A rede e o tesouro: o enigma propiciatório para o caminho

[Leitura] Ex 40, 16-21. 34-38; Mt 13, 47-53

[Meditação] Na 1ª Semana dos Exercícios Espirituais, Sto Inácio de Loiola propõe-nos, para um apropriado discernimento dos espíritos, o discernimento entre virtude e pecado; e na 2ª Semana o discerniento entre o bem real e o bem aparente. Este segundo tipo de discernimento é mais difícil que o primeiro, mas não é menos importante que o primeiro para ajudar num mais maduro crescimento vocacional.

Por isso, vislumbrando o tesouro como símbolo do primeiro tipo de discernimento (entre virtude e pecado) e a rede como símbolo do segundo tipo de discernimento (entre bem real e bem aparente), vejo no Evangelho de hoje a sugestão de que o tesouro se refere a uma conversão moral ou ética, que implica discernir entre o bem e o mal segundo critérios antigos e atuais; enquanto que o trabalho de puxar a rede implica a ação humana, orientada pelos Anjos, de separar a verdade da mentira, entre o ser e o aparecer, para um caminho cuja transparência coincide com a realidade do Reino de Deus.

Para a superação deste enigma pessoal, são propiciatórios quer o Sacramento da Reconciliação, quer a Direção Espiritual, esta para o trabalho da rede e aquele diante do Tesouro que é a abundante misericórdia de Deus.

[Oração] Sal 83 (84)

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O Reino de Deus entre a expropriação e apropriação vocacional

[Leitura] Ex 34, 29-35; Mt 13, 44-46

[Meditação] Não é descabido que os presbíteros ponham tudo o que tenham para a realização da missão pastoral, incluindo a sua côngrua sustentação, conforme se lê na provisão episcopal da tomada de posse de um serviço na diocese.

As pequeninas parábolas do Reino são como que uma espécie de “provisão vocacional” não só para os que se oferecem mediante uma consagração especial, mas também para os que escolhem formar uma Família pelo Matrimónio.

No caso de quem encontra um tesouro no campo, poderíamos pensar que, conhecendo-o somente quem o encontrou, poderia imediatamente escondê-lo em sua própria casa. Porém, aquele tesouro sem o campo não seria, por si só, valioso. Daí que seja condição vender tudo para adquirir o campo onde ele se encontra escondido. Se o tesouro é o seu modo pessoal de ser feliz, o campo seria o ambiente de comunhão (comunidade) sem o qual não pode realizar a felicidade. É o caso de quem se deixa expropriar para o serviço espiritual aos outros. Impressiona-me, por isso, muito negativamente que haja padres que queiram realizar a missão da Igreja sozinhos, sem este espírito de comunhão. E o mesmo se diga dos leigos frequentemente mais clericalistas que os padres, muitas vezes dentro de movimentos ou associações.

No outro caso, o daquele que vai vender tudo para comprar a pérola (sem o campo) pode ser o de quem escolhe o projeto de fundar uma nova Família através do Sacramento do Matrimónio. Este é chamado a estar no mundo (campo sem dono) apropriando-se, nele, de uma porção de pessoas que ajuda a encaminhar para o Reino de Deus. Também me impressiona negativamente, hoje, a existência tentadora de quem vive o Matrimónio e a Família de uma forma privada, como que por uma nova espécie de “fuga mundi”, enquanto que os que escolhem a vida consagrada se tornam cada vez mais seculares.

Estes dois tipos de vocação – Especial Consagração e Família pelo Matrimónio – são cada vez mais necessários em diálogo no campo da Igreja, sem qualquer espécie de “igualdade de género”, para que não aconteça uma homologação das vocações, que seria nociva para a sua missão de construir o Reino. Não são despropositadas a este respeito as imagens de esponsalidade divina que trespassam o Antigo Testamento (em relação ao Povo) e o Novo Testamento (em relação à Igreja) e que bem podem fundamentar a necessidade aquele diálogo.

Também não é por acaso que a nova Ratio fundamentalis que regulamenta a formação sacerdotal proponha que nos estudos teológicos dos rapazes que se consagram pela Vida Religiosa sejam formados para perceber a riqueza do campo que é a Diocese em que os seus carismas se exercem; e os candidatos a presbíteros diocesanos sejam instruídos pelo valor dos institutos de vida consagrada. Não faltará qualquer coisa deste género nos Cursos de Preparação para o Matrimónio e nos projetos de formação que propõem os movimentos da família?!

[Oração] Sal 98 (99)

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A Santidade pela qual Deus vive em ti

É o tema do encontro de Seminário em Família da Diocese de Viseu que está a coincidir com a celebração da Solenidade de São Teotónio, padroeiro desta Diocese. Nesta ocasião alegra-nos a referência de santidade que descobrimos neste primeiro Santo português e, escavando a fundo, vamos encontrar a origem de toda a Santidade: o amor de Deus que Se dignou criar-nos e salvar-nos por meio de Seu Filho Jesus Cristo, no Espírito Santo.

Ao iniciarmos a aventura deste fim-de-semana, partimos da convicção de que “Deus Não Está Morto“, visualizando o filme com este nome, e fomos ao encontro da Sagrada Escritura para fundamentarmos a nossa fé em Jesus Cristo, Aquele que defenderá a quem não O nega.

Resumimos, assim, os fundamentos da Santidade:

I. A UNIÃO COM CRISTO, QUE NOS VEIO REVELAR O AMOR (O ESPÍRITO) DO PAI
II. NO SER E NA AÇÃO QUE CONFIRMA O SER (ONTOLÓGICA E MORAL)
III. SEGUNDO A PRÓPRIA VOCAÇÃO
IV. A CAMINHO DA PLENITUDE DO REINO
V. EM COMUNHÃO COM OS QUE SÃO DE CRISTO NA IGREJA
VI. EM COMUNHÃO COM OS QUE ESTÃO COM CRISTO NA GLÓRIA (OS SANTOS)

No mistério da Redenção, a obediência é um diálogo

[Leitura] Hebr 5, 7-9; Jo 19, 25-27 ou Lc 2, 33-35

[Meditação] A obediência de e a Cristo está dolorosamente “grávida” de salvação: é o que, resumidamente, nos inspira o trecho da primeira leitura da Memória de Nossa Senhora das Dores. Junto à Cruz onde Jesus nos deu a Sua Vida, a capacidade d’Aquela mulher gerar novos filhos no Filho é, também, obediência dialogada no acolhimento silencioso a que João “abre a porta” como modelo de discípulo.

Na Igreja, seja na vivência da vocação ou em ambientes educativos, o tema da obediência precisa de ser sempre avaliado à luz deste mistério da Redenção, para ser capaz de gerar novos verdadeiros discípulos. Nossa Senhora das Dores: Rogai por nós!

[Oração] Sequência da Memória de Nossa Senhora das Dores − Stabat Mater de Pergolesi, interpretada pelo contratenor Andreas Scholl e a soprano Barbara Bonney (texto em português):

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Com o Nascimento de Maria, o Amor prepara as entranhas da Salvação

[Leitura] Miq 5, 1-4a ou Rom 8, 28-30; Mt 1, 1-16. 18-23; LUMEN GENTIUM

[Meditação e Oração] No Capítulo VIII da Constituição Dogmática Lumen Gentium, que descreve o papel da «Bem-aventurada Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja», podemos encontrar as introduções aos cinco mistérios da Vida de Maria, que ainda antes dos Mistérios da Vida de Cristo (da Alegria, da Luz, da Dor e da Glória) poderíamos (sem a ousadia de os querer inaugurar) recitar os Mistérios da Esperança. Na verdade, na natividade de Maria, nasceu a verdadeira esperança da humanidade. Não é à toa que, na Igreja, a invocamos como Nossa Senhora da Esperança nas “entranhas” da Igreja em que se formam e geram os que servem no Ministério. De facto, toda a missão da Igreja, em que, à imitação de Maria, muitos se deixam amar e servem o Amor de Deus, através de uma vida de consagração, estendem essas “entranhas” do Espírito para que a Redenção possa culminar na Salvação de toda a humanidade. Sobretudo a pensar nos jovens que acolhem o Espírito do chamamento do Senhor para a possibilidade a virem a consagrar-Lhe a vida, partilham-se as seguintes meditações que podem iluminar a oração mariana de hoje:

1º Mistério: A Imaculada Conceição. Maria encontra-se já profeticamente delineada na promessa da vitória sobre a serpente, feita aos primeiros pais caídos no pecado. Ela é, igualmente, a Virgem que conceberá e dará à luz um Filho, cujo nome será Emmanuel. (LG 55) Ao passo que, na Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já aquela perfeição sem mancha nem ruga que lhe é própria, os fiéis ainda têm de trabalhar por vencer o pecado e crescer na santidade; e por isso levantam os olhos para Maria, que brilha como modelo de virtudes sobre toda a família dos eleitos. A Igreja, meditando piedosamente na Virgem, e contemplando-a à luz do Verbo feito homem, penetra mais profundamente, cheia de respeito, no insondável mistério da Encarnação, e mais e mais se conforma com o seu Esposo.  (LG 65) A Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há-de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor. (LG 68)

2. Natividade. Unida a Ele [Cristo] por um vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a excelsa missão e dignidade de Mãe de Deus Filho; é, por isso, filha predilecta do Pai e templo do Espírito Santo, e, por este insigne dom da graça, leva vantagem a todas as demais criaturas do céu e da terra. (LG 53) O Pai das misericórdias quis que a aceitação, por parte da que Ele predestinara para mãe, precedesse a encarnação, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também outra mulher contribuísse para a vida. É o que se verifica de modo sublime na Mãe de Jesus, dando à luz do mundo a própria Vida, que tudo renova. Deus adornou-a com dons dignos de uma tão grande missão; e, por isso, não é de admirar que os santos Padres chamem com frequência à Mãe de Deus «toda santa» e «imune de toda a mancha de pecado», visto que o próprio Espírito Santo a modelou e d’Ela fez uma nova criatura. (LG 56)

3. Anunciação. Efectivamente, a Virgem Maria, que na anunciação do Anjo recebeu o Verbo no coração e no seio, e deu ao mundo a Vida, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus Redentor. Remida dum modo mais sublime, em atenção aos méritos de seu Filho, e unida a Ele por um vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a excelsa missão e dignidade de Mãe de Deus Filho; é, por isso, filha predilecta do Pai e templo do Espírito Santo, e, por este insigne dom da graça, leva vantagem á todas as demais criaturas do céu e da terra. (LG 53) Enriquecida, desde o primeiro instante da sua conceição, com os esplendores duma santidade singular, a Virgem de Nazaré é saudada pelo Anjo, da parte de Deus, como «cheia de graça»; e responde ao mensageiro celeste: «eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». (LG 56)

4. Apresentação. Com ela, excelsa Filha de Sião, passada a longa espera da promessa, se cumprem os tempos e se inaugura a nova economia da salvação, quando o Filho de Deus dela recebeu a natureza humana, para libertar o homem do pecado com os mistérios da Sua vida terrena. (LG 55) Quando O apresentou no templo ao Senhor, com a oferta dos pobres, ouviu Simeão profetizar que o Filho viria a ser sinal de contradição e que uma espada trespassaria o coração da mãe, a fim de se revelarem os pensamentos de muitos. (LG 57) Exaltada por graça do Senhor e colocada, logo a seguir a seu Filho, acima de todos os anjos e homens, Maria que, como mãe santíssima de Deus, tomou parte nos mistérios de Cristo, é com razão venerada pela Igreja com culto especial. (…) Na verdade, as várias formas de piedade para com a Mãe de Deus, aprovadas pela Igreja, dentro dos limites de sã e recta doutrina, segundo os diversos tempos e lugares e de acordo com a índole e modo de ser dos fiéis, têm a virtude de fazer com que, honrando a mãe, melhor se conheça, ame e gloria fique o Filho, por quem tudo existe e no qual «aprouve a Deus que residisse toda a plenitude», e também melhor se cumpram os seus mandamentos. (LG 66)

5. Assunção. É a primeira entre os humildes e pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem a salvação de Deus (LG 55), Aquela que na santa Igreja ocupa depois de Cristo o lugar mais elevado e também o mais próximo de nós (LG 54). Depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo. (LG 62) A Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há-de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor. (LG 68) Dirijam todos os fiéis instantes súplicas à Mãe de Deus e mãe dos homens, para que Ela, que assistiu com suas orações aos começos da Igreja, também agora, exaltada sobre todos os anjos e bem-aventurados, interceda, junto de seu Filho, na comunhão de todos os santos, até que todos os povos, tanto os que ostentam o nome cristão, como os que ainda ignoram o Salvador, se reunam felizmente, em paz e harmonia, no único Povo de Deus, para glória da santíssima e indivisa Trindade. (LG 69)

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O que não for encontro entre misericórdia e fidelidade é representatividade enganosa

[Leitura] Ez 43, 1-7a; Mt 23, 1-12

[Meditação] É curioso que, no Pontifical Romano, quando se acolhem os candidatos à formação presbiteral, na admissão às Ordens Sacras, o Bispo interroga os candidatos começando por dizer: «Filhos caríssimos: Os pastores e mestres encarregados da vossa formação…», etc. Se, na Eucaristia em que se insere este rito, calha a proclamar-se o texto evangélico de hoje, corremos o risco de ouvir a consciência dizer-nos o mesmo que Jesus diz dos que se sentam na cadeira de Moisés. É preciso um melhor texto para acolher aqueles que a Igreja quer formar, sabendo que o que se diz programa a vida, quando a vida se quer praticada em coerência com o que de bem se diz. Na verdade, os formadores não fazem de “mestres”, sendo que a sua humilde missão é a de, continuadamente, apontarem como referência de toda a formação o Mestre único e verdadeiro.

Já estou a ouvir alguns a dizer que essa palavra está em minúscula… Ok! Da minúscula à Maiúscula vai só um pedaço de vaidade que surge na esquina do processo formativo, lá onde é difícil de fazer o que o Mestre manda ensinar. E o que é mais fácil de acontecer é esconder na “batina” os pecados e mostrar só com palavras o que está escrito no Livro que todos têm como referência. Mas… responda-se à pergunta: a verdadeira Escritura não é a Palavra feita vida, como Jesus, Ele próprio, na sintonia do que disse e fez, é a Palavra feita carne?

A glória de Deus habita na terra, como diz o salmo, quando se encontram a misericórdia e a fidelidade. Para que haja frutos, Deus contribui com o que é bom, fazendo o que é justo. Somos chamados a responder com atitudes que promovam a paz iluminada pela sua justiça que é misericórdia. No meu humilde reparo, na Igreja, aquele encontro entre a misericórdia e a fidelidade já acontece entre as duas fontes dinâmicas entre si: a Sagrada Escritura e o Magistério Petrino. Para quê mais confusões? Para quê mais correntes? Pedro senta-se na cadeira que Jesus lhe deixou, que é uma forma de vida e uma Sua representação na autenticidade (e não um assento de veludo!), assim com os Presbíteros se deveriam sentar na cadeira do Bispo quando o substituem nalguma celebração (mais uma contradição dos cerimoniais nas sedes catedralícias). Quando algum poder humano se sobrepõe ao que Jesus disse, sobrepondo-o, há que perguntar à Palavra de Deus e ao Magistério autêntico. Tudo o resto não é só perda de tempo como, inclusivamente, atraso da salvação, onde a Igreja é chamada a ter o seu papel que não lhe será tirado como ouvinte da Palavra (parafraseando Lc 10, 42).

[Oração] Sal 84 (85)

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A Liberdade de ser Discípulos de Cristo

[Leitura] 1 Reis 19, 16b. 19-21; Gal 5, 1. 13-18; Lc 9, 51-62

[Meditação] A letra “D” apareceu em destaque na preparação e no próprio dia em que celebrámos o XIII domingo do tempo comum. Porquê? Porque, em Viseu, vivemos o “Dia da Diocese” e, também, porque a liturgia da Palavra me sugeriu a afirmação em título. Foi importante, também, acompanhar e celebrar a Ordenação de mais um jovem que teve a coragem de ser livre diante da proposta a ser Presbítero, o agora Pe. Carlos Manuel de Matos Rodrigues.

O Papa Francisco tem vindo a “soletrar-nos” a expressão discípulos-missionários como sendo a definição de um verdadeiro cristão. Já compreendemos o que ele nos quer dizer. Não será fácil levarmos à prática da vida este binómio. Caminhar equilibradamente sobre estas duas “pernas” não é experiência, por vezes, desigual à de uma criança que começou a dar os primeiros passos. E, quando já adultos, somos convidados a ser missionários e a sentir a importância dessa tarefa, Jesus vem ao nosso encontro para nos ajudar a viver bem os pressupostos do ser discípulos.

Toda a liturgia da Palavra me  sugeriu as seguintes caraterísticas que ativam o crescimento para melhor sermos discípulos e, consequentemente, predisporão a nossa liberdade para sermos melhores missionários:

a) Paciência. Os discípulos, por vontade própria, tendem à prática de uma missão “com fins lucrativos”, seja de que tipo for. Jesus repreende-os, pois, com o bem de uns não se pode causar o mal de outros, seja por que motivos for. Há que dar espaço e tempo. A missão de Jesus desemboca no Reino e não noutra “praia” qualquer dentro das preferências humanas.
b) Espírito de sacrifício. Seguir Jesus implica viver como Ele viveu, sem “tocas” nem “ninhos”. Poderemos objetar ou adocicar pensando com os botões ou defendendo diante dos outros: “Se fosse hoje, Jesus teria o seu carro, a sua casa, etc.”. Esquecemo-nos de que é bem possível que, quando o estamos a dizer, ignoramos ou escondemos que não é “o que” temos, mas a marca do que temos. Habitualmente, estas objeções escondem o facto de que nos estamos a referir a um carro topo de gama, com estes ou aqueles extras, e uma casa “segura” que dê para acolher os amigos ou que me dê a privacidade que desejo. O espírito de sacrifício inerente ao ser discípulo prepara-nos para os sacrifícios inerentes à missão.
c) Prontidão. Seguir Jesus implica desapego e dar o salto, ainda que com os pés assentes na terra e nas relações de sangue. O salto implica fazer renúncias e aceitar cortes. É embarcar na hora certa, no sítio certo, sem olhar para trás. É dizer sim, sem medo, às vozes de que Ele se serve como mediação humana.
b) Amor. Jesus nunca no sugeriria um caminho de renúncia se não fosse para nos propor um amor maior, muito mais libertador, porque apoiado nas coisas do espírito e não nas da carne. Um amor ultramundano que, embora conjugado através dos valores naturais do ser homem e mulher, é o próprio Amor de Deus Pai e de Jesus Cristo, transbordando para nós. É o Espírito Santo que trabalha em nós e do qual Deus Se serve para nos atrair para o seu Reino eterno.

Esta Liberdade de ser Discípulos de Cristo, para ser “liberdade no Espírito” pode, pedagogicamente, ser construída à volta de quatro caraterísticas:

Liberdade essencial – Capacidade de entender e de querer, isto é, de compreender, refletir e decidir. Esta vem a faltar somente na presença de: Psicoses graves (esquizofrenia grave, ciclotimia grave); Personalidade anti-social grave (falta de empatia pelos valores morais e religiosos); Narcisismo grave, incapacidade de distinguir o “eu” do “objeto”; Debilidades sexuais que estejam ligadas às perturbações anteriores.
Liberdade efetiva – Quando a liberdade essencial pode ser exercida com uma escolha entre várias alternativas possíveis (limitação mais ou menos grande de número e amplitude das escolhas que se podem fazer entre alternativas possíveis).
Liberdade horizontal (ou exercício horizontal da liberdade) – decisão ou escolha que tem lugar dentro de um horizonte já estabelecido.
Liberdade vertical (ou exercício vertical da liberdade) – conjunto de juízos e decisões por meio dos quais se passa de um horizonte a um outro.

É uma liberdade que se verifica na realização do bem pela vontade. Esta acontece gradualmente e verifica-se nos seguintes estádios:

Will – Capacidade de tomar decisões.
Willing – Atuação das decisões.
Willingness – Estado no qual o sujeito não tem necessidade de persuasão para tomar decisões. Potência a responder; predisposição, estado de prontidão para uma decisão.

Para ser missionário, qualquer discípulo tem de ter o seu “dia D”: desembarcar de tudo o que o leva a um caminho de perdição e embarcando numa barca impelida pelos ventos do Espírito. No final da celebração do Dia da Diocese, na Catedral de Viseu, D. Ilídio Leandro declarou que são precisas boas vocações nestes três estilos de vida apontados pela Igreja como caminhos nos quais se pode seguir Cristo de forma livre e construtiva: o Sacerdócio, a Vida Consagrada e o Matrimónio. Estes estilos de vida podem ser discernidos com base naqueles instrumentos que as ciências humanas descobrem entre o conhecimento concreto da capacidade que o ser humano tem de se desenvolver e do Evangelho como voz de Jesus que chama. Bons discípulos, para uma exigente missão!

[Oração] Sal 15 (16)

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Serve o verdadeiro Rei quem, no hoje, se veste de templo e se alimenta do altar

[Leitura] 2 Cr 24, 17-25; Mt 6, 24-34

[Meditação] Por vezes, acontece assim com a vocação cristã: nasce numa família que a procura promover e proteger; desenvolve-se nos primeiros contactos com a comunidade através da iniciação cristã e da escola; e, na melhor das hipóteses, ganha vigor com o Crisma que impele a uma resposta madura a uma vocação específica. Nesta aventura, para além do protagonismo central do Espírito Santo e do próprio sujeito, concorrem diversas mediações que, como acontece na saga do Livro dos Reis, estão ao serviço da pessoa, protegendo-a no templo daqueles que o querem destruir para reinar. E no final, como desgraçadamente aconteceu com Joás, pode acontecer que a pessoa, assim promovida e protegida, se inscreva no grupo daqueles que destroem o templo que forma e que envia. De facto, ele não foi grato aos que promoveram a sua história, eliminando o profeta Zacarias.

Na sua escola de discípulos, Jesus advertiu que não deve haver a preocupação com o que vestir e com o que comer, e que é inútil inquietarmo-nos com o dia de amanhã, a cada dia o seu cuidado. De facto, inspira-se n’Ele quem afirma, hoje, que viver demasiadamente no passado dá em depressão e viver constantemente a pensar no futuro provoca a neurose. Quem tem a mania de querer “ter o rei na barriga” é capaz de estar à beira de um desses precipícios, precisamente porque se “veste” mal e se “alimenta” mal. Porventura porque visita muitas montras e petisca em muitas mesas que lhe dão confusão quanto.ao verdadeiro sentido da vida. Não se pode servir a dois senhores…

É preciso redesenhar a pastoral do acolhimento, da evangelização e da vocação, centrando-as não no restauro de templos do passado, nem no aprovisionamento dos recursos para a sobrevivência no futuro, mas, com certeza evangélica, na resposta aos desafios do presente, em que Deus providencialmente coloca cada ser humano como Seu mediador de graça amorosa.

[Oração] Sal 88 (89)

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Escondimento e testemunho: a “quaresma” e a “páscoa” das boas obras

[Leitura] 2 Reis 2, 1. 6-14; Mt 6, 1-6. 16-18; Iuvenescit Ecclesia

[Meditação] Ainda há poucos dias, o Mestre nos aconselhou a mostrar a nossa luz diante dos homens, para que vendo as nossas boas obras, glorifiquem o Pai que está nos céus (cf. Mt 5, 13-19). No Evangelho de hoje, aconselha o contrário. Mas… cuidado! Não o diz da luz, mas das nossas boas obras. As que são nossas, aparentemente, boas obras, podem não ser luz que mostre a glória do Pai. Para que o sejam têm de passar pela “quaresma” do escondimento e da humildade. Para que a esmola, a oração e o jejum deem frutos, é necessário que sejam discretas e o Pai é que recompensará com os frutos da “páscoa” que elas permitem, com o Seu poder, fazer. No Antigo Testamento, há um pequeno paralelismo entre Jesus e Pedro nos profetas Elias e Eliseu, respetivamente. Este promete àquele não o deixar; Pedro também prometeu seguir Jesus e, até, não O negar. Apesar de O ter negado, não deixa, como Eliseu diante de Elias, quando este parte no carro de fogo, de olhar e confiar na Sua misericórdia, quando Ele parte naquela cruz de sangue.

Doravante, Eliseu com a dupla porção do espírito de Elias, só conseguiu ser eficaz com o bater do manto para voltar a passar no Jordão ao invocar o Senhor Deus de Elias. Da mesma forma, Pedro só consegue ser eficaz na sua missão de Pontífice, quando invoca, sob o Espírito de Deus, o Nome do mesmo Deus (para o cristão, o Deus Uno e Trino). Sendo, como Jesus disse, somente Bom um só − o Pai que está nos céus (cf. Mc 10, 18; Lc 18, 19) −, então as nossas obras serão boas se forem iluminadas com a luz do Fogo que é o Espírito Santo. Para isso, é preciso caminhar com Jesus, esperar no Senhor e invocar o Seu Espírito, para que as nossas obras sejam eficazes. Sem essa Luz, podem ser consideradas boas aos olhos dos homens, mas não aos olhos de Deus.

A Congregação para a Doutrina da Fé publicou, recentemente, a Carta Iuvenescit Ecclesia para os Bispos da Igreja Católica, sobre a relação entre os dons hierárquicos e carismáticos para a vida e missão da Igreja. Na verdade, já estávamos a precisar de alguma ordem na relação entre estes dons, colocando-os, novamente, na relação com a mesma fonte e a mesma missão. Por vezes, ao observarmos a variedade de atividades promovidas pelos vários dinamismos existentes na Igreja, dá-nos a impressão de que temos horizontes diferentes e não é claro que a perspetiva do Reino de Deus esteja em todos. Pode ser porque algumas iniciativas careçam daquela Luz de que falámos acima, precisando de “quaresma” e dos critérios para que um carisma esteja em conformidade com a missão da Igreja, não pensando tanto na autorreferencialidade  e autodefesa, mas, orientada e vigiada pela hierarquia (cuja autoridade deve ser entendida como serviço), a ser “esmola” do “ser útil para os outros e não só para os próprios”, do “jejum” da “espera do tempo oportuno, sem o sucesso provocado pela euforia dos homens” e da “oração” que “invoque a força de Deus, para que se manifeste o seu poder e não o nosso”. Há, porventura, muitos dinamismos (promovidos por grupos, movimentos, associações e obras) que só mexem com as águas da vida humana (experiências históricas, emoções, sentimentos, motivações, sonhos, etc.), sem, porventura, ajudarem a orientar esta barca que é a Igreja para o seu porto seguro que é a sua missão de acompanhar cada ser humano na “travessia do Jordão” para a Santidade que é o mesmo que dizer Felicidade plena, que só o amor de Deus pode realizar em cada um. É preciso que “a Igreja rejuvenesça” para que as pessoas encontrem o verdadeiro caminho da Salvação!

[Oração] Sal 30 (31)

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Integrar a fragilidade é preferível a repudiar o amor

[Leitura] Tg 5, 9-12; Mc 10, 1-12; PAPA FRANCISCO, Amoris laetitia

[Meditação] Prosseguimos na aventura do evangelista Marcos, confrontando-nos, hoje, com uma questão muito cara e delicada para a Igreja, que é o Matrimónio e a Família, por causa das desilusões que acontecem nas histórias de amor e do sofrimento que causam certas fragilidades. Na Exortação Apostólica Pós-sinodal “A Alegria do Amor” o Papa Francisco não ignora as situações de rutura que possam acontecer nas histórias familiares. No entanto, percebe-se, pela estrutura do documento a “ordo amoris” que está delineada no Evangelho, em que Jesus declara como primária o desígnio de amor proposto pelo Criador e secundária a possibilidade do divórcio causado pela dureza dos corações. Jesus representa os profetas que não se deixam levar pelas circunstâncias, mantendo firmes os princípios. Na verdade, as desilusões do caminho não anulam o bem que o Criador quis para o homem e a mulher. Jesus não reprovou a postura de Moisés, mas repropõe a ordem de fatores que, por vezes, na história ficam baralhados pelo “protagonismo” dado às fragilidades, em vez de ser dado ao verdadeiro amor.

No capítulo VIII da Exortação, porpõe-se o acompanhamento, o discernimento e a integração da fragilidade. É aqui que Francisco dá aos pastores (bispos) a coragem e a autoridade para, respetivamente e segundo as circunstâncias e a cultura de cada Igreja particular, se poder quer anunciar “a alegria do amor” que está presente no ideal matrimonial e familiar, quer de integrar as situações de fragilidade que assolam a vida das pessoas. Voltando à história da formação sacerdotal, uma vez que os que vivem o ministério presbiteral não deve viver desligado dos problemas da família, mas empenhado em acompanhar, convém que os mesmos saibam, também em si, integrar as fragilidades para uma sempre maior vivência do amor de Deus (pois este é princípio e horizonte!):

  1. Enfim, o modelo que promete aproveitar os aspetos positivos dos precedentes e resolver as suas subtis falsidades é o modelo de integração. É um modelo que é notoriamente fruto entre uma perspetiva teologia e psicológica, e que, sob a antropologia da vocação cristã, nos transporta no plano da redenção como integração, cujo processo podemos definir como: a capacidade de «construir e reconstruir, compor e recompor, a própria vida e o próprio eu à volta de um centro vital e significativo, fonte de luz e de calor, no qual encontrar a própria identidade e verdade, e a possibilidade de dar sentido e cumprimento a cada fragmento da própria história e da própria pessoa, ao bem como ao mal, ao passado como ao presente, num movimento constante centrípeto de atração progressiva. Tal centro, para o crente, é o mistério pascal, a cruz do Filho que, elevado da terra, atrairá a si todas as coisas (cf. Jo 12,32)» (cf. A. CENCINI, L’Álbero della Vita – Verso un modello di formazione iniziale e permanente.)

Quantas vezes se “terá deitado o bebé fora com a água suja”, em vez de se ter sorrido às fragilidades com um olhar sereno e confiante do amor maior que Deus nos tem e designa para a construção das pessoas que se propõem fazer um caminho de felicidade, sabendo que esta será sempre influenciada por debilidades e moldada por possibilidades. Não sendo ingénuos, é verdade que há muitos enganos nas tentativas de relação; e a Igreja está cá para ser esse espaço de acolhimento e acompanhamento para o discernimento e a integração, quer das fragilidades, quer de novas possibilidades, segundo a lei da gradualidade, em direção ao horizonte do amor que Deus propôs desde o princípio. Quanto a este acompanhamento, aguardamos de quem tem autoridade, uma interpretação idónea e pedagógica que nos leve à urgente ação.

[Oração] Sal 102 (103)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo