No jogo da vida, empatia é um empate, pois a baliza está no centro

Jonas (a treinar-se como comentador de futebol com os amigos…)
Neste Europeu, a nossa Seleção Nacional parece que está destinada a empates. O que se passará com os jogadores?

Mestre (a partir do íntimo da consciência de Jonas)
Meu caro Jonas, não sabia que eras interessado em comentar o futebol!

Jonas
E até não sou muito, mas como se trata de apoiar os portugueses, sinto que devo ser empático.

Mestre
E muito bem! A empatia implica algum esforço por parte de quem se faz próximo para apoiar seja que causa boa for.

Jonas
Sabes o que intriga, Mestre? É ver que se reúnem muitos esforços, pessoais e económicos, para uma luta “bipolar” como é a do futebol e poucos esforços para se alcançar o essencial para todos. Ler mais

Sagrado Coração de Jesus: da fonte aos sedentos. E o restauro do fontanário?

[Leitura] Ez 34, 11-16; Rm 5, 5b-11; Lc 15, 3-7

[Meditação] Lectio Divina e Lectio Humana em modo «À Conversa com o Mestre»:

Jonas (à conversa com os seus botões):
Isto de adentrar pela porta da igreja no mês de maio levou-me a perceber que, para além da oração do Terço, há mais: a Eucaristia. E qual o meu espanto, quando ouvi o aviso para a celebração da Solenidade do Coração de Jesus, o meu coração palpitou um pouco mais, como que a pedir-me que não faltasse…

Mestre:
Jonaaaaasssss…!

Jonas:
Siiimm! És Tu, Mestre? Onde estás?

Mestre:
Aqui, bem dentro do teu coração. Esse palpitar é tarefa do Meu Espírito que foi derramado em todos os corações (cf. Rm 5, 5b).

Jonas:
Pensei que eras Tu que me estavas a tentar chamar desde o sacrário onde o padre Te guarda.

Mestre:
Sim, Jonas, Eu chamo sempre deste o sacrário onde Me escondo sempre depois da Eucaristia. E quem sabe disso pode vir sempre ter comigo. Mas, para os mais distraídos, o Meu Espírito palpita dentro do coração de todas as pessoas, a lembrar a sede de mim, estejam onde estiverem.

Jonas:
Pois… mas nem todos O escutam… Ler mais

A Vocação e o (des)Maio na Esperança que não engana

Mestre
Olá, Jonas! O que estás a fazer?

Jonas
Estou a contemplar aqui ao longe aquelas pessoas que, todos os dias, se encaminham para a igreja. Não sei o que elas vão fazer, especificamente, a esta hora. Mas é estranho… não deixo de as contemplar.

Mestre
Não sabes que, pelo menos em Portugal, o mês de Maio é muito especial para elas?

Jonas
Porquê o mês de Maio?

Mestre
Porque foi, precisamente, nesse mês que a Minha Santa Mãe apareceu pela primeira vez aos pastorinhos, em Fátima. Desde então, este tempo ficou marcado por esta e pelas visitas sucessivas até Outubro.

Jonas
Interessante! E por que terá sido nesse mês e não outro? Há doze meses no ano…!

Mestre
Ainda não tive a curiosidade de perguntar a Maria. Talvez porque em Maio já se experimenta melhor a estação da Primavera que, por vezes, em Março teima em sair à rua… Hehe

Jonas
LOL. É verdade, como este ano. Alguns até já brincam com São Pedro a dizer que ele deve ser uma espécie de bipolar. Mas é só a brincar, claro. Ou não! Depois do Inverno, não gostamos muito de uma “prima” que não seja “vera”, ou seja, verdadeira. Dá a impressão de que o tempo nos anda a enganar. É como se fosse uma enguia que nos foge das mãos quando a queremos apanhar.

Mestre
Pois é, Jonas. Por isso, Nossa Senhora apareceu em Fátima, precisamente, aos pequeninos e aos simples, para os ajudar a eles e, por eles, à humanidade inteira, a agarrar o sentido da vida.

Jonas
Pois, mas muita gente que vê de fora, como eu, pensa que a mensagem se resume à “penitência e à oração”. É verdade?

Mestre
É verdade que tem a ver com a penitência e a oração, mas não se resume a isso. Um resumo é sempre um sumário de uma lição mais abrangente. E cada um resume como sabe e como pode, no tempo preciso em que os momentos misteriosos acontecem. Mas… o melhor está aquém e além desse sumário.

Jonas
Como assim?!

Mestre
Tu já andaste na escola?

Jonas
Sim e, na verdade, ainda não terminei o que já deveria ter terminado…

Mestre
Na escola, toda a ciência se resume em sumários de lições que têm, antes e depois delas, a minha eterna Sabedoria. Ela é guia para a humanidade que vive no mundo.

Jonas
Ha! E essa Tua Sabedoria terá a ver com o Espírito Santo que os cristãos celebram no Pentecostes?

Mestre
Boa pontaria, Jonas! Sim, não é, também por acaso que no encerramento das festas da minha Páscoa, sugiro aos cristãos que, na Igreja, celebrem o Espírito Santo. O mesmo que me ajudou a gerar no seio de Maria, é o mesmo que ajuda a gerar cristãos para o sentido da vida. Por isso, nos meses que vão de Maio a Outubro, Maria continua a ajudar os cristãos a encontrar e a alimentar o sentido da vida, com o convite a rezarem o Terço.

Jonas
Mas… há uma coisa que não entendo. Para a gestação de uma pessoa não são precisos nove meses? De Maio a Outubro são só seis…

Mestre
Pois, Jonas. Não te esqueças que Maria, minha Mãe, é muito discreta. Inicia a esperança de vida dos cristãos, mas deixa o mais importante para Eu fazer.

Jonas
Como assim?

Mestre
Depois de Outubro, vêm os meses de Advento que antecipam e preparam o Natal. Em cada ano, com a celebração do aniversário do Meu Nascimento, dou a entender, com a ajuda antecipada de Minha e, já agora, também tua Mãe, que a vida de todos tem um sentido muito particular.

Jonas
Mas as propostas do mundo enganam, Mestre. Hoje vivem-se episódios como os da AXN que nos agarram à TV como se tivéssemos de viver a vida de figuras e histórias que não são reais.

Mestre
Pois, Jonas. Por isso, a pedagogia da Igreja não engana, como a fantasia que aliena da verdadeira realidade que é estrada para o sentido da vida. Os tempos litúrgicos e as temporadas de oração repetem-se, sim, mas para gerar uma Esperança que não engana, de forma a que cada um possa descobrir a sua própria vocação e não se deixe manipular pelos “desmaios” dos que ainda não encontraram o sentido da vida, querendo “alimentar” a sua vida sem sentido com a “sede” dos outros.

Jonas
Ó que triste história! Não admira que, por vezes, em contacto com a realidade dura da vida, muitos entrem em pânico e voltam a fugir para os falsos aconchegos.

Mestre
Então, tu…  acorda! Não te deixes desmaiar a ti, nem aos jovens que estão à tua volta. É isso que fazem estas pessoas que, todos os dias, sobretudo em Maio e Outubro, não ficando agarrados aos episódios da AXN, mas se deslocam às igrejas para rezar.

Jonas
É para agarrar o verdadeiro sentido da vida!

Mestre
Sim, o da Esperança que não engana.

Jonas
E assim se faz Páscoa!

Mestre
Isso mesmo, Jonas. E a Páscoa que eu proponho é o Sacramento dos Sacramentos, a maior fonte de vida que podes encontrar na Igreja. Um bom final de ano letivo. E vê lá se terminas bem… há uma vida inteira com sentido à tua frente…

Jonas
Obrigado, Mestre! Já agora… acho que não vou ficar só a ver. Também vou entrar com aquelas pessoas para rezar.

Mestre
Boa ideia! Para te poder ajudar ainda melhor, podes precisar de Maria, tua e Minha Mãe, e da comunidade da Igreja que se assemelha a Ela.

A Incarnação não está no Guinness… é uma submersão

Jonas
Boas festas, Mestre!

Mestre
Feliz Natal, Jonas, e um bom ano de 2015!

Jonas
É mesmo… estás a fazer 2015 anos, como Verbo incarnado! Como será possível pôr 2015 velas em cima de um bolo para apagares?! Teria de ser um bolo muito grande, como aqueles que se candidatam ao Guinness…

Mestre
Heheheh… Pois… aprouve a Deus que o Seu Verbo Se fizesse carne. Ele estava com Deus e Ele mesmo era Deus, como escreveu o Apóstolo João (cf. Jo 1, 1-18). Ler mais

Dá-me o ouro o teu coração…

Mestre
Olá, Jonas, estás muito pensativo!

Jonas
Olá, Mestre. Estou, sim. Num destes dias, entrei numa livraria e, no fim de comprar uns livrinhos, a menina do balcão pediu-me que tirasse um papelinho de entre muitos que estavam num recipiente, dizendo-me que o que me calhasse poderia servir para a meditação do dia. E… queres saber o que me calhou?

Mestre
Vá, conta lá, que estou curioso!

Jonas
Dizia no papelinho que tirei à sorte: «Dá-me o ouro do teu coração. Com o amor comprarás o incenso para a oração e a mirra para o sofrimento».

Mestre
Que bonito pensamento e, mais do que pensamento… é o pedido de alguém. Quem será esse alguém que te pede esse ouro?

Jonas
Bem… a primeira pessoa que me veio à mente foste Tu. Sei que inspiras os meus pensamentos, estás presente mesmo quando não Te vejo e também me podes falar através de pessoas, sinais, textos, acontecimentos…

Mestre
Quase lá. Sim, influenciei aquela menina para te convidar a tirar um papelinho, mas esse pedido vem de mais alto.

Jonas
Mais alto, como? Tu és o melhor amigo. E, como tal, quem poderia enviar-me tal mensagem?

Mestre
Sim, frequentemente são os amigos a inspirar tais acções, mas o pedido que está escrito nesse papelinho vem de alguém que está acima de Mim. Por isso, fiz tudo para que te calhasse.

Jonas
Esse Alguém é o…

Mestre
Sim, diz.

Jonas
…Pai. Mas… como pode Ele pedir-me o ouro, se no meu coração só sinto ferro, alguma ferrugem e, só de vez em quando, alguma prata?

Mestre
Não sejas mesquinho em atribuir-te valor. Estás habituado a ver pessoas a atribuir-se muito valor, como se esse valor dependesse delas. Isso faz com que te diminuas, porque te comparas demasiado com essas pessoas. Também elas precisavam que lhes calhasse um papelinho como o que tu tiraste daquele recipiente. No entanto, elas por uma razão, tu por outra.

Jonas
Podes explicar-te melhor?

Mestre
Sim, claro! Quando as criaturas pensantes se atribuem valor demasiado, sem darem conta que a sua fonte é o Pai, a essas Ele pede reconhecimento. O Pai pede-lhes esse “ouro”, com o qual podem obter o “incenso”, única oração que chega aos seus ouvidos. Aos que, como tu, não sabem sequer reconhecer que o Pai os faz “depósitos” do seu Amor, por falta de um reconhecimento do próprio valor de suas criaturas muito amadas, então Ele inspira-os a trocarem com esse ouro pela “mirra” que os cura disso a que chamas “ferrugem”.

Jonas
Ha! Deixa ver se compreendo: para fazer uma oração que tenha valor, os orgulhosos terão que comprar incenso verdadeiro, daquele que sobe mesmo aos céus; os que têm uma baixa-estima necessitam de obter a mirra que cura essa auto-humilhação que enferruja o coração.

Mestre
Estás a meditar bem. Na verdade, ambos – os que não reconhecem Deus como Pai de Quem vêm todos os dons e os que não sabem reconhecer-se como filhos muitos amados – precisam de incenso e de mirra. Ambos sofrem qualquer desvio na relação criatura-Criador. Ele ama-os a todos, sem excepção, mas ama-os de maneira diferente, conforme a distorção do coração. A ambos, o Pai dá aquele ouro que é o Seu Amor, umas vezes mal polido no coração de uns ou então enterrado no coração de outros. Àqueles é difícil  não se reconhecerem donos, a estes é complicado não se reconhecerem destinatários desse ouro.

Jonas
Obrigado, Mestre. A meditação que uma pequenina frase pode provocar!… Daqui em diante, vou dar mais atenção às pequenas coisas: pensamentos, sinais do amor de Deus…

Mestre
E nunca te esqueças: o amor de Deus está no teu coração. Ele quer-lo de volta, mas só depois de te ter transformado. Em troca, Ele dá-te…

Jonas
Incenso e mirra.

Mestre
Isso. Desses bens espirituais precisarás para reconheceres o Pai e reconheceres-te como filho; para viveres uma alegria verdadeira, como fim, e o sofrimento com sentido, como meio. Nunca deites fora um papelinho sem o ler… e meditar nele. Poderá conter grandes tesouros!

Jonas
Obrigado, Mestre!

Mestre
🙂

Amigos de um horizonte longínquo

– Olá, Jonas!
– Olá!
– Então, não te lembras de quem sou eu?
– Oh Mestre, és Tu?!
– Sim, sou Eu. Há uns dias largos que não te encontro!
– Pois… tenho andado atarefado com o início das aulas. Sabes como é…
– Sei. Compreendo-te. O início de um novo ano não é fácil, mas é atraente, não é?
– Sim. Conhecer novos amigos, professores e estudar novas matérias. Cada ano lectivo é uma nova aventura.
– Creio que sim. No entanto, sabes que sou um Amigo exigente. Deixa-me perguntar-te…
– Sim?…
– Eu tenho andado na escola à tua procura, onde te tens metido? Não te tenho encontrado!…
– Mas eu tenho estado sempre lá, não tenho faltado… hummm… a não ser naquele dia em que saí com uns amigos até tarde e no dia a seguir… sabes como é!…
– Sei, sim.
– Mas espero não abusar nessas noitadas…
– Conviver com os amigos não faz mal nenhum, pelo contrário… Mas porque é que conviver com os amigos há-de levar a faltar?…
– Tens razão! A relação com os amigos deveria ajudar, não desajudar… mas como é que isto acontece? E acontece muitas vezes… Bem, não a mim, que ainda sou caloiro, mas pelo que vejo aqui na escola.
– Pois é. Queres saber porquê?
– Todo ouvidos!
– Abre também o teu coração, porque o que tenho para te dizer deve entrar nele. O que entra só pelo ouvidos sai mais rápido e o que chega a ser gravado no coração demora mais a sair!
– Coração aberto! 🙂
– 🙂 Antes de mais, pergunto-te: qual é o teu horizonte de vida? Porque é que estás na escola a estudar?
– Bem… porque tenho de estudar. Gosto do curso que estou a estudar…
– Já não é mau gostares do curso que estás a fazer. Mas… com que finalidade?
– Vir a ter um emprego mais tarde e… quem sabe, casar… ou… sei lá!
– Sabes? Há um horizonte último, infinito, que te atrai, mas que tu ainda não descobriste de todo.
– E qual é? Diz-me, diz-me!
– Não posso dizer-to já. Para ser uma experiência que te preencha totalmente terás de ser tu, com a minha ajuda, a descobri-lo e a decidir por ele. Terás de ser tu, no teu ritmo e nas tuas circunstâncias. No entanto, uma relação humana pode ajudar e desajudar no caminho que leva a um horizonte como aquele que tenho para te oferecer, sabias?
– Como?
– Se te envolves com pessoas que não querem descobrir esse horizonte, ou seja, cujo horizonte é mesquinho, porque fica pelas coisas terrenas, então, elas não te irão ajudar a descobrir o horizonte longínquo que te satisfará mais essa sede de infinito. Por isso, terás de decidir-te entre a noite e o dia, o finito e o infinito, entre os teus limites e as tuas possibilidades. A verdadeira felicidade é uma questão de equilíbrio. Encontrar esse horizonte é uma questão de te manteres dentro dos carris, como acontece com o comboio para não descarrilar.
– Muito bem!
– Obrigado. E queres saber um segredo?
– Sim, sou muito curioso em  segredos!
– Tenta confirmar a tua convicção neste valor do equilíbrio no teu relacionamento com os amigos. A busca daquele horizonte longínquo talvez te dê poucos amigos, mas mais duradoiros e leais. Um horizonte mesquinho faz-te conviver com uma multidão de amigos, mas talvez sem a aventura da profunda intimidade dos que procuram mais longe e de dia!
– Essa agora chegou para mim!
– Não quero só surpreender-te, mas salvar-te. Eu também conheço a noite e estarei lá para te segurar. Mas tu, reconhecer-me-ás melhor no dia! E olha que dia e noite não são aqui somente ponteiros de um relógio, mas de “luz” e “trevas”, compreendes?
– Sim. Obrigado, Mestre. Espero aproveitar bem este ano e andar mais acordado para essa luz.
– Até breve, Jonas!
– Até breve!

Tornar-se um homem "verdadeiro"

– Boa tarde!
– Boa tarde, amigo Jonas!
– Escuta-me, Mestre, no nosso último encontro ensinaste-me o que tinha de fazer para encontrar um guia que me ajude a fazer o meu caminho. Cronologicamente sou um jovem, porque tenho mais de 18 anos, mas…
– Mas o quê?
– Tenho a impressão de ainda não estar à altura de ter esse guia.
– E, por isso, não o procuras…
– Pois…
– Mas qual é a tua dificuldade, agora?
– Sabes?
– Mais ou menos (sei, mas quero que sejas tu a dizê-lo à tua maneira). Diz-me tu.
– Eu preciso não só de um guia para descobrir e percorrer um caminho. Tenho a impressão de não ter percebido bem o que já vivi. Parece que vivi muito por fora, surpreendendo-me com a evolução do meu corpo e na relação com os outros. Porém, há coisas que sinto cá dentro que ainda não consegui compreender.
– Haaaaa!… Deixa ver se percebi bem.
– Sim, ajuda-me a compreender!
– Há momentos e circunstâncias em que sentes que ainda precisas de crescer… por dentro. Estás naquela fase em que, por dentro, nos teus pensamentos, pareces necessitar de mais tempo para pensar. Paras diante de um sentimento e ficas a contemplá-lo eternamente, ou então foges dele. Por outro lado, quando estás com os outros, parece que não estás lá totalmente presente e tens a sensação de que te escapou qualquer coisa.
– Hummm… parece que me lês os pensamentos e os sentimentos!
– Não sabias que eu perscruto os corações?
– Tu estás sempre a surpreender-me, Mestre!
– Ainda bem. Significa que tens aí dentro muitos cantos do teu ser sedento de coisas boas. A época que estás a viver é significativa: é a época em que a maioria das pessoas deixam de se virar para o exterior e passam a viver mais pelo interior. A questão e: como perceber esse interior? Preenchê-lo de quê?
– Tens razão ao falares em “preenchê-lo”. De facto sinto-me muitas vezes vazio. E nem sequer os meus bens materiais me satisfazem profundamente. Não sei porque ainda os conservo a todos.
– Não te quero pôr medo, mas estás à porta de travares uma das tuas maiores batalhas: a interior.
– Batalha? Interior? Com quem?
– Contigo próprio! Por fora, vês-te a crescer e a relacionar-te, por força social, com pessoas da tua idade. Mas por dentro, esse crescimento poderá ter um outro ritmo e necessitar de uma outra atenção. É algo natural que costuma mediar a passagem entre a adolescência e a juventude.
– Mas eu sou um jovem!
– Sim, pro fora, não tenho dúvidas. E por dentro?
– Pois… explica-me isso bem, para eu compreender.
– Tenho a impressão que viste o filme “O Senhor dos Anéis”.
– (Jonas confirma com um aceno de cabeça.)
– Certamente que te lembras da relação entre o Frodo e o Gollum. Parece-me que Frodo via em Gollum as suas próprias sombras. Por isso é que o protegia. Frodo quer ir para a frente no caminho e destruir o Anel; a sua sombra (Gollum) quer voltar para trás e ficar agarrado àquele símbolo da ambiguidade e do mal. No final da história, Frodo decide deitar fora o seu “Gollum” juntamente com o Anel. As sombras de Frodo não estão só no seu interior, mas também na forma como vê e se relaciona com os outros.
– Não me trocas o que acabaste de dizer por miúdos?
– 🙂 Bem, tudo isto significa que terás que fazer aquele percurso individual e social que um adolescente deveria percorrer para se tornar um homem verdadeiro. É, também, por isto que tens de encontrar um guia. Um guia para o teu caminho de crescimento interior.
– Trouxeste-me ao mesmo tema!
– Sim. Um guia é, na tua idade de passagem, muito importante para te ajudar a percorrer um caminho interior. Sabes porquê?
– (O Jonas abana a cabeça.)
– Porque se queres largar a “pele” da tua infância, terás de te deixar ajudar pela diferença de alguém que também já percorrer, em parte, o seu caminho. Os teus pais, por tendência, agarram-te à tua infância. E mesmo que eles já não estivessem contigo, precisarias de alguém diferente para te relacionares com a diferença. Neste sentido, a maturidade consiste na transformação da infância na adultez. foi precisamente esta a procura de Frodo. Levar o Anel à sua origem significa ter uma relação positiva com a autoridade de quem nos educou e nos acompanha. Se não aceitas a diferença do outro, tenderás a aceitar o poder como domínio e precisarás daquele “anel” que te esconde na tua individualidade (esconder a pessoa dos inimigos externos, mas mostrando-a aos seres sombrios era também um dos poderes do Anel transportado por Frodo). E aceitar um poder assim leva à homologação, mais do que à aceitação das diferenças.
– Trocando ainda mais por miúdos…
– 🙂 Para que cresças numa descoberta e vivência feliz da tua identidade sexual, afectiva, individual, etc., terás que aceitar confrontar-te constantemente com o teu ser interior e com os outros, no exterior, de forma a abandonares a natural ambiguidade que te caracteriza nesta passagem da vida.
– Convenceste-me. Tenho de me preocupar mais com a minha vida social, para além de estar atento às minhas lutas interiores.
– Isso mesmo! Encontra momentos para estares contigo e momentos para estares com os outros, assim como encontras estes momentos para estares Comigo. Momentos distintos de procura, para te perceberes como és e perceberes também os outros. Uma e outra relação completam-se. Entender o teu interior ajuda-te a perceber os outros e relacionares-te com os outros ajuda a perceberes-te melhor a ti mesmo. Ninguém descobre a sua identidade sozinho, unido a um “anel” de um poder qualquer. Relacionando o interior com o exterior serás um homem mais verdadeiro.
– Ok, Mestre. Vou digerir melhor o que hoje me ensinaste.
– Eu estarei sempre contigo! 🙂

Um guia para o caminho

– Olá!
– 🙂
– No outro dia, davas-me um conselho, o mais importante do dia…
– Sim, ainda te lembras de qual era?
– Sim, claro!
– Ainda bem. Significa que o consideras importante. Deixa-me adivinhar… queres encontrar um guia.
– Haaa. Era fácil tu descobrires, porque foste Tu a dar-me esse conselho de procurar um guia para facilitar o caminho da descoberta do ideal total que dá felicidade à minha vida.
– Sim, é verdade, mas a contar com a insegurança dos jovens de hoje e a tendência que eles têm de fugir dos conselhos importantes, poderia pensar que me virias dizer como é que se caminha sem guia.
– Humm… poderia ser, tens razão. Já não seria o primeiro, nem o último a recusar essa proposta, andando à deriva à volta das próprias ideias e vontade.
– Essa é uma outra variação do final da história do jovem rico (cf. Mt 19,16-22b), em que um jovem poderá desistir do seu fadigoso caminho porque não quer deixar-se ajudar a sério por um guia. É a história do “jovem auto-suficiente” cuja história roda à volta dele num círculo vicioso.
– Mas eu estive cá a pensar com os meus botões: e se fosse o Mestre, o meu guia?
– Muito bem, essa tua ambição é boa, quando associada a um bem pelo bem.
– Podes, então, ser meu guia?
– Se posso?… Eu sou o teu Guia.
– Ufff. Encontrei-o!
– Ep! Ep! Mas para te orientar no teu caminho, terei de usar os meus mediadores.
– Mas, então…?
– Sim, o meu Espírito é o teu Guia. No entanto, precisas de um guia. E pode ser mesmo um com letra minúscula, alguém que já manifestou mais cedo essa vontade de caminhar como tu e que já fez caminho e aceita voltar atrás para caminhar a teu lado.
– E Tu não estás já a meu lado?
– Humm… estás a ver?! Já estás a encontrar razões para não procurares um guia. Sim, Eu estou sempre a teu lado e sei tudo o que se passa contigo e o melhor modo de seguir a direcção do teu caminho, mas o desígnio de amor e de salvação que reservo para ti não o poderias aceitar de uma vez por todas. Por outro lado, já estou à direita do Pai, de onde acompanho toda a humanidade. Será melhor teres um guia que esteja também nesse caminho e que ainda sinta, como tu, a necessidade de ser guiado por alguém. Assim darás passos mais adequados às tuas pernas.
– Já compreendi. Tenho mesmo de procurar um guia que me saiba orientar a deixar-me guiar por Ti.
– Muito bem. Juntas a ambição sadia à inteligência. Estás a juntar as coordenadas que te vão ajudar a encontrar um guia capaz de te deixares orientar por Mim.
– Coordenadas?! Repete lá isso, para eu começar a juntar as ideias.
– Ambição e inteligência ou pensamento. Mas olha que são só coordenadas.
– Só coordenadas, como? Não bastam essas?
– Ter uma ambição positiva por te deixares guiar e pensares nisso já é muito bom, mas sabes por onde começa a procura de um guia espiritual?
– Começa por… diz lá de vez, por favor!
– A procura de um guia espiritual começa com a oração. A maior parte das pessoas começa com a procura pelos contactos da agenda, visita o centro de retiros mais próximo ou pede o parecer a pastores ou sacerdotes. Estes passos, assim como a tua ambição e inteligência, são úteis, mas o verdadeiro lugar de onde começar é pedir a Deus que te ajude a tomar as rédeas do teu caminho.
– Não estava à espera que fosse a oração!
– Pois. Quando alguém ouve falar da importância de um guia espiritual para um caminho importante como é o da vocação, acaba por achar que ter um acompanhamento assim é uma coisa para poucos ou por considerar que guias bons são raros. Mas não é tão simples assim. Corre por aí uma tendência que põe muito alta a fasquia deste acompanhamento, como se para alguns fosse possível encontrar um guia e a outros ser somente guiado por Deus. No entanto, Deus serve-Se de quem quer para acompanhar cada uma das suas criaturas. E no que toca a estas, nada está ao acaso!…
– Então e depois da oração?
– Depois da oração ou na oração, deves pôr-te as seguintes perguntas: o que é te leva a necessitar de um guia espiritual? Que qualidade deve ter para poderes partilhar a tua vida? Certamente que o elenco destas e de outras qualidades te atirará para alguém que conheças. Para aceitares este impulso deverás ter um coração suficientemente aberto à novidade para aceitares a inspiração que o Espírito de Deus te oferecer.
– Que engraçado! É também o teu Espírito a guiar-nos a um guia que me ajudará a guiar para ti!
– Sim, podes dizê-lo. 🙂
– Vou fazer o que me recomendas. Até ao próximo encontro!
– Antes de ires embora, dou-te mais uma coordenada ou motivo para procurares um guia: certamente que no teu dia-a-dia vives momentos mais ou menos dramáticos em que não vês a porta de saída de um problema.
– Sim, é verdade.
– Pois nesse teu “aqui” e “agora” imagina como ajudaria alguém ao teu lado para te ajudar a ver o que sozinho não consegues ver.
– Deveras!… E passa o tempo e mais um problema por resolver.
– Pois é! A oportunidade de resolver os problemas mais sérios, aqueles que são problemas verdadeiros, com a ajuda de um guia dá-te instrumentos para resolveres problemas futuros com outra maturidade, pelas tuas próprias mãos. E fico por aqui, recapitulando: oração e uma imaginação de quem te poderá ajudar, enraizada no teu momento de necessidade de ajuda. E estes são só pontos de partida de um longo, mas feliz, caminho.
– Obrigado, Mestre. Adeus!
– 🙂

Ideal radical

– Olá, Mestre!
– Olá, Jonas! Como estás?
– Como de costume, à procura.
– Muito bem, não deixes de procurar. E já encontraste o que querias?
– Humm… não! Não encontro o ideal.
– Mas que ideal?
– O caminho ideal para mim. Tu, no outro dia, propunhas-me que para além de ser justo deveria desprender-me para poder ser mais perfeito. Contudo, é difícil esta tarefa de escolher aquilo de que me hei-de desprender.
– E tu já sabes qual é o caminho ideal para ti? Já o descobriste?
– Não, porquê?
– Porque o desprendimento deve apontar para um ideal que se tem como meta. O ideal é como a própria perfeição, parte de um convite a percorrer um caminho específico que leve aos mesmos.
– Então… quer dizer que tenho de saber primeiro qual é o meu ideal?
– Mais ou menos. Deixa-me explicar-te: existem ideais institucionais, que existem ligados a instituições, como a Igreja, por exemplo. Também existem os ideais pessoais. Estes têm a ver com as tuas preferências, qualidades, limites, etc. Os teus ideais pessoais apontam para um ideal institucional.
– Então quer dizer que em mim já estão os sinais que me ajudarão a escolher o meu ideal?
– Sim, mas não é algo que devas procurar sozinho. Sabes porquê?
– Não sei bem!
– Porque precisas de saber com a maior objectividade possível qual é o ideal institucional onde se integram melhor os teus ideais pessoais. Por exemplo, na Igreja Católica, a nível vocacional, existem vários caminhos gerais ou estilos de vida onde os fiéis poderão integrar os seus ideais: o matrimónio, o presbiterado, a vida religiosa, o diaconado permanente, a consagração laical. Estas propostas de estilos de vida são enriquecidos com os ideais pessoais que a elas aderem, de forma a, em cada uma delas, ainda haver uma riqueza grandiosa de instituições, tantas quantas são inspiradas pelo meu Espírito.
– Hummm… mas isso ainda torna o desprendimento ainda mais penoso, porque é tanta a variedade!
– Talvez, mas há um método.
– Qual? Podes dizer-mo, ou é segredo?
– Não é segredo, embora o melhor ideal para ti pareça um mistério.
– Então se é um mistério, como poderei escolher o caminho ou estilo de desprendimento?
– Vou ajudar-te com uma metáfora: lembra-te da primeira vez que deste um mergulho numa piscina ou no mar. Não deixas-te de mergulhar por ser um mistério o que irias encontrar. Porventura, pensaste ou não na melhor forma de o fazer, mas decidiste mergulhar e pronto. Não foi assim?
– Por acaso, nessa ocasião tive medo.
– Pois. O medo é o principal inibidor da procura e da decisão. Como já te disse, a perfeição neste mundo é relativa a um bem absoluto que não é deste mundo. Por isso, o método cá vai: decisão radical.
– O quê?! Decidir e pronto. E se depois me arrependo?
– Já te disse através do Lucas (Lc 14,28-29) que primeiro é preciso ponderares as tuas capacidades, os ideais pessoais, questionar se porventura poderás empreender um caminho ou ser feliz num certo estilo de vida, mas não podes passar toda a vida a ponderar!
– Mas que método complicado!
– Só é complicado para pessoas complicadas. Quando falo de decisão radical, estou a referir decisão consciente. Se queres descobrir quais os estilos de vida é que se coadunam com os teus ideais pessoais, então poderás visitar as instituições que vivem esses ideais, não achas?
– Wuauuuuuu. Nunca tinha pensado nisso!
– Pois é bom começares a pensar. Se não pensares e não te desprenderes de nada, também não te ligarás a nada. Assim, a tua felicidade não será fácil.
– Obrigado, Mestre.
– De nada. Mas olha, falta-me dizer-te o melhor conselho: encontra um guia, alguém que te ajude a percorrer esse caminho.
– Mas como? Isso é mais um daqueles desafios difíceis…?
– Calma. Isso também requer um método. Falo-te disso no próximo encontro.
– Ok. Adeus.
– Adeus.

A inteligência do coração

– Olá, Jonas!
– Olá, Mestre! Não te esperava aqui agora, mas ainda bem que te encontro, pois preciso de falar contigo.
– Acho que eu é que te encontro, pois procurei-te e tu andavas muito atarefado e pensativo com os teus botões. Tu sabes que estou sempre contigo. É preciso que te apercebas disso, quer quando estás a trabalhar, quer quando pensas.
– Ora, é mesmo sobre isso que gostaria de falar contigo. Sabes, às vezes é difícil perceber que estás comigo. Não sei bem, é a minha consciência. Sei que é em Ti que poderei encontrar a minha liberdade, mas não sei bem como.
– Já não é mau saberes que é em Mim que poderás encontrar a tua liberdade. Mas… posso corrigir a tua linguagem?
– Sim, claro, agradeço!
– Diria que não sabes bem. É provável que já tenhas experimentado um pouco de liberdade interior, em algumas circunstâncias, e a emoção dessa experiência falou-te através de sentimentos agradáveis.
– Pois, é verdade, por vezes sinto uma certa paz e liberdade. Mas essas circunstâncias passam rápido e… esses sentimentos calam-se porque outros, menos agradáveis, falam mais alto.
– Sim, essa descontinuidade também Eu a experimentei. Por isso, é necessário mantermo-nos em contacto permanente, como Eu costumo fazer com o Pai.
– Então, o que querias dizer é que já sentiste que é em Mim que podes procurar toda a tua liberdade. Quanto ao saber, estás a descobrir como, não é verdade?
– Ha! Agora já estou a perceber melhor. És Tu que nessas circunstâncias Te manifestas com o teu amor. É assim que nos cativas. Ganhas-nos primeiro com o coração.
– Agora já entendes porque não basta ser justo, cumprindo rigorosamente todas as leis. É necessário desprender o coração. E isso é algo que se pode fazer também com a inteligência, quando esta não é calculista. Se a inteligência se ocupar um pouco com o coração, então ele aprenderá a ser bem mais livre.
– Então, quer dizer que se eu quiser seguir-te com mais liberdade, terei que dar atenção ao meu coração? é com ele que tenho de conversar também?
– Sim. E, sobretudo, é importante perceberes a sua linguagem: a linguagem dos sentimentos. Se a tua inteligência não souber decifrar a linguagem dos sentimentos, haverá sentimentos a aproximar-te de Mim e outros, porventura com maior força, a afastar-te.
– Obrigado, Mestre! Agora já sei que Tu me falas através de uma linguagem que não é feita só de palavras, mas também de sentimentos. Vou estar atento a eles.
– Fico contente por perceberes isso, Jonas. A experiência de fé é primeiro uma experiência emocional. Só depois é que é uma experiência da inteligência. Quem Me dera que os filósofos que se dizem ateus dessem conta disso! Então, como dizem os operadores da TMN, até já!
– Até já!