L 1: Is 1, 10. 16-20; Sl 49 (50), 8-9. 16bc-17. 21 e 23; Ev: Mt 23, 1-12. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
Em todo o capítulo 23, Mateus compilou as censuras aos dirigentes espirituais do seu povo. Hoje vemos uma dessas secções com o ataque duríssimo aos escribas e fariseus. Interessa ver, em primeiro lugar, que eram os escribas e os fariseus.
Os escribas ou letrados eram os doutores da Lei, profissionais da Lei de Moisés oficialmente reconhecidos. Homens de grande influência na sociedade pela sua tarefa específica de formar os outros, ditar sentenças nos tribunais e determinar o sentido da Lei e as normas de conduta. Uma classe que estava a destronar a antiga aristocracia judaica. Normalmente, conciliavam o estudo da Lei com outra profissão que lhes dava com que viver.
Os fariseus não constituíam nenhuma classe especial. Embora a sua origem seja obscura, é possível que remonte ao tempo dos Macabeus (séc. II a.C.). Os seus antecessores foram os Hissideos, defensores entusiastas e intransigentes da Lei quando teve lugar a helenização da Palestina (cf. 1 Mac 2,42). Os fariseus do tempo de Jesus seguiam a mesma orientação. Para eles, a Lei era absolutamente válida e intocável. Estavam convencidos de que tinham nela, regulamentadas, todas as normas de ordem religiosa e civil, tanto a nível social como individual. Consideravam-se a si mesmos como sento os “puros”, separados dos outros, e formavam um grupo integrado, geralmente, por leigos piedosos, alguns dos quais chegavam a ser os verdadeiros especialistas da Lei, interpretando-a à letra e considerando-a válida até aos mínimos e insignificantes pormenores. Constituíam um grupo muito importante na sociedade judaica, com grande influência sobre ela, sobretudo pela admiração da justiça e pela formação dos outros. Tinham, neste aspeto, um ponto de contacto com os escribas. Tanto assim, que alguns doutores da Lei pertenciam à seita dos fariseus.
Quase sempre aparecem juntas estas duas classes, “escribas e fariseus”, tratando-se do mesmo grupo. Mas inicialmente eram muito distintas. A junção que fazemos deve-se a que, no Evangelho, apareçam frequentemente unidas. Mas a razão deste junção no Evangelho é a dura crítica que Jesus fez dos dois grupos, embora por motivos distintos; ambos eram opressores do povo: os escribas aplicando aos outros o jugo da Lei, sendo eles próprios pouco escrupulosos e presumindo ser santos; os fariseus pelo seu puritanismo exclusivista que tinha isentado a Lei de todo o humanismo e que prescindia olimpicamente das necessidades do próximo. Por isso, Jesus chama-lhes “hipócritas”.
O problema dos escribas e fariseus é que interpretavam a Lei e julgavam os transgressores. Eram continuadores de Moisés (“sentavam-se na cadeira de Moisés”). Estes “juízes oficiais”, porém, não eram nada modelos de comportamento dignos de serem imitados. As “ratoeiras” em que Jesus os encontra são as seguintes:
a) Tinham feito da Lei um fardo insuportável para os outros, inventando alguma desculpa para não a cumprirem.
b) agiam sempre em público, para serem vistos e louvados, sem princípio interior verdadeiramente determinante do comportamento humano, com autêntica profundidade.
c) Vestiam-se com as filactérias, faixas penduradas com pequenas inscrições da Lei, que mandavam fazer para inculcar alguma obediência, para que não se esquecessem dos seus preceitos.
d) A ambição de fazerem figura e de serem respeitados; soberba e vanglória por causa da sua influência.
e) Gostavam de que lhe chamassem “Mestres”, enquanto que Jesus o proíbe aos seus discípulos, convidando-os a nunca deixar de o ser.
f) Chamavam “pais” aos patriarcas, enquanto que Jesus convida aos seus discípulos a darem esse nome só ao Pai do céu.
g) E o título de “doutor”, diferente de “mestre”, referia-se ao papel de dirigente, que para os discípulos era unicamente Cristo, para viver o sentido que o único caminho para Deus é Cristo.
Enfim, para os discípulos de Jesus, a dignidade máxima é o serviço: a maior serviço prestado, maior dignidade; a maior dignidade, maior serviço exigido. Quem se exalta ou orgulha será humilhado por Deus e quem se humilha diante d’Ele será por Ele exaltado.
Por outro lado, Jesus não quer fundar um comunidade que viva do julgamento tornando-se um ambiente árido, no qual ninguém se sente seguro para ser autêntico. Quando se julga o outro, encerra-se a pessoa numa gaveta, sem espaço para a redenção. Viver sem julgar é, acima de tudo, criar um ecossistema de liberdade e de criatividade. Só assim é que se poderá viver num caminho de fidelidade criativa à Lei de Deus.
