A lei perfeita é a que mobiliza o nosso interior

[Leitura] 1 Reis 19, 9a. 11-16; Mt 5, 27-32

[Meditação] A regra da “desobriga” quaresmal fundou uma Igreja de fronteiras fechadas e exclusivas: não sais deste “risco”, sais de vez de “pisares” este risco, não entra quem tiver “pisado” este risco. Este tipo de “Religião” é baseado em normas que governam meramente o exterior. O Evangelho desta sexta-feira mostra-nos, mais uma vez, Jesus a fundar uma Igreja que não é meramente uma nova forma de Religião, é mesmo um projeto de Cristianismo que nos mostra Deus a vir ao encontro do interior de cada ser humano, para, de lá, nos governar ao encontro da comunhão com o próprio Deus e com os outros. Portanto, da lei que (des)obriga à Lei que nos implica com a totalidade do nosso ser.

Quando a lei motiva só o nosso exterior, sem vigilância interna, a conversão até pode ser de massas, mas nunca chega a ser cristã. Quando os valores mobilizam o nosso interior até ao ponto de doarmos a nossa própria vida, é porque é coisa séria. Por isso é que há muitas pessoas e movimentos fora da Igreja que podem, muito bem, parecer-se com o projeto evangélico de Jesus. Não basta, pois, estar associado a este ou aquele movimento; se não for desde a “medula” interior não significa que tenha a ver com a proposta de Jesus. Não basta “fazer número”!

Deus criou todo o ser humano à sua imagem e semelhança e não só os cristãos!! Por isso, estes são chamados a conformar-se com o modelo que é Jesus Cristo, para ir ao encontro dos outros e não deixar que se “suicidem” com escolhas contrárias ao evangelho, quer dizer, contrárias à dignidade humana e a todos os valores que promovem esta dignidade humana universal. O Espírito que nos inspira para tal não está nas coisas barulhentas, mas na “ligeira brisa” e no “caminho do deserto” que leva à Fonte inesgotável de todos os bens.

[Oração] Sal 26 (27)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Nenhum ser humano se pode dizer incapaz de religião!

[Leitura] 1 Reis 18, 41-46; Mt 5, 20-26

[Meditação] A busca de infinito é uma capacidade inata do ser humano, de tal modo que, independentemente do que lhe venha a acontecer de bem e de mal, nunca deixará de estar isento nas escolhas que o levem a prosseguir ou a desistir da vida em plenitude.

No entanto, a Palavra de hoje é dirigida a todos os que pensam que pode haver exclusão de pessoas no caminho para Deus. O termo “imbecil”, que Jesus reprova das nossas bocas, quer mesmo dizer “a-religioso”. Portanto, não devemos deixara de chamar algum ser humano de imbecil ou de estúpido por ser feio. É, mais claramente, por ser mentira, uma vez que não podemos dizer que alguém seja “a-religioso”, ou seja, incapaz de, desde o seu íntimo, se relacionar com Deus.

A comunidade da Igreja é chamada a aprender em assembleia a ser instrumento de união e não de separação, tendo em conta que há muitos ritmos e formas de busca de Deus que se podem integrar no mesmo projeto comunitário.

[Oração] Sal 64 (65)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Fernando de Bulhões, o Santo Antónimo das heresias

[Leitura] Sir 39, 8-14 (gr. 6-11); Sal 18 B (19B); Mt 5, 13-19

[Meditação] Há tanta coisa que se perde quando se dizem mentiras ou se escondem as verdades! No evangelho da festa de hoje, Jesus declara-nos «sal da terra e luz do mundo», precisamente como incentivo a procurar a verdade com o tempero das obras da fé. Não são os meros objetos que devemos temer perder, mas o que a mentira nos impede daquilo que a verdade nos permite viver.

Não me enganei no título deste post: o que Santo António pregou é mesmo “antónimo” das heresias, porque é a Palavra sempre antiga e sempre nova, única a descrever e a incentivar-nos à realidade total, muito para além do visível que impede os nossos corações de aspirar pouco. Por isso, quando rezarmos o famoso Responso a Santo António, não lhe peçamos só por coisas materiais que tivermos perdido (embora não seja proibido fazê-lo), mas não deixemos de pedir por seu intermédio a Santidade de que ele foi destinatário para nosso bem.

Que o seu “martelo” bata forte naquela “ferrugem” que há em nós, quanto à nossa resistência à verdade, e nos ajude a endireitar o caminho para a vida eterna, feito de pequenas e grandes coisas que também o Senhor Jesus viveu com o seu exemplo de máxima docilidade ao Amor do Pai.

[Oração] Responso a Santo António:

Se milagres desejais,
Recorrei a Santo António;
Vereis fugir o demónio
E as tentações infernais.

 

Recupera-se o perdido,
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

 

Todos os males humanos
Se moderam, se retiram,
Digam-no aqueles que o viram,
E digam-no os paduanos.

 

Repete-se: Recupera-se o perdido…

 

Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte,
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são.

 

Repete-se: Recupera-se o perdido…

 

Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo…

 

Repete-se: Recupera-se o perdido…

 

V: Rogai por nós, bem-aventurado Santo António.
R: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

 

OREMOS

Ó Deus, nós vos suplicamos, que alegre à Vossa Igreja a solenidade votiva do bem-aventurado Santo António, vosso Confessor e Doutor, para que, fortalecida sempre com os espirituais auxílios, mereça gozar os prazeres eternos. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Na lógica do Espírito Santo, separar não é diminuir, mas multiplicar

[Leitura] Act 11, 21b-26; 13, 1-3; Mt 10, 7-13

[Meditação] Uma das coisas que aparece clara no discurso de Jesus é que a Paz de Deus é o maior dom que se pode receber e partilhar, de tal maneira sublime que não se pode desperdiçar, quer dizer não gastá-lo sem critério, muito menos com quem não o pede, aguarda ou não o valoriza. O envio dos apóstolos é, por isso, uma grande garantia da proximidade do Reino de Deus, uma vez que a mensagem que transportam é precisamente a da Paz.

O programa que instaura a Paz de Deus é, no seguimento da Morte e Ressurreição de Jesus, o do Pentecostes em que lança os seus discípulos na missão de proclamar o Reino. Para isso, é preciso que saiam em todas as direções, como se intui no convite atribuído ao Espírito Santo: «Separai Barnabé e Saulo para o trabalho a que os chamei».

Nas nossas comunidades, não nos deve escandalizar ou meter pena, por isso, o aumento daqueles que se dispersa depois da educação/iniciação cristã, após a imposição das mãos no Crisma, enquanto os mais velhos se sedentarizam na mesma vivência da fé. De qualquer forma, os mais novos estão a obedecer a Deus quando os convida a deixar a sua terra, casa, pai e mãe… O que podemos fazer é, de alguma maneira, estar dispostos a acompanhar o seu percurso de vida até à maturidade da opção fundamental da vocação. Acontece no anúncio do Reino como na partilha da Luz da noite santa da Ressurreição do Senhor: a luz repartida não dimimui o seu esplendor, mas multiplica-se a todos os que transportarem uma coluna de cera!

O pedaço de filme que coletei ontem da TV, mostra-nos como que por sementes do Verbo semeadas em culturas ancestrais, aquilo em que somos chamados a pôr a nossa confiança.

[Oração] Sal 97 (98)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Favoritismo e indiferença, as máscaras modernas dos dois pecados originais que nos impedem de pertencer à família universal

[Leitura] Gen 3, 9-15; 2 Cor 4, 13 – 5, 1; Mc 3, 20-35

[Meditação] O Papa Francisco, no segundo capítulo da sua recente Exortação Apostólica “Alegrai-vos e exultai”, alerta-nos contra o individualismo e o desprezo do corpo, como inimigos da Santidade e máscaras de duas heresias antigas: o pelagianismo e o gnosticismo. Portanto, este desprezo noegnóstico do corpo e o individualismo neopelagiano do corpo podem ser, precisamente, ramificações consequentes daqueles pecados contra os dois valores fundamentais da humanidade:

1º — Ser criatura. É um valor fundamental de que o ser humano se esquece quando ignora Deus e se substituiu a Ele. Daqui deriva todo o tipo de desvio do próprio ser. Não admira, pois, que Deus pergunte: «Onde estás?». Esta provocação precisa de uma resposta não geográfica, mas ontológica: onde estarei eu quanto ao “espaço”de criatura que me foi dado, para expandir dentro dos “limites” da vida terrena que me podem possibilitar alcançar a plenitude da vida eterna? Contra o valor e a dignidade de ser simplesmente criatura derivará o tal desprezo do corpo como espaço digno, não só de ser morada de Deus criador, mas também de ser meio de comunicação da Sua graça. Substituir Deus é o primeiro pecado original contra o qual é preciso lutar com uma alta consideração e cuidado para com o corpo, sem favoritismos ou nepotismos que substituam Deus de determinar o que é bem e o que é mal, objetivamente.

2º — Ser irmão/irmã. O segundo pecado original aconteceu desde que a terra foi manchada com o sangue de um irmão (na dramática história de Caim e Abel). O individualismo levam a pensar erradamente que o outro não importe, na hora de considerar a dignidade de cada um e de cada uma. Deste individualismo deriva a indiferença que impede de responder à pergunta divina: «Onde está o teu irmão?».

Ora, para Jesus, considerado louco pelos seus familiares e um estorvo para os chefes religiosos/políticos da comunidade do seu tempo, a familiaridade que confere a cidadania do Reino de Deus é, simplesmente, ouvir a Palavra de Deus e pô-la em prática. Trata-se de uma familiaridade universal e não um “gueto” de cumpridores. As leituras deste 10ç domingo do tempo comum são claras quanto à responsabilidade que a Igreja tem de lutar contra todo o tipo de favoritismo que, automaticamente, gera a indiferença para com os que sofrem e são marginalizados, para alguns viverem dentro de uma redoma de bem-estar eclesial e social, até ao ponto de haver envolvimentos aparentemente santos para se tirar proveitos que não têm a ver com os preceitos de Deus.

Vamos, como nos sugere São Paulo, vigiar a nossa vida, construindo a nossa unidade interior que nos torne capazes de ter um comportamento exterior em conformidade com a Palavra de Deus. Peçamos por intermédio de Maria, Aquela que com a máxima docilidade ao Espírito Santo nos deu à luz o Verbo feito carne, que as nossas famílias e comunidades cristãs sejam inclusivas de todos e não exclusivistas.

Responder à divina “pergunta bisturi” «Que fizeste?» é a melhor forma de vigiarmos a nossa ação exterior, sempre ligada às nossas disposições exteriores, para não andarmos indefinidamente a obedecermos a mecanismos de defesa próprios da infância e da adolescência que, embora naquelas idades sejam aceitáveis, na vida adulta nos impedem de viver a “loucura” que não escandaliza os destinatários do Evangelho, e nos fazem viver uma anormalidade e indignidade próprio de criaturas e filhos/as de Deus (como a “transferência” da responsabilidade para a serpente!!).

O que desejarmos pedir aos outros, mais fortes, peçamos primeiro ao nosso Bom Deus. Ele, desde a nossa consciência, fará as perguntas que nos ajudarão a encontrar as respostas convenientes, para o nosso bem e o bem de todos.

[Oração] Sal 129 (130)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Cristo trespassa através do Padre para todos

[Leitura] Os 11, 1. 3-4. 8c-9; Is 12, 2. 3. 4bcd. 5-6; Ef 3, 8-12. 14-19; Jo 19, 31-37

[Meditação] «Hão de olhar para Aquele que trespassaram» — é a frase com que termina a proclamação do Evangelho desta Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, dia em que a comunidade da Igreja é convidada a rezar pela santificação dos que exercem o sacerdócio ministerial. Uma vez trespassado pela lança do soldado, o coração de Cristo nunca mais deixou de jorrar «sangue e água», uma vez que, em Sua memória, pediu aos Apóstolos continuarem a realizar o Santo Sacrifício da Eucaristia.

É o Padre que faz a Eucaristia em nome de Jesus Cristo, e em comunhão com o Bispo, em favor de todos os fiéis da Igreja. Também ele, desde a sua humanidade configurada a Cristo, vive trespassado para deixar o sumo Sacerdote chegar à mesa dos fiéis. Quem não for capaz de reconhecer Cristo através desta humanidade configurada a Ele, também não será capaz de O reconhecer na comunidade que celebra a Eucaristia. Não é desde a sua humana perfeição que os presbíteros nos fazem chegar Cristo à assembleia. As ações de Cristo na Igreja têm consistência por elas próprias, uma vez que é Ele que as preside.

A imagem que partilho nesta ocasião, é um monumento a D. Óscar Romero que o Papa Francisco irá canonizar no próximo mês de outubro de 2018. Nos seus escritos de jovem sacerdote, quando estudante em Roma (1940): «É esta a tua herança, ó sacerdote: a cruz. E é esta a tua missão: partilhar a cruz. Portador de perdão e de paz, o sacerdote corre até junto da cama dos moribundos, e uma cruz na sua mão é a chave que abre os céus e fecha o abismo».

Seria sublime se os fiéis acolhessem este “Cristo trespassado” ajudando os padres a purificarem a pastoral de tudo o que é política mundana, partilhando as cruzes dos sacerdotes, para que o amor de Jesus chegue a todos!

[Oração] Sagrado Coração de Jesus que tanto nos amais, fazei que Vos ame cada vez mais! (3x)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Toda a atividade sagrada é sempre “dois em um”

[Leitura] 2 Tim 2, 8-15; Mc 12, 28b-34

[Meditação] O povo diz de uma coisa que vale por duas quando a pessoa consegue “matar dois coelhos com um tiro só”. É o caso do amor cristão: por ele, amamos a Deus e ao próximo (como a nós mesmos) numa só ação. É sempre assim! Por isso é que a oração mais elevada é a que nos coloca em contacto com os outros ao mesmo tempo que com Deus na Eucaristia. Escusamos de andar com “arrepios”: em cada esquina do nosso viver cristão, quando as coisas nos começam a não parecer lineares, então é oportuno fazer o “check-in” dos seguintes elementos: nisto que sou e que faço — amo a Deus? amo o próximo, na consideração de mim?

— Quantas vezes o amor que recebemos de Deus não ficará no socalco do nosso egoísmo emsimesmado? É porque falta gratidão a Deus e realismo na relação com os outros.

— Quantas vezes a piedade que devotamos a Deus no culto não fica pendurada em ritos vazios? É porque falta a coerência entre a fé que se verbaliza e as obras que se (não) realizam em favor dos outros.

— Quantas vezes a auto-estima não significa uma forte capacidade de resiliência pessoal no mundo real em que vivemos? Porque se ensoberbece a real capacidade de lutar pelo bem com a incapacidade de se deixar ajudar também pelos outros.

Não só estas considerações, mas também o ensaio das mesmas na vida prática aproximam-nos das fronteiras do Reino de Deus.

[Oração] Sal 24 (25)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Não podemos construir um céu à imagem da terra!

[Leitura] 2 Tim 1, 1-3. 6-12; Mc 12, 18-27

[Meditação] Pela forma como os saduceus colocam a questão “matrimonial” a Jesus, percebemos que, para eles, não tem lógica haver ressurreição dos mortos. Não fossem eles desorganizar a ordem sócio-religiosa em que punham toda a sua confiança. Isso é porque eles partem do pressuposto de que Deus é um Senhor dos mortos, em vez de ser o Deus dos vivos, como o apresenta Jesus.

Na ressurreição não se volta à vida terrena, mas vive-se a vida eterna prometida por Deus. Por vezes, aspiramos a viver no céu como continuação da comodidade sonhada na terra. Há até quem lhe chame “eterno descanso” como se o céu fosse feito de “resorts” ou “camaratas” para se dormir um sono profundo. E só de almas, qual pessoas! Como podemos continuar com esta linguagem? Até para analogias são limitadas!!

Não podemos construir um céu à imagem da terra, simplesmente ele não cabe aqui. Podemos, sim, pensar que todos, de todas as gerações e de todas as épocas, cabemos no céu, porque é a casa infinita de Deus, cujo amor é perfeito, acima de todas as instituições com que “governamos” todas as coisas, quer materiais quer espirituais.

[Oração] Sal 122 (123)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A fé faz-nos herdeiros dos bens Deus e não da terra

[Leitura] 2 Pedro 1, 2-7; Mc 12, 1-12

[Meditação] Na homilia do IX domingo do tempo comum (ontem) declarei algo que também serve para hoje: se formos passar a pente fino o desempenho social da comunidade da Igreja (não só do bispo e dos párocos!), nem tudo é programa inspirado pelo Evangelho, mas ditado pelo programa social. Esta lente ajuda-nos, também, a meditar no Evangelho de hoje: a vinha é do Senhor e os vinhateiros são diferentes dos seus servos. Aqueles pensam no lucro pessoal, estes na parte do lucro pertencente ao seu Senhor. Este, inclusivamente, pensa na distribuição justa, mas aqueles somente em apoderar-se de tudo.

A caridade que a Igreja é chamada a atuar na verdade, por ser o amor de Deus traduzido por ações que revelem a Sua justiça, não se esgota meramente na parceria com a solidariedade social, como o amor não se esgota, nem se confunde com a tolerância. É, infelizmente, notável a facilidade com que, nas comunidades da Igreja, por vezes, existe a abertura a concessões sócio-políticas, minimizando o espaço para a missão da evangelização da cultura. Por outro lado, anda-se a “matar” padres com serviços que não lhes foram recomendados nas “promessas sacerdotais”, entendendo-se muitas vezes como funcionários pagos pelas paróquias, onde deverão (no pensamento de alguns) obedecer à vontade clericalizada dos leigos. Continua ou não a fazer sentido o evangelho hoje proclamado? Quem é o dono da vinha? No ocidente, carecem padres porque se deixou de contemplar a importância da sua origem sacra, mais como homem do social (como tantos outros) do que desde a Eucaristia que é chamado a presidir em nome de Jesus.

Sem fugir à obediência no que toca à Doutrina Social da Igreja, pelos trâmites do diálogo entre os dons hierárquicos e os dons carismáticos, os critérios da avaliação da participação no tríplice múnus do Bom Pastor não são ditados pela sociedade, ainda que esta deva ser escutada, mas pela Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja que compõem a Tradição.

Precisamos sempre de reconfigurar a pastoral da Igreja com a pedagogia do dono da vinha: com a torre da vigilância, a sebe da clareza e o lagar do discernimento em vista aos frutos que é preciso entregar ao dono. Como Pedro afirma: «Jesus, com o seu divino poder, concedeu-nos tudo o que é necessário à vida e à piedade (…)» entrando «na posse das maiores e mais preciosas promessas, para nos tornarmos participantes da natureza divina, livres da corrupção que a concupiscência gera no mundo». Vamos, então, como exorta este Apóstolo, « juntar à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a constância, à constância a piedade, à piedade o amor fraterno, ao amor fraterno a caridade». Que, pelas nossas mãos, esta não acabe nunca, na Verdade.

[Oração] Sal 90 (91)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

No vaso frágil da religião transportamos o tesouro da fé cristã que o renova

[Leitura] Deut 5, 12-15; 2 Cor 4, 6-11; Mc 2, 23 – 3, 6

[Meditação] À frente do Seminário Maior de Viseu está a estátua do Bispo D. António Alves Martins (1808-1882), onde podemos ler, numa das faces da coluna, a afirmação que lhe foi atribuída:  «A religião deve ser como o sal na comida: nem muito nem pouco, só o preciso». Penso que esta frase não dista muito do sentido da afirmação de Jesus escutada na cena evangélica deste IX domingo do tempo comum — «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» —, com a qual percebemos que a prática do bem para se salvar vidas proposta pelo Evangelho transcende toda a ordem estabelecida.

Nós sabemos que Jesus não fundou nenhuma Ordem, nem nenhuma Religião, ainda que esta se referencie ao Cristianismo no quadro das três grandes religiões (juntamente ao Judaísmo e ao Islão). A face do Cristianismo que se descreve como Religião será a forma como os crentes aderem ao acontecimento vida-paixão-morte-ressurreição de Jesus Cristo. No entanto, enquanto a religião se pode definir mais bem como o ser humano à procura de Deus, o acontecimento cristão refere-se ao movimento de Deus em direção à humanidade, para a salvar, segundo os seus desígnios de amor.

Acontece, pois, que aquela face humana de religião, por vezes, cristaliza-se em leis que impedem de acolher o amor salvífico de Deus, impondo coisas que Ele não quer. Assim, a religião pode caraterizar-se como aquele “vaso” frágil que é chamado a ter consciência do tesouro que transporta — a fé cristã (no caso do Cristianismo, claro) —, que, traduzido em oração e ação, tem o poder de a renovar no sentido de servir a construção do Reino de Deus. Assim, o Antigo Testamento vai deixando de ser uma mera latência do Novo, dando espaço ao cumprimento da promessa de Deus: a de termos vida em abundância, longe de todas as formas de opressão a que nos impõe uma falsa visão de Deus e do ser Homem sobre a terra.

Requer-se uma santa “rebeldia” para se ser cristão!

[Oração] Sal 80 (81)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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