A verdadeira relação jamais implica a definitiva separação; os corpos sofrem a partida, a Liturgia antecipa-nos a chegada

Job 19, 1. 23-27a; 2 Cor 4, 14 – 5, 1; Mt 11, 25-30 ─ Na Comemoração dos Fiéis Defuntos (Liturgia)

O jardineiro de um príncipe persa correu para o seu senhor, dizendo: “Senhor, acabo de ver a morte no pátio, e ameaçou-me. Empresta-me um cavalo, para poder fugir depressa para Ispaão; deste modo, a morte não me alcançará.” O senhor satisfez o desejo do seu jardineiro, que imediatamente cavalgou para Ispaão. Pouco depois, também o príncipe encontrou a morte, e perguntou-lhe: “Porque é que ameaçaste o meu jardineiro?” A morte respondeu: “Eu não o ameacei. Apenas olhei para ele atónita, pois hoje à noite tenho de ir buscá-lo a Ispaão.”

Esta pequena história coloca-nos diante do facto inevitável da morte, por mais que nos escondamos dela. O pensamento sobre a morte tem o condão de nos paralisar, mas também de nos libertar. Saber que um dia vamos partir deste mundo, sem sabermos quando, onde e como, pode ajudar-nos a aproveitar o facto de estarmos vivos agora e de aproveitar melhor o tempo que nos é dado para o vivermos da melhor maneira possível.

O sentido de celebrarmos os fiéis defuntos na Liturgia tem o propósito de nos inserir no mistério de Deus, numa tentativa de compreendermos o mistério da vida humana, uma vez que a liturgia terrena é imagem da liturgia celeste. Celebrar esta liturgia tem a finalidade não só de encontrarmos consolação e conformo para o sofrimento da separação, mas também para aprendermos algo de novo sobre as realidades futuras.

No Evangelho do primeiro elenco de leituras de três propostos para este dia, sublinho três aspetos que nos podem ajudar a viver na esperança da ressurreição:
(1.º) A ação de graças de Jesus ao Pai pela sabedoria que está nos simples;
(2.º) O abraço entre o Filho e o Pai, em cujo âmago Jesus nos quer incluir, com mansidão e compaixão;
(3.º) A leveza do amor em que Jesus nos quer ver, livres de todo o peso que não nos deixa acolher esse mesmo amor.

Tanto na vida como na morte, o encontro com Jesus é sempre um momento de alívio e conforto, diante da experiência da dor, do cansaço e opressão. A Eucaristia é um destes momentos de intimidade em que nos podemos sentir abraçados por Jesus e aliviados com a sua Palavra e gestos de comunhão com Ele e com os irmãos, mesmo com os que já partiram e aqui evocamos em comemoração.

O testemunho de Job diante dos descrentes no sofrimento é o de que, aconteça o que acontecer, o sofrimento e a morte não têm a última palavra. Ao dizer “na minha carne verei a Deus”, faz-nos desejar, também, ver a Deus pela fé a partir da experiência dos nossos corpos, a partir da caridade em que participamos.

Paulo convida-nos a não desanimar, porque embora “o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia”. E garante-nos que a ligeira aflição do tempo presente são incomparáveis ao peso eterno da glória. Por isso, olhemos para as coisas invisíveis, que são eternas. Porque à medida que esta morada terrena vai sendo desfeita, vai-se abrindo diante de nós a habitação eterna.

A essência da santidade

Ap 7, 2-4. 9-14; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12a ─ Na Solenidade de Todos os Santos (Liturgia)

No capítulo III da Exortação Apostólica “Alegrai-vos e exultai” sobre o chamamento à santidade no mundo atual, o Papa Francisco ajuda-nos a refletir sobre a “essência da santidade” à luz do Mestre, garantindo-nos que

não há nada de mais esclarecedor do que voltar às palavras de Jesus e recolher o seu modo de transmitir a verdade. Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças. Estas são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionar sobre «como fazer para chegar a ser um bom cristão», a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida.

GE 63

É assim que o Santo Padre nos ajuda a olhar e a acolher a cidadania que os cristãos que peregrinam na terra partilham com aqueles que já habitam nos céus. Esta comum cidadania é possível porque a palavra “feliz” ou “bem-aventurado” é sinónimo de santo, “porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade” (cf. GE 64).

O primeiro aspeto do discurso de Jesus e, por conseguinte, o seu rosto expresso na humanidade que hoje lhe é fiel é o ser contracorrente com as modas que nos são impostas pela sociedade “e, embora esta mensagem de Jesus nos fascine, na realidade o mundo conduz-nos para outro estilo de vida”. Não sendo um compromisso leve ou superficial, só as podemos viver se o Espírito Santo nos permear com toda a sua força e nos libertar da fraqueza do egoísmo, da preguiça, do orgulho (cf. GE 65).

O Papa convida-nos a deixarmos que, novamente, as palavras do Senhor nos “fustiguem”, desafiando-nos a uma mudança real de vida, para que a santidade não se fique em palavras (cf. GE 66). Que desafios são estes? Eis o elenco:

1) Ser pobre no coração
2) Reagir com humilde mansidão
3) Saber chorar com os outros
4) Buscar a justiça com fome e sede
5) Olhar e agir com misericórdia
6) Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor
7) Semear a paz ao nosso redor
8) Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas

A grande “regra de comportamento” que constrói a santidade que agrada a Deus e na base da qual seremos julgados são as obras de misericórdia (cf. GE 95; Mt 25, 35-36).

Deste modo ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase. Dizia São João Paulo II que, «se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar». O texto de Mateus 25, 35-36 «não é um mero convite à caridade, mas uma página de cristologia que projeta um feixe de luz sobre o mistério de Cristo». Neste apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo.

GE 96

Fugindo das ideologias que mutilam o coração do Evangelho (entre o mundanismo espiritual e o espiritualismo desencarnado; cf. GE 100-103), somos convidados a celebrar o culto que agrada a Deus que, sem esquecer o primado da relação com Deus, tem como critério de avaliação o que fizermos pelos outros (cf. GE 104), critério esse que São Tomás de Aquino não hesitou em afirmar: “mais do que os atos de culto, são as obras de misericórdia para com o próximo” (GE 106), não obstante as nossas fraquezas, apesar das quais, como afirmava Santa Teresa de Calcutá, “Ele abaixa-Se e serve-Se de nós, de ti e de mim, para sermos o seu amor e a sua compaixão no mundo, apesar dos nossos pecados, apesar das nossas misérias e defeitos. Ele depende de nós para amar o mundo e demonstrar-lhe o muito que o ama. Se nos ocuparmos demasiado de nós mesmos, não teremos tempo para os outros” (GE 107).

A força do testemunho dos santos consiste em viver as bem-aventuranças e a regra de comportamento do juízo final. São poucas palavras, simples, mas práticas e válidas para todos, porque o cristianismo está feito principalmente para ser praticado e, se é também objeto de reflexão, isso só tem valor quando nos ajuda a viver o Evangelho na vida diária. Recomendo vivamente que se leia, com frequência, estes grandes textos bíblicos, que sejam recordados, que se reze com eles, que se procure encarná-los. Far-nos-ão bem, tornar-nos-ão genuinamente felizes.

GE 109

Da refeição ao banquete, dos que podem retribuir aos que não podem, da felicidade que entretém à fidelidade que ressuscita

Filip 2, 1-4; Lc 14, 12-14

Hoje, diante deste Evangelho, tenho duas moções espirituais a partilhar:

A primeira é a do contraste entre as refeições humanas que frequentamos, quase na totalidade, entre familiares e amigos, e o banquete do Reino que Jesus inaugura, em que nos chama a participar sem ter de retribuir.

A segunda é a de que ressuscitar implica ir adquirindo o modo de existência que Jesus nos convida a antecipar aqui na terra: se na ressurreição dos mortos nos será retribuído por termos convidado pobres e aleijados graciosamente, então ser feliz no Reino implica irmos “ressuscitando” com eles à mesa, da Eucaristia litúrgica à Liturgia da vida, reciprocamente, senão, viveríamos ou na hipocrisia (rito eucarístico com números mas sem caridade) ou no assistencialismo que quer ter sempre pobres (caridade sem Eucaristia).

Para que isto possa acontecer, precisamos de ir “morrendo” para uma existência meramente baseada nas relações familiares. A “retribuição” do reino é a própria ressurreição. Quer dizer que viver para os outros, “banqueteando” a vida dos mais pobres faz parte do processo da ressurreição. O ato de ressuscitar implica o gerúndio que antecipa o rito de passagem da morte à vida: ressuscitando a partir de uma vida nova que nos é já proposta nesta terra.

Quando na cruz Jesus diz “tudo está consumado”, quer dizer que é definitiva aquela entrega que Ele foi preparando pelo caminho da sua Encarnação. Para nós, está colocado um desafio: o de perdermos a vergonha de dar testemunho, como nos é sugerido com o tema desta Semana dos Seminários. Completar a alegria do Apóstolo, como escutamos na primeira leitura, implica levá-la aos que choram, considerando-os superiores.

O Papa Bento XVI, na Carta Encíclica Caritas in Veritate, lembra-nos a mais valia de termos os desvalidos à mesa:

No n.º 35b, diz-nos que os pobres não devem ser considerados um “fardo”, mas um “recurso”, pois o mercado não pode bastar-se a si mesmo e precisa das “energias morais” dos sujeitos.

O n.º 48 ajuda-nos a refletir que a existência de pobres são uma declaração de incompetência quanto à distribuição dos dons ou bem comum que Deus destinou para todos.

Numa outra ocasião, o Papa Bento XVI lembrou-nos que o que dá ao pobre não faz deste um inferior. Aquele que faz caridade sabe que não é superior ao seu semelhante pobre, sabendo que este lhe mostra o rosto do próprio Cristo que Se identificou com ele.

Dedicada à causa dos pobres, Santa Teresa de Calcutá, um dia foi surpreendida por uma jornalista que, contemplando a delicadeza com que os tratava, lhe disse: «Madre, eu não faria isso nem por um milhão de dólares», ao que a Santa de Calcutá respondeu: «Eu também não o faço por um milhão de dólares; faço por amor a Jesus».

Os meios de comunicação divulgaram recentemente um casal de idosos teve a infelicidade de serem despejados e despojados de um apartamento em Arroios-Lisboa, onde vai ser reconstruido alojamento local, e andavam pelas ruas a deambular e chorar suas tristezas. Foram visitados na Gare do Oriente, onde dormiam há vários meses, por Marcelo Rebelo de Sousa. Junto deles e de telefone na mão ali mesmo fez os seus contactos e o assunto ficou parcialmente resolvido.

Entretanto, recusaram soluções de emergência. Não admira, uma vez que o seu êxodo foi provocado por injustiças e indiferenças, uma vez que sendo idosos e doentes, foram forçados a sair da sua habitação onde viviam a fidelidade através do corte de luz e da água, como se pode ler nesta petição.

Num destes dias, foi a público a notícia de que é possível que os utilizadores da TV por TDT deixem de ter acesso a este meio vulgar de comunicação social, que já é fruto do pagamento de impostos (nomeadamente na fatura da eletricidade, no chamado imposto de audiovisuais). Serão excluídos da informação ou obrigados a transitar para um serviço caro de comunicação?

Hoje peço o Espírito Santo, para que nos ajude a encurtar a distância entre o Evangelho e a vida, e que nos dê a alegria de vivermos a prática da comunhão através da caridade, através da harmonia entre os nossos sentimento e pensamentos (como nos inspira o Apóstolo), começando por acolher os pobres e aleijados no coração, com humildade e gratidão. Por esta intenção, oremos irmãos!

O caminho para Jerusalém, entre a mãe-galinha e o porco-espinho, a paz ou a guerra

Ef 6, 10-20; Lc 13, 31-35

O Evangelho de hoje tem sabor a admonição pascal. Nota-se Jesus a caminhar para Jerusalém, plenamente consciente do que O espera. Responde a quem lhe dá notícias de guerra com o anúncio da paz.

Jesus vai construindo a sua agenda ─ “no hoje, amanhã e depois de amanhã” ─ em que os dias são passos do seu caminho que tem como alvo a cidade santa de Jerusalém. A explosão que ali vai provocar não tem nada de violência, mas de amor eterno. A única consequência irreversível é instauração definitiva do Reino de Deus, que é de fraternidade, justiça e paz ─ valores nem por todos e nem sempre reconhecidos e assumidos na prática.

A paz é sinónimo de entrega definitiva ─ naquele que é o “dia” anunciado para se cantar “Bendito o que vem em nome do Senhor!” Também é assim no itinerário vocacional pessoal de todos nós: a partir do momento em que a sucessão dos dias se dirige para aquele dia definitivo e irreversível, então não há dúvidas de que o coração não conhece o abandono de Deus, como se prevê da casa de Israel (personificada no Templo de pedras). Um dia cantarão, possivelmente, o cântico com aquele título “Bendito o que vem em nome do Senhor!” na entrada solene da tomada de posse de um pároco. Uma entrega definitiva começa aí, na missão de todos os dias, estando conscientes do horizonte que nos faz estar aí.

Os testemunhos vocacionais que mais admiro são os daqueles consagrados e consagradas (na vida presbiteral, na vida religiosa, na vida matrimonial, neste ou naquele serviço profissional que se exerce com a consciência do Batismo), que estão em ambiente de guerra (não só na Europa, mas lá onde existem focos de guerra que são muitos, infelizmente). Estas pessoas não se afastam, aliás mais reforçam a sua presença com a firmeza da fé, dizendo algo que me atrai as lágrimas aos olhos: “Foi para isto que disse sim no dia da ordenação ou votos perpétuos!”

Para que no nosso caminho vocacional pessoal saibamos responder como Jesus àqueles que nos querem desorientar ou meter medo, procurando desviar-nos da meta, podemos fazer como o Apóstolo nos sugere: revistamo-nos da “armadura de Deus”, para podermos resistir “às ciladas do demónio”. E não devem ser tanto os homens de carne e osso que nos devem meter medo, mas os “espíritos do mal”. Paulo adverte-nos a que resistamos ao “dia mau”, que aparece na Palavra de hoje em contraposição ao “dia bom” que Jesus anuncia. E exemplifica a armadura:

Estar firmes e orar: ser sentinelas!

Caminhar, não meramente para chegar, mas para ser conhecido no meu verdadeiro ser

Ef 6, 1-9; Lc 13, 22-30

Uma vez que Jesus ensina a todos sobre o Reino de Deus por palavras e comparações simples, está implícito de que habitar nele é uma proposta para todos. Prova disso é a Palavra do Senhor que diz “virão muitos do Oriente e do Ocidente, no Norte e do Sul e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus”. Senão, teria falado com palavras “caras” ou utilizando linguagem encriptada.

A “semente” com a qual Jesus falava deste Reino está “grávida” do mesmo. E já contem o “fermento” como princípio ativo para transformar quem o queira acolher, para vir a dar frutos de vida eterna.

No aqui e agora, a questão que mais preocupa Jesus é se cada um de nós quer fazer parte desta aventura e sobre o modo a empreender para conseguir fazer parte.

No Evangelho de hoje contemplamos o diálogo entre Jesus e “alguém” que Lhe pergunta “Senhor, são poucos os que se salvam?”. A resposta do Mestre foge de estatísticas e concentra a atenção do seu interlocutor no modo como alcançá-lo.

Uma das traduções do verbo esforçar-se em inglês que considero mais interessante neste contexto é “to run for”. Porque as palavras de Jesus inserem-se no seu caminho para Jerusalém, que Ele assume com seriedade e numa pressa que aprendeu de sua Santíssima Mãe (que o viveu entre a anunciação e a visitação, entre Belém e o Egito, entre Nazaré e Jerusalém). Esta “pressa” não se esquece dos outros no caminho! Jesus, enquanto caminha, vai ensinando por cidades e aldeias, o sentido do caminho certo. O motor é a urgência de quem se apressa a cuidar dos outros, sabendo que por ali está o horizonte da vida.

Portanto, o esforço não é bem um empenho individualista, mas cooperativista. A parábola do dono da casa sugere, precisamente, uma pertença à qual precisamos de corresponder com um tipo de comportamento condizente com o Reino de Deus. A expressão “não sei de onde sois” é uma provocação para que não façamos da vida da fé um mero convívio familiar, porque a certificação de que Deus nos conhece é o cumprimento da sua vontade.

O verbo transitivo esforçar-se, no dicionário, tem, também, o significado de “dar coragem a”, “animar”, “reforçar” e “confirmar”. Portanto, Jesus, ao exortar “esforçai-vos por entrar pela porta estreita”, também poderá querer dizer-nos: animai-vos a irdes por um caminho solidário e não solitário. Como verbo pronominal significa “fazer esforço”, “encher-se de coragem” e “empregar toda a força, toda a energia e diligência para conseguir alguma coisa”. Portanto, a força é importante e os bons condicionalismos também ajudam. Por isso é que o Senhor Jesus ocupava o seu caminho até Jerusalém a ensinar. E o seu ensino é conteúdo e método! O caminho é direção e escola de salvação ao mesmo tempo!

Esta tensão entre a oferta do Reino e os requisitos para lá chegar é algo que me lembra a relação entre o meu ser paciente e o meu médico de família:
Quando vou à consulta, sou colocado diante de um quadro realista da minha situação e também diante do que otimiza a minha saúde para durar o maior número de anos possível sem problemas graves de saúde.
Juntamente com esta quadro, adquirido com análises (endócrinas), leituras biométricas (peso, tensão, etc.) e declaração de hábitos, o médico dá alguns conselhos práticos e a medicação adequada.
Diante do horizonte de ter a melhor saúde possível e dos procedimentos para lá chegar, cabe-me a mim tomar a decisão por não me desviar desse caminho, por mais que custe.

Empreender um caminho, seja ele qual for, que se identifique com “Jerusalém” (sinónimo de vocação cristã), requer pôr em prática alguns verbos ou atitudes acessórias daquele “esforçar-se” ou “animar alguém a”. Encontramo-los na carta de São Paulo aos Efésios e podemos contemplá-los na seguinte nuvem de palavras. Assim se caminha e se ajuda a caminhar para um objetivo nobre, não para chegar por chegar, mas para chegar bem; não por mero conhecer, mas para sermos verdadeiramente conhecidos.

O ânimo espiritual não é só benefício colateral ou consequência do bom comportamento ou do esforço cristão; é, também, causa ou alimento do empenho missionário pelo qual passa necessariamente qualquer vida cristã. O amor de Deus é assim: envolve-nos em todo o caminho, desde o antes e até sempre!

Um Reino dinâmico com uma só raiz e muitas ramificações

Ef 5, 21-33; Lc 13, 18-21

Admiro como nas comunicações digitais de hoje, a partir de um pequenino feixe de fibra ótima feito de um simples núcleo de vidro, é capaz de partilhar em milésimos de segundo tantas informações audiovisuais para um inúmero conjunto de plataformas informáticas; o mesmo se diga dos satélites para a comunicação intercontinental e para a orientação através dos mapas das estradas. Esta imagem ajuda-me a compreender o Evangelho, no qual hoje, usando comparações com as imagens do seu tempo, Jesus ajuda as pessoas a compreender o Reino de Deus.

As imagens da semente e do fermento ainda são muito atuais, hoje em dia, embora necessitemos, junto das gerações mais jovens, de usar outras imagens para os aproximar do mesmo princípio e horizonte da mensagem do Reino de Deus. No entanto, as comparações utilizadas por Jesus escondem dois elementos do Reino úteis para que nos sintamos envolvidos por ele e o habitemos com liberdade e entusiasmo: a semente designa que o Reino foi lançado por Deus nos nossos corações e recebe inputs (no dic. “introdução de dados”; na psic. “registo de estímulo”) em tudo o que foi criado por Deus; o fermento designa a força para que esses inputs se possam “germinar” no nosso interior e vir a dar frutos de vida eterna.

Mas estas comparações todas não podem ser em vão, quer dizer, não servem só para nos deixarmos conduzir como que numa visita de estudo na contemplação de uma paisagem. O objetivo é a provocação de outputs (psic. “produção de comportamento”) que nos impliquem a colocar “as mãos na massa” de forma a sermos a interventivos ou cooperantes na transformação da vida terrena. O Reino de Deus, entre a semente e os frutos, é uma construção que nos implica a todos, não só como beneficiários que se abrigarão na árvore e se alimentarão dos frutos, mas também aqueles que podem ajudar a cuidar da árvore, através de comportamentos de uma ecologia integral.

Na carta encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco apontou-nos São Francisco como “o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade” (LS 10). E diante da necessidade de defender o trabalho, escreveu:

Em qualquer abordagem de ecologia integral que não exclua o ser humano, é indispensável incluir o valor do trabalho, tão sabiamente desenvolvido por São João Paulo II na sua encíclica Laborem excercens. Recordemos que, segundo a narração bíblica da criação, Deus colocou o ser humano no jardim recém-criado (cf. Gn2, 15), não só para cuidar do existente (guardar), mas também para trabalhar nele a fim de que produzisse frutos (cultivar). Assim, os operários e os artesãos «asseguram uma criação perpétua» (Sir 38, 34). Na realidade, a intervenção humana que favorece o desenvolvimento prudente da criação é a forma mais adequada de cuidar dela, porque implica colocar-se como instrumento de Deus para ajudar a fazer desabrochar as potencialidades que Ele mesmo inseriu nas coisas: «O Senhor produziu da terra os medicamentos; e o homem sensato não os desprezará» (Sir 38, 4).

LS 124

Estas imagens do Reino também nos podem ajudar a compreender melhor o mistério da vocação a que fomos chamados, ao sermos plantados nesta experiência terrena. A relação entre o homem e a mulher, com palavras nem sempre fáceis de entender ou aceitar, por parte de algumas pessoas, dão-nos os verbos com que podemos, sem discriminar ninguém, colaborar com o Criador no cuidado da criação da qual fazem parte os nossos corpos: amar, respeitar, submeter-se ao bem do outro. Esta é a melhor definição de castidade que conheço e que pode vir a dar belos frutos de vida eterna. O modelo, porém, não é o da relação entre o homem e a mulher, mas o da relação entre Cristo e a sua Igreja. A possibilidade de relação entre o homem e a mulher é comparável a uma “semente”; a relação entre Cristo e a Igreja tema força comparável à do “fermento”. Independentemente das vicissitudes históricas no meio das quais vivemos, a germinação do Reino nas nossas vidas não tem limites, pois a caridade de Cristo não desiste de nos amar, nem de nos aceitar na colaboração na construção do seu Reino no dia-a-dia, a partir do caminho pessoal para ser feliz ajudando os outros a ser felizes. Esta é a melhor definição de vocação que conheço.

Nem trocar a humanidade pela animalidade, nem dividir os humanos entre sujeitos e objetos

Ef 4, 32 – 5, 8; Lc 13, 10-17

A Palavra de hoje faz-me regressar ao Twitter em que D. Manuel Linda publicou a seguinte afirmação:

Todos os contactos e relacionamento criam especiais laços de amizade. Mas os laços de sangue entre pais e filhos possuem uma tal força que nada os desfaz. Nunca os substituamos pelo apego a um qualquer animal de estimação, típico das sociedades decadentes.

D. MANUEL LINDA, Twitter

No site da sua diocese publicou uma reflexão sobre “Laços“, onde nos faz contemplar uma disparidade “de culto” entre relacionamentos familiares e relacionamentos com animais, “para desgraça de quem troca a humanidade pela animalidade”. As afirmações provocaram reações que se podem ler no Expresso.

Do tempo de Jesus para o nosso tempo, o contexto pode ter mudado muito, mas os problemas humanos continuam os mesmos. Mudou a forma de reação dos adversários de Jesus: outrora envergonhados pelas suas afirmações/mais tarde morto; hoje-em-dia, seria ridicularizado/outra forma de “morte”.

No seu recente artigo sobre Antropocentrismo, publicado no Ponto.SJ e republicado pelo Observador, o teólogo João Duque reflete:

Assumindo configurações próximas aos denominados estudos decoloniais, feministas e antirracistas, assim como à base teórica de muitos movimentos ecológicos, estas formas de pós-humanismo pretendem afirmar a inserção dos humanos na rede de relações que inclui todos os agentes planetários, com especial relevo para o conjunto dos seres vivos. Para isso, na maior parte dos casos, assume-se a realidade contínua da vida como base de todos os existentes, nas suas diversas configurações. Nesse sentido, as diferenças que possa estabelecer-se entre os seres vivos serão secundárias relativamente à sua pertença comum ao processo vital que tudo atravessa, como fluxo autorregulado e autopoiético. Trata-se, portanto, de um biocentrismo (ou zoocentrismo) fundamental, ou de um vitalismo monista de base, que relativiza todas as diferenças entre humanos e não humanos.

DOUTOR JOÃO DUQUE

O humanismo, se alicerçado na antropologia bíblica, poderá navegar até a um porto seguro, onde se vivem os valores da fraternidade, da justiça e da paz. Se, por outro lado, foge a um sério confronto com a antropologia bíblica, transforma-se num antropocentrismo que vai mudando de “pele” com camadas históricas que nos mostram vários desvios daquilo que se poderia sonhar, à luz da Sagrada Escritura, ser a experiência da dignidade humana. O próprio João Duque resume que “este paradigma, que considera os humanos como proprietários do resto do mundo, estende-se à relação entre os humanos, acabando por definir uns como sujeitos e outros como objetos”.

Jesus denuncia este desvio na pessoa do chefe da sinagoga que não aceitava que Jesus pudesse livremente curar aquela mulher doente havia 18 anos, que curvada não podia endireitar-se. Era obrigada, em dia de sábado, em que se deveria celebrar a dignidade humana, sob o jugo daquela doença. Já os bois e jumentos podiam, em dia de sábado, ser levados pelo seus donos a saciar-se.

A alegria da multidão é fruto deste sinal há muito esperado, da libertação de uma lei que subjugava em vez de libertar do que desdignifica a vida humana. Obviamente, ser humano não pode implicar o mau trato de animais domésticos e da natureza, pois todos fazem parte da criação. Também isso desdignifica a vida. Porém, acontece o contrário e frequentemente: políticas ideológico-económicas ou postulados religiosos pouco fundamentados que favoreçam menos o ser humano que os animais domésticos.

Quando o Apóstolo Paulo exorta aos Efésios “Irmãos: Sede bondosos e compassivos uns para com os outros e perdoai-vos mutuamente, como Deus também vos perdoou em Cristo” está a prefigurar o que já refletíamos acima: não faz sentido uma humanidade em que uns se sintam sujeitos e outros se sintam objetos. Frequentemente, o apego afetivo a animais domésticos significou um desapego de seres humanos, por causa de “imoralidades, impurezas, avareza, palavras indecentes, estultas ou maliciosas” provocadas por eles.

O caminho? Ser “imitadores de Deus, como filhos muitos amados”, como se canta no Salmo de hoje, o primeiro do Livro dos Salmos. O modelo de imitação está acima de todo e qualquer ser humano, porque a semelhança que há a procurar restaurar é com a imagem verdadeira de Deus. A glória de Deus é o homem vivo! Por isso, quer seja sábado, quer seja domingo, a prioridade é defender o que dá vida, ali no equilíbrio por entre os extremos que são as dependências afetivas e as autonomias exacerbadas.

Hoje, rezo para que educadores e pastores se unam num modelo educacional e formativo integral, não se contentando com o que certas ideologias postulam ao sabor do tempo ou segundo um modelo económico vigente.

Há humildade e altruísmo? Há oração cristã. “Politicamente correto” não é igual a ser espiritualmente correto

Sir 35, 15b-17. 20-22a 2 Tim 4, 6-8. 16-18; Lc 18, 9-14 ─ XXX Domingo do Tempo Comum; Dia Mundial das Missões

No Evangelho de hoje, Jesus tem a coragem de nos dizer o que é e o que não é oração. Como acontece acerca da definição de Deus, é mais fácil dizer o que não é do que o que é. E se procuramos dizer mais o que é do que o que não é, facilmente nos enganamos. Também acerca da oração, serve uma certa teologia apofática, chamada estranhamente (por causa dos motivos ditos atrás) de teologia negativa. É, na verdade, a teologia afetiva. Por palavras mais simples: por quem Se deixa afetar Deus? Pelos orgulhosos que pensam não precisar de Deus ou pelos humildes que se humildam diante d’Ele?

A cena do Evangelho é clara, mas mas desconcertante. Não é tão claro que estejamos isentos de revestir alternadamente a “pele” ora do fariseu, ora do publicano (e menos mal, se for em alternância, porque alguma vez Deus nos apanhará na verdade do que somos!). Na parábola, Jesus apresenta-nos dois homens de vida religiosa e de conduta moral tão opostas, a ver pela forma de rezar e pelas palavras com que procuram justificar-se:

O fariseu ora de pé, segura e sem temor algum, perto do retábulo. A sua consciência não o acusa de nada. Não é hipócrita, pois diz a verdade e procura cumprir a Lei, superando-a até. E dá graças a Deus pro aquilo que ele é, o que o faz atribuir o mérito a Deus. Este é daqueles de quem poderíamos dizer: se este homem não é santo, então quem será? É seguro que pode contar com a bênção de Deus.

O publicano, pelo contrário, não se sente cómodo naquele lugar santo, de modo que fica à distância e cabisbaixo. Reconhece o seu pecado e e a sua culpa. Não pode deixar o seu trabalho, nem devolver o que tinha roubado. Reconhece estar num ciclo vicioso, em vez de um caminho virtuoso. Ninguém gostaria de estar no seu lugar nem aprovar a sua conduta.

Jesus declara que este último desceu justificado para sua casa e o outro não. Parece estar a brincar com o fogo. Porque terá procedido assim? Hoje alguém diria: está a acabar com a religião!! Será, mesmo? Não nos esqueçamos como começa o Evangelho: “Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros”. Ou seja: faz sentido cumprir tudo e não ter temor a Deus, desde que não desprezemos os outros na nossa oração, considerando que eu só estarei bem se os outros também estiverem bem. Deus identifica-se com todos!

Na sua mensagem para este Dia Mundial das Missões, o Papa Francisco quer que acolhamos o convite a sermos testemunhas de Jesus Cristo até aos confins do mundo, sob a força do Espírito Santo. Esta amplitude geográfica e humana da missão que a Igreja sente ter obrigação de implementar é prova de que o que é decisivo para a mesma missão não é meramente a perfeição religiosa das nossas vidas, mas a insondável misericórdia de Deus, que quer chegar a todos. Por vezes, chegamos lá mais através do testemunho que damos pelo que a sua misericórdia fez em cada um de nós, do que com o orgulho de termos ganho pontos diante d’Ele.

A oração humilde pode e deve ser o primeiro gesto missionário que atrai o olhar dos pecadores para o abraço misericordioso de Deus Pai, mais do que uma vida cristã autorreferencial e autosuficiente. Há algo de fascinante em Jesus, como nas pessoas que sabem viver a compaixão na relação com os outros. É tão desconcertante a sua fé na misericórdia de Deus que não é fácil de crer n’Ele. Se calhar, os que mais facilmente se recolhem junto d’Ele são aqueles a quem lhes custa de sair da sua vida imoral. Quando alguém se sente bem consigo mesmo, tende a apelar à sua própria vida como exemplar e não sente necessidade de mais (em Deus há sempre infinitamente mais!!). Quando alguém se vê acusado pela sua própria consciência e sem capacidade de mudar, só sente necessidade de aconchegar-se junto da compaixão de Deus, crendo que só a sua compaixão será decisiva para uma transformação pessoal.

A oração autorreferencial pode ser fonte de doenças espirituais e levar mais facilmente a cair em pecados de omissão. Uma das melhores provas de que estamos a bem com Deus é o facto de procurarmos estar bem com os outros e vivermos para eles. A oração humilde e altruísta é o primeiro passo para a missão.

Pastores segundo o coração de Cristo, que integrem a diferença e transbordem de claridade

Mt 5, 13-19; na Solenidade de São Martinho de Dume (Arquidiocese de Braga)

Em Braga, hoje, celebra-se a Solenidade de S. Martinho de Dume, bispo, Padroeiro principal da Arquidiocese.

As “letras pequeninas” dos contratos, que os advogados dizem que vão ficar maiores, para que possam ser bem lidas sem possibilidade de enganos, costumam ser assinadas sem que ninguém as leia, ficando-se quase sempre ou nunca por um pequeno resumo proferido por um intermediário. Com a Palavra de Deus e o contrato da Aliança que Ele realizou com a humanidade, por vezes, também pode acontecer que os pormenores fiquem sem serem lidos, estando contidos neles um bem maior que poderia despoletar um processo de mudança em favor de todos.

No Evangelho, Jesus diz-nos que no Reino de Deus é grande aquele que pratica e ensina os mandamentos. E sublinha que “antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra”. Transgredir, portanto, os mandamentos, por mais pequenos que sejam, leva a que o ensino sobre o reino de Deus fique coxo. Fica claro, no ensinamento de Jesus ─ o nosso máximo modelo de coerência ─ que a prática da Lei enobrece e dá eficácia o ensino da Lei. Já os nossos anciãos o dizem: “vale mais um bom exemplo do que mil palavras”.

Mas há uma coisa que me intriga entre estas afirmações de Jesus e o contexto em que elas são ditas, que me levam a revisitar o antes e o depois deste texto: acompanhamo-l’O no sermão da montanha em que Ele profere estas palavras após o discurso das bem-aventuranças. Para quem é que ele fala, agora, de forma radical quanto ao cumprimento da Lei: aos pobres, aos que choram, aos puros, aos perseguidos…? Sofrerão estes por não terem cumprido de forma exímia as leis ou porque alguém não cumpriu a Lei do Amor de Deus na prática como deveria de ser? No versículo 17, os biblistas não hesitam em afirmar que começa uma discussão severa contra os fariseus, que Mateus nos deixa relatado com num tom rabínico, uma vez que eles impunham a Lei aos outros e esqueciam-se de valorizar os pormenores da mesma Lei. Hoje diríamos: fixam-se na Lei de forma rígida e esquecem-se de cumprir e sugerir o espírito da Lei que é a Lei do Espírito de Deus e não dos pensamentos ou pretensões vãs dos homens.

Um exemplo de cumprimento da Lei de Deus ao pormenor: ser misericordioso. Outro exemplo: ser sal e luz. Provas destes exemplos de um cumprimento exímio da Lei até à pequenina letra são a Profecia de Ezequiel e o Testemunho de vida do Apóstolo. Cumprir até à pequenina letra implica não deixar de fora o mais pequenina possibilidade de a Lei de Deus favorecer alguém no seu crescimento, na proteção da sua dignidade, na sua inclusão comunitária, na defesa dos seus direitos mais fundamentais, na possibilidade de salvação eterna, etc. Até dar um copo de água, um litro de leite, um pão ou um medicamento ─ pensando em obras materiais ─ ou dar um minuto de escuta, fazer uma visita ou compreender a ferida de alguém, etc. ─ pensando em obras espirituais ─, pode exemplificar bem os pormenores da Lei a que Jesus dava e continua a dar importância.

Dentro do espírito do Evangelho, ser sal será ser integrador da diferença e ser luz é deixar transbordar a claridade do amor de Deus diante dela.

“O Senhor é meu Pastor, nada me faltará!” ─ Quem é que pode fazer esta exclamação? Todos os que quiserem deixar crescer dentro de si o ardor missionário, como aconteceu com São Martinho de Dume. Teve consciência de que o Bom Pastor nunca abandona as ovelhas enfraquecidas e, por isso, foi-lhe fiel ao não fugir à responsabilidade do cuidado para com os distantes. Este pastor da Igreja veio de longe (originário da Panónia e depois de ter crescido na Palestina) para as periferias não só geográficas, mas sobretudo existenciais, tendo em conta cidadania da fé. Destacou-se na luta em favor da erradicação de práticas pagãs, nas comunidades católicas. Assim foi o combate de São Paulo e todos os batizados, acompanhados pelos pastores que o Senhor coloca diante e a caminhar com eles, somos convidados a ter como garantia da mesma graça tão nobres testemunhas.

Ao convidar a Igreja para uma nova etapa evangelizadora marcada por aquela alegria de Cristo que enche o coração de quem se encontra com Ele, e que precisa de ser partilhada, o Papa Francisco revive a mesma profecia de Ezequiel. Na exortação apostólica “A Alegria do Evangelho” indica-nos caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos, precisamente para que aquela profecia que antecipa a encarnação do Evangelho que é Cristo, não deixe de se realizar também em nós e em todos os seres humanos nossos contemporâneos. No contexto do Dia Mundial das Missões que comemoramos neste fim-de-semana, o Santo Padre aponta a novos horizontes «geográficos, sociais, existenciais» para as comunidades católicas, afirmando:

Não existe qualquer realidade humana que seja alheia à atenção dos discípulos de Cristo, na sua missão. A Igreja de Cristo sempre esteve, está e estará ‘em saída’ rumo aos novos horizontes geográficos, sociais, existenciais, rumo aos lugares e situações humanos ‘de confim’, para dar testemunho de Cristo e do seu amor a todos os homens e mulheres de cada povo, cultura, estado social. (…) Exorto todos a retomarem a coragem, a ousadia, aquela parrésia dos primeiros cristãos, para testemunhar Cristo, com palavras e obras, em todos os ambientes da vida. (…) A missão realiza-se em conjunto, não individualmente: em comunhão com a comunidade eclesial e não por iniciativa própria. (…) O cuidado pastoral dos migrantes é uma atividade missionária que não deve ser descurada, pois poderá ajudar também os fiéis locais a redescobrir a alegria da fé cristã que receberam.

Ler Mensagem do Santo Padre na íntegra

Discerne o que é eterno no caminho, enquanto é tempo

Ef 4, 1-6; Lc 12, 54-59

Há uma bela definição de Deus, hoje, na carta de S. Paulo aos Efésios (4, 1-6), no confronto com o ser humano, chamado a uma forma de vida que o ajude a caminhar na descoberta da semelhança com a imagem divina. E o Apóstolo sugere que é o comportamento que pode ajudar a criatura a caminhar para o seu Criador, sem deixar de se confrontar com os outros, “com toda a humildade, mansidão e paciência”, suportando-se “com caridade” e empenhando-se “na unidade de espírito pelo vínculo da paz”. Está, aqui, também uma boa definição do crente sinodal com Deus e com os outros.

No Evangelho, Jesus provoca a multidão com a ironia: de facto, se a multidão é capaz de discernir o que se tornou óbvio com a aprendizagem das coisas relativas à terra, como é que não têm a coragem de descobrir com o mesmo critério ─ o discernimento ─ a justiça do que acontece no tempo?

Não foi à toa que o Papa Francisco, falando-nos do bem comum e a paz social, nos avisou de que o tempo é superior ao espaço.

Há a investigação empírica (maioritariamente dedutiva: raciocinar em que se parte da causa para o efeito) sobre os factos e dados que levam o ser humano a projetar a vida só a pensar no bem-estar neste mundo. Não lhe chamaria discernimento, porque não procura o novo e acima de si, em termos de valores, mas conta comente com as próprias forças. Esforça-se mais por certificar ou justificar os próprios desejos do que construir algo novo e perene.

Já o discernimento, maioritariamente indutivo (partindo dos efeitos para as causas, tendo em vista melhores efeitos), conta com uma luz superior na leitura dos factos e dos dados disponíveis à observação humana, acrescentando-lhe dados novos, para a busca e construção de uma posse integral de faculdades e bens que não têm que ver só com a vida neste mundo, mas com a existência toda. E é um processo inclusivo de todos no caminho. Por isso, é um instrumento da natureza sinodal da Igreja.

Vale mais doar(-se) no caminho do que pagar na prisão!

Não nos faltará, em pastoral, navegar menos na dedução e aventurarmo-nos mais da indução? A teologia espiritual, que é melhor definida como “experiência espiritual cristã” não é uma ciência empírica, mas com toda a propriedade científica pode chamar-se como ciência descritiva, pois procura contemplar com todos os instrumentos que se têm à disposição o que acontece sob a ação do Espírito e olhando para a forma como o ser humano responde.