Escondimento e testemunho: a “quaresma” e a “páscoa” das boas obras

[Leitura] 2 Reis 2, 1. 6-14; Mt 6, 1-6. 16-18; Iuvenescit Ecclesia

[Meditação] Ainda há poucos dias, o Mestre nos aconselhou a mostrar a nossa luz diante dos homens, para que vendo as nossas boas obras, glorifiquem o Pai que está nos céus (cf. Mt 5, 13-19). No Evangelho de hoje, aconselha o contrário. Mas… cuidado! Não o diz da luz, mas das nossas boas obras. As que são nossas, aparentemente, boas obras, podem não ser luz que mostre a glória do Pai. Para que o sejam têm de passar pela “quaresma” do escondimento e da humildade. Para que a esmola, a oração e o jejum deem frutos, é necessário que sejam discretas e o Pai é que recompensará com os frutos da “páscoa” que elas permitem, com o Seu poder, fazer. No Antigo Testamento, há um pequeno paralelismo entre Jesus e Pedro nos profetas Elias e Eliseu, respetivamente. Este promete àquele não o deixar; Pedro também prometeu seguir Jesus e, até, não O negar. Apesar de O ter negado, não deixa, como Eliseu diante de Elias, quando este parte no carro de fogo, de olhar e confiar na Sua misericórdia, quando Ele parte naquela cruz de sangue.

Doravante, Eliseu com a dupla porção do espírito de Elias, só conseguiu ser eficaz com o bater do manto para voltar a passar no Jordão ao invocar o Senhor Deus de Elias. Da mesma forma, Pedro só consegue ser eficaz na sua missão de Pontífice, quando invoca, sob o Espírito de Deus, o Nome do mesmo Deus (para o cristão, o Deus Uno e Trino). Sendo, como Jesus disse, somente Bom um só − o Pai que está nos céus (cf. Mc 10, 18; Lc 18, 19) −, então as nossas obras serão boas se forem iluminadas com a luz do Fogo que é o Espírito Santo. Para isso, é preciso caminhar com Jesus, esperar no Senhor e invocar o Seu Espírito, para que as nossas obras sejam eficazes. Sem essa Luz, podem ser consideradas boas aos olhos dos homens, mas não aos olhos de Deus.

A Congregação para a Doutrina da Fé publicou, recentemente, a Carta Iuvenescit Ecclesia para os Bispos da Igreja Católica, sobre a relação entre os dons hierárquicos e carismáticos para a vida e missão da Igreja. Na verdade, já estávamos a precisar de alguma ordem na relação entre estes dons, colocando-os, novamente, na relação com a mesma fonte e a mesma missão. Por vezes, ao observarmos a variedade de atividades promovidas pelos vários dinamismos existentes na Igreja, dá-nos a impressão de que temos horizontes diferentes e não é claro que a perspetiva do Reino de Deus esteja em todos. Pode ser porque algumas iniciativas careçam daquela Luz de que falámos acima, precisando de “quaresma” e dos critérios para que um carisma esteja em conformidade com a missão da Igreja, não pensando tanto na autorreferencialidade  e autodefesa, mas, orientada e vigiada pela hierarquia (cuja autoridade deve ser entendida como serviço), a ser “esmola” do “ser útil para os outros e não só para os próprios”, do “jejum” da “espera do tempo oportuno, sem o sucesso provocado pela euforia dos homens” e da “oração” que “invoque a força de Deus, para que se manifeste o seu poder e não o nosso”. Há, porventura, muitos dinamismos (promovidos por grupos, movimentos, associações e obras) que só mexem com as águas da vida humana (experiências históricas, emoções, sentimentos, motivações, sonhos, etc.), sem, porventura, ajudarem a orientar esta barca que é a Igreja para o seu porto seguro que é a sua missão de acompanhar cada ser humano na “travessia do Jordão” para a Santidade que é o mesmo que dizer Felicidade plena, que só o amor de Deus pode realizar em cada um. É preciso que “a Igreja rejuvenesça” para que as pessoas encontrem o verdadeiro caminho da Salvação!

[Oração] Sal 30 (31)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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Integrar a fragilidade é preferível a repudiar o amor

[Leitura] Tg 5, 9-12; Mc 10, 1-12; PAPA FRANCISCO, Amoris laetitia

[Meditação] Prosseguimos na aventura do evangelista Marcos, confrontando-nos, hoje, com uma questão muito cara e delicada para a Igreja, que é o Matrimónio e a Família, por causa das desilusões que acontecem nas histórias de amor e do sofrimento que causam certas fragilidades. Na Exortação Apostólica Pós-sinodal “A Alegria do Amor” o Papa Francisco não ignora as situações de rutura que possam acontecer nas histórias familiares. No entanto, percebe-se, pela estrutura do documento a “ordo amoris” que está delineada no Evangelho, em que Jesus declara como primária o desígnio de amor proposto pelo Criador e secundária a possibilidade do divórcio causado pela dureza dos corações. Jesus representa os profetas que não se deixam levar pelas circunstâncias, mantendo firmes os princípios. Na verdade, as desilusões do caminho não anulam o bem que o Criador quis para o homem e a mulher. Jesus não reprovou a postura de Moisés, mas repropõe a ordem de fatores que, por vezes, na história ficam baralhados pelo “protagonismo” dado às fragilidades, em vez de ser dado ao verdadeiro amor.

No capítulo VIII da Exortação, porpõe-se o acompanhamento, o discernimento e a integração da fragilidade. É aqui que Francisco dá aos pastores (bispos) a coragem e a autoridade para, respetivamente e segundo as circunstâncias e a cultura de cada Igreja particular, se poder quer anunciar “a alegria do amor” que está presente no ideal matrimonial e familiar, quer de integrar as situações de fragilidade que assolam a vida das pessoas. Voltando à história da formação sacerdotal, uma vez que os que vivem o ministério presbiteral não deve viver desligado dos problemas da família, mas empenhado em acompanhar, convém que os mesmos saibam, também em si, integrar as fragilidades para uma sempre maior vivência do amor de Deus (pois este é princípio e horizonte!):

  1. Enfim, o modelo que promete aproveitar os aspetos positivos dos precedentes e resolver as suas subtis falsidades é o modelo de integração. É um modelo que é notoriamente fruto entre uma perspetiva teologia e psicológica, e que, sob a antropologia da vocação cristã, nos transporta no plano da redenção como integração, cujo processo podemos definir como: a capacidade de «construir e reconstruir, compor e recompor, a própria vida e o próprio eu à volta de um centro vital e significativo, fonte de luz e de calor, no qual encontrar a própria identidade e verdade, e a possibilidade de dar sentido e cumprimento a cada fragmento da própria história e da própria pessoa, ao bem como ao mal, ao passado como ao presente, num movimento constante centrípeto de atração progressiva. Tal centro, para o crente, é o mistério pascal, a cruz do Filho que, elevado da terra, atrairá a si todas as coisas (cf. Jo 12,32)» (cf. A. CENCINI, L’Álbero della Vita – Verso un modello di formazione iniziale e permanente.)

Quantas vezes se “terá deitado o bebé fora com a água suja”, em vez de se ter sorrido às fragilidades com um olhar sereno e confiante do amor maior que Deus nos tem e designa para a construção das pessoas que se propõem fazer um caminho de felicidade, sabendo que esta será sempre influenciada por debilidades e moldada por possibilidades. Não sendo ingénuos, é verdade que há muitos enganos nas tentativas de relação; e a Igreja está cá para ser esse espaço de acolhimento e acompanhamento para o discernimento e a integração, quer das fragilidades, quer de novas possibilidades, segundo a lei da gradualidade, em direção ao horizonte do amor que Deus propôs desde o princípio. Quanto a este acompanhamento, aguardamos de quem tem autoridade, uma interpretação idónea e pedagógica que nos leve à urgente ação.

[Oração] Sal 102 (103)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O sabo(e)r da vida temperada com o amor

[Leitura] Tg 5, 1-6; Mc 9, 41-50

[Meditação] Conta a história do Irmão Roger de Taizé que, um dia, tendo ele manifestado ao Papa João Paulo II o desejo de se tornar um católico, terá escutado do Santo Padre o pedido, quase mandato, surpreendente «preciso mais de ti como és e como fazes aqui» (na comunidade ecuménica de Taizé). É luminosa esta forma como aquele Pontífice via a força plural da identidade cristã, vivida muitas vezes no meio de extremismos de todo o tipo e das várias latitudes da confissão institucional da fé. Estes “ismos” são sempre aquela “catana” que corta qualquer hipótese de desenvolvimento equilibrado. Nenhum crescimento saudável se compadece de “overdoses”, mas do tempero do amor.

Assim, o evangelista Marcos, tem-nos vindo a conduzir por um fio condutor que é bom seguirmos para compreendermos como se pode “cozinhar” com este tempero do equilíbrio de uma identidade salgada pelo amor cristão. A ação daqueles de quem Jesus dizia não se poder proibir de fazer milagres em nome d’Ele, é considerada por Ele mesmo como necessária e digna de recompensa, porque até benéfica para os que andam mais próximos d’Ele (nem que seja um copo de água!). Acoplando, novamente, a nossa reflexão sobre a história da formação sacerdotal a este fio condutor de Marcos, descobrimos que há mais dois modelos da formação a pedir atenção sobre elementos positivos a reforçar e negativos a evitar, uma vez que os erros que Jesus encontrou nos seus discípulos também se podem repetir hoje. Vejamos:

  1. O modelo da autorrealização é a resposta que o ambiente gerado pelo Vaticano II dá àqueles dois modelos anteriores, a reviravolta antropológica do Concílio. A tendência espiritualista dá lugar à psicologista. Agora é o homem e as suas capacidades que pesam no seu crescimento vocacional, como se os mesmos fossem o fundamento do chamamento. É um modelo positivo porque põe em diálogo a liberdade do homem com a graça de Deus. É negativo porque põe o “eu” no início, no centro e no fim do processo vocacional, e esquece o limite como fonte de graça.
  2. O modelo da pura autoaceitação, ou “módulo único”, aquele que tem como fim uma quase resignação do ser de criatura chamada, por natureza, a transcender-se e o do “módulo único” ou da não-integração como tendência, já na formação e na consequente vivência do ministério, em privilegiar um aspeto ou uma dimensão ou um nível da formação e vivência da vocação, por exemplo o litúrgico, ou o intelectual-escolástico, ou o disciplinar, ou o psicológico, ou até o apostólico. É tremendamente negativo porque leva a perder a visão de conjunto do que se é chamado a ser, mais do que aquilo que foi para nós o formador de maior referência naquele campo. Deste modelo surgiram o espiritualismo, o voluntarismo, o moralismo, o pietismo, o liturgismo, o intelectualismo, o psicologismo, o experiencialismo, o subjetivismo. (Cf. A. CENCINI, L’Álbero della Vita – Verso un modello di formazione iniziale e permanente.)

Estes modelos ajudam-nos a perceber, com realismo, que não vamos muito longe sem a ajuda dos outros: por um lado, o «copo de água» que nos possam dar no árduo caminho; por outro, a nossa abertura aos outros, muitas vezes estragada pelos nossos “ismos” de especialidade douta que, por vezes, de nada servem na hora de, com simplicidade, “mudar uma lâmpada”. Parafraseando o Apóstolo Tiago: de que serve ter ouro se o nosso coração permanecer fechado…?! Em vez de nos sentirmos escandalizados pela abertura da Igreja (p.ex. no Papa Francisco), cuidemos para não escandalizarmos nós com os nossos preciosismos infundados, presunçosamente santos e inúteis para a salvação (nossa e dos outros).

[Oração] Sal 48 (49)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O nome de Jesus é universal como o seu Reino

[Leitura] Tg 4, 13-17; Mc 9, 38-40

[Meditação] Pode haver quem pense que Jesus está encerrado na Igreja que fundou, fazendo d’Ele uma espécie de talismã (com muito respeito para com Jesus!). Esquece-se que Ele veio para construir o Reino de Seu Pai, que é eterno e não tem fronteiras visíveis. Sob esta tendência de fechamento das verdades dentro de fronteiras rígidas, muitos ficaram enclausurados na Igreja instituição, não concebendo que as verdades e o seu poder possa fazer maravilhas fora das suas “paredes”. Por isso, Jesus declara: «não o proibais», referindo-se ao fazer milagres em Seu nome. Esta postura dos discípulos não admira, pois ainda não se tinham habituado à ideia de que nenhum deles deveria ser maior do que o outro, mas o mais pequeno e o que serve (cf. Mc 9, 30-37), passando a transferir a ideia do melhor entre eles para a sua coletividade de grupo de seguidores por contradição aos de fora. Na verdade, poderá, segundo os desígnios insondáveis do Espírito de Deus (que sobra onde quer) haver quem seja pequeno e que sirva na humildade mesmo fora da visibilidade das fronteiras de uma Igreja confessional ou particular.

Curiosamente, na história formação sacerdotal, houve dois (de entre outros) modelos de formação, com aspetos bons e menos bons, que se assemelham às duas posturas dos discípulos contempladas nos trechos evangélicos de ontem e de hoje: o modelo da perfeição e o modelo da observância comum.

  1. O modelo da perfeição, também chamado de canalização, convidava o candidato e o sacerdote a canalizar toda a sua personalidade para o fim da perfeição, excluindo tudo o que pudesse prejudicar esse fim. Tem a vantagem de apresentar ideais claros, mas a dolorosa desvantagem de remover impulsos que subjugariam o sujeito mais tarde a situações psicossomáticas imprevistas e, por vezes desconhecidas. Tem por detrás uma antropologia maniqueísta: bom é tudo o que é rapidamente orientado para o bem; mau é tudo o que não se identifica imediatamente com o bem.
  2. O modelo da observância comum é a coletivização do modelo precedente, querendo levar à realização do grupo perfeito. É positivo porque foge da tendência individualista. É negativo porque baseia o bem vocacional na mera perfeição dos comportamentos, com o consequente desequilíbrio entre a dimensão aparente e a dimensão real da pessoa humana. É um modelo massificador, que não tem em conta a singularidade da pessoa como mediação de Deus. (Cf. A. CENCINI, L’Álbero della Vita – Verso un modello di formazione iniziale e permanente.)

A discussão de Mc 9, 30-37, para ver quem seria o maior ou o melhor para substituir o Mestre depois da sua morte, andaria em busca do mais perfeito custasse o que custasse, sem ter em conta os valores que Jesus vivia e pregava. A proibição de Mc 9, 38-40, “coletiviza”, como que por compensação daquele tipo de “perfeição” não confirmado pelo Mestre, a ideia do grupo ideal, fora do qual não poderia haver perfeição capaz de fazer milagres. Poderia lá ser?! Acontece, pois, os que dizem ser discípulos de Jesus pisarem o risco que leva a cair na tentação dos “filhos deste mundo” para os quais escreve o Apóstolo Tiago: procura-se tirar lucro nas circunstâncias em que se deveria dar o testemunho das palavras do Mestre com a ação, custe o que custar. É preciso começar a dizer mais: «se Deus quiser» ou «graças a Deus»! Tiago é claro: «quem sabe fazer o bem e não o faz comete pecado». Cá para nós: nas fragilidades, também pisamos fronteiras para além do que foi definido por Jesus Cristo e, mesmo assim, Ele não nos proíbe de O procurarmos ou (a não ser que não queiramos e dentro dos limites desenhados pela sua Palavra e Ação) de estarmos em comunhão com Ele. Graças a Deus! Ele protagonizou aquele que, hoje, se redescobre ser o modelo de integração, quer na formação dos sacerdotes, quer no estilo de vida cristã em crescimento.

[Oração] Sal 48 (49)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Dificuldades pessoais e consciência eclesial – hora de confronto justo e equipativo

É preciso virar a página no modo como se veem as dificuldades pessoais mais ou menos graves, sejam dos padres, sejam de outros consagrados ou ministros, na hora de sugerir avaliação e resolução ou terapia. Não são só razões pessoais a bloquear um qualquer processo pastoral, também razões ligadas ao papel que cada um exerce na comunidade. Hoje, não se pode assegurar absolutamente que as crises pessoais sejam devidas só a “culpas” pessoais, garante um estudo conjunto E. PAROLARI e A. MANENTI (cf. Tredimensioni 1, 2016).

Nesse sentido, F. RINALDI (cf. idem) assegura que em situações de crise relacional é oportuno não focalizar a atenção sobre o indivíduo (para o ajudar a reconhecer as suas dificuldades e a maturar uma disponibilidade maior à sua adaptação), mas ver quais processos estão ativados entre a pessoa, o contexto em que vive e o papel que lhe é pedido. Para a cura, não basta a visão intraquíquica, mas também é bom juntara-lhe a visão intersubjetiva, necessária para se afrontarem os problemas de natureza institucional e de papel, cada vez mais emergentes na Igreja e na sociedade. Será, portanto, melhor não acentuarmos a alternativa entre pessoa e ambiente, para nos interrogarmos sobre a relação entre eles, passando da pergunta «sou eu que devo adequar-me ou são eles que me devem aceitar?» à pergunta «em que modo podemos encontrar um acordo melhor?». O problema agrava-se quando um dos interlocutoresestá pouco disponível ou pouco capaz de entrar num processo de mudança e adaptação recíproca. Neste caso, talvez seja melhor amar e esperar nos contextos regressivos em que se encontram (seja individual, seja institucionalmente).

Sacerdotes para uma nova evangelização I

Uma leitura pneumatológica da Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis (PDV) do Papa João Paulo II permite-nos ir à procura das motivações que moveram os Padres Sinodais a colocar a questão da formação dos padres para os tempos atuais, por um lado, e que incentivam, por outro, os formadores de hoje a adequar a preparação dos novos presbíteros às circunstâncias de uma Igreja particular concreta em renovação permanente (sinodal).
Do ponto de vista metodológico, o documento pontifício centra toda a espiritualidade do presítero no dom do Espírito que é conferido mediante a Ordenação sacramental, pelo qual «o pesbítero participa da consagração e da missão de Cristo em modo específico e de plena autoridade» (PDV 18d), continuando, com a sua vida e ministério, pela ação do Espírito Santo, a vida e a ação do próprio Cristo (cf. PDV 18e). Daqui a conveniênica e necessidade de fazermos uma leitura pneumatológica da PDV. Os princípios enunciativos desta leitura poderão ser os seguintes:
* Não se realiza uma autêntica obra formativa para o sacerdócio sem o influxo do Espírito de Cristo (cf. PDV 65c);
* O Espírito do Senhor é o grande protagonista da vida espiritual do sacerdote (cf. PDV 33b);
* O protagonista, por antonomásia da formação do candidato da formação para o sacerdócio é o Espírito Santo (cf. PDV 69b);
* Cada momento pode ser um “tempo favorável” (cf. 2 Cor 6, 2), no qual o Espírito Santo conduz diretamente o sacerdote a um crescimento na oração, no estudo e na consciência das próprias responsabilidades pastorais, para além de momentos “privilegiados”, mesmo se mais comunitários e pré-estabelecidos (cf. PDV 80a).

Do ponto de vista dos conteúdos, em PDV 53e descobrimos um entrelaçamento osmótico entre a formação intelectual teológica, vida espritiual e vida de oração, sintetizado na sabedoria de Boaventura:

«Ninguém pense que lhe baste a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, a busca sem o assombro, a observação sem a exultação, a actividade sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça divina, a investigação sem a sabedoria da inspiração divina.»

(Itinerário da mente para Deus, citado na nota 168 da PDV)

De facto, unção, devoção, assombro, exultação, piedade, caridade, humildade, graça divina, sabedoria… são todos dons e frutos do Espírito Santo, deo forma que nenhuma formação (inicial e permanente) e vida ministerial dos presbíteros pode existir fora da ação do Espírito Santo.

Os textos do Sacramento da Ordem são teestemunhos dos conteúdos perenes da revelatio (a dimensão descendente ou de santificação – ao Pai, pelo Filho, em virtude do Espírito Santo, na Igreja) que se tornam traditio (a dimensã ascendente ou do culto – desde a Igreja, no Espírito Santo, por Cristo, ao Pai) como praxe vital do culto.

A boa sementeira desta que é a nossa hora

[Leitura] Sab 2, 1a. 12-22; Jo 7, 1-2. 10. 25-30

[Meditação] O Evangelho de hoje pode ajudar-nos a compreender melhor a situação de um Padre na Igreja e na Sociedade de hoje. A grande familiaridade com o povo frequentemente se transforma em aridez espiritual e pouca eficácia apostólica. Pode acontecer que seja pre-anúncio de mudança para uma nova mudança.

À vista dos ímpios, a presença de Jesus, que sobe discretamente para Jerusalém entre os seus, é entendida como uma ameaça das tradições e hábitos em que a humanidade se instalou, porque, mesmo na discrição, fala abertamente. Pensam conhecê-l’O, mas não conhecem a Sua origem que o faz ser Quem é, dizer o que diz  e fazer o que faz para educar a humanidade, querendo predispo-la para uma nova hora.

A missão de Jesus completou-se com a sua definitiva doação na Cruz. A missão de um Padre só seria completa quando as pessoas chegassem a  conhecer bem Aquele que o chamou e o enviou. Por isso, não basta um só padre, é preciso uma missão conjunta, que inclua a comunhão de religiosos, diáconos e leigos que se associem ao mesmo desafio de anunciar Jesus como Ele é, como Ele diz e como Ele faz no hoje da nossa história, desinstalando-nos do pousio em que nos encontramos e aceitando que em nós faça nova sementeira para o seu Reino.

Eminência verdadeira é a da hora de Jesus e daquele que O dá a conhecer abertamente. Agora, vivemos a nossa hora. É preciso semear bem, com a boa semente, em bom terreno. Entreguemos-Lhe o nosso coração!

[Oração] Sal 33 (34)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Filiação, fraternidade e paternidade/maternidade: âmbitos de prodigalidade, caminhos de reconciliação

[Leitura] Jos 5, 9a. 10-12; 2 Cor 5, 17-21; Lc 15, 1-3. 11-32

[Meditação] Âmbitos concomitantes do ser pessoa, etapas de crescimento e de realização vocacional − a filiação, a fraternidade e a paternidade/maternidade são expressões identitárias do ser em família. É frequente, no nome e na interpretação desta parábola, vermos acentuações que declaram estar no centro ora o filho pródigo, ora o pai misericordioso, ora o irmão ressentido. Sugiro, humildemente, que o centro deste texto sejam as “entranhas” de uma casa de família, ou seja, a relação na festa da vida. Na verdade, é desta festa que fugimos quando pensamos os bens materiais só em função do próprio ser (como o filho). É nesta que não queremos entrar quando estamos ressentidos por trabalharmos sem nos sentirmos, à partida, reconhecidos (como o irmão). É nesta festa que nos podemos sentimos sozinhos quando o nosso amor não é correspondido nem percebido (como o do pai).

«Todos somos filhos e foi em torno da filiação que, no seio da própria família, se foi estabelecendo aquele particular modo em que cada um gere a sua personalidade. A partir da experiência da filiação, torna-se também possível a fraternidade. Será pai quem continuar a ser filho e irmão» (cf. WONG, Jorge Carlos P., «Identidade e missão do presbítero no mundo atual», in: Évora, Eborensia, Ano XXVIII, 2015.  (49), 75-82; o que se diz do padre pode refletir-se na vida do cristão). Se estiver com as suas vísceras “grávidas” de misericórdia, é possível que, ao escutar a parábola que Jesus nos conta neste IV domingo da quaresma, um pai ou uma mãe olhe mais para a condição do filho mais novo; ou que um filho mais novo reflita mais a condição dos seus pais; ou um filho mais velho pense nos irmãos mais novos, etc. Também é possível, que cada um se reveja na sua condição de pai/mãe, filho caseiro ou filho em debandada. Esta é, de propósito, uma parábola com muitas virtualidades, tantas quantas permitem perceber a misericórdia multirelacionalmente, como ação de Deus e também nossa, a imitar-Lhe.

Numa sociedade em que se relativizam estes vínculos familiares retratados na parábola, somos chamados a vencer distâncias, sejam entre as pessoas, sejam nas lacunas que, por vezes, cada um sofre entre estes três âmbitos do próprio ser. Para isso, servirá (penso ser este o desafio lançado por Jesus) ir ao encontro dos que incarnam mais expressivamente o papel em que nos falta ou faltou crescer, percorrendo caminhos de reconciliação connosco próprios, com os irmãos e com Deus. Esse estar «em saída» será, certamente, um enriquecimento para todos aqueles de quem nos aproximamos para vivermos (dando ou recebendo) a justiça do perdão.

[Oração] Sal 33 (34)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Na Igreja de Jesus Cristo, eu não posso dizer que não tenho necessidade de vós

[Leitura] Ne 8, 2-4a. 5-6. 8-10; 1 Cor 12, 12-30; Lc 1, 1-4: 4, 14-21

[Meditação] É cada vez mais necessário regressar à Teologia do Corpo. Mostra-o a recente inspiração manifestada pela publicação variada de obras que resumem o pensamento de João Paulo II sobre esta matéria, quer pela forma como o Apóstolo Paulo eloquentemente nos fala do corpo como metáfora da Igreja. Hoje, como  sempre, é urgente o diálogo entre “unidade e diversidade entre vida consagrada, ministério sacerdotal e laicado”, não só nas pessoas que vivem estes estilos vocacionais, mas já desde a formação com a tonalidade de reciprocidade dos candidatos ao matrimónio e à família, ao sacerdócio e à vida consagrada, como via para a unidade. A vivência isolada da vocação não se resolve com uma formação dentro da não-reciprocidade e só com o contrário desta tendência é que pode haver esperança. O Papa João Paulo II deixou-nos três exortações pós-sinodais que são a base de um diálogo que ainda não deixou de estar nos preliminares;  portanto, sempre carente de desenvolvimento. Esses documentos são a Christifideles Laici, a Pastores Dabo Vobis e a Vita Consacrata. Por isso, a pedagogia catequética e formativa em geral e a formação específica para a vivência das vocações e ministérios têm de estar em constante transformação, ser multidimensionais e de cunho relacional, onde se encontrem as duas grandes “autoridades”: o amor de Deus e a liberdade humana. Na verdade, o que sabe “falar línguas” não se envaideça, pois o mais provável é que não saiba interpretar o que diz…

Onde se vê como estão as nossas comunidades quanto ao ser e à consciência de da Igreja como Corpo de Cristo, à maneira do que ensina São Paulo, é, precisamente, na assembleia dominical festiva. Na primeira e terceira leituras de hoje, temos dois exemplos de assembleia: uma com Esdras, como mestre de cerimónias, dando amplo lugar à Sagrada Escritura, quer pelo “estrado de madeira feito de propósito” (protótipo do nosso atual Ambão!), quer pelo tempo dado à proclamação da mesma (“da aurora até ao meio dia”), prolongando-se esta escuta pelo louvor e tempo de adoração que concretiza a consagração do dia ao Senhor. S. Lucas, imitando as “testemunhas oculares e ministros da palavra”, faz a sua parte, quanto ao proporcionar ao seu amigo ilustre Teófilo o conhecimento seguro do que lhe foi ensinado. Ao centro deste conhecimento seguro está o Mestre que o evangelista conta apresentar-Se como o cumprimento em atos de tudo quanto foi proclamado por palavras.

Hoje, suspeita-se, contra todo o ativismo próprio da vivência da fé no contexto social atual, que nos faz falta darmos um amplo lugar à Palavra de Deus, dando-lhe espaço e tempo a “propósito”. A Palavra é Jesus Cristo, que quer ser anunciado e levado à prática da libertação de muitos. O “cumpriu-se hoje mesmo” não é a realização automática do que Jesus acabou de proclamar, mas a realização do que andou a fazer pelos oprimidos na Galileia, antes de chegar à sinagoga de Nazaré!! O “hoje” não é só a hora da Missa, mas o que a antecede e a prolonga. O tempo (concretizado no “dia do Senhor”) é para se consagrar desde que comece e até que acabe, na medição permitida pelas circunstâncias atuais. Que vale defender o domingo, se não defendermos os objetivos para o que ele serve? O domingo é para o homem e não o homem para o domingo! Ainda bem que o antecipámos para o sábado!! Teremos mais tempo para escutar a Palavra e para adorar o Senhor, acendendo a vontade de O anunciar aos pobres e de restituir a liberdade aos oprimidos. No Corpo de Cristo, a Igreja, OS MAIS FRACOS SÃO OS MAIS NECESSÁRIOS! Precisamos deles… consideremo-los!

[Oração] Em: Categorias

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Servos in(úteis), que devem saber (fazer)

[Leitura] Sab 2, 23 – 3, 9; Lc 17, 7-10

[Meditação] Na memória de S. Leão Magno (Leão I), somos convidados a escutar novamente a qualificação que Jesus atribui aos servos de Deus, como “servos inúteis”. Segundo Jesus, é assim que cada um se deve considerar. Como entender esta qualificação? Se lermos o trecho com atenção, reparamos que Jesus não se refere somente ao que o servo deve fazer para cumprir o seu trabalho obedientemente. Ele dirige-se a quem tem servos para fazerem do mesmo modo, em relação a Deus, reportando-se cada um à igual dignidade de servidores inúteis. De uma forma extraordinária, Jesus põe no mesmo patamar patrões e empregados, professores e alunos, superiores e formandos, Papa e Cardeais, Bispos e condiocesanos, etc. Foi assim, no diálogo inter-pares, entre o Ocidente e o Oriente, que S. Leão Magno conseguiu congregar os do seu tempo no caminho entre a verdade e a paz. Na busca desta, a única assimetria que deve ser considerada é a que existe em relação à Verdade, muito maior do que a que existe entre todos, chamados, de mãos dadas, a buscá-la e a tê-la unanimemente como “archote” comum.

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