As 3 liberdades do seguimento de Cristo

[Leitura] L 1 1 Reis 19, 16b. 19-21; Sal 15 (16), 1-2a e 5. 7-8. 9-10. 11 L 2 Gal 5, 1. 13-18 Ev Lc 9, 51-62

[Meditação] O caminho de fé aberto por Jesus é o resultado da declinação das 3 liberdades:

1ª – Ser livre quanto ao horizonte longínquo:
Quanto mais “ancorado” o sonho de vida estiver no horizonte que é a vida eterna, com os valores revelados como potenciadores dessa vida eterna, mais livre será a pessoa no que toca às coisas terrenas e na forma de ligar com elas, incluindo as criaturas. Para Jesus foi Jerusalém; qual é a “Jerusalém” de cada um de nós? Para isso, é preciso relativizar tudo o que nos “sedentariza” a alma («as raposas têm as suas tocas…»). Os discípulos de Emaús tiveram a tentação de fugir deste horizonte tentando regredir à sua infância. Manos mal que lhes apareceu o Ressuscitado no meio do caminho.

2ª – Ser livre quanto às circunstâncias do caminho:
Quer chova, quer faça sol; quer morra alguém que afinal já está no Reino para o qual Jesus nos quer dirigir… «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos…». Jesus não nos proíbe de fazer o luto. O problema é se, por causa do sofrimento da perda (nos casos mais delicados um estresse pós-traumático com o qual é preciso reaprender a viver), podemos perder de vista aquele horizonte longínquo que se revela já aqui. Há circunstâncias que nos podem prender ao efémero, não deixando que se dêem passos decisivos. Uma das frases que se vê por aí escrita em autocarros é «A mudança que você quer está na decisão que você não toma». Que nada, nem ninguém nos possa dificultar tomar uma decisão que é fruto de um verdadeiro discernimento iluminado pela vontade de Deus e o seu Espírito de Amor, a partir da referência que é Jesus Cristo.

3ª – Ser livre quanto aos laços com o passado:
A provocação «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás…» mostra-nos como Jesus estava muito à frente do Antigo Testamento (no qual Elias deixa que Eliseu faça boda e se despeça…). Hoje, também está muito à frente da Igreja, pois está no Reino Glorioso de onde nos atrai. O seu chamamento continua a ser “escandaloso”. Como disse S. Paulo, «Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou». E com o salmista rezamos: «O Senhor é a minha herança»! A vida de cada um e de cada uma ganha sempre um novo fôlego, quando cada pessoa consente de que Deus lhe mostre a sua originalidade. Ninguém é obrigado a ser cópia de alguém (já basta a carga genética). Quanto ao projeto de vida, ele é tanto mais feliz, quanto original, mesmo precisando do apoio da família e da comunidade/sociedade.

[Oração] Irving “Francis” Houle, um leigo “agraciado” com os estigmas da Paixão do Senhor, rezava assim:

Oh, meu Jesus!
Meu coração pesa tanto!
O que Tu carregas é pesado demais para mim.
Deixa-me, Jesus meu, carregar um pouco a Tua cruz, só para saberes que eu me importo.
Olha para mim, Senhor amado, com os olhos da Tua misericórdia.
Que a Tuas mãos curadoras estejam sobre mim.
Se for a Tua vontade, dá-me saúde, força e paz.
Amém.

 

(cf. https://pt.aleteia.org/2018/01/16/um-homem-comum-com-esposa-filhos-e-os-estigmas-da-paixao-de-cristo/)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Só com bom alimento é que pode haver bom prosseguimento

[Leitura] L 1 Gen 14, 18-20; Sal 109, 1. 2. 3. 4 L 2 1 Cor 11, 23-26 Ev Lc 9, 11b-17

[Meditação] Celebrámos a Solenidade do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja fundação remonta lá para o início da segunda metade do século 13, com a Bula “Transiturus de Hoc Mundo” do Papa Urbano IV, após o milagre acontecido em Bolsena, perto de Orvieto, que reativou a fé na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia de um sacerdote de nome Pedro (de Praga).

Ora, foi no meio de um caminho tortuoso de falta de fé que este homem de Deus viu acontecer o desígnio da ação divina que socorre no meio das tentações. de modo que a confirmação de uma tão grande Presença o levou a confessar o seu pecado da falta de fé.

A Eucaristia é um Sacramento de Iniciação Cristã (juntamente com o Batismo e a Confirmação), alimento necessário em qualquer idade para a “vida em Cristo”. Nas fontes neotestamentárias, este sacramento vê-se instituído como momento vespertino de um sacrifício maior que é possibilitado por este tão grande Dom. Notemos que a Última Ceia acontece “ao cair da tarde” (Mt 26, 20), antes da Paixão do Calvário; a multiplicação dos pães e dos peixes acontece quando “o dia começava a declinar” (Lc 9, 12), antes da transfiguração; após a Ressurreição, os discípulos de Emaús convidam o Senhor a entrar em casa, porque “a noite vai caindo e o dia já está no ocaso” (Lc 24, 29).

No meu humilde ver, não basta o “alimento” intelectual para que o caminho da fé se faça; é preciso também aquele verdadeiro Alimento que Se materializa, que é Jesus presente na Eucaristia. Se, por um lado, há muitos cristãos batizados que não se sentem missionários por se ficarem por uma mera pertença cultural, sem darem este crédito à Comunhão eucarística; por outro, há alguns cristãos batizados a quem, apesar de uma razoável catequização, é negado o acesso à referida Comunhão eucarística, limitando, mais do que já é a vida humana, a sua esperança de vida cristã.

Os Sacramentos da Cura (Penitência e Unção dos Doentes) são sacramentos para “endireitar” o caminho, sendo este realizado pelos Sacramentos do Serviço (Ordem e Matrimónio, não deixando de considerar o Batismo vivido nas várias formas de Consagração radical ao Evangelho). Delicado é perceber a gravidade daquele pecado chamado “mortal”, que não diminui a força do Sacramento da Presença real de Jesus sacramentado que tem consistência em si próprio (não é por alguém crer ou não crer que Ele está presente, mas porque Está e ponto), mas pode diminuir a eficácia do seu acolhimento para que seja força para a missão em que o cristão está chamado a colaborar.

A formação cristã pode ajudar alguém a acreditar no Mestre e, até, a saber por onde se pode entrar numa relação mais íntima com Ele. Porém, só a comunhão eucarística me parece ser suficiente para se ter a força para se renunciar a uma etapa e, aceitando essa mão do Mestre (que não é só teoria, mas também Presença substancia), dar um salto de qualidade na vida, saindo de um “novelo” de confusão e de dor. Só um Santo Paliativo como este é que poderá ajudar a recuperar de um espinho que foi tirado ou de um espinho que ainda dói. Desde outro ponto de vista, há cristãos que por terem deixado de comungar sem nada que os impedisse aparentemente, se vão esquecer até do viático que poderia tomar no final da vida; enquanto que há alguns que, por lhe ser adiada essa possibilidade, terão de esperar por essa “merenda” para o caminho após a morte. Quanta vida cristã não vivida, porventura em favor de outros. Urge empreender o caminho do discernimento já autorizado e amplamente sugerido pelo Magistério da Igreja. Há alguns que já não a tomam a Eucaristia por desconsiderarem a sua força; há outros que a têm em alto preço e não têm “economia” para a adquirir. Refiro-me à economia da salvação.

[Oração] Rezamos com Santa Faustina Kowalska:

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança em todos os sofrimentos e contrariedades da vida!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança na vida e na hora da nossa morte!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio das falsidades e das traições!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança nas trevas e na impiedade que submergem a terra!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio da nostalgia e da dor, em que ninguém nos compreende!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio dos afazeres e no enfado da vida quotidiana!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio das ruínas dos nossos anseias e esforços!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança no meio dos ataques do inimigo e das investidas do Inferno!

Ó Hóstia Santa, nossa única Esperança confio em Vós, mesmo quando as dificuldades superarem as minhas forças, e se achar os meus esforços inefica­zes!

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O Espírito do Pentecostes é como uma “pomba doméstica” que não regressará sozinha

[Leitura] L 1 Act 2, 1-11; Sal 103 (104), 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34 L 2 1 Cor 12, 3b-7. 12-13 ou Rom 8, 8-17 Ev Jo 20, 19-23 ou Jo 14, 15-16. 23a-26

[Meditação] De facto, uma das tendências mais delicadas do ser humano, no seu desenvolvimento para a adultez é a de fazer “ninhos” (na psicologia = nidificação), criar laços de segurança, relações que garantam o sentido de pertença. Porém, sem questionamentos e avaliação desses mesmos laços ou relações, verificando se eles estão a cumprir o objetivo, que não é só o de uma felicidade estável, mas também o crescimento da pessoa, o “ninho” vem-se a revelar um gerador de inconsistências.

O caminho inédito aberto por Jesus não se detém nas preferências humanas, cuja tendência é a da homologação de consciências, mas a abertura ao transcendente que surpreende. Por ocasião da celebração do Pentecostes, o Papa Francisco disse que «sem o Espírito, a Igreja é uma organização, a missão é propaganda, a comunhão é um esforço». Pois, a missão da Igreja neste mundo não é enraizar-nos nele, mas apontar-nos sempre o horizonte para o qual nos impele o sopro do Espírito Santo.

Ora, a Palavra proclamada no Pentecostes inspira-nos a viver num modo dinâmico, favorecendo com as faculdades humanas bem sincronizadas (afeto, inteligência e vontade) a pertença a um corpo místico, cuja cabeça é Cristo, que agora está à direita de Deus Pai. Se este corpo estiver bem conjunturado, tudo concorre para que a sua missão obedeça aos desígnios de Deus Pai, como Jesus, na sua vida terrena, fez.

É estranho pensar como na Igreja possa haver estruturas que sejam desproporcionais na sua forma de atuar e no seu objeto, sem discernimento eclesial, de modo que a fazer contemplar a Igreja como um “mutante”. Pode um corpo saudável ter duas mãos de tamanhos diferentes? Pode entre os pés não haver a simetria que lhe permite um andamento equilibrado? Podem os ouvidos ser de tal maneira abertos que diminuam a função dos olhos e da boca? Pode a língua dizer palavras que não se entendam? Então, não faz sentido os “crentes” viverem como se a função da Igreja na terra fosse somente a sua autorreferencialidade e não tendesse para o Reino de Deus.

O ser humano, por vezes, projeta no caminho de fé os seus distúrbios, sendo estes o “voo” não vigiado dos seus mecanismos de defesa, sobretudo aqueles não adaptativos à nova realidade do Reino que o Senhor Jesus no veio anunciar. “Joguemos” com o humor e a antecipação, aqueles mecanismos que, se usamos com equilíbrio e coragem (sem medo), nos permitirão relativizar as coisas da terra, para darmos valor às coisas que o Espírito Santo nos recordará, permitindo-nos o regresso àquela eterna Fonte, no apeadeiro definitivo da eternidade.

[Oração] Sequência do Pentecostes:

Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

 

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

 

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

 

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

 

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

 

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

 

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

 

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

 

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

 

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O que queres fazer PARA SERES GRANDE?

[Leitura] L 1 Act 13, 14. 43-52; Sal 99 (100), 2. 3. 5 L 2 Ap 7, 9. 14b-17 Ev Jo 10, 27-30; Mensagem do Papa Francisco para o 56º Dia Mundial de Oração pelas Vocações

[Meditação] Quase sempre, quando queremos provocar uma criança ou adolescente sobre o seu futuro, perguntamos «o que queres ser quando fores grande?» (basta o leitor colocar a frase do título deste post no Google e este troca imediatamente a pergunta pela trivial, não sendo encontrados resultados para a pergunta do título). Esta interrogação sublinha, sobretudo, a idade física no tempo, deixando para segundo plano aquilo que poderá ajudar a criança ou adolescente a ser grande. É curioso que nunca fazemos a pergunta desta forma a um jovem, de modo que, também, timidamente, fechamos esta questão no foro privado de uma consciência muitas vezes perdida ou desorientada. No entanto, podemos provocar: Jovem, sabes o que te poderá ajudar a fazer ser grande aos olhos de Deus? Queres discernir?

É neste sentido que o Papa Francisco nos convida a arriscar com coração na promessa de Deus que está em cada um de nós. Este “arriscar” é um deitar-se à aventura de descobrir o desígnio de amor que Deus sabe que poderá encher de felicidade duradoira a vida de cada pessoa. Neste Domingo IV da Páscoa − Domingo do Bom Pastor −, no Evangelho, Jesus deixa-nos claro que a sua voz é a “onda” de sintonização de cada “ovelha” com o seu Pastor. Conhecê-l’O é fundamental para cada um conhecer o seu caminho para o Pai. Aliás, ele mesmo é o caminho, a verdade e a vida.

Portanto, em catequese ou pastoral vocacional, talvez seja uma perda de tempo perguntar “que queres ser quando fores grande?”, embora se refira ao ser, mas é necessário colocar este ser em contacto, nas perguntas que fazemos, com as grandes possibilidades existenciais de ser o mais possível à imagem e semelhança de Deus, durante o tempo da esperança (humana e cristã) de vida. Perguntemos, pois: “o que queres fazer PARA SERES GRANDE?”. Trata-se de colocar o ideal a que se aspira ao fazer de hoje, no discipulado missionário. Trata-se de arriscar, hoje, com coragem, a promessa que aguarda ser cumprida no tempo de vida de cada um, na relação com os outros. A pergunta tradicional protela a formação. A pergunta revolucionária propõe trabalhar no ser, em colaboração com a preliminar graça de Deus, de modo que «Que queres fazer para seres grande?» é uma pergunta que pode fazer-se em todas as idades, sugerindo a pedagogia da gradualidade.

[Oração] Pelas Vocações:

Deus, nosso Pai,
ao enviares o Teu Filho Jesus,
quiseste vir ao nosso encontro.
Queremos agradecer-Te, hoje,
por continuares a chamar,
no barco da Igreja,
pescadores para o alto mar,
para a missão de chegar a todos.
Concede-nos,
pela graça do Batismo,
o dom da escuta da Tua voz
e da resposta generosa.
Desejamos abrir-nos ao “sonho maior”:
discernir a vocação
que nos torna servidores
da alegria do Evangelho.
Dá-nos a coragem de arriscar,
como a jovem Maria,
para sermos portadores da Tua promessa.
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A gratuidade da Ressurreição de Jesus: ponto de partida ou ponto de chegada?!

[Leitura] L 1 Act 10, 34a. 37-43; Sal 117 (118), 1-2. 16ab-17. 22-23 L 2 Col 3, 1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8 Ev Jo 20, 1-9

[Meditação] No acontecimento que foi o incêndio na Catedral de Notre-Dame, assistimos a duas manifestações não habituais, no que toca à monitorização noticiosa: que franceses se tenham ajoelhado na rua para rezar; que personagens milionárias se tenham posto a doar os seus bens para a sua reconstrução rápida. Terão sido estas manifestações de todo “gratuitas”?! O que parece ter sido um desastre está a ser acompanhado por acontecimentos similares que não são, com toda a certeza, acidentais, mas manifestações de ódio ao Cristianismo, pelo mundo fora. Onde estão, agora, essas manifestações aparentemente “gratuitas”?!

A experiência de fé no Ressuscitado “corre” em dois ritmos: o primeiro é a estafeta solitária de Maria Madalena que, dando-se conta de que o Corpo do Senhor não estava no sepulcro, vai a gritar isso aos outros discípulos. O alarme dos que sofreram mais de perto aquele incêndio deveria parecer-se com este grito. Após a notícia do sepulcro vazio, lá vão os dois discípulos – Pedro e João – a confirmar, também eles em correria, mas para, com o toque ou só a visão, declarar a fé na Ressurreição de Jesus. Daqui depreendemos que a Fé na Ressurreição de Jesus não é meramente um ponto de chegada de uma caminhada feita no contacto com a presença terrena do Mestre, mas, sobretudo, um ponto de partida (porque o Mestre já não está na mesma figura física) para uma nova aventura que implica compreender as Escrituras e incarná-las na vida.

De que vale ficarmos a olhar com mais piedade ou dinheiro para os sepulcros vazios onde a humanidade continua a jazer, vítima de ódios e desespero? Há que proagir (e não só reagir), em favor do que continuam a sofrer atrocidades que ferem a dignidade humana, à partida e não à chegada! Há que trabalhar pela promoção da dignidade humana sempre e ao encontro dos que correm o risco de a perder. Porque é que rezamos publicamente só quando acontecem males ou só quando é previsto pela diplomacia social dar azo à a que a Liturgia da Igreja saia à rua? Ela é um facto privado? Não, nem sequer público-privado! Por isso, não deverá ficar fechada em quatro paredes… mesmo que as tenhamos de preservar.

Quer na oração, quer na partilha, o que se reza e o que se dá não deverá esperar nada em troca, de modo que se deve rezar sempre sem desfalecer, mesmo que seja na rua, e se deve doar sempre sem arrecadar mais que o essencial, nem esperar dividendos do que se dá. Páscoa é transformação de consciências e de opções fundamentais, para que o mundo também seja restaurado dos males que o têm asfixiado. Páscoa é sinal certo de que é possível recomeçar sempre, voltando ao início restaurador da fé. E porque é cristã e se refere a um Deus que é família, declara a verdade de que não é possível voltar a um mero caminho religioso solitário ou autorreferencial.

[Oração] Como no dia pascal:

Cristo Ressuscitou. Aleluia! Aleluia!
Cristo vive para sempre no meio de nós. Aleluia! Aleluia!
Cristo encha de paz e alegria as nossas famílias. Aleluia! Aleluia!
Celebremos a Páscoa do Senhor, na vida e na comunidade. Aleluia! Aleluia!

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

As tentações, do «show off», pela Palavra “on”, ao Espírito “in”

[Leitura] L 1 Deut 26, 4-10; Sal 90 (91), 1-2. 10-11. 12-13. 14-15 L 2 Rom 10, 8-13 Ev Lc 4, 1-13

[Meditação] Toda a vida adulta saudável, do ponto de vista humano e cristão, precisa de iniciar e passar por provas; todas as energias e saberes que se vão adquirindo na fase a que se chama de iniciação infanto-juvenil servem para uma original felicidade, mas por onde e a que preço?

A teologia do 1º domingo da Quaresma mostra-nos como Jesus, o Filho de Deus, não descartou aqueles energias de «Filho do homem», mas conhecendo-Se a Si mesmo, utilizou o que nessa condição seria alavanca para fazer as escolhas de verdadeiro Filho de Deus. As três tentações apresentadas no Evangelho são três “ideologias” saídas da “caixa de pandora” que é a tendência primordial de o homem se substituir a Deus (cf. Gn 3), impondo o ter acima do ser, o poder acima do  e o prazer/aparecer acima do serviço. Os antídotos para essas “mordidelas” da serpente são: o “pão” da Palavra, a “força” da humildade e a “beleza” do serviço.

Com a esmola (na relação com os outros), a oração (na relação com Deus) e o jejum (na relação consigo próprio/a), restauramos a nossa forma psico-social de estar presentes, o que reverte a favor de uma ecologia integral, à maneira do que o Papa Francisco sugere, na sua Mensagem para a Quaresma de 2019. Numa sociedade que nos incentiva ao exibicionismo desumanizante e inútil, a Palavra de Deus é o caminho que nos leva a aventurarmo-nos pelas sendas do Espírito de Amor que nos garante a verdadeira felicidade.

[Oração] Salmo 91:

Tu, que habitas sob a proteção do Altíssimo, e moras à sombra do Omnipotente, diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela; meu Deus, em Vós confio». Nenhum mal te acontecerá, nem a desgraça se aproximará da tua morada. Porque o Senhor mandará aos seus Anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra. Poderás andar sobre víboras e serpentes, calcar aos pés o leão e o dragão. «Porque confiou em Mim, hei de salvá-lo; hei de protegê-lo, pois conheceu o meu nome. Quando Me invocar, hei-de atendê-lo, estarei com ele na tribulação,

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Fazer de conta? Só para aprender a “jogar” a vida

[Leitura] L 1 Sir 27, 5-8 (gr. 4-7); Sal 91 (92), 2-3. 13-14. 15-16 L 2 1 Cor 15, 54-58 Ev Lc 6, 39-45

[Meditação] Neste VIII Domingo do Tempo Comum que antecede, neste Ano C do ciclo da Liturgia, o início da Quaresma, a parábola do Evangelho que Jesus conta aos discípulos pode ajudar a animar os dias de Carnaval que estamos a viver, no sentido de abrir um caminho novo de conversão e vida. Nela, Jesus utiliza a palavra grega “hipocrité”, quer quer dizer “ator” ou “máscara”, para afastar os seus discípulos de brincarem com coisas sérias, sobretudo na relação com os outros, que são chamados a não julgar. Para isso, utiliza, também, adágios frequentes na sua época: “um cego não pode guiar outro cego…”; “o discípulo  não é superior ao mestre, mas pode ser perfeito como ele…”; e “da árvore boa só podem vir bons frutos, da má virão maus frutos…”.

O jogo e a representação em teatro são componentes humanas e artísticas úteis ao desenvolvimento humano e não me parece que o Evangelho esteja contra elas, incluindo as nossas marchas carnavalescas. Nestas o ser humano esconde-se por detrás de “máscaras” para se repropor à redescoberta de si mesmo e dos outros. Porém, este jogo não se pode prolongar no tempo de forma indeterminada, com o risco de a pessoa se perder numa identidade que não seja aquele ser à imagem e semelhança de Deus, num percurso individual e comunitário que Deus designou à partida como história de amor.

Vai-se sabendo, entre a psicologia que se estuda e o mistério que se acolhe, que o desenvolvimento humano precisa do jogo e de uma educação que se desenvolva na expressão e no controlo, para que a pessoa consiga fazer a passagem da “bios” (vida…) ao “logos” (…com sentido), passando pela tensão do “pathos” (ação, paixão, decisão livre). O jogo sustenta os parâmetros onde, também, o mistério de concretiza. São eles: a alteridade e a contínua tensão entre o sujeito e um objeto; a temporalidade pela referência e avizinhamento entre jogo e cultura, servindo para ligar passado, presente e futuro; e os estádios, sendo a estrutura do jogo sempre precária e provisória, por um lado, e exprimindo um modo de afrontar a realidade que está em relação com o mistério, por outro.

Torna-se assim, o jogo da Sapiência! (cf. Pr 8, 27-31)

[Oração] Provérbios 8, 27-31:

Quando Ele formava os céus, ali estava eu;
quando colocava a abóbada por cima do abismo,
quando condensava as nuvens, nas alturas,
quando continha as fontes do abismo,
quando fixava ao mar os seus limites,
para que as águas não ultrapassassem a sua orla;
quando assentou os fundamentos da terra,
eu estava com Ele como arquitecto,
e era o seu encanto, todos os dias,
brincando continuamente em sua presença;
brincava sobre a superfície da Terra,
e as minhas delícias é estar junto dos seres humanos.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Os “p’s” da Páscoa

A Páscoa cristã é uma espécie de “ponte” lançada por Cristo para a vida nova do Reino eterno. O tabuleiro desta ponte assenta no primeiro pilar nos p’s da nossa realidade humana decaída pelo pecado e prolonga-se até ao pilar da outra margem que é o novo estilo de vida do caminho aberto por Jesus:

  • Do possuir à partilha: é este o caminho da pobreza fraterna. Use-se a esmola.
  • Do poder à pequenez: é este o caminho da obediência filial. Use-se a oração.
  • Do prazer à pureza: é este o caminho da castidade esponsal. Use-se o jejum.

O jejum, pela abstinência de exageros supérfluos (alimentares ou outros), é um instrumento que pode ajudar a praticar qualquer um destes valores quaresmais até à vida nova da Páscoa.

Do planalto da “filia” ao cume do “ágape”

[Leitura] L 1 1 Sam 26, 2. 7-9.12-13.22-23;Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 8 e 10. 12-13 L 2 1 Cor 15, 45-49 Ev Lc 6, 27-38

[Meditação] É curioso que na versão de Lucas o discurso das bem-aventuranças tenha sido proferido num planalto. Na versão de Mateus terá acontecido no cimo do monto, inserindo-se, por isso, no Sermão da Montanha. Imagino que Jesus, olhando para os seus discípulos e apontando-lhes o cume acima daquele planalto (segundo a geografia de Lucas) acrescentou o mandamento que proclamámos neste VII domingo do tempo comum: «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam». Esses possíveis inimigos também poderiam estar na «grande multidão» (cf. Lc 6,17.20-26) e, assim, estavam a ouvir o que Jesus disse aos seus discípulos bem-aventurados. No episódio de hoje, para além de serem considerados “amigos” (fílous) eram chamados a viver segundo a “ágape” − a nova forma de traduzir o amor cristão, levado até ao limite possível pelo exemplo de Cristo até à cruz.

A experiência mais maravilhosa que se pode fazer é a de sentir-se amado. Este amor pode experimentar-se de várias formas entre a erótica e a filantrópica. No entanto, no ágape (com que, erradamente, por vezes, se chama uma merenda partilhada) o que está acima de tudo não é a conquista da plenitude pessoal (os “óscares” a que se aspira), mas o sacrifício que se é capaz de fazer pelo bem dos outros, mesmo se entre estes estão inimigos ou pessoas incómodas. E sem esperar nada em troca, mesmo que seja um reconhecimento pessoal da bondade realizada.

Jesus expande a categoria do amor cristão até onde é possível, na tentativa de imitar Deus. A medida do amor cristão é amar sem medida porque é essa a medida do amor de Deus. Ou seja, a forma como vemos e sentimos os outros deve inspirar-se na misericórdia infinita de Deus para connosco. Poderíamos, enfim, seguir alguns passos para treinarmos esta forma de amar que nos identifica como filhos de Deus:

1º – Reconhecer as nossas limitações pessoais com muita humildade.
2º – Rezar pelos inimigos também é uma forma preliminar de os amarmos.
3º – Saudar ou cumprimentar os inimigos, mesmo quando eles não respondem ou não estendem a mão.
4º – Dar passos simples ou fazer gestos simples que demonstrem o querer bem ou o esforço pela instauração da paz fraternal.
5º – Se andamos sempre com Jesus, que deu a vida por todos, arriscamo-nos a dar a vida por quem não esperávamos, com a força do Seu amor, amando sem medida (fora da lógica humana do egoísmo).

Como David nos faz acreditar, no outro (mesmo num inimigo) pode estar um “ungido do Senhor”. A ausência dos sinais de “guerra” pode significar que queremos respeitar o pedaço de “céu” que está em cada um, apesar da carne que tende para o mal.

[Oração] Pelos inimigos:

Senhor, há certas pessoas pelas quais desejo orar porque sei que colocarás o Teu amor por elas no meu coração. Ajuda-me a orar especialmente pelas pessoas que me feriram [mencione os nomes dessas pessoas agora, uma a uma]. Eu te agradeço porque orar pelos outros muda não apenas a vida deles, mas a minha também.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O bem-estar nem sempre é uma bem-aventurança! A ponte da felicidade verdadeira e os seus dois pilares fundamentais

[Leitura] L 1 Jer 17, 5-8; Sal 1, 1-2. 3. 4 e 6 L 2 1 Cor 15, 12. 16-20 Ev Lc 6, 17. 20-26

[Meditação] A boa notícia de hoje é que Deus tem um fraquinho pelos fracos. O discurso das bem-aventuranças foi-nos apresentado pelos varios evangelistas de formas diferentes, porque o que importa não era um código (já temos o decálogo), mas um modo revolucionário demonstrado por Jesus de perceber a vida, a relação com o mundo, com as coisas, com os outros e connosco próprios. Quanto mais estivermos com Jesus e partilharmos da sua vida, mas nos assemelharemos a Ele na contradição à lógica humana, que vê nos ricos, nos saciados, nos consolados o objetivo pleno da felciidade.

As bem-aventuranças são uma síntese de Jesus, um sinal de contradição para a lógica humana de felicidade. Não é que não devamos perseguir a felicidade, mas não a devemos colocar meramente na confiança das consolações terrenas, mas, como nos diz Jeremias, na confiança em Deus. A bondade de Deus ultrapassa todo o equilíbrio religioso da terra, porque Ele está acima de todas as coisas. Mesmo quando ninguém está com os últimos da terra, seja da Igreja ou da sociedade, Deus estará sempre. Daí que a Doutrina Social da Igreja proclame, a partir da lógica do Evangelho, a dignidade da vida humana, o bem comum e a opção preferencial pelos pobres como princípios básicos.

A riqueza torna-se uma maldição, quando não se dá aos outros. Vê-se isso na corrupção que diariamente se noticia e, mesmo assim, difícil de se erradicar da prática humana. Quando colocamos toda a nossa confiança nos bens materiais e na saúde que eles nos podem proporcionar, corremos o risco de não acreditar, na prática, na Ressurreição de Jesus e na nossa própria ressurreição. Já ouvimos falar da criogenia e dos triliões de euros que estão a ser gastos para se poder reanimar (não ressuscitar) alguém nesta terra?

Poderíamos, assim, concluir que a verdadeira felicidade é aquela travessa de ponte que deve estar assente em dois pilares: a confiança total em Deus (1ª leitura) e a fé na Ressurreição (2ª leitura), fazendo da felicidade pessoal, também, um estar próximos dos que sofrem tribulações (Evangelho).

[Oração] E porque nem sempre o bem-estar significa bem-aventurança, lancemos a escada da oração ao Pai como Jesus nos ensinou:

Pai nosso que estais nos céus,

Santificado seja o Vosso nome.

Venha a nós o Vosso Reino.

Seja feita a Vossa vontade,

Assim na Terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje.

Perdoai-nos as nossas ofensas,

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

E não nos deixeis cair em tentação,

Mas livrai-nos do mal.

Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo