Tornar-se um homem "verdadeiro"

– Boa tarde!
– Boa tarde, amigo Jonas!
– Escuta-me, Mestre, no nosso último encontro ensinaste-me o que tinha de fazer para encontrar um guia que me ajude a fazer o meu caminho. Cronologicamente sou um jovem, porque tenho mais de 18 anos, mas…
– Mas o quê?
– Tenho a impressão de ainda não estar à altura de ter esse guia.
– E, por isso, não o procuras…
– Pois…
– Mas qual é a tua dificuldade, agora?
– Sabes?
– Mais ou menos (sei, mas quero que sejas tu a dizê-lo à tua maneira). Diz-me tu.
– Eu preciso não só de um guia para descobrir e percorrer um caminho. Tenho a impressão de não ter percebido bem o que já vivi. Parece que vivi muito por fora, surpreendendo-me com a evolução do meu corpo e na relação com os outros. Porém, há coisas que sinto cá dentro que ainda não consegui compreender.
– Haaaaa!… Deixa ver se percebi bem.
– Sim, ajuda-me a compreender!
– Há momentos e circunstâncias em que sentes que ainda precisas de crescer… por dentro. Estás naquela fase em que, por dentro, nos teus pensamentos, pareces necessitar de mais tempo para pensar. Paras diante de um sentimento e ficas a contemplá-lo eternamente, ou então foges dele. Por outro lado, quando estás com os outros, parece que não estás lá totalmente presente e tens a sensação de que te escapou qualquer coisa.
– Hummm… parece que me lês os pensamentos e os sentimentos!
– Não sabias que eu perscruto os corações?
– Tu estás sempre a surpreender-me, Mestre!
– Ainda bem. Significa que tens aí dentro muitos cantos do teu ser sedento de coisas boas. A época que estás a viver é significativa: é a época em que a maioria das pessoas deixam de se virar para o exterior e passam a viver mais pelo interior. A questão e: como perceber esse interior? Preenchê-lo de quê?
– Tens razão ao falares em “preenchê-lo”. De facto sinto-me muitas vezes vazio. E nem sequer os meus bens materiais me satisfazem profundamente. Não sei porque ainda os conservo a todos.
– Não te quero pôr medo, mas estás à porta de travares uma das tuas maiores batalhas: a interior.
– Batalha? Interior? Com quem?
– Contigo próprio! Por fora, vês-te a crescer e a relacionar-te, por força social, com pessoas da tua idade. Mas por dentro, esse crescimento poderá ter um outro ritmo e necessitar de uma outra atenção. É algo natural que costuma mediar a passagem entre a adolescência e a juventude.
– Mas eu sou um jovem!
– Sim, pro fora, não tenho dúvidas. E por dentro?
– Pois… explica-me isso bem, para eu compreender.
– Tenho a impressão que viste o filme “O Senhor dos Anéis”.
– (Jonas confirma com um aceno de cabeça.)
– Certamente que te lembras da relação entre o Frodo e o Gollum. Parece-me que Frodo via em Gollum as suas próprias sombras. Por isso é que o protegia. Frodo quer ir para a frente no caminho e destruir o Anel; a sua sombra (Gollum) quer voltar para trás e ficar agarrado àquele símbolo da ambiguidade e do mal. No final da história, Frodo decide deitar fora o seu “Gollum” juntamente com o Anel. As sombras de Frodo não estão só no seu interior, mas também na forma como vê e se relaciona com os outros.
– Não me trocas o que acabaste de dizer por miúdos?
– 🙂 Bem, tudo isto significa que terás que fazer aquele percurso individual e social que um adolescente deveria percorrer para se tornar um homem verdadeiro. É, também, por isto que tens de encontrar um guia. Um guia para o teu caminho de crescimento interior.
– Trouxeste-me ao mesmo tema!
– Sim. Um guia é, na tua idade de passagem, muito importante para te ajudar a percorrer um caminho interior. Sabes porquê?
– (O Jonas abana a cabeça.)
– Porque se queres largar a “pele” da tua infância, terás de te deixar ajudar pela diferença de alguém que também já percorrer, em parte, o seu caminho. Os teus pais, por tendência, agarram-te à tua infância. E mesmo que eles já não estivessem contigo, precisarias de alguém diferente para te relacionares com a diferença. Neste sentido, a maturidade consiste na transformação da infância na adultez. foi precisamente esta a procura de Frodo. Levar o Anel à sua origem significa ter uma relação positiva com a autoridade de quem nos educou e nos acompanha. Se não aceitas a diferença do outro, tenderás a aceitar o poder como domínio e precisarás daquele “anel” que te esconde na tua individualidade (esconder a pessoa dos inimigos externos, mas mostrando-a aos seres sombrios era também um dos poderes do Anel transportado por Frodo). E aceitar um poder assim leva à homologação, mais do que à aceitação das diferenças.
– Trocando ainda mais por miúdos…
– 🙂 Para que cresças numa descoberta e vivência feliz da tua identidade sexual, afectiva, individual, etc., terás que aceitar confrontar-te constantemente com o teu ser interior e com os outros, no exterior, de forma a abandonares a natural ambiguidade que te caracteriza nesta passagem da vida.
– Convenceste-me. Tenho de me preocupar mais com a minha vida social, para além de estar atento às minhas lutas interiores.
– Isso mesmo! Encontra momentos para estares contigo e momentos para estares com os outros, assim como encontras estes momentos para estares Comigo. Momentos distintos de procura, para te perceberes como és e perceberes também os outros. Uma e outra relação completam-se. Entender o teu interior ajuda-te a perceber os outros e relacionares-te com os outros ajuda a perceberes-te melhor a ti mesmo. Ninguém descobre a sua identidade sozinho, unido a um “anel” de um poder qualquer. Relacionando o interior com o exterior serás um homem mais verdadeiro.
– Ok, Mestre. Vou digerir melhor o que hoje me ensinaste.
– Eu estarei sempre contigo! 🙂

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