Toda a atividade sagrada é sempre “dois em um”

[Leitura] 2 Tim 2, 8-15; Mc 12, 28b-34

[Meditação] O povo diz de uma coisa que vale por duas quando a pessoa consegue “matar dois coelhos com um tiro só”. É o caso do amor cristão: por ele, amamos a Deus e ao próximo (como a nós mesmos) numa só ação. É sempre assim! Por isso é que a oração mais elevada é a que nos coloca em contacto com os outros ao mesmo tempo que com Deus na Eucaristia. Escusamos de andar com “arrepios”: em cada esquina do nosso viver cristão, quando as coisas nos começam a não parecer lineares, então é oportuno fazer o “check-in” dos seguintes elementos: nisto que sou e que faço — amo a Deus? amo o próximo, na consideração de mim?

— Quantas vezes o amor que recebemos de Deus não ficará no socalco do nosso egoísmo emsimesmado? É porque falta gratidão a Deus e realismo na relação com os outros.

— Quantas vezes a piedade que devotamos a Deus no culto não fica pendurada em ritos vazios? É porque falta a coerência entre a fé que se verbaliza e as obras que se (não) realizam em favor dos outros.

— Quantas vezes a auto-estima não significa uma forte capacidade de resiliência pessoal no mundo real em que vivemos? Porque se ensoberbece a real capacidade de lutar pelo bem com a incapacidade de se deixar ajudar também pelos outros.

Não só estas considerações, mas também o ensaio das mesmas na vida prática aproximam-nos das fronteiras do Reino de Deus.

[Oração] Sal 24 (25)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Não podemos construir um céu à imagem da terra!

[Leitura] 2 Tim 1, 1-3. 6-12; Mc 12, 18-27

[Meditação] Pela forma como os saduceus colocam a questão “matrimonial” a Jesus, percebemos que, para eles, não tem lógica haver ressurreição dos mortos. Não fossem eles desorganizar a ordem sócio-religiosa em que punham toda a sua confiança. Isso é porque eles partem do pressuposto de que Deus é um Senhor dos mortos, em vez de ser o Deus dos vivos, como o apresenta Jesus.

Na ressurreição não se volta à vida terrena, mas vive-se a vida eterna prometida por Deus. Por vezes, aspiramos a viver no céu como continuação da comodidade sonhada na terra. Há até quem lhe chame “eterno descanso” como se o céu fosse feito de “resorts” ou “camaratas” para se dormir um sono profundo. E só de almas, qual pessoas! Como podemos continuar com esta linguagem? Até para analogias são limitadas!!

Não podemos construir um céu à imagem da terra, simplesmente ele não cabe aqui. Podemos, sim, pensar que todos, de todas as gerações e de todas as épocas, cabemos no céu, porque é a casa infinita de Deus, cujo amor é perfeito, acima de todas as instituições com que “governamos” todas as coisas, quer materiais quer espirituais.

[Oração] Sal 122 (123)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A fé faz-nos herdeiros dos bens Deus e não da terra

[Leitura] 2 Pedro 1, 2-7; Mc 12, 1-12

[Meditação] Na homilia do IX domingo do tempo comum (ontem) declarei algo que também serve para hoje: se formos passar a pente fino o desempenho social da comunidade da Igreja (não só do bispo e dos párocos!), nem tudo é programa inspirado pelo Evangelho, mas ditado pelo programa social. Esta lente ajuda-nos, também, a meditar no Evangelho de hoje: a vinha é do Senhor e os vinhateiros são diferentes dos seus servos. Aqueles pensam no lucro pessoal, estes na parte do lucro pertencente ao seu Senhor. Este, inclusivamente, pensa na distribuição justa, mas aqueles somente em apoderar-se de tudo.

A caridade que a Igreja é chamada a atuar na verdade, por ser o amor de Deus traduzido por ações que revelem a Sua justiça, não se esgota meramente na parceria com a solidariedade social, como o amor não se esgota, nem se confunde com a tolerância. É, infelizmente, notável a facilidade com que, nas comunidades da Igreja, por vezes, existe a abertura a concessões sócio-políticas, minimizando o espaço para a missão da evangelização da cultura. Por outro lado, anda-se a “matar” padres com serviços que não lhes foram recomendados nas “promessas sacerdotais”, entendendo-se muitas vezes como funcionários pagos pelas paróquias, onde deverão (no pensamento de alguns) obedecer à vontade clericalizada dos leigos. Continua ou não a fazer sentido o evangelho hoje proclamado? Quem é o dono da vinha? No ocidente, carecem padres porque se deixou de contemplar a importância da sua origem sacra, mais como homem do social (como tantos outros) do que desde a Eucaristia que é chamado a presidir em nome de Jesus.

Sem fugir à obediência no que toca à Doutrina Social da Igreja, pelos trâmites do diálogo entre os dons hierárquicos e os dons carismáticos, os critérios da avaliação da participação no tríplice múnus do Bom Pastor não são ditados pela sociedade, ainda que esta deva ser escutada, mas pela Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja que compõem a Tradição.

Precisamos sempre de reconfigurar a pastoral da Igreja com a pedagogia do dono da vinha: com a torre da vigilância, a sebe da clareza e o lagar do discernimento em vista aos frutos que é preciso entregar ao dono. Como Pedro afirma: «Jesus, com o seu divino poder, concedeu-nos tudo o que é necessário à vida e à piedade (…)» entrando «na posse das maiores e mais preciosas promessas, para nos tornarmos participantes da natureza divina, livres da corrupção que a concupiscência gera no mundo». Vamos, então, como exorta este Apóstolo, « juntar à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a constância, à constância a piedade, à piedade o amor fraterno, ao amor fraterno a caridade». Que, pelas nossas mãos, esta não acabe nunca, na Verdade.

[Oração] Sal 90 (91)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

No vaso frágil da religião transportamos o tesouro da fé cristã que o renova

[Leitura] Deut 5, 12-15; 2 Cor 4, 6-11; Mc 2, 23 – 3, 6

[Meditação] À frente do Seminário Maior de Viseu está a estátua do Bispo D. António Alves Martins (1808-1882), onde podemos ler, numa das faces da coluna, a afirmação que lhe foi atribuída:  «A religião deve ser como o sal na comida: nem muito nem pouco, só o preciso». Penso que esta frase não dista muito do sentido da afirmação de Jesus escutada na cena evangélica deste IX domingo do tempo comum — «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» —, com a qual percebemos que a prática do bem para se salvar vidas proposta pelo Evangelho transcende toda a ordem estabelecida.

Nós sabemos que Jesus não fundou nenhuma Ordem, nem nenhuma Religião, ainda que esta se referencie ao Cristianismo no quadro das três grandes religiões (juntamente ao Judaísmo e ao Islão). A face do Cristianismo que se descreve como Religião será a forma como os crentes aderem ao acontecimento vida-paixão-morte-ressurreição de Jesus Cristo. No entanto, enquanto a religião se pode definir mais bem como o ser humano à procura de Deus, o acontecimento cristão refere-se ao movimento de Deus em direção à humanidade, para a salvar, segundo os seus desígnios de amor.

Acontece, pois, que aquela face humana de religião, por vezes, cristaliza-se em leis que impedem de acolher o amor salvífico de Deus, impondo coisas que Ele não quer. Assim, a religião pode caraterizar-se como aquele “vaso” frágil que é chamado a ter consciência do tesouro que transporta — a fé cristã (no caso do Cristianismo, claro) —, que, traduzido em oração e ação, tem o poder de a renovar no sentido de servir a construção do Reino de Deus. Assim, o Antigo Testamento vai deixando de ser uma mera latência do Novo, dando espaço ao cumprimento da promessa de Deus: a de termos vida em abundância, longe de todas as formas de opressão a que nos impõe uma falsa visão de Deus e do ser Homem sobre a terra.

Requer-se uma santa “rebeldia” para se ser cristão!

[Oração] Sal 80 (81)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

É o estilo de oração que define o nosso tipo de fome

[Leitura] 1 Pedro 4, 7-13; Mc 11, 11-26

[Meditação] Betânia é o símbolo da oração que Jesus declara como importante, aquém de qualquer refeição. Compreendamos isto a partir do seu diálogo com Marta, tendo a sua irmã Maria aos seus pés (cf. Lc 10, 38ss).

Antes de ir para Betânia com os Doze, Jesus observou o que se passava no Templo, em Jerusalém. Certamente, naquele dia, o que viu (o comércio e os cambistas) tirou-Lhe a fome e a oportunidade de tomar uma refeição preparada por Marta. De modo que, no dia seguinte, sentiu urgência em voltar a Jerusalém para agir em conformidade com o que tinha rezado.

Foi no caminho que, não conseguindo controlar a fome, parou diante de uma figueira, não tanto para a amaldiçoar, mas para alimentar a fé dos apóstolos. Este tipo de alimento sacia somente a partir do jejum de coisas materiais. Jesus teve, pois, fome que os seus apóstolos tivessem fome dos bens espirituais que são chamados a proclamar e a defender.

[Oração] Sal 95 (96)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A Eucaristia será sempre um ato vespertino do Sacrifício que completou a salvação

[Leitura] Ex 24, 3-8; Hebr 9, 11-15; Mc 14, 12-16. 22-26

[Meditação] Faz falta celebrar a Eucaristia mais vezes em espaços não comuns, como aquele que, segundo Marcos, o Senhor mandou preparar naquela cidade. Como provocação para aqueles que nunca ou poucas vezes o frequentaram, o encontro com o Senhor na Missa dentro do próprio espaço vital tem um poder que não podemos medir, sobretudo quanto aos efeitos colaterais.

Cá para mim, com muita humildade, a Eucaristia será sempre um ato vespertino do dia ou da hora em que acontece uma entrega semelhante à de Cristo na Cruz, pelos irmãos, em público, para salvar, não para condenar ou “pôr na linha”. A Eucaristia, para isso, terá de ser sucedida com uma entrega séria, correspondendo com a força daquele sublime alimento. Senão terá sido uma véspera em vão. Não é à toa que, na Quinta-feira Santa, o que se celebra é a “Missa Vespertina da Ceia do Senhor”! É porque o dia que lhe sucede — a Sexta-feira Santa — faz memória do acontecimento que a completa!

Com mais ou menos pastoral litúrgica, lá vamos celebrando o melhor que podemos, entre as belas passadeiras que reúnem pessoas no mesmo afã e alguns momentos de formação que ajudam a aprofundar o mistério que se celebra. Falta perceber se o que acontece a seguir corresponde a este ato sempre “vespertino”. Reparemos que, apesar dos preparativos, a forma como Jesus realiza aquele ato vespertino é muito simples, para não distrair, ou melhor, se ligar com clareza à Sua entrega que aconteceu no dia a seguir. Não nos distraiamos, pois, do bem que temos de fazer para além dos ritos da Eucaristia, para a cumprirmos à semelhança de Jesus. Uma coisa é certa: o Senhor faz a sua parte, entregando-se por nós! Estejamos-Lhe gratos, do fundo do coração!

[Oração] Salmo 116:

Como agradecerei ao Senhor
tudo quanto Ele me deu?
Elevarei o cálice da salvação,
invocando o nome do Senhor.
É preciosa aos olhos do Senhor
a morte dos seus fiéis.
Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva:
quebrastes as minhas cadeias.
Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor,
invocando, Senhor, o vosso nome.
Cumprirei as minhas promessas ao Senhor,
na presença de todo o povo.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A bondade divina a imitar não está no pouco que damos, mas no muito que recebemos para dar

[Leitura] 1 Pedro 1, 3-9; Mc 10, 17-27

[Meditação] Cumprindo os mandamentos, aquele homem rico sabia “habitar” bem a religião do seu tempo, de forma a ser objeto de simpatia. Ser perfeito, implicaria mais: vender tudo o que tinha, dando o dinheiro aos pobres*, e seguir Jesus no projeto da salvação que vem de Deus.

Quem sabe tudo sobre Deus e é capaz de cumprir os seus mandamentos, conhece as fronteiras do bem, mas depois não sabe o que fazer com esse bem. Foi para gerar em nós essa criatividade que Jesus nos deu o código das Bem-aventuranças!

* Este asterisco serve para aproveitar esta pedagogia que Jesus aconselha ao homem rico: caridade não se trata de dar aos pobres o que se tem a mais lá em casa; trata-se de vender o que se tem a mais, dando aos pobres os bens essenciais que eles mesmo precisam com o dinheiro: emprego digno, saúde, proteção, educação, etc. Portanto, responder ao chamamento à santidade e à vocação concreta é um processo de humanização e não de mera obediência a leis, que serão sempre, em última análise, subsidiárias.

[Oração] Sal 110 (111)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Ser discípulos de Deus uno para sermos missionários em Deus trino

[Leitura] Deut 4, 32-34. 39-40; Sal 32, 4-5. 6 e 9. 18-19. 20 e 22; Rom 8, 14-17; Mt 28, 16-20

[Meditação] Tal como fomos convidados a não ficar a olhar para o céu na Ascensão do Senhor, também não devemos ficar a tentar definir a Santíssima Trindade nesta na celebração da sua solenidade. Perdemos tempo na direção errada, quando, alternativamente, Jesus nos convida a segui-l’O e nos envia em missão. Como o papa Francisco nos recorda — talvez numa época em que haja muitos “discípulos” sem serem “missionários” e muitos “missionários” sem serem “discípulos” — que todos somos discípulos missionários: «Em virtude do Baptismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário (cf. Mt 28, 19). Cada um dos baptizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito activo de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas acções» (Evangelii Gaudium, 119-121).

Ao olhar para a pastoral que temos em Igreja, estou humildemente convencido que para sermos verdadeiros servidores em Deus Trino, teremos de ser discípulos do Deus Uno, a partir de uma espiritualidade cristã que não se distraia muito do Evangelho, para, consequentemente, percebermos que é na diversidade de serviços que a Igreja é missionária. De joelhos diante de Deus para sabermos estar de pé diante dos homens. Por vezes somos levados a fazer o contrário: tendemos a estar de pé diante de Deus (por exemplo, sem razão aparente de falta de saúde física, no momento da Consagração eucarística muitos permanecem de pé, igualando Jesus a outro civil qualquer ), para depois andarmos, de joelhos (pelo menos com o coração) na hora de querermos gerar boa aparência a quem devemos favores. Pois a Deus é devida toda a gratidão; à humanidade, somos chamados a servir segundo os desígnios do amor de Deus.

A própria Igreja só conseguirá ser missionária quando for unânime no essencial, que muitas vezes é difícil de objetivar. Alguns aspetos são claros nas leituras da Palavra da Solenidade da Santíssima Trindade:

1. Deus deixa-se contemplar pelo que faz pelo seu povo, mais do que, meramente, pelo que é. Portanto, como dizia Santo António, «cessem as palavras e falem as obras».

2. O lugar do encontro com Deus, a partir da Ressurreição de Jesus, já não será mais o símbolo da Lei − o Templo −, mas a própria Pessoa de Jesus, no seu Espírito da Verdade.

3. Teremos de ser pequeninos para sermos capazes de chamar o Pai de “papá”. É este o “monte” escondido no cimo por muitas confusões e dúvidas, que os discípulos são chamados a escalar para, como missionários (ao mesmo tempo), sermos capazes de descer aonde Ele precisa de nós.

[Oração] À Santíssima Trindade:

Santíssima Trindade,
Vosso poder imenso
Tudo cria e governa
Até ao fim dos tempos.

 

Vós sois a plena luz,
Sois a plena alegria,
A pureza absoluta
Sobre todas as coisas.

 

Ó Pai de toda a graça,
Ó Cristo, Filho único,
Com o Espírito Santo,
Caridade infinita,

 

De Vós, Trindade Santa,
Procede toda a vida
E todo o ser criado
Em Vós se afirma e cresce.

 

Vossa bondade em tudo
Se derrama e fulgura,
Por isso Vos adora
O coração do mundo.

 

Com os Anjos da glória
Na terra Vos louvamos
E no Céu cantaremos
Por toda a eternidade.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A redenção é a encarnação da Palavra na aceitação original do corpo!

[Leitura] Tg 5, 9-12; Mc 10, 1-12

[Meditação] Como solução para os problemas derivados da dureza do coração humano, Jesus reenvia para a originalidade da criação de Deus. Nada na criação é contra o ser humano e nada do que Jesus tenha proposto para redimir o ser humano contradiz a “imagem e semelhança”  que Deus quer aperfeiçoar em cada pessoa.

No entanto, ao longo da história houve sempre desvios quanto à postura correta quanto à forma de ver quer os problemas derivados da dureza humana, quer de propor uma solução para eles. Não foi à toa que o Papa Francisco nos voltou a convidar a refletir nas heresias do individualismo neoplagiano e no desprezo neognóstico do corpo (cf. Cap. II da Exortação Apostólica “Alegrai-vos e exultai”).

No entanto, hoje, a Igreja é chamada a saber acolher, acompanhar e integrar as situações difíceis, porque, na verdade, o Criador também não quis que o ser humano fizesse experiências erradas de amor, para as quais Jesus Cristo, na Igreja, também deixou formas de sanação, através de um caminho de discernimento desde a consciência pessoal até ao ideal da comunhão com o mesmo Deus criador e redentor da humanidade.

[Oração] Sal 102 (103)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

É Jesus que lança os alicerces do ecumenismo prático

[Leitura] Tg 4, 13-17; Mc 9, 38-40

[Meditação] À parte da inveja dos que se principiaram na primeira escola do discipulado de Jesus − que aqui não tem lugar qualificar, mas apenas justificar pelo facto de os “de fora” fazerem milagres e os que O seguiam mais de perto não conseguirem (veja-se a difícil cura do filho epilético narrada em Mc 9, 14-29) − o Evangelho de hoje mostra-nos a abertura de Jesus aos “homens e mulheres de boa vontade” que, embora não seguindo de perto os seus ensinamentos, tinham uma sensibilidade para a prática dos valores contidos neles, talvez pela admiração que Lhe nutriam, apesar de não terem condições (culturais, políticas, morais, espirituais, etc.) para O poderem acompanhar.

Estão aqui os elementos que permitiram a Igreja refontalizar-se quanto ao que está contido do Decreto Conciliar Lumen Gentium e que abre portas ao chamado “ecumenismo prático” que une cristãos e não-cristãos na promoção da vida e da dignidade da pessoa humana, como despiste a todo o tipo de fundamentalismo que que negue aquele fundamento.

Finalmente, aqueles que ainda não receberam o Evangelho, estão de uma forma ou outra orientados para o Povo de Deus (32). Em primeiro lugar, aquele povo que recebeu a aliança e as promessas, e do qual nasceu Cristo segundo a carne (cfr. Rom. 9, 4-5), povo que segundo a eleição é muito amado, por causa dos Patriarcas, já que os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis (cfr. Rom. 11, 28-29). Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão, e connosco adoram o Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no último dia. E o mesmo Senhor nem sequer está longe daqueles que buscam, na sombra e em imagens, o Deus que ainda desconhecem; já que é Ele quem a todos dá vida, respiração e tudo o mais (cfr. Act. 17, 25-28) e, como Salvador, quer que todos os homens se salvem (cfr. 1 Tim. 2,4). Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna (33). Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho (34), dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida. Mas, muitas vezes, os homens, enganados pelo demónio, desorientam-se em seus pensamentos e trocam a verdade de Deus pela mentira, servindo a criatura de preferência ao Criador (cfr. Rom. 1,21 e 25), ou então, vivendo e morrendo sem Deus neste mundo, se expõem à desesperação final. Por isso, para promover a glória de Deus e a salvação de todos estes, a Igreja, lembrada do mandato do Senhor: «pregai o Evangelho a toda a criatura» (Mc. 16,16), procura zelosamente impulsionar as missões.

Lumen Gentium, n.º 16

Lumen Gentium n. 16

[Oração] Sal 48 (49)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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