«Que fizeste?» – Uma pergunta para dois tipos contrastantes de resposta

[Leitura] Dan 7, 13-14; Ap 1, 5-8; Jo 18, 33b-37

[Meditação] Depois que o ser humano correu o risco de romper a correspondência criatura-Criador, a ponto de Este lhe perguntar «Onde estás?» (Gn 3, 9), surgiu a pergunta «Que fizeste?». Ela aparece colocada por Deus a Caim (cf. Gn 4, 10) e por Pilatos a Jesus (cf. Jo 18, 35). A confusão sobre o ser criatura abre caminho para a inconsistência sobre o agir em conformidade.

A liturgia desta Solenidade de Cristo Rei é uma boa oportunidade para contemplarmos naquela declaração «ecce homo» a apresentação d’Aquele que vem, com a Redenção, responder em conformidade com os desígnios da Criação. Assim, também, o confirma o Apocalipse (cf. 1, 7).

Também para nós, o coração se torna um “pretório” onde pode acontecer que Jesus seja, porventura, prisioneiro, se >O deixarmos ficar fechado nas nossas projeções psicológicas, transformando-O em ídolo. Já na proclamação da Palavra Ele é a verdade que nos liberta, se a resposta àquela pergunta («Que fizeste?») for: procurei fazer o bem a meu irmão, dando a vida por Ele, sabendo que é criatura de Deus tal como eu.

Aquelas duas perguntas formam as traves  rudes da cruz de cada um e, também, na sua versão gloriosa, as traves mestras da Cruz de Jesus. Daí que para servir a Deus («Que fizeste?») seja preciso aderir à Verdade («Onde estás?»).

[Oração] Sal 92 (93)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O povo clama por padres… O Senhor escuta. Quem enviaremos?

[Leitura] Dan 12, 1-3; Sal 15 (16), 5 e 8. 9-10. 11 L 2 Hebr 10, 11-14. 18 Ev Mc 13, 24-32

[Meditação] Conta uma história que

Uma vez, os guardas de uma prisão próxima do deserto trouxeram para a rua um prisioneiro e disseram-lhe:
— És livre. Vai e que sejas feliz.
O homem livre vagueou sem rumo e foi parar ao deserto. Aí encontrou um Sábio que lhe disse:
— Vejo que andas um pouco desorientado. Dou-te esta bússola. Servindo-te dela, poderás chegar a um oásis que fica aqui perto e depois a uma cidade onde há muita vida. Boa viagem!
O homem pensou: «Eu sou livre e este estranho quer impor-me um caminho e uma meta. Não aceito! Quero ser livre!» E atirou a bússola para longe.
Aconteceu que este homem desnorteou-se de tal maneira, que vagueou pelas areias do deserto e acabou por morrer. Foram encontrados mais tarde os seus ossos.
Um ano depois, os guardas libertaram um outro prisioneiro. O Sábio também lhe deu uma bússola e as mesmas orientações:
— Tens aqui uma bússola. Segue-a pois terás de atravessar um deserto. Mas, se te deixares nortear por ela, chegarás a uma linda cidade cheia de vida onde poderás viver. Vai e sê feliz.
Este segundo prisioneiro, ao contrário do primeiro, seguiu as orientações. A bússola ajudou-o a percorrer o caminho que o levou à terra da. liberdade. Conseguiu passar por alguns oásis, onde pôde matar a sua sede e descansar. Finalmente, chegou à meta.

Por vezes, na vida, também acontece assim: tem-se tanta vontade de liberdade e felicidade, mas renuncia-se àquilo que verdadeiramente pode ajudar-nos a encontrá-las. A impaciência em encontrar o rumo da verdadeira felicidade é uma bússola estragada. A sociedade, com muitas propostas enganosas, dopa-nos o cérebro.

A liturgia de hoje apresenta-nos a verdadeira bússola: a Palavra de Jesus. Só esta é que nos poderá ajudar a percorrer o caminho da imortalidade. Por isso, estes domingos que se aproximam no final do ano litúrgico não têm senão a função de nos ajudar um verdadeiro encontro com Cristo que virá, não só no final da nossa vida e dos tempos, mas também a este deserto onde precisamos da ajuda d’Ele, para não nos perdermos.

Neste deserto, precisamos de adotar três tipos de olhar, como nos aconselha D. António Augusto Azevedo, Presidente da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios:

1. Um olhar de gratidão…

2. Um olhar de realismo…

3. Um olhar de confiança e esperança…

O D. António Luciano, na Nota Pastoral que escreveu para este Semana dos Seminários 11-18 de novembro de 2018, exortou que

É preciso investir mais e melhor na pastoral familiar, juvenil e vocacional. É urgente que padres e leigos tomemos consciência da importância e valor do Seminário como casa de formação e acompanhamento, onde os jovens e adultos com uma vida humana e espiritual de qualidade, façam o seu percurso de amadurecimento e discernimento vocacional. Precisamos de trabalhar mais com as famílias para que se tornem o espaço privilegiado das vocações, escutar os jovens na Igreja, na escola, no trabalho e nos espaços de lazer, para que se alguns sentirem o chamamento de Deus à vocação sacerdotal tenham a coragem de responder sim ao chamamento de Cristo.

Somos verdadeiramente livres quando nos deixamos nortear pela bússola, que indica o que é justo e verdadeiro.

Algumas partes da Igreja Católica, por se gastar imensas energias e bens na manutenção do seu peso institucional, tendem a impludir. E ainda bem! Por outro lado, muitas partes da sociedade, por se apostar só na realização humana em busca de sucessos frequentemente efémeros, tendem a passar de moda. E ainda bem! E, mesmo depois de comprovarmos que «toda a educação é destinada a falir se toma como objectivo a estrutura antes que a pessoa», continua a defender-se a autorreferencialidade e a autorrealização que deriva dela, em vez de apostarmos numa auto-transcendência teocêntrica na consistência humana.

O bispo e os padres bem pregam, mas… quem quer imitar o seu estilo de vida? E porque será que, por vezes, o seu estilo de vida não atrai? (O mesmo se pode perguntar em relação aos matrimónios e consagrados/as.) O povo vive muitos tipos de indigência, não só a material, mas mesmo a solução desta precisa que se resolva a indigência espiritual. Podemos ser levamos a concluir que tanta pobreza material no mundo de uns é, certamente, consequência de tanto desperdício intelectual no mundo de outros, de maneira que somos levados pelo Papa Francisco a pensar que, se experimentarmos, também aquela pobreza material, com um pouco de espiritualidade podemos chegar a doar as nossas vidas em favor do pobres. Assim, deixamos que Deus se sirva de nós para levar a esperança a muitos!

[Oração] Pelos Seminários:

Deus trindade,
sabes o quanto somos mendigos de Ti.
À beira do caminho procuramos a luz
que dá mais sentido aos nossos dias
e cura todas as nossas cegueiras.
Tu passas sempre pela nossa vida
e acendes em cada um de nós
o desejo de sermos Teus discípulos.
Na Tua estrada queremos ser formados.
Nas Tuas palavras e nos Teus gestos,
Ser instrumentos da Tua graça.
Juntos no caminho,
queremos ser comunidade
enviada em missão
Rezamos por todos
os que arriscam seguir-Te,
especialmente os seminaristas
e pré-seminaristas.
Rezamos ainda por todos aqueles
que se entregam totalmente a Ti
e colocam a sua vida nas Tuas mãos
Pedimos-Te que continues
a despertar os corações adormecidos
para que mais jovens
das nossas comunidades
aceitem o desafio de Te seguir.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Dar-se com amor vale mais do que realizar-se com o que se tem

[Leitura] 1 Reis 17, 10-16; Sal 145 (146); Hebr 9, 24-28; Mc 12, 38-44

[Meditação]Conta uma história que

Certa manhã, um pai convidou o seu filho para dar
um passeio na floresta, o que o filho aceitou
com prazer. Ele deteve-se numa clareira e
depois de um pequeno silêncio perguntou:
– Além do cantar dos pássaros, estás
a ouvir mais alguma coisa?
– Estou a ouvir o barulho de uma carroça,
respondeu.
– Isto mesmo, disse o pai, é uma carroça vazia…
– Como pode saber se a carroça esta vazia, se ainda não a
vimos?
– Ora, respondeu o pai, é mito fácil saber que a carroça
está vazia. É por causa do barulho que faz.
E completou:
– Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho ela faz. Quanto mais ela está cheia, mais silenciosa ela é no cumprimento da sua missão.

Para ela não era importante realizar-se. Esta palavra, por vezes, fica perdida em cinematografias como aquela pose dos escribas que procuravam a todo o custo (com quantias avultadas colocadas no tesouro do templo) cumprir a lei à letra. Mas era o exteriorismo que pesava. Tratava-se de dar nas vistas.

Já aquela viúva… estou a imaginá-la a passar despercebida ao olhar de todos, por indigente religiosa, política e social que era. Exceto ao olhar de Jesus e dos seus discípulos.

[Oração] Pelos Seminários:

Deus trindade,
sabes o quanto somos mendigos de Ti.
À beira do caminho procuramos a luz
que dá mais sentido aos nossos dias
e cura todas as nossas cegueiras.
Tu passas sempre pela nossa vida
e acendes em cada um de nós
o desejo de sermos Teus discípulos.
Na Tua estrada queremos ser formados.
Nas Tuas palavras e nos Teus gestos,
Ser instrumentos da Tua graça.
Juntos no caminho,
queremos ser comunidade
enviada em missão
Rezamos por todos
os que arriscam seguir-Te,
especialmente os seminaristas
e pré-seminaristas.
Rezamos ainda por todos aqueles
que se entregam totalmente a Ti
e colocam a sua vida nas Tuas mãos
Pedimos-Te que continues
a despertar os corações adormecidos
para que mais jovens
das nossas comunidades
aceitem o desafio de Te seguir.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A inteligência aproxima-nos do Reino, a caridade faz-nos habitar nele

[Leitura] Deut 6, 2-6; Hebr 7, 23-28; Mc 12, 28b-34

[Meditação] Conta-se numa história que

Um dia, num convento, o jardineiro aproximou-se de um frade seu amigo e disse-lhe:
– Gostava que fosses contemplar a beleza da minha horta e do meu jardim.
O frade, que pouco saía do convento, respondeu:
– Com todo o gosto, irei ver o que tens para me mostrar. O frade acompanhou o jardineiro. Este foi-lhe mostrando todos os canteiros, dizendo:
– Olhe para as minhas flores, como são lindas!
Mais adiante dizia:
– Repare nos morangos que plantei, como estão bonitos. E todas estas árvores cheias de frutos que são uma delícia! Mais adiante dizia:
– Olha como estão viçosas estas alfaces.
O frade ia observando em silêncio. A um certo momento respondeu:
– Sim, mas não te esqueças de que tudo isto é um dom do Criador!
Sem nada dizer, o jardineiro levou o frade a um canto do jardim deixado sem cultivar e disse:
-Repara no que acontece quando se deixa que seja o Criador a cultivar sozinho!
O frade regressou ao convento a pensar que, de facto, tudo é 100% de homem e 100% de Deus.

Moral da história:

  • O mundo foi entregue por Deus ao homem apra que faça dele um jardim. Cada homem assume a sua responsabilidade.
  • O mesmo se diga em relação ao mandamento do amor: que vale ficar fechados no “convento” a viver um culto muito bonito se depois descuidarmos dos irmãos?
  • O culto perfeito que agrada a Deus é pôr em prática a justiça em favor do próximo.
  • A integridade intelectual aproxima-nos do Reino; porém, estar dentro dele implica praticar a caridade.
  • Daí o amor a Deus e ao próximo ser um só mandamento, com duas atitudes inseparáveis.
  • Não nos podemos esquecer, também, de cuidarmos do “jardim” do nosso próprio coração, porque, na verdade, ninguém pode partilhar os frutos que não tem.
  • Deus já nos amou a todos primeiro, semeando a sua Palavra no mundo.
  • Na prática (não tão simples de observar), o Novo Testamento sugere o seguinte ciclo: amando-se no deixar-se amar por Deus e amando-O nos outros.

[Oração] Sal 17 (18)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O sangue do Cordeiro é o “omo” da Santidade

[Leitura] Ap 7, 2-4. 9-14; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12a

[Meditação]

– «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?»

– «Meu Senhor, vós é que o sabeis.»

– «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro.»

Nos meus tempos de infância, era frequente ver a minha mãe lavar a roupa no tanque comunitário e, depois de lavar a roupa, colocar a roupa branca ao sol com a lixívia, para ficar ainda mais branca. Assim é a vida dos batizados que vivemos neste “tanque” de tribulações que é o mundo: arriscamos a vida sem fugir da estrada onde temos a oportunidade de dar testemunho do amor de Cristo da cruz. É o testemunho corajoso que “branqueia” a nossa vestes do Batismo. Por isso, não a podemos arrumar na “gaveta” do medo, mas vesti-la todos os dias, até que se manifeste totalmente a imagem de Deus em nós.

As bem-aventuranças são a imagem mais próxima do rosto de Jesus e traços caraterísticos do seu viver. Santos são todos aqueles que O imitaram.

[Oração] Sal 23 (24)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

É à saída que a Igreja “tem saída”, não com triunfalismos, mas com o serviço

[Leitura] Jer 31, 7-9; Hebr 5, 1-6; Mc 10, 46-52

[Meditação] Gostaria de iniciar a reflexão deste XXX domingo com o versículo 9 de Jeremias 31:

Eles partiram com lágrimas nos olhos, e Eu vou trazê-los no meio de consolações. Levá-los-ei às águas correntes, por caminho plano em que não tropecem. Porque Eu sou um Pai para Israel, e Efraim é o meu primogénito.

Esta é a descrição do caminho de todo o ser humano até que aconteça o encontro com Deus em Jesus Cristo, como o encontro daquele “maltrapilho” Bartimeu, às portas de Jericó, de onde Jesus ia a sair a caminho de Jerusalém.

— Que queres que Eu te faça?

— Mestre, que eu veja.

Neste versículo 15 de Marcos 10, vemos como é que Jesus “arranca” a cura do cego, que logo a seguir Jesus garante ser a sua fé n’Ele. Jesus passou por Jericó, onde anunciou a boa nova do amor de Deus, mas foi à saída que se ouviu o grito mais expressivo de reação a esse anúncio. Por vezes é também assim na Igreja: é nas periferias que se escutam os gritos mais expressivos que justificam a passagem de Jesus pelas nossas comunidades.

Daqui tiramos uma conclusão: Jesus está aqui, é verdade, mas é de passagem. Nós tendemos a fechá-lo só para nós: no sacrário da nossa povoação, no peito da nossa vida, no íntimo bem-estar das nossas famílias, mas Ele, na verdade, está sempre de passagem. E o caminho dos que são atendidos não é o de meramente serem retornados ao ambiente da Igreja, mas o caminho próprio que a Igreja é chamada a tomar no seguimento para o Reino. Porque a referência é o Reino e não meramente a Igreja. Esta é convidada a estar, também, a caminho!

O sofrimento é a real forma de averiguar o tipo de fé e a coragem do seguimento do Filho do homem. Também a comunidade da Igreja se prova nas suas crises, em que se prova ser capaz de caminhar ao encontro da novidade que o Ressuscitado a vem surpreender. É curioso, a este respeito, que ao recebermos a notícia da nomeação de D. Armando Esteves Domingues para bispo auxiliar do Porto temos a descrição semelhante do que relata a cena do Evangelho: uma primeira reação de triunfalismo (não do próprio nomeado que aceita humildemente mais este upgrade na missão de servir a Igreja, mas dos que pensam numa nomeação destas como mera honra humana), para a seguir nos darmos conta de que, com esta doação da Diocese de Viseu, é preciso que outros saiam da sua “toca” para vir a servir no ministério sacerdotal. E aqui, só a fé no sacerdócio de Cristo no qual os padres são configurados, é que nos pode salvar! Nesta hora de partilha deste bem vocacional que temos, que o Bom Pastor não nos deixe desamparados! Vamos viver a celebração desta dádiva com novo impulso missionário.

[Oração] Sal 125 (126)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A síndrome do galheteiro: embarcar na fama à custa dos outros/do Outro

[Leitura] Is 53, 10-11;Hebr 4, 14-16; Mc 10, 35-45

[Meditação] Há muita gente na sociedade (da parte da politica de consumismo de bens e de status) a crescer à custa do sofrimento dos outros, sem que cooperem na diminuição desse sofrimento, ainda o aumentando mais para que não acabe a fonte dos seus rendimentos ou posição social. Assim, a leitura do texto do Evangelho deste XXIX domingo fez-me lembrar de um galheteiro, onde vejo aqueles dois apóstolos a servir de “frascos” a aproveitar-se d’Aquele pelo qual são elevados para servir na mesa do Reino pela Cruz.

Na verdade, Jesus, reconhecendo a sua missão/vocação nos antigos profetas, andou persistentemente a tentar enchê-lo de algo que os faça úteis, mas eles andaram distraídos com mundanidades. No entanto, quando lhes “cheira” a honras, lá estão eles, mesmo vazios, a ocupar o “galheteiro”. Jesus não os desaproveita, mas ensina-lhes (a eles e a todos os outros) o caminho do serviço que antecede a glória (não a posição dentro dela!).

Chamaria a esta atitude dos discípulos a “síndrome do galheteiro vazio”. Esta tendência está muito presente no nosso mundo, inclusive nas comunidades da Igreja! Os discípulos que perdem tempo a considerar a fama e o poder às custas de Jesus e daquele com quem Se identifica, nunca conseguirão ser verdadeiros missionários (e permanecerão deficientes discípulos!).

[Oração] Sal 32 (33)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Para a missão vale mais o ardor no coração do que a euforia na boca

[Leitura] Ef 1, 11-14; Lc 12, 1-7

[Meditação] Se formos fazer uma “reportagem” à conduta de Jesus nas cenas evangélicas, iríamos para o “estúdio” da nossa reflexão com mais fotografias de gestos do que com gravações de áudio. É curioso que a gravação áudio de todo o Novo Testamento demora a escutar 24 horas, pausadamente e com música de fundo, como se pode comprovar pela edição portuguesa da “Bíblia Falada”. Daqui concluímos que, na maior parte do tempo da sua vida pública (3 anos), Jesus caminhou ao encontro das pessoas e realizou gestos salvíficos, acompanhados das essenciais palavras que lhe conferiam significado.

A vida do cristão poderá ser uma coisa diferente desta conduta de Jesus? Não. Não seria vida cristã!

Temo que, por vezes, o nosso empenho profético-litúrgico-social seja intitulado de testemunho, mas vazio de gestos significativos, apesar dos “slogans” motivacionais. Talvez porque falta a estes “slogans” a linguagem gestual que dê sentido, não à atividade em si, mas aos destinatários do Evangelho. Está provado que os “slogans” em excessso poderão constituir “atalhos” para uma via sem sentido, porque descentrada do caminho exigente da cruz. A este respeito, é curioso constatarmos como a maioria das frases com que encabeçamos as nossas atividades eclesiais não concretizam diretamente os conteúdos evangélicos, mas atiram setas para a sede emotiva das pessoas, como “setas de cupido”, com a consequente possibilidade da frustração.

Quando o Papa Francisco nos convidava para uma nova etapa evangelizadora (Evangelii Gaudium, 17), era para sermos evangelizadores com o Espírito de Deus! É este o ardor (e não outro) que nos permite tomar a cruz de todos os dias e seguir Jesus Cristo ao encontro dos irmãos. O ardor prova-se no coração quando surge o confronto entre o impulso evangelizador e o confronto com uma adversidade, que nos pede ultrapassar o medo, na tentativa de deixar transparecer a verdade.

Assim, é mais fácil um fósforo ser capaz de reunir gente mais livre e motivada à volta de uma conversa de lareira, do que a buzina de um altifalante de uma torre de igreja trazer uma multidão crente à Missa. Quanto não poderiam fazer as nossas “velas de Batismo” juntas?!

[Oração] Sal 32 (33)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

São Lucas: permanecer fiel para estar/ir em missão

[Leitura] 2 Tim 4, 9-17b; Lc 10, 1-9

[Meditação] Escreveu-nos o Papa Francisco, na sua Mensagem para o Dia Mundial das Missões (21 out. 20118):

A Igreja, ao anunciar aquilo que gratuitamente recebeu (cf. Mt 10, 8; At 3, 6), pode partilhar convosco, queridos jovens, o caminho e a verdade que conduzem ao sentido do viver nesta terra. Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, oferece-Se à nossa liberdade e desafia-a a procurar, descobrir e anunciar este sentido verdadeiro e pleno. Queridos jovens, não tenhais medo de Cristo e da sua Igreja! Neles, está o tesouro que enche a vida de alegria. Digo-vos isto por experiência: graças à fé, encontrei o fundamento dos meus sonhos e a força para os realizar. Vi muitos sofrimentos, muita pobreza desfigurar o rosto de tantos irmãos e irmãs. E todavia, para quem está com Jesus, o mal é um desafio a amar cada vez mais. Muitos homens e mulheres, muitos jovens entregaram-se generosamente, às vezes até ao martírio, por amor do Evangelho ao serviço dos irmãos. A partir da cruz de Jesus, aprendemos a lógica divina da oferta de nós mesmos (cf. 1 Cor 1, 17-25) como anúncio do Evangelho para a vida do mundo (cf. Jo 3, 16). Ser inflamados pelo amor de Cristo consome quem arde e faz crescer, ilumina e aquece a quem se ama (cf. 2 Cor 5, 14). Na escola dos santos, que nos abrem para os vastos horizontes de Deus, convido-vos a perguntar a vós mesmos em cada circunstância: «Que faria Cristo no meu lugar?»

Pois, tanto o Sumo Pontífice como Paulo relatava no texto proclamado hoje da sua Carta aos Gálatas, nos ajudam a ver como também os evangelizadores de hoje, por vezes, se sentem sozinhos e abandonados. Mas esta solidão e abandono não são razão para desistências, mas “lugar” para oportunidades. Estas implicam, porém, a capacidade para aprender a “gerir” estes momentos com o que de mais importante o apóstolo tem para (sobre)viver: a fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo. É desta fidelidade que todos os verdadeiros discípulos partem para a missão.

Também hoje o Papa e os Bispos partem da fidelidade a Jesus (e não meramente das suas terras de proveniência física). E é essa fidelidade à Verdade que, por vezes, os faz sentir sozinhos e abandonados por aqueles que pensam que a Igreja é meramente uma instituição terrena. De perto e ao longe, os Bispos vão afirmando a sua união com o Papa, como aconteceu com a Carta ao Papa Francisco. Porque não fazerem o mesmo os paroquianos ao seu pároco, os filhos aos seus pais, os catequizandos ao seu catequista, etc.? Porque, por vezes, a Verdade que alguém transporta na sua debilidade fica encarcerada na prisão do preconceito de muitos. Precisa de ser liberta com a solidariedade dos fiéis, ainda que de poucos!

[Oração] Sal 144

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A árvore que dá os frutos do Espírito está enraizada no Céu

[Leitura] Gal 5, 18-25; Lc 11, 42-46

[Meditação] Deixarmo-nos conduzir pelo Espírito, como S. Paulo nos sugere, não está em cumprirmos meramente as tradições humanas, que por vezes são con-tradições em relação à vida nova que nos é oferecida nos Seus frutos. Viver os Seus dons é ancorar a vida no Céu e não na terra, porque esta mensagem não foi nenhum homem que a inventou, mas Deus que no-la fez “chover” em Jesus Cristo, no Espírito de Amor. Por isso, não basta a lei (embora esta ainda seja precisa), mas é preciso dar espírito (fogo) à mesma para que ela nos “semeie” no Céu.

Por isso, «viver segundo o Espírito» é «caminhar no Espírito», saindo de nós mesmos ao encontro daquela imagem de perfeição que Deus Pai idealizou para cada um dos seus filhos e filhas. Por isso, a vida cristã não trata de impor «fardos», mas de propor caminhos de encontro ao grande Caminho de Salvação que é Cristo. O Filho assumiu-Se como Filho do homem, para nos ajudar a percorrer o caminho até ao horizonte onde estão ancoradas as nossas vidas, onde nos reconheceremos em Deus muito para além da “roupagem” com que nesta terra somos (in)vestidos. Aqui na terra, todas as leis hão de ser revistas, porque subsidiárias da única Lei que não será revista: a do Amor a Deus e ao próximo como a nós mesmos.

[Oração] Sal 1

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo