A responsabilidade não depende só da força de vontade, mas de uma boa visão da realidade

Filip 3, 17 – 4, 1; Lc 16, 1-8

Jesus tinha uma propensão para ensinar os seus discípulos e retorquir com os seus adversários apontando modelos “fora da caixa”, falando de pessoas concretas ou sugerindo-as em parábolas. É o exemplo do bom samaritano, a mulher pecadora, etc. No Evangelho de hoje, elogia um administrador desonesto. Obviamente, não é por ser desonesto, mas por ter qualidades que, por vezes, faltam a pessoas honestas, uma vez que no testemunho que evangeliza não basta ser, é preciso também parecer.

A qualidade em foco é a “esperteza” que o dicionário também define por “vivacidade” e que no contexto da vida cristã podemos definir como decisão pronta ou firme empenho na prática da justiça e da misericórdia. Aliás, como o Apóstolo sugere, esta é uma forma de imitar Cristo, o nosso maior modelo de coerência entre o ser e o parecer, entre o dizer e o fazer.

“Presta contas da tua administração” ─ Cada vez mais, hoje, se houve a palavra accouttability, que o dicionário de Inglês define por “responsabilidade”, definida por “obrigação de responder por atos próprios ou alheios, ou por uma coisa confiada”. É óbvio que Jesus não nos conta esta parábola para nos sujeitar meramente a uma avaliação a posteriori a penar em premiar pela boa administração ou para castigar pelos maus atos. Certamente que o seu intuito é, também e a priori, ajudar-nos a predispormo-nos para a assunção de responsabilidades como quem sabe que irá ser avaliado. Assim, faremos como a vida de S. Carlos Borromeu sugere. Este grande reformador da Igreja já era um homem de pedagogia sinodal e, aos sacerdotes ─ para cuja formação ajudou a iniciar o que hoje chamamos de “Seminário”, por ordem do Concílio de Trento ─ sugeria que se preparassem bem na “sacristia” através do silêncio para que não acontecessem distrações na hora de celebrar os mistérios de Deus. É um grande defensor da oração mental, tanto antes como durante as orações comunitárias. No fundo, a sua grande preocupação não era meramente a reformação exterior, mas a formação do interior, para uma maior coerência entre o dizer e o fazer.

Para sermos responsáveis a partir de dentro e na assunção livre de tarefas pastorais, precisamos de uma boa dose de prontidão. Mas não basta; é preciso que seja decisão iluminada. Porquê? Há tempo escutava uma conferência on-line em que alguém dizia que para sermos prontos não basta ter força de vontade. É um equívoco. Quando nos pomos a refletir que devemos ter força de vontade para fazer uma coisa mais ou menor urgente, é quando mais procrastinamos. Então, o que é mais decisivo? O orador dizia que é preciso ter “visão” sobre a importância do bem daquilo que somos chamados a fazer. Ou seja, a vivacidade ou firme empenho não depende meramente da força de vontade; é, também, decisiva uma boa visão da realidade que nos atrai a viver de uma certa forma. Esta forma de atuação ajudará a que, também, existe “sinodalidade” entre o gostar e o dever, dialética entre o pensamento moral e o hipotálamo com centro de regulação dos estados motivacionais.

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