L 1: At 5, 27-33; Sl 33 (34), 2 e 9. 17-18. 19-20; Ev: Jo 3, 31-36
Temos vindo a escutar os textos mistagógicos da Páscoa para os neófitos que foram Batizados na Páscoa, que a todos nos ajudam a compreender a fé n’Aquele em que fomos “enxertados”. Estamos a acompanhar Nicodemos na sua descoberta da identidade de Jesus. Há no Evangelho de hoje três palavras à volta das quais gostaria de refletir: Pertencer > Testemunhar > Acreditar.
E para ajudar na compreensão teológica destes três termos, proponho a imagem do avião. Todo o avião levanta voo de uma pista e aterra num porto que convém ser seguro. No Evangelho, Jesus fala da diferença de pertencer à terra e da pertença ao céu. Para nós, a pertença do céu começa com a pertença à comunidade da Igreja: é ela a “pista” para levantarmos “voo” para o céu. Para quem é e para quem vai ser padre a palavra pertença descreve-se com a condição da incardinação ─ “cardo”: estar unido à porta de um espaço de relação através de uma dobradiça. Incardinados são aqueles que ajudam a abrir e a fechar. É nesta dupla modalidade que damos testemunho das coisas do alto sem que as coisas da terra prejudiquem.
O testemunho é a segunda palavra relevante neste trecho evangélico, sendo que é a que aparece mais vezes. Pertencendo ao Pai, Jesus dá testemunho do que viu e ouviu d’Ele. Mas para nós este testemunho é difícil de receber, porque vivemos muito imersos nas nossas limitações, carências e cegueira que a terra nos provoca. Então, aderir ao mundo de Deus através do testemunho de Jesus implica acreditar. Este acreditar que poderá levar outros a pertencer, através do testemunho pessoal prático.
É esta a terceira palavra que proponho meditarmos. No rito da Ordenação diaconal, na entrega do livro dos Evangelhos, o bispo diz ao diácono: Recebe o Evangelho de Cristo, que tens missão de proclamar. Crê o que lês, ensina o que crês e vive o que ensinas. Esta entrega resume estas três palavras, uma vez que aquele que entrega para o serviço de Deus na Igreja particular começa a estar a partir deste momento incardinado nela como espaço de missão fundamental. Os que se querem dedicar ao serviço de uma diocese acreditam porque outros lhes testemunharam a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo que, por sua vez receberam dos que ali estão incardinados. A Pessoa de Jesus que somos chamados a acreditar vem do alto, mas a experiência da fé tem sempre que ver com quem tem os pés nesta terra, contemplados como belos pelo profeta Isaías (52,7).
Afinal de contas, quem aceitará o seu testemunho? Provavelmente quem puder contemplar mais a beleza do que Deus vai construindo na vida dos que se consagram, através do consórcio da sua boa vontade em servir. E a máxima do serviço na Igreja é o que o Espírito Santo plasma no coração dos apóstolos, Aquele Espírito sem medida que Deus Pai dá através de Jesus Cristo: Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens.
Por isso, o primeiro anúncio pascal é declarar que Jesus morreu e ressuscitou. Aqueles pregos das santas chagas de Cristo resumem-se neste “pregão” fundamental da pregação na Igreja. Para que ela seja a tal “pista” para que possamos de levantar voo para o porto seguro da fé. Este tipo de avião não pode ir muito pesado. Por isso, o Santo Padre tem insistido com os cardeais, tendo em vista o próximo consistório, que a Igreja deve ser mais missionários e menos administrativa.
Rezemos por aqueles que estão a preparar-se para ser diáconos na transição para o presbiterado, pedindo ao Senhor a luz do alto para que possam vir a servir a Igreja obedecendo mais a Deus que aos homens, levando outros a acreditar no Servo de Deus que é Jesus através da luz do Espírito Santo.
