L 1: Gn 12, 1-4a; Sl 32 (33), 4-5. 18-19. 20 e 22 L 2: 2Tm 1, 8b-10; Ev: Mt 17, 1-9, Domingo II da Quaresma (Ano A). Início da Semana Nacional Cáritas
Como acontece na lógica da celebração do Natal ─ o encontro com a Luz que é Jesus implica sempre seguir por outro caminho que não o apetecido pelos homens (como aquele que Herodes queria impor aos Magos, que lhe desobedeceram) ─ assim também acontece com a lógica da Páscoa, na perspetiva vocacional, uma vez que toda a vida do ser humano está projetada pelo Criador para iniciar neste terra e culminar no Reino de Deus.
Assim, só se pode falar de conversão dentro de uma perspetiva vocacional (uma resposta ao chamamento à santidade e a uma vida feliz de amor a Deus na realização do bem em favor dos irmãos). E só pode acontecer a vocação ─ escuta e resposta ao amor infinito de Deus ─ na perspetiva da conversão (ninguém consegue sair de uma versão imperfeita de si mesmo ficando no mesmo lugar, pensando as mesmas coisas e agindo da mesma forma, sentindo-se da mesma maneira). Conversão sem vocação é cosmética; Vocação sem conversão é diversão.
Abraão converteu-se ao verdadeiro e único Deus, que o convida a partir da sua terra para a terra que Deus lhe indicara. O chamamento de Deus não deixa Abraão no mesmo lugar, pois Deus tem um projeto para ele. O convite a partir é feito tendo como horizonte o cumprimento de uma promessa. E a fé de Abraão não fica mais presa a outros deuses. Pode concluir-se da experiência de Abraão que a adoração a deuses falsos sedentariza a vida; ao passo que adorar o verdadeiro Deus põe-no a caminho de uma terra prometida que para nós, na perspetiva cristã, é o Reino dos Céus. Abraão não sabe para onde vai, mas confia em Quem o chama. Também nós não sabemos tudo acerca do Reino dos Céus, mas queremos confiar que ele já está entre nós e o podemos viver desde já.
Vocação com a conversão torna-se um caminho de Transfiguração. Jesus chamou os seus discípulos que, no caminho, ficaram escandalizados com aquilo que iria acontecer com Jesus. Este escândalo acontece porque os discípulos ainda não tinham compreendido o horizonte da ressurreição, pois davam à sua morte a última palavra, não obstante Ele lhes ter falado que iria ressuscitar. Então, a sua vocação implica a subida ao monte, o Tabor, onde o chamamento se purifica das más motivações e das dúvidas acerca da realização da promessa de Deus a respeito de Jesus, que volta a ser escutada.
É curioso que o que escutamos no cimo do monte Tabor, neste 2º domingo, é o mesmo que Jesus escuta no rio Jordão a Seu respeito, dito pelo Pai: “Tu és o meu Filho muito amado, em quem me comprazo” (cf. Mt 3,17; Mc 1,11; Lc 3,22). Significa que Jesus tinha bem presente a promessa do Pai sobre Ele, vivendo-a sempre com muita confiança e alimentando esta, constantemente, no monte da oração.
A pessoa de Jesus, com o seu rosto brilhante e as suas vestes brancas como a luz, representa o cumprimento das promessas da antiga Aliança, ali representada por Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas). Aquele esplendor da montanha, que é antecipação da Páscoa, é uma pedagogia de Deus em Jesus em favor dos discípulos, para experimentarem a glória antes do sofrimento da cruz. Eles são convidados a escutar o Filho de Deus, para poderem suportar a cruz inerente ao seu seguimento.
Em suma, ver o cumprimento da promessa de Deus a nosso respeito implica fazer rutura com aquilo que não nos deixa ver e ajuda a viver a mesma promessa: para Abraão, a sua terra em relação à nova terra; para os discípulos as ideias cómodas acerca do seguimento em relação ao que Jesus tem para dizer (levantai-vos, tão temais; a ressurreição que implica enfrentar a cruz); para Paulo o mérito das obras em relação com o desígnio de Deus e a sua graça. Portanto, a quaresma é tempo de partir, de abandonar as “terras” do egoísmo, do comodismo, do medo, do pecado, para reencontrar a liberdade dos filhos de Deus. Quando nos pomos a caminho, a nossa vida e a dos que habitam nesta terra podem mudar de rumo. E quando a nossa fé é vivida com generosidade pode tornar-se fonte de bênçãos para os outros.
Finalmente, o monte da Transfiguração significa revelação e missão ao mesmo tempo, uma vez que a luz ali transmitida serve de força para o caminho de descida à realidade dura da vida. Os encontros com Deus que vivemos na oração, na Eucaristia, na Reconciliação, na quaresma, etc., não são meros refúgios que nos afastam do mundo, mas são experiências espirituais que nos devolvem ao mundo para ajudarmos a transformar a realidade por dentro: da dor, do medo e da dúvida à esperança da ressurreição. Ascese e discese são os dois lados do mesmo monte da experiência espiritual cristã.
A oração é a porta da transformação: abre o nosso coração à verdade que é Deus e à caridade para com os irmãos. A oração pode significar bem aquela “nuvem luminosa” onde escutamos Deus e dialogamos com Ele. Como quando escutamos o Evangelho (na Eucaristia ou fora dela): ali nos encontramos com a luz que dá sentido a todo o tipo de sofrimento e a orientação para vivermos com coragem a entrega das nossas vidas. Como Paulo ensina a Timóteo: “Com a força (dinamismo, conforme o texto grego) de Deus, sofre comigo pelo Evangelho”. O Apóstolo transmite-nos a convicção de que no Evangelho está a luz de Cristo que pode iluminar as sombras do nosso coração, a força, quer dizer, o dinamismo que nos ajuda a levantarmo-nos e a não termos medo, como Jesus pediu, porque do encontro com Ele recebemos tudo o que nos é essencial para viver e para dar.
Christian Curia, ajuda-nos a perceber que esta “dynamis”, que é o Espírito do Senhor, está acessível a todos na vida quotidiana, sopra onde quer e não se deixa acorrentar seja por que ideologia for.
APP Verdadeira oblação: sair, subir, escutar
Critérios para averiguar a vocação que se sonha seguir é verdadeira ou não:
1. A vocação específica, que implica viver um estado de vida consagrada, implica a vontade, mas também algumas resistências psicológicas ao modo de vida que se sonha de viver. Resistir a uma determinada vocação não quer dizer que essa mesma vocação não seja verdadeira, uma vez que o chamamento vem sempre de Deus, a Quem somos chamados a responder livremente. Portanto, é preciso SAIR de si mesmo, para escutar o Outro que nos chama.
2. A vocação não é viver num estado prematuro, mas aprender a responder de forma a que se cresça para estádios graduais de maturidade, mesmo após já se terem feito “promessas” dentro de um especial estado de vida, como o presbiteriano, a vida religiosa ou o matrimónio. Portanto, responder a uma vocação implica estar sempre no modo de SUBIDA para estádios mais avançados de resposta, sempre ao encontro da semelhança com Deus.
3. A vocação pessoal envolve sempre felicidade e sofrimento, quer dizer, tem aspetos positivos, de autorrealização, mas também negativos que implicam abarcar com algum sofrimento. Quando Deus nos chama a viver o seguimento de Jesus numa determinada vocação, Ele não nos livra de dificuldades, mas também nos faz promessas de uma verdadeira felicidades, mostrando-nos já o cumprimento de algumas delas (como foi a experiência do Tabor para aqueles três discípulos, os milagres de Jesus, etc.). Por isso, é preciso ESCUTAR tudo o que nos foi dito, para que não aconteça que nos escandalizemos ou tenhamos medo por causa do desconhecimento do projeto divino.
