Ef 1, 1-10; Lc 11, 47-54

Um grupo de estudantes de Engenharia e seu professor receberam uma passagem de avião gratuita para ir de férias. Quando estavam dentro do avião, o piloto anunciou que estavam na aeronave que os alunos tinham construído. Todos se assustaram e, imediatamente, correram para fora do avião, exceto o professor deles que ficou lá com muita calma. Quando a hospedeira de voo perguntou por que é que ele não tinha saído com os seus alunos, ele respondeu rapidamente: “conheço as habilidades dos meus alunos muito bem, esta bodeguice de avião nem se sequer vai conseguir ligar”.

Moral da história: dá a impressão de aquele professor quis fazer passar os seus alunos por uma experiência de choque, para que eles pudessem a estar mais atentos aos ensinamentos importantes que tocam com a vida das outras pessoas. Por outro lado, não tinha conseguido ensinar-lhes tudo para que o avião funcionasse e nele se pudesse navegar em segurança. A verdade, é que nem eles mesmo se sentiram bem ao saber que o que tinham construído viesse a ter sucesso. Resulta uma experiência social de fuga.

Jesus acusa os doutores da lei de terem tirado “a chave da ciência”, não entrando e não deixando entrar. Ou não sabiam ou não queriam que alguém como os profetas e os apóstolos os ajudassem a levantar voo. E ainda por cima, limitavam as pessoas à não possibilidade de se abrirem ao projeto de Deus continuado por Jesus. Estavam diante da Nova Aliança e, mesmo assim, agiam conforme os seus antepassados corrompendo a compreensão da antiga Aliança.

No seu hino, o Apóstolo Paulo garante-nos que “do alto dos Céus [Deus] nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo”. E que a todos escolheu, “antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença”. Portanto, a adoção filiar divina é em Jesus Cristo, o Filho Unigénito, e não em qualquer outro ser humano à face da terra. É n’Ele e pelo seu sangue que “temos a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência (…) instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos Céus e na terra”. Por isso, nenhum pastor ou mediador pastoral se deve fazer “caro” quanto à partilha dos bens espirituais ou ao testemunho da fé, sem protelar o desenvolvimento pessoal ou levar a procrastinar no tocante às experiências da fé que salva.

Talvez andem à volta deste tema os “avisos à navegação” que o teólogo italiano Armando Matteo tem vindo a fazer nas suas recentes obras, onde fala abertamente de vários fatores de crise na vida cristã: a ignorância (Ensinar os ignorantes), a incredulidade (A primeira geração incrédula) e a imaturidade (Converter Peter Pan).

Qual será o Problema? E de quem será o problema? E qual será a solução? Parece-me que no desenvolvimento humano, entendido à luz da antropologia cristã que tem como modelo Jesus Cristo, tem de passar por três tipos de ordem: o reto pensar a que se pode chamar de ortodoxia, o reto sentir a que se pode chamar de ortopatia e o reto fazer que tem por nome ortopráxis. Jesus, em Si, tinha o Espírito Santo que o levava a demonstrar ter pensamentos, sentimentos e ações que eram conformes à verdade, à vontade e à ação divinas.

Na maioria das nossas dioceses, a formação cristã está a ser um “calcanhar de Aquiles”. Não faltam iniciativas e dinamismos e, até, tentativas de renovação não só das verdades a ensinar, mas sobretudo na forma como envolver todos os intervenientes. Algures, no processo de renovação, fica sempre a sensação de que existe a dificuldade em fazer das comunidades ambientes integradores onde seja possível desenvolver-se uma formação que seja integral, embora não totalitária. É por isso e para isso que se definem as Igrejas particulares como sendo os ambientes que têm tudo o que precisam para ser Igreja. Não será, porventura, que tenhamos esquecido algumas daquelas dimensões insubstituíveis para que cada pessoa possa fazer uma experiência integral da fé? Teremos nós partido do pressuposto que bastará mostrar na aparência que tudo vai moralmente bem para nos assumirmos no caminho cristão? Não faltará ainda mais valorizar o caminho comunitário como único viável para uma experiência feliz da fé que salva? Não será que estamos a pagar um preço, não só pelo ambiente criado pelos crimes de abuso sexual, mas também pelo ancestral fechamento à compreensão mais vulgarizada da Palavra de Deus e do que a mesma transmite?

Os profetas e os apóstolos, enviados por Deus e por Jesus Cristo, no Espírito Santo, a anunciar a salvação, são hoje toda a comunidade dos cristãos, não de forma desconjunturada, mas orgânica, onde todos ─ pastores (nos vários graus) e leigos (a partir dos variadíssimos carismas e serviços) ─ possam perceber-se membros de um Corpo ligado à sua Cabeça que é Cristo. De outra forma, seria o Frankenstein, de quem se fizermos a pergunta “de onde vens?” ouviremos a resposta “de muitas partes”. É, também, abuso de poder e de consciência quando temos muitas “partes” da verdade em nós e não ajudamos a conjunturar através de obras de participação comunitária. O poder exclusivo desta ou daquela pessoa facilmente cai num poder abusivo. Por isso, é que Jesus exerceu sempre um poder inclusivo.

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