At 1, 12-14; Lc 1, 26-38 ─ Memória da Virgem Santa Maria do Rosário

Depois de, anteontem, termos entrado na escola da oração inédita de Jesus (aprendendo a orar ao Pai) e de, ontem, termos aprendido a pedir o Espírito Santo com perseverança, hoje entramos na escola de Maria com os Apóstolos.

Os Atos dos Apóstolos descrevem-nos a experiência depois da Ascensão do Senhor como que numa certa simetria com a Morte e Ressurreição, no ambiente do monte das Oliveiras e na distância da caminhada de sábado. A sala de cima que na véspera da Paixão serviu para a despedida de Jesus ─ no enquadramento da fundação da Eucaristia , do sacerdócio e da caridade ─ volta a servir de cenário para a oração, agora, com a presença de Jesus transfigurado como Cabeça do corpo dos Apóstolos. Maria continua a servir-Lhe, no dizer de H. Von Balthasar, de “cálice”!

“Estavam lá” os Apóstolos, perseverantes. Não estavam sozinhos. A companhia de algumas mulheres animavam-nos. No meio delas, Maria que, no início da Igreja continua a guardar aquele acontecimento primordial da Encarnação de Jesus e todos os outros acontecimentos da Vida de Cristo no seu coração. O Evangelho, uma vez acontecido nunca deixa de ser realidade, uma vez que a celebração da Liturgia é anamnese de toda a vida de Jesus e recapitulação de toda a história da salvação.

A graça que Deus achou em Maria é a mesma graça que agora, por meio de Cristo Deus encontra naqueles Apóstolos que têm na sua companhia a Mãe do seu Senhor e sua Mãe. A sua presença é um lembrete a dizer continuamente que também se faça neles segundo a Palavra do Senhor. A presença de Maria no meio dos Apóstolos é uma recapitulação da Anunciação a tender para o Pentecostes: o anúncio do Arcanjo e a vinda do Espírito Santo, o pendor onde o Ano Litúrgico é estendido para que as nossas vestes do Batismo sejam branqueadas constantemente no Sangue precioso de Cristo, diante do Sol da graça.

Na idade média, o Rosário nasceu do amor dos cristãos por Maria. os seus promotores foram os dominicanos, entre os quais o Papa São Pio V propôs a recitação do Rosário, com o qual se meditam os principais mistérios da vida de Cristo e de Maria, um excelente meio de crescimento espiritual. Na Exortação Apostólica Marialis Cultus, o Papa Paulo VI sugeriu a sua recitação num “ritmo tranquilo e certa demora” para favorecer a imitação do coração de Maria que esteve perto do coração de Jesus (cf. n.º 47). Na Carta Apostólica O Rosário da Virgem Maria, São João Paulo II, partindo daquela intuição de Paulo VI, sugere algumas dimensões do Rosário que definem melhor o seu carácter próprio de contemplação cristológica (cf. nn. 13-):

1) Recordar Cristo com Maria. A partir do coração, os acontecimentos do “ontem” são também do “hoje” salvífico, atualização que se realiza particularmente na Liturgia (cf. n.º 13).

2) Aprender Cristo de Maria. Cristo é o Mestre por excelência, o revelador e a revelação. Não se trata somente de aprender as coisas que Ele ensinou, mas de “aprender a Ele” (cf. n.º 14).

3) Configurar-se a Cristo com Maria. “A espiritualidade cristã tem como seu carácter qualificador o empenho do discípulo em configurar-se sempre mais com o seu Mestre”, a partir do Batismo e a partir de uma progressiva assimilação a Ele que oriente sempre mais o comportamento do discípulo conforme à “lógica” de Cristo (cf. n.º 15).

4) Seguir a Cristo com Maria. Cristo convidou a dirigirmo-nos a Deus com insistência e confiança para ser escutados: «Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á» (Mt 7, 7). O fundamento desta eficácia da oração é a bondade do Pai, mas também a mediação junto d’Ele por parte do mesmo Cristo (cf. 1 Jo 2, 1) e a acção do Espírito Santo… Em apoio da oração que Cristo e o Espírito fazem brotar no nosso coração, intervém Maria com a sua materna intercessão. “A oração da Igreja é como que sustentada pela oração de Maria” (cf. n.º 16).

5) Anunciar Cristo com Maria. O Rosário é também um itinerário de anúncio e aprofundamento, no qual o mistério de Cristo é continuamente oferecido aos diversos níveis da experiência cristã. O módulo é o de uma apresentação orante e contemplativa, que visa plasmar o discípulo segundo o coração de Cristo (cf. n.º 17).

O Papa João Paulo II advertiu que há quem faça objeções ao Rosário (n.º 4). Por isso, declara que “o Rosário é um compêndio do Evangelho” (n.º 18). E cita o Beato Bártolo Longo ao descrever o seu itinerário espiritual na afirmação: «Quem difunde o Rosário, salva-se!»

As comunidades que não podem ter Eucaristia ao domingo, por falta de sacerdotes (e não por culpa sua), podem viver o mesmo domingo reunindo-se e rezando, inclusivamente, o Terço? Podem! Fica vivido o domingo? Fica! Não é o centro, mas complemento, na espera do centro. O Rosário é um compêndio do Evangelho-Palavra de Deus. Pela Palavra meditada nos mistérios do Terço pode ser que aconteça como que uma encarnação do Verbo, à semelhança do que aconteceu com Maria, em que o Mensageiro de Deus envia uma mensagem de Deus ao dizer: fulano, fulana, Deus gosta tanto de ti! Queres entregar-Lhe a tua vida para O servir? É o Evangelho da Vocação que não deixará de semear a benevolência de Deus nos terrenos (comunidades) sedentas. Se, pelo menos, nesta terra Maria foi a “porta” para Jesus pelo seu Sim a Deus, como não há de ser a “porta” para o céu através no nosso sim a Deus ensinado por Ela?

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