navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Dt 26, 16-19; Sl 118 (119), 1-2. 4-5. 7-8; Ev: Mt 5, 43-48

Hoje, recebemos o convite de Jesus a ser ser perfeito como o nosso Pai celeste é perfeito. Este caminho de perfeição precisa de Quaresma, ou de deserto. Porquê? Porque exige passar dos “ditos” à lei da perfeição que está inscrita no nosso interior e não no exterior.

Vejamos uma imagem: porque é que os astrónomos, para conseguirem ver bem as estrelas na noite, fogem das cidades? Porque ali há muitas luzes artificiais. É preciso fugir para longe delas, para que elas não ofusquem a possibilidade de perscrutar a luz das estrelas. Então, os astrónomos procuram os desertos ou descampados mais escuros.

Então, no deserto quaresmal também podemos imitar, mutatis mutandis, os astrónomos: procurar habitar a interioridade pessoal, para, longe de todos os estímulos que atrapalham a nossa vida espiritual, podermos ver bem a luz que nos pode guiar no caminho da perfeição.

A ressurreição espiritual da Páscoa começa sempre com uma imersão. Que não é outra cosia que a imersão batismal! É preciso mergulharmos sempre nas águas profundas do Batismo, sacramento que já nos enxertou em Cristo, para, com Ele, podermos sempre sair com e para a luz.

Por fim, o ápice da vida cristã é amar os inimigos. Imitar a perfeição do pai constitui a maturidade espiritual que nos permite alcançar esse ápice. É assim o caminho de santidade: vencer o mal com o bem. E é isto que gera a paz.

NOTA 1: Amar os inimigos não é amar o mal, sendo que este se gruda na vida das pessoas pela contingência de estar no mundo e das suas más escolhas. A nós só nos é dado aprender a distinguir o bem do mal, mas conseguir tirar certos males, só mesmo Deus. Se fossemos nós a fazê-lo, acabaríamos não só com o mal, mas também com as pessoas. É como Jesus nos ensinou acerca do trigo e do joio (cf. Mt 13,24-30: “Não, não aconteça que, ao apanhardes o joio, arranqueis também o trigo.”). Noutro lugar, Jesus disse que há males que só podem ser curados com muita oração (cf. Mc 9,29), o que prova que só Deus é que é capaz de nos salvar; somos chamados a ADORAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS; a nós cabe deixarmo-nos salvar por Ele, em Jesus. Portanto, há que AMAR AO PRÓXIMO, independentemente de quem ele seja.

NOTA 2: Por vezes, os nossos inimigos não são pessoas externas a nós, mas estão dentro de nós próprios. Podem ser males internalizados por influência de outros ou pelas nossas más escolhas. Por este motivo, a meditação interior torna-se duplamente necessária, para aprendermos a individuar, com a ajuda do Espírito Santo, quem somos chamados a ser verdadeiramente e o que nos impede de o ser na perspetiva da promessa de Deus a respeito de cada um de nós. É necessário, também, AMARMO-NOS A NÓS MESMOS.

Com que amor podemos amar os nossos inimigos? Podemos utilizar os seguintes passos:

  1. Oração: “Orai pelos que vos perseguem”.
  2. Saudação: “Se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário?”.
  3. Realizar a ágape: vontade e benevolência. (Não é uma “patuscada” entre amigos, como assim, por vezes, apetece chamar.) É o desejo sincero pelo bem do outro, independentemente de ele merecer ou de você gostar dele. Amar o inimigo não significa sentir “carinho” por quem te fere, mas sim recusar-se a odiá-lo e desejar que ele encontre a verdade e a paz.
  4. Este tipo de amor que imita o do Pai tem um caráter de universalidade: “Porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir a chuva sobre justos e injustos”.

Na resposta à pergunta “É possível articular educação e Evangelho?”, no V Congresso Internacional Educação e Cultura de Paz: Memória, Verdade e Perdão”, D. António Couto ajuda-nos a passar do paradigma multimilenar assente na identidade e pertença para o novo paradigma baseado no acolhimento do outro, seja ele quem for e ainda que esse outro me possa ferir. E concretiza, para efeitos espirituais e pastorais:

Ficou suficientemente à vista que é necessário sair dos velhos
paradigmas do “eu-parte-da comunidade” e do “eu-para-mim”, para
encarar uma terceira possibilidade alternativa que ofereça o “eu-para-o
outro”, o “eu” acordado e instituído pelo “outro”.

Em suma: o cume da Redenção é a salvação das pessoas e a cura de todo o mal. Só podemos cooperar com Deus nesta perspetiva e não noutra, à luz do Evangelho e da perfeição divina à luz dos ensinamentos de Jesus.