navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 48, 17-19; Sl 1, 1-2. 3. 4 e 6; Ev Mt 11, 16-19. Os itálicos são das admonições do dia.

À luz da Palavra de hoje, imagino que Jesus, no início da sua vida pública, Se encontrou uma geração desencantada. Pudera! Fervilhavam os movimentos religiosos, uns com mais empenho profético, outros com mais pujança sacerdotal, cada um por seu lado a “forçar” a vinda do Reino de Deus. Como ouviremos brevemente na Liturgia, nas suas últimas horas, na prisão, até João Batista mandará os seus discípulos perguntar a Jesus: “És tu, ou devemos esperar outro?”

É a Ele que esperamos, só Ele é que é o Messias Redentor. Mas muitas as suas Palavras e Gestos ainda não encontraram nos corações o reconhecimento que merecem, como palavras e ações de Deus em favor dos homens. E as multidões perdidas, sem pastor. O lamento de Deus no Antigo Testamento em relação ao povo do tempo dos profetas, encontramo-lo agora na boca do próprio Jesus em relação à gente do seu tempo, que podia escutar da própria boca do Filho de Deus a palavra da vida, e não a sabia apreciar. Com toda a sorte de desculpas, os ouvintes de Jesus esquivavam-se a escutá-l’O e a segui-l’O. Mas a Sabedoria de Deus, que encarnou em Jesus Cristo, triunfará da indiferença superficial dos que não Lhe prestam atenção, como crianças desatentas e caprichosas.

Encontrei-me várias vezes na “pele” de Jesus, na hora de preparar com a maior profundidade possível, desde a oração e o estudo, uma conferência, um encontro de catequese ou outra ação, ao constatar que o que tinha preparado não está a ser bem compreendido, dando-me conta de que a sede das crianças, adolescentes, jovens e, até, adultos, não era daquele tipo de “água”. Aprendi, também, que há uma variedade imensa de estímulos humanos, psicológicos e, até, religiosos a popular a mente e o coração das gentes, sem nós darmos conta. Percebi que o ponto de partida do que preparamos tem de ser outro: o que viver entre as gentes, partindo das suas alegrias e angústias, para as ajudar a prosseguir caminho no sentido da salvação. Não me esquecendo que também eu estou em caminho!

E assim, também, o caminho de Jesus desenvolveu-se como caminho inédito, sem se deixar limitar pro algum movimento, mas “enganchando” na esperança profética do Povo de Deus. É em Jesus que se cumpre a promessa de Deus ao dizer pelo profeta Isaías: «Eu sou o Senhor, teu Deus, que te ensino o que é para teu bem e te conduzo pelo caminho que deves seguir. Se tivesses atendido às minhas ordens, a tua paz seria como um rio e a tua justiça como as ondas do mar. A tua descendência seria como a areia e como os seus grãos a tua posteridade. Nunca o teu nome seria tirado nem riscado da minha presença».

Deus lamenta-Se por causa da incredulidade do seu povo. Este deixou de se alimentar da sua palavra; por isso, se extravia e definha. Se a tivesse escutado e posto em prática, a sua vida seria como o deslizar suave de um rio a caminho do mar. O lamento de Deus na boca do Profeta é um apelo e uma oferta para o homem.

Hoje, como sempre, precisam-se figuras como João Batista: que tenham a coragem de preparar um povo bem disposto para acolher a novidade do Salvador. Não é uma tarefe fácil, uma vez que exige humildade e simplicidade. Implica ser só a voz e não a Palavra.