Publicado em Lectio Humana-Divina

Batismo: o renascimento que ilumina a consciência ativa

[Leitura] Act 4, 23-31; Jo 3, 1-8

[Meditação] É eloquente o sinal da Vela de Batismo: mostra-nos a cera produzida pelo trabalho das abelhas simbolizando a vida natural, que envolve o pavio que é capaz de ser aceso com o fogo. De facto, todas as criaturas são, à partida, velas capazes de ser acesas com o Espírito de Deus. No entanto, essa Luz implica, como na vela, gastarmo-nos para que, segundo o desígnio de Deus, se acenda em cada crente. O Sacramento é a “acendalha” ou “isqueiro” de uma iluminação que dura a vida toda, de forma indelével.

Por isso, nós cristãos não fomos batizados. Somos batizados! E, como tal, estamos sempre acesos para o Anúncio do mesmo Senhor Jesus Ressuscitado que nos deu a vida nova por essa purificação e essa Luz que nos enviou com o Pai.

O Batismo, para não ser uma mera data de calendário ou propósito para se receber folares de padrinhos, tem de fazer tremer, com atitudes conscientes que derivam em atos decisivos que mudam a vida (própria e dos que nos rodeiam). Em última análise, o Batismo faz viver segundo uma opção fundamental, com a resposta a um chamamento que Deus reserva para cada um e cada uma.

[Oração] Sal 2

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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Comunhão eclesial: utopia ou esperança viva!?

[Leitura] Act 2, 42-47; 1 Pedro 1, 3-9; Jo 20, 19-31

[Meditação] Como é que, hoje, os que não acreditam em Jesus ou os que teimam em ver só por sinais podem fazer a experiência do Ressuscitado? A resposta mais evidente seria: aproximando-se e estando no encontro comunitário. No entanto, ressalta, por vezes, à vista a falta de comunhão entre aqueles que herdaram os dons de Jesus. Como fazer, então, para O ver apesar desta falta de comunhão? Alguém dizia que sem a comunhão na missão da Igreja é difícil perceber-se que as ações pastorais sejam de Jesus Cristo.

Sim, o caminho da comunhão pastoral é o mais prioritário de todos. Parece ser uma utopia porque deixámos cair o termo em desuso e é preciso voltar a redefini-lo dentro dos condicionamentos atuais (segundo o mesmo método usado por Tomás Halík para o tema do amor). Será uma esperança viva se não lha escondermos as chagas, mas, como Jesus, as mostrarmos aos que contemplam a comunidade de fora. Não há comunhão expressiva sem o esforço que os crentes fazem para a manterem acesa apesar das divergências. Não há comunhão glamorosa, mas clamorosa!

É assim que a comunhão será esperança viva, repito: sendo construção de pontes entre a plural forma de seguir Jesus, convidando a participar na mesma missão da Igreja que Ele fundou. Entre os discípulos, ou há comunhão, ou não há missão. Poderíamos acrescentar, assim, mais uma palavra à expressão tão querida do Papa Francisco, ainda que se devesse subentender: discípulos-(em)comunhão-missionários!

[Oração] Sal 117 (118)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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O amanhecer abundante da obediência a Deus rompe com a noite constritiva na desobediência humana

[Leitura] Act 4, 1-12; Jo 21, 1-14

[Meditação] Na Liturgia da Palavra destas 24 horas do grande dia que é esta Oitava Pascal, se estivermos atentos, somos levados a contemplar com nitidez  a passagem entre a noite e o amanhecer divino que rompe com os seus dramas humanos. É nítida, também, a forma perentória com que os chefes do povo, os anciãos e os escribas tiveram em constringir os Apóstolos a obedecer às regras rígidas da religião judaica, sendo o caminho de Jesus uma proposta mais imperiosamente cativante.

Hoje continuamos a assistir, entre o cumprimento de tradições e a esperança de vida feliz, à contradição que é fazer depender o sucesso mais daquele cumprimento do que no encontro com Jesus Ressuscitado. Aponto como exemplo o corre-corre das visitas pascais: quanto de verdadeiro encontro se realizará num ou dois dias, entre a azáfama de chegar a horas e o cumprimento de passar em todas as casas? Não seria melhor aproveitar os 90 dias (senão mesmo o ano pastoral todo) para o encontro demorado entre o pastor e as pessoas nas suas famílias? Mas para reverter as tradições na Tradição, seria preciso desobedecer a alguém!

Não me escandaliza que não haja visita pascal se houver formas de viver a Páscoa iluminadas pelo acontecimento da Ressurreição. Viver ressuscitados não será mais viver a mensagem que Jesus nos deixou, encontrando-O no outro que somos chamados a amar concretamente? A Páscoa pode ser o “jogo” entre as circunstâncias sociais/eclesiais e a obediência aos meios mais adequados para chegarmos todos ao mesmo fim. Usar a Páscoa para não ver morrer tradições em vez que a vivermos na fidelidade à Tradição é querer descer da Cruz que recomendamos que seja beijada naquele Dia que o Senhor fundou porque morreu por nós. Ele agora vive, para que também saibamos morrer para nós próprios (também as instituições o saibam fazer…) para vivermos eternamente como o Ressuscitado!

[Oração] Sal 117 (118)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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O Ressuscitado propõe o encontro físico para o acolhimento do Espírito

[Leitura] Act 3, 11-26; Lc 24, 35-48

[Meditação] Está claro, a partir da Liturgia da Palavra, que a espiritualidade cristã se defina pela incarnação do Espírito em vez da espiritualização do corpo, o que não é sempre fácil de se perceber a partir do Corpo que é a Igreja na sua variedade de formas de comungar com a sua “Cabeça” que é Jesus Cristo Ressuscitado.

Após a Sua Morte, Jesus apareceu na visibilidade do Seu Corpo aos Onze, com provas evidentes! A este encontro comensal sucede-se a proposta da conversão, com a qual nos convida a viver como corpo de “ressuscitados” na Igreja. O que outrora recusámos com o pecado − o reconhecimento de Jesus como Filho de Deus Salvador − somos agora chamados a acolher no perdão, pela força do Espírito que nos leva ao arrependimento.

Esta dinâmica pascal não é uma questão de reflexão filosófica, portanto, mas de um encontro com Jesus Cristo mediado, hoje, pelo Corpo que é a comunidade dos crentes, a Igreja. Não admira que a melhor expressão pascal da fé no Ressuscitado, aquém de todas as provas como as primordiais que encontramos nos relatos das Suas aparições aos Apóstolos, é a comunidade viva dos crentes.

Alguns movimentos da Igreja, cada um a seu modo, procuram iniciar um processo de (re)conversão a partir da experiência da refeição, como é o caso do Curso Alfa e das Equipas de Nossa Senhora. Oxalá (que quer dizer “Deus queira”!) sejam movimentos orientados pró nova evangelização e não desagregação…

[Oração] Sal 8

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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A cruz redentora é sacrifício humilde sem o “fel” do pecado

[Leitura] Is 50, 4-7; Filip 2, 6-11; Mt 26, 14 – 27, 66

[Meditação] A Jesus Cristo deram ‘vinho com fel’ (Mt 27, 34), mas Ele não o aceitou, depois de o provar. O dicionário bíblico diz-nos que o fel era um vinho fraco, azedo, misturado com uma droga chamada ‘mirra’ (Mc 15, 23), empregando-se essa bebida com o fim de produzir a estupefação nos supliciados. Com a sua atitude, Jesus ensina-nos que, apesar de “provar” o que custa a nossa condição, não quer, mesmo assim, “analgésicos” que enfraqueçam a terapia ajustada à salvação que a humanidade precisa: a sua doação na Cruz até ao fim.

Por acaso, já me aventurei a tentar aprofundar de que teor ou qualidade era o sofrimento de Jesus na Cruz, já que na quantidade, parece que o sofrimento de muitos seres humanos se lhe pode assemelhar, como os que estavam crucificados ao lado d’Ele. A minha surpresa foi encontrar uma resposta: segundo o psiquiatra Scott Peck, foi na dimensão psicológica que o sofrimento de Jesus foi maior qualitativamente, como também quantitativamente (por toda a humanidade). Trata-se de compreendermos da consciência de Jesus sobre o facto de saber no que estava em jogo: aceitar o suborno dos sacerdotes do templo (desça da cruz para que acreditemos n’Ele) ou a obediência ao Pai. Ele tinha a plena consciência de que poderia deitar tudo a perder naquela oportunidade desigual e única. Por isso, estava só e pergunta sobre o abandono de Deus. Mas não desiste de não deixar que a sua condição psicológica (psiqué, anima) pendule para os desejos da carne (sarx). Em vez disso, obedece ao Espírito (pneuma).

O Seu Sangue derramado, por isso, mesmo que não o saibamos compreender ou merecer, é “bálsamo” que nos purifica nesta via-sacra humana, sem qualquer mácula do pecado que nos tira a vida eterna.

[Oração] Sal 21 (22)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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O Espírito que nos faz viver é o mesmo que nos ressuscita!

[Leitura] Ez 37, 12-14; Rom 8, 8-11; Jo 11, 1-45

[Meditação] A primeira reação que o cenário do Evangelho deste 5º domingo da quaresma nos pode provocar é desejar que o que aconteceu com Lázaro também fosse possível para muitos e muitas dos que, por causa de doenças repentinas, morreram bem perto de cada um de nós. No entanto, pensemos um pouco: o que aconteceu com Lázaro, na verdade, foi uma vivificação ou reanimação; não foi propriamente uma ressurreição, mas anúncio daquela vida plena que Deus nos promete e que, de certa forma, já vivemos pelo Batismo. A ressurreição é um estado de imortalidade na vida incorruptível. A reanimação implica regressar a esta vida corruptível. Ainda que com a alegre companhia das suas irmãs Marta e Maria e amigos (um dos quais Jesus), Lázaro continuou a viver a vida que se experimenta com desafios e dores. Quererá Deus manter-nos nesta experiência como num círculo vicioso fechado? Ele pode mais, Ele quer oferecer-nos mais!!

A teologia deste domingo quer levar-nos mais longe e assegurar-nos que a Ressurreição de Jesus é a primícia ou inauguração da nossa ressurreição. Ainda que nos custe a experiência da morte física, ela é “porta” para tal passagem. Quando os discípulos comunicam a Jesus que Lázaro morreu, Ele assegura-lhes que está vivo e que dorme. Não é que Jesus, ao aproximar-se do sucedido, não sofra com a perda do amigo. No entanto, assumir que a morte é só uma passagem para uma nova vida implica a coragem de acreditar na ressurreição dos mortos.

A Palavra de hoje é um convite a aproximarmo-nos dos irmãos que continuam a jazer nas “grutas” que os fazem sofrer opressões ou dores de vários tipos. A presença carinhosa dos outros permitem-nos viver constantemente (re)animados pelos laços de fraternidade e de amizade. Pela fé, estamos certos que a última vez que nos for dado sair de uma gruta, será para “acordarmos” num estado de vida incorruptível, onde já nem a “traça” da morte, nem qualquer tipo de sofrimento nos pode tocar. Para isso, acolhamos, desde já, o Espírito do Ressuscitado. É Ele que nos enche de vida, mesmo quando a nossa condição física não é de bem-estar total. Muito nos ajuda espiritualmente saber que a vida nova não é só uma promessa para o além dos que cumpriram tudo como deve ser; é, desde já, um convite acessível aos que aceitam ser amigos de Jesus. Entremos na amizade para a qual Ele nos convida, através da oração. Esta é uma relação de amor, também, naqueles com que Ele Se identifica.

[Oração] Sal 129 (130)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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No caminho de Jerusalém, a subida é em segredo e o planalto em alta-voz

[Leitura] Sab 2, 1a. 12-22; Jo 7, 1-2. 10. 25-30

[Meditação] O tema do Evangelho de hoje é típico de uma “Liturgia da Palavra” que precede a “Liturgia Pascal”. A subida para Jerusalém é feita por Jesus com a máxima discrição, não porque tenha medo dos judeus, mas porque não quer que prejudiquem a sua missão. Os que se cruzam com Ele no caminho “mandam piropos” suficientes que o poderiam levar a desistir deste “fardo” humano. Já no “planalto” do Templo, Jesus não se escusa à pregação direta, em alta-voz. Na verdade, foi para isso que veio e fá-lo no coração da religiosidade judaica.

É assim, também, a experiência de quem, querendo levar à prática um projeto de vida, se coloca num caminho de formação. Dou o exemplo dos jovens que estão a fazer a formação inicial para virem a ser padres. Fazem-no na discrição, pois são muito raras as pessoas que sabem com atualidade e profundidade como se atua esta formação específica. No entanto, no caminho não falta quem os possa desviar. Menos mal que, depois de serem “tirados” ao convívio familiar, são gradualmente inseridos no campo pastoral onde terão que, também gradualmente, ser anunciadores do Reino com a isenção do protagonismo humano que contraria a lógica de Deus. Sem esta discrição, toda a formação ficaria retida em objetivos de pouco alcance.

Uma vez no “planalto” da existência, cada vocação tem uma missão que já não pode ser escondida, pois «não se pode esconder uma lâmpada debaixo da cama». Também já não se pode voltar atrás no tempo da formação acontecida, correndo o risco dos discípulos de Emaús na regressão à casa materna. E é por causa destes que o Ressuscitado continua a precisar de quem dedique tempo aos que desanimam, para que, intercetados por uma presença significativa, continuem o trajeto amor traçado pela providência divina para cada pessoa. Não admira, portando, que uma das conclusões mais centrais do simpósio europeu promovido pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) seja o acompanhamento dos jovens. Portanto, menos “montanhas” de atividades e mais subidas a “planaltos” onde se proporcione aquele encontro não fatídico, mas promissor de verdadeira felicidade!

[Oração] Sal 33 (34)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo