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Servos para além do dever, cuidando e testemunhando os dons que nos dão a vida

Lc 17, 5-10 / XXVII Domingo do Tempo Comum C / Semana Nacional da Educação Cristã

Neste Domingo a Igreja inicia a Semana Nacional da Educação Cristã, com um convite a refletirmos sobre os educadores cristãos, como guias no caminho. A nota pastoral da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé insiste na arte do acompanhamento por parte dos educadores àqueles que lhe são confiados, orientando-os para saírem de si mesmos e se abrirem à vida, aos outros, à fé, ao amor e à esperança. Assim, poderão alcançar o seu pleno desenvolvimento e contribuir para um mundo mais humano e fraterno.

À luz dos textos bíblicos de hoje, os educadores podem refletir o modelo que é Jesus Cristo Bom Pastor, para Quem tende o Profeta Habacuc e de Quem parte o Apóstolo Paulo:

Habacuc acompanha o Povo com a sua intercessão a Deus. Clama pela atenção de Deus no meio da violência. E o Senhor não tarda a responder-lhe com um desafio: gravar a visão com clareza, de modo a que a possam ler com clareza. Através do profeta, Deus acompanha o seu Povo como que num jogo entre a “demora” de que se cumpra a sua promessa e a “espera” a viver com alma reta. E é este diálogo tenso entre a promessa e o cumprimento da mesma que nos move na esperança, como o arqueiro que enquanto mantém tensa a corda no arco só lança a seta quando tiver certeza de ter o olhar e a mesma seta centrada no alvo. Se a atira “às cegas”, pode fazer estragos dos que levam Habacuc a rezar a Deus.

Não raramente, as respostas de Deus aos nossos pedidos humanos são pedidos divinos que realizem a Sua justiça pela nossa fidelidade à mesma.

Jesus acompanha os seus discípulos dando exemplo de fidelidade ao plano de Deus. Ele segue o seu caminho para Jerusalém dando exemplo de total fidelidade ao Pai, acompanhando os Apóstolos, para os quais o caminho aberto por Ele também lhes serve de itinerário vocacional. Entre as exigências do caminho de Jesus e os pensamentos e desejos dos Apóstolos há uma discrepância que leva estes a pedir ao Mestre «Aumenta-nos nossa fé» ou «Desperta-nos a fé» (nota na trad. portuguesa). Parece-me que Jesus responde a este pedido de uma forma paradoxal: para que os Apóstolos possam participar nos desígnios salvíficos que estão para além das forças humanas, são convidados a apostar todas as suas forças (o dever), sabendo porém que a qualidade da fé simples no horizonte para onde Jesus os leva (o poder de Deus) será imprescindível para justificar essas forças humanas. É como acontece com o trabalho dos artistas: a reciprocidade desproporcional entre 1% de inspiração e 99% de transpiração, onde os 99% de esforço não servirão para nada se não estiver presente aquele 1% de de fé.

Amar muito, através de boas obras, implica uma mínima perceção de sermos infinitamente amados. Deve ser este o principal “fermento” das boas obras, realizadas entre a nossa disponibilidade e o amor de Deus.

Paulo acompanha Timóteo ajudando-o a fazer a síntese entre o dom divino e o testemunho pessoal de fé. Este educador de Timóteo exorta-o a reanimar o dom de Deus que está nele e que recebeu pela imposição das suas mãos. Lembra-o que os obstáculos internos (como a timidez) e externos (como os que levam Paulo à prisão) não vêm de Deus, mas somente o dom de O servir com fortaleza na caridade. Convida-o a não se envergonhar de sofrer com ele e a guardar a doutrina dele aprendida.

É pela estima que podemos levar aqueles que acompanhamos a ver mais longe, com base nas sementes sãs recebidas e na atração do semeador, mais do que a perigosa projeção dos nossos desejos pessoais (os jovens imaturos podem não saber discernir tendo em vista uma boa decisão; os educadores maduros podem errar na decisão entre muitas, no meio de tantos dados a discernir; cf. Stefano Guarinelli 2014).

Refletindo sobre «O ministério ordenado nas Cartas a Timóteo e Tito», Joaquim Domingos Areais apresenta-nos em Paulo como deve ser a figura do Pastor da Igreja: um guia afetuoso, compreensivo, atento ao essencial, que não se distrai com ilusões ou fantasias, realista, fraterno e com os pés bem assentes na terra. Homem vigilante, que não corre atrás de falsas promessas nem se deixa enganar facilmente, capaz de infundir coragem e esperança, como o Servo de Javé (cf. 2Tm 2,22-26), que faz do serviço a sua missão. Esta imagem do Pastor é também essencial, nos dias de hoje, que precisa de pastores, segundo o coração de Cristo, promotores do diálogo, escutando e animando, no serviço do anúncio fiel do Evangelho e dos mais frágeis, numa Igreja, que olha para os vastos horizontes do futuro com fé e esperança, compreendendo os tempos da paciência de Deus. O essencial no ministério é o amor.

No próximo dia 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, celebramos o encerramento do “Tempo da Criação“, que o Movimento Laudato Si’ nos convida a viver a cada ano desde o dia 1 de setembro. Portanto, em cada ano é-nos dada a oportunidade de um mês para refletirmos sobre o Cuidado da Criação ou da Casa Comum. Mas, antes de mais, chamo à atenção para os dois “gritos” a que o Papa Francisco nos convida a escutar: o grito da terra e o grito dos pobres. É preciso estucar a voz da criação diante de “fenómenos intensíssimos climáticos” que mostram que há um desequilíbrio, como a perda da biodiversidade que se está a tornar “muito preocupante”, e das “pessoas que são vítimas”.

Os mais pobres, os mais frágeis, os mais vulneráveis e sofredores são aqueles que continuam a ser vítimas. É sobre eles que as coisas recaem com efeitos mais devastadores, e, normalmente, são os que menos têm culpas no cartório. Depois choca as desigualdades que crescem, poucos vão-se apoderando ou dispondo de forma abusiva de recursos que estão a fazer falta para outros terem as condições de vida a que têm direito, as condições de vida que no mínimo correspondam à sua dignidade humana.

RITA VEIGA, Rede ‘Cuidar da Casa Comum’

Que razões podemos encontrar para fazer crescer em nós uma maior preocupação com a casa comum e os pobres? Podemos apontar três, para nos tornarmos animadores Laudato Si’:

1. Estar cansados de ver tantos contrastes entre a extrema pobreza e a extrema riqueza.

2. A dificuldade que temos em dar passos firmes em direção a um mundo mais parecido com o que Deus sonha.

3. Começar por desenvolver projetos através dos quais possamos aprender a ler a realidade e descobrir a raiz dos problemas, que podem ser de oração, de sensibilização da comunidade e propostas de boas práticas para transformar a realidade e inspirar amigos, familiares, etc.

À volta de que preocupações se podem desenvolver projetos que reúnam esforços em favor da Terra que habitamos e os pobres e vulneráveis?

1. Não deixar que a globalização da economia não deixe de fazer a globalização no sentido de haver uma só família humana e fraterna.

2. Não deixar que a sustentabilidade seja para alguns seja só lucro, enquanto que muitos não têm casa e não lhes são respeitados direitos fundamentais.

3. Perceber que durante e depois de crises globais como a pandemia e a guerra, há sempre seres humanos que ficam na cauda da resolução dos problemas, e cujas dificuldades é preciso saber escutar.

4. É preciso chamar a todos a realizar ações concretas ao alcance de todos, mudando estilos de vida e ter outro cuidado com as pessoas e com as coisas.

5. É preciso fazer soar “aos quatro ventos” que as pessoas devem estar primeiro e as instituições devem estar ao serviço do seu bem e não meramente ao contrário.

O ‘Tempo da Criação’ é uma celebração anual ecuménica de oração e ação pela Casa Comum, que se realiza entre 1 de setembro e 4 de outubro, festa litúrgica de São Francisco de Assis.

O Papa Francisco instituiu-o na Igreja Católica, em 2015, e já tinha sido proclamada para os Ortodoxos pelo patriarca ecuménico Demétrio, em 1989.

COROLÁRIO:

Seremos todos “servos inúteis” se só descansarmos na consciência do dever cumprido segundo a lógica humana, em vez de ancorarmos o que somos e o que fazemos na lógica do Criador da natureza e Pai de todos os seres humanos. Antes de úteis e ainda que inúteis, disponíveis diante do amor incondicional que nos oferece a vida plena.

Nesta encruzilhada entre o Tempo da Criação e a Educação Cristã, não nos esqueçamos de, a partir da invocação do Espírito de Deus, discernir e decidir juntos ações concretas para o cuidado dos mais pobres/vulneráveis e a criação. (Se ficarmos em casa fechados a não ferir os mandamentos da Lei de Deus, nunca veremos os novos céus e a nova terra, que implica que arrisquemos sair de casa ao encontro dos outros.)

A transparência é um escudo diante do mal e uma cura que nos faz ver o supremo bem

Dan 7, 9-10. 13-14; Ap 12, 7-12a; Jo 1, 47-51 ─ Festa dos Arcanjos S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael

Hoje, se alguém tiver alguma coisa a dizer do próprio Anjo da Guarda, para agradecer ou reclamar, é oportuno aproveitar a celebração dos Arcanjos, uma vez que o seu nome significa “chefe supremo dos anjos”.

A Igreja convoca os Arcanjos em festa, reconhecendo-lhes aquelas funções principais pelas quais refletem uma caraterística de Deus: Miguel reflete a Perfeição suprema de Deus (“Quem como Deus?”); Gabriel reflete a “Força de Deus”; e Rafael realiza a “Cura de Deus”. Estas manifestações da glória de Deus através destes Arcanjos é-nos retratada no livro de Daniel, na carta de Judas e no Apocalipse no que se refere a Miguel; no Evangelho, em torno da anunciação e nascimento de João Batista e de Jesus, quanto a Gabriel; no livro de Tobias fala-se de Rafael. Aparecem, portanto, em marcos importantes da história da salvação para mostrarem a transparência de Deus quanto aos seus atributos e vontade salvífica.

A leitura do Apocalipse mostra-nos a visão de um combate no Céu, uma luta de Miguel e os seus anjos contra o Dragão. No último Domingo, ouvimos o Apóstolo Paulo a exortar Timóteo a combater «o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé perante numerosas testemunhas» (1Tim 6,11-16).

Atualmente, por causa de especulações provocadas pelos desenvolvimentos da física quântica, fala-se muito de universos paralelos ou multiversos, constatados como previsões de certas teorias, prevendo a existência de fenómenos impossíveis de serem observados. Ora isto dá uma grande confusão e debate na comunidade científica. E investigando um bocadinho damo-nos conta que para além do avanço comedido dos cientistas, existem as fakenews de alguns jornalistas a acrescentar sempre um pouco de fantasia.

Já no se refere ao combate no Céu relatado pelo Apocalipse e ao combate da fé na terra exortado por Paulo e assumido por Timóteo, poderemos falar de uma correspondência a que podemos dar o nome de transparência, embora nem sempre em tempo real, por causa dos limites da liberdade humana. É o que nos prova o Evangelho: Jesus viu primeiro Natanael, porque o seu olhar não conhece limites; porém, Natanael só vê o Mestre quando alguém lhe fala d’Ele (testemunho), passando por um estar na Sua presença tal como é, sem fingimento. E é neste ponto que Jesus lhe promete ver mais além.

Pois é assim que nós somos convidados, também, a estar diante do Senhor, Aquele que tem «o poder, a honra e a realeza» (Dn 7.9-10.13-14), como livros abertos, com o que está escrito e o que ainda está por escrever, para que Ele possa levar-nos a ver para além das aparências, colocando-nos ao seu serviço, como que a Céu aberto, para que a relação entre a sua Palavra e a nossa vida seja o mais correspondente possível (e não paralela).

Os Arcanjos são transparência de Deus, a anunciar e a defender a presença de Jesus em nós, curando-nos da possibilidade de nos afastarmos da dignidade de filhos. Repito, hoje somos colocados pela Liturgia da Igreja diante dos “capatazes” dos nossos Anjos da Guarda! Aproveitemos a oportunidade para, através deles, invocarmos o Espírito de Deus, a sua força e cura, para que possamos vencer o bom combate da fé no tempo oportuno em que os Arcanjos combatem no Céu, por mandato d’Aquele que está no trono.

Que a caminhada de cada um de nós possa ser crescimento em transparência. Esta é a melhor arma, capaz de nos defender do mal, e é procedimento de cura que nos fará ver o supremo bem. A definição do dicionário mostra-a como uma dupla qualidade: por um lado, de quem não tem nada a esconder; por outro, do que transmite a verdade sem a adulterar. Com a transparência, poderemos sempre ir a público, com caráter de quem não é fraudulento. É assim que Jesus precisa de nós para, imprimindo em nós o seu amor, possamos dar testemunho do mesmo amor à humanidade, como aconteceu com São Francisco de Assis, na “quaresma de São Miguel” e de tantos e tantas irmãs que deram testemunho da verdade, combatendo o bom combate da fé, graças ao sangue do Cordeiro.

As brigas e lutas exteriores reconduzem sempre a uma luta interna nas pessoas: o desejo, expresso por palavras ansiosas e invejosas, encontra-se com obstáculos e com frustrações que nunca chegarão a possuir ou obter o que se deseja. As paixões, antes mesmo de se tornarem guerra e brigas entre as pessoas, combatem dentro das mesmas pessoas. A luta interior, quando descartada imediatamente, para a luta exterior, sem uma resolução da luta interna, faz com que as respostas e conquistas não correspondam com os verdadeiros desejos e perguntas. Daí ser marcada pela violência.

É compreensível que as lutas humanas, por vezes, não vão a par das “lutas” próprias do Reino de Deus. Só pela fé é que poderemos perceber e atuar de maneira a que a manifestação do esplendor de filhos de Deus possa ajudar a dar resposta adequada às lutas humanas (cf. Gaudium et Spes, 40).

Porque o verdadeiro encontro pode representar a resposta mais adequada, então prefere-se renunciar a este encontro, optando-se pela fuga ao diálogo somente mascarado por tiros de armas. Está aqui patente o mistério da tensão humana entre a abertura infinita à verdade e ao bem, e os limites colocados a essa abertura do viver concreto no espaço e no tempo da corporeidade própria e alheia.

(cf. FRANCO IMODA 2005, 11-13)

A meritocracia (auto-exaltação) ou a (hetero)exaltação dos humildes?

Lc 9, 46-50

Ao encontro do Evangelho deste dia, deparo-me com dois depoimentos que se unem na minha meditação, de forma a tirar proveito da Palavra de Deus como luz para discernir e escolher na vida.

1Um é sobre a meritocracia, num artigo do Observador, por Miguel Soares de Oliveira, em que se lê que vista como valor supremo e exclusivo da organização das sociedades modernas, divide os indivíduos em “vencedores” e “perdedores”. Os primeiros, alegadamente pelo mérito, estudaram em boas universidades, obtiveram bons empregos, e ganharam bom dinheiro. Venceram. Os outros (a grande maioria), não o fez. Perderam. E na lógica meramente meritocrática, uns e outros foram exclusivamente responsáveis por esses distintos desfechos. Dito de outra forma, merecem-nos. E esse alegado merecimento é, para os primeiros, razão para uma desmedida arrogância e, para os segundos, fonte de humilhação.

Ainda que numa sociedade, estruturas e serviços precisem de contratar os melhores, muitas vezes através de um sistema de favorecimentos político-partidários, isto não basta para uma sociedade que queira construir uma boa convivência humana. Michael J. Sandel, autor de “A tirania do mérito”, aponta-nos para um caminho complementar à meritocracia: associar à lógica da meritocracia a humildade de reconhecer que nem tudo o que somos ou conseguimos fazer se deve, exclusivamente, ao mérito (a genética que temos, a educação que tivemos desde que nascemos, o sabermos fazer coisas que são mais valorizadas num determinado tempo e espaço do que outras – veja-se dois campeões mundiais de desporto, por exemplo, o Cristiano Ronaldo, no futebol e o Fernando Pimenta, na canoagem, e as diferenças de rendimento entre ambos – etc.) e, nessa humildade, encontrar formas de valorizar não o resultado, em termos de mercado, do que cada um “vale”, mas sim o que cada um contribui para a sociedade e para o bem-comum.

2O segundo depoimento é do jornalista e académico uruguaio Leonardo Haberkorn, que desistiu de continuar a dar aulas do curso de “Comunicação” na Universidade ORT de Montevideu-Uruguay, através desta carta que comoveu o mundo da Educação. Nesta carta desabafava o seguinte:

Cansado de lutar contra telemóveis, Whatsapp e Facebook, considera-se vencido e desiste, cansado de falar de assuntos pelos quais é apaixonado, para rapazes e raparigas que não conseguem tirar os olhos de um telemóvel que não pára de receber selfies. Nem mesmo o apelo de se deixar o telemóvel de lado por 90 minutos, nem que fosse somente para se ser respeitoso, que ainda foi tendo algum efeito deixou de o ter, o que o levou a perguntar-se se se tenha desgastado demais por esta luta ou se estaria errado. O dramático é que muitos desses miúdos não têm consciência do quão ofensivo é e o quanto magoa o que eles fazem. Além disso, está cada vez mais difícil explicar como funciona o jornalismo, a pessoas que não o consomem, nem lhes faz diferença estar informado ou não.

Diante de notícias que o professor de jornalismo vai reportando aos seus alunos, a resposta da maioria é o silêncio, de modo que conectar pessoas tão desinformadas com o jornalismo se tornou complicado (seria como falar de botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais). Para exercer bem a sua profissão, um jornalista tem de ser ensinado fundamentalmente a colocar-se no lugar dos outros, a cultivar a empatia como ferramenta básica de trabalho. A verdade é que estes miúdos inteligentes e calorosos foram enganados, a culpa não é só deles. A incultura, o desinteresse e o alheamento, não lhes nasceu do nada. Foram-lhes matando a curiosidade, e cada professor que deixou de lhes corrigir os erros ortográficos, lhes estava a ensinar que tudo vai dar mais ou menos ao mesmo.

Assim, professores e educadores vão baixando a guarda e aí o mau acaba sendo classificado como medíocre; o medíocre passa por bom; e o bom, nas poucas vezes que chega, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte desse círculo perverso. É assim que se acaba o interesse pela leitura da realidade. É aqui que acaba a empatia entre alunos e professores, a possibilidade de que pela humildade algo de grande aconteça em favor do bem comum.

Jesus, no Evangelho, dá uma lição aos seus discípulos sobre uma dupla questão: 1º – Sobre o que significa ser maior, mostrando-lhes uma criança e convidando-os a ser pequenos. 2º – Sobre o que significa a comunhão no bem na diversidade de pertenças ou presenças, proibindo-os de proibir (passe a tautologia) que outros também usem os mesmos métodos pastorais não obstante não andarem sempre com aquele grupo.

Vejo este episódio do Evangelho como resposta àquelas duas notícias: por um lado, nenhuma meritocracia pode dar numa cultura de paz, se não se partir da consciência de que “habitamos numa casa comum”, temos as mesmas necessidades fisiológicas e psicológicas básicas, e os mesmos direitos e deveres (seja na sociedade como na Igreja e nas instituições, apesar da diferenciação de papéis); quanto maior for o fosso entre os que exercem missões de comando e os que obedecem, maior será a probabilidade de abusos (seja de poder por parte da autoridade, seja de reivindicações ou preguiça por parte de quem é comandado).

Como resposta à segunda notícia, para desviar da hipótese de que o caminho aberto pelo Senhor seja uma questão de mera pertença a um (sub)grupo ou a uma casta especial, somos exortados à empatia que deve ser reservada a quem nutre os mesmos sentimentos, apoiados nas mesmas verdades, apesar de línguas diferentes e proveniências culturais diversas. Se partimos sempre de princípios gerais que só visam defender as estruturas em vez de estar atentos ao que é preciso fazer para o bem das pessoas (e no mundo somos poucos para tantos desafios), as estruturas estarão condenadas a falir. Às pessoas não basta pedir um “Ámen” por mais que o que lhe propomos sejam santo. É preciso chamá-las a participar no discernimento a partir de uma boa leitura da realidade, gerando uma maior cumplicidade entre alunos e professores, entre filhos e pais/educadores, entre fiéis e pastores.

Por isso, hoje rezo por dois motivos:
1º – Pelo grupo que está a elaborar a síntese europeia, de 21 de setembro a 2 de outubro, em Roma, da etapa continental do Sínodo “Por uma Igreja Sinodal – Comunhão, Participação, Missão”, para que consigam captar o que o Espírito quer sugerir à Igreja, através de um verdadeiro discernimento de oração.
2º – Para que a cultura da solidariedade e empatia proporcionada pela leitura de bons livros literários e um bom conhecimento da realidade se sobreponha à cultura do ódio e da agressividade promovida por grande parte da comunicação superficial nas redes sociais.

Apresentação do Livro “O Corpo Humano”, de escritora Maria do Rosário Pedreira. RTP

A salvação é solidariedade. Na Igreja não há “portões”, mas diálogo que é permuta de dons

Am 6, 1a. 4-7; ; 1 Tim 6, 11-16; Lc 16, 19-31 ─ No XXVI Domingo do Tempo Comum C

Vamos diretos ao assunto deste domingo, eminentemente ético: a riqueza, quando elevada à categoria de deus, substitui o verdadeiro Deus e ignora os irmãos nas suas necessidades. Acontece que, por vezes, o direito à propriedade privada sobrepõe-se ao direito à defesa da dignidade da vida, em vez de ser ao contrário até que todos possam usufruir de uma existência terrena de paz e promissora de eternidade.

Por outro lado, observa-se que na Europa crescem dramaticamente os ataques a ativistas e organizações de direitos humanos que defendem os migrantes, constatando-se, em algumas decisões políticas, como que “criminalizando a solidariedade”, como “uso generalizado por autoridades europeias, líderes políticos e meios de comunicação, sendo criada uma narrativa de que os migrantes representam uma ameaça à segurança”. Portanto, ajudar e ser ajudado em situações em que é preciso defender os direitos humanos tornou-se “tabu” em alguns países. É aqui que se torna atual a Palavra estucada na primeira leitura: «Ai dos que vivem comodamente em Sião e dos que vivem tranquilos no monte da Samaria. Deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo… partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».

No entanto, também há respostas positivas, conforme o Evangelho e que correspondem ao “bom combate da fé que conquiste a vida eterna” que o Apóstolo Paulo recomenda a Timóteo: pelo terceiro consecutivo, nestes dias 22-24 de setembro de 2022, em Assis aconteceu o evento global “Economia de Francisco”, reunindo jovens do mundo inteiro (economistas, empreendedoras, empreendedores, transformadores, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras), com os quais o Papa Francisco assina um pacto global: que a economia se torne uma Economia do Evangelho. É possível mudar, transformar uma economia que mata numa economia da vida. Uma economia amiga da terra e uma economia de paz. Os jovens reafirmam neste Pacto: “nós acreditamos nesta economia. Não é uma utopia, porque já a estamos a construir. E alguns de nós, em manhãs particularmente luminosas, já vislumbram o início da terra prometida”.

Estes jovens empreendedores ─ que embarcam nesta nova aventura económica, têm nomes e representam países e instituições ─ estão do lado do pobre Lázaro do Evangelho, tendo bem presente para que servem os bens materiais e o que significa estar bem na vida.

Uma riqueza sem o verdadeiro Deus facilmente leva o ser humano a cair na perda de sentidos que gera, por sua vez, a perda de sentido: do não ver o irmão faminto ao não ser visto no Reino; do não ouvir a Palavra da Vida na terra ao não ser ouvido com direitos na eternidade do Céu; do não abraçar o pobre em vida ao não ser abraçado na morte.

Na sua obra “Escutar para ser ─ A dimensão contemplativa das relações interpessoais”, Franz Jalics* fala de um ensinamento, entre outros, importante para que a nossa contemplação olhe para o céu sem deixar de passar pela terra ─ é o princípio da proporcionalidade, que descreve da seguinte forma:

A relação que se mantém com Deus, com os outros e consigo mesmo é exatamente proporcional. (…) Queres saber a relação que manténs com Deus? Olha a relação que tens com os outros. Se amas uma pessoa, queres bem a dez, toleras umas vinte, és indiferente a umas sessenta, há treze ou catorze que, francamente, não te fazem muito felizes, e uma ou duas às que nem sequer as podes ver; exatamente assim é a tua relação com Deus: ama-Lo em um por cento, te deixa indiferente em sessenta por cento, resulta-te agradável em uns dez por cento, tolera-l’O em vinte por cento e assim sucessivamente. (…) Se nos ficamos só nos grandes princípios, corremos o risco de a mensagem nunca chegar ao coração do homem. Em qualquer caso, tudo isto o diz a Sagrada Escritura, de forma mais retumbante: «Quem diz amar a Deus e não ama seus irmãos, é um mentiroso» (1Jo 2, 4).

FRANZ JALICS, Escuchar para ser ─ Dimensión contemplativa de las relaciones interpersonales, p. 11

Converter-se ao próximo e interessar-se pelo outro é a mesma dinâmica de se converter a Deus e de se interessar por Ele. Para isso, é preciso colocar-se no lugar do outro, se quisermos que o outro se coloque no nosso lugar. É sábio o ditado popular de que Jesus foi protagonista: “faz ao outro o bem que gostarias que te fizessem a ti e não lhe faças o mal que não gostarias que fizessem ati”. Para isso, é preciso promover o diálogo que não seja só troca de palavras, mas também uma permuta de dons.

Ao celebrarmos, neste domingo o 108º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o Papa Francisco convida-nos a Construir o futuro com os migrantes e os refugiados e incentivando-nos que a busca da verdadeira pátria esteja alicerçada na inclusão daqueles que, vindos de periferias existenciais, procuram uma vida mais digna. Uma principal tarefa é reconhecer e valorizar tudo aquilo que cada um deles pode oferecer ao processo de construção do futuro. Neste sentido, a Caritas Internacional pede ações concretas, em vez de “slogans vazios”.

A resposta da Igreja na defesa e acolhimento dos pobres mostra-nos que Deus continua a ser o garante da vida dos pobres, não deixando que nenhum fique prisioneiro da sua condição social, incapaz de gerar felicidade, mas que abra a porta da libertação. A fé do Evangelho é que Deus sacia os famintos e exalta os humildes. Portanto, é no Senhor que devemos colocar toda a confiança e não nas riquezas.

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* O jesuíta Franz Jalics é um daqueles dois para quem o Cardeal Jorge Bergoglio pediu a libertação, nos anos conturbados da ditadura argentina, faleceu no ano de 2021 em Budapeste. Foi o fundador dos “Amigos do Deserto”, de que Pablo D’Ors é hoje um dos principais promotores. Para além da obra citada neste artigo, deixou-nos os seus “Exercícios de contemplação”, através dos quais defende a simplicidade como a necessidade básica para o homem moderno que busca um contacto simples, espontâneo e direto com Deus, diante do mundo tecnificado, complexo e vertiginoso em que habita. A contemplação é, precisamente, o contacto direto com Deus.

Identidade e missão de Jesus na identidade e missão dos apóstolos, sem rótulos nem subterfúgios

Lc 9, 18-22

Numa brincadeira de escola, um aluno colou um papel nas costas de outro aluno da mesma turma que dizia “sou estúpido”. Pediu ao resto da turma para não dizerem nada. Passaram o dia a rir do amigo. Mais tarde, na aula de matemática o professor escreveu num quadro uma equação difícil. Ninguém foi capaz de responder, exceto aquele aluno. Levantou-se e foi ao quadro enquanto todos riam e gozavam baixinho. Ele não percebia porquê, mas foi ao quadro e resolveu a equação. O professor pediu à turma toda para aplaudir a resposta certa e tirar o papel das costas dele. Depois disse-lhe: “Parece que não sabias que tinhas um papel colado nas costas. E ninguém te disse nada, certo?”. A seguir, olhou para a turma e disse: “Antes de vos dar um castigo, vou-vos ensinar duas coisas. Ao longo da vida, vão colocar-vos rótulos nas costas com coisas feias para impedirem o vosso progresso. Se ele soubesse do papel nas costas, não tinha ido ao quadro resolver o problema. Tudo o que tens a fazer é ignorar os rótulos que as outras pessoas te dão. Usa todas as oportunidades que tens para progredir, aprender e melhorar”. A segunda lição da história? Claramente, não há aqui nenhum amigo leal com coragem para falar do papel. Não importa quantos amigos tens. É a lealdade entre ti e os teus amigos que importa”.

Um professor de Psicologia dizia-me que a dimensão humana que mais ansiedade nos dá e que é mais desafiadora é a dimensão psicossocial. E calcorreando, pela meditação, as relações humanas, no quotidiano, quem é que não se dá conta desta verdade? E como será que, positiva ou negativamente, a forma como vivemos esta dimensão beneficia ou interfere quer a identidade de cada pessoa, quer no propósito de cada uma nesta vida?

Por isso é que Jesus, mesmo tendo da sua companhia os seus discípulos, orava sozinho. O Padre Pio costumava dizer que a oração faz desaparecer a distância entre o homem e Deus. Esta afirmação ajuda-nos a compreender porque é que Jesus não abdicava desta relação com o Pai: para alicerçar e defender a sua verdadeira identidade e missão.

As duas faces da mesma moeda que têm que ver com a forma como desenvolvemos e defendemos as nossas relações humanas são a identidade da pessoa e o seu papel fundamental no mundo (é o mesmo que dizer vocação e missão). Quer numa, quer noutra, a tendência é a confusão: confusão de papéis porque confusão de identidades. Por isso, seguro de Si e da sua missão, Jesus pergunta aos discípulos sobre o que pensavam d’Ele, o que numa primeira abordagem denota uma verdadeira confusão nas respostas. Porém, a resposta de Pedro, embora esteja certa no rótulo, está errada no conteúdo: Jesus não seria um Messias político e revolucionário à maneira dos homens. Por isso, proíbe-os de anunciar aquele tipo de Messias que têm na cabeça, não obstante Jesus ser, de facto, o Messias de Deus (é mesmo isso, de Deus, por Deus ungido, e não dos homens). Não foi por acaso que Jesus, na sua apresentação habitual, se fazia passar por “Filho do homem” (título que não perdeu aquela Unção divina/paterna). Este rótulo convinha melhor a Jesus para a realização da sua missão, passando pela descrição que Ele anuncia: o sofrimento, a rejeição, a morte e ressurreição. Na cabeça dos discípulos e nos ouvidos da multidão, não era fácil de relacionar esta descrição com o rótulo de “Messias de Deus”.

Os rótulos costumam pecar sempre ou por excesso ou por defeito, no confronto com um papel ou missão que a pessoa é chamada a realizar (como o rótulo “eminência” em relação ao martírio/testemunho que os cardeais da Igreja são chamados a realizar). O que convém é mesmo que os papéis ou missões sejam constantemente avaliadas em confronto com uma boa definição de identidade. Assim com pessoas, assim com os cristãos, assim com a Igreja e os discípulos de Jesus Cristo. Não é por acaso que um pedaço considerável do caminho formativo para o presbiterado é o de configuração com Cristo: com a sua identidade e missão, que é o mesmo que dizer com as suas motivações, sentimentos, atitudes e comportamentos. A partir de uma opção fundamental em segui-l’O, não obstante os equívocos de fundo quando às motivações, sentimentos, atitudes e comportamentos de cada pessoa (cf. A. Cencini).

Não foi à toa que o Padre Stefano Guarinelli, no recente Simpósio do Clero de Portugal, tratou a questão da dimensão interpessoal da identidade relacional só depois de aprofundar a dimensão relacional com Deus da identidade sacerdotal. De facto, se partimos das pessoas, meramente, para definir a nossa identidade e missão, é possível que cada um de nós fique aquém de ser o que deve ser em função do que deve saber fazer. Se partimos de Deus, com sabedoria e coragem, há mais probabilidade de vermos a ser o que somos chamados a ser e a cumprir a missão que Ele reserva para cada um de nós.

Já Freud dizia: quando Pedro ma fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo. Quer dizer: quando falamos de outro, há muito de nosso no que dizemos e na forma como o fazemos. E o que escolhemos dizer sobre os outros, assim como de Jesus, e a forma como o fizermos é que vai dizer da forma como usamos o tempo, tão definido por Coelet como que num pêndulo ou balança, e da forma como discernimento a tarefa que Deus tem para cada um de nós, sendo que a do verdadeiro amor que colocamos no que dissermos e fizermos seguramente nos afastará de todas as vaidades. Só estas é que podem levar o homem a correr o risco de todos os tempos, que foi o risco de Adão e Eva: querer compreender o princípio e o fim da obra de Deus. Ocupemo-nos, pois, da obra do meio, nesta terra do meio, no durante da nossa história. Para isso, ajuda muito a forma como deixamos, na oração, Deus afinar as cordas na nossa “guitarra” pessoal, entre a cabeça e o coração. E conforme deixarmos que nos toque e a tocarmos, assim se dançará. E é preciso entrar na dança…!

À pergunta de Coelet «Que aproveita ao homem com tanto trabalho?» responde-se com as provocações de Jesus no Evangelho ─ quem sou Eu diante do que me vai acontecer o que que faço ─ e, portanto, como Ele, depende de quem partimos, de para onde nos dirigimos e de como ocupamos o tempo que Deus nos dá.

A luz da Palavra não se esconde ao mostrar e defender a verdade nas injustiças

Lc 8, 16-18

No dia 12 de maio de 2017, às 18h15, rezava o Papa Francisco diante de Nossa Senhora de Fátima, na capela das aparições, uma oração

Salve Rainha,
bem-aventurada Virgem de Fátima,
Senhora do Coração Imaculado,
qual refúgio e caminho que conduz até Deus!
Peregrino da Luz que das tuas mãos nos vem,
dou graças a Deus Pai que,
em todo o tempo e lugar,
atua na história humana…

Cf. Livrete das Celebrações em Fátima

A Palavra de hoje fez-me revisitar a vida de Mario Jorge Bergoglio e pesquisando sobre a sua vocação encontrei um título em que lia: Bergoglio, um padre que aprendeu a rezar. O autor refere que, um dia, um professor lhe deu um “raspanete”:

Queres fazer o bem, antes sequer de o entenderes e isto só pode ter uma razão: rezas mal (… Não contente com esta afirmação, Bergoglio riposta em discordância e torna a ouvir:) Tens de aprender melhor as coisas simples (…), tens de aprender que a fé não deve ser triste (…) Não podes amuar e tens um longo caminho de aprendizagem pela frente (…)

E foi o que o agora Santo Padre fez desde então. Com a sólida formação teológica que recebeu, Bergoglio dizia as ordens são-me impostas sobretudo pela minha consciência, vivendo na prática num difícil equilíbrio entre o que o coração destemido e a mente ética lhe ditava, diante das injustiças da sociedade em que viveu. Na Argentina, em Buenos Aires, dizia: se as pessoas não vêm à Igreja, é a Igreja que tem de ir ter com as pessoas.

A história de Jorge Bergoglio cruza-se, inevitavelmente, com o conturbado e perturbador clima político que ali se viveu, estando, em simultâneo, carregada de uma espécie de “simbologia da simplicidade” que Francisco tenta manter desde que foi eleito Sumo Pontífice. Ele foi uma daqueles homens que viveu entre a ameaça política e os avisos da Igreja, diante dos desafios mais delicados da sociedade, vítima de “vendetta” política quando, na verdade, se revelou contra a violação dos direitos humanos, cooperador com os padres que doutrinavam e defendiam os excluídos nas favelas mais pobres de Buenos Aires, na medida em que muitos deles eram associados a movimentos revolucionários.

Bergoglio foi obrigado também a uma “gestão no arame” assente num equilíbrio difícil entre a figura de autoridade que já representava enquanto superior provincial jesuíta – e os seus deveres para com os seus superiores e com o próprio Vaticano – e a realidade tortuosa em que vivia e com a qual manifestamente sofria – condenando-a veementemente. Ele tinha um “alerta de consciência” ao afirmar “há que seguir a cabeça ou o coração” diante das suas responsabilidades eclesiásticas, mas sobretudo morais, e é nessa dualidade que o coração parece sempre levar a dianteira.

Um dos padres jesuítas de que Jorge Bergoglio foi acusado injustamente de não saber defender ─ Francisco Jalics ─ é um autor que serve de base à Biografia do Silêncio, a Biografia da Luz e à Associação dos Amigos do Deserto, de Pablo D’Ors. A recente obra publicada Escuchar para serDimensión contemplativa de las relaciones interpersonales ajuda-nos a compreender o Evangelho de hoje, na medida em que nos aponta o problema mais básico da ação pastoral: sem disposição ao diálogo não é possível a transmissão da fé. Isto significa que é na escuta desinteressada, assim como no respeito e na abertura ao outro, o que permite às pessoas ganhar a claridade sobre si mesmas e sobre o seu mundo interior.

Evangelizar é comunicar, não escondendo a luz do Evangelho dentro de quatro paredes, através de um caminho que se vai tateando com cuidado entre os subterrâneos escuros da maldade e as comunidades cristãs chamadas a testemunhar a luz. Para isso, precisamos de ouvir a Palavra ativamente, entregando-nos a Deus sem cálculos, para que Deus se manifeste em nós sem medida.

Se a luz não for testemunhada pelas cristãs, também muitas vezes perseguidas em certos ambientes, outros o farão, como Eric Cantona (antigo jogador internacional francês), ao boicotar o Mundial de Futebol no Qatar lembrando os “milhares de mortos” durante construção dos estádios, chamando de aberração ao evento.

A luz da Palavra não serve só para evidenciar a mentira, mas para revelar a verdade por detrás das injustiças. A escuta passiva da Palavra pode ser uma forma de encobrimento da verdade que liberta. Pactuar com a Palavra implica não sermos neutros diante dos acontecimentos da história.

Por isso é que é muito importante o estudo da Doutrina Social da Igreja, na formação dos cristãos adultos e futuros presbíteros.

Uma palavra de esperança sobre a morte

A Palavra de Deus escutada e praticada imprime em nós a morte e ressurreição de Jesus

1 Cor 15, 35-37. 42-49; Lc 8, 4-15

Para além das memórias facultativas de S. Roberto Belarmino e Santa Hildegarda von Bingen, hoje, o mundo franciscano celebra a Festa da Impressão dos Estigmas de São Francisco, que nos ajudam a contemplar “o amor exageradamente grande” de Jesus ao dar a vida por nós na sua cruz.

A Legenda Menor de São Boaventura lê-se que

O Seráfico Pai Francisco, desde o início de sua conversão, dedicou-se de uma maneira toda especial à devoção e veneração do Cristo crucificado, devoção que até a morte ele inculcava a todos por palavras e exemplo. Quando, em 1224, Francisco se abismava em profunda contemplação no Monte Alverne, por um admirável e estupendo prodígio, o Senhor Jesus imprimiu-lhe no corpo as chagas de sua paixão. O Papa Bento XI concedeu à Ordem dos Frades Menores que todos os anos, neste dia, celebrasse, no grau de festa, a memória de tão memorável prodígio, comprovado pelos mais fidedignos testemunhos.

Esta experiência de São Francisco aproxima-se da do Apóstolo Paulo, que o leva a não nos deixar ignorantes acerca da ressurreição dos mortos e da relação entre o ser natural e o ser espiritual, entre a imagem do homem terreno e a imagem do homem celeste, da semente corruptível que ressuscita incorruptível.

Acerca de São Francisco, o seu mais afamado biógrafo Tomás de Celano afirmava que “levava a cruz enraizada em seu coração”. Que significado tem esta afirmação?

O frei Regis oferece 4 significados:

O primeiro é que Francisco não é uma figura acabada, porquanto é preciso olhar para a caminhada que fez até chegar à semelhança perfeita ou configuração com Cristo. O que aconteceu no Monte Alverne é o cume de toda uma vida, de uma busca incessante em seguir as pegadas de Jesus Cristo. Francisco lançou-se numa aventura sem tréguas, na qual deu tudo de si: a vontade, a inteligência e o amor. As chagas significam que Deus é Senhor de sua vida. Deus encontrou nele a plena abertura e a máxima liberdade para sua presença.

O segundo significado das chagas é o de que Deus não é alienação para o ser humano, ao contrário, é sua plena realização e salvação. Colocando-se como centro da própria vida é que o homem se aliena e se destrói; torna-se absurdo para si mesmo no fechamento do seu “ego”. O homem só encontra sua verdadeira identidade, a sua própria consistência e o sentido de sua existência em Deus. E Francisco fez esta descoberta: Jesus Cristo foi crucificado em razão de seu amor pela humanidade – “amou-os até o fim” – , e ele percorre este mesmo caminho.

O terceiro significado: as chagas expressam que a vivência concreta do amor deixa marcas. A exemplo de Cristo, Francisco quis suportar/carregar e amar os irmãos para além do bem e do mal (amor incondicional). Essa atitude levou-o a respeitar e acolher o “negativo” dos outros mantendo a fraternidade apesar das divisões. Esse acolher e integrar o negativo da vida é a única forma de vencer o “diabólico”, rompendo com o farisaísmo e a autossuficiência, aniquilando o mal na própria carne. Só assim, o homem é, de facto, livre, porque não apenas suporta, mas ama e abraça o negativo que está em si e nos outros.

O quarto significado: seguir Cristo implica morrer um pouco a cada dia: “Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz a cada dia e me siga” (Lc 9,23). Não vivemos no mundo que queremos, mas naquele que nos é imposto. Não fazemos tudo o que desejamos, mas aquilo que é possível e permitido. Somos chamados a viver alegremente mesmo com aquilo que nos incomoda, cada um vencendo-se a si mesmo e integrando o “negativo”, de modo a que ele seja superado. Nós seremos nós mesmos na mesma medida em que formos capazes de assumir as nossas cruzes. As chagas de São Francisco são as chagas de Cristo, e elas nos desafiam: ninguém pode conservar-se neutro, sem resposta diante da vida.

A “perfeita alegria” que é tema central na espiritualidade franciscana advém de que “acima de todos os dons e graças do Espírito Santo, está o de vencer-se a si mesmo, porque de todos outros dons não podemos nos gloriar, mas na cruz da tribulação de cada sofrimento nós podemos nos gloriar porque isso é nosso”. À luz do Evangelho de hoje, traduziríamos assim, ajudados por aqueles quatro significados da experiência mística de São Francisco no Monte Alverne:

A tarefa da sementeira é sempre devida a Jesus Cristo; as tarefas que nos são devidas a nós e na qual somos chamados a colocar todas as faculdades da nossa alma são:

1. A de estar dentro do caminho e não à beira, protegendo os nossos corações para que o diabo não nos roube a Palavra semeada, impedindo-nos de acreditar para sermos salvos.

2. A de tirarmos as pedras do terreno dos nossos corações, de maneira a que a Palavra crie raízes que nos ajudem a perseverar nas provações.

3. A de termos a coragem de fazer escolhas de maneira a que a Palavra não seja sufocada pelos espinhos da “mundanidade espiritual”, formados pelo apego às coisas deste mundo.

4. A de procurar ter diante do Senhor com alegria, em todas as circunstâncias, um coração nobre e generoso, conservando a Palavra e dando fruto pela perseverança.

S. Roberto Belarmino e Santa Hildegarda de Bingen foram, diante dos desafios do seu tempo, exemplos de uma boa sementeira entre o caminho da cruz e a glória da ressurreição. Também em nós, à medida que nos deixarmos configurar com Cristo, na sequela da cruz, também em nós, quando aprouver ao mesmo Cristo, poderão vir a ser marcados os sinais da sua Paixão, não necessariamente os estigmas, mas a marcas sacrificiais do bem que fizemos aos outros, por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Desejo ardentemente

PAPA FRANCISCO, Desiderio desideravi, sobre o Batismo

12. O nosso primeiro encontro com a sua Páscoa é o acontecimento que marca a vida de todos nós que acreditamos em Cristo: o nosso Batismo. Não é uma adesão mental ao seu pensamento ou a subscrição de um código de comportamento imposto por Ele: e o imergir-se na sua paixão, morte, ressurreição e ascensão. Não é um gesto mágico: a magia é o oposto à lógica dos sacramentos porque pretende ter um poder sobre Deus e por essa razão vem do tentador. Em perfeita continuidade com a encarnação, é-nos dada a possibilidade, por força da presença e da ação do Espírito Santo, de morrer e ressuscitar em Cristo.

13. É comovedor o modo como isto acontece. A oração de bênção da água batismal revela-nos que Deus criou a água precisamente em vista do Batismo. Quer dizer que ao criar a água Deus pensava no Batismo de cada um de nós e que este pensamento o acompanhou no seu agir ao longo da história da salvação todas as vezes que, com desígnio bem determinado, se quis servir da água. É como se, depois de a ter criado, a tivesse querido aperfeiçoar para chegar a ser a água do Batismo. E assim a quis encher do movimento do seu Espírito que pairava sobre ela (cf. Gn 1, 2) para que contivesse em germe a força de santificar; usou-a para regenerar a humanidade no dilúvio (cf. Gn 6, 1-9.29); dominou-a, separando-a para abrir um caminho de libertação no Mar Verme lho (cf. Ex 14); consagrou-a no Jordão nela imergindo a carne do Verbo repleta de Espírito (cf. Mt 3, 13-17; Mc 1, 9-11; Le 3, 21-22). Por fim, misturou-a com o sangue do seu Filho, dom do Espírito inseparavelmente unido ao dom da vida e da morte do Cordeiro imolado por nós, e do lado trespassado a derramou sobre nós (Jo 19, 34). É nesta água que fomos submergidos para que pelo seu poder pudéssemos ser enxertados no Corpo de Cristo e com Ele ressuscitar para a vida imortal (cf. Rm 6, 1-11).

Que o meu peregrinar seja também um bem para os outros, com admiração. Sentir-se “à altura” é não estar “à altura” do caminho aberto por Jesus

Lc 8, 1-3

Quando pensamos fazer uma peregrinação (caminhar “per agros”, pelo campo), quase sempre temos em mente um bem em favor próprio. Jesus, como nos relata Lucas, “caminhando por cidades e aldeias” andou sempre a pregar e a anunciar a boa nova em favor de todos.

Era tão bom que, à luz deste Evangelho, as iniciativas eclesiais, primeiro, deixassem de ser só dentro de quatro paredes, como se o que é comum é fechado em assembleia e o que é na rua é individualizado e privatizado. Hoje a Igreja sofre muito com a privatização da fé!

Neste relato, a enunciação dos Doze fica-se pelo número, enquanto que, quanto às mulheres, importa saber os seus nomes: Maria Madalena, Joana de Cusa, Susana e muitas outras. Dá a impressão que estas de quem sabemos os seus nomes seriam líderes de equipas de trabalho. É admirável que no processo sinodal que estamos a realizar, à luz do Espírito Santo, há uma questão direta que aparece em grande parte das sínteses: mais oportunidades para mulheres em cargos de liderança.

Entender a sinodalidade como uma maneira de ser Igreja no mundo de hoje implicará quer a refontalização, quer uma renovação, apoiadas na dinâmica que foi o Concílio Vaticano II. Porém há uma “balança da justiça de Deus” que terá de ser sempre colocada diante dos nossos olhos: aquela que coloca o peso na luz do Espírito Santo sem deixar de considerar as necessidades reais da humanidade de hoje, sem deixar que o peso de um bem-para-mim (dos meros desejos de cada pessoa) interfira ou danifique o valor que é o bem-para-os-outros. O que transfigura e salva não é uma autotranscendência egocêntrica ou meramente filantropico-social ─ ainda que tenham o seu devido valor para o desenvolvimento e a vida neste mundo ─ mas uma autotranscendência teocêntrica que, valendo para este mundo, nos promete a plenitude da vida.

Só a autotranscendência teocêntrica é que, não sendo autorreferencial, permite ler o Evangelho só a pensar nos Doze e esquecendo o nome das mulheres sem cujo serviço o papel dos Doze seria impossível no envolvimento e desenvolvimento da missão de Jesus. Deus quer homens e mulheres no seu projeto, senão não os tinha criado “homem e mulher” (cf. Gn). O problema é a acentuação indevida de papeis em detrimento de outros, levando a esquecer que a dignidade é a mesma. E esta é que é determinante defender como igual. Um parêntesis: o Papa Francisco, numa homilia proferida a Cardeais reunidos disse:

Irmãos, esta admiração é um caminho de salvação! Que Deus a mantenha sempre viva em nós, porque nos liberta da tentação de nos sentirmos «à altura», de nos sentirmos «eminentíssimos», de nutrir a falsa segurança de que hoje, na realidade, é diferente, não é mais como era no início, hoje a Igreja é grande, a Igreja é sólida, e nos situamos nos graus eminentes de sua hierarquia – nos chamam «eminências» –… Sim, há alguma verdade nisso, mas também há tanto engano, com que o Mentiroso de sempre tenta mundanizar os seguidores de Cristo e torná-los inofensivos. Este chamamento está sob a tentação da mundanidade que, passo a passo, priva-te das forças, priva-te da esperança, impede-te de ver o olhar de Jesus que nos chama pelo nome e nos envia. Este é o verme da mundanidade”.

PAPA FRANCSICO

Serviam Jesus e os discípulos com os seus bens. Só é possível, pois, sentir admiração pelo caminho percorrido e traçado por Jesus com a admiração de quem está diante de algo grande e não diante de um caminho em que tudo está previsto. Nem os homens, nem as mulheres estavam “à altura”; por isso, admiravam o estilo de caminhar de Jesus.

Conclusão: quanto maior for a autorreferencialidade, menor admiração pelas surpresas de Deus; quando menor for a autossuficiência, menor será o anonimato pastoral.

“Clipemos” bem o Evangelho para as decisões do dia-a-dia da pastoral prática: “Acompanhavam-n’O os Doze, bem como algumas mulheres…”!