Que o meu peregrinar seja também um bem para os outros, com admiração. Sentir-se “à altura” é não estar “à altura” do caminho aberto por Jesus

Lc 8, 1-3

Quando pensamos fazer uma peregrinação (caminhar “per agros”, pelo campo), quase sempre temos em mente um bem em favor próprio. Jesus, como nos relata Lucas, “caminhando por cidades e aldeias” andou sempre a pregar e a anunciar a boa nova em favor de todos.

Era tão bom que, à luz deste Evangelho, as iniciativas eclesiais, primeiro, deixassem de ser só dentro de quatro paredes, como se o que é comum é fechado em assembleia e o que é na rua é individualizado e privatizado. Hoje a Igreja sofre muito com a privatização da fé!

Neste relato, a enunciação dos Doze fica-se pelo número, enquanto que, quanto às mulheres, importa saber os seus nomes: Maria Madalena, Joana de Cusa, Susana e muitas outras. Dá a impressão que estas de quem sabemos os seus nomes seriam líderes de equipas de trabalho. É admirável que no processo sinodal que estamos a realizar, à luz do Espírito Santo, há uma questão direta que aparece em grande parte das sínteses: mais oportunidades para mulheres em cargos de liderança.

Entender a sinodalidade como uma maneira de ser Igreja no mundo de hoje implicará quer a refontalização, quer uma renovação, apoiadas na dinâmica que foi o Concílio Vaticano II. Porém há uma “balança da justiça de Deus” que terá de ser sempre colocada diante dos nossos olhos: aquela que coloca o peso na luz do Espírito Santo sem deixar de considerar as necessidades reais da humanidade de hoje, sem deixar que o peso de um bem-para-mim (dos meros desejos de cada pessoa) interfira ou danifique o valor que é o bem-para-os-outros. O que transfigura e salva não é uma autotranscendência egocêntrica ou meramente filantropico-social ─ ainda que tenham o seu devido valor para o desenvolvimento e a vida neste mundo ─ mas uma autotranscendência teocêntrica que, valendo para este mundo, nos promete a plenitude da vida.

Só a autotranscendência teocêntrica é que, não sendo autorreferencial, permite ler o Evangelho só a pensar nos Doze e esquecendo o nome das mulheres sem cujo serviço o papel dos Doze seria impossível no envolvimento e desenvolvimento da missão de Jesus. Deus quer homens e mulheres no seu projeto, senão não os tinha criado “homem e mulher” (cf. Gn). O problema é a acentuação indevida de papeis em detrimento de outros, levando a esquecer que a dignidade é a mesma. E esta é que é determinante defender como igual. Um parêntesis: o Papa Francisco, numa homilia proferida a Cardeais reunidos disse:

Irmãos, esta admiração é um caminho de salvação! Que Deus a mantenha sempre viva em nós, porque nos liberta da tentação de nos sentirmos «à altura», de nos sentirmos «eminentíssimos», de nutrir a falsa segurança de que hoje, na realidade, é diferente, não é mais como era no início, hoje a Igreja é grande, a Igreja é sólida, e nos situamos nos graus eminentes de sua hierarquia – nos chamam «eminências» –… Sim, há alguma verdade nisso, mas também há tanto engano, com que o Mentiroso de sempre tenta mundanizar os seguidores de Cristo e torná-los inofensivos. Este chamamento está sob a tentação da mundanidade que, passo a passo, priva-te das forças, priva-te da esperança, impede-te de ver o olhar de Jesus que nos chama pelo nome e nos envia. Este é o verme da mundanidade”.

PAPA FRANCSICO

Serviam Jesus e os discípulos com os seus bens. Só é possível, pois, sentir admiração pelo caminho percorrido e traçado por Jesus com a admiração de quem está diante de algo grande e não diante de um caminho em que tudo está previsto. Nem os homens, nem as mulheres estavam “à altura”; por isso, admiravam o estilo de caminhar de Jesus.

Conclusão: quanto maior for a autorreferencialidade, menor admiração pelas surpresas de Deus; quando menor for a autossuficiência, menor será o anonimato pastoral.

“Clipemos” bem o Evangelho para as decisões do dia-a-dia da pastoral prática: “Acompanhavam-n’O os Doze, bem como algumas mulheres…”!

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