A vida cristã não é o jogo do monopólio da verdade!

[Leitura] Num 11, 25-29; Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43. 45. 47-48

[Meditação] Começo esta reflexão com a confissão de formador para o sacerdócio ministerial, que poderá ser alargada ao ser da Igreja, chamada a ser pedagoga e mãe que ajuda a caminhar para o Reino:

Na formação dos adolescentes e jovens para o sacerdócio, sempre que é difícil caminhar ao lado deles (por causa da falsa ambição de muitos afazeres pastorais) deste a imaturidade humana e cristã à aquisição de uma melhor vivência dos valores do ser padre, dei-me conta de que, institucionalmente, o mais fácil era defendermo-nos com o regulamento da comunidade, passando a pautar o (não) crescimento  pela atenção à observância das normas prescritas que nos ajudasse a avaliar o caminho e as etapas. No final, corremos o risco de ter um melhor ou pior cumpridor, em vez de uma afetiva configuração com Cristo Sacerdote.

Penso que é a mesma tendência da Igreja, quando dá mais importância às leis canónicas que às pessoas no seu caminho na busca da verdade, como se todos tivéssemos de o fazer desde os mesmos pressupostos existenciais. Se calhar, também se correm estes riscos da educação dos filhos nas famílias… Ora, aconteceu o mesmo na história: independentemente das filosofias ou pontos de vista com que se possa observar o acontecimento, a Inquisição teve lugar quando, de alguma forma, a eclesiologia falhou. Com esta afirmação pretende esclarecer-se o seguinte: quando, ao longo da história, foi necessário uma disciplina mais rígida para corrigir certos erros, não é só porque o mundo é mau… (ou qualquer outro “bode expiatório” para onde se queira transferir a responsabilidade dos maus atos humanos); mas, também, de algum modo, a missão da Igreja enfraqueceu, no que toca à evangelização com base na boa nova de Jesus.

Os discípulos de Jesus, com o desejo de ter monopólio sobre Ele, correram sempre este risco ao longo da história. O conhecimento teórico sobre a identidade divina de Jesus foi-se esclarecendo ao longo do estudo ou aprofundamento da fé. Mas, apesar dos instrumentos cada vez mais interdisciplinares, não é fácil passar dessa afirmação «tu és o Messias de Deus» à aceitação de que também façam parte do projeto de Jesus aqueles que não fazem parte na nossa versão institucional do ser Igreja. E facilmente, ao banirmos a possibilidade de que outros também preguem sobre Cristo ou exorcizem em nome dEle, acabamos por banir o próprio Cristo na sua identificação com os pobres e indigentes, segundo o espírito das bem-aventuranças.

Por isso, Jesus, desta vez a João, diz: «Não o proibais (…). Quem não é contra nós é por nós». No que toca à vida cristã, o caminho sinodal é o da comunhão de diferenças. No que toca à formação sacerdotal, o resultado que é o padre em missão será fruto de um caminho feito de síntese vocacional entre as vivências históricas de cada um e os valores que configuram com Cristo Sacerdote (e não a mera aspiração a estes valores, pela importância do modelo da incarnação). Para o seu projeto de salvação Deus quer contar com todos os de dentro e os de fora do Cristianismo, desde que não sejam contra o seu desígnio de amor eterno para todos.

[Oração] Sal 18 (19)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A graça de Deus é conteúdo e forma que se recebe e se dá

[Leitura] Os 11, 1-4. 8c-9; Mt 10, 7-15

[Meditação] O trecho evangélico de hoje prepara-nos para a vivência da Liturgia da Palavra do próximo XV domingo do tempo comum (B), convidando-nos a descartar quer o triunfalismo da missão, quer o tecnicismo com que, por vezes, a perspetivamos. Na verdade, a proximidade do Reino que Jesus nos manda anunciar dispensa os artefactos humanos, assim como as suas frequentes euforias; basta-nos partilhar a graça que Ele nos dá, da forma que Ele sugere.

Muitos pensam que a graça de Deus é um ganho aquém de um dom. Se assim fosse, os limites e pecados dos apóstolos não teriam deixado chegar a boa nova até nós. Certamente a pobreza com que foram enviados nem sequer os deixou ser devorados por algum escrúpulo que impedisse de caminhar para levar essa mensagem de amor aos seus destinatários. A graça é DE Deus e, quando a partilhamos, não a diminuímos. É verdade que o nosso bom comportamento, a beleza das nossas ações e o bem presente nas nossas atitudes podem favorecer a Evangelização. No entanto, há “ratoeiras” instaladas nos escrúpulos, nas euforias e nos exageros de algumas ações missionárias. Parafraseando o Papa Paulo VI aos presbíteros: se cuidarem da pobreza, na sua forma secular de simplicidade de vida, os outros conselhos evangélicos (castidade e obediência) certamente acontecerão como benefícios colaterais.

Que o Senhor nos dê a graça de antepormos a tudo o seu amor, acolhido e não desperdiçado para que o mesmo chegue aos pobres, aos pecadores e aos afastados. São estes os primeiros destinatários da missão, como Jesus disse e fez!

[Oração] Sal 79 (80)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A esperança é um exercício da vontade

[Leitura] Os 2, 16. 17b-18. 21-22; Sal 144 (145); Mt 9, 18-26

[Meditação] Diz D. Tonino Bello: «Pensa-se que a esperança seja uma espécie de armário de desejos perdidos. E, pelo contrário, é um exercício da vontade». É o que está a ser experimentado por aqueles que, na Tailândia, estão a viver a aventura transformada em drama. Aquelas crianças e o seu instrutor, assim como os seus pais e os socorristas estão a pôr em prática esta grande verdade: não basta belos pensamentos e desejos eufóricos se não houver uma vontade firme de os coordenar na prática, a favor da defesa da vida humana. Graças a Deus, neste momento, não faltam expressões e imagens que desviam as atenções do Mundial da Rússia para este Santo Resgate. Graças a Deus, a globalização não é só um efeito da técnica; é, antes de mais, um preceito de humanidade, como vemos no testemunho daquele médico anestesista que se envolveu no resgate da Tailândia.

No Evangelho de hoje, encontramos, também, esta forma de viver ousadamente a esperança quer na mulher que procura tocar no manto de Jesus, quer no chefe que O procura para Lhe pedir a vida da filha. Não se trata do relato de meras aflições, mas do valor da vida humana, muito aquém de pensamentos ou desejos fúteis. No centro do Evangelho, como se de uma gruta se tratasse, Jesus responde com o convite à confiança, seja para as situações de doença, seja para a eminência da morte física como a daquele herói mergulhador que deu a vida.

Como hoje se costuma dizer em Gestão, também em conformidade com o Evangelho: pensemos globalmente e ajamos localmente. Como aqueles que nos dão o testemunho de vida no resgate de outras vidas.

[Oração] Oração pelos meninos da Tailândia, seus socorristas e suas famílias:

Senhor, Vós que amais infinitamente todos os vossos filhos, especialmente as crianças, e que nos dissestes que só entrará no céu quem a elas se assemelhar, pedimo-Vos com fé e carinho: protegei todas as pessoas envolvidas no resgate dos meninos presos na caverna da Tailândia. Por intercessão de Santa Bárbara, padroeira contra as chuvas fortes, pedimo-Vos especialmente esta graça: se for da vossa vontade, que não chova mais na região daquela caverna na Tailândia, para que os trabalhos de resgate sejam feitos o mais rápido possível, e que não haja mais perda de vidas humanas. Por intercessão de Maria Santíssima, nossa Mãe, confortai as famílias que aguardam aflitas pelos seus filhos! Concedei sabedoria e discernimento a todos os profissionais envolvidos no resgate, especialmente os mergulhadores! Dai paz e força aos meninos e ao técnico, que ainda se encontram presos dentro da caverna! Senhor, nós confiamos em Vós!

Fonte: ALETEIA

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O seguimento do Mestre é uma combinação entre disposição e predisposição

[Leitura] Am 2, 6-10. 13-16; Mt 8, 18-22

[Meditação] As palavras “disposição” e “predisposição” podem ajudar-nos a compreender o tipo de seguimento que alguém pode empreender no caminho do Mestre Jesus Cristo. “Disposição” manifesta uma inclinação pessoal para o seguimento, um tipo de colaboração ordenada ou metódica na relação com Jesus. “Predisposição” manifesta tendência natural ou vocação. Este modo coloca Deus no processo, porque o seu amor vem primeiro. Aquele modo implica mais o sujeito, mesmo ignorando a primazia de Deus.

Podemos contemplar nos dois casos que se apresentam a Jesus no texto do Evangelho de hoje, quer a disposição meramente pessoal, quer a falta de predisposição em seguir o Mestre. Portanto, ter disposição em seguir Jesus nem sempre significa predisposição em segui-l’O e vice-versa: também há quem possa estar chamado e não o siga de facto. Importante é que estes dois modos se combinem no seguimento, para que haja um discipulado missionário conforme ao projeto de amor que Deus revelou em Jesus Cristo.

Para que esta combinação aconteça é preciso ser simples e humildes: simplicidade para se reconhecer destinatário do amor de Deus, antes da consideração da família de sangue, e humildes em aceitar o seu projeto como ele é e não como nos apraz.

[Oração] Sal 49 (50)

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Elias e Eliseu, uma prefiguração da paternidade espiritual

[Leitura] Sir 48, 1-15 (gr. 1-14); Sal 96 (97), 1-2. 3-4. 5-6. 7; Mt 6, 7-15

[Meditação] Hoje temos Jesus, novamente, a ensinar-nos a oração do Pai-nosso como forma de abreviar a nossa relação com o Pai do Céu, incentivando-nos, ao mesmo tempo, da tendência de dizermos muitas coisas para O chamarmos à atenção.

Entre Elias e Eliseu existia algo parecido com a relação entre Jesus e o Pai, que somos chamados a acolher como filhos: em Elias estava um fogo imenso (prefigurador do Espírito do Amor do Pai) e em Elias uma capacidade para nunca se desligar do seu mestre na arte de profetizar, não deixando que nada interferisse na sua relação.

Pergunto: quantas vezes não só o que chamamos de mundanidade espiritual, mas também o que se intitula de obesidade espiritual interferirá na nossa relação com o Espírito de Deus?

Na paternidade espiritual, o mais importante não é o que possamos pensar ou repetir/dizer, mas a abertura à relação direta com Deus, uma vez que o Seu Espírito já está no íntimo do nosso coração. Então, como acontece na educação (educere = tirar de dentro da pessoa o bem que já lá está semeado), o Pai faz saltar de dentro dos seus filhos o Melhor que está dentro de nós: o seu Espírito Santo, bastando, para tal, que não obstruamos os canais da comunicação com os roídos da verborreia espiritualista ou do solipsismo indiferentista. O melhor que temos a fazer é imitar os sentimentos do Filho Unigénito de Deus, sem qualquer medo de faltarmos às propostas de qualquer corrente espiritualista ou materialista.

[Oração] Rezemos como Jesus nos ensinou:

Pai nosso, que estais nos Céus,
santificado seja o vosso nome;
venha a nós o vosso reino;
seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje;
perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido;
e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Will… Willing… Willingness… na resposta ao Amor do Bom Pastor

[Leitura] Act 25, 13b-21; Jo 21, 15-19

[Meditação] Nas vésperas do Pentecostes, Jesus não nos deixa por menos: com as perguntas que faz a Pedro, após a Ressurreição, quer certificar-Se que também nós, antes de recebermos o Espírito Santo que nos impele à missão da Igreja, respondamos ao Seu Amor (que é, na verdade, o próprio Espírito Santo), respeitando a gradualidade no crescimento da nossa resposta para o Amor.

Na língua inglesa, há três palavras que nos ajudam a “dissecar” a expressão da nossa “vontade” na resposta ao seguimento apostólico do Senhor:

1. Will será a prontidão ou a capacidade de tomar decisões; pode ser o “primeiriar-se” proposto pelo Papa Francisco na “Alegria do Evangelho” (n.º 24). Depois da primeira resposta de Pedro à pergunta «Tu amas-me mais do que estes?», Jesus pede que o Apóstolo apascente os seus cordeiros. Dá-nos a impressão que o Senhor o queira colocar em estágio, cuidando daqueles que oferecem menos resistência.

2. Willing será disposição correta que permite atuar através de decisões. Depois da seguna resposta, o Senhor pede que Pedro apascente as suas ovelhas. Dá a impressão que Pedro já passou o estágio, sendo capaz de acompanhar os cristãos adultos.

3. Willingness será o estado no qual o sujeito não tem necessidade de persuasão para tomar decisões; potência a responder; predisposição, estado de prontidão para uma decisão, de forma permanente, na fidelidade. À terceira resposta, Jesus não só pede que Pedro continue a apascentar as suas ovelhas, como insinua que ele mesmo será um “cordeiro” a ser levado para onde ele não quer, como Jesus, que foi como que «um cordeiro levado para o matadouro», quando deu a Sua vida na Cruz.

Neste texto do Evangelho, contemplamos a pedagogia de Jesus que pode e deve ser imitada pelos pedagogos cristãos de hoje (educadores e formadores), em que a formação do coração coloca questões à espera de respostas, no crescimento em maturidade que permita sair de uma comunidade educadora para uma Igreja em saída numa contínua missão em formação.

[Oração] Sal 102 (103)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Todos, em Igreja(s) para o Reino! Exorcizem-se os métodos e instituições!

Estamos a viver um tempo de velocidades extenuantes, em que tudo o que se faz já coloca o enfoque no términus da própria atividade, o que prova a autorreferencialidade pessoal e institucional do que vemos fazer. Sem querer generalizar, quase que se vive a atividade pelas atividade, sem processos de continuidade. No filme “Lucy” (Luc Besson, 2014), a aproximação entre a criatura e o eterno acontece na unidade tempo-espaço. O Papa Francisco propõe que, no caminho da Igreja para o Reino, o tempo é superior ao espaço, dada a importância da memória acima da experiência casual.

Daqui podemos tirar esta ilação: não é um “detrito de fé” presente numa experiência pessoal e grupal, num determinado tempo e espaço, que deve ditar a máxima do viver cristão ao encontro do seu horizonte. Quando muito, podemos ser convidados a mover-nos para a totalidade da unidade da Igreja que, hoje, está também em “periferia”, dada o acumular de muitas experiências sem reflexão por parte de pessoas e instituições autocentradas.

Há sempre um “perigo” na boa institucionalização dos moções do Espírito, não tendo a ver com Este divino amor, mas como humanamente os Seus dons são acolhidos: é o de se querer perpetuar ou apresentar como absoluto o que é perecível, enquanto que o que vem de Deus é absolutamente capaz de nos mover/cativar para o seu Ser infinito, por ser vocacionalmente surpreendente.

Falta muita coragem para a avaliação das estruturas, em favor da “salvação as almas”. Penso que é por aqui que o “daimon” pessoal e social trabalha, mais do que pela institucionalização meramente humanidade quem deve ou não ser exorcizado (refiro-me aos simples que temem a Deus  − e que por isso, não devem ter mais nada a temer − que andam a servir de cobaias no velho “tubo de ensaio” do exorcismo).

Igreja(s) de Jesus: move-te/movam-se… para o Reino!!  É a via luminosa do Ecumenismo a tua/vossa cura. Não se fique aquém da semana de oração pela unidade dos cristãos (que costuma ser em janeiro de cada ano) na aspiração do horizonte, nem se recuse o mais além do que se aspire. Como sugere a protagonista do filme sopracitado, o discipulado-missão exige o máximo das nossas capacidades e não só 10% do que o nosso pensamento pode atingir. Por isso, é necessário aliar uma fé firme em Deus e uma forte comunhão no seu amor para com todos.

A unidade dos presbíteros na unidade da Igreja: um tributo à complementaridade

Hoje, o Card. Carlo M. Martini (em Come Gesù gestiva il suo tempo) faz-me compreender como a unidade de vida (interior e exterior) dos presbíteros, à luz do Decreto Presbyterorum ordinis, não pode realizar-se sem a unidade da Igreja. O sucesso de uns sempre esteve ligado à compelentaridade da comunhão da Igreja, de forma interdependente.

Pergunto: não estará a acontecer na Igreja o que se passa com a crise que invade as nossas famílias? A amalgama de ideologias − incluindo alguns “ensaios” de espiritualidade − que, de dentro e de fora, influenciam a vida social em que se procura incarnar a vida da fé têm uma força fragmentarizadora da qual ainda não seremos capazes rapidamente de dar conta e de minimizar os seus danos (quer para os padres, quer para as comunidades).

Em vez de nos debruçarmos com entusiasmo is0lado a experimentar espiritualidades (frequentemente as que dão resposta imediata aos problemas humanos), deveríamos (a meu aviso humilde, mas contundente do que fere a unidade) fazer ensaios de complementaridade, para que alguém possa vir a colher frutos não só de uma entrega feliz de consagração em favor dos outros, mas também de comunidades vivas que não fiquem somente apegadas às varandas do “sempre assim se fez” a ver passar os andores de lamentações pelos danos causados pela falta de unidade. Esta não é um “credo” de alguns , mas proposta para todos os que se declaram cristãos.

Para quando adiaremos o atrevimento da mudança. Quanto mais tempo demorarmos a entender que a distância é só (de uns e de outros, incluindo instituições) da unidade querida por Cristo, mais adiamos a possibilidade de uma experiência feliz de Igreja a caminho do Reino. Num tempo em que escasseiam as vocações: famílias, escusais de ficar à varanda a ver procissões de andores… não haverá presbíteros para os presidir. Contrariamos esta tendência?!

“Cingir os rins” é não deixar que o medo interior impeça os combates exteriores

[Leitura] Jer 1, 17-19; Mc 6, 17-29

[Meditação] É possível que algumas incoerências ou inconsistências da vida interior (normal) do ser humano adormeçam a consciência para o esforço a travar batalhas com o mundo exterior em que habita e interage com os outros. Por isso, a liturgia de hoje faz-nos ouvir a voz profética com o convite a não ter medo no confronto com o mal. O que confia acima das suas próprias forças, realiza o bem que não tem origem nele, mas em Deus, que tudo pode!

Como aconteceu com João Baptista e os Profetas que o precederam (Jeremias, etc.), a denúncia do mal nunca foi em vão, mas ao mesmo tempo protagonista do anúncio do bem. Entre aquela e este, por vezes, não é fácil para o ser humano, seja ele crente ou não, seja leigo ou consagrado, distinguir o que é a luta interior e o combate exterior. É nítido, no relato do Evangelho, que Herodes não tinha os “rins cingidos” com a verdade que João Baptista lhe pregava, não calando os medos que o impediram de dar um testemunho da verdade libertadora.

Na antropologia bíblica, os rins são os “cúmplices” do segredo pessoal e o lugar da intimidade. A partir deste órgão do corpo humano, a ciência bíblica sugere que se saiba calar interiormente a força do mal, para que exteriormente se possa deixar falar a verdade fundamental. Consagrar a vida a Deus e ao bem dos irmãos implica, pois, vestir, desde já, o que nos é prometido e percorrer este caminho entre a luta interior e o combate exterior, que coincide com a aproximação de diálogo entre o bem real que se quer conquistar e as realidade aparente que nem sempre persegue o mesmo horizonte.

[Oração] Sal 138 (139)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A “tarde” do amor humano não desconheça a frescura da “manhã” com que Deus nos ama

[Leitura] 1 Tes 1, 1-5. 8b-10; Mt 23, 13-22

[Meditação] Conhecemos de Santo Agostinho a seguinte bela manifestação da sua conversão:

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!
Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas.
Estavas comigo, mas eu não estava contigo.
Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem.
Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez.
Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira.
Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti.
Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz…

Um professor de Psicologia disse-me, um dia: “Quando dizemos a Deus que O amamos, quase sempre estamos a ser mentirosos. Porque, frequentemente, essa afirmação egoísta é feita tendo como pressuposto a necessidade que temos do seu amor”. Esta afirmação aclarou em mim o voluntarismo com que, também frequentemente, servimos os outros, nem sempre pelo bem-em-si, mas para “engordar” o próprio “ego”.

Na “manhã” da vida, os jovens podem correr o risco de ignorar que o Amor que pressupõe qualquer mérito humano exige uma resposta. E esta, como no caso de Agostinho, pode não passar de uma retórica feita de perguntas ou procuras sem o sentido previsto pelo Criador. Menos mal que esta Beleza sempre antiga e sempre nova nunca deixa de ser a mesma. A “retórica” humana é que, enquanto adia a prática do bem, se perde em experimentações vãs, enquanto que o amor de Deus nunca corre esse risco do vazio.

Há uma semelhança entre esta “retórica” e a hipocrisia atribuída aos escribas e fariseus com os quais Jesus se debate no Evangelho. Ambas são forjadas no coração pervertido que olha para o que é secundário (ouro e oferenda) sem a ligação fundamental com o que é primário (santuário e altar).

Na “tarde” da vida, haverá sempre oportunidades para responder à ordem do amor que sempre nos amou na prática. Estaremos à altura de o acolher?! Um coração convertido é aquele que se deixa habitar por Aquele que lhe pode dar uma resposta verdadeiramente satisfatória para as questões fundamentais da vida humana.

[Oração] Sal 149

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo