O Espírito do Pentecostes é como uma “pomba doméstica” que não regressará sozinha

[Leitura] L 1 Act 2, 1-11; Sal 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34 L 2 1 Cor 12, 3b-7. 12-13 ou Rom 8, 8-17 Ev Jo 20, 19-23 ou Jo 14, 15-16. 23a-26

[Meditação] De facto, uma das tendências mais delicadas do ser humano, no seu desenvolvimento para a adultez é a de fazer “ninhos” (na psicologia = nidificação), criar laços de segurança, relações que garantam o sentido de pertença. Porém, sem questionamentos e avaliação desses mesmos laços ou relações, verificando se eles estão a cumprir o objetivo, que não é só o de uma felicidade estável, mas também o crescimento da pessoa, o “ninho” vem-se a revelar um gerador de inconsistências.

O caminho inédito aberto por Jesus não se detém nas preferências humanas, cuja tendência é a da homologação de consciências, mas a abertura ao transcendente que surpreende. Por ocasião da celebração do Pentecostes, o Papa Francisco disse que «sem o Espírito, a Igreja é uma organização, a missão é propaganda, a comunhão é um esforço». Pois, a missão da Igreja neste mundo não é enraizar-nos nele, mas apontar-nos sempre o horizonte para o qual nos impele o sopro do Espírito Santo.

Ora, a Palavra proclamada no Pentecostes inspira-nos a viver num modo dinâmico, favorecendo com as faculdades humanas bem sincronizadas (afeto, inteligência e vontade) a pertença a um corpo místico, cuja cabeça é Cristo, que agora está à direita de Deus Pai. Se este corpo estiver bem conjunturado, tudo concorre para que a sua missão obedeça aos desígnios de Deus Pai, como Jesus, na sua vida terrena, fez.

É estranho pensar como na Igreja possa haver estruturas que sejam desproporcionais na sua forma de atuar e no seu objeto, sem discernimento eclesial, de modo que a fazer contemplar a Igreja como um “mutante”. Pode um corpo saudável ter duas mãos de tamanhos diferentes? Pode entre os pés não haver a simetria que lhe permite um andamento equilibrado? Podem os ouvidos ser de tal maneira abertos que diminuam a função dos olhos e da boca? Pode a língua dizer palavras que não se entendam? Então, não faz sentido os “crentes” viverem como se a função da Igreja na terra fosse somente a sua autorreferencialidade e não tendesse para o Reino de Deus.

O ser humano, por vezes, projeta no caminho de fé os seus distúrbios, sendo estes o “voo” não vigiado dos seus mecanismos de defesa, sobretudo aqueles não adaptativos à nova realidade do Reino que o Senhor Jesus no veio anunciar. “Joguemos” com o humor e a antecipação, aqueles mecanismos que, se usamos com equilíbrio e coragem (sem medo), nos permitirão relativizar as coisas da terra, para darmos valor às coisas que o Espírito Santo nos recordará, permitindo-nos o regresso àquela eterna Fonte, no apeadeiro definitivo da eternidade.

[Oração] Sequência do Pentecostes:

Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

 

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

 

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

 

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

 

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

 

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

 

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

 

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

 

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

 

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O que queres fazer PARA SERES GRANDE?

[Leitura] L 1 Act 13, 14. 43-52; Sal 99 (100), 2. 3. 5 L 2 Ap 7, 9. 14b-17 Ev Jo 10, 27-30; Mensagem do Papa Francisco para o 56º Dia Mundial de Oração pelas Vocações

[Meditação] Quase sempre, quando queremos provocar uma criança ou adolescente sobre o seu futuro, perguntamos «o que queres ser quando fores grande?» (basta o leitor colocar a frase do título deste post no Google e este troca imediatamente a pergunta pela trivial, não sendo encontrados resultados para a pergunta do título). Esta interrogação sublinha, sobretudo, a idade física no tempo, deixando para segundo plano aquilo que poderá ajudar a criança ou adolescente a ser grande. É curioso que nunca fazemos a pergunta desta forma a um jovem, de modo que, também, timidamente, fechamos esta questão no foro privado de uma consciência muitas vezes perdida ou desorientada. No entanto, podemos provocar: Jovem, sabes o que te poderá ajudar a fazer ser grande aos olhos de Deus? Queres discernir?

É neste sentido que o Papa Francisco nos convida a arriscar com coração na promessa de Deus que está em cada um de nós. Este “arriscar” é um deitar-se à aventura de descobrir o desígnio de amor que Deus sabe que poderá encher de felicidade duradoira a vida de cada pessoa. Neste Domingo IV da Páscoa − Domingo do Bom Pastor −, no Evangelho, Jesus deixa-nos claro que a sua voz é a “onda” de sintonização de cada “ovelha” com o seu Pastor. Conhecê-l’O é fundamental para cada um conhecer o seu caminho para o Pai. Aliás, ele mesmo é o caminho, a verdade e a vida.

Portanto, em catequese ou pastoral vocacional, talvez seja uma perda de tempo perguntar “que queres ser quando fores grande?”, embora se refira ao ser, mas é necessário colocar este ser em contacto, nas perguntas que fazemos, com as grandes possibilidades existenciais de ser o mais possível à imagem e semelhança de Deus, durante o tempo da esperança (humana e cristã) de vida. Perguntemos, pois: “o que queres fazer PARA SERES GRANDE?”. Trata-se de colocar o ideal a que se aspira ao fazer de hoje, no discipulado missionário. Trata-se de arriscar, hoje, com coragem, a promessa que aguarda ser cumprida no tempo de vida de cada um, na relação com os outros. A pergunta tradicional protela a formação. A pergunta revolucionária propõe trabalhar no ser, em colaboração com a preliminar graça de Deus, de modo que «Que queres fazer para seres grande?» é uma pergunta que pode fazer-se em todas as idades, sugerindo a pedagogia da gradualidade.

[Oração] Pelas Vocações:

Deus, nosso Pai,
ao enviares o Teu Filho Jesus,
quiseste vir ao nosso encontro.
Queremos agradecer-Te, hoje,
por continuares a chamar,
no barco da Igreja,
pescadores para o alto mar,
para a missão de chegar a todos.
Concede-nos,
pela graça do Batismo,
o dom da escuta da Tua voz
e da resposta generosa.
Desejamos abrir-nos ao “sonho maior”:
discernir a vocação
que nos torna servidores
da alegria do Evangelho.
Dá-nos a coragem de arriscar,
como a jovem Maria,
para sermos portadores da Tua promessa.
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A gratuidade da Ressurreição de Jesus: ponto de partida ou ponto de chegada?!

[Leitura] L 1 Act 10, 34a. 37-43; Sal 117 (118), 1-2. 16ab-17. 22-23 L 2 Col 3, 1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8 Ev Jo 20, 1-9

[Meditação] No acontecimento que foi o incêndio na Catedral de Notre-Dame, assistimos a duas manifestações não habituais, no que toca à monitorização noticiosa: que franceses se tenham ajoelhado na rua para rezar; que personagens milionárias se tenham posto a doar os seus bens para a sua reconstrução rápida. Terão sido estas manifestações de todo “gratuitas”?! O que parece ter sido um desastre está a ser acompanhado por acontecimentos similares que não são, com toda a certeza, acidentais, mas manifestações de ódio ao Cristianismo, pelo mundo fora. Onde estão, agora, essas manifestações aparentemente “gratuitas”?!

A experiência de fé no Ressuscitado “corre” em dois ritmos: o primeiro é a estafeta solitária de Maria Madalena que, dando-se conta de que o Corpo do Senhor não estava no sepulcro, vai a gritar isso aos outros discípulos. O alarme dos que sofreram mais de perto aquele incêndio deveria parecer-se com este grito. Após a notícia do sepulcro vazio, lá vão os dois discípulos – Pedro e João – a confirmar, também eles em correria, mas para, com o toque ou só a visão, declarar a fé na Ressurreição de Jesus. Daqui depreendemos que a Fé na Ressurreição de Jesus não é meramente um ponto de chegada de uma caminhada feita no contacto com a presença terrena do Mestre, mas, sobretudo, um ponto de partida (porque o Mestre já não está na mesma figura física) para uma nova aventura que implica compreender as Escrituras e incarná-las na vida.

De que vale ficarmos a olhar com mais piedade ou dinheiro para os sepulcros vazios onde a humanidade continua a jazer, vítima de ódios e desespero? Há que proagir (e não só reagir), em favor do que continuam a sofrer atrocidades que ferem a dignidade humana, à partida e não à chegada! Há que trabalhar pela promoção da dignidade humana sempre e ao encontro dos que correm o risco de a perder. Porque é que rezamos publicamente só quando acontecem males ou só quando é previsto pela diplomacia social dar azo à a que a Liturgia da Igreja saia à rua? Ela é um facto privado? Não, nem sequer público-privado! Por isso, não deverá ficar fechada em quatro paredes… mesmo que as tenhamos de preservar.

Quer na oração, quer na partilha, o que se reza e o que se dá não deverá esperar nada em troca, de modo que se deve rezar sempre sem desfalecer, mesmo que seja na rua, e se deve doar sempre sem arrecadar mais que o essencial, nem esperar dividendos do que se dá. Páscoa é transformação de consciências e de opções fundamentais, para que o mundo também seja restaurado dos males que o têm asfixiado. Páscoa é sinal certo de que é possível recomeçar sempre, voltando ao início restaurador da fé. E porque é cristã e se refere a um Deus que é família, declara a verdade de que não é possível voltar a um mero caminho religioso solitário ou autorreferencial.

[Oração] Como no dia pascal:

Cristo Ressuscitou. Aleluia! Aleluia!
Cristo vive para sempre no meio de nós. Aleluia! Aleluia!
Cristo encha de paz e alegria as nossas famílias. Aleluia! Aleluia!
Celebremos a Páscoa do Senhor, na vida e na comunidade. Aleluia! Aleluia!

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

As tentações, do «show off», pela Palavra “on”, ao Espírito “in”

[Leitura] L 1 Deut 26, 4-10; Sal 90 (91), 1-2. 10-11. 12-13. 14-15 L 2 Rom 10, 8-13 Ev Lc 4, 1-13

[Meditação] Toda a vida adulta saudável, do ponto de vista humano e cristão, precisa de iniciar e passar por provas; todas as energias e saberes que se vão adquirindo na fase a que se chama de iniciação infanto-juvenil servem para uma original felicidade, mas por onde e a que preço?

A teologia do 1º domingo da Quaresma mostra-nos como Jesus, o Filho de Deus, não descartou aqueles energias de «Filho do homem», mas conhecendo-Se a Si mesmo, utilizou o que nessa condição seria alavanca para fazer as escolhas de verdadeiro Filho de Deus. As três tentações apresentadas no Evangelho são três “ideologias” saídas da “caixa de pandora” que é a tendência primordial de o homem se substituir a Deus (cf. Gn 3), impondo o ter acima do ser, o poder acima do  e o prazer/aparecer acima do serviço. Os antídotos para essas “mordidelas” da serpente são: o “pão” da Palavra, a “força” da humildade e a “beleza” do serviço.

Com a esmola (na relação com os outros), a oração (na relação com Deus) e o jejum (na relação consigo próprio/a), restauramos a nossa forma psico-social de estar presentes, o que reverte a favor de uma ecologia integral, à maneira do que o Papa Francisco sugere, na sua Mensagem para a Quaresma de 2019. Numa sociedade que nos incentiva ao exibicionismo desumanizante e inútil, a Palavra de Deus é o caminho que nos leva a aventurarmo-nos pelas sendas do Espírito de Amor que nos garante a verdadeira felicidade.

[Oração] Salmo 91:

Tu, que habitas sob a proteção do Altíssimo, e moras à sombra do Omnipotente, diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela; meu Deus, em Vós confio». Nenhum mal te acontecerá, nem a desgraça se aproximará da tua morada. Porque o Senhor mandará aos seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra. Poderás andar sobre víboras e serpentes, calcar aos pés o leão e o dragão. «Porque confiou em Mim, hei de salvá-lo; hei de protegê-lo, pois conheceu o meu nome. Quando Me invocar, hei-de atendê-lo, estarei com ele na tribulação,

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Fazer de conta? Só para aprender a “jogar” a vida

[Leitura] L 1 Sir 27, 5-8 (gr. 4-7); Sal 91 (92), 2-3. 13-14. 15-16 L 2 1 Cor 15, 54-58 Ev Lc 6, 39-45

[Meditação] Neste VIII Domingo do Tempo Comum que antecede, neste Ano C do ciclo da Liturgia, o início da Quaresma, a parábola do Evangelho que Jesus conta aos discípulos pode ajudar a animar os dias de Carnaval que estamos a viver, no sentido de abrir um caminho novo de conversão e vida. Nela, Jesus utiliza a palavra grega “hipocrité”, quer quer dizer “ator” ou “máscara”, para afastar os seus discípulos de brincarem com coisas sérias, sobretudo na relação com os outros, que são chamados a não julgar. Para isso, utiliza, também, adágios frequentes na sua época: “um cego não pode guiar outro cego…”; “o discípulo  não é superior ao mestre, mas pode ser perfeito como ele…”; e “da árvore boa só podem vir bons frutos, da má virão maus frutos…”.

O jogo e a representação em teatro são componentes humanas e artísticas úteis ao desenvolvimento humano e não me parece que o Evangelho esteja contra elas, incluindo as nossas marchas carnavalescas. Nestas o ser humano esconde-se por detrás de “máscaras” para se repropor à redescoberta de si mesmo e dos outros. Porém, este jogo não se pode prolongar no tempo de forma indeterminada, com o risco de a pessoa se perder numa identidade que não seja aquele ser à imagem e semelhança de Deus, num percurso individual e comunitário que Deus designou à partida como história de amor.

Vai-se sabendo, entre a psicologia que se estuda e o mistério que se acolhe, que o desenvolvimento humano precisa do jogo e de uma educação que se desenvolva na expressão e no controlo, para que a pessoa consiga fazer a passagem da “bios” (vida…) ao “logos” (…com sentido), passando pela tensão do “pathos” (ação, paixão, decisão livre). O jogo sustenta os parâmetros onde, também, o mistério de concretiza. São eles: a alteridade e a contínua tensão entre o sujeito e um objeto; a temporalidade pela referência e avizinhamento entre jogo e cultura, servindo para ligar passado, presente e futuro; e os estádios, sendo a estrutura do jogo sempre precária e provisória, por um lado, e exprimindo um modo de afrontar a realidade que está em relação com o mistério, por outro.

Torna-se assim, o jogo da Sapiência! (cf. Pr 8, 27-31)

[Oração] Provérbios 8, 27-31:

Quando Ele formava os céus, ali estava eu;
quando colocava a abóbada por cima do abismo,
quando condensava as nuvens, nas alturas,
quando continha as fontes do abismo,
quando fixava ao mar os seus limites,
para que as águas não ultrapassassem a sua orla;
quando assentou os fundamentos da terra,
eu estava com Ele como arquitecto,
e era o seu encanto, todos os dias,
brincando continuamente em sua presença;
brincava sobre a superfície da Terra,
e as minhas delícias é estar junto dos seres humanos.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Os “p’s” da Páscoa

A Páscoa cristã é uma espécie de “ponte” lançada por Cristo para a vida nova do Reino eterno. O tabuleiro desta ponte assenta no primeiro pilar nos p’s da nossa realidade humana decaída pelo pecado e prolonga-se até ao pilar da outra margem que é o novo estilo de vida do caminho aberto por Jesus:

  • Do possuir à partilha: é este o caminho da pobreza fraterna. Use-se a esmola.
  • Do poder à pequenez: é este o caminho da obediência filial. Use-se a oração.
  • Do prazer à pureza: é este o caminho da castidade esponsal. Use-se o jejum.

O jejum, pela abstinência de exageros supérfluos (alimentares ou outros), é um instrumento que pode ajudar a praticar qualquer um destes valores quaresmais até à vida nova da Páscoa.

Do planalto da “filia” ao cume do “ágape”

[Leitura] L 1 1 Sam 26, 2. 7-9.12-13.22-23;Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 8 e 10. 12-13 L 2 1 Cor 15, 45-49 Ev Lc 6, 27-38

[Meditação] É curioso que na versão de Lucas o discurso das bem-aventuranças tenha sido proferido num planalto. Na versão de Mateus terá acontecido no cimo do monto, inserindo-se, por isso, no Sermão da Montanha. Imagino que Jesus, olhando para os seus discípulos e apontando-lhes o cume acima daquele planalto (segundo a geografia de Lucas) acrescentou o mandamento que proclamámos neste VII domingo do tempo comum: «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam». Esses possíveis inimigos também poderiam estar na «grande multidão» (cf. Lc 6,17.20-26) e, assim, estavam a ouvir o que Jesus disse aos seus discípulos bem-aventurados. No episódio de hoje, para além de serem considerados “amigos” (fílous) eram chamados a viver segundo a “ágape” − a nova forma de traduzir o amor cristão, levado até ao limite possível pelo exemplo de Cristo até à cruz.

A experiência mais maravilhosa que se pode fazer é a de sentir-se amado. Este amor pode experimentar-se de várias formas entre a erótica e a filantrópica. No entanto, no ágape (com que, erradamente, por vezes, se chama uma merenda partilhada) o que está acima de tudo não é a conquista da plenitude pessoal (os “óscares” a que se aspira), mas o sacrifício que se é capaz de fazer pelo bem dos outros, mesmo se entre estes estão inimigos ou pessoas incómodas. E sem esperar nada em troca, mesmo que seja um reconhecimento pessoal da bondade realizada.

Jesus expande a categoria do amor cristão até onde é possível, na tentativa de imitar Deus. A medida do amor cristão é amar sem medida porque é essa a medida do amor de Deus. Ou seja, a forma como vemos e sentimos os outros deve inspirar-se na misericórdia infinita de Deus para connosco. Poderíamos, enfim, seguir alguns passos para treinarmos esta forma de amar que nos identifica como filhos de Deus:

1º – Reconhecer as nossas limitações pessoais com muita humildade.
2º – Rezar pelos inimigos também é uma forma preliminar de os amarmos.
3º – Saudar ou cumprimentar os inimigos, mesmo quando eles não respondem ou não estendem a mão.
4º – Dar passos simples ou fazer gestos simples que demonstrem o querer bem ou o esforço pela instauração da paz fraternal.
5º – Se andamos sempre com Jesus, que deu a vida por todos, arriscamo-nos a dar a vida por quem não esperávamos, com a força do Seu amor, amando sem medida (fora da lógica humana do egoísmo).

Como David nos faz acreditar, no outro (mesmo num inimigo) pode estar um “ungido do Senhor”. A ausência dos sinais de “guerra” pode significar que queremos respeitar o pedaço de “céu” que está em cada um, apesar da carne que tende para o mal.

[Oração] Pelos inimigos:

Senhor, há certas pessoas pelas quais desejo orar porque sei que colocarás o Teu amor por elas no meu coração. Ajuda-me a orar especialmente pelas pessoas que me feriram [mencione os nomes dessas pessoas agora, uma a uma]. Eu te agradeço porque orar pelos outros muda não apenas a vida deles, mas a minha também.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O bem-estar nem sempre é uma bem-aventurança! A ponte da felicidade verdadeira e os seus dois pilares fundamentais

[Leitura] L 1 Jer 17, 5-8; Sal 1, 1-2. 3. 4 e 6 L 2 1 Cor 15, 12. 16-20 Ev Lc 6, 17. 20-26

[Meditação] A boa notícia de hoje é que Deus tem um fraquinho pelos fracos. O discurso das bem-aventuranças foi-nos apresentado pelos varios evangelistas de formas diferentes, porque o que importa não era um código (já temos o decálogo), mas um modo revolucionário demonstrado por Jesus de perceber a vida, a relação com o mundo, com as coisas, com os outros e connosco próprios. Quanto mais estivermos com Jesus e partilharmos da sua vida, mas nos assemelharemos a Ele na contradição à lógica humana, que vê nos ricos, nos saciados, nos consolados o objetivo pleno da felciidade.

As bem-aventuranças são uma síntese de Jesus, um sinal de contradição para a lógica humana de felicidade. Não é que não devamos perseguir a felicidade, mas não a devemos colocar meramente na confiança das consolações terrenas, mas, como nos diz Jeremias, na confiança em Deus. A bondade de Deus ultrapassa todo o equilíbrio religioso da terra, porque Ele está acima de todas as coisas. Mesmo quando ninguém está com os últimos da terra, seja da Igreja ou da sociedade, Deus estará sempre. Daí que a Doutrina Social da Igreja proclame, a partir da lógica do Evangelho, a dignidade da vida humana, o bem comum e a opção preferencial pelos pobres como princípios básicos.

A riqueza torna-se uma maldição, quando não se dá aos outros. Vê-se isso na corrupção que diariamente se noticia e, mesmo assim, difícil de se erradicar da prática humana. Quando colocamos toda a nossa confiança nos bens materiais e na saúde que eles nos podem proporcionar, corremos o risco de não acreditar, na prática, na Ressurreição de Jesus e na nossa própria ressurreição. Já ouvimos falar da criogenia e dos triliões de euros que estão a ser gastos para se poder reanimar (não ressuscitar) alguém nesta terra?

Poderíamos, assim, concluir que a verdadeira felicidade é aquela travessa de ponte que deve estar assente em dois pilares: a confiança total em Deus (1ª leitura) e a fé na Ressurreição (2ª leitura), fazendo da felicidade pessoal, também, um estar próximos dos que sofrem tribulações (Evangelho).

[Oração] E porque nem sempre o bem-estar significa bem-aventurança, lancemos a escada da oração ao Pai como Jesus nos ensinou:

Pai nosso que estais nos céus,

Santificado seja o Vosso nome.

Venha a nós o Vosso Reino.

Seja feita a Vossa vontade,

Assim na Terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.

Perdoai-nos as nossas ofensas,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

E não nos deixeis cair em tentação,

Mas livrai-nos do mal.

Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O discipulado missionário é 7X3

[Leitura] L 1 Is 6, 1-2a. 3-8; Sal 137 (138), 1-2a. 2bc-3. 4-5. 7c-8 L 2 1 Cor 15, 1-11 ou 1 Cor 15, 3-8. 11 Ev Lc 5, 1-11

[Meditação] Da reflexão do Pe. David Palatino (cf. Liturgia Diária, Paulus) para este V Domingo do Tempo Comum, sintetizamos os seguintes sete elementos para podermos aferir se somos verdadeiros discípulos, a partir da experiência vocacional de Isaías, Paulo e Pedro:

1º – Oferecer espaço a Jesus, para Ele falar, no meio das contradições da nossa história, onde as expetativas humanas não podem superar a vontade de Deus.

2º – Querer ser aprendiz diante d’Ele, na arte de viver, muito para além do que já sabemos fazer, numa visão limitada pela noite da dúvida.

3º – Aprender a trabalhar em equipa, na comunidade eclesial, onde somos chamados a estar “todos, tudo e sempre em missão.

4º – Ser humilde no reconhecimento das nossas debilidades, prostrando-nos diante de Jesus e pedindo perdão.

5º – Querer colaborar com Jesus no resgate do ser humano do possível “naufrágio” do pecado.

6º – Renunciar a tudo o que nos impede de ser livres diante de Jesus, colocando o coração no essencial.

7º – Seguir Jesus para onde quer que Ele vá, aceitando as consequências que isso traz, estando disponíveis para ser mártires, sobretudo nos contextos onde possa existir uma certa oposição à sua Igreja.

X

Também a experiência de Isaías, Paulo e Pedro, nos mostram que há três pontos de partida ou espaços diferentes e, ao mesmo tempo, ambos capazes de ser espaço onde quer o Espírito de Deus, quer cada um de nós se pode “primeiriar”, sem nos fixarmos num só, uma vez que o processo da fé os vai atravessando no decorrer dos nossos dias:

1º – Com Paulo, podemos iniciar e fazer a experiência do seguimento no caminho, onde ele como nós foi/somos salvos das nossos erros e distorções da realidade. Podemos chamar esta possíbilidade de “via profética”, experimentada na catequese e na pregação, em que nos ajudamos a caminhar para uma visão cada vez mais clara do rosto de Jesus Cristo.

2º – Com Isaías, podemos iniciar e fazer a experiência do discipulado através dos espaços sagrados, onde a ação de Cristo nos sacramentos nos toca os lábios e o coração para nos ganhar para a sua missão. Podemos chamar esta de “via litúrgica”.

3º – Com Pedro, somos apanhados “nas margens” do descanso após o trabalho ou , porventura, na angústia do desemprego, onde é urgente dar espaço à Palavra de Deus que não nos deixa naufragar, dando o testemunho, diante das multidões, de que se opta por aquilo que Cristo diz, antes que a todas as técnicas e confortos humanos.

Diante deste 7X3 do seguimento, jamais podemos fechar-nos em “limbos” catequéticos, litúrgicos ou solidários, sem termos presente o todo do caminho até ao Reino de Deus, sem nos deixarmos ancilosar por “ismos” que nos prendam a “detritos de religião” que pouco ou nada têm a ver com o dinâmica da fé cristã, mas somente projeção do espírito humana, por vezes fechado ao Espírito do Amor de Deus. Não foi por acaso que o Sínodo Diocesano de Viseu (2010-2015) propõe o alargamento da ação deste tríplice múnus no que toca à Família e à Juventude: é para que se perceba e haja de facto um “caminhar com” as reais famílias e os reais jovens, nas periferias da existência e não só dentro do círculo da Igreja, chamado a ser círculo virtuoso e não vicioso, porque tecido de relações interacionais saudáveis e eficientes no que toca à propagação do Evangelho da Vocação e da Vida.

[Oração] Ao Espírito Santo:

«Espírito de amor, “descei sobre mim “, para que na minha alma se faça como que uma encarnação do Verbo, que eu seja para Ele uma humanidade de acréscimo, na qual Ele renove todo o seu mistério»

— Isabel da Trindade (NJ 15)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Deus manifesta-Se no amor e não no temor

[Leitura] L 1 1 Jo 4, 11-18; Sal 71 (72), 2. 10-11. 12-13 Ev Mc 6, 45-52

[Meditação] É no Espírito de Amor, e não no temor, que se pode ver Deus em nós. Era esta a convicção de São João que nos ajuda a perceber melhor as “fronteiras” da relação com Deus, marcadas pela relação entre o amor e o temor. Este foi muitas vezes considerado com um Dom, mas mal enunciado e mal interpretado. Temer a Deus é desaconselhado, ao passo que o temor de Deus é aquele dom de sabermos que Ele “teme” que nos percamos ou nos mantenhamos fora do acolhimento ou vivência do seu amor. Já temer a Deus é desaconselhado, porque Ele não tem que ser temido, mas amado. É ista força que nos atrai e não aquela. Temer é sinal de debilidade; amar é sinal de confiança.

[Oração] Oração contra todos os medos:

Senhor,
quero viver sem medos.
Com uma santa indiferença,
que hoje ainda não tenho.
Quero crescer e ser mais teu, Jesus,
mas não sei bem
como me desprender dos meus medos.

Por isso, eu te entrego cada um deles hoje
(recordar seus principais medos).
Abraça-me, Jesus,
para que meu medo vá embora.
Acompanha-me, Senhor,
para que eu saiba ser corajoso.

Ajuda-me a ter coragem,
a ser um santo que abraça com amor
a cruz de cada dia.
Eu te peço, Jesus,
que me libertes das minhas correntes.
Torna-me mais teu.
Ensina-me a amar como Tu amas.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo