

Nesta ocasião, peçamos a Jesus a graça de, como Ele ─ ao recusar a bebida anestesiante para atenuar os sofrimentos insuportáveis próprios das crucifixões ─ recusarmos tudo aquilo que, com o motivo de nos livrar de sofrimentos suportáveis, também nos tira a consciência plena do que Ele vai construindo na nossa vida, pela forma como nos convida a suportar o crescimento e a missão. Acabar com o sofrimento implica algum sofrimento; de contrário é sofrimento que gera mais violência. Ele tem sede que tenhamos sede d’Ele; Ele que é fonte de vida eterna.

Em O caminho menor percorrido, Scott Peck, como psiquiatra cristão, atreve-se de lançar um esboço de resposta à pergunta sobre se o sofrimento de Cristo na Cruz foi mesmo o maior sofrimento da história, uma vez que houve muitas outras formas atrozes de se infligir a morte a inocentes. Ele diz que naquela ocasião, Jesus tinha um nível de consciência que mais ninguém tinha: o que de pela Sua entrega tinha a responsabilidade de manter o Céu definitivamente aberto para toda a humanidade que se queira aventurar a aceitar a sua proposta do Reino de Deus. Esta resposta faz-me lembrar a consciência dos pais, educadores, dos apóstolos de hoje que têm a sabedora sobre o que edifica ou não um verdadeiro caminho para a salvação, mesmo sem o poder ou saberem explicar. A sua forme de o dizer mais eloquente é o testemunho. E, por vezes, o que resta do seu testemunho são as chagas ou sofrimentos por terem defendido a verdade com palavras e obras.

Costumamos, guiados pelo bom senso e pelo Espírito de Deus, que acontecimentos como Auschwitz, as guerras, etc. não podem ser esquecidos, precisamente porque servem de selo para o que não se deve repetir, a não ser o modo não violento e fraterno com que podemos superar estas crises humanitárias.

Nós vos adoramos e bendizemos, ó Jesus…

A alegria de ser cristão é a alegria de ser Igreja em expansão, passando pela cruz

Gn 1, 1-19; Mc 6, 53-56 ─ na memória obrigatória de São Paulo Miki e Companheiros

Na história do martírio dos japoneses Paulo Miki e Companheiros, padroeiros do Japão juntamente com S. Francisco Xavier, contemplamos não só a constância de todos, com os olhares fixos no céu, mas também como cantavam salmos de ação de graças entregando a alma a Deus e rezando. Paulo Miki acolhia a cruz como uma tribuna que nunca tivera, dando graças por tão elevado benefício, e declarando “não haver outro caminho para a salvação do que aquela que possuem os cristãos”, caminho que nos ensina a “perdoar os inimigos”, pedindo a “todos que se batizem”. Da sua cruz, Paulo Miki anima os companheiros, suscitando no irmão Luís uma expressão corporal de alegria que mais parecia desporto na cruz. A expressão “Jesus, Maria” e a exortação aos presentes que todos levassem uma vida digna serve de passaporte para o céu, nas mãos dos seus carrascos. (Cf. Leitura do Ofício)

É desta mesma alegria que o Papa Francisco está a falar, quando nos convida a passar para uma nova etapa evangelizadora, “a Alegria do Evangelho [que] enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento” (Evangelii gaudium, 1). É a mesma alegria que exorta aos congoleses, nesta sua viagem recente, que confirmada pela paz diz de quem pertence a Jesus, sem deixar prevalecer a tristeza. O Papa confirma-lhes que “se ao nosso redor se respira este clima [de tristeza], que não seja por nossa causa: num mundo desanimado com a violência e a guerra, os cristãos fazem como Jesus. Ele, como que insistindo, repetiu para os discípulos: A paz esteja convosco! E nós somos chamados a assumir e proclamar ao mundo este inesperado e profético anúncio de paz”, indicando as “três nascentes da paz, três fontes para continuar a alimentá-la: o perdão, a comunidade e a missão”. Garante que Jesus “conhece as suas feridas, conhece as feridas do seu país, do seu povo, da tua terra! São feridas que ardem, continuamente infetadas pelo ódio e a violência, enquanto o remédio da justiça e o bálsamo da esperança parecem nunca mais chegar. É isto que Cristo deseja: ungir-nos com o seu perdão.” Diz-lhes ainda: “Irmãos, irmãs, somos chamados a ser missionários de paz, e isto nos encherá de paz. Trata-se de uma opção: é dar espaço a todos no coração, é acreditar que as diferenças étnicas, regionais, sociais e religiosas vêm em segundo lugar e não são obstáculo; que os outros são irmãos e irmãs, membros da mesma comunidade humana; que cada um é destinatário da paz trazida ao mundo por Jesus. É acreditar que nós, cristãos, somos chamados a colaborar com todos, a romper a espiral da violência, a desmantelar os enredos do ódio. (…) “A paz esteja convosco: diz Jesus hoje a cada família, comunidade, etnia, bairro e cidade deste grande país. A paz esteja convosco: deixemos que ressoem no coração, em silêncio, estas palavras de nosso Senhor. Ouçamo-las dirigidas a nós e escolhamos ser testemunhas de perdão, protagonistas na comunidade, pessoas em missão de paz no mundo””, concluiu Francisco.”

Penso que esta visita ao Congo e ao Sudão do Sul ajudam-nos a contemplar o Evangelho proclamado hoje. Alguns judeus não só fugiam de quem estivesse com doenças, como os afastavam da sociedade, criando um espaço de segurança de controlo (não de auto-controlo), não se deixando tocar, nem tocando a vida de quem padecia tormentos. Ainda por cima, impunham justificações morais às doenças dos outros, para terem crédito diante da comunidade religiosa. Jesus e os seus discípulos “desembarcam” a comunidade numa nova história, onde não há medo de tocar a vida dos doentes, seja de que enfermidade for (a existência do medo é que é sinal de pouca confiança no poder de Deus!). É curioso que o evangelista Marcos nos conte que no desembarque de Jesus e dos seus discípulos, “as pessoas reconheceram logo Jesus”, trazendo-lhes os seus doentes para que os tocasse. Tal era a sua fé. “E todos os que O tocavam ficavam curados”! Quem coloca entraves ao desembarque da Igreja para outras margens não sabe o que está a fazer nela, fechando-a ao Espírito de Jesus Cristo.

A leitura do Génesis, nesta ocasião, pode-nos ajudar a contemplar que o mesmo poder criador de Deus está nas palavras e ações de Jesus. De dia para dia, no quotidiano da Sua ação, acontece a nova criação. Somos criaturas chamadas a ser novas criaturas!

As boas obras são a resposta dos bem-aventurados, nas suas situações, diante do mundo

Is 58, 7-10; L 2 1Cor 2, 1-5; Mt 5, 13-16 ─ No V Domingo Comum (A); cf. reflexão inspirada na entrevista da Agência Ecclesia ao P. José Rebelo, Misisonário Comboniano

Há oito dias atrás, fomos convidados a subir ao monte com Jesus, que nos levava Consigo no coração e, no olhar, a multidão que O seguia. Ali, proclamou bem-aventurados os pobres em espírito, os humildes, os os pobres em espírito, os que têm fome e sede de justiça, os humildes, os que choram, os que promovem a paz, os misericordiosos, os puros de coração, os que sofrem perseguição por amor da justiça. Este era um ponto de chegada ao pé de Jesus e, ao mesmo tempo, ponto de partida para uma vida mais feliz, na perspetiva do Reino de Deus. Os ingredientes para vencerem estas situações estão no Evangelho deste V Domingo: ser sal e ser luz, quer dizer praticar as boas obras. Estas são o remédio para prevenir e vencer todas as situações que nos tiram a dignidade e nos trazem a infelicidade.

Os romanos já diziam: “Nada é mais importante que o sol e o sal”. Jesus traduz melhor: ser luz e ser sal (uma vez que a imagem do sol poderia ofuscar os olhos dos discípulos e perdê-Lo de vista). Ele usa estas duas imagens tão fortes. Hoje conhecemos menos as potencialidades do sal, para além de dar saber, mas antigamente era utilizado para conservar os alimentos. Jesus alude a uma outra qualidade: a sua capacidade térmica. Se o sal perder o sabor… Os fornos eram revestidos com placas de sal que ajudavam a reter a temperatura. Uma vez queimado, era atirado fora, para os caminhos. Dar sabor, dar gosto ás coisas, temperar, ajudar as pessoas a discernir.

Estas duas imagens têm uma coisa em comum: nem a luz nem o sal existem para si. O sal para dar sabor, conservar; a luz para iluminar. Só cumprem a sua função se desaparecerem. O sal dissolve-se; a luz consome. Tanto a luz como o sal só têm valor em função dos outros e têm de perder o que são para ser úteis. Ao dizer isto, Jesus quer dizer que nós só somos úteis na medida em que nos dissolvermos na vida dos outros e nos consumirmos por eles.

Jesus sublinha o que dizia o profeta Isaías sobre o que significa ser luz: fazer boas obras. E é medida que fazemos boas obras, também somos curados, veremos os nossos problemas resolvidos e mais: o Senhor responderá se O invocarmos. Deus não se deixa vencer em generosidade. Quando vamos ao seu encontro com boas obras, Ele toma conta de nós.

São Paulo fala-nos do alimento para isso, como a querosene que se usa para as as lâmpadas antigas: a evangelização não é o resultado da sublimidade da linguagem, a linguagem convincente da sabedoria humana, mas com a poderosa manifestação do do Espírito. A evangelização não é uma questão de palavras, é uma questão de presença, de nos fazermos próximos dos outros.

Um bom exemplo de quem sabe responder ao convite do Mestre a se luz e sal é o Papa Francisco que, por estes dias, está a visitar o Congo e o Sudão do Sul (ler crónica/resumo).

A libertação da escravatura das paixões requer a renovação da mente

Heb 13, 1-8; Mc 6, 14-29

Depois de ontem termos acolhido de braços abertos a Luz das nações, como Simeão, hoje somos convidados a refletir sobre a Hospitalidade com a qual, sem o sabermos, poderemos vir a hospedar anjos. Para isso, precisamos de permanecer no amor fraterno, levando-o até às últimas consequências, começando por nos colocarmos na “pele” dos outros. A base desta capacidade é a confiança em Deus, que não abandona quem o honra com a pureza de intenções e do coração.

Para conseguirmos ter a coragem de viver assim, precisamos de fazer como nos sugere o Papa Francisco:

Coloque a sua vida sob a Palavra de Deus. Este é o caminho que nos apontou a Igreja: todos, mesmo os Pastores da Igreja, estamos sob a autoridade da Palavra de Deus; não sob os nossos gostos, as nossas tendências e preferências, mas unicamente sob a Palavra de Deus que nos molda, converte e pede para permanecermos unidos na única Igreja de Cristo. Então, irmãos e irmãs, podemos perguntar-nos: A minha vida, que direção toma; de onde tira a orientação? Das numerosas palavras que escuto, das ideologias ou da Palavra de Deus que me guia e purifica? E em mim, quais são os aspetos que exigem mudança e conversão?”

Ver vídeo aqui

O Herodes Antipas, apesar de ser mais coerente que os fariseus que o apoiavam (cf. VV.AA., Comentáros à Bíblia Litúrgica, Gráfica de Coimbra 2, Assafarge 2007, 973), dividido entre as suas paixões e admiração pelo Batista, contrasta com a figura de Simeão que, sem confusões entre o coração e a sua mente, esperava a Luz de Israel no Menino Deus. À divisão interior de Herodes bastou um “interruptor” maligno acionado por Herodíades e Salomé, para escolher a pior parte: a da desonra para a qual João Batista já o vinha continuamente a avisar.

O Papa Francisco, na homilia da Festa da Apresentação do Senhor do ano 2022, na Eucaristia com os membros dois Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, coloca três perguntas que poderão ajudar a não estar divididos e a viver segundo a referência dos idosos que preservavam a esperança de Israel, sem estarem reféns de nenhum poder mundano:
1) O que é que nos faz mover? (As moções interiores do Espírito ou as moções espirituais mundanas?)
2) O que veem os nossos olhos? (A sabedoria de Deus na fragilidade, que nos ajuda a ver dentro e mais além, ou o saudosismo daquilo que já não existe?)
3) Que estreitamos nos braços? (Jesus e quem Ele representa ou o ativismo e a rigidez em coisas que nos afasta d’Ele?)

Ainda que com João Batista Deus tenha preparado o caminho do Senhor, com a presença de Jesus inaugura uma história nova, com uma nova pedagogia, que, não obstante a experiência da Cruz, abre espaço para a Ressurreição.

A Luz eterna do novo culto é acolhida e colocada no candelabro do culto antigo, superando a sua escuridão

Lc 2, 22-40, na Festa da Apresentação do Senhor no Templo

O que parece mais significativo nesta Festa é o acolhimento do Menino Jesus por parte de Simeão e Ana, sem serem ministros do Templo e da idade da sua velhice. Tudo o que viveram nas imediações do Templo não chegou para se igualar a esta Luz eterna que estava a ser entregue nos seus braços. Eles representam a esperança de Israel.

Até este momento, o Templo estava às escuras, aguardando a Luz verdadeira que inaugura um culto novo e definitivo. Doravante, não faz sentido a ritualização vazia, sem coração, mas a celebração com e diante dos sinais que o próprio Deus nos dá, a partir das mãos de figuras significativas como Maria, José e aqueles que esperavam a manifestação desta revelação na fidelidade.

Imagens para mim significativas dentro desta Festa são:

1) O acólito ou sacristão que antes de começar cada Eucaristia vão ao altar acender as velas;
2) Os templos das nossas casas de oração a que chamamos “igrejas” e as nossas pessoas para lá convocadas e encontradas, representam a cera que, ao ser consumida na Liturgia, emanam para fora o verdadeiro “ser Igreja” que deixa transparecer para o mundo (“todas as nações”) a Luz que é Jesus;
3) As mãos dos sacerdotes que em cada Eucaristia elevam no altar o pão e o vinho a transformar-se para alimento da nossa caminhada histórica na fé, esperança e caridade.

Estas metáforas servem para, no contexto desta celebração, nos ajudar a ter na consciência o culto novo inaugurado por Jesus Cristo, entre a sua Encarnação e a sua Morte e Ressurreição. Quando virmos esta luz por completo, é porque já estamos de partida deste mundo ou já não estamos aqui neste terra. Enquanto caminhamos, abramos as mãos e o coração para recebermos “feixes” desta fibra divina, mantendo-as abertas para que outros a possam contemplar, uma vez que é para todos, não diminui, antes cresce aos nossos olhos.

O que se passa num Seminário com a formação presbiteral é, de certa forma, dinâmica de encarnação (configuração a Cristo) e apresentação aos crentes das comunidades que esperam novos padres. Nestas casas de formação, enchem-se os corações e as mentes desta Luz que é Cristo, para oportunamente, ser partilhada com as mãos que encontrarmos abertas. Para que o culto inaugurado pelo Bom Pastor se renove continuamente e dele saia vida para o mundo inteiro.

«Em casa de ferreiro, espeto de pau». Jesus não realiza milagres em vão, implica-nos na nossa recetividade crente

Heb 12, 4-7. 11-15; Mc 6, 1-6

Este ditado popular diz-se quando as coisas não existem no lugar em que seria natural prever-se a sua existência. É o caso do reconhecimento da divindade de Jesus e do seu poder de curar e fazer milagres. Na sua terra, Jesus encontrou falta de fé, de modo que não podia realizar ali qualquer milagre.

Marcos conta-nos a ida de Jesus à sua terra natal por motivos de ordem teológica, mais do que de ordem cronológica. O evangelista quer apresentá-Lo como Filho de Deus que liberta o homem da sua contingência: do pecado, das doenças e da morte. Esta salvação, porém, só se dá no contexto da fé.

Apesar de Jesus estar sempre disponível para ensinar ─ obviamente esta era uma parte em que Ele ocupava grande parte do seu tempo e um pressuposto da sua atividade de cura ─ os seus conterrâneos não costumavam ser assíduos a este ensino, a ver pela falta de reconhecimento do Mestre e dúvida sobre a origem divina dos seus ensinamentos. Apesar do benefício da cura de alguns doentes, não conseguiram ver na presença de Jesus a mensagem da salvação e de libertação da qual era sinal.

Esta ida de Jesus à sua terra deve ter tido um impacto sociológico significativo. O escritor cristão Hegesipo conta que o imperador Domiciano fez ir a Roma alguns descendentes de Judas, parente de Jesus, para obter algumas informações sobre aqueles acontecimentos. Porém, após ter recebido as informações dos parentes, o imperador convenceu-se de que, politicamente, eles não podiam causar-lhe preocupação e deixou-os voltar para a Judeia. Observando bem, os parentes de Jesus estavam mais familiarizados pelo poder político, esperando um “super-homem” que pudesse fazer frente ao imperador, do que com a forma como Jesus Se apresenta.

O autor do segundo Evangelho está atento a sublinhar que a nova comunidade deveria ser exclusivamente convocada pelo Espírito no contexto da fé, sendo inútil procurar nela vínculos dinásticos como parece que acontecia na comunidade de Jerusalém, cujo chefe era Tiago, também parente do Senhor. Em algumas nossas comunidades, por vezes paira esta tendência de fazer corresponder a pertença à comunidade dos Católicos, algumas propriedades ligadas à língua, à etnia, a símbolos da religião, ao ter, etc. Para o filósofo Roberto Esposito, a “communitas” não se define por isso, mas antes por uma dádiva e uma dívida. a origem da palavra é vinculada especialmente ao termo
munus, que lhe dá o significado de uma obrigação de dar, um dever como
um encargo. Estamos em face de uma impropriedade e um nada do sujeito, que à comunidade deve desde sempre. Communitas é o conjunto de pessoas,
afirma o autor, ligadas por estarem em débito; não por um “mais” e sim por
um “menos” que as coloca em dívida.

Hoje aprendemos que, na pedagogia pastoral de Jesus, a fé precede os milagres que excedem as forças da natureza. Nada é mais caro do que aquilo que recebemos de graça. É pena que, por causa de não ser por mérito nosso, não o queiramos receber como gratuito. Basta a fé!

Estamos aqui a celebrar na convicção de que Jesus tem um poder do qual dependerá a libertação das pessoas que caminham ao nosso lado e que nos serão confiadas. O “contágio da comunidade” de que nos fala o autor da Carta aos Hebreus é hoje mais do que necessário, face ao populismo de outros poderes que nem sempre e nem à primeira vista pretendem ser parceiros de uma libertação integral.

Diante de Jesus, cada pessoa deve decidir que Ele “encarne” na sua vida ou Se afaste da sua alienação. Ele liberta dando tudo e não tirando nada

Mc 5, 1-20

Muitas leituras se podem fazer dos relatos bíblicos, entre a leitura história-real e a leitura alegórica-espiritual. Ambas podem ser úteis para o caminho da fé.

Estamos diante de um relato popular, de estilo extravagante, do qual as primeiras comunidades cristãs se serviram para realçar o poder benéfico do “kérigma” de Jesus. Aquele “epilético” não podia ser controlado pelos seus concidadãos e, por isso, vivia no campo, “no meio dos túmulos”. Também por ser pagão, era considerado “impuro” pelos hebreus, era obrigado a vaguear e a procurar refúgio entre “os túmulos”. Para os hebreus, os “porcos” eram animais impuros por excelência. Constatamos o cúmulo da marginalização. Esta comunidade judaico-cristã, para a qual fala Marcos, estava ainda muito vinculada a costumes e caraterísticas dos hebreus, como ter horror aos túmulos e aos porcos. Por outro lado, a comunidade estava profundamente interessada em abrir de par em par as portas do “ghetto” e em fazer que todos participassem nos efeitos da palavra e dos seus efeitos benéficos.

Alegórica ou metaforicamente, este homem possesso que nos relata o Evangelho, andando “de dia e de noite, entre os túmulos e os montes, a gritar e a ferir-se com pedras” faz-nos lembrar os que não querem ser adultos, perdidos entre as vielas de uma fantasiosa “eterna juventude”, presa fácil para os poderes do consumo vicioso.

Jesus, ao curar aquele homem, devolve-o à sua casa e, pelo caminho, ele apregoa a maravilha da sua libertação, deixando todos admirados. Esta facto prova-nos que nem todos precisam de pertencer aos mesmos grupos, para fazerem parte do projeto do Reino. Aquele homem não é obrigado a fazer parte daquele grupo de “hebreus” para se converter e ser anunciador da Palavra. O Evangelho, por mais libertador que seja, não pode ser imposto a ninguém e Jesus continua a fazer maravilhas aonde e por quem Lhe aprouver. A prontidão em seguir e obedecer às palavras de Jesus também pode estar fora das estruturas que identificamos com a fé. E o contrário também pode ser, infelizmente verdade: muitas famílias católicas que não são cristãs, porque constituídas por adultos que já não recebem a transmissão da fé como os adultos de outra era (cf. esta conferência de Armando Matteo, no minuto 43).

Determinante é a atitude que cada pessoa adota diante de Jesus: ou um ser superior ou causa de ruína. De facto, a sua Palavra, por mais libertadora e benéfica que seja, obriga a alterar as rotinas da vida. Por isso, os perdedores materiais pediram-Lhe que se afastasse. O homem oprimido e alienado nem sempre quer ser libertado da sua alienação. Por isso, o Evangelho não pode ser imposto a ninguém, por mais libertador que seja e ainda que isso acarrete levar o homem a viver fragmentado, sem unidade de vida interior.

Este relato prova-nos que Jesus, quando liberta, fá-lo sempre pelo bem da pessoa e não por outro interesse. O seguimento ao seu chamamento já depende da decisão livre de cada um.

Hoje, rezo pelos anunciadores da Palavra de Deus, para que tenham a coragem de dar testemunho das palavras e gestos de Jesus, a propósito e a despropósito, mesmo que o seu testemunho não seja reconhecido.

Santidade e Felicidade contracorrente. No coração de Deus, todos partimos com de um plafond ilimitado de amor

Mt 5, 1-12aNo IV Domingo do Tempo Comum A

O discurso das Bem-aventuranças permanecerá para sempre um programa de vida no qual Jesus insere a sua atividade pastoral, identificando-se com os seus destinatários. Esta identificação é notória pela colocação dos sentidos e pela posição corporal, conforme nos confirma o versículo 1: Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-no os discípulos…

Chamamos este discurso programático no tocante à missão de Jesus porque não parte de cima, quer dizer, de um método dedutivo, mas de baixo, indutivamente, desde a observação da vida real das pessoas e como resposta de saída para a sua saúde física, psíquica e espiritual. Segundo Mateus, este mesmo discurso acontece após a escolha dos primeiros discípulos e o acorrer das multidões ao encontro do Mestre (cf. cap. 4). Jesus, colocando-Se ao nível das outras pessoas, observa-as e ajuda-as a tirar de si o remédio que as cura para a vida eterna.

Lembra-nos o Papa Francisco que com este discurso Jesus mostrou-nos a essência do que é ser santo, diante de muitos modelos difíceis ou inacessíveis de a santidade ser procurada ou conseguida. “À luz do mestre” a proposta de santidade depende mais da forma como vivemos as circunstâncias da nossa situação pessoal e comunitária, diante dos problemas do mundo. Enquanto que a realidade do mundo tende a fascinar-nos com outro estilo de vida, Jesus dá-nos o Seu Espírito, para “nos permear com toda a sua força e nos libertar da fraqueza do egoísmo, da preguiça, do orgulho”. Com as suas palavras, Jesus convida-nos a aproveitarmos a situação que vivemos, neste tempo, para deixarmos acontecer uma mudança real.

Segundo o Papa Francisco, à luz da Carta Apostólica “Alegrai-vos e exultai”, a santidade ou felicidade cristã, à luz das Bem-aventuranças, podem traduzir-se assim ─ Santidade é:
1) Ser pobre no coração
2) Reagir com humilde mansidão
3) Saber chorar com os outros
4) Buscar a justiça com fome e sede
5) Olhar e agir com misericórdia
6) Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor
7) Semear a paz ao nosso redor
8) Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas

E a grande regra de comportamento da santidade que agrada a Deus é praticar as obras de misericórdia contidas no Capítulo 25 de São Mateus.

Portanto, não há aqui só uma proposta de felicidade contracorrente, mas também uma proposta de santidade contracorrente, na atitude de Jesus diante dos males que atribulam a vida das pessoas. Por excesso ou por defeito, pode haver propostas de santidade e felicidade que obstaculizam um caminho realista para Deus e a vida do Reino que Ele nos propõe. Está a fazer 80 anos o famoso livro de Saint-Exupéry, O Pricipezinho, que pela sua simplicidade e beleza deixou perfume em milhares de leitores ao longo de todos os tempos, cativando pela convergência de palavras, símbolos e figuras em relação à vida das pessoas. E não deveria ser assim e muito mais, também, a nossa relação com a Palavra que é Cristo: a de uma santidade e felicidade “façonnable“, quer dizer, “moldável” ou acomodada à situação de cada pessoa, de forma a que cada pessoa possa fazer o seu caminho de forma realista para Deus e para os irmãos? Foi esse o método que o Senhor Jesus utilizou ao encarnar. Como não haveria de ser o nosso como discípulos-missionários?

Uma certeza em que somos chamados a estar unidos: no coração de Deus, todos partimos de um plafond infinito de amor. Em cada pessoa, Ele quer ver uma felicidade original e não a fotocópia própria de quem se deixa levar por modas de felicidade genéricas, manipuladas pelo consumismo.

Uma Igreja ultratecnicizada pode afastar do ideal do Espírito de Cristo. Antes que dividir para reinar é preciso envolver-se para ser salvo

Heb 9, 15. 24-28; Mc 3, 22-30

Temo que a tentativa de despenalização da morte assistida seja uma ação para legalizar mortes cujas causas já vão acontecendo “fora da lei”, a começar pela Lei divina do amor que valoriza e dá a Vida. Os acontecimentos relatados nesta notícia mostram-nos como “medicamentos” não legalmente comercializáveis chegaram às mãos de pessoas em Portugal nos últimos para o suicídio (20 casos autopsiados em 13 anos, 3 casos em 2022). Não admira que parte da política do nosso país não goste do testemunho da Igreja contra a eutanásia.

Os escribas com quem Jesus Se confrontou parecem-me como aqueles querem uma lei para manter pessoas sob o seu jugo pesado, para descartar quem é desprezível ou para defender uma falsa liberdade que conduz ao “coma” social que gera o consumismo vicioso (com muitos tipos de oferta-procura). Por isso, tinham medo do Espírito de Jesus! Acusavam-n’O diante de todas as pessoas para que estas o desprezassem. No fundo, queriam que essas pessoas não tivessem a plenitude do Espírito Santo nas suas almas, para que eles mesmos as pudessem manipular com as leis mundanas, ainda que revestidas de “cosmética” religiosa. Jesus denunciou a sua astúcia, avisando-os de que quem é réu de pecado eterno é quem anula a possibilidade de deixar entrar o Espírito de Deus.

Estes escribas fazem parte daquele “personagem extra, antagonista” de que falam os documentos do caminho sinodal da Igreja:

«que traz à cena a separação diabólica dos outros três [Jesus, a multidão e os apóstolos]. Diante da perspetiva inquietadora da cruz, há discípulos que vão embora e multidões que mudam de humor. A ameaça que divide e, por conseguinte, impede um caminho comum, manifesta-se indiferentemente sob as formas do rigor religioso, da injunção moral, que se revela mais exigente que a de Jesus, e da sedução de uma sabedoria política mundana, que se julga mais eficaz que um discernimento dos espíritos. Para evitar os enganos do “quarto ator”, é necessária uma conversão contínua.»

Documento preparatório do Sínodo, n. 21

Nas comunidades da Igreja, hoje, pode passar-se aquilo que se passava no tempo de Jesus: dividir ou confundir para reinar. Quando a proposta do Reino de Deus que Jesus traz consigo é de unidade e de paz para todos os povos. Foi para isso que o Pai lhe deu a plenitude do Espírito Santo: para, no mesmo Espírito, vivermos a diversidade de dons e carismas. Portanto, a Igreja não é chamada a ser homogénea, mas comunhão no serviço.

O Cardeal Newmann costumava comparar a barca da Igreja à de uma navio grande que no fundo tinha as máquinas e no cimo as velas, aconselhando: se queres fazer uma experiência feliz de vida eclesial, não desças às máquinas, porque lá cheira muito mal. Fica ao ar livre, onde o vento sopra e impele a nave. A Igreja não é uma máquina ou mera organização humana: é fruto da vida e experiência pascal de Cristo Morto e Ressuscitado e impelida pelo Espírito do Pentecostes. Quem tem medo deste Espírito que impele vive numa ilha, não se apercebendo do grande oceano de amor que somos chamados a navegar até à “terra prometida” do Céu.

Hoje peço para que não sejam perseguidos todos quantos fazem o Evangelho aparecer na sua nudez, nenhum poder adverso dispare contra eles e contra a igreja que eles servem.