No amor cristão, mais que a configuração do cálice importa o transborde do seu conteúdo

[Leitura] 1 Cor 8, 1b-7. 11-13; Lc 6, 27-38

[Meditação] Na escuta da Palavra, somos convidados a ser humildes, achando-nos esses recipientes ávidos de ser enchidos pela vida nova refrescante que dela nos vem. Quanto maior fora a preocupação em considerarmos a configuração do “copo”, mais teremos de nos (pre)ocupar em enchê-lo pelos nossos próprios meios, de maneira que poderemos ter dificuldades em vir a transbordar, a não ser de azedume, caso não sejamos bem sucedidos. Por outro lado, se considerarmos a nossa pequenez diante de Deus, abrindo-nos à sua imensa bondade, daremos conta que Ele será generoso em encher-nos, de maneira a podermos transbordar a bondade com que nos faz viver para os outros que também poderão “beber” dessa bondade através da nossa companhia. Para isso, teremos de esvaziar-nos das nossas falsas expetativas e argumentos meramente humanos. Assim, penso, humildemente, considerar a prova do amor cristão: amar até às ultimas consequências, na lógica paradoxal do amor, conforme o apresenta Jesus Cristo, não se trata de ser mais ou menos capaz de amar os inimigos, mas de considerarmos o amor de Deus em nós a tal ponto de ele transbordar para os outros, incluindo os que não nos agradam tanto ou os que nos ferem. Se tentarmos amar somente com as nossas forças humanas, fazemos de pecadores que amam só na medida em que isso reverter a nosso favor. Se amarmos com a forço do amor de Deus em nós, até o aparente fracasso do nosso esforço limitado à nossa perceção pode significar um traço da nossa pertença como filhos adotivos do Pai. Que a direção seja amar, até onde Deus nos quiser levar, nos insondáveis caminhos do seu mor infinito! [Oração] Sal 138 (139) [ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A posição de Jesus é a de quem vive o que anuncia

[Leitura] 1 Cor 7, 25-31; Lc 6, 20-26

[Meditação] Se repararmos bem, Lucas conta-nos que Jesus disse as bem-abenturanças  “erguendo os olhos para os discípulos”. Daqui se adivinha que Jesus não as declarou corporalmente sobranceiro a ales, mas porventura aninhado no meio deles, referindo-se a eles como bem-aventurados com as motivações do Reino.

Por outro lado, estou a imaginar Jesus a olhar à distância aqueles que desistiram de O seguir por causa das exigências do Reino e a avisá-los com aqueles “ais” que denunciam as dores provocadas por esses distanciamento provocado por eles.

Na Carta aos Coríntios, vemos Paulo a propor uma forma de lidar com as relações interpessoais de uma forma estranha. É o paradoxo do Evangelho posto em prática por uma capacidade de relativisar tudo em favor da novidade do Reino. Para isso, não se toleram desleixes para com o que se assume viver neste mundo, mas propõe-se aquela pequenez que resolve todos as contradições, uma vez que é o posicionamento que nos coloca no colo de Deus. Jesus já nos tinha avisado: «Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu» (Mt 18, 3).

A relação de Maria e José permitiu sintetizar o que proclamou Paulo mais tarde, na vivência de uma castidade que significou viver em função do bem do Outro que é Jesus, sem bloquear o seu caminho de obediência aos desígnios do Amor do Pai.

[Oração] Sal 44 (45)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A necessidade dos gestos como provocação de abertura para Deus

[Leitura] Is 35, 4-7a; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37

[Meditação] A cura do surdo-mudo, acontecida na Liturgia depois de Jesus ter rebatido o legalismo verborraico dos escribas e fariseus, vem afirmar a necessidade dos gestos concretos e discretos como provocação de abertura para Deus.

No nosso vernáculo não conseguimos perceber muito bem (e daí a necessidade de também precisarmos de ser tocados pela graça de Deus!) que tipo de surdez e mudez sofria aquele homem, uma vez que o toque de Jesus (nas insinuações do original grego) não se refere ao “objeto” da orelha, mas à capacidade de ouvir e, quanto à língua, refere-se que ele “mal podia falar”, de onde podemos concluir que falasse, mas sem saber comunicar bem o que sentia.

Também pode, por vezes, acontecer assim connosco: ouvimos a Palavra, mas sem a compreender; queremos testemunhá-la, mas sem perceber o efeito do que dizemos, faltando os gestos (obras) de caridade que lhe deem coerência, que é a eloquência do bem. No Batismo, o que o administra, ora sobre a criança a oração do “Effatá”, que quer dizer “Abre-te”, suplicando a Deus que possa, em breve, ouvir a Palavra de Deus e testemunhá-la com a boca. Que o processo da fé iniciado no Batismo possa desenvolver-se através do “toque” que Jesus nos faz a partir dos seus “sacramentos”, de modo que possamos também ser “sacramento” do seu amor para aqueles não O conhecem.

[Oração] Sal 145 (146)

[ContemplAção]

Jesus disse que a porta do Reino era estreita, não estreitíssima!

[Leitura] Deut 4, 1-2. 6-8; Tg 1, 17-18. 21b-22. 27; Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23

[Meditação] Numa certa ocasião em que estava a ensaiar com uma orquestra, o maestro António Vitorino de Almeida, a certo ponto do andamento musical, pede que os instrumentistas toquem com a intensidade de forte. Estes tocam forte de mais e ele volta a sugerir: eu pedi forte! E eles, como que exagerando na intensidade, vão tocando cada vez mais forte. Ele manda parar o andamento e reforça o pedido: o que eu pedi foi forte, não fortíssimo!

Neste domingo XXII do tempo comum, o Mestre (qual maestro desta “orquestra” que é a vida cristã!) sugere algo diametralmente oposto: quando nos informa que a porta do Reino de Deus é estreita, não está a dizer que é estreitíssima (cf. Mt 7, 13-14), como os fariseus e escribas teimavam a defender com o legalismo hipócrita.

Talvez seja isso que o Papa Francisco queira dizer com a expressão “classe média de santidade”, sugerindo-se ao que aspira à santidade que não acrescente nada nem suprima nada ao Mandamento de Deus traduzido por Jesus. Não se entra no Reino sem a santidade, nem tão pouco com uma presumida super-santidade. Porque é Deus que nos faz santos!

[Oração] Sal 14 (15)

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As fronteiras temporais do sono devem ser sinalizadas com a oração

[Leitura] 1 Cor 1, 17-25; Mt 25, 1-13

[Meditação] Hoje, ao ler a parábola das dez virgens, lembrei-me das fronteiras do sono que são o adormecer e o acordar, reportando-me àquela noite em que os hebreus, no Egito, foram convidados a marcar as ombreiras das suas portas com o sangue do cordeiro pascal (cf. Ex 12, 7).

A insensatez e a prudência na parábola de Jesus não me parece tanto estar na necessidade física do sono ou na inconsistência em estarmos ou correspondermos à sua presença. O problema estará, mais, na forma como iniciamos o nosso descanso (sempre necessário para que o nosso físico possa responder convenientemente) e na forma como acordamos para a vida (que desembocará naquele dia definitivo).

Portanto, se a finalidade da parábola é um tanto escatológica, avisando-nos que o Senhor um dia virá abrir-nos a porta para o Reino definitivo, sugerindo-nos a atenção devida, por outro lado, é um convite a “olearmos” as fronteiras do nosso descanso com o louvor que agradece e confia as etapas do nosso viver a Deus. Nem que seja somente com o sinal da cruz na “ombreira da porta” para a vida que é o nosso corpo!

Já agora: porque não, também, sinalizarmos aquelas distrações imprudentes com a oração de súplica ou pedido de perdão? Vale mais do que, pela falta de súplica, incorramos na obscuridade da solidão, quase sempre vista somente pelo olhar humano, quando, na verdade, Deus nunca nos deixa sós. Não basta, pois, transportar uma cruz ao peito (ou de que forma tatuada seja), correndo o risco, como nos avisa o Apóstolo, de desvirtuar a cruz de Cristo. É preciso que ela se torne patente nos ritmos do tempo, para que se revele o poder de Cristo, mais eloquente do que qualquer deleite.

[Oração] Sal 32 (33)

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Um dom é um tesouro escondido até que a pessoa crente o encontre e partilhe

[Leitura] 1 Cor 1, 1-9; Mt 24, 42-51

[Meditação] Nas leituras desta quinta-feira da XXI semana, descobrimos a importância dos dons ou carismas para a paz da nossa humanidade. O Apóstolo sublinha isso ao saudar a comunidade dos Coríntios, não só fazendo hospedar a sua missão, mas propondo o acolhimento do Evangelho que lhe dá origem e sentido.

No Evangelho de Mateus, o convite feito por Jesus à vigilância e à boa administração dos bens pode ser um incentivo à criatividade no que toca ao discernimento, ao acolhimento e à prática dos dons que o Pai nos dá. Estes carismas não devem ser confundidos com meros talentos. Enquanto que estes fazem parte dos valores naturais da personalidade humana, os carismas fazem parte do chamamento cristão. Se aqueles formam a predisposição a seguir o Mestre, já os carismas implicam uma saída de nós mesmos e uma resposta livre para, na fidelidade, poder acontecer a eficiência apostólica neles contida como semente espiritual.

Não é bom, portanto, que, uma vez descobertos, os carismas fiquem fechados, mas devem ser colocados à disposição. Pior que um talento enterrado, é um carisma fechado: seja numa pessoa, seja num movimento, seja numa comunidade. Diria, mesmo, que numa seita não haverá carismas, embora possa haver talentos.

[Oração] Sal 144 (145)

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Da “religião” programada pelos homens ao mandamento revelado por Deus

[Leitura] Jos 24,1-2a.15-17.18b;Ef 5, 21-32; Jo 6, 60-69

[Meditação] Antes de voltarmos a seguir o Evangelho segundo S. Marcos, no próximo domingo, fomos colocados, com a ajuda do evangelista João, diante de dois caminhos: ou seguir Jesus Cristo na resposta ao mandamento de Deus ou participar meramente a um conjunto de tradições programadas pelos “crentes” (este termo está aqui entre aspas porque o verdadeiro crente será sempre «o que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática» com a ajuda do Espírito de Deus).

No XXI domingo do Tempo Comum foram, também, colocados diante dos olhos da fé três testemunhos fortes quanto ao seguimento eficiente e não meramente cultural:

1º – Josué e a sua família afirmaram servir o Senhor, no meio de um povo que, no deserto, teimava compensar a dureza do caminho para a terra prometida com os falsos deuses dos Amorreus.

2º – Pedro e os outros apóstolos que afirmaram preferir seguir Jesus, que tem palavras de vida eterna, no meio da multidão de “discípulos” que não aguentaram a “dureza” das suas afirmações sobre o pão que dá a vida eterna.

3º – Paulo que reafirmou a importância da família cristã como ambiente relacional que, no modelo da relação entre Cristo e a Igreja, nos pode ajudar a permanecer no caminho certo, despistando os falsos modelos que a sociedade, por vezes, nos impõe.

Como nos afirma o Papa Francisco, «o tempo é superior ao espaço» (Evangelii Gaudium, n. 222 e seguintes). Por isso, não é conveniente agarrarmo-nos meramente ao “detrito de religião” que organizamos pelas nossas próprias mãos num determinado espaço paroquial, sendo importante seguir os passos do Mestre, por onde quer que Ele nos indique o caminho, através da proclamação da Palavra e a realização da Caridade que O torna presente e o Magistério da Igreja, Sua esposa. Enfim, o mandamento do Amor pelo qual somos salvos terá sempre na relação entre Cristo (sempre o mesmo) e a Igreja (constantemente em renovação) a sua síntese mais bela e eficiente!

[Oração] Sal 33 (34)

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Na resposta ao convite do Reino de Deus basta o protocolo da aceitação livre

[Leitura] Ez 36, 23-28; Mt 22, 1-14

[Meditação] Quando nem o objetivo do encontro (bodas), nem a ementa (bois cevados) servem para que o banquete se realize, por causa da obstrução ou desvio da liberdade dos primeiros convidados, apesar da insistência do anfitrião, para os últimos convidados basta o protocolo da aceitação ao mero convite, independentemente do lugar ou situação em que se encontrem.

Com esta parábola, Jesus dá-nos a impressão de que a participação no Reino não requer grandes preparativos e etiquetas mundanas, mas única e impreterivelmente a boa vontade livre de precedências honrosas. Na verdade, para Deus, o que conta não é a nossa (im)preparação, mas a sua soberana benevolência a respeito da humanidade inteira. Pessoalmente, ainda não percebi bem a resistência de parte da nossa humanidade em aceitar tão grande e gratuido amor!

A primeira parte do Evangelho como que reflete a situação da humanidade no Antigo Testamento, ante a aceitação/rejeição de Jesus Cristo. A segunda parte coloca-nos diante da oferta de vida neotestamentária, aberta a todos, embora como proposta de conversão (aquisição do “traje nupcial”).

[Oração] Sal 50 (51)

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A esperança dos jovens cristãos é a mesma que a dos seus avós

[Leitura] Ez 34, 1-11; Mt 20, 1-16a

[Meditação] O Papa Francisco enviou uma mensagem aos participantes do 9.º Encontro Mundial das Famílias, com os quais se vai encontrar no próximo fim-de-semana na Irlanda. Nesta mensagem sublinha a importância da relação entre o futuro dos jovens e as raízes que são os seus avós, imprescindíveis na preparação que acontece no presente. Por isso, a família é apresentada como o «lugar essencial» para acontecer a educação para os valores cristãos.

Hoje a Igreja é convidada a celebrar a memória obrigatória da Virgem Santa Maria, Rainha, na sequência do Ano Mariano de 1954, em que se celebrou o centenário da proclamação dogma da sua Imaculada Conceição, pelo Papa Pio XII. Recorro ao papel de Maria para entender a leitura corrente da Sagrada Escritura (em vez das leituras da memória):

Como Rainha, Maria não “reinou” sozinha, mas, no seu «Magnificat», evoca as maravilhas que o Senhor fez em todos os seus antepassados, de forma que a glória que Deus manifestou neles não lhes era exclusiva. Assim como a mesma glória não se esgota em Maria, mas, através do seu Sim, expande-se para todos os filhos de Deus, com a incarnação (morte) e glorificação (ressurreição) do Seu Verbo. É assim que posso entender, à luz desta memória e da relação entre os netos e os avós o Evangelho de hoje, resolvendo o debate entre os trabalhadores  da primeira hora e os da segunda, todos convidados para a mesma vinha do Senhor.

O que vai acontecer no próximo mês de outubro de 2018, com o Sínodo dos Bispos sobre «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», demonstra a atitude da Igreja como Aquela Mãe sábia, que não se esquece dos jovens, não deixando também de assistir os mais idosos. Isto dá-nos para pensar na Família, cujos desafios são enormes, chamada a não largar uns em benefício dos outros, mas abraçando-os na mesma aventura da esperança cristã.

[Oração] Sal 22 (23)

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O amor de Deus toma conta da alma que se anima com a verdade

[Leitura] Os 2, 16b. 21-22; Mt 25,1-13

[Meditação] A vida de Edith Stein tem duas metades, uma em que se parece com as virgens insolentes, que não se importam com a chegada do seu Senhor, e outra com as sensatas que aguardam vigilantes a Sua chegada. Isto não quer dizer que o amor de Deus não a tenha acompanhado na sua primeira metade, uma vez que ela, pelo estudo da fenomenologia, se animava com a busca da verdade.

O alcance da parábola que Jesus conta no Evangelho da Festa desta padroeira da Europa pode ser acolhido em dois sentidos: por um lado, escatológico, quer dizer, referindo-se à entrada na vida eterna, após a morte física; por outro, a abertura desta porta para a vida eterna pelo Esposo que é Cristo pode acontecer no serviço a cada irmão, no Batismo ou na atitude de resposta ao chamamento vocacional que Deus faz a cada um e a cada uma.

Estas portas também esteviveram diante de Santa Teresa Benedita da Cruz. A porta temporal dependeu dela, da sua decisão em seguir a Cristo; a escatológica já não dependeu dela, mas da circunstância dramática da sua morte, onde a sua cruz se assemelhou com mais perfeição à Cruz de Cristo.

[Oração] Sal 44

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