Tudo o que fazemos seja para que Se manifeste Jesus, que nos banha com o Espírito Santo e nos chama a viver o amor em CSS

Is 49, 3. 5-6; 1Cor 1, 1-3; Jo 1, 29-34 ─ no II Domingo do Tempo Comum (A); reflexão inspirada em Jose Antonio Pagola e em Comentário à liturgia do 2.º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Faço aqui um parêntesis informático performativo para informáticos:)
Uma das coisas mais interessantes que aprendi ao fabricar páginas na Internet ─ antigamente a partir da linguagem html/php e hoje a partir de plataformas open source/sistemas de gestão de conteúdos (CMS) que nos facilitam muito a vida na arte de comunicar pastoral on-line ─ foi a possibilidade de lidar com “folhas de estilo em cascata” (CSS ou Cascade Style Sheets). A sua função, ainda hoje muito importante, é a de criarmos uma folha fácil de carregar onde possam estar escritas todas as programações de estilo que poderão ser chamadas em qualquer página do sistema, quando o programador bem entender. Esta forma de comunicar permite não tornar pesado um sítio da Internet e de ter as coordenadas de estilo sempre à mão. Diante deste episódio do Batismo de Jesus, penso na partilha do Espírito Santo, do Pai para o Filho Unigénito e para nós, como uma “fonte de amor em cascata”: desde então, há uma forma de ser que pode ser acoplada ao mesmo Espírito segundo o Qual Jesus fala e atua. Podemos ver numa única folha de estilos para o governo da estética de um website como o único Espírito com que Deus Pai governa o mundo a partir de Jesus Cristo. Podemos ver isso de forma nítida em 1Cor 12,4-7: Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum.

No Evangelho de hoje recebemos o testemunho de João acerca do Batismo de Jesus no Rio Jordão, no início da Sua vida pública (descrito em Lc 3,21-22, em Mc 1,9-11 e em Mt 3,13-17 de maneira mais pormenorizada).

Logo após as celebrações do Natal, temos neste II Domingo do Tempo Comum a oportunidade para colher a identidade e missão de Jesus que é apresentado como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. É este o propósito da Encarnação de Jesus: a Paixão, Morte e Ressurreição para nossa salvação. É este o Mistério de Cristo que João Batista anuncia em duas etapas: anuncia a vida, chamando a “preparar o caminho do Senhor” e anuncia o seu percurso até à Páscoa.

Deste que constitui o primeiro dos mistérios luminosos, extraio as seguintes lições:

1 O amor incondicional de Deus manifestado no início da vida pública de Jesus é garantia do amor condicional que é destinado a todo o ser humano. Jesus coloca-se na fila dos pecadores que vão receber o batismo de água de João Batista, mesmo não sendo pecador. Na versão de Mateus Jesus responde ao Batista que “É conveniente que assim cumpramos toda a justiça”, interpretando-se como a “justiça superior” da compaixão ou misericórdia. Portanto, no início da vida pública de Jesus, a voz de Deus informa que o que quer realizar através do seu Filho Unigénito é um plano de amor para toda a humanidade. O amor incondicional de Deus é fonte de autoestima.

2 Neste Evangelho está bem patente a diferença do batismo de água que João administra e o batismo no Espírito que só Jesus é que pode realizar. Na Igreja, estes elementos aparecem unificados numa realidade só: no upgrade, ou seja, na atualização que Jesus fez, ao deixar-Se batizar. Jesus submerge os seus no Espírito Santo. Ele possui a plenitude do Espírito de Deus, podendo comunicar aos seus essa mesma plenitude. A grande novidade do batismo cristão é que Jesus Cristo pode “batizar no Espírito Santo”. Não se trata de um banho externo, mas um banho interior, no qual Jesus nos “empapa” do Espírito Santo para nos transformar o coração. A “pomba” é sinal da unção sobre Jesus, Aquele que vem restaurar os destinos de Israel. Ele traz a força, mas não é como esperavam: não vem impor nada pelo domínio ou manipulação dos outros, mas propor uma nova maneira de viver e de relacionar-se com Deus que parte do amor e da fraternidade universal. O amor incondicional é fonte de vida nova.

3 Ser batizados não é um mero requisito tradicional. Não podemos correr o risco de ficar pelo batismo de água ou de penitência, que o é, mas somos chamados a deixar que Jesus nos implique viver um novo nível de existência cristã, etapa após etapa, através de um estilo em que vivamos mais fiéis a Cristo Jesus. O Espírito de Jesus é o Espírito da Verdade, que nos permite não nos deixarmos enganar por falsas seguranças, dentro da nossa identidade irrenunciável de seguidores de Jesus. Para isso, é preciso abandonar caminhos que nos desviam do Evangelho, de interesses egoístas e do bem-estar que nos faz ser cobardes. O amor incondicional é fonte de liberdade.

4 É o Espírito Santo que transmitido por Jesus que nos permite fazer da fé um processo contínuo de conversão e não um caminho terminado. É o Espírito da conversão, que nos permite deixarmo-nos transformar lentamente por Ele, que nos ensina a vivermos segundo critérios e atitudes que manifestam o coração de Deus na nossa forma de nos relacionarmos com os outros. Os céus que se fecharam pela atitude os nossos primeiros pais, são agora abertos por Jesus, na nova relação que estabelece com o Pai. Deixemo-nos atrair pela novidade criadora deste relação, que pode despertar o que há de melhor no coração de cada um de nós e do interior da Igreja para fora. Pelo Espírito Santo, Jesus vem fazer uma proposta totalmente nova, original, mostrando-nos que valemos por aquilo que nós somos e não por aquilo que podemos dar. É o que se mostrará nos capítulos seguintes no Evangelho segundo João. Jesus é capaz de fazer os sinais manifestados porque Ele é o Messias esperado e enviado do Pai. O amor incondicional é fonte de renovação.

Acompanhamento no discernimento da vocação: o trespasse do testemunho para o encontro com Aquele que anima, forma e envia

1 Jo 3,7-10; Jo 1,35-42

Hoje, João Batista assume o papel de animador vocacional. Depois de várias temporadas de pastoral vocacional na minha diocese, em que cumprimos o propósito de lançar sementes, entre a escuta e o discernimento, na sequência das visitas pastorais do bispo diocesano, esperaria que ficassem nas paróquias e arciprestados pessoas como este grande precursor que, simplesmente (e já não é pouco!) aponta Jesus que passa, incentivando a segui-l’O. Sucessos não são fáceis de constatar, se é que o objetivo da missão cristã é o sucesso aparente!!

Os formadores dos seminários sabem que os jovens que passam pela experiência da formação na comunidade não têm ali morada permanente. Passam os dias e ocupam-se com os métodos formativos num modo semelhante ao de João Batista: o de apontar o dedo para o Bom Pastor a Quem são convidados a seguir e a configurar as suas pessoas. À medida que os anos da formação passam, tem de acontecer este trespasse do testemunho para o verdadeiro encontro, que vai desde uma inicial resposta à pergunta de Jesus «Que procurais?», com a qual se crivam as motivações verdadeiras para a idoneidade vocacional, até ao morar com Ele e como Ele a caminho, por uma síntese vocacional afora e nunca terminada, por entre cidades e aldeias, num acesso gradual à experiência pastoral, cada vez mais animada pela amizade com Cristo e a partir da demora com Ele (no italiano “habitar” é dimorare = “demorar-se”).

Por vezes, analisa-se o convite de Jesus «Vinde ver» meramente como sendo o “apeadeiro” que é o Seminário, como se este fosse o único e o último destino do testemunho de quem diz «Encontrámos o Messias». Sim, é verdade que Jesus muda de tal maneira a vida de alguns que lhes muda o nome, certificando uma expropriação em favor da sua missão. Porém, a comunidade do Seminário ─ como se fosse só “um dia” (que terá as suas réplicas ao longo da formação permanente) ─ dá lugar a um outro trespasse, o fundamental, para que a lógica da vocação cristã funcione: sentir a tensão que existe entre o demorar-se com Jesus e o testemunho aos outros, que tem de ser cada vez qualificado, de modo que outras pessoas possam sentir-se motivados pelo conhecimento que lhes é dado acerca da convivência com Cristo. Sim, tanto mais faz sentido a experiência de uma demora com Cristo numa casa de formação, quanto, na medida do possível e organizável, pudermos fazer a gradual experiência de O anunciar aos que vivem fora.

No meio do testemunho, a palavra ocupa um lugar fundamental, ainda que não o único, uma vez que a coerência das atitudes a certifica ou contradiz. É comummente aceite pela comunidade científica que a palavra falada tem um poder criador. E porque é que o seu uso é de grande importância? Segundo descobertas recentes no campo da neurologia, o centro nervoso da fala no cérebro controla todos os outros nervos do corpo. O que dissermos e a forma como dissermos, irá ajudar ou prejudicar a forma como os outros lidam com o objeto da nossa comunicação. A língua é o menor membro do nosso corpo, mas pode dominar o corpo todo. É curioso que já a antropologia bíblica dizia isto, sem o acesso aos instrumentos de investigação que temos hoje!

João apresentou o «Cordeiro de Deus» a dois, ou seja, apontou par a mansidão de Deus presente em Jesus que é capaz de se compadecer e, inclusivamente, de «tirar os pecados do mundo» (algo inédito e escandaloso naquele tempo…). Como não podia aliciar aqueles dois a irem ter com ele imediatamente? E aqueles dois foram diretos à melhor possibilidade a respeito de Jesus, não só um encontro esporádico, mas “demorar-se” com Ele, naquele dia. E logo aquele encontro se multiplicou, com o testemunho de André a seu irmão Simão que veio a chamar-se Pedro.

A força criadora da palavra, no testemunho, pode ser colocada ao serviço dos propósitos de Deus, por aqueles que se habituaram a privar com Ele: prova disso é a eloquência com que fala João na primeira leitura acerca da semente divina que está naqueles que, não pecando, praticam a justiça do amor aos irmãos. Através do testemunho que damos na relação com os outros (dentro e fora da comunidade formativa), falamos-lhes da relação que temos (ou não) com Deus. Portanto, a história de uma vocação não precisa de muitas palavras, sendo que as que são ditas são essenciais, quer para descrever o encontro de cada um com Cristo, quer para atrair outros a um pessoal encontro com Ele, mediado pelo entusiasmo que é o Espírito de Deus que habita em nós.

   O Verbo de Deus nasceu segundo a carne uma vez por todas. Mas pela sua bondade e condescendência para com os homens, deseja nascer sempre segundo o espírito para aqueles que O procuram, e faz-Se menino que se vai formando neles à medida que crescem as suas virtudes. Ele manifestou-Se em proporção com a capacidade de cada um, capacidade que Ele conhece perfeitamente. E se não Se comunica com toda a sua dignidade e grandeza, não é porque não o deseje, mas porque conhece as limitações das faculdades recetivas de cada um. Assim, o Verbo de Deus revela-Se sempre a nós do modo que nos convém, e contudo ninguém pode conhecê-lo perfeitamente, por causa da grandeza do mistério.    Por isso, o Apóstolo de Deus, considerando a força do mistério, exclama sabiamente: Jesus Cristo ontem e hoje e para sempre, entendendo que se trata de um mistério sempre novo, que nunca envelhece para a compreensão da inteligência humana. (…) A Encarnação divina é um grande mistério e nunca deixará de ser mistério. Como pode o Verbo, que está em pessoa e essencialmente na carne, existir ao mesmo tempo em pessoa e essencialmente no Pai? Como pode o Verbo, totalmente Deus por natureza, fazer-Se totalmente homem por natureza, sem detrimento algum da natureza divina, segundo a qual é Deus, nem da nossa, segundo a qual Se fez homem? Só a fé pode apreender estes mistérios, a fé que é precisamente a substância e o fundamento das realidades que ultrapassam toda a perceção e raciocínio da mente humana.

São Máximo Confessor, abade, Dos “Capítulos”, distribuídos em cinco centúrias

Evangelizar é tanto levar Jesus aos outros como enviar os outros a Jesus, formar tanto quanto reformar

Is 45, 6b-8. 18. 21b-25; Sal 84 (85); Lc 7, 19-23

O Advento do Evangelho não nos mostra muito da relação entre os primos João Batista e Jesus, mas aquilo que mostra é suficiente para nos darmos conta de que é uma cumplicidade e uma distância entre os dois, ao mesmo tempo, fatores que não anulam a sua relação como “dobradiça” entre o antigo e o novo testamentos, antes interagem no comum projeto de Deus que é surpreendentemente formador e reformador da história do seu Povo.

Só os vemos juntos no momento fundante da vida pública de Jesus, no rio Jordão, onde a água serve de eixo à articulação entre duas margens, tanto quanto aquela fila de pessoas que se sujeita ao banho de regeneração. Eloquente é também o da concha, cuja charneira abre as duas partes para a abertura a uma luz nova e à contemplação de sua pérola. Durante um tempo, esta se forma dentro da concha, mas passado um tempo, ela terá de ser aberta, para que o que se formou se dê a mostrar. Por isso, evangelizar terá de ser sempre formar e reformar, ajudando a crescer e mostrar, saindo para fora.

É assim a formação cristã, é assim a formação sacerdotal, é assim toda a educação: ajudar a crescer e enviar. Assim fez João Batista com os seus discípulos: enviou-os a Jesus. O seu intuito não seria só curiosidade, nem somente o “grito de um guerreiro”, mas, também, uma pedagogia sábia: abrir mão dos seus próprios discípulos e proporcionando que eles fizessem um “upgrade” na sua forma e objeto de seguimento. Ouvindo de Jesus a confirmação de que era o Messias esperado, ficariam para sempre ligados a Ele.

É assim que, também, vejo o conceito e vivência da minha incardinação como presbítero na minha diocese e na Igreja, à luz do cânone 265 e à luz do Concílio Vaticano II, entre a formalidade e a mudança de mentalidade: por um lado, uma ligação “umbilical” que me dá estabilidade e segurança enquanto sou útil no serviço (cf. cânones 269 e 281); por outro lado, abrindo portas a uma vivência profética do ministério, colocando-me ao serviço ou nunca me fechado à possibilidade de socorrer às necessidades provenientes da responsabilidade que o meu bispo tem de responder a desafios difíceis dentro e fora da própria Igreja particular. A incardinação é, por isso, espaço de formação e de reforma permanente. Se não o fosse, não se estaria “incardinado”, correndo o risco de ser uma porta que não abre nem fecha, porque desligada de a “charneira” que é a autoridade do bispo.

Hoje, a Liturgia faz-nos contactar com S. João da Cruz. A tendência de “encadernar” a vida dos santos de uma forma uniformizante “capa” a possibilidade de contactarmos com o que na sua história é inédito: o caminho do nada se preciso for (como na sua foi) para chegar à novidade do amor de Deus. E quando se fala de “nada” é mesmo nada: nem o físico nem o espiritual. Às vezes, é assim que se faz a reforma da vida espiritual e da Igreja (e das suas instituições): não fazendo “marcha atrás”, mudando somente o lugar onde se (re)enterram os ossos de um fundador, mas um regresso às fontes, para as reler com novos olhares. Não basta anunciar o amor de Deus aos outros, ainda que com palavras afáveis e ações de beneficência; é preciso ajudar os outros a contactar com o amor de Deus como ele se apresenta na sua originalidade por cada pessoa.

Conforme João Batista, o precursor, enviou os discípulos a perguntar ao Messias se era Ele mesmo que havia de vir ao mundo, hoje, a Igreja precursora, é chamada a ir ao encontro da Igreja missionária averiguar a novidade onde o Messias se vai manifestando na sua novidade. Talvez seja este, também, um dos desafios do Sínodo!

O Justo que pedimos que “chova” através do Salmo 84 (85), quando chove, não é para um funil, mas onde quer que Se se manifeste a sua bondade. Ela atrai-nos de onde quer. Por isso, somos chamados a “ver novas todas as coisas”! (St. Inácio de Loyola).

Evangelizar é ensinar e curar… com mais vontade para frutificar ‘as letras’!

Is 30, 19-21. 23-26; Mt 9, 35 – 10, 1. 6-8Memória de São Francisco Xavier, Padroeiro das Missões

Ai de mim se não evangelizar ─ Bem entendo esta exclamação na boca de Paulo, de São Francisco Xavier e de tantos e tantas, missionários e missionárias ao longo da história, diante do evangelho de hoje, que nos mostra a itinerância imparável, sinodal e universal de Jesus para instaurar ou implantar o Reino de Deus. Na sua ação, conforme nos relata Mateus, entrevê-se um itinerário vocacional daqueles que O acompanham: aos discípulos manda pedir ao Senhor da messe que mande trabalhadores, aos Doze, que Ele chama como hoje os Bispos chamam aqueles que escrutinam para a Ordem, após um tempo significativo de formação, manda realizar atos extraordinários de cura e libertação.

Viemos por povoações de cristãos, que se converteram há uns oito anos. Nestes sítios não vivem portugueses, por a terra ser muitíssimo estéril e extremamente pobre. Os cristãos destes lugares, por não terem quem os instrua na nossa fé, somente sabem dizer que são cristãos. Não têm quem lhes diga Missa e, ainda menos, quem lhes ensine o Credo, o Pai-Nosso, a Ave-Maria e os Mandamentos. Quando eu chegava a estas povoações, baptizava todas as crianças por baptizar. Desta forma, baptizei uma grande multidão de meninos que não sabiam distinguir a mão direita da esquerda. Ao entrar nos povoados, as crianças não me deixavam rezar o Ofício divino, nem comer, nem dormir, e só queriam que lhes ensinasse algumas orações. Comecei então a saber por que é deles o reino dos Céus.

Carta de S. Francisco Xavier em 1542

O Reino de Deus é de que o quer e busca. Ouvi alguém letrado em Teologia e Pastoral dizer, uma vez, que a tendência atual é querermos preparar bem as pessoas para celebrar os sacramentos e, depois de os termos ganho, tender a não acompanhar. Em vez disso, propunha celebrar com as pessoas que assim o querem de livre e boa vontade os sacramentos e, na continuidade, acompanhar os que os recebem no caminho da vida e da fé. Faz sentido, à luz quer do testemunho de São Francisco Xavier, quer do que aprendemos com Jesus Cristo no Evangelho. Diz-nos a sua história que Xavier se dedicou desde cedo às obras de caridade. Não será este voluntariado (boa vontade) que precisamos como fundamento de uma pastoral vocacional mais promissora, em vez de encontros mais ou menos intelectuais fechados sobre si mesmos? A este respeito, urge entrelaçar as iniciativas que já temos na Igreja e monitorizar se o caminho que se propõe a que adere a ele se constituiu como itinerário vocacional.

Como seria ímpio negar-me a pedido tão santo, comecei pela confissão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pelo Credo, Pai-nosso, Ave-Maria, e assim os fui ensinando. Descobri neles grande inteligência. Se houvesse quem os instruísse na fé, tenho por certo que seriam bons cristãos.

Carta de S. Francisco Xavier em 1542

Quanto plantamos uma semente ou uma pequena raiz, não queremos que ali seja imediatamente árvore e fruto. Requer-se tempo, após a sementeira e plantação. Requer-se preparação do terreno, mas se demoramos a semear e plantar, o terreno “foge” da predisposição que possuía para a plantação.

Mas, para o seguimento de Cristo, requer-se acompanhamento, pois

Muitos deixam de se fazer cristãos nestas terras, por não haver quem se ocupe de tão santas obras. Muitas vezes me vem ao pensamento ir aos colégios da Europa, levantando a voz como homem que perdeu o juízo e, principalmente, à Universidade de Paris, falando na Sorbona aos que têm mais letras que vontade para se disporem a frutificar com elas. Quantas almas deixam de ir à glória e vão ao inferno por negligência deles! E, se assim como vão estudando as letras, estudassem a conta que Deus Nosso Senhor lhes pedirá delas e do talento que lhes deu, muitos se moveriam a procurar, por meio dos Exercícios Espirituais, conhecer e sentir dentro de suas almas a vontade divina, conformando-se mais com ela do que com suas próprias afeições, dizendo: «Senhor, eis-me aqui; que quereis que eu faça? Mandai-me para onde quiserdes; e se for preciso, até mesmo para a Índia».

Carta de S. Francisco Xavier em 1542

Não é infrequente, para os que “habitam” as comunidades da Igreja, querer-se ou pedir-se serviços cómodos ou mais vistosos, onde sustentar um protagonismo que dê segurança emocional e reconhecimento que acaba por ser “pago” de alguma forma. Chega a haver, já, bons estudos de psicologia sobre isso, que servem de prevenção e de cura!

Urge a necessidade de discípulos-missionários preparados e animados em ser enviados para as periferias, não só para ensinar, mas também para cuidar, curando as pessoas nas situações mais diminuidoras da dignidade e felicidade humanas. Pelo que se percebe nesta crónica, muitas vezes se “fica pelas palavras e não aponta ações concretas para combater estas ameaças. Como nos diz o Papa Francisco na sua mensagem para o Dia Mundial dos Pobres ‘não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através dum envolvimento direto’. Eu por cá [diz o Papa] vou tentar arregaçar as mangas…’.

São Francisco Xavier é um daqueles exemplos em que a prática da caridade e o ensino são partes da mesma entrega e ação missionária, imitando o próprio Cristo.

Ajudar-nos-á a imitar, também, assim a opção de Jesus pelos mais desfavorecidos, voluntariando-nos e envolvendo outros, a partir da intenção de oração neste mês de dezembro: por organizações de voluntariado e de promoção humana que se comprometam pelo bem comum.

Conselhos do Santo do Dia

“Deixar-se afetar por” e “esperar a docilidade de” ─ não há outra forma de sonhar o encontro sempre original do primeiro anúncio de Jesus Cristo

Mt 4, 18-22; Festa de Santo André,

Este mês de novembro, que está a findar, é coroado com a Festa de Santo André, que acaba por dar-lhe o nome de “Mês de Santo André”, aberto pela celebração da Solenidade de Todos os Santos e, em particular, no dia 4, continuado pela celebração da memória de São Carlos Borromeu, padroeiro dos seminaristas, e sequenciado com a vivência da Semana dos Seminários.

Com Santo André destacamos duas dimensões fundamentais da fé, nem sempre lembradas em tempos de indiferença ao mistério cristão, que são (cf. testemunho de D. Manuel Pelino):

1ª ─ O entusiasmo pelo encontro com Cristo (estar com Cristo), experiência que André fez com João Evangelista, ambos discípulos que João Batista apresentou a Jesus, que os convidou a ir com Ele e a ver… Não basta teorias, doutrinas, ritos…, que nem sempre têm ou proporcionam este encontro pessoal com Cristo, como presença amiga.

2ª ─ A notícia do encontro com Cristo, transmitida pelo testemunho pessoal a outros, como André fez com seu irmão Simão. Portanto, a fé é um encontro e a fé leva-nos a conduzir outros até Jesus.

A estas duas dimensões, apoiado pelo Evangelho de hoje, juntaria uma 3ª que é: a sinodalidade do chamamento, tendo em vista a sinodalidade da missão (recordemos o júbilo de Jesus pelo envio dois a dois e o sucesso da missão dos 72 discípulos, no Evangelho de ontem).

Já o Papa Francisco nos garante que

A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quando se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo renasce sem cessar a alegria. (…) Da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído. (…) O bem tende a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e beleza procura, por si mesma, expansão; e qualquer pessoa que vive uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se.

EG n.º 1, 3 e 9

O Cristianismo é o anúncio de que Deus Se fez homem, nascido de uma mulher, num determinado lugar e num determinado tempo. O Mistério que está na raiz de todas as coisas quis dar-se a conhecer ao homem. É um Facto que acontece na história, é a irrupção no tempo e no espaço de uma Presença humana excecional. Deus deu-Se a conhecer revelando-Se, tomando Ele a iniciativa de colocar-Se como fator da experiência humana, num instante decisivo para toda a vida do mundo.

LUIGI GIUSSANI – STEFANO ALBERTO – JAVIER PRADES, Gerar rasto na história do mundo, Paulus, Apelação 2019, 13.

A excecionalidade da presença de Cristo era impressionante, para que aqueles que estavam da sua tarefa de subsistência primária ─ pois eram pescadores ─, de modo que não hesitaram em relativizar essa tarefa em favor do encontro que iria transformar as suas vidas para sempre.

Ainda ontem verificámos que a missão de Jesus é solidária, enviando os 72 discípulos dois a dois e alegrando-Se pelo êxito da missão, à luz do Espírito Santo. Hoje constatamos que Jesus também chama dois a dois para o discipulado, como se entre seguimento e missão não houvesse algum hiato, mas continuidade de um estar com o Mestre e ser enviado, na sequência de diversas etapas do viver cristão.

Há uma simpatia profunda que permeia o encontro daqueles homens que viriam a ser Apóstolos com Jesus ─ e que ultrapassa os laços de sangue ─ construída com a modalidade escolhida por Deus para que se desse o encontro: o acontecimento, não os nossos pensamentos ou criações mentais, sim, um acontecimento feito de vários factos inesperados. O “acontecimento” é diferente de evento (que representa um “vir de”); acontecimento representa sempre “ir a”, de modo que nunca se encontra fechado, mas aberto e solícito (cf. obra citada acima, 25). E o primeiro acontecimento da história é a Criação, a qual se desdobra em múltiplos acontecimentos até ao definitivo ato da Redenção.

Hoje, a palavra acontecimento está envolva em confusão, pois a coisa mais difícil de aceitar é que um acontecimento “seja aquilo que nos faz acordar para nós mesmos, para a esperança, para a moralidade” (ibidem, 27). Definindo: acontecimento é “a transparência do real emergente na experiência, enquanto proveniente do Mistério, ou seja, de alguma coisa que nós não podemos possuir e dominar” (ibidem, 26). Então, quanto tocados por uma presença assim, o homem deixa de identificar a totalidade da vida com algo parcial e limitado, dando-se conta que sozinho não consegue manter um olhar verdadeiro sobre o real.

O acontecimento cristão tem a forma de um encontro, num tempo e num espaço precisos, com uma diferença irredutível, qualitativa, que nos atrai, porque corresponde ao coração, passando também pela comparação e do juízo da razão, provocando a liberdade na sua afetividade. Como facto histórico totalizante, o encontro com Cristo não deixa ninguém indiferente, mas crente.

Como é que a memória do acontecimento passado se mantém viva na sua versão do presente? Através do reconhecimento da profundidade histórica desse mesmo encontro realizado na atualidade.

No encontro começa a fé, porque este traz consigo, veicula, torna presente, algo excecional, de não previsto, de não previsível, que investe radicalmente a vida, a ponto de lhe mudar o princípio do conhecimento, o princípio afetivo e a capacidade construtiva, de outra forma inefável, de Deus. (…) A palavra memória descreve, portanto, a história entre o acontecimento original presença inevitável, indestrutível, inegável: toda a riqueza do início se encontra no presente e é no presente que o homem descobre a divindade da origem. A memória é a história entre a origem e o agora.

Op. cit., 47-48.

Segundo “reza” o martirológio cristão, no calendário de hoje:

André, natural de Betsaida, irmão de Simão Pedro e pescador como ele, foi, primeiramente, discípulo de João Batista e, depois, seguiu a Cristo, a quem apresentou o seu irmão Pedro. Juntamente com Filipe, introduziu à presença de Jesus uns gentios que O queriam ver e foi ele também que indicou o rapaz que tinha os peixes e o pão. Segundo a tradição, depois de Pentecostes, pregou o Evangelho na região da Acaia, na Grécia, e foi crucificado em Patras. A Igreja de Constantinopla venera-o como seu mais insigne Patrono.

Como atrair, hoje, os nossos contemporâneos para Jesus Cristo? Propõe-nos Paulo: (1º) ter o nome de Jesus nos lábios (falar d’Ele); (2º) acreditar com um coração justo. Resumindo: vivendo diante dos outros com coerência entre o que dizemos de Jesus e a forma como praticamos a sua justiça. Só assim, o testemunho dos cristãos de hoje poderá servir de veículo para o encontro original e irredutível com Jesus Cristo.

Curiosamente, na ordem dos sentidos, primeiro conhece-se, depois é que vem o amor. Na ordem da experiência espiritual, primeiro acontece o amor, e só depois é que se procura conhecer ainda mais essa origem e objeto de amor. Na Igreja, temos de nos afastar da tentação de procurar que o “motor” seja meramente o saber, o poder, o fazer e o aparecer… dos mais fortes, os mais ricos, os mais hábeis, o mais célebre, o mais influente… que fazem de nós funcionários, em vez de discípulos-missionários (cf. FRANÇOIS-XAVIER BUSTILLO, no seu recente livro A vocação do padre perante as crises ─ A fidelidade criativa (Ed. do Secretariado Nacional de Liturgia, Fátima 2022, 36). Portanto, só o muito deixarmo-nos amar e responder com o amor é que poderá levar-nos a saber mais e melhor acerca do mistério de Deus que nos envolve.

Anunciar o Evangelho com “pés formosos” é tatear com delicadeza o chão da realidade humana de hoje, persistindo naquilo que é essencial e fugindo da lógica mundana que cansa, reduz e não atrai os corações. A fraternidade humana universal poderá ser, na ótima de Francisco, um instrumento para desbravar novamente o caminho que leva até Cristo, que ajude a tirar os destroços de apegos que teimem em apagar a memória daquele encontro original que está no coração da história.

Numa das suas homilias sobre o Evangelho segundo João, São João Crisóstomo diz que

André, depois de permanecer com Jesus e de aprender muitas coisas que Jesus tinha ensinado, não escondeu o tesouro só para si, mas correu pressuroso à busca de seu irmão para o tornar participante da sua descoberta. Repara no que diz a seu irmão: Encontrámos o Messias (que significa Cristo). Vês de que modo manifesta tudo o que tinha aprendido em tão pouco tempo? Com efeito, por um lado manifesta o poder do Mestre que os tinha convencido desta verdade, e por outro lado manifesta o interesse e a diligência dos discípulos que desde o princípio se preocupavam em comunicar estas coisas. São as palavras de uma alma que deseja ardentemente a sua vinda, que espera Aquele que havia de vir do Céu, que exulta de alegria quando Ele Se manifestou e se apressa a comunicar aos outros tão grande notícia. A comunicação mútua das coisas espirituais é sinal de amor fraterno, de parentesco amigo e de afecto sincero.

Leitura do Ofício

Só a seguir a este afetar-se pelo seu irmão de André é que se segue a docilidade e a prontidão do seu irmão Pedro, com quem caminha na explicação de tudo o que vivenciou até que a este também arda o coração. “Deixar-se afetar por” e “esperar a docilidade de” ─ não há outra forma de sonhar o encontro sempre original no primeiro anúncio de Jesus Cristo.

Concluindo:
Em Mc 1, 16, André sabe ser irmão no encontro com o Senhor;
Em Jo 1, 40, André sabe ser mediador do encontro do irmão com o Senhor;
Em Jo 6, 8, André sabe ser um verdadeiro ecónomo da justiça de Deus informando sobre o menino que possui os pães e os peixes para a partilha;
Em Jo 12, 22, André é, também, mediador “fora da caixa” entre Jesus e os gregos que pedem para falar com Ele.

Não deixa de ser eloquente e irredutível a comunicação entre o nosso Santo Padre e o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, por ocasião desta Festa de Santo André, recordando o santo padroeiro da Igreja de Constantinopla e irmão de Pedro, prova viva da memória entre aquele encontro e seguimento originários da nossa mesma fé e seguimento de Jesus Cristo.

Na mensagem que lhe enviou hoje, o Papa Francisco, reconhecendo que as divisões são o resultado de ações e atitudes lamentáveis que impedem a ação do Espírito Santo, refere:

O pleno restabelecimento da comunhão entre todos os que acreditam em Jesus Cristo é um compromisso irrevogável para cada cristão, já que a “unidade de todos” (cf. Liturgia de São João Crisóstomo) não é apenas a vontade de Deus, mas também uma prioridade urgente no mundo atual. De fato, o mundo de hoje está precisando muito de reconciliação, fraternidade e unidade. A Igreja, portanto, deveria brilhar como “sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de toda a raça humana” (Lumen gentium, n. 1). (…) O diálogo e o encontro são o único caminho para superar os conflitos e todas as formas de violência.

A responsabilidade não depende só da força de vontade, mas de uma boa visão da realidade

Filip 3, 17 – 4, 1; Lc 16, 1-8

Jesus tinha uma propensão para ensinar os seus discípulos e retorquir com os seus adversários apontando modelos “fora da caixa”, falando de pessoas concretas ou sugerindo-as em parábolas. É o exemplo do bom samaritano, a mulher pecadora, etc. No Evangelho de hoje, elogia um administrador desonesto. Obviamente, não é por ser desonesto, mas por ter qualidades que, por vezes, faltam a pessoas honestas, uma vez que no testemunho que evangeliza não basta ser, é preciso também parecer.

A qualidade em foco é a “esperteza” que o dicionário também define por “vivacidade” e que no contexto da vida cristã podemos definir como decisão pronta ou firme empenho na prática da justiça e da misericórdia. Aliás, como o Apóstolo sugere, esta é uma forma de imitar Cristo, o nosso maior modelo de coerência entre o ser e o parecer, entre o dizer e o fazer.

“Presta contas da tua administração” ─ Cada vez mais, hoje, se houve a palavra accouttability, que o dicionário de Inglês define por “responsabilidade”, definida por “obrigação de responder por atos próprios ou alheios, ou por uma coisa confiada”. É óbvio que Jesus não nos conta esta parábola para nos sujeitar meramente a uma avaliação a posteriori a penar em premiar pela boa administração ou para castigar pelos maus atos. Certamente que o seu intuito é, também e a priori, ajudar-nos a predispormo-nos para a assunção de responsabilidades como quem sabe que irá ser avaliado. Assim, faremos como a vida de S. Carlos Borromeu sugere. Este grande reformador da Igreja já era um homem de pedagogia sinodal e, aos sacerdotes ─ para cuja formação ajudou a iniciar o que hoje chamamos de “Seminário”, por ordem do Concílio de Trento ─ sugeria que se preparassem bem na “sacristia” através do silêncio para que não acontecessem distrações na hora de celebrar os mistérios de Deus. É um grande defensor da oração mental, tanto antes como durante as orações comunitárias. No fundo, a sua grande preocupação não era meramente a reformação exterior, mas a formação do interior, para uma maior coerência entre o dizer e o fazer.

Para sermos responsáveis a partir de dentro e na assunção livre de tarefas pastorais, precisamos de uma boa dose de prontidão. Mas não basta; é preciso que seja decisão iluminada. Porquê? Há tempo escutava uma conferência on-line em que alguém dizia que para sermos prontos não basta ter força de vontade. É um equívoco. Quando nos pomos a refletir que devemos ter força de vontade para fazer uma coisa mais ou menor urgente, é quando mais procrastinamos. Então, o que é mais decisivo? O orador dizia que é preciso ter “visão” sobre a importância do bem daquilo que somos chamados a fazer. Ou seja, a vivacidade ou firme empenho não depende meramente da força de vontade; é, também, decisiva uma boa visão da realidade que nos atrai a viver de uma certa forma. Esta forma de atuação ajudará a que, também, existe “sinodalidade” entre o gostar e o dever, dialética entre o pensamento moral e o hipotálamo com centro de regulação dos estados motivacionais.

Pastores segundo o coração de Cristo, que integrem a diferença e transbordem de claridade

Mt 5, 13-19; na Solenidade de São Martinho de Dume (Arquidiocese de Braga)

Em Braga, hoje, celebra-se a Solenidade de S. Martinho de Dume, bispo, Padroeiro principal da Arquidiocese.

As “letras pequeninas” dos contratos, que os advogados dizem que vão ficar maiores, para que possam ser bem lidas sem possibilidade de enganos, costumam ser assinadas sem que ninguém as leia, ficando-se quase sempre ou nunca por um pequeno resumo proferido por um intermediário. Com a Palavra de Deus e o contrato da Aliança que Ele realizou com a humanidade, por vezes, também pode acontecer que os pormenores fiquem sem serem lidos, estando contidos neles um bem maior que poderia despoletar um processo de mudança em favor de todos.

No Evangelho, Jesus diz-nos que no Reino de Deus é grande aquele que pratica e ensina os mandamentos. E sublinha que “antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra”. Transgredir, portanto, os mandamentos, por mais pequenos que sejam, leva a que o ensino sobre o reino de Deus fique coxo. Fica claro, no ensinamento de Jesus ─ o nosso máximo modelo de coerência ─ que a prática da Lei enobrece e dá eficácia o ensino da Lei. Já os nossos anciãos o dizem: “vale mais um bom exemplo do que mil palavras”.

Mas há uma coisa que me intriga entre estas afirmações de Jesus e o contexto em que elas são ditas, que me levam a revisitar o antes e o depois deste texto: acompanhamo-l’O no sermão da montanha em que Ele profere estas palavras após o discurso das bem-aventuranças. Para quem é que ele fala, agora, de forma radical quanto ao cumprimento da Lei: aos pobres, aos que choram, aos puros, aos perseguidos…? Sofrerão estes por não terem cumprido de forma exímia as leis ou porque alguém não cumpriu a Lei do Amor de Deus na prática como deveria de ser? No versículo 17, os biblistas não hesitam em afirmar que começa uma discussão severa contra os fariseus, que Mateus nos deixa relatado com num tom rabínico, uma vez que eles impunham a Lei aos outros e esqueciam-se de valorizar os pormenores da mesma Lei. Hoje diríamos: fixam-se na Lei de forma rígida e esquecem-se de cumprir e sugerir o espírito da Lei que é a Lei do Espírito de Deus e não dos pensamentos ou pretensões vãs dos homens.

Um exemplo de cumprimento da Lei de Deus ao pormenor: ser misericordioso. Outro exemplo: ser sal e luz. Provas destes exemplos de um cumprimento exímio da Lei até à pequenina letra são a Profecia de Ezequiel e o Testemunho de vida do Apóstolo. Cumprir até à pequenina letra implica não deixar de fora o mais pequenina possibilidade de a Lei de Deus favorecer alguém no seu crescimento, na proteção da sua dignidade, na sua inclusão comunitária, na defesa dos seus direitos mais fundamentais, na possibilidade de salvação eterna, etc. Até dar um copo de água, um litro de leite, um pão ou um medicamento ─ pensando em obras materiais ─ ou dar um minuto de escuta, fazer uma visita ou compreender a ferida de alguém, etc. ─ pensando em obras espirituais ─, pode exemplificar bem os pormenores da Lei a que Jesus dava e continua a dar importância.

Dentro do espírito do Evangelho, ser sal será ser integrador da diferença e ser luz é deixar transbordar a claridade do amor de Deus diante dela.

“O Senhor é meu Pastor, nada me faltará!” ─ Quem é que pode fazer esta exclamação? Todos os que quiserem deixar crescer dentro de si o ardor missionário, como aconteceu com São Martinho de Dume. Teve consciência de que o Bom Pastor nunca abandona as ovelhas enfraquecidas e, por isso, foi-lhe fiel ao não fugir à responsabilidade do cuidado para com os distantes. Este pastor da Igreja veio de longe (originário da Panónia e depois de ter crescido na Palestina) para as periferias não só geográficas, mas sobretudo existenciais, tendo em conta cidadania da fé. Destacou-se na luta em favor da erradicação de práticas pagãs, nas comunidades católicas. Assim foi o combate de São Paulo e todos os batizados, acompanhados pelos pastores que o Senhor coloca diante e a caminhar com eles, somos convidados a ter como garantia da mesma graça tão nobres testemunhas.

Ao convidar a Igreja para uma nova etapa evangelizadora marcada por aquela alegria de Cristo que enche o coração de quem se encontra com Ele, e que precisa de ser partilhada, o Papa Francisco revive a mesma profecia de Ezequiel. Na exortação apostólica “A Alegria do Evangelho” indica-nos caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos, precisamente para que aquela profecia que antecipa a encarnação do Evangelho que é Cristo, não deixe de se realizar também em nós e em todos os seres humanos nossos contemporâneos. No contexto do Dia Mundial das Missões que comemoramos neste fim-de-semana, o Santo Padre aponta a novos horizontes «geográficos, sociais, existenciais» para as comunidades católicas, afirmando:

Não existe qualquer realidade humana que seja alheia à atenção dos discípulos de Cristo, na sua missão. A Igreja de Cristo sempre esteve, está e estará ‘em saída’ rumo aos novos horizontes geográficos, sociais, existenciais, rumo aos lugares e situações humanos ‘de confim’, para dar testemunho de Cristo e do seu amor a todos os homens e mulheres de cada povo, cultura, estado social. (…) Exorto todos a retomarem a coragem, a ousadia, aquela parrésia dos primeiros cristãos, para testemunhar Cristo, com palavras e obras, em todos os ambientes da vida. (…) A missão realiza-se em conjunto, não individualmente: em comunhão com a comunidade eclesial e não por iniciativa própria. (…) O cuidado pastoral dos migrantes é uma atividade missionária que não deve ser descurada, pois poderá ajudar também os fiéis locais a redescobrir a alegria da fé cristã que receberam.

Ler Mensagem do Santo Padre na íntegra

Avisos à navegação para uma boa vivência da fé = mente esclarecida + coração compadecido + vivência comunitária

Ef 1, 1-10; Lc 11, 47-54

Um grupo de estudantes de Engenharia e seu professor receberam uma passagem de avião gratuita para ir de férias. Quando estavam dentro do avião, o piloto anunciou que estavam na aeronave que os alunos tinham construído. Todos se assustaram e, imediatamente, correram para fora do avião, exceto o professor deles que ficou lá com muita calma. Quando a hospedeira de voo perguntou por que é que ele não tinha saído com os seus alunos, ele respondeu rapidamente: “conheço as habilidades dos meus alunos muito bem, esta bodeguice de avião nem se sequer vai conseguir ligar”.

Moral da história: dá a impressão de aquele professor quis fazer passar os seus alunos por uma experiência de choque, para que eles pudessem a estar mais atentos aos ensinamentos importantes que tocam com a vida das outras pessoas. Por outro lado, não tinha conseguido ensinar-lhes tudo para que o avião funcionasse e nele se pudesse navegar em segurança. A verdade, é que nem eles mesmo se sentiram bem ao saber que o que tinham construído viesse a ter sucesso. Resulta uma experiência social de fuga.

Jesus acusa os doutores da lei de terem tirado “a chave da ciência”, não entrando e não deixando entrar. Ou não sabiam ou não queriam que alguém como os profetas e os apóstolos os ajudassem a levantar voo. E ainda por cima, limitavam as pessoas à não possibilidade de se abrirem ao projeto de Deus continuado por Jesus. Estavam diante da Nova Aliança e, mesmo assim, agiam conforme os seus antepassados corrompendo a compreensão da antiga Aliança.

No seu hino, o Apóstolo Paulo garante-nos que “do alto dos Céus [Deus] nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo”. E que a todos escolheu, “antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença”. Portanto, a adoção filiar divina é em Jesus Cristo, o Filho Unigénito, e não em qualquer outro ser humano à face da terra. É n’Ele e pelo seu sangue que “temos a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência (…) instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos Céus e na terra”. Por isso, nenhum pastor ou mediador pastoral se deve fazer “caro” quanto à partilha dos bens espirituais ou ao testemunho da fé, sem protelar o desenvolvimento pessoal ou levar a procrastinar no tocante às experiências da fé que salva.

Talvez andem à volta deste tema os “avisos à navegação” que o teólogo italiano Armando Matteo tem vindo a fazer nas suas recentes obras, onde fala abertamente de vários fatores de crise na vida cristã: a ignorância (Ensinar os ignorantes), a incredulidade (A primeira geração incrédula) e a imaturidade (Converter Peter Pan).

Qual será o Problema? E de quem será o problema? E qual será a solução? Parece-me que no desenvolvimento humano, entendido à luz da antropologia cristã que tem como modelo Jesus Cristo, tem de passar por três tipos de ordem: o reto pensar a que se pode chamar de ortodoxia, o reto sentir a que se pode chamar de ortopatia e o reto fazer que tem por nome ortopráxis. Jesus, em Si, tinha o Espírito Santo que o levava a demonstrar ter pensamentos, sentimentos e ações que eram conformes à verdade, à vontade e à ação divinas.

Na maioria das nossas dioceses, a formação cristã está a ser um “calcanhar de Aquiles”. Não faltam iniciativas e dinamismos e, até, tentativas de renovação não só das verdades a ensinar, mas sobretudo na forma como envolver todos os intervenientes. Algures, no processo de renovação, fica sempre a sensação de que existe a dificuldade em fazer das comunidades ambientes integradores onde seja possível desenvolver-se uma formação que seja integral, embora não totalitária. É por isso e para isso que se definem as Igrejas particulares como sendo os ambientes que têm tudo o que precisam para ser Igreja. Não será, porventura, que tenhamos esquecido algumas daquelas dimensões insubstituíveis para que cada pessoa possa fazer uma experiência integral da fé? Teremos nós partido do pressuposto que bastará mostrar na aparência que tudo vai moralmente bem para nos assumirmos no caminho cristão? Não faltará ainda mais valorizar o caminho comunitário como único viável para uma experiência feliz da fé que salva? Não será que estamos a pagar um preço, não só pelo ambiente criado pelos crimes de abuso sexual, mas também pelo ancestral fechamento à compreensão mais vulgarizada da Palavra de Deus e do que a mesma transmite?

Os profetas e os apóstolos, enviados por Deus e por Jesus Cristo, no Espírito Santo, a anunciar a salvação, são hoje toda a comunidade dos cristãos, não de forma desconjunturada, mas orgânica, onde todos ─ pastores (nos vários graus) e leigos (a partir dos variadíssimos carismas e serviços) ─ possam perceber-se membros de um Corpo ligado à sua Cabeça que é Cristo. De outra forma, seria o Frankenstein, de quem se fizermos a pergunta “de onde vens?” ouviremos a resposta “de muitas partes”. É, também, abuso de poder e de consciência quando temos muitas “partes” da verdade em nós e não ajudamos a conjunturar através de obras de participação comunitária. O poder exclusivo desta ou daquela pessoa facilmente cai num poder abusivo. Por isso, é que Jesus exerceu sempre um poder inclusivo.

Religião ritualmente forçada, vida praticamente relaxada. A serenidade fabrica a coerência e a comunhão espiritual

Gal 5, 18-25; Lc 11, 42-46

No Evangelho de hoje, Jesus mostra-nos detestar duas coisas, porquanto dissipam em nós a consciência da criaturalidade e da filiação divina, das quais depende a vivência da fraternidade universal. São elas: a divergência entre a realidade e a aparência, e a incoerência entre o que se diz e o que se pratica. Ele falava aos fariseus e um dos doutores da Lei sentiu-se insultado (sofreria de narcisismo reativo, o pior dos narcisismos que defende a própria pele com a saliência do mal dos outros). É quase sempre assim: as pessoas cuja aparência externa não é transparência da sua realidade interior costumam ser autoritárias no que dizem e ser pouco exigentes no que fazem.

No dia de ontem (11 out. 2022), foi oportuno celebrarmos a memória de São João XXIII, na ocasião em que comemorámos os 60 anos da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II (11 out. 1962). No seu discurso de abertura, o “Papa bom”, diante dos problemas enfrentados pela humanidade, garante-nos que “a Igreja é mãe amabilíssima de todos os homens” e que prefere ajudar a lidar com as enfermidades causadas pelas circunstâncias da sua atualidade com “a medicina da misericórdia” em vez das armas do rigor ou recorrendo às condenações. Desta forma, a Igreja foge do perigo de ser farisaica ou doutora da Lei. Jesus não veio impor à humanidade fardos insuportáveis, mas apresentar-Se como Aquele que é manso e humilde de coração, em cuja carga leve podemos encontrar alívio para as nossas almas (cf. Mt 11, 28-30).

Fazer da vida e da prática religiosa uma questão aparente, forçada, não ajuda a viver a espiritualidade de forma serena na vida prática. É quase sempre assim: religião ritualmente forçada, vida praticamente relaxada. Passar a vida a fingir e a representar aquilo que não se é, com muito exibicionismo e cosmética, rouba a serenidade precisa para viver conforme os preceitos de Deus que é justo e bom para com todos, amando e perdoando. A melhor resposta que Lhe podemos dar é receber o seu amor salvador, traduzido no perdão e graça enriquecedora, e traduzi-lo na própria vida nas relações interpessoais. São Paulo parece vislumbrar, ao falar da disparidade entre as obras da carne e os frutos do Espírito, que é mais útil deixarmo-nos conduzir pelo Espírito de Deus do que pela Lei de Moisés, que era resposta à clareza do coração humano. Viver segundo a Lei coloca-nos no ciclo vicioso que é a alternância entre a obrigação e a compensação. Viver segundo a graça de Deus proposta pela Nova Aliança, “crucificando a carne” diante das paixões e apetites, ajuda-nos a colocar a vida corporal ao serviço da vida espiritual que nos faz frutificar a plenitude da vida. Há que fugir a todo o gás de leis sem Espírito e viver segundo o espírito das leis! Só Deus é que verdadeiramente nos pode julgar com justiça amorosa.

Integração pisco-espiritual:

Viver constantemente numa viagem longa entre a realidade e a aparência, assim como pactuar com um autoritarismo pouco altruísta é a melhor encruzilhada por onde se forjam neuroses e, até, se alimentam certas psicoses. Assumir-se como se é diante de Deus e procurar um interlocutor humano à altura do da realidade do que somos, pode ajudar a conquistar aquela transparência e consistência que permite viver a unidade de vida, não obstante os traços da história individual, cujos fatores, sejam eles positivos ou porventura traumatizantes, nunca têm a última palavra. A vida cristã, e sobretudo na sua dimensão institucional, não pode servir para alimentar psicoses ou provocar neuroses, mas ajudar de forma personalizada a integrar os temperamentos através do trabalho sobre os carateres. Só na contemplação da história e no diálogo terapêutico é que isto pode acontecer, ajudando a pessoa a ter um só rosto na família, na escola, na paróquia, no trabalho, no grupo dos amigos, com os desconhecidos, etc.

Jesus é o maior sinal, que liga o humano ao divino com linguagens de compreensão global!

Gal 4, 22-24. 26-27. 31 – 5, 1; Lc 11, 29-32

É linguagem comum, hoje, quando queremos ligar a alguém e vamos numa estrada em que não há falhas de rede, dizermos que “perdemos o sinal”. De facto, um dos seus significados é “variação de uma corrente elétrica ou de outra natureza, usada para transmissão de informação”. A palavra sinal é das que no dicionário apresenta uma significação mais desenvolvida e rica, referindo-se a “tudo o que representa ou faz lembrar uma coisa, um facto ou um fenómeno presente, passado ou futuro”. E aquele “tudo” inclui desde os semáforos aos marcadores de livros, dos sinais corporais às marcas de roupa, das fitas a marcar o andamento da leitura de um livro aos testemunhos ou provas pessoais.

Já o “contra-sinal” é um disfarce ou uma “contra-senha” que esconde, dissimula ou corrompe a verdadeira direção de uma busca tendo em vista uma verdadeiramente feliz realização pessoal, em vez de a simular (não no sentido de fingir, mas de imitar para fazer crer a eficácia, como acontece na simulações de seguros). Por curiosidade: quem lida com o fabrico de páginas web sabe que se pode envolver um usuário, proporcionando-lhe que se inscreva numa área reservada do site, de forma a entrar com um nome e senha. Após a entrada, é possível direcionar/manipular a entrada no back-office, de maneira a que a pessoa é levada a uma informação primária que pode iluminar ou desviar a pessoa sobre o que ela queria procurar. Alguns “cookies” ou “vírus” informáticos fazem-no automaticamente, levando a pessoa consciente ou inconscientemente a visitar páginas que não queria ou deveria para seu bem. Mesmo que o usuário entre com uma senha só sua, o “dono” do site pode manipular a sua visita com um código que serve de “contra-senha”. Esta experiência informática também se pode projetar na vida, como acontece com a força manipuladora dos algoritmos (que podem ser usados para bem ou para mal).

Ora, Jesus estava diante de uma geração perversa, quer dizer, que estava aberta a receber os benefícios dos milagres que Ele praticava, mas não queria saber sobre a origem ou modo de vida com que os proporcionava. Assim apostados só em receber e nunca em dar, os contemporâneos de Jesus viviam num ciclo vicioso, no qual era difícil transportar as suas mentes para realidades mais elevadas. Mesmo quando falavam de Messias, esperavam de Jesus o Rei político e menos ou nunca o Filho de Deus, nascido da Virgem Maria para nos salvar.

Hoje em dia, quando se diz que na missão da Igreja precisam-se de líderes carismáticos, o que estamos a sugerir: pessoas que saibam cativar as pessoas reunindo-as para eventos que se concluam com sucesso ou testemunhos capazes de mover as consciências para a verdade plena? Vejo que há na sociedade e na Igreja pessoas capazes de ser líderes carismáticos em gérmenes que alguns movimentos não deixam crescer, contra-senhando com outros interesses não tão divinos, mas ideológicos ou de mera convenção humana, e vejo multidões como a que Jesus encontrou à espera de quem lhes diga a verdade sobre o caminho a trilhar para o verdadeiro sentido da existência.

O que hoje o Evangelho nos quer, porventura, falar é de um verdadeiro encontro entre duas vontades: a de quem quer ser salvo e a de quem nos pode dar a salvação. É assim também com a vocação: um diálogo entre duas autoridades: a de Quem chama e a da pessoa chamada. É assim o verdadeiro amor: um encontro dialogante. Nunca será um monólogo, que é dissimulador, porque anula ou esconde um dos protagonistas do encontro, na sua possibilidade de ser “emissor” e/ou “recetor”.

O líder carismático tem, no mínimo, de ser um “canal” sem ruídos ou vícios que descredibilizem a mensagem. Tem de ser um crente credível! Jesus éra-o veementemente e, mesmo assim, estava diante de pessoas com corações duros que resistiam à sua mensagem. Daí que o cuidado para com o coração sejam uma prioridade no tocante à fé. Passe a publicidade do programa Protege o Teu Coração (PTC), representado em Portugal pela Associação Família e Sociedade.

Uma notícia que hoje ligo a esta Palavra é a do julgamento do jovem Rui Pinto por causa do Football Leaks. Julgado por 90 crimes, manifestou esta segunda-feira arrependimento pelos acessos ilegítimos que levaram à sua detenção. “O crime, mesmo com boas intenções, não compensa. Sabendo o que sei hoje não voltaria a fazer o que fiz”, declarou ao Expresso. Também afirmou que estas investigações ilícitas foram boas para a sociedade, mas a sua vida ficou de pernas para o ar ─ pouca liberdade e poucos contactos com os seus familiares ─, lamentando que apesar das informações que ajudou a trazer a público vários visados não sofreram consequências, uma vez que “nas entidades que foram acedidas por mim não havia nenhuma que não tivesse um indício forte de cometimento de crimes“. Ele tem consciência, hoje, que não pode mudar o mundo; terão de ser as autoridades a fazê-lo. O arguido disse ainda que enquanto o julgamento decorre tem estado, com outras pessoas, a fornecer informação aos serviços de inteligência ucranianos, mas só com base em fontes abertas. “Meritíssima, este agora é o meu caminho, fazer as coisas dentro da legalidade”, declarou.

Apesar da forma como este jovem procedeu, ele aparenta-se-me com Jesus, que, no seu tempo, também foi acusado pelas autoridades, inclusivamente as religiosas, como subversivo e até mesmo de blasfemo. Hoje-em-dia, ser evangelizadores com espírito implica “quer dizer evangelizadores que se abrem sem medo à ação do Espírito Santo”. E quando o medo às autoridades humanas trava a obediência ao Espírito Santo? Por vezes, não é muito fácil distinguir o que em nós é da natureza e o que fazemos em virtude da promessa. Como o Apóstolo Paulo nos diz, somos filhos de uma mãe que é mulher livre. Inspirados por ele, poderíamos concluir: se os homens do poder jurídico não querem, não conseguem ou não podem fazer justiça diante de crimes que acabam por prejudicar os pobres, como agir como filhos daquela “mulher livre” que é a Jerusalém celeste? Que medos geram para a escravidão e que atitudes geram para a verdadeira liberdade?