Publicado em Formação Sacerdotal, Integração Psico-Espiritual, Lectio Humana-Divina

A “tarde” do amor humano não desconheça a frescura da “manhã” com que Deus nos ama

[Leitura] 1 Tes 1, 1-5. 8b-10; Mt 23, 13-22

[Meditação] Conhecemos de Santo Agostinho a seguinte bela manifestação da sua conversão:

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!
Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas.
Estavas comigo, mas eu não estava contigo.
Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem.
Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez.
Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira.
Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti.
Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz…

Um professor de Psicologia disse-me, um dia: “Quando dizemos a Deus que O amamos, quase sempre estamos a ser mentirosos. Porque, frequentemente, essa afirmação egoísta é feita tendo como pressuposto a necessidade que temos do seu amor”. Esta afirmação aclarou em mim o voluntarismo com que, também frequentemente, servimos os outros, nem sempre pelo bem-em-si, mas para “engordar” o próprio “ego”.

Na “manhã” da vida, os jovens podem correr o risco de ignorar que o Amor que pressupõe qualquer mérito humano exige uma resposta. E esta, como no caso de Agostinho, pode não passar de uma retórica feita de perguntas ou procuras sem o sentido previsto pelo Criador. Menos mal que esta Beleza sempre antiga e sempre nova nunca deixa de ser a mesma. A “retórica” humana é que, enquanto adia a prática do bem, se perde em experimentações vãs, enquanto que o amor de Deus nunca corre esse risco do vazio.

Há uma semelhança entre esta “retórica” e a hipocrisia atribuída aos escribas e fariseus com os quais Jesus se debate no Evangelho. Ambas são forjadas no coração pervertido que olha para o que é secundário (ouro e oferenda) sem a ligação fundamental com o que é primário (santuário e altar).

Na “tarde” da vida, haverá sempre oportunidades para responder à ordem do amor que sempre nos amou na prática. Estaremos à altura de o acolher?! Um coração convertido é aquele que se deixa habitar por Aquele que lhe pode dar uma resposta verdadeiramente satisfatória para as questões fundamentais da vida humana.

[Oração] Sal 149

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Autor:

Padre da Diocese de Viseu