O caminho da vida cruza-se com a procissão da morte pela compaixão que ressuscita, ou: os dons do Espírito que elevam cruzam-se com os ministérios sepultados pelo clericalismo

1 Cor 12, 12-14. 27-31a; Lc 7, 11-17; Na memória de S. João Crisóstomo

Uma das atividades pastorais que ocupa mais os padres a pé na estrada, é a dos funerais, entre a celebração da Missa de sufrágio nas igrejas e o sepultamento nos cemitérios ou cremação nos thanatórios. E a celebração das exéquias é uma daquelas oportunidades sem igual para nos encontrarmos com os que habitam em periferias da fé e da existência, uma vez que a compaixão muito raramente exclui alguém de estar na partida de um familiar, de um amigo, de um patrão ou de um colega de trabalho. Na vida de um padre, é uma oportunidade ímpar para dizer palavras e realizar gestos que aproximem as pessoas em luto da Pessoa de Jesus.

No entanto, constatamos uma realidade humana e eclesial que nem sempre nos deixam margem para imitar Jesus na sua compaixão para com quem sofre perdas. A pressa, a falta de delegação solidária de tarefas pastorais, o facto de se considerar unicamente o momento do funeral como a realização de acompanhamento no luto, a desconsideração do encontro entre a vida e a morte a par de outras atividades pastorais mais rentáveis, a secularização dos serviços ou das atividades fúnebres por parte das agências funerárias (que quase sempre se impõem como mediadoras entre as famílias e os pastores), etc. ─ são fatores, entre outros, que levam a desconsiderar a morte física como parte integrante da vida eterna.

Comparados a esta cena do Evangelho, em que o caminho vivo de Jesus se cruza com uma procissão de morte, muitos dos nossos funerais padecem de excesso de palavras genéricas (ignorando os particulares processos de luto) e ritos talismânicos (como procissões a pé a interromper ambulâncias em trânsito de emergência e paragens atualmente sem significado real) que levam as pessoas a estar ali mesmo por misericórdia ao amigo falecido e aos familiares em luto. Ou, quem sabe, para que na própria morte também alguém lhes possa retribuir com a sua presença. Jesus, primeiro, na estrada da vida, não fugiu dos cenários de morte; segundo, não foi excessivo em palavras e gestos, mas somente: “não chores” a quem sofria a perda e, tocando o caixão, “levanta-te” a quem estava morto. Ha! Quem nos dera que reaprendêssemos a força subliminar das palavras curtas, mas incisivas, e a força curativa dos gestos simples!

Antes de que o corpo ressuscite, no final dos tempos, é a alma que precisa de ser elevada à consciência de filhos e filhas muito amados(as), ancorada na rocha firme da Palavra do Senhor que promete salvação, não obstante as intempéries da vida e a passagem por esta condição comum que é a morte física.

Esta dimensão da pastoral cristã é das que mais precisa de um trabalho corporativo, conscientes os padres de não poderem fazer tudo sozinhos (os que não tiverem esta consciência, no meu modo humilde ou profético de ver, não deveriam ser padres!). Urge “tocar” os corações dos batizados e “levantar” os dons ou ministérios que estão sepultados pelo clericalismo (“Aspirai com ardor aos dons mais elevados”). Os processos de luto têm muitas etapas, onde são precisos muitos e vários tipos de dons. E a compaixão precisa de muitos corações, em vez de um só (o do padre), porque a morte não tem de ser uma experiência solitária, mas a amplificar os corações para a comunhão dos santos. São precisos apóstolos, profetas e doutores. “Vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte”. Não podemos deixar que os nossos funerais sejam procissões de morte ou meras atividades civis de negócio, mas caminho para a Vida.

A reflexão em torno dos funerais pode ajudar os presbíteros a considerar outras peregrinações, por aproximações graduais, ao encontro de realidades batismais “mortas” pela inércia de um “sempre se fez assim” (que na medicina já teria assassinado muita gente!), à maneira do Papa Francisco que, hoje mesmo e pela primeira vez, se dirige a caminho do Cazaquistão, fazendo-se o mais próximo possível dos lugares da guerra, levando uma mensagem de paz. O procedimento de Jesus Cristo avisa-nos de que se não caminharmos mudando a realidade com palavras e gestos simples não viveremos. Não se trata de transformar tudo e de qualquer maneira, mas de transformar o que já não eleva para Deus.

No contexto da formação dos futuros presbíteros, cabe-nos aqui considerar se os funerais serão futura e tendencialmente mais uma fonte de rendimentos ou se os presbíteros vão ser um entre muitos agentes pastorais dos processos de luto. Trata-se, enfim, de que "sepultar os mortos" seja definitivamente ou não uma obra de misericórdia. Quando, numa entrevista à Agência Ecclesia/RTP2, dizia que o Seminário procura formar 10 anos à frente, tinha em conta, como sempre tive, de que o que os formandos aqui aprendem vai, no primeiro acesso à realidade pastoral, passar pelo crivo da experiência, onde se celebra, por um lado a vitória dos conteúdos e estratégias estudadas e, por outro, se sofre a frustração diante de entre aspas “andores” à espera de que se lhe ponha em cima um Padroeiro comum ou “procissões” já vazios de sentido à espera de itinerários menos tortuosos que levem a Deus e aos irmãos. Curiosamente, em 2008, nos estudos sobre a formação sacerdotal em Roma, a estatística relativa ao abandono de novos presbíteros nos primeiros cinco anos do ministério, constatava-se como mais consequência da frustração pastoral do que qualquer outro motivo mais famoso (como eram as questões afetivas, psicologicamente entendidas como a "rama" de um tronco mais sério que era a dificuldade de levar à prática a sabedoria recebida como testemunho nos anos de estudo). Como o testemunho de São João Crisóstomo sugere, é com a vida assente na rocha firme da Palavra de Deus que se vencem as tribulações próprias da renovação da Igreja. D. José Cordeiro, na celebração da Eucaristia em Fátima, neste 13 de setembro, refletiu que "Na mudança de época que vivemos faz-nos bem peregrinar em busca do essencial da vida", onde a Igreja é chamada a “ser cada vez mais testemunha da misericórdia e da ternura".

Quer-se que o Seminário seja uma “píxide” com “pães ázimos”

1 Cor 5, 1-8; Lc 6, 6-11 ─ No início do novo ano formativo do Seminário Interdiocesano de São José

No início da vida comunitária para um novo ano formativo no Seminário, escutámos o Apóstolo Paulo a convidar-nos a ser “pães ázimos” da pureza e da verdade, a partir de uma nova massa sem o velho fermento da malícia e da perversidade. Assim, inspira-nos a pensar no Seminário ─ que acolhe novos aspirantes, acompanha os discípulos e forma os candidatos ao presbiterado ─ como uma píxide com pães ázimos que, um dia, serão levados ao altar do Sacramento da Ordem, para ser servidos e servirem como “outros Cristos” no Povo de Deus e para as multidões da humanidade.

No contexto que vivemos, em que, por um lado, a sociedade exige (a partir de uma comunicação social extenuante) a irrepreensibilidade da Igreja diante dos abusos sexuais e, por outro lado, a própria Igreja oferece reflexão aprofundada e atualizada sobre a “identidade relacional e ministério sinodal do presbítero” (cf. Simpósio do Clero), cada vez mais é preciso centrar a formação e a vivência do ministério presbiteral na vida de Jesus que mandava fazer aos seus discípulos e apóstolos e que Ele mesmo fazia: ensinar/pregar e cuidar/curar. Toda a vocação, em qualquer estado de vida apoiado no Batismo, que se ocupe da coerência entre o ensino e o cuidado para com os outros, não terá tendência a falir.

Com os desafios que se colocam ao mundo e à Igreja, os que o Senhor chama a imitá-lo mais de perto não podem ficar de braços cruzados e com a cabeça pendurada em ideias fundamentalistas, que ignoram as situações sofridas pela humanidade, como se nada fosse connosco. Os cristãos têm a missão de ser fermento de união e harmonia da comunidade, como “alma” do mundo. O individualismo gera omissões. Fazer a diferença implica profetismo, denunciando o mal que rouba ou mata a dignidade humana e anunciando o bem que nos faz viver eternamente.

Com a Humildade, lema do pontificado do beatificado Papa João Paulo I e definição de comunidade (“húmus” onde crescem as sementes da vocação), todos somos chamados a levantarmo-nos e a colocarmos diante do olhar o Mestre as nossas sombras e pecados, para que Ele nos torne crentes, credíveis e críveis.

Jesus vê-nos primeiro antes que comecemos a dar os primeiros passos do caminho

Ap 21, 9b-14; Sal 144 (145); Jo 1, 45-51 ─ Festa do Apóstolo São Bartolomeu (Natanael); pequena reflexão sobre Pastoral Vocacional

Nesta Festa estamos diante de um Evangelho que tece um verdadeiro diálogo vocacional, personalizado em Jesus, Filipe e Natanael (Bartolomeu). Quem dera que hoje repetíssemos mais vezes este diálogo, começando por afirmar na estrada “Encontrámos Aquele de quem está escrito…” e deixando que cada pessoa diga o que pensa acerca de Jesus, sem obrigarmos a uma imediata ou irrefletida profissão de fé sem consequências.

Vivemos numa época de grandes confrontos, não só o que se pensa e o que se diz, mas também entre o que se diz e o que os outros pensam, fonte de debates inacabados e de isolamento intelectual, tendencial a gerar patentes individualistas. Jesus aproveitou uma afirmação de Natanael não politicamente correta para o aproximar da verdade que Ele é. A autenticidade é uma qualidade dos que caminham, ao passo que o fingimento frena o passo para Cristo.

Estar “debaixo da figueira” não só diz de alguém que não está no caminho, como afirma a presença de mecanismos de defesa que impedem uma verdadeira relação a caminho. No entanto, Jesus também olha para os que não estão no caminho, aguardando que, por palavras ou atitudes desajeitadas, se comecem a dar os primeiros passos.

E tudo começa com o testemunho de alguém, não que este testemunho seja a fonte, mas a “torneira” insubstituível para que O possamos conhecer e seguir.

A pastoral vocacional hodierna sofre, no meu modo humilde de ver, de um utilitarismo exacerbado, que começa por querer dar a conhecer os objetivos da missão da Igreja e as leis com as quais se tece a entrega. Jesus não começou assim! Para Ele é sempre fundamental conhecer bem as pessoas, reconhecer o que elas valem e como se dispõem a ser acompanhadas como são naturalmente e com liberdade quanto à proposta sobrenatural. Muitos ziguezagues se têm sofrido entre a formação humana e a formação espiritual em comunidades de acompanhamento, por falta de um discernimento que tenha em conta não só os objetivos da missão, mas também a humanidade dos sujeitos.

Precisamos de, pois, de uma pastoral sem pressas. Maria foi apressadamente a casa de Isabel, mas permaneceu lá cerca de três meses (cf. Lc 1, 39-56). Portanto, ir rápido ao encontro, mas permanecer o tempo suficiente na casa dos vocacionados, sem proselitismo vocacional.

Seja como for, até que aconteça na vida de um/a jovem a decisão definitiva em abraçar um estado de vida (seja o matrimónio, o presbiterado ou a vida consagrada), deve ser dada oportunidade de que aconteça algo semelhante ao que se descreve no Livro do Apocalipse: fazer a experiência do cimo do monte, onde testemunhos felizes ajudem a ver as realidades que se prometem pelo caminho de uma entrega especial.

O vosso domínio estende-se por todas as gerações. O Senhor é justo em todos os seus caminhos e perfeito em todas as suas obras. O Senhor está perto de quantos O invocam, de quantos O invocam em verdade.

─ Sl 144 (145)

A compaixão, do fazer-se ao ser próximo

[Leitura] L 1 Deut 30, 10-14; Sal 68 (69), 14 e 17. 30-31. 33-34. 36ab-37 ou Sal 18 B (19), 8. 9. 10. 11 L 2 Col 1, 15-20 Ev Lc 10, 25-37

[Meditação] A dicotomia entre o ser e o fazer tem muito que se lhe diga, tendo em conta a ambiguidade da tensão entre essas duas dimensões do viver humano. Umas vezes sublinha-se a importância do ser em detrimento do fazer; outras vezes, contrariamente, eleva-se o fazer diminuindo-se a importância do ser. Porém, feitas bem as “contas”, na relação entre o ser e o fazer nunca pode haver cisões que obstaculizariam o seu equilíbrio em favor do objetivo com que se vive, ao encontro do horizonte que se espera ou pelo qual se deixa atrair. À reflexão sobre estas duas dimensões de uma operação ainda se pode juntar a consideração sobre a relação ente a realidade e a aparência ou as ideias. É curioso que o Papa Francisco, quando, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, fala da dimensão social da evangelização (cap. IV), refere que O tempo é superior ao espaço [222-225] A unidade prevalece sobre o conflito [226-230], A realidade é mais importante do que a ideia [231-233]O todo é superior à parte [234-237]. Percebe-se, na ordem lógica que as primeiras expressões (tempo, unidade, realidade e todo) prevalece em relação às segundas (espaço, conflito, ideia e parte); porém, na ordem cronológica, é muitas vezes a segunda que leva a considerar a importância das primeiras.

Um dos belos exemplos de boa síntese entre o ser e o fazer é a Regra de S. Bento, celebrado há pouco tempo na Liturgia (11 jul.), sintetizada na exressão “Ora et Labora” (reza e trabalha), dando lugar à primazia da graça de Deus no (des)equilíbrio do ser humano e do fazer que o desenvolve. As ordens religiosas tiveram sempre uma quota parte muito substancial de presença social no mundo, apesar de as suas comunidades serem muitas vezes vistas como “fechadas”. Mas perguntemo-nos: será por fazermos muitas coisas que estamos muito presentes na vida das pessoas? Por outro lado: as nossas divagações espirituais ou inquestionáveis rotinas tradicionais terão alguma concretização prática na resposta aos problemas humanos deste tempo?

Por isso (e por mais coisas que não cabem neste pequeno artigo), uma verdadeira compaixão há de ter muito de doutrina e muito de prática, mas, sobretudo, tem de ser um sentir como o Mestre as coisas do Pai e as coisas do mundo. À luz do exemplo de Jesus, não é bom vivermos a vida a questionar o que vem primeiro − se o ser se o fazer; se a teoria se a prática, como se da relação entre o ovo e a galinha se tratasse −, mas há que viver na relação de cumplicidade com o ser de Jesus e o estar no mundo. Assim, o fazer será sempre um ensaio acessório que favorecerá um ser cada vez mais conforme o desígnio de Deus para com todas as suas criaturas, quanto ao horizonte de vida eterna que Ele nos prometeu.

Ser próximo dos que mais precisam há de ser um ponto de chagada de muitas tentativas operativas que, projetadas e avaliadas em espírito de comunhão, levarão a algum porto onde o Mestre espera para dizer: «muito bem servo bom e fiel». É isto que parece estar a acontecer com o barco-hospital Papa Francisco, no rio Amazonas, juntamente com muitos milhares de iniciativas que a comunicação social não publicita, para dar espaço ao aparente sucesso do fazer em detrimento da plenitude do ser a que somos chamados.

As 3 liberdades do seguimento de Cristo

[Leitura] L 1 1 Reis 19, 16b. 19-21; Sal 15 (16), 1-2a e 5. 7-8. 9-10. 11 L 2 Gal 5, 1. 13-18 Ev Lc 9, 51-62

[Meditação] O caminho de fé aberto por Jesus é o resultado da declinação das 3 liberdades:

1ª – Ser livre quanto ao horizonte longínquo:
Quanto mais “ancorado” o sonho de vida estiver no horizonte que é a vida eterna, com os valores revelados como potenciadores dessa vida eterna, mais livre será a pessoa no que toca às coisas terrenas e na forma de ligar com elas, incluindo as criaturas. Para Jesus foi Jerusalém; qual é a “Jerusalém” de cada um de nós? Para isso, é preciso relativizar tudo o que nos “sedentariza” a alma («as raposas têm as suas tocas…»). Os discípulos de Emaús tiveram a tentação de fugir deste horizonte tentando regredir à sua infância. Manos mal que lhes apareceu o Ressuscitado no meio do caminho.

2ª – Ser livre quanto às circunstâncias do caminho:
Quer chova, quer faça sol; quer morra alguém que afinal já está no Reino para o qual Jesus nos quer dirigir… «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos…». Jesus não nos proíbe de fazer o luto. O problema é se, por causa do sofrimento da perda (nos casos mais delicados um estresse pós-traumático com o qual é preciso reaprender a viver), podemos perder de vista aquele horizonte longínquo que se revela já aqui. Há circunstâncias que nos podem prender ao efémero, não deixando que se dêem passos decisivos. Uma das frases que se vê por aí escrita em autocarros é «A mudança que você quer está na decisão que você não toma». Que nada, nem ninguém nos possa dificultar tomar uma decisão que é fruto de um verdadeiro discernimento iluminado pela vontade de Deus e o seu Espírito de Amor, a partir da referência que é Jesus Cristo.

3ª – Ser livre quanto aos laços com o passado:
A provocação «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás…» mostra-nos como Jesus estava muito à frente do Antigo Testamento (no qual Elias deixa que Eliseu faça boda e se despeça…). Hoje, também está muito à frente da Igreja, pois está no Reino Glorioso de onde nos atrai. O seu chamamento continua a ser “escandaloso”. Como disse S. Paulo, «Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou». E com o salmista rezamos: «O Senhor é a minha herança»! A vida de cada um e de cada uma ganha sempre um novo fôlego, quando cada pessoa consente de que Deus lhe mostre a sua originalidade. Ninguém é obrigado a ser cópia de alguém (já basta a carga genética). Quanto ao projeto de vida, ele é tanto mais feliz, quanto original, mesmo precisando do apoio da família e da comunidade/sociedade.

[Oração] Irving “Francis” Houle, um leigo “agraciado” com os estigmas da Paixão do Senhor, rezava assim:

Oh, meu Jesus!
Meu coração pesa tanto!
O que Tu carregas é pesado demais para mim.
Deixa-me, Jesus meu, carregar um pouco a Tua cruz, só para saberes que eu me importo.
Olha para mim, Senhor amado, com os olhos da Tua misericórdia.
Que a Tuas mãos curadoras estejam sobre mim.
Se for a Tua vontade, dá-me saúde, força e paz.
Amém.

 

(cf. https://pt.aleteia.org/2018/01/16/um-homem-comum-com-esposa-filhos-e-os-estigmas-da-paixao-de-cristo/)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O Espírito do Pentecostes é como uma “pomba doméstica” que não regressará sozinha

[Leitura] L 1 Act 2, 1-11; Sal 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34 L 2 1 Cor 12, 3b-7. 12-13 ou Rom 8, 8-17 Ev Jo 20, 19-23 ou Jo 14, 15-16. 23a-26

[Meditação] De facto, uma das tendências mais delicadas do ser humano, no seu desenvolvimento para a adultez é a de fazer “ninhos” (na psicologia = nidificação), criar laços de segurança, relações que garantam o sentido de pertença. Porém, sem questionamentos e avaliação desses mesmos laços ou relações, verificando se eles estão a cumprir o objetivo, que não é só o de uma felicidade estável, mas também o crescimento da pessoa, o “ninho” vem-se a revelar um gerador de inconsistências.

O caminho inédito aberto por Jesus não se detém nas preferências humanas, cuja tendência é a da homologação de consciências, mas a abertura ao transcendente que surpreende. Por ocasião da celebração do Pentecostes, o Papa Francisco disse que «sem o Espírito, a Igreja é uma organização, a missão é propaganda, a comunhão é um esforço». Pois, a missão da Igreja neste mundo não é enraizar-nos nele, mas apontar-nos sempre o horizonte para o qual nos impele o sopro do Espírito Santo.

Ora, a Palavra proclamada no Pentecostes inspira-nos a viver num modo dinâmico, favorecendo com as faculdades humanas bem sincronizadas (afeto, inteligência e vontade) a pertença a um corpo místico, cuja cabeça é Cristo, que agora está à direita de Deus Pai. Se este corpo estiver bem conjunturado, tudo concorre para que a sua missão obedeça aos desígnios de Deus Pai, como Jesus, na sua vida terrena, fez.

É estranho pensar como na Igreja possa haver estruturas que sejam desproporcionais na sua forma de atuar e no seu objeto, sem discernimento eclesial, de modo que a fazer contemplar a Igreja como um “mutante”. Pode um corpo saudável ter duas mãos de tamanhos diferentes? Pode entre os pés não haver a simetria que lhe permite um andamento equilibrado? Podem os ouvidos ser de tal maneira abertos que diminuam a função dos olhos e da boca? Pode a língua dizer palavras que não se entendam? Então, não faz sentido os “crentes” viverem como se a função da Igreja na terra fosse somente a sua autorreferencialidade e não tendesse para o Reino de Deus.

O ser humano, por vezes, projeta no caminho de fé os seus distúrbios, sendo estes o “voo” não vigiado dos seus mecanismos de defesa, sobretudo aqueles não adaptativos à nova realidade do Reino que o Senhor Jesus no veio anunciar. “Joguemos” com o humor e a antecipação, aqueles mecanismos que, se usamos com equilíbrio e coragem (sem medo), nos permitirão relativizar as coisas da terra, para darmos valor às coisas que o Espírito Santo nos recordará, permitindo-nos o regresso àquela eterna Fonte, no apeadeiro definitivo da eternidade.

[Oração] Sequência do Pentecostes:

Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

 

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

 

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

 

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

 

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

 

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

 

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

 

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

 

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

 

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O que queres fazer PARA SERES GRANDE?

[Leitura] L 1 Act 13, 14. 43-52; Sal 99 (100), 2. 3. 5 L 2 Ap 7, 9. 14b-17 Ev Jo 10, 27-30; Mensagem do Papa Francisco para o 56º Dia Mundial de Oração pelas Vocações

[Meditação] Quase sempre, quando queremos provocar uma criança ou adolescente sobre o seu futuro, perguntamos «o que queres ser quando fores grande?» (basta o leitor colocar a frase do título deste post no Google e este troca imediatamente a pergunta pela trivial, não sendo encontrados resultados para a pergunta do título). Esta interrogação sublinha, sobretudo, a idade física no tempo, deixando para segundo plano aquilo que poderá ajudar a criança ou adolescente a ser grande. É curioso que nunca fazemos a pergunta desta forma a um jovem, de modo que, também, timidamente, fechamos esta questão no foro privado de uma consciência muitas vezes perdida ou desorientada. No entanto, podemos provocar: Jovem, sabes o que te poderá ajudar a fazer ser grande aos olhos de Deus? Queres discernir?

É neste sentido que o Papa Francisco nos convida a arriscar com coração na promessa de Deus que está em cada um de nós. Este “arriscar” é um deitar-se à aventura de descobrir o desígnio de amor que Deus sabe que poderá encher de felicidade duradoira a vida de cada pessoa. Neste Domingo IV da Páscoa − Domingo do Bom Pastor −, no Evangelho, Jesus deixa-nos claro que a sua voz é a “onda” de sintonização de cada “ovelha” com o seu Pastor. Conhecê-l’O é fundamental para cada um conhecer o seu caminho para o Pai. Aliás, ele mesmo é o caminho, a verdade e a vida.

Portanto, em catequese ou pastoral vocacional, talvez seja uma perda de tempo perguntar “que queres ser quando fores grande?”, embora se refira ao ser, mas é necessário colocar este ser em contacto, nas perguntas que fazemos, com as grandes possibilidades existenciais de ser o mais possível à imagem e semelhança de Deus, durante o tempo da esperança (humana e cristã) de vida. Perguntemos, pois: “o que queres fazer PARA SERES GRANDE?”. Trata-se de colocar o ideal a que se aspira ao fazer de hoje, no discipulado missionário. Trata-se de arriscar, hoje, com coragem, a promessa que aguarda ser cumprida no tempo de vida de cada um, na relação com os outros. A pergunta tradicional protela a formação. A pergunta revolucionária propõe trabalhar no ser, em colaboração com a preliminar graça de Deus, de modo que «Que queres fazer para seres grande?» é uma pergunta que pode fazer-se em todas as idades, sugerindo a pedagogia da gradualidade.

[Oração] Pelas Vocações:

Deus, nosso Pai,
ao enviares o Teu Filho Jesus,
quiseste vir ao nosso encontro.
Queremos agradecer-Te, hoje,
por continuares a chamar,
no barco da Igreja,
pescadores para o alto mar,
para a missão de chegar a todos.
Concede-nos,
pela graça do Batismo,
o dom da escuta da Tua voz
e da resposta generosa.
Desejamos abrir-nos ao “sonho maior”:
discernir a vocação
que nos torna servidores
da alegria do Evangelho.
Dá-nos a coragem de arriscar,
como a jovem Maria,
para sermos portadores da Tua promessa.
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

As tentações, do «show off», pela Palavra “on”, ao Espírito “in”

[Leitura] L 1 Deut 26, 4-10; Sal 90 (91), 1-2. 10-11. 12-13. 14-15 L 2 Rom 10, 8-13 Ev Lc 4, 1-13

[Meditação] Toda a vida adulta saudável, do ponto de vista humano e cristão, precisa de iniciar e passar por provas; todas as energias e saberes que se vão adquirindo na fase a que se chama de iniciação infanto-juvenil servem para uma original felicidade, mas por onde e a que preço?

A teologia do 1º domingo da Quaresma mostra-nos como Jesus, o Filho de Deus, não descartou aqueles energias de «Filho do homem», mas conhecendo-Se a Si mesmo, utilizou o que nessa condição seria alavanca para fazer as escolhas de verdadeiro Filho de Deus. As três tentações apresentadas no Evangelho são três “ideologias” saídas da “caixa de pandora” que é a tendência primordial de o homem se substituir a Deus (cf. Gn 3), impondo o ter acima do ser, o poder acima do  e o prazer/aparecer acima do serviço. Os antídotos para essas “mordidelas” da serpente são: o “pão” da Palavra, a “força” da humildade e a “beleza” do serviço.

Com a esmola (na relação com os outros), a oração (na relação com Deus) e o jejum (na relação consigo próprio/a), restauramos a nossa forma psico-social de estar presentes, o que reverte a favor de uma ecologia integral, à maneira do que o Papa Francisco sugere, na sua Mensagem para a Quaresma de 2019. Numa sociedade que nos incentiva ao exibicionismo desumanizante e inútil, a Palavra de Deus é o caminho que nos leva a aventurarmo-nos pelas sendas do Espírito de Amor que nos garante a verdadeira felicidade.

[Oração] Salmo 91:

Tu, que habitas sob a proteção do Altíssimo, e moras à sombra do Omnipotente, diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela; meu Deus, em Vós confio». Nenhum mal te acontecerá, nem a desgraça se aproximará da tua morada. Porque o Senhor mandará aos seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra. Poderás andar sobre víboras e serpentes, calcar aos pés o leão e o dragão. «Porque confiou em Mim, hei de salvá-lo; hei de protegê-lo, pois conheceu o meu nome. Quando Me invocar, hei-de atendê-lo, estarei com ele na tribulação,

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A vocação cristã é chamamento divino, não mero entendimento humano

[Leitura] L 1 Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Sal 127 (128), 1-2. 3. 4-5 L 2 Col 3, 12-21 Ev Lc 2, 41-52

[Meditação] Um dos aspetos que me salta à vista da fé nesta Festa da Sagrada Família é, desde a proclamação do Evangelho, a total confiança em Deus e um coração aberto de Maria e José, para “gerirem” tudo o que acontecia com o Menino Jesus. Esta família é modelo para as nossas famílias, como igrejas domésticas, pela forma como, contando com a pureza de Maria e a castidade de José, se ajustavam diante dos fatores internos e externos do mistério que era o Filho de Deus humanado.

Aquela ocasião que tinha tudo para parecer um desastre — a perda do Menino no Templo entre os doutores — acaba por se mostrar um salto temporal no desenvolvimento da missão que Jesus viria a exercer na sua vida adulta, na vida pública. Esta forma de ver este episódio, pela dimensão vocacional, traz a lume algumas perguntas, cuja resposta é decisiva para o bem da nossa Igreja particular, desde a sua dimensão de famílias domésticas até à sua relação com a Igreja universal:

– Se a experiência dos acólitos se fica por uma mera diversão de infância, como poderá colocar-se uma futura resposta vocacional mais madura? (Jesus, desde que foi ao Templo a partir dos 12 anos, nunca mais deixou de lá ir!)
– Terá a inconsistência de uma resposta a um possível chamamento de Deus a uma via de consagração alguma coisa que ver com a inconsistência da fé nas famílias? (Maria e José acreditaram sempre, apesar das contradições presentes naquele Menino!)
– Que lugar a dimensão vocacional terá na dinâmica pastoral de uma Igreja particular (diocese), sem que outras dimensões a diminuam por uma simples razão prática ou social? (A atividade de Jesus foi sempre de anúncio e cura, sem deixar, pelo caminho, de chamar a Si colaboradores…!)

Muitas outras perguntas se poderiam fazer. Unicamente aqui se quer reforçar a mesma provocação que, neste dia da Sagrada Família, foi lançada a Maria e a José por Jesus, Palavra feita carne: «não sabíeis que deveria estar na casa de meu Pai?» Portanto, quando aos pais parece perder-se o controle sobre o futuro dos filhos, deverão perguntar-se: que desígnio de amor e de forma Deus Pai quererá realizar na vida deste menino ou desta menina?

[Oração] Oração à Sagrada Família

Jesus, Maria e José,
em Vós contemplamos
o esplendor do verdadeiro amor,
confiantes, a Vós nos consagramos.

 

Sagrada Família de Nazaré,
tornai também as nossas famílias
lugares de comunhão e cenáculos de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas.

 

Sagrada Família de Nazaré,
que nunca mais haja nas famílias
episódios de violência, de fechamento e divisão;
e quem tiver sido ferido ou escandalizado
seja rapidamente consolado e curado.

 

Sagrada Família de Nazaré,
fazei que todos nos tornemos conscientes
do carácter sagrado e inviolável da família,
da sua beleza no projecto de Deus.

 

Jesus, Maria e José,
ouvi-nos e acolhei a nossa súplica.
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A vida cristã não é o jogo do monopólio da verdade!

[Leitura] Num 11, 25-29; Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43. 45. 47-48

[Meditação] Começo esta reflexão com a confissão de formador para o sacerdócio ministerial, que poderá ser alargada ao ser da Igreja, chamada a ser pedagoga e mãe que ajuda a caminhar para o Reino:

Na formação dos adolescentes e jovens para o sacerdócio, sempre que é difícil caminhar ao lado deles (por causa da falsa ambição de muitos afazeres pastorais) deste a imaturidade humana e cristã à aquisição de uma melhor vivência dos valores do ser padre, dei-me conta de que, institucionalmente, o mais fácil era defendermo-nos com o regulamento da comunidade, passando a pautar o (não) crescimento  pela atenção à observância das normas prescritas que nos ajudasse a avaliar o caminho e as etapas. No final, corremos o risco de ter um melhor ou pior cumpridor, em vez de uma afetiva configuração com Cristo Sacerdote.

Penso que é a mesma tendência da Igreja, quando dá mais importância às leis canónicas que às pessoas no seu caminho na busca da verdade, como se todos tivéssemos de o fazer desde os mesmos pressupostos existenciais. Se calhar, também se correm estes riscos da educação dos filhos nas famílias… Ora, aconteceu o mesmo na história: independentemente das filosofias ou pontos de vista com que se possa observar o acontecimento, a Inquisição teve lugar quando, de alguma forma, a eclesiologia falhou. Com esta afirmação pretende esclarecer-se o seguinte: quando, ao longo da história, foi necessário uma disciplina mais rígida para corrigir certos erros, não é só porque o mundo é mau… (ou qualquer outro “bode expiatório” para onde se queira transferir a responsabilidade dos maus atos humanos); mas, também, de algum modo, a missão da Igreja enfraqueceu, no que toca à evangelização com base na boa nova de Jesus.

Os discípulos de Jesus, com o desejo de ter monopólio sobre Ele, correram sempre este risco ao longo da história. O conhecimento teórico sobre a identidade divina de Jesus foi-se esclarecendo ao longo do estudo ou aprofundamento da fé. Mas, apesar dos instrumentos cada vez mais interdisciplinares, não é fácil passar dessa afirmação «tu és o Messias de Deus» à aceitação de que também façam parte do projeto de Jesus aqueles que não fazem parte na nossa versão institucional do ser Igreja. E facilmente, ao banirmos a possibilidade de que outros também preguem sobre Cristo ou exorcizem em nome dEle, acabamos por banir o próprio Cristo na sua identificação com os pobres e indigentes, segundo o espírito das bem-aventuranças.

Por isso, Jesus, desta vez a João, diz: «Não o proibais (…). Quem não é contra nós é por nós». No que toca à vida cristã, o caminho sinodal é o da comunhão de diferenças. No que toca à formação sacerdotal, o resultado que é o padre em missão será fruto de um caminho feito de síntese vocacional entre as vivências históricas de cada um e os valores que configuram com Cristo Sacerdote (e não a mera aspiração a estes valores, pela importância do modelo da incarnação). Para o seu projeto de salvação Deus quer contar com todos os de dentro e os de fora do Cristianismo, desde que não sejam contra o seu desígnio de amor eterno para todos.

[Oração] Sal 18 (19)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo