Jesus é “refrigério” no cansaço, no caminho entre o trabalho e a oração

Is 40, 25-31; Mt 11, 28-30 Memória de Santo Ambrósio

Não compreendi e não aceito que Jesus possa visto por alguém como ameaça a qualquer tipo de desenvolvimento humano saudável e verdadeiro. Será porque o que disse/diz e fez/faz não entra na lógica do lucro a todo o preço, que nomeadamente levam ao burnout a que muitos sucumbem por causa do desgaste excessivo a que são obrigados, muitas vezes sem uma remuneração justa (material ou até espiritual).

Lemos numa das cartas de Santo Ambrósio:

Recebeste o ofício sacerdotal e, sentado à popa da Igreja, governas a barca contra a fúria das ondas. Segura bem o timão da fé, para que não te inquietem as violentas tempestades deste mundo. O mar é, sem dúvida, grande e espaçoso, mas não temas: Ele a fundou sobre os mares e a consolidou sobre as águas. Por isso, a Igreja do Senhor, edificada sobre a pedra apostólica, mantém-se segura entre os escolhos do mundo e, apoiada em tão sólido fundamento, permanece firme contra as investidas do mar em tempestade. Vê-se envolvida pelas ondas, mas não abalada; e embora muitas vezes os elementos deste mundo a sacudam com grande fragor, ela oferece aos navegantes cansados um porto seguro de salvação.

(Epist. 2, 1-2.4-5.7: PL 16 [ed. 1845], 847-881) (Sec. IV)

É na comunidade da Igreja que Ambrósio sentiu e nos convida a sentir aquela proteção que Jesus lhe prometeu e que lhe permite cumprir a sua missão, não obstante as ondas impetuosas.

O Padre Vasco Pinto de Magalhães (s.j.) faz um breve mas eloquente elogio ao descanso, com o título “Só Avança Quem Descansa“, onde afirma, em síntese, que não vivemos para descansar, mas descansamos para viver. Obviamente (ou não), estamos a falar do descanso que dignifica a vida, tanto quanto o trabalho, a quem o articulista do Diário do Minho Narciso Mendes confere “cidadania”, quando visto com aquele fulgor de quem não procrastina por causa exaustão ou da depressão, por causa dos papéis que hoje se exercem diante de tamanhas exigências e expetativas. A “gritante falta de dedicação e atenção ao serviço” é vista não só por falta de quem aufere de pouco salário, como também ganha acima da média. Porque será?

Andaremos a descansar no Senhor Jesus, que nos convida a refrescar a alma n’Ele? Ou mergulhados em padrões rotineiros que cansam as almas e, consequentemente, os corpos. Há descansos que são autênticos “gritos de guerreiros” e há ativismos que são desmentíveis “choros de apatia”. François-Xavier Bustillo, na sua recente obra “A vocação do padre perante as crises ─ A fidelidade criativa”, para além do burnout (excesso de trabalho), refere o bore out (o tédio no trabalho) e o brown out (quando o trabalho não tem sentido). O mal-estar existencial acontece, muitas vezes, quando os sonhos que, num tempo, nos motivaram a seguir em frente na dedicação a um trabalho com sentido podem desaparecer com as crises, acontecendo como que uma “hemorragia de sentido” (podemos ler assim também o texto onde se refere a hemorroísa, em Mc 5, 25-34), diagnosticada a partir dos sofrimentos ligados à fadiga interior que gera passividade, o pensamento indolente, a mediocridade, etc. (cf. obra citada, p. 37).

O que Jesus nos oferece no Evangelho de hoje é um redirecionamento de sentido: vinde a mim. N’Ele, poderemos redescobrir o trabalho e os esforços que são precisos para o desenvolver a partir de um novo horizonte, que inclui a mansidão e humildade como instrumentos quer de trabalho, quer de descanso. Daquele para este, penso que a oração pode fazer, também, sentido. Já pensámos ou já o fizemos? ─ Rezar enquanto vamos de casa para o trabalho e do trabalho para casa. A oração por Cristo, com Cristo e em Cristo (não só na Eucaristia, mas também) parece ser o tal “refrigério”, desde que ela não seja uma imposição escrupulosa e mágica de repetição de palavras ou de ritos que não ajudarão nem sequer como paliativo do cansaço. Para uma saudável atividade no trabalho, requer-se uma humilde passividade na oração (em Espiritualidade, a “passividade” traduz-se como a capacidade de silêncio humano diante da eloquência divina; ou a não resistência humana à partilha da graça gratuita de Deus).

O Profeta incentiva-nos a erguer os olhos para Deus, que não se cansa, e que dá força ao que anda exausto e vigor ao que anda enfraquecido. Esperemos no Senhor, em oração passiva e ocupação ativa, as duas asas dos que caminham e correm sem se fatigarem.

A quem se perdeu, levemos a Palavra amiga com gestos que curem feridas

Is 40, 1-11; Mt 18, 12-14

A Palavra de hoje “bebe” da pastorícia o hábito corajoso dos pastores que deixam a maior parte das ovelhas a pastar no monte para ir à procura daquela que se perdeu do trilho que leva ao redil. É uma bela e eloquente imagem que Jesus utiliza para falar da atitude do Pai em relação aos que se perdem nas errâncias da vida terrena.

No n.º 144 da Exortação Apostólica Alegrai-vos e exultai, o Papa Francisco lembra-nos que “Jesus convidava os seus discípulos a prestarem atenção aos detalhes” e um deles é “o pequeno detalhe duma ovelha que faltava” (como o vinho, as moedas da viúva, o azeite para as lâmpadas, os pães para a bênção multiplicadora, a fogueira acesa e o peixe na grelha). Se os detalhes fizeram parte do caminho de Jesus, o Papa também os propõe como caraterísticas da santidade no mundo atual. Por isso, continua:

A comunidade, que guarda os pequenos detalhes do amor e na qual os membros cuidam uns dos outros e formam um espaço aberto e evangelizador, é lugar da presença do Ressuscitado que a vai santificando segundo o projeto do Pai. Sucede às vezes, no meio destes pequenos detalhes, que o Senhor, por um dom do seu amor, nos presenteie com consoladoras experiências de Deus: «uma noite de inverno, cumpria, como de costume, o pequeno ofício. (…) De repente, ouvi ao longe o som harmonioso de um instrumento musical. Então imaginei um salão bem iluminado, todo resplandecente de dourados, de donzelas elegantemente vestidas, dirigindo-se mutuamente cumprimentos e cortesias mundanas. A seguir o meu olhar pousou na pobre doente que amparava; em vez de uma melodia, ouvia, de vez em quando, os seus gemidos queixosos (…). Não consigo exprimir o que se passou na minha alma; o que sei é que o Senhor a iluminou com os reflexos da verdade, que ultrapassavam de tal maneira o brilho tenebroso das festas da terra, que não podia acreditar na minha felicidade».

Contra a tendência para o individualismo consumista que acaba por nos isolar na busca do bem-estar à margem dos outros, o nosso caminho de santificação não pode deixar de nos identificar com aquele desejo de Jesus: «que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti» (Jo 17, 21).

Números 145-146

Ir à procura de quem se perdeu das comunidades cristãs de hoje, por causa de muitos fatores agravados pela pandemia Covid-19 e outros, nesta era das igrejas vazias, precisamos de relativizar as “poesias límbicas” (só estas, pois alguma poesia requer-se) para dar espaço à convivência na rua, estabelecimentos e estradas. Ali, onde as palavras, muitas vezes condenatórias, têm de dar lugar a gestos de aproximação e integração. Antes de mais, na comum dignidade humana, para, depois, se for o caso, se dar espaço à comum partilha da fé (em primeiro ou segundo… ou terceiro anúncio).

Evangelizar é ensinar e curar… com mais vontade para frutificar ‘as letras’!

Is 30, 19-21. 23-26; Mt 9, 35 – 10, 1. 6-8Memória de São Francisco Xavier, Padroeiro das Missões

Ai de mim se não evangelizar ─ Bem entendo esta exclamação na boca de Paulo, de São Francisco Xavier e de tantos e tantas, missionários e missionárias ao longo da história, diante do evangelho de hoje, que nos mostra a itinerância imparável, sinodal e universal de Jesus para instaurar ou implantar o Reino de Deus. Na sua ação, conforme nos relata Mateus, entrevê-se um itinerário vocacional daqueles que O acompanham: aos discípulos manda pedir ao Senhor da messe que mande trabalhadores, aos Doze, que Ele chama como hoje os Bispos chamam aqueles que escrutinam para a Ordem, após um tempo significativo de formação, manda realizar atos extraordinários de cura e libertação.

Viemos por povoações de cristãos, que se converteram há uns oito anos. Nestes sítios não vivem portugueses, por a terra ser muitíssimo estéril e extremamente pobre. Os cristãos destes lugares, por não terem quem os instrua na nossa fé, somente sabem dizer que são cristãos. Não têm quem lhes diga Missa e, ainda menos, quem lhes ensine o Credo, o Pai-Nosso, a Ave-Maria e os Mandamentos. Quando eu chegava a estas povoações, baptizava todas as crianças por baptizar. Desta forma, baptizei uma grande multidão de meninos que não sabiam distinguir a mão direita da esquerda. Ao entrar nos povoados, as crianças não me deixavam rezar o Ofício divino, nem comer, nem dormir, e só queriam que lhes ensinasse algumas orações. Comecei então a saber por que é deles o reino dos Céus.

Carta de S. Francisco Xavier em 1542

O Reino de Deus é de que o quer e busca. Ouvi alguém letrado em Teologia e Pastoral dizer, uma vez, que a tendência atual é querermos preparar bem as pessoas para celebrar os sacramentos e, depois de os termos ganho, tender a não acompanhar. Em vez disso, propunha celebrar com as pessoas que assim o querem de livre e boa vontade os sacramentos e, na continuidade, acompanhar os que os recebem no caminho da vida e da fé. Faz sentido, à luz quer do testemunho de São Francisco Xavier, quer do que aprendemos com Jesus Cristo no Evangelho. Diz-nos a sua história que Xavier se dedicou desde cedo às obras de caridade. Não será este voluntariado (boa vontade) que precisamos como fundamento de uma pastoral vocacional mais promissora, em vez de encontros mais ou menos intelectuais fechados sobre si mesmos? A este respeito, urge entrelaçar as iniciativas que já temos na Igreja e monitorizar se o caminho que se propõe a que adere a ele se constituiu como itinerário vocacional.

Como seria ímpio negar-me a pedido tão santo, comecei pela confissão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pelo Credo, Pai-nosso, Ave-Maria, e assim os fui ensinando. Descobri neles grande inteligência. Se houvesse quem os instruísse na fé, tenho por certo que seriam bons cristãos.

Carta de S. Francisco Xavier em 1542

Quanto plantamos uma semente ou uma pequena raiz, não queremos que ali seja imediatamente árvore e fruto. Requer-se tempo, após a sementeira e plantação. Requer-se preparação do terreno, mas se demoramos a semear e plantar, o terreno “foge” da predisposição que possuía para a plantação.

Mas, para o seguimento de Cristo, requer-se acompanhamento, pois

Muitos deixam de se fazer cristãos nestas terras, por não haver quem se ocupe de tão santas obras. Muitas vezes me vem ao pensamento ir aos colégios da Europa, levantando a voz como homem que perdeu o juízo e, principalmente, à Universidade de Paris, falando na Sorbona aos que têm mais letras que vontade para se disporem a frutificar com elas. Quantas almas deixam de ir à glória e vão ao inferno por negligência deles! E, se assim como vão estudando as letras, estudassem a conta que Deus Nosso Senhor lhes pedirá delas e do talento que lhes deu, muitos se moveriam a procurar, por meio dos Exercícios Espirituais, conhecer e sentir dentro de suas almas a vontade divina, conformando-se mais com ela do que com suas próprias afeições, dizendo: «Senhor, eis-me aqui; que quereis que eu faça? Mandai-me para onde quiserdes; e se for preciso, até mesmo para a Índia».

Carta de S. Francisco Xavier em 1542

Não é infrequente, para os que “habitam” as comunidades da Igreja, querer-se ou pedir-se serviços cómodos ou mais vistosos, onde sustentar um protagonismo que dê segurança emocional e reconhecimento que acaba por ser “pago” de alguma forma. Chega a haver, já, bons estudos de psicologia sobre isso, que servem de prevenção e de cura!

Urge a necessidade de discípulos-missionários preparados e animados em ser enviados para as periferias, não só para ensinar, mas também para cuidar, curando as pessoas nas situações mais diminuidoras da dignidade e felicidade humanas. Pelo que se percebe nesta crónica, muitas vezes se “fica pelas palavras e não aponta ações concretas para combater estas ameaças. Como nos diz o Papa Francisco na sua mensagem para o Dia Mundial dos Pobres ‘não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através dum envolvimento direto’. Eu por cá [diz o Papa] vou tentar arregaçar as mangas…’.

São Francisco Xavier é um daqueles exemplos em que a prática da caridade e o ensino são partes da mesma entrega e ação missionária, imitando o próprio Cristo.

Ajudar-nos-á a imitar, também, assim a opção de Jesus pelos mais desfavorecidos, voluntariando-nos e envolvendo outros, a partir da intenção de oração neste mês de dezembro: por organizações de voluntariado e de promoção humana que se comprometam pelo bem comum.

Conselhos do Santo do Dia

“Deixar-se afetar por” e “esperar a docilidade de” ─ não há outra forma de sonhar o encontro sempre original do primeiro anúncio de Jesus Cristo

Mt 4, 18-22; Festa de Santo André,

Este mês de novembro, que está a findar, é coroado com a Festa de Santo André, que acaba por dar-lhe o nome de “Mês de Santo André”, aberto pela celebração da Solenidade de Todos os Santos e, em particular, no dia 4, continuado pela celebração da memória de São Carlos Borromeu, padroeiro dos seminaristas, e sequenciado com a vivência da Semana dos Seminários.

Com Santo André destacamos duas dimensões fundamentais da fé, nem sempre lembradas em tempos de indiferença ao mistério cristão, que são (cf. testemunho de D. Manuel Pelino):

1ª ─ O entusiasmo pelo encontro com Cristo (estar com Cristo), experiência que André fez com João Evangelista, ambos discípulos que João Batista apresentou a Jesus, que os convidou a ir com Ele e a ver… Não basta teorias, doutrinas, ritos…, que nem sempre têm ou proporcionam este encontro pessoal com Cristo, como presença amiga.

2ª ─ A notícia do encontro com Cristo, transmitida pelo testemunho pessoal a outros, como André fez com seu irmão Simão. Portanto, a fé é um encontro e a fé leva-nos a conduzir outros até Jesus.

A estas duas dimensões, apoiado pelo Evangelho de hoje, juntaria uma 3ª que é: a sinodalidade do chamamento, tendo em vista a sinodalidade da missão (recordemos o júbilo de Jesus pelo envio dois a dois e o sucesso da missão dos 72 discípulos, no Evangelho de ontem).

Já o Papa Francisco nos garante que

A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quando se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo renasce sem cessar a alegria. (…) Da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído. (…) O bem tende a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e beleza procura, por si mesma, expansão; e qualquer pessoa que vive uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se.

EG n.º 1, 3 e 9

O Cristianismo é o anúncio de que Deus Se fez homem, nascido de uma mulher, num determinado lugar e num determinado tempo. O Mistério que está na raiz de todas as coisas quis dar-se a conhecer ao homem. É um Facto que acontece na história, é a irrupção no tempo e no espaço de uma Presença humana excecional. Deus deu-Se a conhecer revelando-Se, tomando Ele a iniciativa de colocar-Se como fator da experiência humana, num instante decisivo para toda a vida do mundo.

LUIGI GIUSSANI – STEFANO ALBERTO – JAVIER PRADES, Gerar rasto na história do mundo, Paulus, Apelação 2019, 13.

A excecionalidade da presença de Cristo era impressionante, para que aqueles que estavam da sua tarefa de subsistência primária ─ pois eram pescadores ─, de modo que não hesitaram em relativizar essa tarefa em favor do encontro que iria transformar as suas vidas para sempre.

Ainda ontem verificámos que a missão de Jesus é solidária, enviando os 72 discípulos dois a dois e alegrando-Se pelo êxito da missão, à luz do Espírito Santo. Hoje constatamos que Jesus também chama dois a dois para o discipulado, como se entre seguimento e missão não houvesse algum hiato, mas continuidade de um estar com o Mestre e ser enviado, na sequência de diversas etapas do viver cristão.

Há uma simpatia profunda que permeia o encontro daqueles homens que viriam a ser Apóstolos com Jesus ─ e que ultrapassa os laços de sangue ─ construída com a modalidade escolhida por Deus para que se desse o encontro: o acontecimento, não os nossos pensamentos ou criações mentais, sim, um acontecimento feito de vários factos inesperados. O “acontecimento” é diferente de evento (que representa um “vir de”); acontecimento representa sempre “ir a”, de modo que nunca se encontra fechado, mas aberto e solícito (cf. obra citada acima, 25). E o primeiro acontecimento da história é a Criação, a qual se desdobra em múltiplos acontecimentos até ao definitivo ato da Redenção.

Hoje, a palavra acontecimento está envolva em confusão, pois a coisa mais difícil de aceitar é que um acontecimento “seja aquilo que nos faz acordar para nós mesmos, para a esperança, para a moralidade” (ibidem, 27). Definindo: acontecimento é “a transparência do real emergente na experiência, enquanto proveniente do Mistério, ou seja, de alguma coisa que nós não podemos possuir e dominar” (ibidem, 26). Então, quanto tocados por uma presença assim, o homem deixa de identificar a totalidade da vida com algo parcial e limitado, dando-se conta que sozinho não consegue manter um olhar verdadeiro sobre o real.

O acontecimento cristão tem a forma de um encontro, num tempo e num espaço precisos, com uma diferença irredutível, qualitativa, que nos atrai, porque corresponde ao coração, passando também pela comparação e do juízo da razão, provocando a liberdade na sua afetividade. Como facto histórico totalizante, o encontro com Cristo não deixa ninguém indiferente, mas crente.

Como é que a memória do acontecimento passado se mantém viva na sua versão do presente? Através do reconhecimento da profundidade histórica desse mesmo encontro realizado na atualidade.

No encontro começa a fé, porque este traz consigo, veicula, torna presente, algo excecional, de não previsto, de não previsível, que investe radicalmente a vida, a ponto de lhe mudar o princípio do conhecimento, o princípio afetivo e a capacidade construtiva, de outra forma inefável, de Deus. (…) A palavra memória descreve, portanto, a história entre o acontecimento original presença inevitável, indestrutível, inegável: toda a riqueza do início se encontra no presente e é no presente que o homem descobre a divindade da origem. A memória é a história entre a origem e o agora.

Op. cit., 47-48.

Segundo “reza” o martirológio cristão, no calendário de hoje:

André, natural de Betsaida, irmão de Simão Pedro e pescador como ele, foi, primeiramente, discípulo de João Batista e, depois, seguiu a Cristo, a quem apresentou o seu irmão Pedro. Juntamente com Filipe, introduziu à presença de Jesus uns gentios que O queriam ver e foi ele também que indicou o rapaz que tinha os peixes e o pão. Segundo a tradição, depois de Pentecostes, pregou o Evangelho na região da Acaia, na Grécia, e foi crucificado em Patras. A Igreja de Constantinopla venera-o como seu mais insigne Patrono.

Como atrair, hoje, os nossos contemporâneos para Jesus Cristo? Propõe-nos Paulo: (1º) ter o nome de Jesus nos lábios (falar d’Ele); (2º) acreditar com um coração justo. Resumindo: vivendo diante dos outros com coerência entre o que dizemos de Jesus e a forma como praticamos a sua justiça. Só assim, o testemunho dos cristãos de hoje poderá servir de veículo para o encontro original e irredutível com Jesus Cristo.

Curiosamente, na ordem dos sentidos, primeiro conhece-se, depois é que vem o amor. Na ordem da experiência espiritual, primeiro acontece o amor, e só depois é que se procura conhecer ainda mais essa origem e objeto de amor. Na Igreja, temos de nos afastar da tentação de procurar que o “motor” seja meramente o saber, o poder, o fazer e o aparecer… dos mais fortes, os mais ricos, os mais hábeis, o mais célebre, o mais influente… que fazem de nós funcionários, em vez de discípulos-missionários (cf. FRANÇOIS-XAVIER BUSTILLO, no seu recente livro A vocação do padre perante as crises ─ A fidelidade criativa (Ed. do Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima 2022, 36). Portanto, só o muito deixarmo-nos amar e responder com o amor é que poderá levar-nos a saber mais e melhor acerca do mistério de Deus que nos envolve.

Anunciar o Evangelho com “pés formosos” é tatear com delicadeza o chão da realidade humana de hoje, persistindo naquilo que é essencial e fugindo da lógica mundana que cansa, reduz e não atrai os corações. A fraternidade humana universal poderá ser, na ótima de Francisco, um instrumento para desbravar novamente o caminho que leva até Cristo, que ajude a tirar os destroços de apegos que teimem em apagar a memória daquele encontro original que está no coração da história.

Numa das suas homilias sobre o Evangelho segundo João, São João Crisóstomo diz que

André, depois de permanecer com Jesus e de aprender muitas coisas que Jesus tinha ensinado, não escondeu o tesouro só para si, mas correu pressuroso à busca de seu irmão para o tornar participante da sua descoberta. Repara no que diz a seu irmão: Encontrámos o Messias (que significa Cristo). Vês de que modo manifesta tudo o que tinha aprendido em tão pouco tempo? Com efeito, por um lado manifesta o poder do Mestre que os tinha convencido desta verdade, e por outro lado manifesta o interesse e a diligência dos discípulos que desde o princípio se preocupavam em comunicar estas coisas. São as palavras de uma alma que deseja ardentemente a sua vinda, que espera Aquele que havia de vir do Céu, que exulta de alegria quando Ele Se manifestou e se apressa a comunicar aos outros tão grande notícia. A comunicação mútua das coisas espirituais é sinal de amor fraterno, de parentesco amigo e de afecto sincero.

Leitura do Ofício

Só a seguir a este afetar-se pelo seu irmão de André é que se segue a docilidade e a prontidão do seu irmão Pedro, com quem caminha na explicação de tudo o que vivenciou até que a este também arda o coração. “Deixar-se afetar por” e “esperar a docilidade de” ─ não há outra forma de sonhar o encontro sempre original no primeiro anúncio de Jesus Cristo.

Concluindo:
Em Mc 1, 16, André sabe ser irmão no encontro com o Senhor;
Em Jo 1, 40, André sabe ser mediador do encontro do irmão com o Senhor;
Em Jo 6, 8, André sabe ser um verdadeiro ecónomo da justiça de Deus informando sobre o menino que possui os pães e os peixes para a partilha;
Em Jo 12, 22, André é, também, mediador “fora da caixa” entre Jesus e os gregos que pedem para falar com Ele.

Não deixa de ser eloquente e irredutível a comunicação entre o nosso Santo Padre e o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, por ocasião desta Festa de Santo André, recordando o santo padroeiro da Igreja de Constantinopla e irmão de Pedro, prova viva da memória entre aquele encontro e seguimento originários da nossa mesma fé e seguimento de Jesus Cristo.

Na mensagem que lhe enviou hoje, o Papa Francisco, reconhecendo que as divisões são o resultado de ações e atitudes lamentáveis que impedem a ação do Espírito Santo, refere:

O pleno restabelecimento da comunhão entre todos os que acreditam em Jesus Cristo é um compromisso irrevogável para cada cristão, já que a “unidade de todos” (cf. Liturgia de São João Crisóstomo) não é apenas a vontade de Deus, mas também uma prioridade urgente no mundo atual. De fato, o mundo de hoje está precisando muito de reconciliação, fraternidade e unidade. A Igreja, portanto, deveria brilhar como “sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de toda a raça humana” (Lumen gentium, n. 1). (…) O diálogo e o encontro são o único caminho para superar os conflitos e todas as formas de violência.

A ânsia de quem verdadeiramente imita o Mestre é que os seus condiscípulos superem a sua missão, correspondendo aos desígnios do Espírito de Deus

Lc 10, 21-24; Is 11, 1-10

O júbilo espiritual de Jesus na sequência do envio missionário e da chegada dos 72 discípulos não deixa dúvidas de que ali se cumpriu o que muitos profetas gostariam de ver cumprido, uma missão que todo o judeu gostaria de ter visto e não viu. Este episódio ─ que é querido para Lucas e Mateus (cf. 10, 25-30) ─ faz-me lembrar a alegria de alguns de entre os padres idosos das nossas dioceses que, ao ver chegar novos irmãos presbíteros à vida pastoral ─ ou, então, ao comungarem a pastoral com a presença de uma variedade de ministros que vivem alegres a sua entrega no serviço ─ vislumbram, ainda sem ver, uma nova etapa pastoral para a qual eles deram o seu melhor, apesar de já não terem as forças que gostariam; assim, também, os padres mais novos se alegrem em perceber que é pela memória dos mais idosos que a sua força pode levar mais adiante os seus sonhos. A ânsia de todo o verdadeiro israelita era ver chegar a luz do Salvador. A ânsia de todo o verdadeiro servidor do Evangelho é que pelo seu “minus-ter” (ministério=serviço humilde) se cumpra o “magis-ter” de Deus (através do magistério da Igreja).

Esta exclamação de Jesus contrasta com os Seus sentimentos pela indiferença das cidades de Corazaín, Betsaida e Cafarnaum em não terem feito penitência diante dos milagres que Ele realizou (cf. Mt 11, 20-24; Lc 10, 13-15). A diferença com o episódio jubiloso é que é o mesmo Espírito Santo que está no envio feito por Jesus, na missão dos discípulos e no seu regresso vitorioso. A alegria é a marca de uma missão sinodal. Ao contrário, os habitantes daquelas cidades, não interagiram com a ação de Jesus, por mais extraordinária que fosse.

A análise destes dois episódios ─ em que Jesus manifesta quer imprecações, quer júbilo ─ pode perfeitamente ajudar-nos a avaliar a nossa pastoral entre a empatia à luz do Espírito Santo e a sua correspondente eficácia sinodal. Por vezes, aos mais sábios e inteligentes é dado experimentar um certo mal-estar existencial diante do insucesso de certas atividades pastorais para as quais gastaram muitas energias, com pouco efeito. Por vezes, é dado aos mais simples, com uma presença humilde, encetar caminhos que levam a uma verdadeira experiência de serenidade espiritual para todos os que estão envolvidos. A grande revelação da alegria manifesta-se na forma como todos nos relacionamos na missão e, depois, pela forma como todos partilhamos os frutos da missão: todos juntos e não uns por um lado e outros por outro, apesar de parte do mesmo projeto do Reino.1

O elenco de dons descrito pelo profeta Isaías ajuda-nos a pensar que sabedoria e inteligência não bastam para a missão. Precisamos de mais: a plenitude do Espírito Santo que estava em Jesus e que Ele partilhou com os seus ao enviá-los leva aqueles dons ainda mais longe. São precisos o conselho, a fortaleza, o espírito de conhecimento e o temor de Deus, para que não nos seja ocultada a verdade do seu Reino glorioso. E os dons levam aos frutos, passando pela tal penitência que Jesus esperava dos habitantes das cidades citadas. O convívio entre todos os animais e os seres humanos, sem deixar que as diferenças de raça e de cultura causem dano, é a causa de ânsia má para toda a humanidade (diferente daquela ânsia boa acima descrita, de quem espera que se cumpra a Palavra do Senhor). Quando a paz e a justiça ─ cantadas pelo salmista ─ que Jesus nos traz fizerem parte da bandeira de todos, então não haverá mais guerra entre os povos.

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1 A este respeito, FRANÇOIS-XAVIER BUSTILLO, no seu recente livro A vocação do padre perante as crises ─ A fidelidade criativa (Ed. do Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima 2022), dedica algumas páginas consideráveis sobre o não a dizer às vidas neuróticas, sugerindo que não deixemos que a nossa Igreja ceda à tentação de que o “motor” da pastoral seja o saber, o poder, o fazer, o aparecer… e o mais forte, o mais rico, o mais hábil, o mais célebre, o mais influente… que fazem de nós funcionários, em vez de discípulos-missionários de Jesus Cristo (pp. 36 e seguintes).

Apesar de e aproveitando todos os nossos esforços, Deus quer dar-nos uma morada celeste. Por isso, habitou no meio de nós!

2Cor 5, 1-10; Jo 11, 21-27 (Forma breve)

Os dias em que nos é dado viver nesta terra são uma busca daquilo que nos faz felizes e, ao mesmo tempo, a aquisição daquilo que nos faz viver a nossa dignidade fundamental. Ter uma família, uma morada e aqueles bens essenciais que compõem a experiência humana aqui. Esta é uma exigência do nosso corpo, no qual habita também a nossa alma, dentro dos limites do espaço e do tempo, assim como nas circunstâncias da história de cada pessoa e da sociedade em que estamos inseridos. Mas as nossas almas querem mais…

Pelas nossas almas, sabemos que estamos ou que estivemos aqui exilados, ambicionando habitar uma morada celeste, construída por mãos eternas. Por isso, como sugere o Apóstolo Paulo, confiamos no Senhor e empenhamo-nos a ser-Lhe agradáveis, procurando deixar que a Sua Palavra nos habite e, por ela, contribuamos para que este mundo seja melhor.

No Evangelho, contemplamos que a nossa ressurreição é uma promessa, porque o próprio Jesus, cuja encarnação uniu a nossa humanidade à sua divindade, é a ressurreição e a vida. Pois acontece que morremos, mas não é para sempre. Em Cristo, a morte não tema última palavra. Ele tem a chave da vida eterna, que nos veio trazer com palavras e gestos que se resumem no amor.

Para a Bíblia, o tempo é superior ao espaço. E Jesus aproveita-o bem, sem displicência!

Mt 8, 5-11; Is 4, 2-6

“Naquele tempo”, o encontro entre um centurião e Jesus. Aquele diz-Lhe que tem um servo gravemente doente; Jesus declara-lhe, sem perguntas ou comentários, que irá curá-lo. Aquele diz-Lhe que não é digno que entre em sua casa (ou seja, que há ali um aparente entrave moral) e que basta “uma só palavra” Sua, para que o seu servo fique curado; Jesus fica admirado por tão grande fé.

De facto, como nos inspira Abraham Joshua Heschel, um filósofo e teólogo judeu, dos maiores de todos os tempos, inspira-nos que, muitas vezes, a atenção que damos às diferenças patrióticas, culturais e materiais inibem-nos de dar ao tempo a sua nobreza e de entender o seu significado profundo, que nos permite dar mais atenção às gerações e aos acontecimentos.

Pois, neste trecho do Evangelho de hoje, naquele centurião humilde, Jesus vislumbra a promessa que se cumprirá nos “muitos” que virão sentar-se à mesa no reino dos céus. O Advento é um tempo, mais do que um espaço. Mais importantes do que as regras do espaço, são as regras do tempo. E neste tempo, Deus quer visitar-nos. E não só a nós! A todos… basta que em cada coração haja um dócil anfitrião!

O Mestre ultrapassa as fronteiras da religiosidade para alcançar a todos. Não há um só grupo que possa vangloria-se de possuir aquele “gérmen do Senhor” profetizado por Isaías. Se assim fosse, só os judeus é que teria sido salvos e nós não estaríamos aqui a fazer nada. É anunciado que o Senhor vem para “lavar” e “limpar” com o “sopro da sua justiça”, “Ele criará sobre todo o espaço… e sobre as suas assembleias uma nuvem de fumo durante o dia e um esplendor de fogo ardente durante a noite”. “Por cima de tudo, a glória do Senhor será uma cobertura e uma tenda” para servir de sombra, refúgio e abrigo.

Numa reportagem do Expresso, lê-se que Amã, na Jordânia, é refúgio precário para vidas que a guerra destrói. O ACNUR diz que estão na Jordânia 13.843 iemenitas, mas o Governo admite que o número real seja perto do dobro. Desde 2014, já morreram 377 mil pessoas no Iémen (metade à fome, metade em ataques) e 6 milhões estão desalojadas. O país é considerado palco da pior crise humanitária do mundo. Os pedidos de proteção internacional apresentados ao Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) por iemenitas são mais na Jordânia do que em qualquer outro país. As hipóteses de serem aceites são escassas. Para os que chegaram antes de 2019, o processo é demorado; para quem fugiu depois, já nem é hipótese: o Governo jordano mudou a lei para proibir o registo de novos candidatos a asilo não-sírios. Sem essa proteção, qualquer um pode ser deportado.

Em cada tempo de Advento litúrgico, é-nos dada a oportunidade de olharmos para o espaço e vermos que a Palavra de Deus continua a servir para descrever quer o drama da vida humana na busca pela sobrevivência, quer para nela ajudar a encontrar a luz que salva.

Hoje, peço para que os direitos pelos quais a ACNUR luta junto dos refugiados do Iémen ─ a saber: para que os refugiados registados e os que têm avaliações pendentes possam ter os mesmos diretos, não tendo que ser deportados ─ sejam considerados pelo governo da Jordânia, dando-lhes condições de sobrevivência pacífica e de trabalho. Oremos.

Dentro ou fora de ti, há um terreno que só tu podes cultivar na esperança

Is 2, 1-5; Rom 13, 11-14; Mt 24, 37-44 | I Domingo do Advento (A)

Um homem quis visitar um mosteiro por ter ouvido falar que lá existia uma horta muito bem cuidada. Tocou à porta e fez-se convidado visitar aquele mosteiro, no intuito de poder visitar a famosa horta, ao que o anfitrião rapidamente acedeu com uma simpática visita guiada. Chegados ao outro lado do edifício, o monge começou por apresentar as várias partes da horta: aqui estão as leguminosas, veja como estão bem verdinhas; ali estão as batatas, estão prestes a ser arrancadas da terra; acolá estão os morangos, veja como são grandes e a prometer muito sumo; veja a toda a volta as árvores de fruto, estão carregadinhas; não faltam aqui, claro, os feijões, para os tempos em que não pudermos comprar carne; também cultivamos algum centeio e trigo, pois somos nós que fabricamos aqui o nosso pão fofinho. E ainda temos ali algumas flores lindas, para embelezarmos o interior da nossa casa! E ervas para condimentar a comida e erva para fazer vários tipos de chá. Enfim, a horta era maior do que o visitante curioso suspeitava. Mas… chegados a uma parte escondida daquele afinal grande terreno de cultivo, depararam-se com uma porção significativa que não tinha nada cultivado e até parecia estar um pouco descuidado. O visitante pergunta: e, então, aqui, esqueceram-se desta parte de terreno? O monge sábio respondeu-lhe: nós deixamos sempre esta ou outra parte de terreno par anos lembrarmos sempre de uma coisa: dentro ou fora de nós, há sempre uma parte do terreno da vida que cada um de nós tem de cultivar com a sua criatividade e fidelidade aos dons de Deus. Com esta lição, o visitante saiu dali surpreendido como os monges daquele mosteiro aplicavam bem o tempo a cultivar o terreno exterior e, também, o interior, cheios de bons frutos e de boas lições.

Histórias Com Sumo

Penso que esta história nos pode ajudar a viver este Advento na perspetiva do encontro com Jesus Cristo que acontecerá no Natal que se aproxima. Porque vigiar não é ter meramente os olhos físicos abertos, mas ocuparmos o tempo livre com atividades que valham a pena, desde a alimentação ao descanso, ao convívio e ao trabalho, à oração e ao estudo, ao divertimento e, também, às boas ações em favor de quem mais precisa.

Cultivar algo de bom na vida, cuidando do que cultivamos, ajuda a cultivar, também, a nossa alma.

No meio da destruição, o discípulo de Cristo renasce das cinzas, pelo poder que vem de Deus

Ap 18, 1-2. 21-23; 19, 1-3. 9a; Lc 21, 20-28

Na linguagem escatológica do Evangelho, Jesus apresenta-Se como Aquele “Filho do homem” que virá numa nuvem, com grande poder e glória. Lucas, em vez da “abominação-desolação” utilizadas por Marcos e Mateus, relata o cerco dos exércitos de Roma para falar da destruição de Jerusalém. Pelo ano 70, alerta as comunidades para a realidade do sofrimento causado pelas catástrofes naturais e pelas guerras. Estes males são vistos como fruto da recusa de Deus, da infidelidade do povo. São as forças do mal que querem dominar a história e a impor o seu senhorio.

Jesus, se por um lado, avisa os que se podem movimentar para que fujam, por outro declama “ais” para as mães e crianças que não se podem mover, qual panorama que hoje vemos espelhado nas guerras. E antecipa que até o pavor pode ser causa de morte, porque os sinais não são só terrenos, mas também celestiais. Por isso, seja em que circunstância for, convida a erguer-se e levantar a cabeça, para ver a libertação que está próxima na sua vinda. Ou seja, diante dos males que acontecem e das situações adversas, Jesus pede-nos que não fiquemos parados, seja em que nível humano, social ou espiritual for, mas que vamos ao encontro de quem precisa de assistência. São Paulo diz-nos que “os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há de revelar-se em nós”.

Naquele anúncio profético da destruição de Jerusalém está claro o anúncio do cumprimento da profecia de Cristo sobre a ruína daquela cidade, provocada pela “meretriz”, que é a Roma que persegue os cristãos. A visão apocalíptica de João faz-nos vislumbrar uma justaposição entre a glória da vinda do Salvador e a sua luz que já está presente na liturgia da Igreja, entre o fumo das chamas da oração que sobem e o cordeiro servido no banquete nupcial. O choro de outrora sobre Jerusalém, transforma-se, agora, em júbilo pela sua vitória.

Esta liturgia, que celebramos com o patrocínio dos mártires Santos André Dung-Lac e companheiros, canonizados por João Paulo II em 1988, é-nos útil para contemplarmos na vinda de Cristo a vitória da vida sobre a morte e da justiça sobre a injustiça. O anúncio escatológico do fim dos tempos não deve ser motivo de medo para os seguidores de Jesus, mas um convite à perseverança e alegria neste poder consumador de Deus. Entretanto, vivamos aquele dinamismo de ressurreição nos gestos de “erguer” e “levantar”, também presentes no lema que nos anima para a vivência da Jornada Mundial da Juventude. Que este tempo novo de Advento que está prestes a começar nos seja propício para uma transformação animada pelo Espírito de Jesus. Esperemos, vigilantes e ativos, a sua vinda gloriosa!

Abandono total no amor: o que permite aos discípulos não terem medo de dar testemunho (martírio) do nome e do Reino de Jesus

Ap 15, 1-4; Lc 21, 12-19

Um mártir, por definição, é aquele que com a sua vida dá testemunho do domínio de Deus contra um poder que nega este direito divino. Na espiritualidade hebraica, o martírio é descrito com a expressão quiddush ha-shem: “a santificação do nome”. Por isso é que Jesus sublinha a causa do testemunho que os discípulos darão: “por causa do meu nome”. E o argumento em questão é o testemunho público: a perseguição é pública porque o testemunho é público. A palavra martírio serve para sintetizar o ato de testemunhar e a ação de morrer pelo nome de Jesus. Assim foi a morte de Jesus na Cruz: causa e efeito da salvação.

Os três primeiros séculos do cristianismo foram particularmente assinalados pelo martírio de sangue: Jesus de Nazaré, Estêvão, Tiago (Pedro, Paulo… Clemente I, etc.). A certeza do primado incondicional do Reino de Deus encontrou-se com as pretensões divinas do imperador. Nas comunidades cristãs, que naquele tempo eram ainda pequenas e jovens, estas execuções cruéis deixaram sinais profundos, sinais que, todavia, serviram precisamente para incutir a fé indiscutível no domínio de Deus de forma indelével, no coração do império romano. Não é estranho, portanto, que a espiritualidade dos mártires pertença ao próprio coração da espiritualidade cristã.

WAAIJMAN, K., La Spiritualità. Forme, Fondamenti, Metodi, 326-327.

No Evangelho, Jesus sugere aos seus discípulos um total abandono a Deus. A perfeição alcançada pelo martírio ou testemunho consiste no amor.

Esta verdade não deriva tanto do facto de que o amor seja a virtude mais alta, quanto sobretudo do dado fundamental que a própria perfeição consiste no total abandono. Um exemplo iconográfico da Sagrada Escritura é o que está presente em 1 Reis 22, 34: o arqueiro está perfeitamente concentrado em tender o seu arco; ou em 2 Sam 16, em que o rei David está perfeitamente abandonado à sua dança ritual. A perfeição é, por sua natureza, abandono completo sem nenhum traço residual de apego a si mesmos, como a mão esquerda não deve saber o que faz a direita quando dá alguma coisa (cf. Mt 6, 3). O dom é perfeitamente absorvido no escondimento de quem dá. Isto é o que carateriza a perfeição de Deus, que faz descer a chuva sobre justos e injustos, apresentada como exemplo a seguir no discurso da montanha: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” (Mt 5, 48), bondade ilimitada que permite aos pássaros do céu de viver e as flores dos campos de florir (cf. Mt 6, 25-34). O amor perfeito está precisamente lá onde esse se deixa fluir livremente e não tem absolutamente mais algum temor por si mesmo (cf. 1 Jo 4, 18).

WAAIJMAN, K., La Spiritualità. Forme, Fondamenti, Metodi, 388.

A ligação intrínseca entre perfeição e martírio é esta: abandono total no amor. O martírio é perfeição porque o discípulo demonstrou a perfeita obra do amor. Martírio e amor têm o mesmo pano de fundo: tornarmo-nos espirituais, não de forma isolada, mas procurando o mesmo interesse pelo bem de todos. Teresa de Ávila dizia:

É evidente que a suma perfeição não consiste em deleites interiores, nem em grandes arrebatamentos, nem visões, nem no espírito de profecia, mas na conformidade do nosso querer ao de Deus, de tal modo que não haja alguma coisa que reconheçamos da sua vontade que não seja de nós querida resolutamente.

As fundações, 5, 10

Este desejo de perfeição corre pela história da espiritualidade como se fosse um fio de ouro, que serve para marcar a fronteira visível daqueles que permanecem perseverantes na fidelidade criativa a Jesus e ao seu Reino. Aquele fio é feito daqueles cabelos que jamais se perderão das cabeças daqueles que são marcados pelo selo de Deus. Sem desrespeitar ou condenar quem queira obsessivamente fazer implantes capilares por razões estéticas, para os discípulos de Jesus, com pouco ou mais cabelo nas suas cabeças, esses finíssimos fios simbolizam aqueles pontinhos de uma fita métrica infinita do amor sem medida. Esta ordem ou medida infinita de amor ultrapassa toda a estética! Deus aproveita ou coleciona todas as nossas boas ações, por mais pequenas que sejam, como se de filigrana se tratasse!!