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Amor de Deus: um mandamento com duas declinações

Ez 37, 1-14; Mt 22, 34-40

Conforme Ezequiel foi convidado pelo Senhor a profetizar aos ossos e ao espírito, assim nós somos convidados por Jesus a amar a Deus e ao próximo.

Amando a Deus, reconhecemos o Seu amor em nós, condição para vermos os nossos ossos revigorados para podermos amar o próximo. Por sua vez, amando o próximo, veremos os seus ossos revigorados e, com o amor de Deus trespassado por nós, também o próximo viverá.

O amor de Deus em nós faz com que o que em nós estava morte possa reviver. Profetizar é, assim, um sinónimo de amar. Porque profetizando, anunciamos o amor por palavras e obras, assim como denunciamos as injustiças que nos roubam a vida.

O dever religioso de amar a Deus só será correto se amarmos os irmãos. Os Santos — pensemos, por exemplo, na Beata Teresa de Calcutá — hauriram a sua capacidade de amar o próximo de modo sempre renovado do seu encontro com o Senhor eucarístico; e vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade precisamente no serviço deles aos outros.

Cf. PAPA BENTO XVI, Deus caritas est, n.18

Amor cristão: o “dress code” de um banquete desproporcionado

Ez 36, 23-28; Sal 50 (51); Mt 22, 1-14

No Evangelho, observamos que Jesus está a falar com os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, estes habituados a manifestar em público, com vestes frondosas, o facto de serem os arautos da religião. Na parábola que Ele lhes/nos conta, fala de um banquete preparado por um rei para o seu filho e em abertura todos. Entre os “bons e maus” que são convidados por fim, parece-nos desproporcionado que só um apareça sem a “veste nupcial” (seria um “príncipe” ou um “ancião” infiltrado?!).

Na parábola, nota-se que há dois tipos de convidados. Uns que pareciam fazer parte de uma lista precisa, como se de um clube ou setor social se tratasse: são os que, num primeiro momento, nem sequer querem saber o propósito e a ementa da festa e, num segundo momento, sabendo dos pormenores, reagem ou pela fuga para atividades mais “rentáveis” e maltratam ou matam os servos do rei.

O segundo tipo de convidados são os que não estão, à partida, alistados. Basta o encontro, em caminhos ou encruzilhadas, para a possibilidade de entrar num banquete do filho do rei. Seria estranho pensar que a imediatez entre o convite e a boda desse tempo para ir a casa vestir as tais vestes frondosas, a título de apresentação externa, ou de ter tempo de reparar todos os danos causados na alma por más ações ao relacionamento com Deus e com os irmãos. Talvez bons e maus possam ou não ser ou estar bem dispostos a entrar na festa, com sentimentos e atitude para sair dela transformados. Vindos de caminho ou errância vierem, todos têm a possibilidade de um outro tipo de encontro, que pode alterar por completo a vida, considerada no seu interior. Assim, depende de como este inteior está revestido e até que profundidade ou altitude se deixa tocar.

Na Igreja, é Jesus a máxima expressão do amor de Deus. E Ele convida a todos a entrar num caminho em que, ao longo dos anos da vida, cada pessoa é chamada a revestir-se dos seus sentimentos e atitudes. Como anuncia a leitura do Antigo Testamento, a presença no banquete não é uma questão de méritos pessoais (não é um convite só aos “bonzinhos”); já o Reino implica um trabalho pessoal de renovação, a partir da contemplação e imitação da vida de Cristo.

Por isso, a vida cristã não deve ser só uma experiência de assembleia de iguais, mas de um caminho pessoal de renovação, para o qual se necessita de acompanhamento. Neste acompanhamento, ninguém de boa vontade deveria ficar de fora, para não se correr o risco do propósito para o qual Jesus conta a parábola: a tendência farisaica e fanática dos príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo.

Pertencer ao Povo de Deus, no caminho da história, com coração novo (feito de carne) e espírito novo (dinamizado pelo amor), é dádiva e tarefa. Dádiva de um Deus que Se oferece por completo e tarefa de um ser humano que Lhe ensaia continuamente uma responde, por vezes desajeitadamente. Considero muito interessante a afirmação de que pela Religião o homem busca Deus e no Cristianismo é Deus que vem ao encontro do ser humano em Jesus Cristo. Esta vinda é infinitamente perfeita e pode definir-se como “graça suficiente”; já a “eficácia da graça” depende da vontade do ser humano, nem sempre disposto a acolher o desígnio de amor que já está semeado em cada pessoa.

Sobre os ombros de um/a gigante

Mt 5, 1-12, Funeral de uma pessoa idosa

Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.

Isaac Newton

O discurso das Bem-aventuranças é, porventura, o que mais consegue unir o realismo e a esperança. O realismo acerca da vida terrena e a espera de um mais além bem sucedido. Jesus declarou-o no cimo de montanha.

De muitas formas se tem interpretado o texto das Bem-aventuranças. A que mais aprecio é a da integração psicoespiritual realizada pelo alemão Anselm Grün, frade psicoterapeuta, perscrutando nas bem-aventuranças o caminho para uma vida bem conseguida.

Esta interpretação parte da realidade em que, na experiência quotidiana, os nossos entes queridos conseguiram superar-se, escolhendo

  • a auto-estima, em vez do apego a uma máscara (1ª bem-aventurança);
  • o contacto com os recursos interiores com que se faz o luto, em vez de apegos substitutos que levam à depressão (2ª ba);
  • a doçura e não-violência (ou o não precisar de dar respostas a tudo), em vez da dureza do coração ou da auto-punição que leva a sofrer somatizações (3ª ba);
  • a coerência pessoal, em vez das ilusões que provocam divisões (4ª ba);
  • a misericórdia/simpatia/compaixão, em vez da desumanidade/insensibilidade/condenação (5ª ba);
  • a purificação das emoções (possibilitada inclusivamente por uma alimentação simples), em vez da intoxicação das ideias provocada por um desregramento corporal (6ª ba);
  • o fazer as pazes com que o há sombrio em cada pessoa, em vez de se gastarem demasiadas energias em não se assumir o mal (7ª ba);
  • uma quietude confiante e fecundidade responsável, em vez da fuga da própria realidade e das ameaças que nos rodeiam, fechando os olhos ao mundo (8ª ba).

A vida longa de alguns idosos, revisitada, pode ser a porta para a valorização dos aspetos mais essenciais da nossa existência que, afinal, não precisam de competir com os calculismos de um mundo que frequentemente os descarta (os idosos e o essencial). No final, fica registada a patente do tipo de coisas ou realidades que tivermos valorizado durante a vida terrena. E a mais essencial é a ternura que, sentida aos ombros dos nossos idosos, faz com que vejamos mais além numa perspetiva de esperança realista. A que verdadeiramente confere felicidade.

Mesmo após a existência terrena, estes “ombros” continuam disponíveis, porque a memória do que viveram e os valores de que deram testemunho são consistentes em si mesmos, não precisando de nenhuma balança comparativa. O Papa Francisco defende que a aliança entre idosos e jovens/crianças salvará a família humana. O testemunho credível de que são portadores os idosos faz com que os mais novos possam ir adiante. “O testemunho dos idosos une as idades da vida e as próprias dimensões do tempo: passado, presente e futuro, porque eles não são apenas a memória, são o presente e também a promessa”.

Ao mesmo tempo em que a despedida entristece o coração, demos graças por tão grandes testemunhas, que nos entusiasmam a continuar a vida com sentido de infinito, onde saber viver e saber morrer formam a mesma conquista.

Assunção de Maria: crente, credível, crida

ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA – Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Sal 44 (45), 10. 11. 12. 16; 1 Cor 15, 20-27; Lc 1, 39-56

Caminho. “Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha, em direção a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel”. Este é o lema escolhido pelo Papa Francisco para animar a Jornada Mundial da Juventude, de 1 a 6 de agosto de 2022, em Lisboa. Este acolhimento de jovens de todo o mundo no nosso país inspira-nos que teremos a oportunidade de sermos como aquela casa de Isabel e de Zacarias, onde poderemos alegrar-nos e dançar ao tom do Magnificat. O abraço entre aquelas duas mulheres, será o abraço de milhares de jovens que, animados por Jesus Cristo, aspiram a um mundo novo.

No dizer de D. Tolentino Mendonça, ao mesmo tempo que faz um caminho físico e geográfico, Maria realiza o seu itinerário interior, numa saída em anúncio, levando Jesus como dádiva que não pode ficar escondida. O relato do Evangelho, parece evocar uma passagem de Isaías, onde se lê: “Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião” (52, 7); e a passagem do Cântico dos Cânticos cantado pela amada: “A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes” (2, 8). A locução maravilhada de Isabel: “E de onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?” remete para expressão do rei David: «E de onde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Sam 6,9).

Abraço. Para todos conseguirmos dar esta abraço, inspirado em Maria e Isabel, temos de viver no presente, não no passado, nem no futuro. Viver a graça desta e de cada hora. Não nos deixemos paralisar pelas amarguras e nostalgias do passado, nem asfixiar pelas incertezas do amanhã, obcecados pelos temores do futuro. Não há outro tempo melhor para cada um de nós do que o presente: agora e aqui, onde estamos, é o único e irrepetível momento para fazermos o bem, para fazermos da vida um presente! A plenitude da vida que esperamos no Céu é um presente do nosso presente. Abracemo-lo! Foi assim que Maria acolheu o Evangelho vivo no seu seio, anunciado pelo Arcanjo, fazendo-a levantar do ânimo que a pôs a caminho para a montanha.

Os “cerca de três meses” que Maria terá permanecido em casa de Isabel evocam, também, os três meses em que a Arca da Aliança ficou em casa de Obed-Edom (2 Sam 6,11). Assim se mostra Maria como a Arca da Nova Aliança, como é aclamada pelo Povo de Deus na recitação da ladainha de Nossa Senhora.

Princípio e promessa. Antes de esta solenidade traçar o itinerário de Maria para a glória do Céu, ela traça-nos o perfil de Maria, movida por uma grande notícia e pelo amor. E neste episódio evangélico está um resumo da vida de Maria: que acreditou, caminhou e se entregou ao projeto divino. Aconteceu com Ela o que diz o bispo italiano venerável D. Tonino Bello: “Se a fé nos faz crentes e a esperança nos faz credíveis, é só a caridade que nos faz acreditados”. Assim, também, Maria é crente porque acolheu o Evangelho, é credível porque caminhou na esperança e crida (acreditada), porque deu a toda a humanidade o seu maior Amor: Jesus.

Este acontecimento principal da Vida do Senhor, dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida de todos os homens. Por isso, é primícias e promessa ao mesmo tempo.

Diz D. António Couto: “Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.”

Pode acontecer que nas nossas vidas, por vezes, em vez de vermos as estrelas que estão na cabeça de Maria, como na visão do Apocalipse, também vejamos os sinais negativos do dragão que quer devorar em nós a fé, a esperança e a caridade. Nestas horas, rezemos como sugere D. Tolentino Mendonça:

«Não importa sermos pequenos, Não importa de que errâncias chegamos. Deus está sempre disposto a procurar-nos e a encher-nos de uma medida transbordante de Amor. E repete-nos: “Ama-Me como tu és, a cada instante e na posição em que te encontras, no fervor ou na secura, na fidelidade ou na infidelidade. Se tu esperas tornar-te primeiro perfeito para então começares a Me amar, não Me amarás nunca. Eu só não te permito uma coisa, que não Me ames. Ama-Me, tal como és. Eu quero o teu coração esfarrapado, o teu olhar indigente, as tuas mãos vazias e pobres. Eu amo-te até ao fundo da tua fraqueza. Eu amo o Amor dos pobres. Eu quero ver no fundo da tua miséria, crescer o Amor e só o Amor. Se para Me amar, tu esperas primeiro ser prefeito, nunca Me amarás. Ama-Me como és!»
D. Tolentino Mendonça

Nunca nos esqueçamos de que “temos Mãe”, como nos lembrou o Papa Francisco em Fátima! É Maria que vela por nós no Céu.

Jesus é um “sapador” e a sua missão é um “contrafogo”

XX Domingo do Tempo Comum (C) ─ Jer 38, 4-6. 8-10; Hebr 12, 1-4; Lc 12, 49-53

Infelizmente, tem acontecido várias vezes o Evangelho deste domingo ser lido ao mesmo tempo em que incêndios destroem vidas e florestas. Por isso, não é fácil ouvir Jesus dizer “Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda?”. Ainda mais porque esta linguagem não é habitual no evangelista Lucas. Porque terá este apóstolo tido necessidade de transmitir estas palavras? Que sentido têm? Como é possível compreendê-las nestas nossas circunstâncias?

O Evangelho deste domingo traça a definição da missão de Jesus, que pode ser entendida com uma linguagem mais negativa relacionada com o julgamento e o castigo, ou com uma linguagem mais positiva sobre a missão de evangelizar. Qual será a linguagem oportuna? Ou mais eficaz?

O que temos vindo a ver nas notícias, sobre o combate aos incêndios, não deixa de ser paradoxal: muitos meios e uma não fácil ou possível resolução rápida, pelas distâncias humanas ou descontinuidade dos terrenos. Por seu lado, aqueles que, aceitando com realismo as más condições o terreno, põem mãos à obra sem calculismos teóricos, arriscando as próprias vidas, porventura criticados como desobedientes a patentes ou procedimentos desajustados à realidade, podem servir de inspiração para a resiliência necessária para a evangelização no meio de contrariedades e tribulações.

Também no tocante à Fé, frequentemente acontece assim: se se andar por aí só a castigar os errantes, a propagação do mal não só não se apaga, como até pode aumentar. Tudo o que se reprime à força tende a reacender-se. Não se quer dizer que a ameaça de castigo ou a aplicação de uma punição, por vezes, não sejam precisos (não só em quem faz o mal, mas também, o que é quase raro, em quem deixa de fazer o bem). A alternativa evangélica é o lançamento do “contrafogo” ou “fogo controlado” da Palavra da verdade e imediatos gestos de misericórdia. Evangelizar não é somente defender a verdade de uma doutrina, mas, sobretudo, dar testemunho da verdade com a própria vida e não demorar a curar as feridas do corpo e da alma.

Quando os sapadores lançam um contrafogo, tentam apagar o incêndio, provocando uma divisão o mais nítida possível entre a área em chamas e a área não queimada. Mas os sapadores não têm só a missão de lançar fogos controlados! Têm a responsabilidade de prevenir com a limpeza que não haja áreas secas combustíveis. Na missão em que o “sapador” Jesus nos quer cúmplices também é assim: cuidar das vidas humanas, para que sejam isentas de mentiras incendiárias e destrutivas, enchendo-as dos dons espirituais que nos garantem a salvação.

Porque onde há fumo quase sempre há fogo, por vezes, nas instituições que têm por missão promover e dinamizar a vida da fé, também pode acontecer o que, pelo menos se insinua acerca de algumas instituições sociais, que têm por tarefa o ordenamento da vida e património humanos: afastam-se os profetas e enaltecem-se os prevaricadores. Quer dizer: calam-se as vozes de pessoas sábias e experientes e promovem-se estratégias pastorais ou sociais ineficazes. Foi o que aconteceu com o profeta Jeremias, preso numa cisterna, atolado no lodo e a passar fome. Começamos a ser cúmplices da verdade e da misericórdia se fizermos como Ebed-Melec, o etíope, denunciando as injustiças e salvando os profetas deste tempo. Foi o que aconteceu com Jesus que, apesar das palavras e gestos reveladores do amor de Deus, acabou no patíbulo da cruz.

A carta aos Hebreus sugere-nos que ser testemunhas da verdade implica libertarmo-nos “de todo o impedimento e do pecado”, para conseguirmos combater o bom combate que será sempre acabar com o mal e defender o bem. Acabar com o sofrimento, ainda que, para isso, seja preciso algum sacrifício (sacrum facere). “Não desistir até ao sangue” implica não desistir de defender quem dá testemunho do bem. E se na defesa das florestas há sapadores e bombeiros que o fazem, na defesa da vida eterna não pode ser o menor esforço a ganhar. Vale mais prevenir com bom ânimo do que combater desorientados.

Este ano, o tema da Semana Nacional da Mobilidade Humana é “Construir o futuro com Migrantes e Refugiados”. Quer os que partem à procura de uma vida melhor, quer os fugitivos da guerra que somos chamados a acolher têm algo a dizer-nos sobre a mobilidade da vida não só no sentido itinerante, mas também sobre os dramas que se vivem no confronto com a realidade descontínua entre sociedades, culturas e formas de viver a fé. Construir o futuro com eles implica um diálogo corajoso, através de uma comunicação não-violenta, juntando os pontos na ambição de nos encontrarmos todos diante de uma realidade maior que, à luz das experiências da Sagrada Escritura, inclui um mais além para o qual somos convocados pelo mistério do amor de Deus. Nesta perspetivas, a divisão entre ideias e ações boas e ideias e ações más poderá vir a promover a união entre as pessoas, não necessariamente ou não meramente nas ligações de sangue, mas até nos relacionamentos mais improváveis. A apagar um grande incêndio, juntam-se, por vezes, pessoas de vários lugares, com histórias diferentes e talentos diferentes. Porque não haveria de ser assim nas dinâmicas da vida da fé?!

A missão de cuidar

Mc 10, 13-16 [Ritual do Batismo, n. 207]

Uma das máximas expressões da ética cristã é a missão de cuidar: os mais pequeninos, os vulneráveis, os idosos, as criancinhas…

O contrário do cuidar é estorvar ou abusar.

O cuidar exige sempre tocar e abraçar: tocar para nutrir, sustentar; abraçar para conter e proteger.

O abuso pode ser, como se tem infelizmente constatado, de poder, de consciência ou sexual. Jamais podemos aceitar que um ato de abuso possa acontecer, uma vez que danifica não só o presente, mas também o futuro dos pequeninos.

O Reino de Deus é feito de amor, fraternidade, justiça e paz. Somos chamados, também, como filhos, a abraçar esse Deus (que é Pai e Mãe), pela felicidade e salvação que Ele nos promete e oferece.

Entrar no Reino implica, como Jesus nos ensina, imitar as qualidades das criancinhas: a inocência, a confiança, a capacidade de se lançarem sem medo nos braços de Deus, como uma criança se lança nos braços de seus pais.

Matrimónio: vocação de especial consagração? Vocação comunitária e vocação pessoal

Mt 19, 3-12

Há muito que defendo, como presbítero no acompanhamento vocacional, que o Matrimónio deveria ser urgentemente considerado como um caminho de especial consagração, onde também podem ser vividos a seu modo os conselhos evangélicos. Santa Joana Francisca de Chantal não consagrou só a sua vida após a morte do marido, sendo que, sob esta perspetiva, o seu percurso passaria por vários modos de consagração especial.

Ser “uma só carne” na liberdade fiel, fecundidade criativa e indissolubilidade esperançosa não é “empresa” fácil, nem é para todas as uniões entre homem e mulher. No entanto, há testemunhos de Matrimónio por detrás do pano de muitas vidas felizes, não reconhecidas por uma mais eficaz pastoral familiar e encobertas por uma sociedade que nos quer impor vários modelos de família, para além dos modelos criados pelas circunstâncias da vida.

Apesar de o Magistério da Igreja refletir sobre o acompanhamento das pessoas em todas as etapas da vida, na prática não é fácil manter os princípios essenciais da vocação comunitária sem perscrutar a diferenciação dos modos que definem os marcos de uma vocação pessoal. A existência desta diferenciação entre etapas e modos é comum a todos os estilos de vida e não é meramente uma constatação da vocação matrimonial, uma vez que as habitualmente chamadas “vocações de especial consagração” também passam por várias idades e circunstâncias.

Raramente se fala da formação permanente dos cônjuges unidos pelo Matrimónio, que certamente enriqueceria as famílias como “alfobres” vocacionais e de onde de espera que novas vocações possam partir como felizes ramificações. Nota-se como necessário este desafio nos pais dos atuais candidatos ao ministério presbiteral, muitas vezes aparecendo como estranhos aos meandros teológicos e práticos do desenvolvimento vocacional dos filhos que entregam à Igreja (vêm-se quase somente entre a porta do Seminário e a da Catedral). A atual Ratio Fundamentalis insiste numa maior interação nem sempre fácil de realizar.

A verdade é que da unidade de vida matrimonial depende, em certa medida, a unidade de vida de todos os vocacionados, seja na vocação presbiteral, seja de qualquer forma de consagração. A dureza do coração é apontada por Jesus como a causa não só das desuniões, mas também da consequente possibilidade de a falta de boas uniões contribuírem para que não haja um dos tipos de “eunucos” (os provocados por famílias destruturadas/destruturantes). Depreende-se das afirmações de Jesus que a questão não é tanto quanto à conveniência do casamento, mas quanto à conveniência de que haja uniões vocacionalmente fecundas. O/a que escolhe o Matrimónio renuncia ao seu passado e à sua terra para se unir ao/à seu/sua cônjuge, para formar com ele/a uma só carne.

Em todas as histórias de vida, cada um/a pode dizer: “a minha vocação é o meu caminho para ser feliz” (D. Ilídio Leandro).

Perdão e compaixão, “arco e corda” para uma “flecha” verdadeiramente livre

Ez 12, 1-12; Sal 77 (78); Mt 18, 21 – 19, 1

Como Santa Clara, antes de conhecer São Francisco de Assis, todos os seres humanos nasceram e cresceram num contexto natural e relacional de presenças e ausências que delimitaram “o arco” e determinaram a tensão da “corda” com que cada um foi lançado na e para a vida.

Eles tentaram e ofenderam o Altíssimo

e não observaram os seus mandamentos.

Foram infiéis e renegados como seus pais,

como flecha errante, desviaram-se do caminho.

Sl 77 (78), 56-57

Estes dois versículos do Salmo 77 (78) trazem à nossa meditação a possibilidade de um ser humano ser, percebendo-se ou não, como “flecha errante”. Nesta tradução, a causa do desvio recai sobre a orientação da própria flecha; na tradução da CEP (cf. http://conferenciaepiscopal.pt/biblia/index.php/Sl_78), a causa do desvio recai sobre o “arco sem força”.

Seja como for, o Evangelho possibilita ao ser humano a mudança quer de arqueiro, quer de arco e corda, quer de tensão, quer de direção, sem ignorar o contexto em que cada ser humano nasceu e cresceu. No entanto, o Reino de Deus é a direção ou o alvo para o qual o Arqueiro nos quer dirigir; o arco é o perdão cuja corda se tange com a força da compaixão.

A verdadeira liberdade deverá ser considerada primeiramente livre de determinismos que condicionem a possibilidade de um recomeço feliz para quem se transviou ou se sentiu errante. Todo o ser humano tem o direito (divino) a sentir-se incondicionalmente amado, como ponto de partida ou de repartida para o horizonte objetivado como o realmente promissor de verdadeira felicidade.

No caso de Clara de Assis, desde cedo que se sentia atraída a praticar a caridade. Porém, o contexto familiar de nobreza e riqueza que lhe queria proporcionar um casamento vantajoso não era o melhor. Para tal, abandonou o seu lar para abraçar a vida de pobreza inspirada em Francisco de Assis.

O Reino de Deus é um Reino de perdoados capazes de se compadecer e perdoar. Para o atingirmos, teremos sempre de partir sempre, da herança natural que recebemos para a herança sobrenatural que nos está prometida. A paciência de Deus será sempre o pano de fundo desta aventura misteriosa.

A pobreza é a maior síntese do amor

Jo 12, 24-26

O mandamento do amor, posto em prática, não pode não ter consequências de interação entre o divino e o humano, sendo que, ao mesmo tempo, implica a vivência de um paradoxo: amar a Deus com todas as faculdades pessoais e ao próximo como a nós mesmos implica, ao mesmo tempo, desprezar a própria vida neste mundo para a conservar para a vida eterna.

A pobreza e o pobre são, por isso, a melhor síntese do amor divino incarnado, porque são, ao mesmo tempo, portadores e destinatários do serviço que o incarna. O mandamento do amor e o desprezo da própria vida em favor dos outros são uma questão do “estar” ou agir e não meramente do pensar ou sentir. “Estar presente” com todas as faculdades da pessoa: coração, alma e entendimento (cf. Mt 22, 30), que poderão traduzir-se por vontade, memória e inteligência.

No momento da perseguição, o mártir São Lourenço estava inteiramente presente nos e com os pobres, o seu maior tesouro.

Meu filho, não temas, porque Eu estou contigo. Se passares pelo meio do fogo, nem a chama te abrasará nem o fumo te fará mal.

Antífona de Benedictus

Concretizando o desafio de estar totalmente presentes, poderemos vir a contemplar a promessa da presença divina nos momentos de maior tribulação. A irrepreensibilidade que São Paulo sugere no “espírito, alma e corpo” (1 Ts 5, 23) possibilita a que possamos contemplar a vinda de Jesus Cristo sem que alguma dimensão do nosso ser possa ficar de fora. O projeto pessoal de vida implica, pois, ter presentes estas dimensões do nosso ser, trabalhando reciprocamente em favor da vontade de Deus. Por vezes, pode acontecer que o espírito e a alma queiram e o corpo não, e vice-versa. Assim, o ato de servir Jesus Cristo implica segui-Lo.

O azeite da caridade na almotolia do coração

Comentário a Os 2, 16b. 21-22 e Mt 25,1-13

Frequentemente, interpretamos o azeite nas almotolias da parábola de Jesus sobre o Reino como sendo sinónimo de oração. A proclamação deste Evangelho na Festa das santas virgens, como Teresa Benedita da Cruz, induz-nos a pensar que elas estiveram sempre a rezar. Não é que a oração não seja um pressuposto de uma vida santa. Porém, o que faz entrar no Reino é a caridade, levada na almotolia do coração, porque distribuída pelo caminho pelos irmãos.

De certeza que Edith Stein rezava. Mas também dedicou a sua vida ao serviço do povo judeu e alemão.

A vida dos santos mostra-nos uma verdadeira síntese entre ascese e mística, quando a lemos à luz do mistério da misericórdia de Deus. O passaporte para o céu, como diz o Papa Francisco, é o pobre. Então, o azeite com que somos convidados a preparar as nossas almotolias não é uma oração desencarnada da realidade, mas a memória da caridade, quer dizer, o que fomos para os outros segundo os talentos e dons que ele semeou nas nossas vidas.

Não dormitar, portanto, significa deixar que o Senhor nos leve para o deserto para nos falar ao coração (talvez seja esta uma boa definição de oração), deixando-nos entusiasmar (quer dizer: deixar ter Deus dentro), para cumprirmos a Sua vontade.

De facto, as nossas boas ações são sempre uma transferência da caridade de Deus para a necessidade dos outros. Portanto, o bem a fazer aos outros não depende de “compras”, mas da forma como somos para eles. A porta do Reino nunca se fechará para quem busca melhorar o seu ser em favor dos outros. As meras compras isolam-nos no egoísmo; a pobreza do deserto em Deus enriquece o nosso ser. O que define melhor a caridade não é o bem que fazemos aos outros com o nosso dinheiro (talvez ande por aqui a definição de justiça); caridade é o que passamos de Deus aos outros (na defesa da verdade, na aclamação dos direitos, na criação de condições, na ajuda ao crescimento do outro e no seu cuidado, etc.) através da essencialidade do nosso ser.