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«Em casa de ferreiro, espeto de pau». Jesus não realiza milagres em vão, implica-nos na nossa recetividade crente

Mc 6, 1-6

Este ditado popular diz-se quando as coisas não existem no lugar em que seria natural prever-se a sua existência. É o caso do reconhecimento da divindade de Jesus e do seu poder de curar e fazer milagres. Na sua terra, Jesus encontrou falta de fé, de modo que não podia realizar ali qualquer milagre.

Marcos conta-nos a ida de Jesus à sua terra natal por motivos de ordem teológica, mais do que de ordem cronológica. O evangelista quer apresentá-Lo como Filho de Deus que liberta o homem da sua contingência: do pecado, das doenças e da morte. Esta salvação, porém, só se dá no contexto da fé.

Apesar de Jesus estar sempre disponível para ensinar ─ obviamente esta era uma parte em que Ele ocupava grande parte do seu tempo e um pressuposto da sua atividade de cura ─ os seus conterrâneos não costumavam ser assíduos a este ensino, a ver pela falta de reconhecimento do Mestre e dúvida sobre a origem divina dos seus ensinamentos. Apesar do benefício da cura de alguns doentes, não conseguiram ver na presença de Jesus a mensagem da salvação e de libertação da qual era sinal.

Esta ida de Jesus à sua terra deve ter tido um impacto sociológico significativo. O escritor cristão Hegesipo conta que o imperador Domiciano fez ir a Roma alguns descendentes de Judas, parente de Jesus, para obter algumas informações sobre aqueles acontecimentos. Porém, após ter recebido as informações dos parentes, o imperador convenceu-se de que, politicamente, eles não podiam causar-lhe preocupação e deixou-os voltar para a Judeia. Observando bem, os parentes de Jesus estavam mais familiarizados pelo poder político, esperando um “super-homem” que pudesse fazer frente ao imperador, do que com a forma como Jesus Se apresenta.

O autor do segundo Evangelho está atento a sublinhar que a nova comunidade deveria ser exclusivamente convocada pelo Espírito no contexto da fé, sendo inútil procurar nela vínculos dinásticos como parece que acontecia na comunidade de Jerusalém, cujo chefe era Tiago, também parente do Senhor. Em algumas nossas comunidades, por vezes paira esta tendência de fazer corresponder a pertença à comunidade dos Católicos, algumas propriedades ligadas à língua, à etnia, a símbolos da religião, ao ter, etc. Para o filósofo Roberto Esposito, a “communitas” não se define por isso, mas antes por uma dádiva e uma dívida. a origem da palavra é vinculada especialmente ao termo
munus, que lhe dá o significado de uma obrigação de dar, um dever como
um encargo. Estamos em face de uma impropriedade e um nada do sujeito, que à comunidade deve desde sempre. Communitas é o conjunto de pessoas,
afirma o autor, ligadas por estarem em débito; não por um “mais” e sim por
um “menos” que as coloca em dívida.

Hoje aprendemos que, na pedagogia pastoral de Jesus, a fé precede os milagres que excedem as forças da natureza. Nada é mais caro do que aquilo que recebemos de graça. É pena que, por causa de não ser por mérito nosso, não o queiramos receber como gratuito. Basta a fé!

Diante de Jesus, cada pessoa deve decidir que Ele “encarne” na sua vida ou Se afaste da sua alienação. Ele liberta dando tudo e não tirando nada

Mc 5, 1-20

Muitas leituras se podem fazer dos relatos bíblicos, entre a leitura história-real e a leitura alegórica-espiritual. Ambas podem ser úteis para o caminho da fé.

Estamos diante de um relato popular, de estilo extravagante, do qual as primeiras comunidades cristãs se serviram para realçar o poder benéfico do “kérigma” de Jesus. Aquele “epilético” não podia ser controlado pelos seus concidadãos e, por isso, vivia no campo, “no meio dos túmulos”. Também por ser pagão, era considerado “impuro” pelos hebreus, era obrigado a vaguear e a procurar refúgio entre “os túmulos”. Para os hebreus, os “porcos” eram animais impuros por excelência. Constatamos o cúmulo da marginalização. Esta comunidade judaico-cristã, para a qual fala Marcos, estava ainda muito vinculada a costumes e caraterísticas dos hebreus, como ter horror aos túmulos e aos porcos. Por outro lado, a comunidade estava profundamente interessada em abrir de par em par as portas do “ghetto” e em fazer que todos participassem nos efeitos da palavra e dos seus efeitos benéficos.

Alegórica ou metaforicamente, este homem possesso que nos relata o Evangelho, andando “de dia e de noite, entre os túmulos e os montes, a gritar e a ferir-se com pedras” faz-nos lembrar os que não querem ser adultos, perdidos entre as vielas de uma fantasiosa “eterna juventude”, presa fácil para os poderes do consumo vicioso.

Jesus, ao curar aquele homem, devolve-o à sua casa e, pelo caminho, ele apregoa a maravilha da sua libertação, deixando todos admirados. Esta facto prova-nos que nem todos precisam de pertencer aos mesmos grupos, para fazerem parte do projeto do Reino. Aquele homem não é obrigado a fazer parte daquele grupo de “hebreus” para se converter e ser anunciador da Palavra. O Evangelho, por mais libertador que seja, não pode ser imposto a ninguém e Jesus continua a fazer maravilhas aonde e por quem Lhe aprouver. A prontidão em seguir e obedecer às palavras de Jesus também pode estar fora das estruturas que identificamos com a fé. E o contrário também pode ser, infelizmente verdade: muitas famílias católicas que não são cristãs, porque constituídas por adultos que já não recebem a transmissão da fé como os adultos de outra era (cf. esta conferência de Armando Matteo, no minuto 43).

Determinante é a atitude que cada pessoa adota diante de Jesus: ou um ser superior ou causa de ruína. De facto, a sua Palavra, por mais libertadora e benéfica que seja, obriga a alterar as rotinas da vida. Por isso, os perdedores materiais pediram-Lhe que se afastasse. O homem oprimido e alienado nem sempre quer ser libertado da sua alienação. Por isso, o Evangelho não pode ser imposto a ninguém, por mais libertador que seja e ainda que isso acarrete levar o homem a viver fragmentado, sem unidade de vida interior.

Este relato prova-nos que Jesus, quando liberta, fá-lo sempre pelo bem da pessoa e não por outro interesse. O seguimento ao seu chamamento já depende da decisão livre de cada um.

Hoje, rezo pelos anunciadores da Palavra de Deus, para que tenham a coragem de dar testemunho das palavras e gestos de Jesus, a propósito e a despropósito, mesmo que o seu testemunho não seja reconhecido.

Santidade e Felicidade contracorrente. No coração de Deus, todos partimos com de um plafond ilimitado de amor

Mt 5, 1-12aNo IV Domingo do Tempo Comum A

O discurso das Bem-aventuranças permanecerá para sempre um programa de vida no qual Jesus insere a sua atividade pastoral, identificando-se com os seus destinatários. Esta identificação é notória pela colocação dos sentidos e pela posição corporal, conforme nos confirma o versículo 1: Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-no os discípulos…

Chamamos este discurso programático no tocante à missão de Jesus porque não parte de cima, quer dizer, de um método dedutivo, mas de baixo, indutivamente, desde a observação da vida real das pessoas e como resposta de saída para a sua saúde física, psíquica e espiritual. Segundo Mateus, este mesmo discurso acontece após a escolha dos primeiros discípulos e o acorrer das multidões ao encontro do Mestre (cf. cap. 4). Jesus, colocando-Se ao nível das outras pessoas, observa-as e ajuda-as a tirar de si o remédio que as cura para a vida eterna.

Lembra-nos o Papa Francisco que com este discurso Jesus mostrou-nos a essência do que é ser santo, diante de muitos modelos difíceis ou inacessíveis de a santidade ser procurada ou conseguida. “À luz do mestre” a proposta de santidade depende mais da forma como vivemos as circunstâncias da nossa situação pessoal e comunitária, diante dos problemas do mundo. Enquanto que a realidade do mundo tende a fascinar-nos com outro estilo de vida, Jesus dá-nos o Seu Espírito, para “nos permear com toda a sua força e nos libertar da fraqueza do egoísmo, da preguiça, do orgulho”. Com as suas palavras, Jesus convida-nos a aproveitarmos a situação que vivemos, neste tempo, para deixarmos acontecer uma mudança real.

Segundo o Papa Francisco, à luz da Carta Apostólica “Alegrai-vos e exultai”, a santidade ou felicidade cristã, à luz das Bem-aventuranças, podem traduzir-se assim ─ Santidade é:
1) Ser pobre no coração
2) Reagir com humilde mansidão
3) Saber chorar com os outros
4) Buscar a justiça com fome e sede
5) Olhar e agir com misericórdia
6) Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor
7) Semear a paz ao nosso redor
8) Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas

E a grande regra de comportamento da santidade que agrada a Deus é praticar as obras de misericórdia contidas no Capítulo 25 de São Mateus.

Portanto, não há aqui só uma proposta de felicidade contracorrente, mas também uma proposta de santidade contracorrente, na atitude de Jesus diante dos males que atribulam a vida das pessoas. Por excesso ou por defeito, pode haver propostas de santidade e felicidade que obstaculizam um caminho realista para Deus e a vida do Reino que Ele nos propõe. Está a fazer 80 anos o famoso livro de Saint-Exupéry, O Pricipezinho, que pela sua simplicidade e beleza deixou perfume em milhares de leitores ao longo de todos os tempos, cativando pela convergência de palavras, símbolos e figuras em relação à vida das pessoas. E não deveria ser assim e muito mais, também, a nossa relação com a Palavra que é Cristo: a de uma santidade e felicidade “façonnable“, quer dizer, “moldável” ou acomodada à situação de cada pessoa, de forma a que cada pessoa possa fazer o seu caminho de forma realista para Deus e para os irmãos? Foi esse o método que o Senhor Jesus utilizou ao encarnar. Como não haveria de ser o nosso como discípulos-missionários?

Uma certeza em que somos chamados a estar unidos: no coração de Deus, todos partimos de um plafond infinito de amor. Em cada pessoa, Ele quer ver uma felicidade original e não a fotocópia própria de quem se deixa levar por modas de felicidade genéricas, manipuladas pelo consumismo.

Uma Igreja ultratecnicizada pode afastar do ideal do Espírito de Cristo. Antes que dividir para reinar é preciso envolver-se para ser salvo

Heb 9, 15. 24-28; Mc 3, 22-30

Temo que a tentativa de despenalização da morte assistida seja uma ação para legalizar mortes cujas causas já vão acontecendo “fora da lei”, a começar pela Lei divina do amor que valoriza e dá a Vida. Os acontecimentos relatados nesta notícia mostram-nos como “medicamentos” não legalmente comercializáveis chegaram às mãos de pessoas em Portugal nos últimos para o suicídio (20 casos autopsiados em 13 anos, 3 casos em 2022). Não admira que parte da política do nosso país não goste do testemunho da Igreja contra a eutanásia.

Os escribas com quem Jesus Se confrontou parecem-me como aqueles querem uma lei para manter pessoas sob o seu jugo pesado, para descartar quem é desprezível ou para defender uma falsa liberdade que conduz ao “coma” social que gera o consumismo vicioso (com muitos tipos de oferta-procura). Por isso, tinham medo do Espírito de Jesus! Acusavam-n’O diante de todas as pessoas para que estas o desprezassem. No fundo, queriam que essas pessoas não tivessem a plenitude do Espírito Santo nas suas almas, para que eles mesmos as pudessem manipular com as leis mundanas, ainda que revestidas de “cosmética” religiosa. Jesus denunciou a sua astúcia, avisando-os de que quem é réu de pecado eterno é quem anula a possibilidade de deixar entrar o Espírito de Deus.

Estes escribas fazem parte daquele “personagem extra, antagonista” de que falam os documentos do caminho sinodal da Igreja:

«que traz à cena a separação diabólica dos outros três [Jesus, a multidão e os apóstolos]. Diante da perspetiva inquietadora da cruz, há discípulos que vão embora e multidões que mudam de humor. A ameaça que divide e, por conseguinte, impede um caminho comum, manifesta-se indiferentemente sob as formas do rigor religioso, da injunção moral, que se revela mais exigente que a de Jesus, e da sedução de uma sabedoria política mundana, que se julga mais eficaz que um discernimento dos espíritos. Para evitar os enganos do “quarto ator”, é necessária uma conversão contínua.»

Documento preparatório do Sínodo, n. 21

Nas comunidades da Igreja, hoje, pode passar-se aquilo que se passava no tempo de Jesus: dividir ou confundir para reinar. Quando a proposta do Reino de Deus que Jesus traz consigo é de unidade e de paz para todos os povos. Foi para isso que o Pai lhe deu a plenitude do Espírito Santo: para, no mesmo Espírito, vivermos a diversidade de dons e carismas. Portanto, a Igreja não é chamada a ser homogénea, mas comunhão no serviço.

O Cardeal Newmann costumava comparar a barca da Igreja à de uma navio grande que no fundo tinha as máquinas e no cimo as velas, aconselhando: se queres fazer uma experiência feliz de vida eclesial, não desças às máquinas, porque lá cheira muito mal. Fica ao ar livre, onde o vento sopra e impele a nave. A Igreja não é uma máquina ou mera organização humana: é fruto da vida e experiência pascal de Cristo Morto e Ressuscitado e impelida pelo Espírito do Pentecostes. Quem tem medo deste Espírito que impele vive numa ilha, não se apercebendo do grande oceano de amor que somos chamados a navegar até à “terra prometida” do Céu.

Hoje peço para que não sejam perseguidos todos quantos fazem o Evangelho aparecer na sua nudez, nenhum poder adverso dispare contra eles e contra a igreja que eles servem.

Tudo o que fazemos seja para que Se manifeste Jesus, que nos banha com o Espírito Santo e nos chama a viver o amor em CSS

Is 49, 3. 5-6; 1Cor 1, 1-3; Jo 1, 29-34 ─ no II Domingo do Tempo Comum (A); reflexão inspirada em Jose Antonio Pagola e em Comentário à liturgia do 2.º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Faço aqui um parêntesis informático performativo para informáticos:)
Uma das coisas mais interessantes que aprendi ao fabricar páginas na Internet ─ antigamente a partir da linguagem html/php e hoje a partir de plataformas open source/sistemas de gestão de conteúdos (CMS) que nos facilitam muito a vida na arte de comunicar pastoral on-line ─ foi a possibilidade de lidar com “folhas de estilo em cascata” (CSS ou Cascade Style Sheets). A sua função, ainda hoje muito importante, é a de criarmos uma folha fácil de carregar onde possam estar escritas todas as programações de estilo que poderão ser chamadas em qualquer página do sistema, quando o programador bem entender. Esta forma de comunicar permite não tornar pesado um sítio da Internet e de ter as coordenadas de estilo sempre à mão. Diante deste episódio do Batismo de Jesus, penso na partilha do Espírito Santo, do Pai para o Filho Unigénito e para nós, como uma “fonte de amor em cascata”: desde então, há uma forma de ser que pode ser acoplada ao mesmo Espírito segundo o Qual Jesus fala e atua. Podemos ver numa única folha de estilos para o governo da estética de um website como o único Espírito com que Deus Pai governa o mundo a partir de Jesus Cristo. Podemos ver isso de forma nítida em 1Cor 12,4-7: Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum.

No Evangelho de hoje recebemos o testemunho de João acerca do Batismo de Jesus no Rio Jordão, no início da Sua vida pública (descrito em Lc 3,21-22, em Mc 1,9-11 e em Mt 3,13-17 de maneira mais pormenorizada).

Logo após as celebrações do Natal, temos neste II Domingo do Tempo Comum a oportunidade para colher a identidade e missão de Jesus que é apresentado como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. É este o propósito da Encarnação de Jesus: a Paixão, Morte e Ressurreição para nossa salvação. É este o Mistério de Cristo que João Batista anuncia em duas etapas: anuncia a vida, chamando a “preparar o caminho do Senhor” e anuncia o seu percurso até à Páscoa.

Deste que constitui o primeiro dos mistérios luminosos, extraio as seguintes lições:

1 O amor incondicional de Deus manifestado no início da vida pública de Jesus é garantia do amor condicional que é destinado a todo o ser humano. Jesus coloca-se na fila dos pecadores que vão receber o batismo de água de João Batista, mesmo não sendo pecador. Na versão de Mateus Jesus responde ao Batista que “É conveniente que assim cumpramos toda a justiça”, interpretando-se como a “justiça superior” da compaixão ou misericórdia. Portanto, no início da vida pública de Jesus, a voz de Deus informa que o que quer realizar através do seu Filho Unigénito é um plano de amor para toda a humanidade. O amor incondicional de Deus é fonte de autoestima.

2 Neste Evangelho está bem patente a diferença do batismo de água que João administra e o batismo no Espírito que só Jesus é que pode realizar. Na Igreja, estes elementos aparecem unificados numa realidade só: no upgrade, ou seja, na atualização que Jesus fez, ao deixar-Se batizar. Jesus submerge os seus no Espírito Santo. Ele possui a plenitude do Espírito de Deus, podendo comunicar aos seus essa mesma plenitude. A grande novidade do batismo cristão é que Jesus Cristo pode “batizar no Espírito Santo”. Não se trata de um banho externo, mas um banho interior, no qual Jesus nos “empapa” do Espírito Santo para nos transformar o coração. A “pomba” é sinal da unção sobre Jesus, Aquele que vem restaurar os destinos de Israel. Ele traz a força, mas não é como esperavam: não vem impor nada pelo domínio ou manipulação dos outros, mas propor uma nova maneira de viver e de relacionar-se com Deus que parte do amor e da fraternidade universal. O amor incondicional é fonte de vida nova.

3 Ser batizados não é um mero requisito tradicional. Não podemos correr o risco de ficar pelo batismo de água ou de penitência, que o é, mas somos chamados a deixar que Jesus nos implique viver um novo nível de existência cristã, etapa após etapa, através de um estilo em que vivamos mais fiéis a Cristo Jesus. O Espírito de Jesus é o Espírito da Verdade, que nos permite não nos deixarmos enganar por falsas seguranças, dentro da nossa identidade irrenunciável de seguidores de Jesus. Para isso, é preciso abandonar caminhos que nos desviam do Evangelho, de interesses egoístas e do bem-estar que nos faz ser cobardes. O amor incondicional é fonte de liberdade.

4 É o Espírito Santo que transmitido por Jesus que nos permite fazer da fé um processo contínuo de conversão e não um caminho terminado. É o Espírito da conversão, que nos permite deixarmo-nos transformar lentamente por Ele, que nos ensina a vivermos segundo critérios e atitudes que manifestam o coração de Deus na nossa forma de nos relacionarmos com os outros. Os céus que se fecharam pela atitude os nossos primeiros pais, são agora abertos por Jesus, na nova relação que estabelece com o Pai. Deixemo-nos atrair pela novidade criadora deste relação, que pode despertar o que há de melhor no coração de cada um de nós e do interior da Igreja para fora. Pelo Espírito Santo, Jesus vem fazer uma proposta totalmente nova, original, mostrando-nos que valemos por aquilo que nós somos e não por aquilo que podemos dar. É o que se mostrará nos capítulos seguintes no Evangelho segundo João. Jesus é capaz de fazer os sinais manifestados porque Ele é o Messias esperado e enviado do Pai. O amor incondicional é fonte de renovação.

A compaixão é o ajoelhar do coração diante da necessidade fundamental do outro

Heb 3, 7-14; Mc 1, 40-45

É surpreendente o início da vida pública de Jesus, segundo o que nos relata o evangelista Marcos. A sua compaixão que não pede licença a preconceitos para agir imediatamente em favor daquele leproso, a quem, por causa da lepra, tinham tirado cidadania. Surpreende, também, humildade crente de pessoas carentes de um amor incondicional ─ como é o caso daquele leproso ─ necessitado de ser reconhecido tal como é e amado simplesmente por existir. Faz-nos lembrar todos aqueles que, hoje, vivem à margem dos sistemas políticos e religiosos, fechados num limbo por uma barreira de uma ética mal resolvida.

Menos surpreendente é a atitude dos que delimitam uma zona convivencial com um sistema político-religioso, através de uma moral que demora a perceber que a dignidade de uma pessoa é o imperativo categórico pelo qual não há preço a pagar, porque não vale dinheiro, mas unicamente a aceitação da pessoa, distinta do mal que é preciso curar nela, gaste-se o que se gastar. Esta atitude gerava em Jesus um sentimento oposto ao da compaixão: a ira. E se a compaixão O levava a curar sem demora, a ira levava-O a Ele para o deserto, para recomeçar de novo, num projeto divino que, para ter progresso messiânico, teria de implicar ruturas e continuidades em relação ao passado.

No tempo de Jesus, tal como no nosso, existia o perigo de uma sobre-excitação messiânica mal resolvida que derivava num movimento messiânico prematuro. Jesus fugia disto e advertia aos que curava de não o divulgassem, por causa do triunfalismo que isso poderia causar. O ex-leproso quebrou o “segredo messiânico”, aquele que permite “passar por meio dos pingos da chuva” tóxica que corrói a permeabilidade à graça de Deus. Esta é a única que responde e é capaz de colmatar as necessidades mais profundas do ser humano: a nível físico, psicológico e espiritual.

Verdade verdadinha: onde há sistemas (sejam eles de que tipo for) que não permitem a satisfação ou cura no que toca a necessidades básicas das pessoas ─ a nível físico, psicológico e espiritual ─ há ideologias que fogem ao espírito da interdiplinariedade (a nível da Igreja diremos de sinodalidade), com medo de perder a autossuficiência e autorreferencialidade. E está patente o abuso de poder. E quem cai nele habitualmente não deixa que o poder curador da compaixão de Jesus entre nele, para deixar cair prerrogativas humanas que resistem à vontade divina de salvar.

Como nos aconselha o autor da Carta aos Hebreus: é preciso aproveitar a oportunidade única do “hoje” para permanecermos firmes na fé em Jesus e na sua compaixão, acreditando que só Ele tem o poder de nos curar integralmente.

O rosto de Jesus é revelado por palavras e gestos que desenham trajetos intercetados por toda a humanidade sofredora

Mc 1, 29-39

Neste pequeno trecho narrado pelo evangelista Marcos, vemos pelo menos seis trajetórias provocadas pela presença significativa de Jesus, com os seus discípulos e ao encontro das multidões: (1) da sinagoga para a casa de Simão e André (Jesus, Tiago e João); (2) da cama para a cozinha (a sogra de Pedro); (3) da refeição e convívio íntimo para a porta da casa (à noite, em que procuravam Jesus muitos doentes); (4) daquele vale para um sítio ermo (Jesus, de manhã muito cedo para orar); (5) a subida dos discípulos ao monte onde Jesus Se encontrava a orar (levando-Lhe a notícia de que todos O procuravam); (6) daquele sítio ermo de Cafarnaum para muitos lugares das povoações vizinhas da Galileia (para cumprir o mandato de pregar e curar).

Os gestos que matizam a pregação de Jesus e as suas consequências são diversos: a visita a Simão e seu irmão André, na sua casa; a aproximação de Jesus à sogra de Pedro, tomando-lhe a mão e levantando-a; o serviço daquela idosa já curada; a reunião dos doentes à beira da porta e a cura operada por Jesus; o silenciamento dos demónios; Jesus levanta-se e sai para orar; os discípulos procuram-n’O para O informar de que muitos o procuram; o alargamento do mapa da missão de pregar e curar.

Desta narração, no seguimento da cura do possesso na sinagoga, aprendemos pelo menos três lições:

1ª ─ Que o Senhor é poderoso para curar seja qual for a doença e transformar seja qual for a situação. Não importava a natureza de suas doenças; Jesus curou a todas aquelas pessoas.

2ª ─ Os seguidores de Jesus também ficam doentes e os seus familiares são chamados a acompanhá-los. Notemos que enquanto Tiago e João tinham estado na sinagoga com Jesus, Pedro e André ficaram em casa a cuidar daquela familiar idosa.

3ª ─ Jesus é Aquele em quem se cumprem as Escrituras, Ele que verdadeiramente «tomou sobre si nossas enfermidades e carregou as nossas doenças» (Mateus 8,17; cf. Isaías 53,4). Mesmo que os discípulos de Cristo não vejam curadas todas as suas enfermidades, somos confortados em saber podemos assomá-las à Paixão de Cristo (cf. Col 1,24) e que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (cf. Rm 8,28), descansando seguros de que nada pode ser capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (cf. Rm 8,35-39).

O Papa Francisco recebeu em audiência, no Vaticano, os signatários do “Rome Call for A.I. Ethics”, um documento sobre o desenvolvimento ético da inteligência artificial, assinado por representantes das três religiões abraâmicas. O Santo Padre comunicou-lhes que “A fraternidade entre todos é a condição para que o desenvolvimento tecnológico esteja a serviço da justiça e da paz em todo o mundo. (…) De fato, cada pessoa deve poder desfrutar de um desenvolvimento humano e solidário, sem que ninguém seja excluído. Trata-se de vigiar e trabalhar para que não se enraíze o uso discriminatório desses instrumentos em detrimento dos mais frágeis e excluídos. Lembremo-nos sempre de que a forma como tratamos os últimos e menos considerados entre os nossos irmãos e irmãs mostra o valor que damos ao ser humano. É possível dar um exemplo dos pedidos dos requerentes de asilo: é inaceitável que a decisão sobre a vida e o destino de um ser humano seja confiada a um algoritmo.”

A visão de Jesus “vamos a outros lugares” alarga-se hoje ao âmbito de uma “antropologia digital”, que devem ser cruzadas com três coordenadas fundamentais: ética, educação e direito. O Papa encorajou-os “a prosseguir com audácia e discernimento, na busca de caminhos que conduzam a um envolvimento cada vez maior de todos aqueles que têm no coração o bem da família humana”.

Dom Vicenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, sublinha que “a primazia do ser humano deve prevalecer sobre a inteligência artificial”. Para nós, é importante atermo-nos à aprendizagem da pregação algorítmica, quer dizer, uma pregação ética que, diante das descobertas tecnológicas, não deixe de levar a Jesus os problemas sofridos pela humanidade e não cesse de amplificar ações de cura que implicam o respeito para com a visão integral do ser humano.

Realizado por Zen Palagniuk (String Art)

Acompanhamento no discernimento da vocação: o trespasse do testemunho para o encontro com Aquele que anima, forma e envia

1 Jo 3,7-10; Jo 1,35-42

Hoje, João Batista assume o papel de animador vocacional. Depois de várias temporadas de pastoral vocacional na minha diocese, em que cumprimos o propósito de lançar sementes, entre a escuta e o discernimento, na sequência das visitas pastorais do bispo diocesano, esperaria que ficassem nas paróquias e arciprestados pessoas como este grande precursor que, simplesmente (e já não é pouco!) aponta Jesus que passa, incentivando a segui-l’O. Sucessos não são fáceis de constatar, se é que o objetivo da missão cristã é o sucesso aparente!!

Os formadores dos seminários sabem que os jovens que passam pela experiência da formação na comunidade não têm ali morada permanente. Passam os dias e ocupam-se com os métodos formativos num modo semelhante ao de João Batista: o de apontar o dedo para o Bom Pastor a Quem são convidados a seguir e a configurar as suas pessoas. À medida que os anos da formação passam, tem de acontecer este trespasse do testemunho para o verdadeiro encontro, que vai desde uma inicial resposta à pergunta de Jesus «Que procurais?», com a qual se crivam as motivações verdadeiras para a idoneidade vocacional, até ao morar com Ele e como Ele a caminho, por uma síntese vocacional afora e nunca terminada, por entre cidades e aldeias, num acesso gradual à experiência pastoral, cada vez mais animada pela amizade com Cristo e a partir da demora com Ele (no italiano “habitar” é dimorare = “demorar-se”).

Por vezes, analisa-se o convite de Jesus «Vinde ver» meramente como sendo o “apeadeiro” que é o Seminário, como se este fosse o único e o último destino do testemunho de quem diz «Encontrámos o Messias». Sim, é verdade que Jesus muda de tal maneira a vida de alguns que lhes muda o nome, certificando uma expropriação em favor da sua missão. Porém, a comunidade do Seminário ─ como se fosse só “um dia” (que terá as suas réplicas ao longo da formação permanente) ─ dá lugar a um outro trespasse, o fundamental, para que a lógica da vocação cristã funcione: sentir a tensão que existe entre o demorar-se com Jesus e o testemunho aos outros, que tem de ser cada vez qualificado, de modo que outras pessoas possam sentir-se motivados pelo conhecimento que lhes é dado acerca da convivência com Cristo. Sim, tanto mais faz sentido a experiência de uma demora com Cristo numa casa de formação, quanto, na medida do possível e organizável, pudermos fazer a gradual experiência de O anunciar aos que vivem fora.

No meio do testemunho, a palavra ocupa um lugar fundamental, ainda que não o único, uma vez que a coerência das atitudes a certifica ou contradiz. É comummente aceite pela comunidade científica que a palavra falada tem um poder criador. E porque é que o seu uso é de grande importância? Segundo descobertas recentes no campo da neurologia, o centro nervoso da fala no cérebro controla todos os outros nervos do corpo. O que dissermos e a forma como dissermos, irá ajudar ou prejudicar a forma como os outros lidam com o objeto da nossa comunicação. A língua é o menor membro do nosso corpo, mas pode dominar o corpo todo. É curioso que já a antropologia bíblica dizia isto, sem o acesso aos instrumentos de investigação que temos hoje!

João apresentou o «Cordeiro de Deus» a dois, ou seja, apontou par a mansidão de Deus presente em Jesus que é capaz de se compadecer e, inclusivamente, de «tirar os pecados do mundo» (algo inédito e escandaloso naquele tempo…). Como não podia aliciar aqueles dois a irem ter com ele imediatamente? E aqueles dois foram diretos à melhor possibilidade a respeito de Jesus, não só um encontro esporádico, mas “demorar-se” com Ele, naquele dia. E logo aquele encontro se multiplicou, com o testemunho de André a seu irmão Simão que veio a chamar-se Pedro.

A força criadora da palavra, no testemunho, pode ser colocada ao serviço dos propósitos de Deus, por aqueles que se habituaram a privar com Ele: prova disso é a eloquência com que fala João na primeira leitura acerca da semente divina que está naqueles que, não pecando, praticam a justiça do amor aos irmãos. Através do testemunho que damos na relação com os outros (dentro e fora da comunidade formativa), falamos-lhes da relação que temos (ou não) com Deus. Portanto, a história de uma vocação não precisa de muitas palavras, sendo que as que são ditas são essenciais, quer para descrever o encontro de cada um com Cristo, quer para atrair outros a um pessoal encontro com Ele, mediado pelo entusiasmo que é o Espírito de Deus que habita em nós.

   O Verbo de Deus nasceu segundo a carne uma vez por todas. Mas pela sua bondade e condescendência para com os homens, deseja nascer sempre segundo o espírito para aqueles que O procuram, e faz-Se menino que se vai formando neles à medida que crescem as suas virtudes. Ele manifestou-Se em proporção com a capacidade de cada um, capacidade que Ele conhece perfeitamente. E se não Se comunica com toda a sua dignidade e grandeza, não é porque não o deseje, mas porque conhece as limitações das faculdades recetivas de cada um. Assim, o Verbo de Deus revela-Se sempre a nós do modo que nos convém, e contudo ninguém pode conhecê-lo perfeitamente, por causa da grandeza do mistério.    Por isso, o Apóstolo de Deus, considerando a força do mistério, exclama sabiamente: Jesus Cristo ontem e hoje e para sempre, entendendo que se trata de um mistério sempre novo, que nunca envelhece para a compreensão da inteligência humana. (…) A Encarnação divina é um grande mistério e nunca deixará de ser mistério. Como pode o Verbo, que está em pessoa e essencialmente na carne, existir ao mesmo tempo em pessoa e essencialmente no Pai? Como pode o Verbo, totalmente Deus por natureza, fazer-Se totalmente homem por natureza, sem detrimento algum da natureza divina, segundo a qual é Deus, nem da nossa, segundo a qual Se fez homem? Só a fé pode apreender estes mistérios, a fé que é precisamente a substância e o fundamento das realidades que ultrapassam toda a perceção e raciocínio da mente humana.

São Máximo Confessor, abade, Dos “Capítulos”, distribuídos em cinco centúrias

Recomeçar, com os pés bem assentes na terra firme que é Jesus e o coração aberto à esperança com os irmãos

Num 6, 22-27; Gal 4, 4-7; Lc 2, 16-21na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

… A maior lição que Covid-19 nos deixa em herança é a consciência de que todos precisamos uns dos outros, que o nosso maior tesouro, ainda que o mais frágil, é a fraternidade humana, fundada na filiação divina comum, e que ninguém pode salvar-se sozinho. Por conseguinte, é urgente buscar e promover, juntos, os valores universais que traçam o caminho desta fraternidade humana. Aprendemos também que a confiança posta no progresso, na tecnologia e nos efeitos da globalização não só foi excessiva, mas transformou-se numa intoxicação individualista e idólatra, minando a desejada garantia de justiça, concórdia e paz. Com muita frequência, neste nosso mundo que corre a grande velocidade, os problemas generalizados de desequilíbrios, injustiças, pobreza e marginalizações alimentam mal-estares e conflitos, e geram violências e mesmo guerras.

PAPA FRANCISCO, Mensagem para o 56º Dia Mundial da Paz, n. 3b

Neste Dia Mundial da Paz, o Papa Francisco ajuda-nos a perceber o que aprendemos ou poderíamos ter aprendido com a lição da pandemia, ao mesmo tempo em que nos abre os olhos à realidade da guerra, descrita como “uma nova e terrível desgraça (…) comparável em parte à Covid-19 mas pilotado por opções humanas culpáveis”, ceifando “vítimas inocentes e espalha a incerteza, não só para quantos são diretamente afetados por ela, mas de forma generalizada e indiscriminada para todos, mesmo para aqueles que, a milhares de quilómetros de distância, sofrem os seus efeitos colaterais” (n. 4a), provocada por um vírus (o da guerra) que “é mais difícil de derrotar do que aqueles que atingem o organismo humano, porque o primeiro não provem de fora, mas do íntimo do coração humano, corrompido pelo pecado” (n. 4b).

Enfim, o que se nos pede para fazer? Antes de mais nada, deixarmos mudar o coração pela emergência que estivemos a viver, ou seja, permitir que, através deste momento histórico, Deus transforme os nossos critérios habituais de interpretação do mundo e da realidade. Não podemos continuar a pensar apenas em salvaguardar o espaço dos nossos interesses pessoais ou nacionais, mas devemos repensar-nos à luz do bem comum, com um sentido comunitário, como um «nós» aberto à fraternidade universal. Não podemos ter em vista apenas a proteção de nós próprios, mas é hora de nos comprometermos todos em prol da cura da nossa sociedade e do nosso planeta, criando as bases para um mundo mais justo e pacífico, seriamente empenhado na busca dum bem que seja verdadeiramente comum.

PAPA FRANCISCO, Mensagem para o 56º Dia Mundial da Paz, n. 5a

O Santo Padre chama-nos a estar conscientes de que “as variadas crises morais, sociais, políticas e económicas que estamos a viver encontram-se todas interligadas, e os problemas que consideramos como singulares, na realidade um é causa ou consequência do outro. E assim somos chamados a enfrentar, com responsabilidade e compaixão, os desafios do nosso mundo” (n. 5b). Por isso, é preciso termos um olhar o mais unânime possível da realidade, vista numa perspetiva orante à luz da Palavra de Deus, que nos oferece os critérios melhores para discernir e atuar em prol de uma vida terrena que nos faça alcançar a vida eterna.

Queremos uma lista de ações práticas? É o Papa Francisco que no-las sugere:

  • garantia da saúde pública para todos;
  • promover ações de paz para acabar com os conflitos e as guerras que continuam a gerar vítimas e pobreza;
  • cuidar de forma concertada da nossa casa comum e implementar medidas claras e eficazes para fazer face às alterações climáticas;
  • combater o vírus das desigualdades e garantir o alimento e um trabalho digno para todos, apoiando quantos não têm sequer um salário mínimo e passam por grandes dificuldades.

Pois, “fere-nos o escândalo dos povos famintos. Precisamos de desenvolver, com políticas adequadas, o acolhimento e a integração, especialmente em favor dos migrantes e daqueles que vivem como descartados nas nossas sociedades. Somente despendendo-nos nestas situações, com um desejo altruísta inspirado no amor infinito e misericordioso de Deus, é que poderemos construir um mundo novo e contribuir para edificar o Reino de Deus, que é reino de amor, justiça e paz” (n. 5b).

Sob a interceção e proteção de Maria Imaculada, Mãe de Jesus e Rainha da Paz, somos, neste novo ano, chamados a “caminhar juntos, valorizando o que a história nos pode ensinar” (n. 5c).

Diante das pessoas e situações, sejam elas quais forem, para não respondermos ao mal com o mal, mas unicamente com o bem que Deus nos dá, somos chamados invocar a bênção de Deus proclamada no Livro dos Números (6, 22-27):

O Senhor te abençoe e te proteja.

O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável.

O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz.

É assim que, como sugere Paulo aos Gálatas, podemos cooperar no resgate dos que estavam sujeitos à Lei para que se tornem filhos adotivos, de forma a recebermos o Espírito de seu Filho que clama “Abá! Pai!”, passando de escravos a herdeiros pela graça de Deus.

O ícone da paz que o Evangelho nos apresenta é o encontro dos pastores com o Menino que está na manjedoura, envolvido pelo amor de Maria e José. Os pastores, que ali aparecem a contar as maravilhas que lhes tinham sido anunciadas acerca d’Aquele Menino, são modelo daquele empreendedorismo pela fraternidade universal e a paz que somos chamados a realizar juntos.

Maria “guardava todos estes acontecimentos no seu coração” porque para Ela (e para toda a mentalidade bíblica) Realidade e Palavra não estão separados, porque esta é criadora e aquela reveladora do Mistério que é preciso guardar e buscar continuamente, com entusiasmo e paciência (a “ciência da paz”).

Por isso, depois desta celebração, regressemos às nossas realidades como os pastores e como Maria e José:
1) Glorificando a Deus por tudo o que vemos e ouvimos acerca de Jesus;
2) Levando o nome de Jesus, sobre o qual se pode unicamente construir uma paz verdadeira e duradoira, a todos os que encontrarmos.

Luz do Natal do Senhor: ótica divina já presente na fibra humana universal, contemplando-Lhe o Ser e imitando-Lhe o fazer

Is 52, 7-10; Hebr 1, 1-6; Jo 1, 1-18No Natal do Senhor

Passados inumeráveis séculos desde a criação do mundo, quando no princípio Deus criou o céu e a terra e formou o homem à sua imagem; depois de muitos séculos, desde que o Altíssimo pôs o seu arco nas nuvens como sinal de aliança e de paz; vinte e um séculos depois da emigração de Abraão, nosso pai na fé, de Ur dos Caldeus; treze séculos depois de Israel ter saído do Egipto, guiado por Moisés; cerca de mil anos depois que David foi ungido rei; na semana sexagésima quinta, segundo a profecia de Daniel; na Olimpíada cento e noventa e quatro; no ano setecentos e cinquenta e dois da fundação de Roma; no ano quarenta e dois do império de César Octávio Augusto; estando todo o orbe em paz, Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do eterno Pai, querendo consagrar o mundo com a sua piedosíssima vinda, concebido pelo Espírito Santo, nove meses depois da sua conceição, nasceu em Belém de Judá, da Virgem Maria, feito homem: Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne.

Do Martirológio Romano

Apesar de se recitar ou cantar este pregão no Dia de Natal, proclamando a Boa Nova do Nascimento do nosso Salvador, as notícias de hoje informam que “O Cristianismo é, neste momento, a religião mais perseguida no mundo inteiro“. O franciscano frei Ventura “defende Deus de todas as acusações e assume que se o mundo está como está é sobretudo porque ‘os homens estão loucos'”, denunciando “os hipócritas, sobretudo ‘os facínoras que em nome de Deus vêm atiçar pessoas umas contra as outras'”. É como este missionário capuchinho, missionário de pé descalço, amigo dos pobres e dos que sofrem que, hoje, somos chamados a aproximarmo-nos do Menino Jesus: com a mente e o coração “descalçados”, quer dizer desprevenidos e a trabalhar juntos para acolher as surpresas do Emanuel-Deus-connosco, graça suficiente para que reine a Paz na humanidade. Será graça eficaz se cada um de nós quiser!

O entrevistado refere:

É um ponto de chegada e de continuidade de um endeusamento do “eu” e de uma tribalização do “nós”. Estamos a pagar esta fatura de “eus” exacerbados e autoendeusados que procuram, apesar de tudo, a segurança da tribo e uma gestão tribal da vida, do desporto, da política, da culinária, das relações interpessoais. A tribo que funciona ao mesmo tempo como lugar de proteção e também como lugar de despersonalização. Nesta luta do “eu” à procura do seu próprio sentido, estamos a pagar a fatura. Esta fatura a que chamo “solteironização” dos afetos. O tempo que vivemos é solteiro de afetos, viúvo de emoções e divorciado de compromissos, é um ponto de chegada, de continuidade, e será o ponto de partida para outro estilo de ser e de estar que ainda está por inventar. Estamos a começar a perceber por onde podemos eventualmente caminhar.

Frei Fernando Ventura, in JN

Como que em resposta a esta provocação, podemos aceitar a proposta do Papa Francisco quem durante uma das orações do Ângelus, nos propõe “o único caminho é o da humildade”, exortando que a Igreja a purificar-se “do sentimento de superioridade, do formalismo e da hipocrisia”. No fundo e na prática, mais de Deus e menos de nós, sendo que o nosso mais é o acolhimento passivo para uma obediência ativa.

(Continuará)