O amor de Deus toma conta da alma que se anima com a verdade

[Leitura] Os 2, 16b. 21-22; Mt 25,1-13

[Meditação] A vida de Edith Stein tem duas metades, uma em que se parece com as virgens insolentes, que não se importam com a chegada do seu Senhor, e outra com as sensatas que aguardam vigilantes a Sua chegada. Isto não quer dizer que o amor de Deus não a tenha acompanhado na sua primeira metade, uma vez que ela, pelo estudo da fenomenologia, se animava com a busca da verdade.

O alcance da parábola que Jesus conta no Evangelho da Festa desta padroeira da Europa pode ser acolhido em dois sentidos: por um lado, escatológico, quer dizer, referindo-se à entrada na vida eterna, após a morte física; por outro, a abertura desta porta para a vida eterna pelo Esposo que é Cristo pode acontecer no serviço a cada irmão, no Batismo ou na atitude de resposta ao chamamento vocacional que Deus faz a cada um e a cada uma.

Estas portas também esteviveram diante de Santa Teresa Benedita da Cruz. A porta temporal dependeu dela, da sua decisão em seguir a Cristo; a escatológica já não dependeu dela, mas da circunstância dramática da sua morte, onde a sua cruz se assemelhou com mais perfeição à Cruz de Cristo.

[Oração] Sal 44

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Da multiplicação que anestesia o temor ao verdadeiro dom que instaura o amor

[Leitura] Ex 16, 2-4. 12-15; Ef 4, 17. 20-24; Jo 6, 24-35

[Meditação] Temos vindo a constatar através da comunicação social o que se está a passar na Venezuela. É estranha a forma como os acontecimentos são noticiados, como se meramente houvesse lutas políticas entre poderes alternativos, em vez da cada vez mais nítida existência de uma ditadura que se quer impôr pelo ciclo vicioso do medo e das concessões que vão anestesiando o mesmo, no controle da resolução injusta da pobreza.

Jesus caminhou sobre o mar das inconsistências humanas para nos levar da mera saciação do temor ao acolhimento do verdadeiro amor, através de uma mais justa distribuição dos bens naturais, mas tendo como base axiológica (ética) a proclamação de dons sobrenaturais.

Os povos em vias de desenvolvimento (chamam-se hoje assim, para não os desclassificarmos com o chavão “sub-desenvolvimento”) não são mais desenvolvidos porque causa daquele ciclo vicioso: se este tem garantias de ser mantido, para o povo (parece que) está tudo bem, em vez de mudar da obediência a um político que faz de deus para a adoração de um Deus que tudo faz para que o curso da história humana seja feliz.

Por vezes, também é assim com os habitantes dos países ditos “desenvolvidos”: estando de estômago cheio e de saúde controlada, parece-lhes estar tudo bem, quando, na verdade, nem sempre parece darem conta da vida divina que subjaz no fundo de tudo o que nos acotnece de bem; e dos males que têm a sua raiz nalguma acédia humana.

Quer no caminho das comunidades cristãs, quer no desenvolvimento humano com o qual se promove a resposta pessoal ao chamamento de Deus, convém verificarmos com que conjunto de neurónios estamos a pensar: se com um cérebro em vias de ser inteligente na resposta ao dom da fé ou se com um estômago sempre a pedir a saciação de bens perecíveis.

[Oração] Sal 77 (78)

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Na companhia de Jesus, todas as lágrimas se podem transformar em alegria

[Leitura] Jer 14, 17-22; Sal 78 (79); Mt 13, 36-43

[Meditação]  Fechamos o mês de julho com a memória litúrgica do presbítero Santo Inácio de Loiola. A leituras da féria (que  só é conveniente alterar onde for Festa ou houver razões pastorais para tal, para não se desfavorecer a leitura corrente da Sagrada Escritura) combinam perfeitamente com o dinamismo de vida cristã de que a sua vida é referência para nós. Entre os séculos 15 e 16, apareceu este espanhol que experimentou a chaga atroz profetizada por Jeremias, entre a possibilidade de uma vida cavalheirescamente abastada e um combate interior que o levaria a fundar um itinerário cuja referência é nem mais nem menos a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao pedido dos discípulos de que Jesus lhes explique a parábola do joio no campo, Ele começa por responder positivamente «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem, e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino». Só depois é que fala dos filhos do diabo, etc. Santo Inácio costumava propor que se olhasse primeiro para os pontos fortes que existem em cada pessoa e para a capacidade de líder que há em cada uma. Só assim é que é possível a transição — pelo caminho de conversão a Jesus — do joio que há em cada um para o trigo que também nele existe.

Em tudo se pode amar e servir porque, conforme lembra o profeta, é Deus que realiza tudo em todos! Há que, em clima de oração, oferecer-Lhe tudo.

[Oração] Rezemos como Santo Inácio de Loiola:

Tomai, Senhor, e recebei
toda a minha liberdade,
a minha memória,
o meu entendimento
e toda a minha vontade,
tudo o que tenho e possuo;
Vós mo destes;
a Vós, Senhor, o restituo.
Tudo é vosso,
disponde de tudo,
à vossa inteira vontade.
Dai-me o vosso amor e graça,
que esta me basta.

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O milagre da multiplicação está na distribuição dos dons que cada pessoa recebe

[Leitura] 2 Re 4, 42-44; Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15

[Meditação] É Jesus que toma a iniciativa, não meramente para matar a fome, porque a emergência da multidão não o pedira, mas os milagres que garantiam um sentido de vida diferente, ultramundano. É d’Ele que parte a ideia, não colocada desde o início com toda a eficiência, para provocar nas pessoas à sua volta a reação à urgência da fome e da sede, não só de pão, mas de sentido último.

Surgem vários problemas e soluções: este dinheiro não chega para todos; está aqui um rapazito que tem algo… A pergunta inicial de Jesus não se centrou no «quanto«, mas no «onde». E, do pouco que Lhe apresentaram, passou ao «como». Portanto, o «onde» é o aqui e agora em que Jesus quer saciar as nossa vidas de infinito, o hoje é o lugar em que Ele nos convida a sentar à mesa da sua Palavra e do milagre da sua presença na Eucaristia.

Que consequências tiramos das nossas assembleias litúrgicas, chamadas a ser a maior expressão de unidade na Igreja? Triunfalismo? Não. Partilha do que somos e temos? Sim. E regresso contínuo a este monte onde a bênção de Deus se transforma em vida… eterna, porque cheia de sentido, aquém e além de matar a fome.

[Oração] Sal 144 (145)

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Vale mais descansar um pouco com Jesus do que ter férias grandes…

[Leitura] Jer 23, 1-6; Ef 2, 13-18; Mc 6, 30-34

[Meditação] … sem Ele. É assim que muitos partem ao desvario para férias, não ao encontro de um futuro melhor, mas como fuga de um presente vazio. Os Apóstolos voltara para junto de Jesus cheios de memórias boas do que tinham realizado em nome d’Ele. O seu descanso, ainda que pouco, dada a urgência da missão, era merecido. Uma vida vazia de sentido cansa mais do que uma vida cheia de trabalho. Daí que muitos partam para férias que, ainda que “grandes” em extravagância, nunca chegarão a evitar aquele cansaço profundo.

Parafraseando a primeira leitura, os que regressam de “férias grandes” sem Deus correm o risco de regressar à vida vazia, impondo uma série de coisas sem sentido (de vida eterna) aos outros. Deus há de pedir contas aos que pisam ou ultrapassam o limiar desse risco!

São Paulo — o Apóstolo que renunciou à extravagância de uma religião que não ligava a Deus e passou ao combate da fé em favor dos irmãos — afirma-nos que «Cristo é, de facto, a nossa paz», vindo para derrubar todas as inimizades e unir-nos a todos num só povo, pela sua Cruz. Estar perto dela dá-nos mais força do que o descanso unido a todos os prazeres do mundo.

[Oração] Sal 22 (23)

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A fé não é lei que manipula, mas verdade que liberta

[Leitura] Is 38, 1-6. 21-22. 7-8; Mt 12, 1-8

[Meditação] Contemplo, hoje, como a atitude de Jesus foi “escandalosa” para os fariseus e os seus seguidores. Na verdade, Ele estava do lado dos oprimidos por qualquer tipo de necessidade ou de fome essencial, em que a lei religiosa vigente se isentava de solucionar, sem fundamento divino. Ao invés, a atitude dos fariseus era de desprezo para com as mulheres e as crianças, para além da falta de compaixão para com os doentes, no confronto com as regras do templo. Mas Jesus é superior a este! Quanto mais ao tempo do sábado!

Em todos os tempos e templos é necessário purificar as leis que não libertam o ser humano das verdadeiras escravidões, com a Palavra da Verdade que Jesus nos veio anunciar com as obras. «Pôr em ordem a casa», como anuncia o profeta Isaías, não significa meramente emitir leis para que todos as cumpram, mas rezando piamente e alimentando os que padecem as diversas chagas. O desandar de dez graus para trás no relógio de Acaz talvez nos inspire a antecipação que devemos fazer quando nos vier a tentação de colocarmos as leis à frente das pessoas. Jesus não amava a religião; amava as pessoas!

[Oração] Sal Is 38, 10-11

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A graça de Deus é o superlativo de “basta”

[Leitura] Is 26, 7-9. 12. 16-19; Mt 11, 28-30

[Meditação] Ainda no passado XIV domingo do tempo comum (B) ouvimos Jesus ordenar aos seus doze apóstolos «que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas» (cf. Mc 6, 7-13). Para mim, o “bastão” é o símbolo da graça de Deus que é o “superlativo” de “basta”.

No Evangelho desta quinta-feira, percebemos o peso que pode gerar a acumulação de bens que, muito para além de parecerem necessidades primárias, podem vir a obstaculizar o nosso viver de cristãos. O alívio que Jesus nos oferece não despreza aqueles bens essenciais para a saúde, a inteligência e a serenidade de vida. Pelo contrário, criam o espaço para os podermos encontrar no tempo devido e com a força necessária para responder aos desafios da vida.

Há que parar, porém, com processos sociais de necessidades que na verdade não o são (como há problemas que também não são problemas!), porque não nos foram impostos pela real necessidade de criaturas, mas pela aparente força manipuladora do ter que obscurece o ser. Que o regresso a Jesus em cada Eucaristia nos faça avaliar os excesso em que pusemos a nossa confiança, para que o regresso a cada irmão nos leve a partilhar o pouco que nos basta. Como Jesus propôs no episódio da multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Jo 6).

[Oração] Sal 101 (102)

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Para a missão nem coisas, nem loisas!

[Leitura] Os 14, 2-10; Mt 10, 16-23

[Meditação] As leituras destes dias estão a preparar-nos para acolhermos a Boa Nova do próximo XV domingo do tempo comum, onde Jesus nos vai enviar para a missão não como uma Igreja dos pobres, mas como Igreja pobre. De facto, a maneira como Jesus sugere que os discípulos vão em missão rejeita, à partida, todo o tipo de triunfalismos e de tecnicismos. O trecho evangélico de hoje acrescenta a rejeição de mais uma preocupação inútil: o que havemos de pensar diante daqueles a quem havemos de dar testemunho. Muitas vezes preparamos excessivamente o que acaba por não ser preciso declarar, porque acabamos por não nos distanciarmos de nós mesmos ao encontro dos destinatários que, supostamente, precisam de ser confrontados com um testemunho cristão. Esquecemo-nos, por vezes, que o Senhor prometeu assistir-nos com o Espírito Santo e que este é uma das Pessoas da Santíssima Trindade que, com uma ação dinâmica (e não meramente como um pendão simbólico) acompanha aqueles que o Senhor envia.

A profecia de Oseias garante-nos que mesmo que sejamos infiéis, Deus será sempre fiel. Para a nossa vida cristã tiramos uma conclusão: para sermos fiéis à missão que Jesus nos confia, basta-nos a sua graça, mas não nos basta que Ele seja fiel! É com a nossa fidelidade restaurada todos os dias, após todas as possíveis e infelizes quedas, que por essa graça nos unimos livremente ao Seu propósito que é termos a vida eterna. Esta implica crescermos e caminharmos na consistência entre o que se leva no caminho e o que se diz, para que não aconteça caminharmos demasiado pesados de coisas desnecessárias e palavreado inútil. “Coisas e loisas” é uma expressão definida pelo dicionário como “coisas indeterminadas”. Estas são fruto dos tais tecnicismo vazio e triunfalismo néscio.

[Oração] Sal 50 (51)

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A graça de Deus é conteúdo e forma que se recebe e se dá

[Leitura] Os 11, 1-4. 8c-9; Mt 10, 7-15

[Meditação] O trecho evangélico de hoje prepara-nos para a vivência da Liturgia da Palavra do próximo XV domingo do tempo comum (B), convidando-nos a descartar quer o triunfalismo da missão, quer o tecnicismo com que, por vezes, a perspetivamos. Na verdade, a proximidade do Reino que Jesus nos manda anunciar dispensa os artefactos humanos, assim como as suas frequentes euforias; basta-nos partilhar a graça que Ele nos dá, da forma que Ele sugere.

Muitos pensam que a graça de Deus é um ganho aquém de um dom. Se assim fosse, os limites e pecados dos apóstolos não teriam deixado chegar a boa nova até nós. Certamente a pobreza com que foram enviados nem sequer os deixou ser devorados por algum escrúpulo que impedisse de caminhar para levar essa mensagem de amor aos seus destinatários. A graça é DE Deus e, quando a partilhamos, não a diminuímos. É verdade que o nosso bom comportamento, a beleza das nossas ações e o bem presente nas nossas atitudes podem favorecer a Evangelização. No entanto, há “ratoeiras” instaladas nos escrúpulos, nas euforias e nos exageros de algumas ações missionárias. Parafraseando o Papa Paulo VI aos presbíteros: se cuidarem da pobreza, na sua forma secular de simplicidade de vida, os outros conselhos evangélicos (castidade e obediência) certamente acontecerão como benefícios colaterais.

Que o Senhor nos dê a graça de antepormos a tudo o seu amor, acolhido e não desperdiçado para que o mesmo chegue aos pobres, aos pecadores e aos afastados. São estes os primeiros destinatários da missão, como Jesus disse e fez!

[Oração] Sal 79 (80)

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Se tens um coração Bento, filho/a feliz serás!

[Leitura] Prov 2, 1-9; Mt 19, 27-29

[Meditação] Neste dia da Festa de S. Bento, diria que ser “abençoado” significa de tudo despir-se para tudo receber, como sugere um comentário de S. Jerónimo. De tal maneira, ser ou estar abençoado não é ter a bênção de Deus por cima de tudo o que somos e temos, mas tê-la antes de tudo o que seremos a partir dela. Foi assim que percebi o convite à filiação que encabeça a Regra de São Bento: feita de escuta e oração antes de qualquer e de todo o empenho, para que Deus o leve a cumprimento segundo a sua vontade. Propõe os mesmos sentimentos que o Livro dos Provérbios.

O Evangelho de hoje reinscreve no nosso quotidiano a dimensão da renúncia, não muito fácil de cumprir nos nossos dias e num contexto social de consumo desmedido, quer de bens materiais, quer de bens espirituais. Como e quando chegaremos a poder vislumbrar o cêntuplo de bens que Cristo tem para nos oferecer? Ouso uma resposta: quando, segundo os seus desígnios de amor, tivermos a coragem de deixar tudo (o como) e O seguirmos (o quando).

A vida eterna é o que completa tudo aquilo que nesta vida terrena sempre saberá a incompleto. No entanto, como nos inspira a Regra de São Bento, com o avançar da entrega de vida ao Senhor o coração humano se dilata continuamente.

[Oração] Sal 33 (34)

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