Escolhidos para servir o Senhor nos irmãos. Com(o) Maria, despertemos! Levantemo-nos! Vamos!

Lc 23, 35-43; XXXIV Domingo do Tempo Comum C ─ Solenidade de Cristo Rei; XXXVII Jornada Mundial da Juventude

O “princípio ativo” que está em Jesus e que, no seio de Maria, já estava latente, tornando-Se patente na Sua incarnação é a salvação dos outros, escolhido para servir. Viver acordado para a Graça de Deus e sempre num dinamismo de ressurreição, levantando-se e caminhando na proximidade e encontro com os outros, em especial os mais frágeis.

O Evangelho desta Solenidade fala-nos de um vinagre com que procuram aliviar as dores a Jesus, mas Ele não o quer tomar, pois é como que uma “droga” que tira o realismo à sua vida e entrega: é símbolo do “salva-te a ti mesmo” que aliena da entrega pela causa nobre que é salvar os outros. Todos sabemos que quando um vinho bom fica muito tempo dentro de uma garrafa, se não é servido e dado a beber a alguém, para ser saboreado no convívio à “mesa” da existência, estraga-se, transformando-se em vinagre, e é deitado fora.

O Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, escreveu algo parecido acerca da natureza e missão dos cristãos na Igreja:

Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa protecção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37).

Evangelii Gaudium, n. 49

Acostado a Jesus, no mesmo “reto sentir”, está “o outro” que toma a palavra verdadeiramente para repreender aquele que não sabe sofrer ao lado de Cristo inocente: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício?», defendendo Jesus pelo castigo injusto, Ele que «nada praticou de condenável». Em discurso direto, aquele crucificado sensato reza: «Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza». Jesus não demora em oferecer-lhe aquele “Hoje” da salvação!

Entre os primeiros cristãos chamou-se a Jesus, também, “mártir”, que quer dizer “testemunha”, O Apocalipse chama-O “mártir fiel” e “testemunha fiel”. Desde a Cruz, Jesus apresenta-Se-nos como testemunha fiel do amor de Deus e de uma existência identificada com os últimos. Identificou-Se com as vítimas inocentes que terminaram como Ele. A sua palavra incomodava, indo demasiado “longe demais” ao falar de Deus e da sua justiça, para a justiça mesquinho dos homens. Nem o Império, nem as gentes daquele tempo poderiam consentir. Haveria que eliminá-l’O. Era d’Ele que diziam “Morreu por nós, por defender-nos até ao final, por atrever-Se a falar de Deus pelos últimos”. N’Ele, podemos recordar instintivamente a dor e a humilhação de todas as vítimas desconhecidas que, ao longo da história, sofreram esquecidas. Seria uma burla beijar o Crucificado, invocando-O e adorando-O enquanto vivemos indiferentes a todo o sofrimento que não seja o nosso. Mesmo que o Crucifixo desapareça dos nossos lares e instituições, os crucificados andam por aí. Podemos vê-los todos os dias na rua ou em qualquer telejornal. Temos de aprender a venerar o Crucificado não meramente num pequeno crucifixo, mas nas vítimas inocentes da fome e da guerra, da violência doméstica e do tráfico humano. Não bastam as teóricas profissões de fé dentro dos nossos templos aquecidos. A melhor maneira de confessar a nossa fé no Crucificado é imitar-Lhe o viver identificados com quem sofre injustamente. (cf. PAGOLA)

Faltam dias, horas, minutos e segundos para vivermos internacionalmente a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023. O lema que o Santo Padre nos propõe para a vivermos desde já, na sua versão diocesana da JMJ, que é este Domingo de Cristo Rei, é o testemunho da Mãe de Jesus: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39).

Lembra-nos o Papa Francisco que, após ter recebido o convite através do Arcanjo, Maria não demorou muito a lembrar-se da sua prima Isabel, não só para lhe anunciar o mistério que lhe tinha sido revelado, mas também para a ajudar a ser mãe na sua velhice. Aquele anúncio impeliu-a (e não a impediu) a levantar-se e a partir apressadamente. O Papa diz-nos que a pressa de Maria e a pressa dos batizados que estucam o Evangelho é uma pressa boa que nos impele sempre para o alto e para o outro. A existência de Jesus dentro de nós, interiormente, confirma-se na nossa atenção e ajuda aos outros, exteriormente. Não devemos, pois, separar estas presenças interior e exterior com distâncias e indiferenças. Sublinha-se, também a necessidade que existe na relação dos mais novos com os mais idosos. O sucesso que interessa à sociedade e à Igreja de hoje necessita que se encurtem as distâncias e indiferenças intergeracionais, com aconteceu entre a jovem Maria e a sua prima idosa Isabel.

Que a vivência desta Jornada Mundial da Juventude a nível diocesano (hoje) e a nível nacional (em agosto de 2023) inclua esta aventura da escuta de Jesus e da relação carinhosa para com os nossos irmãos necessitados de amor e atenção, no meio desta cultura da indiferença e do descarte.

Parasitas ou ativistas de um tempo suspenso ou pro-ativos num Reino eterno já presente? A Liturgia chama-nos a re-ciclar

Ap 4, 1-11; Lc 19, 11-28

O COP27 ─ Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2022, que aconteceu entre os dias 6 e 18 de novembro de 2022 em Sharm El Sheikh, no Egito ─ desencadeou uma série de reações contrastantes, entre, por exemplo, as que se apoiam numa cientificidade proativa e as que aparentam um certo parasitismo revolucionário.

Uns que dizem que o mundo vai acabar “se até 2030 a energia fóssil não desaparecer completamente…”, como diz José Miguel Júdice, no Expresso, parecem-se com aqueles que diante de Jesus pensavam que o Reino de Deus iria manifestar-se imediatamente.

E os dez servos do soberano que parte para uma região distante, na parábola, fazem-nos lembrar aqueles jovens ativistas do Movimento Greve Climática Estudantil Lisboa, que se barricaram em greve climática no Liceu Camões, cujo protesto inclui a ocupação de seis escolas e universidades de Lisboa. Aquém ou além dos argumentos que levam estes jovens a manifestar-se, não se percebe muito bem se o objetivo é fazer render os seus talentos, tomando partido em soluções que ajudem a minimizar os danos das mudanças climáticas, ou se é mais objetivamente a insatisfação com as exigências de estar na escola ou na universidade. Durante vários anos acompanhei os estudantes universitários da minha cidade em celebração de bênção de finalistas ou “das pastas”, em que o bispo diocesano, diante de uma multidão de estudantes cada vez menos numerosa, frequentemente insatisfeitos, com razão, com a insegurança face à falta de emprego na sociedade, não deixou de os entusiasmar a promover novos caminhos novos de empreendedorismo, criando o próprio futuro com a herança recebida, diante de uma sociedade que precisava deles e dos seus talentos para se renovar. Naquele momento litúrgico de festa, contemplava a sensação que os Apóstolos certamente tiveram na Ascensão do Senhor, entre o medo do futuro e a confiança na promessa do Mestre.

O que Jesus coloca na boca do rei da parábola é perentório: “A todo aquele que tem se dará mais, mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. Os inimigos daquele rei nem sequer adivinharam que o distanciamento daquele nobre não foi em vão, antes lhe deu uma realeza capaz de avaliar os seus investimentos. Jesus estava perto de Jerusalém e ao reparar na barricada que os seus discípulos estariam prestes a levantar à Sua volta, Ele usa a estratégia de lhes contar a parábola para os incentivar a aceitar o caminho da Cruz. Estar investido do poder real, implica um investimento pessoal. Como se costuma dizer “não cai do céu” (entenda-se “nuvens”)! Implica um caminho de abnegação (desprendimento dos próprios interesses) e de compromisso para com uma causa válida (com fins que justifiquem os meios), sem subterfúgios (rodeios, evasões ou meio subtil de sair de uma dificuldade). Para isso, precisamos de um discernimento “cheio de olhos” como os que tinham as cabeças dos quatro Seres Vivos da visão de João. Estão ali representados os quatro Evangelhos, que nos ajudam a ver de todos os lados possíveis as razões para empreendermos um caminho ao jeito de Jesus, sem desistências nem alarmismos, mas somente apoiados na confiança que nos faz colocar a render no “banco” do tempo presente em que nos é dado viver os dons que Deus deu a cada um de nós.

Estamos prestes a encontrar-nos com este Rei, no desfecho deste ano litúrgico. Podemos correr o risco de submeter o início de um novo ciclo ao ram-ram com que iniciámos o ano pastoral ou académico há vários meses, quando deveria ser ao contrário: submetermos a forma como estamos a terminar este ano litúrgico à Presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que possamos expôr-nos humildemente à possibilidade de que o novo tempo forte que se aproxima possa ser um valor acrescentado às nossas vidas. Não são só os movimentos das mudanças climáticas que convidam a reciclar. A Liturgia chama-nos a reciclar! Quer dizer, a mudar de ciclo, não como que num círculo vicioso de hábitos repetidos, mas numa espiral que nos move no sentido da vida eterna. Por isso, para vivermos o Advento que se aproxima, não basta irmos armário buscar e revestirmos o corpo e os olhares de roxo, precisamos de abrir o coração a Quem lhe bate à porta, tirando de lá de dentro tudo o que o impede de ser espaçoso para Jesus.

Assim, preparemo-nos sem medo nem comodismos para o Tempo de Advento que se aproxima, reorganizando, sobretudo, o nosso interior para podermos acolher Aquele com Quem queremos colaborar com o nosso sim quotidiano. Neste interior, resituamos-Lhe o trono que Lhe pertence quando, porventura, deixamos que prevaleçam os nossos desejos de meros parasitismos ou ativismos inconsequentes, que só nos barricam em bolhas autorreferenciais ou suspendem em tempos de uma certa libertinagem.

Aquele que “fez todas as coisas e por cuja vontade existem e foram criadas” sabe bem até onde podemos chegar, se partirmos com Ele e imitando-O na sua entrega por amor. Façamos como Santa Gertrudes, procurando revalorizar a intimidade e amizade com o Senhor, que abre constantemente diante de nós “aquela arca nobilíssima da divindade, a saber, o vosso Coração divino, no qual encontro o tesouro de todas as minhas delícias”.

Segurança física e espiritual não rendem no “banco” do céu, só o testemunho que damos de Cristo na ajuda aos pobres!

Mal 3, 19-20a; 2 Tes 3, 7-12; Lc 21, 5-19 ─ XXXIII Domingo do Tempo Comu (C) e VI Dia Mundial do Pobre.

Neste XXXIII Domingo do Tempo Comum vivemos o VI Dia Mundial do Pobre. Neste ano, o Papa Francisco convida-nos a refletir sobre o tema Jesus Cristo fez-Se pobre por vós (cf. 2 Cor 8, 9). Com esta evocação da exortação de Paulo aos Coríntios, o Papa Francisco quer recordar-nos um episódio da vida na comunidade de Jerusalém em que se passou fome e provações. Num encontro com Pedro, Tiago e João, estes lembraram-lhe que não se esquecesse dos pobres. Paulo, ao chegar a Corinto, promoveu uma coleta em favor dos pobres. Num momento de esmorecimento daquela comunidade para com esta sua iniciativa, Paulo lembra-lhes que a ajuda aos pobres não é só uma questão de assistencialismo, mas de crescimento na imitação da pobreza de Cristo. Cresce-se quando se é pobre com os pobres, promovendo a igualdade.

Com o Evangelho de hoje, aprendemos que a nossa segurança não está no bem físico e espiritual que se promove com a nosso estilo de vida ocidental e com as nossas boas programações pastorais. Os únicos bens que temos a render no “banco” do céu é o testemunho que damos de Cristo na ajuda aos pobres.

Uma das tendências que nos levam a procurar a segurança de vida neste mundo, por vezes de forma egoísta (o meu corpo, a minha alma, etc.), é a iminência do fim do mundo – latente nas catástrofes naturais globais, como a pandemia e as alterações climáticas, e as guerras político-económicas – proclamado por falsos profetas que querem tirar partido do medo das pessoas, assegurando-lhes proteção no bem-estar físico ou espiritual.

Jesus assegura-nos que estas coisas não têm a última palavra e convida-nos a dar testemunho em Seu “nome” com perseverança, quer dizer: a viver como Ele mesmo viveu diante das circunstâncias adversas e de perseguições. No coração, convida-nos a ter a confiança do Espírito Santo, que nos irá defender diante dos nossos adversários.

A primeira leitura informa-nos que no final dos tempos – do que não não sabemos o dia nem a hora – o dia do Senhor será abrasador e queimará tudo aquilo que for superficial e efémero, ficando intacta as ações da justiça como se fossem raios de sol.

Ora, esta palavra ajuda-nos a seguir o caminho da nossa existência como nos sugere o Apostolo na Carta aos Tessalonicenses: a trabalhar nas coisas mais urgentes e essenciais e deixando de ocupar o tempo em coisas fúteis. Neste sentido ponho-me a pensar, quer na minha vida pessoal, quer da vida social, em preocupações e gastos com coisas que, de facto, não adianta nada o bem-estar da nossa existência e que, até, atrasam a vida.

Ler notícia da sobre a bênção desta escultura na Agência Ecclesia

Se quisermos que a vida vença a morte e que a dignidade seja resgatada da injustiça, o caminho a seguir é o d’Ele: é seguir a pobreza de Jesus Cristo, partilhando a vida por amor, repartindo o pão da própria existência com os irmãos e irmãs, a começar pelos últimos, por aqueles que carecem do necessário, para que se crie a igualdade, os pobres sejam libertos da miséria e os ricos da vaidade, ambos sem esperança.

PAPA FRANCISCO, Mensagem para o VI Dia Mundial do Pobre, n.º 9

Para encontrar Jesus e o seu Reino, que tipo de “caching”: “Geo” ou “Teo”?

Flm 7-20; Lc 17, 20-25 ─ Memória litúrgica de São Leão Magno

No seu discurso, Jesus identifica-se com o Reino no que toca à sua localização e forma de atuar, nomeadamente como ressuscitado, nos “dias” que “virão”. Portanto, o Reino não se deixa apanhar de qualquer maneira, sobretudo de modo a possuirmo-lo indevida ou interesseiramente. A presença do Reino, como a forma de atuar de Jesus acontece como que por um “lampejo” ou “relâmpago” (os italianos usam a expressão “attimo fuggente” = “momento fugaz” para designar este “repente” de Jesus) que liga a “faísca” de uma boa ação ou obra de misericórdia ao brilho estelar da Palavra celeste. Entre a Palavra e a Ação; entre cada um de nós e o irmão; entre a comunidade da Igreja e a sociedade ─ é aí que podemos encontrar o Reino e o seu Instaurador.

Apesar de o símbolo do Geocaching ser sugestivo, encontrar o Reino e ação do Ressuscitado que no-lo permite vislumbrar não é uma questão geográfica, nem uma data, como os judeus se justificavam querer encontrar para consolidar as suas forças humanas. O Reino é Jesus e tem mais que ver com o dia e a hora (expressões temporais tão usadas para descrever o caminho e a entrega de Jesus), com o quem e o como ou o que fazer. O que estivermos a fazer ─ no dia ou hora e com quem ─ determinará a oportunidade de, com o olhar da fé, vislumbrarmos o Reino e a Presença de Jesus a agir na nossa história. A hora de Jesus foi aquela que resume todas as horas da Sua entrega: a Cruz que não tem nenhum círculo vicioso à sua votla, mas foi colocada na terra para a marcar como casa comum como “antecâmera” do Reino.

Como acontece no Geocaching, podemos correr o risco de querer ver o Reino em objetos escondidos ou lugares enigmáticos, de forma a que só quem os escondeu os possa encontrar. Com Jesus não acontece assim, até porque Ele não tinha morada fixa, nem falava caro. Na Igreja, como o Ressuscitado não é sequer um objeto, mas Sujeito, então só O poderemos encontrar se nos deixarmos encontrar por Ele no nosso interior, para que no interior da comunidade em missão outros O possam encontrar.

Em 2014, numa das temporadas da Pastoral Vocacional da Diocese de Viseu, realizou-se uma iniciativa intitulada de “Teocaching“, em que se disponibilizavam numa publicação diocesana alguns números de telemóvel, a partir dos quais os jovens que quisessem embarcar na aventura da descoberta e do discernimento vocacional, poderam contactar testemunhos concretos de vocações de especial consagração. Alguns jovens foram ousados em telefonar e manter-se ligados, mas, infelizmente, o número de jovens que no mesmo espaço geográfico da diocese de Viseu que se aventuram no Geocaching é incomparavelmente superior. Até mesmo existindo uma “cach” que tem por título “Vir a ser padre na diocese de Viseu” que está escondida junto à frontaria do Seminário! Muitas vezes, o que impera é mais o desejo turístico exterior do que a aventura das paisagens interiores da alma.

São Leão Magno, num dos seus Sermões, lembra-nos que Jesus já nos escolheu para fazermos parte do Seu Corpo. E que a diversidade de funções não é de modo algum causa de divisões, porque, em virtude, todos estamos unidos à Cabeça. Todos temos a mesma dignidade. O sinal da Cruz leva-nos ao aqui e agora da salvação do Reino, no tempo vivido como graça: na minha fronte e na fronte do outro. O que este Papa e Doutor da Igreja escreve, inspira-nos a pensar que há um “Teocaching” a realizar dentro de cada um de nós e um “Teocaching” a realizar no meio da comunidade. Dentro de cada um o coração livre e instruído e no centro da comunidade a caridade ou comunhão podem ser instrumentos para que cada um se possa encontrar e deixar-se encontrar por Jesus Ressuscitado no seu Reino. Como diz aquele Santo Papa que comemoramos hoje: o Verbo encarnado já habitava no meio de nós; Cristo já Se tinha entregado totalmente para a redenção do género humano.

Mesmo a partir da prisão, São Paulo ajuda-nos a ver melhor o Reino de Jesus, com a sua lente: quando um irmão acolhe outro como irmão muito querido, aos olhos do Senhor, com o consentimento, recuperando-o com liberdade, sossegando o coração com o bem do outro. Onde houver a alegria do Senhor por causa da consolação provocada pela caridade, aí está o Reino de Deus! Portanto, não vale a pena especularmos sobre o Reino e a Pessoa de Jesus, que prometeu estar presente para sempre. O mais importante é a expansão do Reino através de um espírito generoso em favor dos outros.

De casas-templo a fiéis-templo para que o mundo seja casa de todos, sem comércio nem que seja de símbolos

Ez 47, 1-2. 8-9. 12; 1 Cor 3, 9c-11. 16-17; Jo 2, 13-22 ─ Na Festa da Dedicação da Basílica de Latrão

A Basílica de São João de Latrão ─ chamada assim porque originariamente edificada sobre um terreno de Plauzi Laterani, na colina de Célio, em Roma ─ foi dedicada ao Santíssimo Salvador pelo Papa Melquíades, sendo construída pelo imperador Constantino pelos anos 311-314. Sucessivamente, foram-lhe dados também como patronos São João Batista e São João Evangelista. É a igreja-mãe de todas as igrejas de Roma e do mundo, porque sede do Bispo de Roma, o Papa. É um sinal de amor e unidade para com a Cátedra de Pedro que, como escreveu S. Inácio de Antioquia, «preside à assembleia universal dos fiéis».

A Liturgia da Palavra de hoje faz-nos contemplar quer o templo primordial que é Jesus ressuscitado, quer o templo onde se reúnem os fiéis para se formarem também eles templos do Espírito Santo. Por isso, a realidade das casas-templo é indissociável dos fiéis-templo. Com razão as comunidades de fiéis celebram fielmente a festa desta Igreja Mãe, pois, como diz S. Cesário de Arles (leitura do ofício de hoje), «sabem que renasceram espiritualmente por meio dela». Diz ainda: «se desejamos celebrar com alegria o aniversário deste templo, não devemos destruir em nós, com obras más, os templos vivos de Deus», indo à igreja com a preparação da nossa alma. É interessante a comparação que faz este bispo entre a limpeza e a luminosidade do espaço de um templo com a pureza e a luz de Deus nas almas dos crentes.

As leituras da Festa ajudam-nos a compreender as igrejas das nossas paróquias e as catedrais das nossas dioceses com as qualidades que a Palavra de Deus inspira sobre elas:

1) Com a imagem da água salubre, Ezequiel inspira-nos que os lugares onde nos reunimos semanalmente em assembleia sejam percebidas como “fontes”. Lemos que «todo o ser vivo que se move na água onde chegar esta torrente terá novo alento e o peixe será mais abundante». Ora, por vezes, notamos que entre as nossas assembleias e a vida no mundo há um hiato muito grande, em vez de um rio que ali se forma e cresce para dar vida a quem está fora. Para que nas igrejas recebamos as sementes das árvores que crescerão fora e darão fruto abundante, a experiência de fé ali fundada terá ser “centrífuga” (que tende para fora) e não “centrípeta” (que tende para dentro), como aliás se sugere em Pastoral Familiar que sejam as famílias.

2) E para que não haja “fossos” entre a experiência de fé vivida nas assembleias litúrgicas e a experiência de fé vivida no quotidiano e nos ambientes da sociedade, e possamos sobreviver ao mundanismo espiritual, será necessário, como nos sugere a atitude de Jesus no Evangelho, «não fazermos da casa de seu Pai casa de comércio», pelo zelo que devora o sinal do seu Corpo que havia de ressuscitar. Não é infrequente vermos às portas das igrejas e catedrais pobres a pedir e, não raro, incomoda-nos de tal maneira que pendulamos entre o dar sob a ética do Evangelho (“não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” de Mt 6, 3) e o organizar a caridade o mais possível sobre a justiça (como prevê a “Caritas in veritate” de Bento XVI). A existência de pobres junto aos templos serão, pois, um sinal profético a dizer que os templos prioritários, para os quais existem as casas sagradas, são os corpos que é preciso lavar, alimentar e defender de tudo o que fere a dignidade da vida humana para o cumprimento da sua altíssima vocação.

Numa recente obra publicada pelo Secretariado Nacional de Liturgia e apresentada por D. José Cordeiro, lemos:

Como na purificação do Templo, quando Jesus expulsa os vendilhões (cf. Jo 2, 13-16), a nossa Igreja vive um tempo de purificação em que deve expulsar do interior tudo o que é artificial, superficial ou totalmente profano para restituir à Igreja a sua autenticidade, a sua verdade, a sua missão. O “comércio”, como diz são João (cf. Jo 2, 16) não é a nossa vocação e a nossa missão. A Igreja é o lugar da comunhão com Deus e com os outros.

FRANÇOIS-XAVIER BUSTILLO, A vocação do padre perante as crises. A fidelidade criativa, p. 14

3) Para as obras nas nossas igrejas costumam guardar-se algumas (as possíveis) reservas económicas que costumam estar no capítulo das “depreciações” nos orçamentos e relatórios de contas. E as obras a que maioritariamente estão reservadas essas economias são as coberturas e os telhados, por causa das infiltrações que podem danificar os templos. E está bem! Porém, o Apóstolo Paulo exorta que «veja cada um como constrói», chamando-nos à atenção para o alicerce que está posto ─ Jesus Cristo ─ acima de Quem não podemos colocar outro. Então, se nas nossas paróquias temos os conselhos económicos para ajudarem a cuidar dos telhados, teremos de ter outro conselho paroquial para cuidar da defesa deste comum e impreterível alicerce. Isto para que não deixemos de ser e de formar pessoas-templo para o Espírito santo de Deus.

Por este conjunto de considerações apoiadas neste único alicerce, já não me escandaliza tanto que a basílica de São João de Latrão, do ponto de vista da arte, não seja tão exuberante como as outras basílicas em Roma. Isto é, esperando-se que ali se procura ser sinal deste alicerce da universal caridade de Jesus Cristo. No prefácio do livro acima citado, D. François-Xavier Bustillo, refere que este é o momento histórico de “passarmos dos sinais do poder ao poder dos sinais” (p. 12). E eu acrescentaria: sem equívocos e através de sinais gratuitos!
Três curiosidades: (1) Da Basílica de Latrão sobressai o Batistério que, sendo do séc. IV, é construído no estilo paleocristão que nos ajuda a regressar às origens. (2) Jesus disse aos cambistas que tirassem dali as pombas, para que não se perdessem como símbolos a pagar com dinheiro. (3) As imagens abaixo ajudam-nos a ver com que realismo e radicalidade somos convocados a escutar e a praticar o Evangelho; sendo banda desenhada, refletem cenas quotidianas que se repetem com a distância que, por vezes, existe entre o Evangelho e a prática.

Fonte das imagens: Agustin de la Torre

Para cuidar da saúde, não basta ter um medicamento, é preciso atuá-lo com um procedimento

Tit 1, 1-9; Lc 17, 1-6

Por mais que nos custe e nos doa, o Evangelho de hoje justifica a postura do Papa Francisco em relação à forma de lidar com os abusos sexuais dentro da Igreja, que apesar de “nem todos terem a coragem” de assumir que há escândalos, declara o objetivo de a Igreja precisar de “esclarecer tudo”.

Em primeiro lugar, Jesus constata: «É inevitável que haja escândalos…». E avisa: «…ai daquele que os provoca. Melhor seria…». Como é óbvio, este problema existe na sociedade e é antigo, como, infelizmente, não vai deixar facilmente de existir para mal dos mais pequeninos e vulneráveis, para quem Jesus reprova que se sejam sujeitos a ocasiões de pecado, com rasteiras que danificam as suas vidas. A atenção prioritária, hoje, deve recair sobre as vítimas e à reparação dos danos que lhes são causados; e isto inclui a correção do vitimador. Onde houver a necessidade urgente de cuidar de uma vítima, é concomitante a grave urgência em corrigir o perpetrador do crime.

Em segundo lugar, o Senhor ajuda-nos a refletir que há dois tipos de procedimento para a correção daqueles que vitimam, em alternativa à “mó do moinho”: por um lado, a repreensão pública; por outro, o perdão privado. Se a repreensão pública não acontece, favorece-se o risco da legalização da quebra do sigilo sacramental, como está a acontecer em alguns países. A repreensão deve estar para o cometimento de uma ofensa como o perdão deve estar para o arrependimento.

Em terceiro lugar, o Mestre responde ao pedido de aumento de fé dos Apóstolos com uma provocação: é apostolicamente mais eficaz ter “fé boa” do que “muita fé”. A “muita fé” sabe a religião desorganizada no vale tudo; e “fé boa” tem que ver com o reconhecimento de Cristo e do aperfeiçoamento da Lei de Deus na conduta dos homens. Dito de outro modo: é preciso mais confiança em Deus do que mais força humana. De que vale ter muitas garrafas vazias sem conteúdo? Elas são necessárias para que o bom vinho possa guardar-se e distribuir-se, mas ninguém pode partilhar o que não tem dentro…! Ter “boa fé” é acreditar na providência de Deus; por menor que seja, uma fé assim pode alcançar resultados surpreendentes.

Na Carta a Tito, São Paulo deixa-nos a pedagogia que nos pode ajudar a ser transparentes, misericordiosos e esclarecidos, na reciprocidade: ser irrepreensível connosco próprios e exortativos/refutadores com os outros acerca da sã doutrina. Com a oração e a fraternidade, o Santo Padre está a tentar essa pedagogia com os não-cristãos (cf. visita ao Barém), além fronteiras. Como não será possível também usar esta pedagogia dentro das fronteiras visíveis da Igreja?! E não basta ter força de vontade… é preciso ter a “visão” da fé!

Onde há uma vocação específica há um dom recebido de Deus. Vocação cristã é um heterónimo da Ressurreição

Mac 7, 1-2. 9-14; 2 Tes 2, 16 – 3, 5; Lc 20, 27-38 ─ No XXXII Domingo do Tempo Comum C e Semana dos Seminários

Testemunho vocacional por ocasião da Semana dos Seminários 2022

Onde há uma vocação específica há um dom recebido de Deus. Ontem, como hoje e também amanhã, escutar e responder a um chamamento como o de ser padre, consagrado ou consagrada e, mesmo, à vida matrimonial é sempre um ato de coragem e fé no Deus de eterno amor que quer salvar a humanidade. Por isso, não ter vergonha de testemunhar Cristo, antes de mais é algo que nos precede pela educação dos nossos pais e restantes educadores, como os catequistas, os animadores e os professores. Também foi assim na minha história vocacional: por ver os meus pais e educadores a não se retraírem de servir Cristo na Igreja e no mundo, levou a que também eu não me retraísse. Eu que era originalmente tímido. Por isso, é muito importante que os educadores semeiem diante dos olhos dos mais novos gestos ou sinais de entrega a Cristo em favor dos outros. O exemplo no cristão vale mais do que mil palavras, porque fundamentado unicamente na Palavra de Deus.

Viver a vocação batismal assente numa opção fundamental de vida como o sacerdócio, a vida consagrada, o matrimónio ou qualquer outra forma de consagração no serviço ou na missão da Igreja é, na prática, uma profissão de fé na ressurreição. Não de forma autorreferencial ou autossuficiente ─ como os saduceus ─ mas tendo por fonte e referência a vida do Reino que está condensada em Jesus.

Os saduceus fizeram uma pergunta a Jesus assente naquilo que eles acreditavam ou não ser a verdade. Jesus responde-lhes consoante o lugar de onde vem e o que Ele representa. Aqueles falavam segundo pensamentos e relacionamentos efémeros; Jesus fala com verdade daquilo que nos relacionamentos é perene. Aqueles apoiam-se em tradições, Jesus está a funda aquela que será a Traditio Ecclesia, uma das formas de revelação dinâmica de Deus na Igreja, conjuntamente à Sagrada Escritura (cf. Enciclopédia Católica Popular).

Sem o «nós» eclesial, a transmissão da fé não se pode desenvolver para chegar a toda a humanidade. Por isso, a existência crente de cada um de nós e a comunhão de vários ministérios e carismas são instrumentos de evangelização da fé da ressurreição. Na verdade, somos o Corpo de que Cristo é a Cabeça. E neste Corpo eclesial nenhum membro pode dizer a outro que não precisa de si e ninguém se pode dispensar como inútil.

A propagação da Palavra de Deus por meio do anúncio da mesma e a sua glorificação através de gestos virtuosos ─ como recomenda Paulo aos Tessalonissenses ─ é uma missão de todos os batizados, mas em especial daqueles homens e mulheres que se consagram de forma especial ao estudo aprofundado da mesma e oferecem as suas vidas para ensinar e orientar o povo de Deus à maneira de Jesus Cristo Profeta, Sacerdote e Servo.

Na verdade, quando na vida terrena alguém é obrigado a fazer algo que não dignifique a vida humana ─ como na história relatada no Livro dos Macabeus ─ é preciso alguém que “tome a palavra em nome de todos” com ousadia e sem medo. Os presbíteros e os consagrados que se oferecem a Deus para uma missão de responsabilidade, em representação das comunidades (e eu creio que o Matrimónio também possibilita esse testemunho), são comparáveis àqueles “membros” que os irmãos Macabeus sujeitam ao martírio, lúcidos da promessa de Deus.

Para se ser capaz de proclamar a Palavra da Salvação é preciso habitá-la e deixar-se habitar por ela em permanência, porque dela vem não só a verdade que salva, mas também a força que cuida nos momentos de tribulação e de perseguição. A Palavra de Deus prepara para morrer, no sentido de que oferece a Vida que está para além da morte física passageira. Mas também é o perfume que nos faz vislumbrar já nesta terra, essa vida misteriosa do Reino.

As vocações batismais de especial consagração não são só formas de morrer em paz ─ com a consciência livre e tranquila de se e fazer o que dá a verdadeira felicidade na terra ─ mas também são formas de ir ressuscitando na e para a vida eterna que nos apresentada na encarnação de Jesus Cristo. No Evangelho, Jesus dá uma resposta contrabalançando entre “filhos deste mundo” e “filhos de Deus”. Os que se inspiram neste mundo, relacionam-se de uma forma interesseira que pode dificultar ou, mesmo, impossibilitar a ressurreição; os que se inspiram no além, vivem de forma a não morrerem jamais do ponto de vista espiritual e a herdar a vida eterna.

Assim, o Matrimónio (que não é só “casamento”!) e qualquer forma de especial consagração, como o ser presbítero e/ou religioso/a missionários, são modos de os batizados não se envergonharem de dar testemunho de Cristo e do caminho novo que Ele veio inaugurar com a sua encarnação, vida e morte/ressurreição. Aqueles modos de vida são ramificações do “enxerto” que é o Batismo, fortalecidas pela Confirmação do Espírito Santo de Deus.

A responsabilidade não depende só da força de vontade, mas de uma boa visão da realidade

Filip 3, 17 – 4, 1; Lc 16, 1-8

Jesus tinha uma propensão para ensinar os seus discípulos e retorquir com os seus adversários apontando modelos “fora da caixa”, falando de pessoas concretas ou sugerindo-as em parábolas. É o exemplo do bom samaritano, a mulher pecadora, etc. No Evangelho de hoje, elogia um administrador desonesto. Obviamente, não é por ser desonesto, mas por ter qualidades que, por vezes, faltam a pessoas honestas, uma vez que no testemunho que evangeliza não basta ser, é preciso também parecer.

A qualidade em foco é a “esperteza” que o dicionário também define por “vivacidade” e que no contexto da vida cristã podemos definir como decisão pronta ou firme empenho na prática da justiça e da misericórdia. Aliás, como o Apóstolo sugere, esta é uma forma de imitar Cristo, o nosso maior modelo de coerência entre o ser e o parecer, entre o dizer e o fazer.

“Presta contas da tua administração” ─ Cada vez mais, hoje, se houve a palavra accouttability, que o dicionário de Inglês define por “responsabilidade”, definida por “obrigação de responder por atos próprios ou alheios, ou por uma coisa confiada”. É óbvio que Jesus não nos conta esta parábola para nos sujeitar meramente a uma avaliação a posteriori a penar em premiar pela boa administração ou para castigar pelos maus atos. Certamente que o seu intuito é, também e a priori, ajudar-nos a predispormo-nos para a assunção de responsabilidades como quem sabe que irá ser avaliado. Assim, faremos como a vida de S. Carlos Borromeu sugere. Este grande reformador da Igreja já era um homem de pedagogia sinodal e, aos sacerdotes ─ para cuja formação ajudou a iniciar o que hoje chamamos de “Seminário”, por ordem do Concílio de Trento ─ sugeria que se preparassem bem na “sacristia” através do silêncio para que não acontecessem distrações na hora de celebrar os mistérios de Deus. É um grande defensor da oração mental, tanto antes como durante as orações comunitárias. No fundo, a sua grande preocupação não era meramente a reformação exterior, mas a formação do interior, para uma maior coerência entre o dizer e o fazer.

Para sermos responsáveis a partir de dentro e na assunção livre de tarefas pastorais, precisamos de uma boa dose de prontidão. Mas não basta; é preciso que seja decisão iluminada. Porquê? Há tempo escutava uma conferência on-line em que alguém dizia que para sermos prontos não basta ter força de vontade. É um equívoco. Quando nos pomos a refletir que devemos ter força de vontade para fazer uma coisa mais ou menor urgente, é quando mais procrastinamos. Então, o que é mais decisivo? O orador dizia que é preciso ter “visão” sobre a importância do bem daquilo que somos chamados a fazer. Ou seja, a vivacidade ou firme empenho não depende meramente da força de vontade; é, também, decisiva uma boa visão da realidade que nos atrai a viver de uma certa forma. Esta forma de atuação ajudará a que, também, existe “sinodalidade” entre o gostar e o dever, dialética entre o pensamento moral e o hipotálamo com centro de regulação dos estados motivacionais.

A verdadeira relação jamais implica a definitiva separação; os corpos sofrem a partida, a Liturgia antecipa-nos a chegada

Job 19, 1. 23-27a; 2 Cor 4, 14 – 5, 1; Mt 11, 25-30 ─ Na Comemoração dos Fiéis Defuntos (Liturgia)

O jardineiro de um príncipe persa correu para o seu senhor, dizendo: “Senhor, acabo de ver a morte no pátio, e ameaçou-me. Empresta-me um cavalo, para poder fugir depressa para Ispaão; deste modo, a morte não me alcançará.” O senhor satisfez o desejo do seu jardineiro, que imediatamente cavalgou para Ispaão. Pouco depois, também o príncipe encontrou a morte, e perguntou-lhe: “Porque é que ameaçaste o meu jardineiro?” A morte respondeu: “Eu não o ameacei. Apenas olhei para ele atónita, pois hoje à noite tenho de ir buscá-lo a Ispaão.”

Esta pequena história coloca-nos diante do facto inevitável da morte, por mais que nos escondamos dela. O pensamento sobre a morte tem o condão de nos paralisar, mas também de nos libertar. Saber que um dia vamos partir deste mundo, sem sabermos quando, onde e como, pode ajudar-nos a aproveitar o facto de estarmos vivos agora e de aproveitar melhor o tempo que nos é dado para o vivermos da melhor maneira possível.

O sentido de celebrarmos os fiéis defuntos na Liturgia tem o propósito de nos inserir no mistério de Deus, numa tentativa de compreendermos o mistério da vida humana, uma vez que a liturgia terrena é imagem da liturgia celeste. Celebrar esta liturgia tem a finalidade não só de encontrarmos consolação e conformo para o sofrimento da separação, mas também para aprendermos algo de novo sobre as realidades futuras.

No Evangelho do primeiro elenco de leituras de três propostos para este dia, sublinho três aspetos que nos podem ajudar a viver na esperança da ressurreição:
(1.º) A ação de graças de Jesus ao Pai pela sabedoria que está nos simples;
(2.º) O abraço entre o Filho e o Pai, em cujo âmago Jesus nos quer incluir, com mansidão e compaixão;
(3.º) A leveza do amor em que Jesus nos quer ver, livres de todo o peso que não nos deixa acolher esse mesmo amor.

Tanto na vida como na morte, o encontro com Jesus é sempre um momento de alívio e conforto, diante da experiência da dor, do cansaço e opressão. A Eucaristia é um destes momentos de intimidade em que nos podemos sentir abraçados por Jesus e aliviados com a sua Palavra e gestos de comunhão com Ele e com os irmãos, mesmo com os que já partiram e aqui evocamos em comemoração.

O testemunho de Job diante dos descrentes no sofrimento é o de que, aconteça o que acontecer, o sofrimento e a morte não têm a última palavra. Ao dizer “na minha carne verei a Deus”, faz-nos desejar, também, ver a Deus pela fé a partir da experiência dos nossos corpos, a partir da caridade em que participamos.

Paulo convida-nos a não desanimar, porque embora “o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia”. E garante-nos que a ligeira aflição do tempo presente são incomparáveis ao peso eterno da glória. Por isso, olhemos para as coisas invisíveis, que são eternas. Porque à medida que esta morada terrena vai sendo desfeita, vai-se abrindo diante de nós a habitação eterna.

A essência da santidade

Ap 7, 2-4. 9-14; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12a ─ Na Solenidade de Todos os Santos (Liturgia)

No capítulo III da Exortação Apostólica “Alegrai-vos e exultai” sobre o chamamento à santidade no mundo atual, o Papa Francisco ajuda-nos a refletir sobre a “essência da santidade” à luz do Mestre, garantindo-nos que

não há nada de mais esclarecedor do que voltar às palavras de Jesus e recolher o seu modo de transmitir a verdade. Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças. Estas são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionar sobre «como fazer para chegar a ser um bom cristão», a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida.

GE 63

É assim que o Santo Padre nos ajuda a olhar e a acolher a cidadania que os cristãos que peregrinam na terra partilham com aqueles que já habitam nos céus. Esta comum cidadania é possível porque a palavra “feliz” ou “bem-aventurado” é sinónimo de santo, “porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade” (cf. GE 64).

O primeiro aspeto do discurso de Jesus e, por conseguinte, o seu rosto expresso na humanidade que hoje lhe é fiel é o ser contracorrente com as modas que nos são impostas pela sociedade “e, embora esta mensagem de Jesus nos fascine, na realidade o mundo conduz-nos para outro estilo de vida”. Não sendo um compromisso leve ou superficial, só as podemos viver se o Espírito Santo nos permear com toda a sua força e nos libertar da fraqueza do egoísmo, da preguiça, do orgulho (cf. GE 65).

O Papa convida-nos a deixarmos que, novamente, as palavras do Senhor nos “fustiguem”, desafiando-nos a uma mudança real de vida, para que a santidade não se fique em palavras (cf. GE 66). Que desafios são estes? Eis o elenco:

1) Ser pobre no coração
2) Reagir com humilde mansidão
3) Saber chorar com os outros
4) Buscar a justiça com fome e sede
5) Olhar e agir com misericórdia
6) Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor
7) Semear a paz ao nosso redor
8) Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas

A grande “regra de comportamento” que constrói a santidade que agrada a Deus e na base da qual seremos julgados são as obras de misericórdia (cf. GE 95; Mt 25, 35-36).

Deste modo ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase. Dizia São João Paulo II que, «se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar». O texto de Mateus 25, 35-36 «não é um mero convite à caridade, mas uma página de cristologia que projeta um feixe de luz sobre o mistério de Cristo». Neste apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo.

GE 96

Fugindo das ideologias que mutilam o coração do Evangelho (entre o mundanismo espiritual e o espiritualismo desencarnado; cf. GE 100-103), somos convidados a celebrar o culto que agrada a Deus que, sem esquecer o primado da relação com Deus, tem como critério de avaliação o que fizermos pelos outros (cf. GE 104), critério esse que São Tomás de Aquino não hesitou em afirmar: “mais do que os atos de culto, são as obras de misericórdia para com o próximo” (GE 106), não obstante as nossas fraquezas, apesar das quais, como afirmava Santa Teresa de Calcutá, “Ele abaixa-Se e serve-Se de nós, de ti e de mim, para sermos o seu amor e a sua compaixão no mundo, apesar dos nossos pecados, apesar das nossas misérias e defeitos. Ele depende de nós para amar o mundo e demonstrar-lhe o muito que o ama. Se nos ocuparmos demasiado de nós mesmos, não teremos tempo para os outros” (GE 107).

A força do testemunho dos santos consiste em viver as bem-aventuranças e a regra de comportamento do juízo final. São poucas palavras, simples, mas práticas e válidas para todos, porque o cristianismo está feito principalmente para ser praticado e, se é também objeto de reflexão, isso só tem valor quando nos ajuda a viver o Evangelho na vida diária. Recomendo vivamente que se leia, com frequência, estes grandes textos bíblicos, que sejam recordados, que se reze com eles, que se procure encarná-los. Far-nos-ão bem, tornar-nos-ão genuinamente felizes.

GE 109