navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: At 1, 1-11; Sl 46 (47), 2-3. 6-7. 8-9 L 2: Ef 1, 17-23; Ev: Mt 28, 16-20, no Domingo VII da Páscoa ─ Solenidade da Ascensão do Senhor; 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Homilia inspirada, em parte, na reflexão do Pe. Pedro Rodrigues (Liturgia Diária Paulus)

Após 40 dias da Ressurreição, Jesus eleva-Se ao Céu diante dos discípulos, não para se ausentar, mas para inaugurar uma nova forma de presença. Durante os primeira etapa do tempo pascal, a Liturgia da Palavra ajudou-nos a aprofundar a pedagogia da iniciação cristã, com os seus conteúdos e sinais; a segunda parte da páscoa até a estes últimos dias, o Senhor andou a preparar os discípulos para a sua partida, como condição para que Ele possa enviar-lhes o Espírito Santo, o outro Defensor ou Paráclito, para a missão.

Aprendi numa disciplina chamada de integração psico-espiritual, com a ajuda de uma obra intitulada “desenvolvimento humano, psicologia e mistério” (do italiano Franco Imoda), que o crescimento da pessoa acontece necessariamente com a interação de 3 fatores: presença + ausência + estádios ou etapas. É assim com a história da Igreja no caminho da instauração do Reino de Deus e é assim na vida das comunidades e das pessoas crentes. Se o Senhor não se ausentasse fisicamente, nunca poderíamos vir a ser cristãos maduros, a pontos de aceitarmos com liberdade e responsabilidade uma missão concreta.

De que forma é que vemos este processo acontecer através do Evangelho desta solenidade? Vejamos:

1) O contexto geográfico, que também pode implica uma viagem na memória da vocação dos discípulos, é a Galileia, o lugar das origens do chamamento, onde tudo começou. Foi ali que Jesus chamou os primeiros discípulos e anunciou o Reino. Voltar ali, significa retomar a experiência inicial do encontro com o Senhor. Antes de os enviar em missão, recondu-los à memória do primeiro amor, que é sempre um amor incondicional. E chamá-los ao monte, lugar da revelação, é fazê-los reviver não só o seu chamamento, mas a memória do povo: também Moisés e Elias subiram ao monte para se deixarem amar e receberem uma missão específica.

2) Um segundo aspeto de como vivemos o nosso desenvolvimento humano crente, é que vivemos num misto de adoração e de dúvida. A fé cristã não é isenta de hesitações. Santo Agostinho comenta que «a fé que procura compreender é já fé; a dúvida que busca é o prelúdio da visão». A Ascensão não elimina as fragilidades humanas, mas assume-as para transformá-las em missão. No Evangelho, não escutámos Mateus a comentar a dúvida dos discípulos, mas a enviá-los em missão a todos. Não enviou só os que o adoraram sem mais. A missão sem a dúvida pode levar-nos, por vezes, por becos de uma espiritualidade mundana sem saída.

3) Um terceiro aspeto que podemos refletir é que Jesus, com a sua nova forma de estar, não só universaliza a Sua presença no meio da humanidade, como a torna mais profunda, uma vez que leva com Ele, também, a nossa humidade para o seio da Santíssima Trindade. Como dizia São Leão Magno, «A ascensão de Cristo é a exaltação da nossa natureza e a glória da Cabeça é, também, a esperança do Corpo». Com a sua ascensão, Jesus passa a estar mais perto de nós, de todos, na profundidade do ser de cada pessoa.

4) Depois, vem o «Ide, pois, e fazei discípulos entre todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo». Jesus não disse meramente “pregai”, nem vive entre vós o melhor que puderes para garantir um lugar no Céu. A expansão da presença de Jesus, que vai sempre à frente dos seus discípulos, implica a expansão do Reino. É para isso que fundou a sua Igreja, que quer dizer a comunhão dos convocados em missão. No caminho para o Céu, há ainda muitos “apeadeiros” que os cristãos terão de visitar: o coração daqueles que ainda não encontraram Deus como Pai. Cada um de nós é chamado, nesta experiência do “nós” eclesial a aproveitar o Espírito Santo para levar a salvação a outros. Se estivermos sós, a nossa fragilidade não nos servirá de nada; se evangelizarmos a partir do nós, o Espírito Santo pegará nas nossas fragilidades e fará maravilhas!

5) Por fim, Jesus promete-nos estar sempre connosco até ao fim dos tempos. Será para sempre o «Deus connosco» anunciado na Encarnação. Por isso, diz-se que a Ascensão é, portanto, o coroamento da Encarnação. Aquele que desceu para nos salvar sobe levando-nos Consigo. Ao refletir neste aspeto particular da Ascensão do Senhor, veio-me à mente a imagem do hidroavião “Canadair” que, para ajudar a apagar incêndios, baixa ao rio, apanha a águia o mais que puder e, ao subir, no ar, asperge essa água sobre o fogo. Assim, na Encarnação Jesus assumiu a nossa humanidade (água) e elevando-nos Consigo, lança-nos na missão da evangelização, para uma nova humanidade. Por isso, a Ascensão é um convite à esperança; não é o fim da história, mas o começo da missão, com os corações ao alto e os pés na terra. O Senhor foi elevado à glória do Pai para agora continuar presente nos Sacramentos, na Palavra, na comunidade reunida, nos pobres e nos que anunciam o Evangelho. João Paulo II dizia que «a Ascensão não afastou Cristo da humanidade; ao contrário, introduziu-O definitivamente no coração de cada homem», agora no Espírito Santo, que move a Igreja, sustenta a esperança e renova o mundo.

Portanto, hoje não celebramos uma despedida, mas uma comunhão mais profunda. Que esta certeza fortaleça a nossa fé e renove a nossa missão. Neste 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Santo Padre convida-nos a Preservar vozes e rostos humanos, como algo sagrado que Deus nos deu para comunicarmos uns com os outros. E a ter cuidado com as tecnologias digitais que podem impedir a empatia e amizade entre todos, no sentido de uma comunicação mais profunda. Por isso, pede-nos que não renunciamos ao próprio pensamento e que sejamos, não finjamos. Para que seja cada vez mais possível vivermos uma relação de aliança, através de ações que são os seus três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.