O caminho da vida cruza-se com a procissão da morte pela compaixão que ressuscita, ou: os dons do Espírito que elevam cruzam-se com os ministérios sepultados pelo clericalismo

1 Cor 12, 12-14. 27-31a; Lc 7, 11-17; Na memória de S. João Crisóstomo

Uma das atividades pastorais que ocupa mais os padres a pé na estrada, é a dos funerais, entre a celebração da Missa de sufrágio nas igrejas e o sepultamento nos cemitérios ou cremação nos thanatórios. E a celebração das exéquias é uma daquelas oportunidades sem igual para nos encontrarmos com os que habitam em periferias da fé e da existência, uma vez que a compaixão muito raramente exclui alguém de estar na partida de um familiar, de um amigo, de um patrão ou de um colega de trabalho. Na vida de um padre, é uma oportunidade ímpar para dizer palavras e realizar gestos que aproximem as pessoas em luto da Pessoa de Jesus.

No entanto, constatamos uma realidade humana e eclesial que nem sempre nos deixam margem para imitar Jesus na sua compaixão para com quem sofre perdas. A pressa, a falta de delegação solidária de tarefas pastorais, o facto de se considerar unicamente o momento do funeral como a realização de acompanhamento no luto, a desconsideração do encontro entre a vida e a morte a par de outras atividades pastorais mais rentáveis, a secularização dos serviços ou das atividades fúnebres por parte das agências funerárias (que quase sempre se impõem como mediadoras entre as famílias e os pastores), etc. ─ são fatores, entre outros, que levam a desconsiderar a morte física como parte integrante da vida eterna.

Comparados a esta cena do Evangelho, em que o caminho vivo de Jesus se cruza com uma procissão de morte, muitos dos nossos funerais padecem de excesso de palavras genéricas (ignorando os particulares processos de luto) e ritos talismânicos (como procissões a pé a interromper ambulâncias em trânsito de emergência e paragens atualmente sem significado real) que levam as pessoas a estar ali mesmo por misericórdia ao amigo falecido e aos familiares em luto. Ou, quem sabe, para que na própria morte também alguém lhes possa retribuir com a sua presença. Jesus, primeiro, na estrada da vida, não fugiu dos cenários de morte; segundo, não foi excessivo em palavras e gestos, mas somente: “não chores” a quem sofria a perda e, tocando o caixão, “levanta-te” a quem estava morto. Ha! Quem nos dera que reaprendêssemos a força subliminar das palavras curtas, mas incisivas, e a força curativa dos gestos simples!

Antes de que o corpo ressuscite, no final dos tempos, é a alma que precisa de ser elevada à consciência de filhos e filhas muito amados(as), ancorada na rocha firme da Palavra do Senhor que promete salvação, não obstante as intempéries da vida e a passagem por esta condição comum que é a morte física.

Esta dimensão da pastoral cristã é das que mais precisa de um trabalho corporativo, conscientes os padres de não poderem fazer tudo sozinhos (os que não tiverem esta consciência, no meu modo humilde ou profético de ver, não deveriam ser padres!). Urge “tocar” os corações dos batizados e “levantar” os dons ou ministérios que estão sepultados pelo clericalismo (“Aspirai com ardor aos dons mais elevados”). Os processos de luto têm muitas etapas, onde são precisos muitos e vários tipos de dons. E a compaixão precisa de muitos corações, em vez de um só (o do padre), porque a morte não tem de ser uma experiência solitária, mas a amplificar os corações para a comunhão dos santos. São precisos apóstolos, profetas e doutores. “Vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte”. Não podemos deixar que os nossos funerais sejam procissões de morte ou meras atividades civis de negócio, mas caminho para a Vida.

A reflexão em torno dos funerais pode ajudar os presbíteros a considerar outras peregrinações, por aproximações graduais, ao encontro de realidades batismais “mortas” pela inércia de um “sempre se fez assim” (que na medicina já teria assassinado muita gente!), à maneira do Papa Francisco que, hoje mesmo e pela primeira vez, se dirige a caminho do Cazaquistão, fazendo-se o mais próximo possível dos lugares da guerra, levando uma mensagem de paz. O procedimento de Jesus Cristo avisa-nos de que se não caminharmos mudando a realidade com palavras e gestos simples não viveremos. Não se trata de transformar tudo e de qualquer maneira, mas de transformar o que já não eleva para Deus.

No contexto da formação dos futuros presbíteros, cabe-nos aqui considerar se os funerais serão futura e tendencialmente mais uma fonte de rendimentos ou se os presbíteros vão ser um entre muitos agentes pastorais dos processos de luto. Trata-se, enfim, de que "sepultar os mortos" seja definitivamente ou não uma obra de misericórdia. Quando, numa entrevista à Agência Ecclesia/RTP2, dizia que o Seminário procura formar 10 anos à frente, tinha em conta, como sempre tive, de que o que os formandos aqui aprendem vai, no primeiro acesso à realidade pastoral, passar pelo crivo da experiência, onde se celebra, por um lado a vitória dos conteúdos e estratégias estudadas e, por outro, se sofre a frustração diante de entre aspas “andores” à espera de que se lhe ponha em cima um Padroeiro comum ou “procissões” já vazios de sentido à espera de itinerários menos tortuosos que levem a Deus e aos irmãos. Curiosamente, em 2008, nos estudos sobre a formação sacerdotal em Roma, a estatística relativa ao abandono de novos presbíteros nos primeiros cinco anos do ministério, constatava-se como mais consequência da frustração pastoral do que qualquer outro motivo mais famoso (como eram as questões afetivas, psicologicamente entendidas como a "rama" de um tronco mais sério que era a dificuldade de levar à prática a sabedoria recebida como testemunho nos anos de estudo). Como o testemunho de São João Crisóstomo sugere, é com a vida assente na rocha firme da Palavra de Deus que se vencem as tribulações próprias da renovação da Igreja. D. José Cordeiro, na celebração da Eucaristia em Fátima, neste 13 de setembro, refletiu que "Na mudança de época que vivemos faz-nos bem peregrinar em busca do essencial da vida", onde a Igreja é chamada a “ser cada vez mais testemunha da misericórdia e da ternura".
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