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Escutar Deus e amar o próximo: a forma mais diret(ic)a de amar a Deus

Não há melhor forma de ser feliz para o ser humano do que perceber-se possuir uma unidade de vida interior em desenvolvimento, para a consolidação do seu eu como pessoa na relação com os outros.

O problema é querer desenvolver essa unidade de vida só voltado para Deus, sem se estar próximo dos irmãos. Parece-me impossível, não porque Deus não queira, mas porque a forma mais direta de estar com Ele é pelo “interface” mais semelhante a Ele: o ser humano. Neste sentido, não há ritos solitários que possam levar o homem a aceder a Deus com tanta eficiência do que a partir da caridade (que é, por definição, uma virtude solidária).

Jesus quis unir os dois mandamentos maiores ─ escutar/adorar a Deus e amar o próximo ─, diante da confusão de seis centenas de preceitos proibitivos e obrigativos, precisamente porque os mesmos, ainda que muitos, estavam a fragmentar o interior das pessoas que, mais do que as ajudar a ser livres, as manipulavam com o “confundir para reinar”.

Doravante, não há outra forma de retribuir a Deus o seu amor primeiro: só amando os irmãos, proativamente, a começar pelos mais pobres e distantes. Quantas vezes uma religião baseada em obrigações e proibições nos afastou dos irmãos, criando fronteiras de segurança anti-divina? Não há outra ética com que possamos anunciar o Evangelho. Não há escusas nem subterfúgios com que possamos fugir do pobre, com o risco de fugirmos também do verdadeiro Deus!

O tema da Semana dos Seminários que decorre entre este 31 de outubro e o 7 de novembro de 2021 ─ «Para estarem com Ele e para os enviar a proclamar» (Mc 3, 14) parece ter implícita na experiência dos primeiros discípulos o adorar a Deus, no estarem com Ele e escutando-O em Jesus, e o amor ao próximo, acolhendo o envio para a missão de proclamar a boa nova aos pobres e oprimidos. Não se pode, por isso, desligar o primado do amor a Deus do primado da missão no mundo. Seria em vão a nossa fé e seguimento. Só nesta lógica é que poderemos testemunhar a salvação e não numa lógica de autorreferencialidade ou de autosubsistência. Por isso, contribuir para os Seminários ─ com oração e bens materiais ─ é uma possibilidade que decorre da necessidade de as pessoas (dentro e fora das comunidades) terem mediadores mais bem preparados que nos permitam (continuar a) estar com Jesus para podermos aprender a adorar a Deus com todas as faculdades do ser, sem deixar de cuidar dos irmãos mais frágeis. Não se sustenta os seminários pelos seminários como fins em si próprios, mas ao cooperar com estas casas de formação, está a sustentar-se a identidade e missão da Igreja no mundo. Pois, a vocação ao sacerdócio ministerial não é um fim em si próprio, mas instrumento para que pelo Batismo e a vida que decorre deste Sacramento, todos sejam salvos.

Naquele verdadeiro trono de glória, não sentados, mas crucificados, ali estavam aqueles a quem estava reservado

(A propósito de Marcos 10, 35-45)

Pode escandalizar-vos uma leitura literal da Sagrada Escritura que me leva a descrever o Evangelho de hoje no título e imagem deste post. No entanto, não me escandaliza menos a vontade desmedida de poder daqueles dois discípulos em relação aos outros dez que ficaram indignados (não sei se por ferirem a autoridade do Mestre ou se por terem inveja do objeto pedido ou do atrevimento com que o fizeram).

Nos três anúncios da Paixão-Morte-Ressurreição, que conhecemos relatados pelo evangelista Marcos, sabemos que os discípulos acompanharam Jesus fisicamente, mas o seu caminho interior foi lento e um tanto enviesado: na primeira ocasião, Pedro quis afastar Jesus do seu projeto (“obrigando” Jesus a colocar Pedro atrás d’Ele, uma vez que não estava caminhas de caminhar lado-a-lado); na segunda ocasião, os discípulos discutiam entre si qual deles era o maior (“obrigando” Jesus a colocar diante deles uma criança como modelo para a entrada no Reino); na terceira ocasião (hoje proclamada na Eucaristia dominical), dois pedem os melhores lugares, sem saber o que pedem (“obrigando” Jesus a declarar-lhes um estilo de vida pautado pelo serviço e não pelo poder).

Afinal, quem é o verdadeiro Mestre? E quem são os verdadeiros servidores? Qual será o verdadeiro poder a imitar pelos discípulos de Jesus: o da potestas ou o da diaconia? (cf. GRÜN, Poder, uma força sedutora, 15)

Daqui em diante, faz-nos bem rezar pelo sucesso (divino e não mundano) do Sínodo dos Bispos 2020-2023, que tem por tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”, para alinharmos todos a nossa vida interior (e a correspondente exterior, social, civil, eclesial…) pela proposta do Mestre, sem lhe impormos nada, mas acolhendo os desígnios de amor de Deus para toda a humanidade, também hoje “crucificada” por tantos abusos de poder.

Eis-nos aqui, diante de Vós, Espírito Santo!
Eis-nos aqui, reunidos em vosso nome!

Só a Vós temos por Guia:
vinde a nós, ficai connosco,
e dignai-vos habitar em nossos corações.
Ensinai-nos o rumo a seguir
e como caminhar juntos até à meta.

Nós somos débeis e pecadores:
não permitais que sejamos causadores da desordem;
que a ignorância não nos desvie do caminho,
nem as simpatias humanas ou o preconceito nos tornem parciais.

Que sejamos um em Vós,
caminhando juntos para a vida eterna,
sem jamais nos afastarmos da verdade e da justiça.

Nós vo-lo pedimos
a Vós, que agis sempre em toda a parte,
em comunhão com o Pai e o Filho,
pelos séculos dos séculos.
Ámen.

A oração como relação, entre a obrigação e a boa vontade

Lucas 11,1-4

Jesus é o modelo da oração, porque encontramos n’Ele as palavras para a relação com o Pai. É este o “certo lugar” para a oração: a relação com o Pai. O Pai nosso é uma síntese da confiança de Jesus e dos seus discípulos no Pai.

Os elementos constituintes desta oração ─ Pai / Santidade / Reino / Pão / Perdão ─ são performativos dos três tipos de relação fundamentais do percurso do ser humano sobre esta terra: com Deus, consigo mesmo, com e com os outros.

Ah, se Jonas tivesse conhecido esta pequena oração! Aprendeu a relacionar-se com Deus, consigo mesmo e com os outros às custas das circunstâncias externas, entre o drama da existência e a “escada” do humor que catapulta para a relação com os outros, também herdeiros da graça de Deus.

Toda a infância espiritual precisa de “rícinos” (ou da tradicional colher de pau) para uma educação imposta por fora, pelas circunstâncias. Mas a maturidade da fé implica um percurso livre desde o interior, sem o qual não pode haver relação responsável, entre partners.

O olhar de uma criança é unitivo, como o de Deus

Ao contemplar situações de divórcio, dá-se conta de que o amor que mais educa uma criança em desenvolvimento não é o que os pais lhe têm diretamente a ela (frequentemente moeda de troca de um crescimento precoce dos filhos), mas o amor entre o seu pai e a sua mãe. O olhar de uma criança gosta de ver sempre esta reciprocidade que lhe dá segurança. É um olhar unitivo. Como o olhar de Deus. E saber que está tudo bem entre os seus pais deixa-a adormecer e acordar com confiança.

Respeitando aquelas relações que nunca foram verdadeiras uniões ─ porque nascidas em contratos de uma cultura patriarcal onde as pessoas não se pertencem ─ consideremos a revolução do amor em que a união pode ser construtivamente livre e fecunda, para (conseguir) ser indissolúvel. Vínculos matrimoniais conservadores, assentes em relações “comerciais” entre famílias, raramente foram verdadeiramente unitivos e… indissolúveis, quanto menos livres e de uma fecundidade casta, capaz de atribuir a mesma liberdade aos filhos.

O problema das fracas relações matrimoniais poderá advir de dois extremos consequentes da descrença no projeto admirável de Deus:

1º ─ Da tendência de o ser humano se colocar no princípio, no meio e no fim do projeto que é a vida;

2º ─ De não se respeitar a igual dignidade entre o homem e a mulher, como criaturas diante de Deus.

O ser humano procura uma sua semelhante para “matar” a solidão profunda que só se pode encontrar num encontro estável que confirme aquela igual dignidade na durabilidade de um projeto consistente, porque assente no amor de Deus. E quando se encontram numa relação estável que “mata” aquela solidão, como é que se pode deixar que haja algo que “mate” aquela relação?

Mais do que leis, precisam-se gestos quotidianos que cimentem o amor que quer dizer: “não quero nunca que tu morras” (“a-mors”). O contrário é a separação provocada por egoísmos…

Escutar ou rejeitar a Palavra incarnada

Lucas 10,13-16

Escutar e rejeitar: são dois verbos que Jesus utiliza para controlar a “passagem de nível” entre Ele o o Pai, passando obrigatoriamente pela comunidade da Igreja, como Povo de Deus, chamado a reformar-se continuamente para que outros possam ser conduzidos para a Vida.

Quanto mais milagres contemplarmos através da escuta da Palavra, mais penitência precisamos de fazer para que a glória de Deus fique patente no mundo, em vez dos nossos protagonismos eufóricos ensurdecedores da fé. Muitas vezes, estas euforias constroem-se através de uma escuta da Palavra meramente cerebral, ficando-se por apreciações pietistas. Outra coisa (e com certeza é o que Jesus nos pede) é escutar a sua Palavra incarnada no seu Corpo que é a Igreja, feita necessariamente de pobres sedentos de Deus que serão capazes de escutar Cristo na sede dos outros.

Cristo está escondido no mundo e é preciso mostrá-l’O, seja apontando-O no pobre, seja na nossa carne, vergada à evidência do seu amor por toda a humanidade. Se tivermos de ser rebeldes (cf. Baruc 1,15-22), que seja contra tudo o que nos impede de tornar patente esta Fonte primordial inesgotável, eternamente aberta para saciar a nossa sede.

Neste outubro missionário aprendamos a não calar o que vemos e ouvimos (cf. At 4, 20), como penitência para acabar com o sofrimento dos outros.

Mc 4,35-41: a resiliência cristã como dois tipos de poder diante dois tipos de crise

O Evangelho deste 12º Domingo do Tempo Comum (B) relata-nos uma circunstância … que tanto nos pode abrir os olhos para a realidade das Igrejas, como para a realidade dos grupos humanos, como é o dos migrantes e refugiados. Digo das Igrejas, porque Marcos nos relata diversas “embarcações” e não só uma. Ele ia numa, mas não podemos pensar, por um lado, que todos os discípulos coubessem numa, nem, por outro, que, a Sua Presença pudesse ser posse exclusiva de um grupo só. Reparemos que, apesar da sua presença física, “limitada” às circunstâncias do tempo e dos espaço, os discípulos daquela barca onde Ele parecia adormecido, não reconheceram à primeira, como prova a pergunta “Quem é este homem?”. Agora, como Ressuscitado, pela fé, está presente em todas as “trajetórias” da humanidade, onde constantemente convida a ir para a outra margem.

Os discípulos já tinham constatado o seu poder de curar pessoas, mas ainda não o tinham presenciado o seu poder de moderar os elementos da criação e os fatores externos que intimidam o Homem, para que afrouxem o o seu ímpeto ameaçador. É curioso que aqueles elementos que, no Antigo Testamento são sinais da presença do poder de Deus pela sua manifestação impetuosa, agora curvam-se ao convite da singeleza feito por Jesus, sendo que a serenidade da travessia carateriza a Boa Notícia contida no Novo Testamento.

A tempestade gera uma crise emergente, que aflige os discípulos, não só os da barca, mas imagino em todas as embarcações. Porém, revela-se aqui um outro tipo de crise: aquele que os seguidores de Jesus sofrem quando imaginam que o Mestre não lhes liga diante daquela frustração.

Portanto, o duplo poder de Jesus manifesta-se quer no cuidado para com cada pessoa, diante do mal individual, e no cuidado para com as comunidades, diante dos males que assolam as coletividades. As crises humanas parecem aparentar, à luz desta liturgia, esta dupla variante: medo das manifestações da criação (algumas delas derivadas do mau modo de o ser humano a habitar) e medo da falta de atenção e proteção por parte d’Aquele que se crê ter o poder de salvar.

Concluindo, a resiliência cristã não pode ser menos do que este duplo poder diante dos vários tipos de crise. A mesma será, como se espera das comunidades cristãs diante dos refugiados, por exemplo, sinal da presença de Jesus nesta grande “barca” que é esta “casa comum” a que chamamos Terra.

Confiaremos que o Senhor não dorme, quando nos atrevermos a perguntar diante de qualquer ser humano “Quem és tu?”, de onde ouviremos a resposta crente “Sou Eu, a quem socorreis”.

Espírito Santo, Espírito Paráclito, consolai os nossos corações. Ó nosso Advogado, suave Sugeridor da alma, tornai-nos testemunhas do hoje de Deus, profetas de unidade para a Igreja e a humanidade, apóstolos apoiados na vossa graça, que tudo cria e tudo renova.

(PAPA FRANCISCO, Tweet 11:00 AM · May 24, 2021)

A trágica presença do mal atestará sempre a benéfica imunidade do bem

[Leitura] Mt 13, 24-43

A liturgia deste XVI domingo do tempo comum vem-nos provar que o tempo que vivemos ainda não é o do juízo, mas da misericórdia. Ou seja: enquanto houver “tempo” haverá, da parte de Deus, a misericórdia. Porque será que o ser humano também não aprende a esperar a partir dessa atitude?

Há grandes artistas de palco nos grandes concertos que, para chegarem calmos no momento de começar a atuar, caminham para ele contando até 50, distraindo a atenção daquilo que lhes traz ansiedade que os perturba de ser bons artistas. Porque não contamos nós até 1000, na circunstância de caminharmos ao lado dos outros, distraindo as nossas mentes daquilo que nos leva a julgar de forma repentina? Assim, teremos oportunidade de ser mais humanos, considerando a complexidade de cada vida e procurando a dar valor ao que em cada pessoa é bom, para além de todos os defeitos que atrapalham as relações.

Jesus não nasceu neste mundo num trono de glória (onde agora está como Ressuscitado), mas por detrás do “pano” da existência terrena, dando-Se a conhecer aos mais frágeis como a face da misericórdia de Deus (com o título de “filho do homem) e contrapôs-Se diante de todos os que O quiseram acolher como “messias político”.

Com a sua vida terrana, Jesus indicou-nos o caminho e parece haver só uma maneira: amar e cuidar, tentar não acrescentar mais mal ao mal, mais violência à violência, mais doença à doença… mas quanto ao mal que já existe: ter paciência, no cumprimento do Evangelho e das normas de sanidade (física e mental). Celebrar juntos os sucessos quanto às curas que nos deixam ainda estar aqui por mais alguns tempos. E ser pacientes e misericordiosos. A paciência tudo alcança − é o que sabiamente diz o povo simples. E neste dito está resumida esta página do Evangelho.

A trágica presença do mal atestará sempre a benéfica imunidade do bem. Mesmo que, com critérios meramente humanos, quiséssemos erradicar todo o mal para nos “gloriarmos” do bem nesta terra, iríamos confrontar-nos sempre com o mal que no meio dele existe para o provar. Até pisarmos a outra “margem”… fora do tempo e do espaço. Podemos ver nesta parábola uma espécie de antídoto espiritual para todas as nossas dificuldades de vida e fé. Consta que, muito embora a origem do mal e do bem são diferentes, à nascença são muito parecidas, mas têm um resultado marcadamente diferente. Como dizia São Filipe de Néry: o homem, sozinho, não consegue fazer o mal… pensando que a origem do mal mais perigoso na vida de cada ser humano tem outra origem mais ampla. Assim, também não o conseguirá superar sozinho, mas coma ajuda e atenção dos outros.

Os “escapulários” e a subida do “monte” que é Cristo

[Leitura] Mt 11, 28-30

O Carmelo (ou Carmo) que os eremitas escolheram ao longo da história na Palestina para dedicar a vida à contemplação do mistério de Deus, sob a proteção de Nossa Senhora, é símbolo do “monte” que é Jesus Cristo. De facto, foi em lugares ermos que Jesus proferiu a sua mensagem mais importante, culminada com a doação da sua própria vida na Cruz. No séc. XII, alguns eremitas fundaram a ordem dos Carmelitas, entre os quais esteve São Simão Stock, como responsável geral. Ele recebeu das mãos de Maria o escapulário com a promessa de salvação a quem morresse vestido do mesmo.

Já sabemos que, para sermos salvos, não basta “vestir” símbolos do sagrado, mas, estar revestidos de Cristo através da prática das boas obras que nos são inspiradas pela Sua Palavra. O tecido que nos “veste” de salvação é feito daquele novelo de gestos que concretizam o Evangelho!

Gostaria de sugerir que o “escapulário”, para além de ser um distintivo pendente do pescoço sobre o peito e as costas, próprio de certas confrarias, fosse, de forma alargada, metáfora daqueles pequenos sinais que trazemos aos ombros do nosso dia-a-dia: o terço, as pulseiras identificativas de grupos e atividades cristãos e, até, os lenyards com o cartão de identificação dos acolhedores às portas das igrejas em tempo de pandemia. E porque não aqueles jaculatórias como a que digo desde pequenino: “Oh Virgem Santíssima não permitais que eu vive, nem morra em pecado mortal; em pecado mortal não hei de morrer, que a Virgem Maria me há de valer”.

Mais do que um “peso” de pertença a um grupo ou à repetição de certos ritos, o escapulário simboliza-me o abraço de Deus que cinge os nossos membros superiores, atraindo-nos para uma dinâmica de amor eterno.

O assoberbamento de qualidades pessoais face à insignificância dos defeitos dos outros

[Leitura] Mt 7, 1-5; 2 Reis 17, 5-8. 13-15a.18

[Meditação] Hoje, o Médico Jesus acolhe-nos numa consulta de oftalmologia, para nos ajudar a colocar no olhar uma graduação de “lente” muito importante: a que nos permite não projetarmos sobre os outros os defeitos pessoais, correndo o risco de assoberbarmos as qualidades pessoais, por vezes insignificantes, diante da real insignificância dos defeitos dos outros, que, para esconder os próprios, tendemos a aumentar nos outros.

No dicionário, “argueiro” é um cisco ou corpúsculo que se pode introduzir nos olhos, enquanto que “trave” é uma peça de madeira comprida. A metáfora fala por si e não precisa de explicação. O que é necessário é, diariamente, fazer o que está ao nosso alcance: um corajoso exame de consciência pessoal, que nos permita tender a ser mais condescendentes com os outros a partir de uma séria exigência pessoal. Sempre sabendo que Deus é paciente com todos!

Assim, também as instituições (sejam elas quais forem – sociais ou eclesiais) deixarão de funcionar menos como plataformas de que as pessoas se servem para expandir as referidas projeções pessoais, passando a funcionar melhor como ambientes de serviço para o bom desenvolvimento de todos. Afinal, do que se trata é da salvação da humanidade! Talvez esta consulta oftalmológica nos ajude reler a proposta do  Papa Francisco para “uma renovação eclesial inadiável” , onde não se perca tanto tempo com o pensamento à volta de teorias inúteis (que só servem a autoreferencialidade) e se passe a uma refletida mudança de estratégias (em favor de uma sadia alteridade):

Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de «saída» e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade. Como dizia João Paulo II aos Bispos da Oceânia, «toda a renovação na Igreja há-de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial».

— PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho, n. 27