Ideal radical

– Olá, Mestre!
– Olá, Jonas! Como estás?
– Como de costume, à procura.
– Muito bem, não deixes de procurar. E já encontraste o que querias?
– Humm… não! Não encontro o ideal.
– Mas que ideal?
– O caminho ideal para mim. Tu, no outro dia, propunhas-me que para além de ser justo deveria desprender-me para poder ser mais perfeito. Contudo, é difícil esta tarefa de escolher aquilo de que me hei-de desprender.
– E tu já sabes qual é o caminho ideal para ti? Já o descobriste?
– Não, porquê?
– Porque o desprendimento deve apontar para um ideal que se tem como meta. O ideal é como a própria perfeição, parte de um convite a percorrer um caminho específico que leve aos mesmos.
– Então… quer dizer que tenho de saber primeiro qual é o meu ideal?
– Mais ou menos. Deixa-me explicar-te: existem ideais institucionais, que existem ligados a instituições, como a Igreja, por exemplo. Também existem os ideais pessoais. Estes têm a ver com as tuas preferências, qualidades, limites, etc. Os teus ideais pessoais apontam para um ideal institucional.
– Então quer dizer que em mim já estão os sinais que me ajudarão a escolher o meu ideal?
– Sim, mas não é algo que devas procurar sozinho. Sabes porquê?
– Não sei bem!
– Porque precisas de saber com a maior objectividade possível qual é o ideal institucional onde se integram melhor os teus ideais pessoais. Por exemplo, na Igreja Católica, a nível vocacional, existem vários caminhos gerais ou estilos de vida onde os fiéis poderão integrar os seus ideais: o matrimónio, o presbiterado, a vida religiosa, o diaconado permanente, a consagração laical. Estas propostas de estilos de vida são enriquecidos com os ideais pessoais que a elas aderem, de forma a, em cada uma delas, ainda haver uma riqueza grandiosa de instituições, tantas quantas são inspiradas pelo meu Espírito.
– Hummm… mas isso ainda torna o desprendimento ainda mais penoso, porque é tanta a variedade!
– Talvez, mas há um método.
– Qual? Podes dizer-mo, ou é segredo?
– Não é segredo, embora o melhor ideal para ti pareça um mistério.
– Então se é um mistério, como poderei escolher o caminho ou estilo de desprendimento?
– Vou ajudar-te com uma metáfora: lembra-te da primeira vez que deste um mergulho numa piscina ou no mar. Não deixas-te de mergulhar por ser um mistério o que irias encontrar. Porventura, pensaste ou não na melhor forma de o fazer, mas decidiste mergulhar e pronto. Não foi assim?
– Por acaso, nessa ocasião tive medo.
– Pois. O medo é o principal inibidor da procura e da decisão. Como já te disse, a perfeição neste mundo é relativa a um bem absoluto que não é deste mundo. Por isso, o método cá vai: decisão radical.
– O quê?! Decidir e pronto. E se depois me arrependo?
– Já te disse através do Lucas (Lc 14,28-29) que primeiro é preciso ponderares as tuas capacidades, os ideais pessoais, questionar se porventura poderás empreender um caminho ou ser feliz num certo estilo de vida, mas não podes passar toda a vida a ponderar!
– Mas que método complicado!
– Só é complicado para pessoas complicadas. Quando falo de decisão radical, estou a referir decisão consciente. Se queres descobrir quais os estilos de vida é que se coadunam com os teus ideais pessoais, então poderás visitar as instituições que vivem esses ideais, não achas?
– Wuauuuuuu. Nunca tinha pensado nisso!
– Pois é bom começares a pensar. Se não pensares e não te desprenderes de nada, também não te ligarás a nada. Assim, a tua felicidade não será fácil.
– Obrigado, Mestre.
– De nada. Mas olha, falta-me dizer-te o melhor conselho: encontra um guia, alguém que te ajude a percorrer esse caminho.
– Mas como? Isso é mais um daqueles desafios difíceis…?
– Calma. Isso também requer um método. Falo-te disso no próximo encontro.
– Ok. Adeus.
– Adeus.