Da “religião” programada pelos homens ao mandamento revelado por Deus

[Leitura] Jos 24,1-2a.15-17.18b;Ef 5, 21-32; Jo 6, 60-69

[Meditação] Antes de voltarmos a seguir o Evangelho segundo S. Marcos, no próximo domingo, fomos colocados, com a ajuda do evangelista João, diante de dois caminhos: ou seguir Jesus Cristo na resposta ao mandamento de Deus ou participar meramente a um conjunto de tradições programadas pelos “crentes” (este termo está aqui entre aspas porque o verdadeiro crente será sempre «o que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática» com a ajuda do Espírito de Deus).

No XXI domingo do Tempo Comum foram, também, colocados diante dos olhos da fé três testemunhos fortes quanto ao seguimento eficiente e não meramente cultural:

1º – Josué e a sua família afirmaram servir o Senhor, no meio de um povo que, no deserto, teimava compensar a dureza do caminho para a terra prometida com os falsos deuses dos Amorreus.

2º – Pedro e os outros apóstolos que afirmaram preferir seguir Jesus, que tem palavras de vida eterna, no meio da multidão de “discípulos” que não aguentaram a “dureza” das suas afirmações sobre o pão que dá a vida eterna.

3º – Paulo que reafirmou a importância da família cristã como ambiente relacional que, no modelo da relação entre Cristo e a Igreja, nos pode ajudar a permanecer no caminho certo, despistando os falsos modelos que a sociedade, por vezes, nos impõe.

Como nos afirma o Papa Francisco, «o tempo é superior ao espaço» (Evangelii Gaudium, n. 222 e seguintes). Por isso, não é conveniente agarrarmo-nos meramente ao “detrito de religião” que organizamos pelas nossas próprias mãos num determinado espaço paroquial, sendo importante seguir os passos do Mestre, por onde quer que Ele nos indique o caminho, através da proclamação da Palavra e a realização da Caridade que O torna presente e o Magistério da Igreja, Sua esposa. Enfim, o mandamento do Amor pelo qual somos salvos terá sempre na relação entre Cristo (sempre o mesmo) e a Igreja (constantemente em renovação) a sua síntese mais bela e eficiente!

[Oração] Sal 33 (34)

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Na resposta ao convite do Reino de Deus basta o protocolo da aceitação livre

[Leitura] Ez 36, 23-28; Mt 22, 1-14

[Meditação] Quando nem o objetivo do encontro (bodas), nem a ementa (bois cevados) servem para que o banquete se realize, por causa da obstrução ou desvio da liberdade dos primeiros convidados, apesar da insistência do anfitrião, para os últimos convidados basta o protocolo da aceitação ao mero convite, independentemente do lugar ou situação em que se encontrem.

Com esta parábola, Jesus dá-nos a impressão de que a participação no Reino não requer grandes preparativos e etiquetas mundanas, mas única e impreterivelmente a boa vontade livre de precedências honrosas. Na verdade, para Deus, o que conta não é a nossa (im)preparação, mas a sua soberana benevolência a respeito da humanidade inteira. Pessoalmente, ainda não percebi bem a resistência de parte da nossa humanidade em aceitar tão grande e gratuido amor!

A primeira parte do Evangelho como que reflete a situação da humanidade no Antigo Testamento, ante a aceitação/rejeição de Jesus Cristo. A segunda parte coloca-nos diante da oferta de vida neotestamentária, aberta a todos, embora como proposta de conversão (aquisição do “traje nupcial”).

[Oração] Sal 50 (51)

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A esperança dos jovens cristãos é a mesma que a dos seus avós

[Leitura] Ez 34, 1-11; Mt 20, 1-16a

[Meditação] O Papa Francisco enviou uma mensagem aos participantes do 9.º Encontro Mundial das Famílias, com os quais se vai encontrar no próximo fim-de-semana na Irlanda. Nesta mensagem sublinha a importância da relação entre o futuro dos jovens e as raízes que são os seus avós, imprescindíveis na preparação que acontece no presente. Por isso, a família é apresentada como o «lugar essencial» para acontecer a educação para os valores cristãos.

Hoje a Igreja é convidada a celebrar a memória obrigatória da Virgem Santa Maria, Rainha, na sequência do Ano Mariano de 1954, em que se celebrou o centenário da proclamação dogma da sua Imaculada Conceição, pelo Papa Pio XII. Recorro ao papel de Maria para entender a leitura corrente da Sagrada Escritura (em vez das leituras da memória):

Como Rainha, Maria não “reinou” sozinha, mas, no seu «Magnificat», evoca as maravilhas que o Senhor fez em todos os seus antepassados, de forma que a glória que Deus manifestou neles não lhes era exclusiva. Assim como a mesma glória não se esgota em Maria, mas, através do seu Sim, expande-se para todos os filhos de Deus, com a incarnação (morte) e glorificação (ressurreição) do Seu Verbo. É assim que posso entender, à luz desta memória e da relação entre os netos e os avós o Evangelho de hoje, resolvendo o debate entre os trabalhadores  da primeira hora e os da segunda, todos convidados para a mesma vinha do Senhor.

O que vai acontecer no próximo mês de outubro de 2018, com o Sínodo dos Bispos sobre «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», demonstra a atitude da Igreja como Aquela Mãe sábia, que não se esquece dos jovens, não deixando também de assistir os mais idosos. Isto dá-nos para pensar na Família, cujos desafios são enormes, chamada a não largar uns em benefício dos outros, mas abraçando-os na mesma aventura da esperança cristã.

[Oração] Sal 22 (23)

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O amor de Deus toma conta da alma que se anima com a verdade

[Leitura] Os 2, 16b. 21-22; Mt 25,1-13

[Meditação] A vida de Edith Stein tem duas metades, uma em que se parece com as virgens insolentes, que não se importam com a chegada do seu Senhor, e outra com as sensatas que aguardam vigilantes a Sua chegada. Isto não quer dizer que o amor de Deus não a tenha acompanhado na sua primeira metade, uma vez que ela, pelo estudo da fenomenologia, se animava com a busca da verdade.

O alcance da parábola que Jesus conta no Evangelho da Festa desta padroeira da Europa pode ser acolhido em dois sentidos: por um lado, escatológico, quer dizer, referindo-se à entrada na vida eterna, após a morte física; por outro, a abertura desta porta para a vida eterna pelo Esposo que é Cristo pode acontecer no serviço a cada irmão, no Batismo ou na atitude de resposta ao chamamento vocacional que Deus faz a cada um e a cada uma.

Estas portas também esteviveram diante de Santa Teresa Benedita da Cruz. A porta temporal dependeu dela, da sua decisão em seguir a Cristo; a escatológica já não dependeu dela, mas da circunstância dramática da sua morte, onde a sua cruz se assemelhou com mais perfeição à Cruz de Cristo.

[Oração] Sal 44

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Da multiplicação que anestesia o temor ao verdadeiro dom que instaura o amor

[Leitura] Ex 16, 2-4. 12-15; Ef 4, 17. 20-24; Jo 6, 24-35

[Meditação] Temos vindo a constatar através da comunicação social o que se está a passar na Venezuela. É estranha a forma como os acontecimentos são noticiados, como se meramente houvesse lutas políticas entre poderes alternativos, em vez da cada vez mais nítida existência de uma ditadura que se quer impôr pelo ciclo vicioso do medo e das concessões que vão anestesiando o mesmo, no controle da resolução injusta da pobreza.

Jesus caminhou sobre o mar das inconsistências humanas para nos levar da mera saciação do temor ao acolhimento do verdadeiro amor, através de uma mais justa distribuição dos bens naturais, mas tendo como base axiológica (ética) a proclamação de dons sobrenaturais.

Os povos em vias de desenvolvimento (chamam-se hoje assim, para não os desclassificarmos com o chavão “sub-desenvolvimento”) não são mais desenvolvidos porque causa daquele ciclo vicioso: se este tem garantias de ser mantido, para o povo (parece que) está tudo bem, em vez de mudar da obediência a um político que faz de deus para a adoração de um Deus que tudo faz para que o curso da história humana seja feliz.

Por vezes, também é assim com os habitantes dos países ditos “desenvolvidos”: estando de estômago cheio e de saúde controlada, parece-lhes estar tudo bem, quando, na verdade, nem sempre parece darem conta da vida divina que subjaz no fundo de tudo o que nos acotnece de bem; e dos males que têm a sua raiz nalguma acédia humana.

Quer no caminho das comunidades cristãs, quer no desenvolvimento humano com o qual se promove a resposta pessoal ao chamamento de Deus, convém verificarmos com que conjunto de neurónios estamos a pensar: se com um cérebro em vias de ser inteligente na resposta ao dom da fé ou se com um estômago sempre a pedir a saciação de bens perecíveis.

[Oração] Sal 77 (78)

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Na companhia de Jesus, todas as lágrimas se podem transformar em alegria

[Leitura] Jer 14, 17-22; Sal 78 (79); Mt 13, 36-43

[Meditação]  Fechamos o mês de julho com a memória litúrgica do presbítero Santo Inácio de Loiola. A leituras da féria (que  só é conveniente alterar onde for Festa ou houver razões pastorais para tal, para não se desfavorecer a leitura corrente da Sagrada Escritura) combinam perfeitamente com o dinamismo de vida cristã de que a sua vida é referência para nós. Entre os séculos 15 e 16, apareceu este espanhol que experimentou a chaga atroz profetizada por Jeremias, entre a possibilidade de uma vida cavalheirescamente abastada e um combate interior que o levaria a fundar um itinerário cuja referência é nem mais nem menos a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao pedido dos discípulos de que Jesus lhes explique a parábola do joio no campo, Ele começa por responder positivamente «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem, e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do reino». Só depois é que fala dos filhos do diabo, etc. Santo Inácio costumava propor que se olhasse primeiro para os pontos fortes que existem em cada pessoa e para a capacidade de líder que há em cada uma. Só assim é que é possível a transição — pelo caminho de conversão a Jesus — do joio que há em cada um para o trigo que também nele existe.

Em tudo se pode amar e servir porque, conforme lembra o profeta, é Deus que realiza tudo em todos! Há que, em clima de oração, oferecer-Lhe tudo.

[Oração] Rezemos como Santo Inácio de Loiola:

Tomai, Senhor, e recebei
toda a minha liberdade,
a minha memória,
o meu entendimento
e toda a minha vontade,
tudo o que tenho e possuo;
Vós mo destes;
a Vós, Senhor, o restituo.
Tudo é vosso,
disponde de tudo,
à vossa inteira vontade.
Dai-me o vosso amor e graça,
que esta me basta.

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O milagre da multiplicação está na distribuição dos dons que cada pessoa recebe

[Leitura] 2 Re 4, 42-44; Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15

[Meditação] É Jesus que toma a iniciativa, não meramente para matar a fome, porque a emergência da multidão não o pedira, mas os milagres que garantiam um sentido de vida diferente, ultramundano. É d’Ele que parte a ideia, não colocada desde o início com toda a eficiência, para provocar nas pessoas à sua volta a reação à urgência da fome e da sede, não só de pão, mas de sentido último.

Surgem vários problemas e soluções: este dinheiro não chega para todos; está aqui um rapazito que tem algo… A pergunta inicial de Jesus não se centrou no «quanto«, mas no «onde». E, do pouco que Lhe apresentaram, passou ao «como». Portanto, o «onde» é o aqui e agora em que Jesus quer saciar as nossa vidas de infinito, o hoje é o lugar em que Ele nos convida a sentar à mesa da sua Palavra e do milagre da sua presença na Eucaristia.

Que consequências tiramos das nossas assembleias litúrgicas, chamadas a ser a maior expressão de unidade na Igreja? Triunfalismo? Não. Partilha do que somos e temos? Sim. E regresso contínuo a este monte onde a bênção de Deus se transforma em vida… eterna, porque cheia de sentido, aquém e além de matar a fome.

[Oração] Sal 144 (145)

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Vale mais descansar um pouco com Jesus do que ter férias grandes…

[Leitura] Jer 23, 1-6; Ef 2, 13-18; Mc 6, 30-34

[Meditação] … sem Ele. É assim que muitos partem ao desvario para férias, não ao encontro de um futuro melhor, mas como fuga de um presente vazio. Os Apóstolos voltara para junto de Jesus cheios de memórias boas do que tinham realizado em nome d’Ele. O seu descanso, ainda que pouco, dada a urgência da missão, era merecido. Uma vida vazia de sentido cansa mais do que uma vida cheia de trabalho. Daí que muitos partam para férias que, ainda que “grandes” em extravagância, nunca chegarão a evitar aquele cansaço profundo.

Parafraseando a primeira leitura, os que regressam de “férias grandes” sem Deus correm o risco de regressar à vida vazia, impondo uma série de coisas sem sentido (de vida eterna) aos outros. Deus há de pedir contas aos que pisam ou ultrapassam o limiar desse risco!

São Paulo — o Apóstolo que renunciou à extravagância de uma religião que não ligava a Deus e passou ao combate da fé em favor dos irmãos — afirma-nos que «Cristo é, de facto, a nossa paz», vindo para derrubar todas as inimizades e unir-nos a todos num só povo, pela sua Cruz. Estar perto dela dá-nos mais força do que o descanso unido a todos os prazeres do mundo.

[Oração] Sal 22 (23)

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A fé não é lei que manipula, mas verdade que liberta

[Leitura] Is 38, 1-6. 21-22. 7-8; Mt 12, 1-8

[Meditação] Contemplo, hoje, como a atitude de Jesus foi “escandalosa” para os fariseus e os seus seguidores. Na verdade, Ele estava do lado dos oprimidos por qualquer tipo de necessidade ou de fome essencial, em que a lei religiosa vigente se isentava de solucionar, sem fundamento divino. Ao invés, a atitude dos fariseus era de desprezo para com as mulheres e as crianças, para além da falta de compaixão para com os doentes, no confronto com as regras do templo. Mas Jesus é superior a este! Quanto mais ao tempo do sábado!

Em todos os tempos e templos é necessário purificar as leis que não libertam o ser humano das verdadeiras escravidões, com a Palavra da Verdade que Jesus nos veio anunciar com as obras. «Pôr em ordem a casa», como anuncia o profeta Isaías, não significa meramente emitir leis para que todos as cumpram, mas rezando piamente e alimentando os que padecem as diversas chagas. O desandar de dez graus para trás no relógio de Acaz talvez nos inspire a antecipação que devemos fazer quando nos vier a tentação de colocarmos as leis à frente das pessoas. Jesus não amava a religião; amava as pessoas!

[Oração] Sal Is 38, 10-11

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A graça de Deus é o superlativo de “basta”

[Leitura] Is 26, 7-9. 12. 16-19; Mt 11, 28-30

[Meditação] Ainda no passado XIV domingo do tempo comum (B) ouvimos Jesus ordenar aos seus doze apóstolos «que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas» (cf. Mc 6, 7-13). Para mim, o “bastão” é o símbolo da graça de Deus que é o “superlativo” de “basta”.

No Evangelho desta quinta-feira, percebemos o peso que pode gerar a acumulação de bens que, muito para além de parecerem necessidades primárias, podem vir a obstaculizar o nosso viver de cristãos. O alívio que Jesus nos oferece não despreza aqueles bens essenciais para a saúde, a inteligência e a serenidade de vida. Pelo contrário, criam o espaço para os podermos encontrar no tempo devido e com a força necessária para responder aos desafios da vida.

Há que parar, porém, com processos sociais de necessidades que na verdade não o são (como há problemas que também não são problemas!), porque não nos foram impostos pela real necessidade de criaturas, mas pela aparente força manipuladora do ter que obscurece o ser. Que o regresso a Jesus em cada Eucaristia nos faça avaliar os excesso em que pusemos a nossa confiança, para que o regresso a cada irmão nos leve a partilhar o pouco que nos basta. Como Jesus propôs no episódio da multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Jo 6).

[Oração] Sal 101 (102)

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