As tentações, do «show off», pela Palavra “on”, ao Espírito “in”

[Leitura] L 1 Deut 26, 4-10; Sal 90 (91), 1-2. 10-11. 12-13. 14-15 L 2 Rom 10, 8-13 Ev Lc 4, 1-13

[Meditação] Toda a vida adulta saudável, do ponto de vista humano e cristão, precisa de iniciar e passar por provas; todas as energias e saberes que se vão adquirindo na fase a que se chama de iniciação infanto-juvenil servem para uma original felicidade, mas por onde e a que preço?

A teologia do 1º domingo da Quaresma mostra-nos como Jesus, o Filho de Deus, não descartou aqueles energias de «Filho do homem», mas conhecendo-Se a Si mesmo, utilizou o que nessa condição seria alavanca para fazer as escolhas de verdadeiro Filho de Deus. As três tentações apresentadas no Evangelho são três “ideologias” saídas da “caixa de pandora” que é a tendência primordial de o homem se substituir a Deus (cf. Gn 3), impondo o ter acima do ser, o poder acima do  e o prazer/aparecer acima do serviço. Os antídotos para essas “mordidelas” da serpente são: o “pão” da Palavra, a “força” da humildade e a “beleza” do serviço.

Com a esmola (na relação com os outros), a oração (na relação com Deus) e o jejum (na relação consigo próprio/a), restauramos a nossa forma psico-social de estar presentes, o que reverte a favor de uma ecologia integral, à maneira do que o Papa Francisco sugere, na sua Mensagem para a Quaresma de 2019. Numa sociedade que nos incentiva ao exibicionismo desumanizante e inútil, a Palavra de Deus é o caminho que nos leva a aventurarmo-nos pelas sendas do Espírito de Amor que nos garante a verdadeira felicidade.

[Oração] Salmo 91:

Tu, que habitas sob a proteção do Altíssimo, e moras à sombra do Omnipotente, diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela; meu Deus, em Vós confio». Nenhum mal te acontecerá, nem a desgraça se aproximará da tua morada. Porque o Senhor mandará aos seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra. Poderás andar sobre víboras e serpentes, calcar aos pés o leão e o dragão. «Porque confiou em Mim, hei de salvá-lo; hei de protegê-lo, pois conheceu o meu nome. Quando Me invocar, hei-de atendê-lo, estarei com ele na tribulação,

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Fazer de conta? Só para aprender a “jogar” a vida

[Leitura] L 1 Sir 27, 5-8 (gr. 4-7); Sal 91 (92), 2-3. 13-14. 15-16 L 2 1 Cor 15, 54-58 Ev Lc 6, 39-45

[Meditação] Neste VIII Domingo do Tempo Comum que antecede, neste Ano C do ciclo da Liturgia, o início da Quaresma, a parábola do Evangelho que Jesus conta aos discípulos pode ajudar a animar os dias de Carnaval que estamos a viver, no sentido de abrir um caminho novo de conversão e vida. Nela, Jesus utiliza a palavra grega “hipocrité”, quer quer dizer “ator” ou “máscara”, para afastar os seus discípulos de brincarem com coisas sérias, sobretudo na relação com os outros, que são chamados a não julgar. Para isso, utiliza, também, adágios frequentes na sua época: “um cego não pode guiar outro cego…”; “o discípulo  não é superior ao mestre, mas pode ser perfeito como ele…”; e “da árvore boa só podem vir bons frutos, da má virão maus frutos…”.

O jogo e a representação em teatro são componentes humanas e artísticas úteis ao desenvolvimento humano e não me parece que o Evangelho esteja contra elas, incluindo as nossas marchas carnavalescas. Nestas o ser humano esconde-se por detrás de “máscaras” para se repropor à redescoberta de si mesmo e dos outros. Porém, este jogo não se pode prolongar no tempo de forma indeterminada, com o risco de a pessoa se perder numa identidade que não seja aquele ser à imagem e semelhança de Deus, num percurso individual e comunitário que Deus designou à partida como história de amor.

Vai-se sabendo, entre a psicologia que se estuda e o mistério que se acolhe, que o desenvolvimento humano precisa do jogo e de uma educação que se desenvolva na expressão e no controlo, para que a pessoa consiga fazer a passagem da “bios” (vida…) ao “logos” (…com sentido), passando pela tensão do “pathos” (ação, paixão, decisão livre). O jogo sustenta os parâmetros onde, também, o mistério de concretiza. São eles: a alteridade e a contínua tensão entre o sujeito e um objeto; a temporalidade pela referência e avizinhamento entre jogo e cultura, servindo para ligar passado, presente e futuro; e os estádios, sendo a estrutura do jogo sempre precária e provisória, por um lado, e exprimindo um modo de afrontar a realidade que está em relação com o mistério, por outro.

Torna-se assim, o jogo da Sapiência! (cf. Pr 8, 27-31)

[Oração] Provérbios 8, 27-31:

Quando Ele formava os céus, ali estava eu;
quando colocava a abóbada por cima do abismo,
quando condensava as nuvens, nas alturas,
quando continha as fontes do abismo,
quando fixava ao mar os seus limites,
para que as águas não ultrapassassem a sua orla;
quando assentou os fundamentos da terra,
eu estava com Ele como arquitecto,
e era o seu encanto, todos os dias,
brincando continuamente em sua presença;
brincava sobre a superfície da Terra,
e as minhas delícias é estar junto dos seres humanos.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Os “p’s” da Páscoa

A Páscoa cristã é uma espécie de “ponte” lançada por Cristo para a vida nova do Reino eterno. O tabuleiro desta ponte assenta no primeiro pilar nos p’s da nossa realidade humana decaída pelo pecado e prolonga-se até ao pilar da outra margem que é o novo estilo de vida do caminho aberto por Jesus:

  • Do possuir à partilha: é este o caminho da pobreza fraterna. Use-se a esmola.
  • Do poder à pequenez: é este o caminho da obediência filial. Use-se a oração.
  • Do prazer à pureza: é este o caminho da castidade esponsal. Use-se o jejum.

O jejum, pela abstinência de exageros supérfluos (alimentares ou outros), é um instrumento que pode ajudar a praticar qualquer um destes valores quaresmais até à vida nova da Páscoa.

Do planalto da “filia” ao cume do “ágape”

[Leitura] L 1 1 Sam 26, 2. 7-9.12-13.22-23;Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 8 e 10. 12-13 L 2 1 Cor 15, 45-49 Ev Lc 6, 27-38

[Meditação] É curioso que na versão de Lucas o discurso das bem-aventuranças tenha sido proferido num planalto. Na versão de Mateus terá acontecido no cimo do monto, inserindo-se, por isso, no Sermão da Montanha. Imagino que Jesus, olhando para os seus discípulos e apontando-lhes o cume acima daquele planalto (segundo a geografia de Lucas) acrescentou o mandamento que proclamámos neste VII domingo do tempo comum: «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam». Esses possíveis inimigos também poderiam estar na «grande multidão» (cf. Lc 6,17.20-26) e, assim, estavam a ouvir o que Jesus disse aos seus discípulos bem-aventurados. No episódio de hoje, para além de serem considerados “amigos” (fílous) eram chamados a viver segundo a “ágape” − a nova forma de traduzir o amor cristão, levado até ao limite possível pelo exemplo de Cristo até à cruz.

A experiência mais maravilhosa que se pode fazer é a de sentir-se amado. Este amor pode experimentar-se de várias formas entre a erótica e a filantrópica. No entanto, no ágape (com que, erradamente, por vezes, se chama uma merenda partilhada) o que está acima de tudo não é a conquista da plenitude pessoal (os “óscares” a que se aspira), mas o sacrifício que se é capaz de fazer pelo bem dos outros, mesmo se entre estes estão inimigos ou pessoas incómodas. E sem esperar nada em troca, mesmo que seja um reconhecimento pessoal da bondade realizada.

Jesus expande a categoria do amor cristão até onde é possível, na tentativa de imitar Deus. A medida do amor cristão é amar sem medida porque é essa a medida do amor de Deus. Ou seja, a forma como vemos e sentimos os outros deve inspirar-se na misericórdia infinita de Deus para connosco. Poderíamos, enfim, seguir alguns passos para treinarmos esta forma de amar que nos identifica como filhos de Deus:

1º – Reconhecer as nossas limitações pessoais com muita humildade.
2º – Rezar pelos inimigos também é uma forma preliminar de os amarmos.
3º – Saudar ou cumprimentar os inimigos, mesmo quando eles não respondem ou não estendem a mão.
4º – Dar passos simples ou fazer gestos simples que demonstrem o querer bem ou o esforço pela instauração da paz fraternal.
5º – Se andamos sempre com Jesus, que deu a vida por todos, arriscamo-nos a dar a vida por quem não esperávamos, com a força do Seu amor, amando sem medida (fora da lógica humana do egoísmo).

Como David nos faz acreditar, no outro (mesmo num inimigo) pode estar um “ungido do Senhor”. A ausência dos sinais de “guerra” pode significar que queremos respeitar o pedaço de “céu” que está em cada um, apesar da carne que tende para o mal.

[Oração] Pelos inimigos:

Senhor, há certas pessoas pelas quais desejo orar porque sei que colocarás o Teu amor por elas no meu coração. Ajuda-me a orar especialmente pelas pessoas que me feriram [mencione os nomes dessas pessoas agora, uma a uma]. Eu te agradeço porque orar pelos outros muda não apenas a vida deles, mas a minha também.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O bem-estar nem sempre é uma bem-aventurança! A ponte da felicidade verdadeira e os seus dois pilares fundamentais

[Leitura] L 1 Jer 17, 5-8; Sal 1, 1-2. 3. 4 e 6 L 2 1 Cor 15, 12. 16-20 Ev Lc 6, 17. 20-26

[Meditação] A boa notícia de hoje é que Deus tem um fraquinho pelos fracos. O discurso das bem-aventuranças foi-nos apresentado pelos varios evangelistas de formas diferentes, porque o que importa não era um código (já temos o decálogo), mas um modo revolucionário demonstrado por Jesus de perceber a vida, a relação com o mundo, com as coisas, com os outros e connosco próprios. Quanto mais estivermos com Jesus e partilharmos da sua vida, mas nos assemelharemos a Ele na contradição à lógica humana, que vê nos ricos, nos saciados, nos consolados o objetivo pleno da felciidade.

As bem-aventuranças são uma síntese de Jesus, um sinal de contradição para a lógica humana de felicidade. Não é que não devamos perseguir a felicidade, mas não a devemos colocar meramente na confiança das consolações terrenas, mas, como nos diz Jeremias, na confiança em Deus. A bondade de Deus ultrapassa todo o equilíbrio religioso da terra, porque Ele está acima de todas as coisas. Mesmo quando ninguém está com os últimos da terra, seja da Igreja ou da sociedade, Deus estará sempre. Daí que a Doutrina Social da Igreja proclame, a partir da lógica do Evangelho, a dignidade da vida humana, o bem comum e a opção preferencial pelos pobres como princípios básicos.

A riqueza torna-se uma maldição, quando não se dá aos outros. Vê-se isso na corrupção que diariamente se noticia e, mesmo assim, difícil de se erradicar da prática humana. Quando colocamos toda a nossa confiança nos bens materiais e na saúde que eles nos podem proporcionar, corremos o risco de não acreditar, na prática, na Ressurreição de Jesus e na nossa própria ressurreição. Já ouvimos falar da criogenia e dos triliões de euros que estão a ser gastos para se poder reanimar (não ressuscitar) alguém nesta terra?

Poderíamos, assim, concluir que a verdadeira felicidade é aquela travessa de ponte que deve estar assente em dois pilares: a confiança total em Deus (1ª leitura) e a fé na Ressurreição (2ª leitura), fazendo da felicidade pessoal, também, um estar próximos dos que sofrem tribulações (Evangelho).

[Oração] E porque nem sempre o bem-estar significa bem-aventurança, lancemos a escada da oração ao Pai como Jesus nos ensinou:

Pai nosso que estais nos céus,

Santificado seja o Vosso nome.

Venha a nós o Vosso Reino.

Seja feita a Vossa vontade,

Assim na Terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.

Perdoai-nos as nossas ofensas,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

E não nos deixeis cair em tentação,

Mas livrai-nos do mal.

Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O discipulado missionário é 7X3

[Leitura] L 1 Is 6, 1-2a. 3-8; Sal 137 (138), 1-2a. 2bc-3. 4-5. 7c-8 L 2 1 Cor 15, 1-11 ou 1 Cor 15, 3-8. 11 Ev Lc 5, 1-11

[Meditação] Da reflexão do Pe. David Palatino (cf. Liturgia Diária, Paulus) para este V Domingo do Tempo Comum, sintetizamos os seguintes sete elementos para podermos aferir se somos verdadeiros discípulos, a partir da experiência vocacional de Isaías, Paulo e Pedro:

1º – Oferecer espaço a Jesus, para Ele falar, no meio das contradições da nossa história, onde as expetativas humanas não podem superar a vontade de Deus.

2º – Querer ser aprendiz diante d’Ele, na arte de viver, muito para além do que já sabemos fazer, numa visão limitada pela noite da dúvida.

3º – Aprender a trabalhar em equipa, na comunidade eclesial, onde somos chamados a estar “todos, tudo e sempre em missão.

4º – Ser humilde no reconhecimento das nossas debilidades, prostrando-nos diante de Jesus e pedindo perdão.

5º – Querer colaborar com Jesus no resgate do ser humano do possível “naufrágio” do pecado.

6º – Renunciar a tudo o que nos impede de ser livres diante de Jesus, colocando o coração no essencial.

7º – Seguir Jesus para onde quer que Ele vá, aceitando as consequências que isso traz, estando disponíveis para ser mártires, sobretudo nos contextos onde possa existir uma certa oposição à sua Igreja.

X

Também a experiência de Isaías, Paulo e Pedro, nos mostram que há três pontos de partida ou espaços diferentes e, ao mesmo tempo, ambos capazes de ser espaço onde quer o Espírito de Deus, quer cada um de nós se pode “primeiriar”, sem nos fixarmos num só, uma vez que o processo da fé os vai atravessando no decorrer dos nossos dias:

1º – Com Paulo, podemos iniciar e fazer a experiência do seguimento no caminho, onde ele como nós foi/somos salvos das nossos erros e distorções da realidade. Podemos chamar esta possíbilidade de “via profética”, experimentada na catequese e na pregação, em que nos ajudamos a caminhar para uma visão cada vez mais clara do rosto de Jesus Cristo.

2º – Com Isaías, podemos iniciar e fazer a experiência do discipulado através dos espaços sagrados, onde a ação de Cristo nos sacramentos nos toca os lábios e o coração para nos ganhar para a sua missão. Podemos chamar esta de “via litúrgica”.

3º – Com Pedro, somos apanhados “nas margens” do descanso após o trabalho ou , porventura, na angústia do desemprego, onde é urgente dar espaço à Palavra de Deus que não nos deixa naufragar, dando o testemunho, diante das multidões, de que se opta por aquilo que Cristo diz, antes que a todas as técnicas e confortos humanos.

Diante deste 7X3 do seguimento, jamais podemos fechar-nos em “limbos” catequéticos, litúrgicos ou solidários, sem termos presente o todo do caminho até ao Reino de Deus, sem nos deixarmos ancilosar por “ismos” que nos prendam a “detritos de religião” que pouco ou nada têm a ver com o dinâmica da fé cristã, mas somente projeção do espírito humana, por vezes fechado ao Espírito do Amor de Deus. Não foi por acaso que o Sínodo Diocesano de Viseu (2010-2015) propõe o alargamento da ação deste tríplice múnus no que toca à Família e à Juventude: é para que se perceba e haja de facto um “caminhar com” as reais famílias e os reais jovens, nas periferias da existência e não só dentro do círculo da Igreja, chamado a ser círculo virtuoso e não vicioso, porque tecido de relações interacionais saudáveis e eficientes no que toca à propagação do Evangelho da Vocação e da Vida.

[Oração] Ao Espírito Santo:

«Espírito de amor, “descei sobre mim “, para que na minha alma se faça como que uma encarnação do Verbo, que eu seja para Ele uma humanidade de acréscimo, na qual Ele renove todo o seu mistério»

— Isabel da Trindade (NJ 15)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Deus manifesta-Se no amor e não no temor

[Leitura] L 1 1 Jo 4, 11-18; Sal 71 (72), 2. 10-11. 12-13 Ev Mc 6, 45-52

[Meditação] É no Espírito de Amor, e não no temor, que se pode ver Deus em nós. Era esta a convicção de São João que nos ajuda a perceber melhor as “fronteiras” da relação com Deus, marcadas pela relação entre o amor e o temor. Este foi muitas vezes considerado com um Dom, mas mal enunciado e mal interpretado. Temer a Deus é desaconselhado, ao passo que o temor de Deus é aquele dom de sabermos que Ele “teme” que nos percamos ou nos mantenhamos fora do acolhimento ou vivência do seu amor. Já temer a Deus é desaconselhado, porque Ele não tem que ser temido, mas amado. É ista força que nos atrai e não aquela. Temer é sinal de debilidade; amar é sinal de confiança.

[Oração] Oração contra todos os medos:

Senhor,
quero viver sem medos.
Com uma santa indiferença,
que hoje ainda não tenho.
Quero crescer e ser mais teu, Jesus,
mas não sei bem
como me desprender dos meus medos.

Por isso, eu te entrego cada um deles hoje
(recordar seus principais medos).
Abraça-me, Jesus,
para que meu medo vá embora.
Acompanha-me, Senhor,
para que eu saiba ser corajoso.

Ajuda-me a ter coragem,
a ser um santo que abraça com amor
a cruz de cada dia.
Eu te peço, Jesus,
que me libertes das minhas correntes.
Torna-me mais teu.
Ensina-me a amar como Tu amas.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Faça o ‘teste epifânico’: rivalidade de Herodes, indiferença dos ‘religiosos’ ou entusiasmo dos Magos?

[Leitura] L 1 Is 60, 1-6; Sal 71 (72), 2. 7-8. 10-11. 12-13 L 2 Ef 3, 2-3a. 5-6 Ev Mt 2, 1-12

[Meditação] Na “geografia” do episódio pós-natal da Epifania do Senhor, é-nos desenhado um mapa que pode ser útil para fazermos o “teste epifânico” contra a doença dos muros que, entre Jerusalém e Belém — assim como entre as cidades e as aldeias, os ricos e os pobres, etc. de hoje — nos separa da verdadeira manifestação do Emanuel como o Deus-com-toda-a-humanidade. Basta vermos o muro da rivalidade que separa os Estados Unidos da América e o México e o muro da indiferença que separa o Oriente e a Europa, para nos darmos conta de que esta mensagem é atualíssima!!

É muito fácil sentirmos hoje a perturbação de Herodes por medo de rivalidades e de religiosos do seu tempo pela indiferença aos sinais de Deus: tememos ser invadidos por quem nos possa tirar do lugar seguro que possuímos (ou que nos “possui”!) ou estamos muito apoiados nas nossas certezas humanas com que substituímos a Revelação de Deus. Mais difícil é, hoje, sentirmos o entusiasmo dos Magos, os pagãos que, não temendo sair de si e da sua terra, perseguem aquela estrela que os leva ao verdadeiro Deus que, por nosso amor, incarna. Os que vivem para cá daquele “muro” do medo, têm deficit do desejo de Deus, porque fecharam os olhos à maravilha e são só capazes de juízos e violência. Os Magos, pelo contrário, são como as crianças, capazes de ver coisas maravilhosas nos pequenos sinais sinceros feitos para eles, sabendo-se meter em jogo sem demasiados filtros de racionalismo, conveniências, prejuízos e medos.

Hoje, aqueles magos (de quem Mateus nem sequer diz o número) são todos os que buscam Deus. Ai de nós, os que de certa forma habitamos os ambientes sagrados, se não continuarmos a ser buscadores. Seremos postos fora de qualquer maneira, se não nos dispusermos a estar em saída, na missão. Na busca, seguindo a estrela do desejo interior ou dos subtis sinais exteriores que o Senhor nos quiser dar; no regresso, seguindo o sonho, da mesma maneira que José, para defender o Jesus que quer nascer nos pequeninos da nossa história contemporânea. Metamo-nos a caminho, amando sem medos e condicionamentos, metendo-nos em jogo na vida e na fé!

[Oração] Uma luz no caminho (de Florentino Ulibarri):

Agora que não há novidade na nossa vida nem nos caminhos da história,
Nem na nossa memória pessoal e coletiva,
Nem no que propõem os gurus e a ciência…
É tempo de refletir e aprofundar
Em tudo o que levamos às costas,
E nas zonas condenadas do mundo.
E das entranhas as nossas.

Agora que a tua palavra quebra nossos planos,
E as estrelas desaparecem do nosso horizonte,
E nos caminhos se misturam tantas pegadas,
E a vida se nos turva e fecha…
É tempo de fazer silêncio,
De esquecer os tristes sentimentos
E acolher sua insólita proposta
De ir ao verso da história.

Porque nesses lugares.
Você está sempre à vista,
Esperando nossa chegada
Para cuidar da vida
E nos oferecer sua boa notícia.
Que grande horizonte e tarefa, para não aborrecido,
E entretidos, nesta época triste e escura!

Vamos nos encontrar, Senhor,
Nas Encruzilhadas e caminhos,
Nas praças e nas casas que nós vivemos.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Jesus mora no irmão! E se Ele for um refugiado e quiser morar em ti?!

[Leitura] L 1 1 Jo 3, 7-10; Ev Jo 1, 35-42

[Meditação] A Liturgia da Palavra de hoje abre-nos a porta para o “Evangelho da Vocação”, como dinâmica cristã apontada por João Batista como definitiva, em Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Doravante, todos os que quiserem seguir Jesus, terão de passar por esta porta: a da vocação que implica a conversão. Por outras palavras: de ir respondendo ao projeto de amor divino, através do discípulado missionário. O substantivo a indicar um caminho contínuo de conversão; o adjetivo a sugerir que a resposta se faça por ações ou passos concretos de oferta de vida.

Quanto à conversão, ela esteve muitas vezes demasiadamente centrada em coisas do foro íntimo (afetivo etc.). Já o Papa Bento XVI, na obra “Jesus Cristo” que assinou como José Ratzinger, referiu que a moral da Igreja, a certa altura da história (medioevo), centrou demasiado a questão do pecado e da graça em coisas do foro sexual. Na verdade, ao lermos João, damo-nos conta de que não é de Deus não praticar a justiça e não amar o seu irmão. É claro que umas coisas levam às outras, no bem e no mal. No entanto, é uma questão de centramento. Mesmo partindo do pressuposto que a exigência para consigo próprio pode garantir uma maior disponibilidade para fazer o bem aos outros, não é garantido que a pessoa que se centra de forma obsessiva na perfeição da sua vida interior possa estar disponível para dizer sim a um desafio de cuidado (mais perfeito) para com os outros.

A dinâmica iniciada pelo Percursor, na qual Jesus engancha a sua missão, sugere que, doravante, a resposta ao chamamento de Jesus implica sempre um caminho de conversão e de serviço, sempre unidos. Notamos isso pela forma apressada como André foi logo chamar o seu irmão. E nem seque tinham ainda percebido o alcance da missão à qual os queria chamar o Mestre.

Se passarmos a vida cristã a buscar ou a visitar Jesus meramente em espaços físicos, corremos o risco de O ignorarmos no lugar onde Ele prefere morar: no irmão. Se repararmos bem, o evangelista João refere-nos uma hora (as quatro da tarde) e não um endereço postal ou coordenadas GPS. Responder ao convite de Jesus “vinde ver” implica mais o desafio de ir ao encontro e ocupar tempo com um irmão necessitado, como fez rapidamente André em relação a Simão, do que em “fecharmo-nos em copas” espirituais desincarnadas: uma caridade adiada por ensaios que não nos deixam sair das piedosas intenções. A ética cristã não é uma ética do lugar, mas uma ética do destinatário.

E se Ele for um refugiado e quiser morar em ti?! Vá que esta sua manifestação (epifania) te surpreenda!!

[Oração] Sal 97 (98)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O Papa Francisco é o Precursor de hoje na boa política para a paz mundial

[Leitura] L 1 Num 6, 22-27; Sal 66 (67), 2-3. 5-6 e 8 L 2 Gal 4, 4-7 Ev Lc 2, 16-21 + Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz 2019

[Meditação] Já é de todos conhecida a exortação de os cristãos se devem meter na política, sem medo de que a Igreja os proíba. É, também, curiosa a constatação que soou nalgumas homilias deste primeiro de janeiro de 2019 de que quando os cristãos não “sujam as mãos” na política, existe a probabilidade de esta continuar em mãos ainda mais sujas, ecoando-se assim a mensagem do Papa para este Dia Mundial da Paz.

Na verdade, com a mensagem deste ano, em que acontecerão vários níveis de eleições, o Papa Francisco “mete-se” com a política por causa da Paz. É uma atitude corajosa, diria mesmo precursora (à maneira de João Batista), tendo em conta o elenco de vícios que o Pontífice diagnostica na que se pratica atualmente. De facto, a paz está acima da política e esta só a pode servir a partir de pressupostos éticos inalienáveis e irrefutáveis.

Na mesma mensagem, o Papa não se fica com críticas, mas parte para a construção da mesma paz, centrando-a no Mistério cristão e dando sugestões criativas que estão ao alcance da possibilidade de todos participarem, desde o próprio coração. Que esta declaração de bem-aventurança política nos ajude a viver um ano 2019 cheio da paz que o Senhor prometeu e que cabe a nós acolher!

[Oração] Oração a Nossa Senhora:

À vossa proteção recorremos,
Santa Mãe de Deus;
não desprezeis as nossas súplicas
em nossas necessidades;
mas livrai-nos sempre
de todos os perigos,
ó Virgem gloriosa e bendita.
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo