navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Sb 2, 23 – 3, 9; Sl 33 (34), 2-3. 16-17. 18-19; Ev Lc 17, 7-10, na memória de São Martinho de Tours, bispo

No meio do cheiro a castanhas, do calor das fogareiros que as aquecem e da jeropiga que adoça as bocas a sorrir, há um gesto que, por vezes, passa despercebido e que a celebração da memória do bispo São Martinho de Tours evoca: a lenda de um soldado romano, Martinho, que encontrou um mendigo com frio, rasgando a sua capa e dando-lhe metade. Apareceu o sol. E o milagre está entre este aparecimento do sol e o gesto de rasgar a rapa. Sugere o Padre João Torres que o milagre está na “coragem de interromper o caminho, de olhar o outro, de se deixar tocar pela miséria que a maioria finge não ver”. A ignição da vocação de São Martinho é a partilha e diria que esta dimensão da descoberta e do discernimento das vocações continua a ser tremendamente atual. “Vivemos cercados de muros e distrações. Falamos de empatia, mas fugimos do olhar de quem pede. Temos mais capas do que precisamos ─ umas de pano, outras de orgulho e outras de medo. E guardamo-las bem apertadas…”. “Martinho ensina-nos que a fé começa quando se rasga. Quando deixamos o conforto da indiferença e deixamos o amor entrar, mesmo que doa, mesmo que desarme”. “Celebrar São Martinho é mais do que comer castanhas. (…) O milagre de São Martinho não está no sol que rompeu as nuvens. Está no gesto que rompeu o egoísmo. E é por isso que, todos os anos, o outono nos devolve esta história — para nos lembrar que o mundo só muda quando alguém decide rasgar a capa. E talvez, quando o fizermos, o sol volte a aparecer”. Conta-se que naquela noite em que revestiu aquele pobre, Martinho viu Cristo revestido com a metade da sua capa. Consequentemente, Martinho deixou-se revestir pelo Batismo, mudando de vida.

Quando Jesus sugere que os seus discípulos digam “Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer”, é sobre este “milagre” quotidiano de partilhar a vida com humildade e sem pretensões. Deus continua a sentar-Se à mesa da nossa consideração, manifestando-Se nos outros, de modo que sejamos capazes de O ver nas mais variadíssimas situações.

Tenho cá para comigo com muita certeza que, à maneira da correspondência entre o nosso dinheiro e a sua correspondência em ouro nos Bancos, assim é a relação entre as nossas boas obras de caridade com os ritos e orações que fazemos: estas, para serem coerentes, terão de ter o seu correspondente no “ouro” das boas obras em favor dos irmãos mais fragilizados.

As boas obras do serviço aos outros são como que uma parte do símbolo a indicar algo que já está possuído no Reino de Deus. Portanto, querer outra paga terrena, seja ela material, seja espiritual, que não se refira à sua correspondência celestial, é enfraquecer a força simbólica do serviço cristão. Exemplo do que acabo de dizer é a partilha que São Martinho faz de metade da sua capa com o pobre. Este simboliza o Reino, que é dos “bem-aventurados pobres” e a metade com que Martinho fica simboliza a sua boa ação. Alguém que lhe perguntasse “o que aconteceu com a tua capa”?, para onde foi a outra metade?, ele poderá dizer: está com o pobre em Deus.

Aquela incorruptibilidade do homem que o Livro da Sabedoria proclama, à imagem da natureza divina, e o seu estado de paz não obstante a morte, serão fruto desta inteireza feita de correspondência entre o que somos desde Deus e o que fazemos em favor dos irmãos.

Ao dizer aos seus discípulos “dizei: Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer”, Jesus está a dizer com a Sabedoria: “No tempo da recompensa hão de resplandecer” e “o Senhor reinará sobre eles eternamente”.

Ganhar a vida é fazer o que o Senhor nos manda, porque, à sua luz, nem a morte nem a infelicidade têm a última palavra e a sua salvação acontece através da nossa história, por vezes, tão cheia de trabalhos angustiantes.