Favoritismo e indiferença, as máscaras modernas dos dois pecados originais que nos impedem de pertencer à família universal

[Leitura] Gen 3, 9-15; 2 Cor 4, 13 – 5, 1; Mc 3, 20-35

[Meditação] O Papa Francisco, no segundo capítulo da sua recente Exortação Apostólica “Alegrai-vos e exultai”, alerta-nos contra o individualismo e o desprezo do corpo, como inimigos da Santidade e máscaras de duas heresias antigas: o pelagianismo e o gnosticismo. Portanto, este desprezo noegnóstico do corpo e o individualismo neopelagiano podem ser, precisamente, ramificações consequentes daqueles pecados contra os dois valores fundamentais da humanidade:

1º — Ser criatura. É um valor fundamental de que o ser humano se esquece quando ignora Deus e se substituiu a Ele. Daqui deriva todo o tipo de desvio do próprio ser. Não admira, pois, que Deus pergunte: «Onde estás?». Esta provocação precisa de uma resposta não geográfica, mas ontológica: onde estarei eu quanto ao “espaço”de criatura que me foi dado, para expandir dentro dos “limites” da vida terrena que me podem possibilitar alcançar a plenitude da vida eterna? Contra o valor e a dignidade de ser simplesmente criatura derivará o tal desprezo do corpo como espaço digno, não só de ser morada de Deus criador, mas também de ser meio de comunicação da Sua graça. Substituir Deus é o primeiro pecado original contra o qual é preciso lutar com uma alta consideração e cuidado para com o corpo, sem favoritismos ou nepotismos que substituam Deus de determinar o que é bem e o que é mal, objetivamente.

2º — Ser irmão/irmã. O segundo pecado original aconteceu desde que a terra foi manchada com o sangue de um irmão (na dramática história de Caim e Abel). O individualismo levam a pensar erradamente que o outro não importe, na hora de considerar a dignidade de cada um e de cada uma. Deste individualismo deriva a indiferença que impede de responder à pergunta divina: «Onde está o teu irmão?».

Ora, para Jesus, considerado louco pelos seus familiares e um estorvo para os chefes religiosos/políticos da comunidade do seu tempo, a familiaridade que confere a cidadania do Reino de Deus é, simplesmente, ouvir a Palavra de Deus e pô-la em prática. Trata-se de uma familiaridade universal e não um “gueto” de cumpridores. As leituras deste 10ç domingo do tempo comum são claras quanto à responsabilidade que a Igreja tem de lutar contra todo o tipo de favoritismo que, automaticamente, gera a indiferença para com os que sofrem e são marginalizados, para alguns viverem dentro de uma redoma de bem-estar eclesial e social, até ao ponto de haver envolvimentos aparentemente santos para se tirar proveitos que não têm a ver com os preceitos de Deus.

Vamos, como nos sugere São Paulo, vigiar a nossa vida, construindo a nossa unidade interior que nos torne capazes de ter um comportamento exterior em conformidade com a Palavra de Deus. Peçamos por intermédio de Maria, Aquela que com a máxima docilidade ao Espírito Santo nos deu à luz o Verbo feito carne, que as nossas famílias e comunidades cristãs sejam inclusivas de todos e não exclusivistas.

Responder à divina “pergunta bisturi” «Que fizeste?» é a melhor forma de vigiarmos a nossa ação exterior, sempre ligada às nossas disposições exteriores, para não andarmos indefinidamente a obedecermos a mecanismos de defesa próprios da infância e da adolescência que, embora naquelas idades sejam aceitáveis, na vida adulta nos impedem de viver a “loucura” que não escandaliza os destinatários do Evangelho, e nos fazem viver uma anormalidade e indignidade próprio de criaturas e filhos/as de Deus (como a “transferência” da responsabilidade para a serpente!!).

O que desejarmos pedir aos outros, mais fortes, peçamos primeiro ao nosso Bom Deus. Ele, desde a nossa consciência, fará as perguntas que nos ajudarão a encontrar as respostas convenientes, para o nosso bem e o bem de todos.

[Oração] Sal 129 (130)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

As discussões no caminho de santidade nem sempre têm a ver com a meta correspondente

[Leitura] Tg 4, 1-10; Mc 9, 30-37

[Meditação] Não tem sido infrequente o diálogo sobre a diferença entre fazer o Caminho de Santiago e de Peregrinar até Fátima, apontando como diferenças a acentuação da importância dos benefícios do caminho no primeiro caso e do cumprimento da promessa de chegar à meta no segundo caso. Nem sempre os argumentos são fáceis de harmonizar entre estas duas experiências espirituais, descobrindo-se uma dialética entre elas, talvez nunca possível de remover, tal a sua ligação com a sua correspondência ao núcleo da alma humana.

A pergunta de Jesus − «Que discutíeis no caminho?» − prende-se com a qualidade de uma peregrinação que vai desde o interior de cada um até à meta que Ele estava a agendar no seu programa: «O Filho do homem vai ser entregue… mas Ele, três dias depois…» Como os discípulos ficaram calados, não tendo uma resposta satisfatória quanto à correspondência entre “meio” e “fim”, Ele propõe-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». Esta resposta diz-lhes que a meta (ser o primeiro) terá de implicar, no caminho, a diligência do serviço.

Não é à toa que, no Caminho de Santiago, há uma regra fundamental para quem vai num grupo: o que estiver com menos condições físicas para caminhar é que marca o ritmo do caminho, ficando todos os outros atrás e ao lado. Este critério penso estar em sintonia com o remate final do Mestre: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

[Oração] Sal 54 (55)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A graça da cura vem sempre depois da oração coleta

[Leitura] Tg 3, 13-18; Sal 18 B (19B), 8. 9. 10. 15; Mc 9, 14-29

[Meditação] Na segunda-feira após o Pentecostes, a Igreja, pela primeira vez, convidou-nos a celebrar a Memória obrigatória dedicada à Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja. É uma boa forma de retomarmos a vivência/celebração do Tempo Comum, desta vez na 7ª semana do mesmo. O trecho do Evangelho, tomado do lecionário ferial (só nas Festas é que se costumam tomar do Santoral ou caso as razões pastorais o inspirem), faz-nos contemplar uma cura que tem a ver com a relação entre um pai e um filho.

O primeiro aspeto que ouso partilhar, fruto da minha humilde reflexão é o de que, frequentemente, nos esquecemos que a Oração coleta (da Missa principalmente) não serve só para convocar os fiéis, mas também para invocar (como o conteúdo da mesma sempre insinua) a graça do Senhor que está quando dois ou três se reúnem em nome d’Ele (cf. Mt 18, 20). Portanto, coletam-se os fiéis para, juntos, se coletar a graça que o Senhor oferece pelo Sacramento. Foi o que Jesus conseguiu no final e apesar de tudo, com a oração unânime ao Pai, no mesmo Espírito Santo.

O segundo aspeto, partilho-o em comunhão com a análise psico-esiritual de Anselm Grün e Maria-M. Robben (em “Come curare le ferite dell’infanzia”), que sugerem que o capítulo novo do evangelho segundo S. Marcos se dedica à cura na relação pai-filho. Sem culpar o pai de tal possessão, quer analisar-se tal relação que por vezes é falida: o pai diz que o filho está possesso por um espírito impuro; por sua parte, o filho não emite nenhum som, mas manifesta-se de muitas outras maneiras (ficando rígido e espumando…). Na verdade, na relação com o pai, não encontrou espaço para falar de si e dos próprios sentimentos. Entre os dois há uma ausência total de comunicação. Não têm mais nada para se dizerem. Talvez a mudez do filho nos reenvie para uma mudez do pai, uma vez que talvez o pai também não tenha conseguido nunca emitir os seus sentimentos reais, mas apenas descrever os sinais da doença do filho.

O terceiro aspeto é a afirmação de que, frequentemente, a cura de alguém como um filho pode implicar a cura do pai (o mesmo se pode considerar entre uma filha e a própria mãe), o que permitirá a cura da relação entre ambos. Naquele cenário, podemos olhar para o fogo para o qual as forças do mal atiram o filho como se se tratasse a paixão, a sexualidade, a agressividade; e a água como símbolo do inconsciente em que ficam “arquivadas” todas as forças que “falam” sem palavras, mas com sintomas físicos que acabam por declarar o que existiu ou não existiu no crescimento de um filho. É curioso que aquele pai não peça a cura só para o seu filho: «Mas se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e socorre-nos». Pede para a relação recíproca.

O quarto e último aspeto é o da fé que preside à oração. Declara-lhe Jesus: «Se posso?… Tudo é possível a quem acredita». Por um lado, sugere àquele pai que também ele pode, desde a fé no Pai do céu, curar o filho a partir de uma nova relação com ele. Este filho levanta-se, apoiado pela mão de Jesus e, também, no descanso de uma nova relação com o pai. Aos discípulos diz o mesmo: não se pode curar estas doenças a não ser pela oração. Deixemos, hoje, que Maria nos inspire desde a sua capacidade de crer, mantendo os discípulos em oração no cenáculo na espera do Espírito Consolador, tão necessário nos relacionamentos humanos, para que, pelos mesmos, nos sintamos parte de um só Corpo, o do Filho Unigénito do Pai.

[Oração] Desde sempre que os filhos, para obter algo dos pais, frequentemente foram ter com as mães, em primeiro lugar ou reenviados por eles, para se obter a satisfação dos desejos filiais. Rezemos, pois, à Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja:

Ó Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe santíssima, abençoai as nossas crianças e a sua relação com os pais, a quem as confiais. Guardai-as com cuidado maternal, para que nenhuma delas se perca. Defendei-as contra as ciladas do inimigo e contra os escândalos do mundo, para que sejam sempre humildes, mansas e puras. Ó Mãe nossa, Mãe de misericórdia, rogai por nós e, depois desta vida, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre. Ó Clemente, ó Piedosa, ó Doce sempre virgem Maria. Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Will… Willing… Willingness… na resposta ao Amor do Bom Pastor

[Leitura] Act 25, 13b-21; Jo 21, 15-19

[Meditação] Nas vésperas do Pentecostes, Jesus não nos deixa por menos: com as perguntas que faz a Pedro, após a Ressurreição, quer certificar-Se que também nós, antes de recebermos o Espírito Santo que nos impele à missão da Igreja, respondamos ao Seu Amor (que é, na verdade, o próprio Espírito Santo), respeitando a gradualidade no crescimento da nossa resposta para o Amor.

Na língua inglesa, há três palavras que nos ajudam a “dissecar” a expressão da nossa “vontade” na resposta ao seguimento apostólico do Senhor:

1. Will será a prontidão ou a capacidade de tomar decisões; pode ser o “primeiriar-se” proposto pelo Papa Francisco na “Alegria do Evangelho” (n.º 24). Depois da primeira resposta de Pedro à pergunta «Tu amas-me mais do que estes?», Jesus pede que o Apóstolo apascente os seus cordeiros. Dá-nos a impressão que o Senhor o queira colocar em estágio, cuidando daqueles que oferecem menos resistência.

2. Willing será disposição correta que permite atuar através de decisões. Depois da seguna resposta, o Senhor pede que Pedro apascente as suas ovelhas. Dá a impressão que Pedro já passou o estágio, sendo capaz de acompanhar os cristãos adultos.

3. Willingness será o estado no qual o sujeito não tem necessidade de persuasão para tomar decisões; potência a responder; predisposição, estado de prontidão para uma decisão, de forma permanente, na fidelidade. À terceira resposta, Jesus não só pede que Pedro continue a apascentar as suas ovelhas, como insinua que ele mesmo será um “cordeiro” a ser levado para onde ele não quer, como Jesus, que foi como que «um cordeiro levado para o matadouro», quando deu a Sua vida na Cruz.

Neste texto do Evangelho, contemplamos a pedagogia de Jesus que pode e deve ser imitada pelos pedagogos cristãos de hoje (educadores e formadores), em que a formação do coração coloca questões à espera de respostas, no crescimento em maturidade que permita sair de uma comunidade educadora para uma Igreja em saída numa contínua missão em formação.

[Oração] Sal 102 (103)

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Da nascente da vida para o mar da felicidade, só pelo rio da identidade e o barco da pertença

[Leitura] Act 3, 13-15. 17-19; Sal 4, 2. 4. 7. 9; 1 Jo 2, 1-5a; Lc 24, 35-48

[Meditação] Vivemos momentos conturbados no que toca às dimensões da identidade e da pertença da pessoa humana. A descoberta de uma identidade saudável está a ser posta em causa com a recente decisão parlamentar da possibilidade da mudança de sexo no registo civil aos 16 anos de idade. A consciência de uma séria pertença é, a meu ver, posta em causa com a possibilidade de desistir ou levar a desistir da vida com a proposta da eutanásia em estudo. Como é que os nossos atuais cristãos e, concretamente, os católicos que estão a celebrar a Páscoa refletirão estes assuntos?

A liturgia da Palavra deste 3º Domingo da Páscoa ajuda-nos, precisamente, a descrever qual a direção do “leme” de um pensamento sério e postura leal à verdade, sobre quer a origem, quer a finalidade da vida humana. Vejamos:

Deus criador é fonte de vida. E a natureza, com as suas leis próprias, está antes da cultura (que pode ser manipulada pelo ser humano, nomeadamente como está a acontecer com a sugestão da ideologia de género!).

A vida humana é sempre um desígnio de amor vocacional. O diálogo íntimo entre Deus e cada ser humano desenvolve-se na abertura a um horizonte de felicidade longínquo, muito para além do que se vê na experiência terrena.

A identidade pessoal é uma “ilha paradisíaca”… ou pelo menos a procura do prazer inicial de viver em si e a partir de um si próprio saudável, capaz de sonhar. Esta identidade já não se pode construir sem uma referência à alteridade, mesmo correndo o risco do mal (cf. Génesis 3).

A pertença é uma “fábrica” de pontes. As pontes para o sentimento de utilidade numa missão não prescinde de um indivíduo presente em si próprio com uma identidade em consolidação contínua, nem a consciência de ligação fundamental com as mediações que Deus coloca no nosso caminho, desde o nascimento até à morte. A pertença (a uma comunidade, a um movimento, a um grupo) ajuda a dar o melhor de si mesmo numa missão útil, dentro de um código de valores que prometam um sucesso, também ele vislumbrado como ligado ao mistério que nos transcende e nos habita ao mesmo tempo.

Não é por acaso que o Papa Francisco, ao falar aos jovens, sublinha-lhes a importância de estar ligados aos “velhos sonhadores” que são os seus antepassados, para que eles próprios saibam ser “jovens profetas” (cf. FRANCISCO, uma conversa com THOMAS LEONCINI, Deus é Jovem, Ed. Planeta). Como é que poderá ser assim, se “eutanasiarmos” a memória do passado e se “castrarmos” a descoberta da verdadeira identidade de cada um e uma?

(Em atualização)

[Oração] Oração pelas Vocações:

Jesus Cristo,
amor do Pai,
que nos chamas, hoje,
a escutar a voz do Espírito Santo,
na experiência quotidiana;
ensina-nos a discernir
a própria vocação,
fruto da graça do Batismo,
para vivermos o dom da fé,
imensamente amados por Deus,
e responder com confiança
ao chamamento,
para servir a Alegria do Evangelho,
como a jovem Maria,
Tua e nossa Mãe.
Ámen.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

[Subsídios para a 55ª Semana de Oração pelas Vocações] AQUI

As curas de Jesus restituem não só o direito à cidadania na terra, mas também à do Reino de Deus!

[Leitura] Lev 13, 1-2. 44-46; 1 Cor 10, 31– 11, 1; Mc 1, 40-45

[Meditação] Durante este fim-de-semana pudemos observar na comunicação social a falta de unanimidade quanto à forma de acompanhar os divorciados recasados. Não sei se pesou mais a vontade de alguns agentes de comunicação social quererem dividir os pastores da Igreja Católica ou se a antecipada falta de comunhão intraeclesial na pedagogia pastoral quanto a esse acompanhamento.

O Papa Francisco, em A alegria do Amor, propôs-nos três passos − acompanhar, discernir, integrar − como forma de abordar aqueles e aquelas que estiverem a viver circunstâncias irregulares quanto ao ideal de vida que é a Família no Matrimónio.

[Oração] Do Dia Mundial do Doente:

Santa Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe,
ensinai-nos a acreditar, a esperar e a amar.
Jesus disse-vos na Cruz:
“Mulher, eis o teu filho”.
Com estas palavras abriu-se, para todos nós,
o vosso coração materno.
“Temos Mãe!”
Confortai-nos, Senhora nossa, com a vossa ternura,
e indicai-nos o caminho para o Reino.
Santa Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe,
somos filhos vossos!
Confiamo-nos ao vosso coração de Mãe
em todos os dias da nossa vida. Ámen.

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A cura humana depende do diálogo com/sobre o mal

[Leitura] 2 Sam 15, 13-14. 30: 16, 5-13a; Mc 5, 1-20

[Meditação] No IV domingo do tempo comum, vimos como a Sabedoria de Deus presenta em Jesus repreende e manda calar o sofrimento daquele homem aprisionado por um espírito impuro. Nesta segunda-feira desta IV semana, o mesmo evangelista narra-nos um outro episódio em que é uma Legião de espíritos a aprisionar outro homem; e mesmo esta possessão não passa despercebida ao Filho de Deus que veio salvar a humanidade de todos os males.

Como se verifica no relato, a atitude de Jesus, diante dos males que assolam a humanidade, é a da autoridade mediada pela compreensão e o diálogo, precisamente, com o mal que atormenta a pessoa. Não é assim que fazem os médicos, tentando apurar as causas da dor dos seus pacientes? Como não haveria de ser assim com os que sofrem de males racionais e espirituais?  Porque haverão os confessores e diretores espritiuais partir para o conselho sem escutar os reais problemas que oprimem as pessoas crentes?

Pois, a postura de Jesus é a da compreensão e não a rotulação do mal, para que a pessoa saia ilesa e não danificada pelo mal. O seu poder faz com que o mal “se prostre” diante d’Ele , que é Resposta terapêutica. Penso que também podemos ir até Jesus, uma vez que somos todos frágeis, não com respostas (frequentemente acríticas e rotuladoras), mas com perguntas, na tentativa de encontrarmos n’Ele a resposta que confere sentido ao nosso viver, com e apesar do sofrimento, de cujos maiores danos Ele nos quer salvar.

[Oração] Sal 3

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

É a sabedoria do Evangelho que nos ajuda a calar as falsas teorias!

[Leitura] Deut 18, 15-20; 1 Cor 7, 32-35; Mc 1, 21-28

[Meditação] Não é infrequente ouvirmos falar do descarte de pessoas por parte de instituições civis e religiosas, quando as mesmas pessoas não cumprem o requisito pressuposto por essas instituições, como se o mistério das pessoas e, até, o sucesso dessas instituições estivesse num conjunto inflexível de pré-requisitos. Assim funcionavam os escribas e vejam como foram postos à prova, na Sinagoga, diante da nova doutrina de Jesus.

A autoridade de Jesus não se impunha, mas atraía o coração dos simples que se admiravam com a sua nova doutrina, não porque não era séria, mas porque prometia melhor ajudar a conjugar o mistério do ser humano que as leis fechadas da autoridade judaica. É curioso que neste sábado 27 de janeiro celebrámos o 73º aniversário da libertação de Auschwitz com o intitulado Dia Internacional da Memória do Holocausto. A humanidade, mesmo conquistando o conhecimento com bravura, nem sempre o soube propor em favor da vocação universal da humanidade. E, como dizia Cícero, “Não basta conquistar a sabedoria, é preciso usá-la”.

Também hoje, diante das situações mais adversas que assolam a paz da humanidade, com tantos conhecimentos não fáceis de gerir, por vezes, apresentam-se ou vendem-se muitas formas de solução, nem sempre governadas pela sabedoria de alguém superior ao ser humano, como é a Sabedoria de Deus encarnada em Jesus Cristo. Refiro-me desfasamento entre a psiquiatria, psicologia, exorcismos, etc. e o relacionamento humano optimizado por uma luz que nos transcende, por si só capaz de melhorar qualquer terapia científica. Quem pode avaliar o poder de um sorriso? Quem pode ignorar o poder de um forte abraço?

Entre todas as soluções para os problemas que atingem a essencial felicidade do ser humano, é a Palavra de Deus em Jesus Cristo (suas palavras circunstancias e gestos oportunos) que perdura como autoridade eterna, acessível às pessoas de toda a história (através da transmissão fiel na pregação e na ação!). A Semana do Consagrado que na sexta-feira iniciou pode inspirar-nos a viver a pessoal vocação (seja ela o matrimónio, o sacerdócio, o diaconado permanente ou outro tipo de opção fundamental de vida e de serviço) como “exorcismo” do mal que não é nada mais nada menos que a preservação da “imagem e semelhança de Deus” em nós.

[Oração] Sal 94 (95)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

O conforto de qualquer berço é o afeto de uma relação que se complemente

[Leitura] 2 Sam 7, 1-5. 8b-12. 14a. 16; Sal 88 (89), 2-3. 4-5. 27 e 29;Rom 16, 25-27; Lc 1, 26-38

[Meditação] Estou convencido que o crescimento harmónico de uma criança está baseado na contemplação de uma boa relação entre o seu pai e a sua mãe, mais do que a relação direta de um destes dois para com o novo ser humano, apesar da importância do papel diferenciado dos dois progenitores para a descoberta da sua identidade.

Se isto é verdade para a vida de um ser humano, no caso de Jesus como Emanuel Deus-connosco, o seu crescimento harmonioso, aquém de precisar de José, necessitou da complementaridade entre Maria e a Palavra eterna. O mais extraordinário do Natal, no meu modo humildemente assombrado de ver, é que se não fosse a força desta Palavra divina, acolhida em Maria com um regaço generoso, a Redenção não teria tocado a Criação.

A teologia deste IV domingo do Advento serve bem quer para justificar a divindade de Jesus nascido da virgindade de Maria, quer para compreender a necessidade da complementaridade de José, sem o qual Maria não teria conseguido levar este nascimento avante, em favor da humanidade. De facto, quantos aspetos do projeto de Deus ainda não foram levados a cabo, por causa da falta de harmonia entre vontades complementares?!

[Oração] Para rezar em Família:

Vinde, Senhor, pois estamos prontos para fazer do nosso coração o vosso berço de paz. Vinde, Senhor, porque estamos prontos para fazer da nossa vida a vossa tenda de abrigo. Vinde, Senhor Jesus! Vinde salvar-nos!

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

A gramática para se saber desfrutar a alegria cristã

[Leitura] Is 61, 1-2a. 10-11; Sal Lc 1, 46b-48. 49-50. 53-54; 1 Tes 5, 16-24; Jo 1, 6-8. 19-28

[Meditação] Costuma dizer-se que o excesso de passado gera a depressão, o excesso de presente gera estresse e o excesso de futuro gera ansiedade. E parece ser verdade, mesmo constatando que muitas pessoas escondem estas perturbações por detrás de momentos divertidos por uma alegria aparente.

A Palavra do III Domingo do Advento, chamado de “Laetare” (da Alegria) ajuda-nos a perceber a gramática que, se declinada com serenidade, coragem e abertura, poderá levar-nos a experimentar graciosamente a alegria prometida por Jesus Cristo e já presente no Seu Nascimento, assim como na sua vinda constante às nossas vidas:

1) Memória. O Prólogo de João (o evangelista) é um convite a remontarmos à eternidade para saber da origem de Jesus Cristo, para não ficarmos só pela contemplação da sua carne. Ele é o Verbo eterno do Pai! Assim, também, cada ser humano pode considerar-se filho no Filho, não só por ter um corpo, mas também por uma existência sonhada e querida pelo mesmo Pai, de maneira que a devemos a esse eterno Amor, também com a colaboração dos pais terrenos, assim como para Jesus foi importante a missão de Maria, José e João Batista (o Precursor que aponta e não substitui). Revisitar o passado, nesta ótica, implica a aceitar purificação da memória dos maus acontecimentos (inclusive, do próprio pecado) e constatar, na fé, do bem que Deus nos proporcionou.

2) Irrepreensibilidade. Para o Apóstolo Paulo, o ser humano é um todo formado de sarx, anima e pneuma. Ou seja: uma unidade complexa formada de corpo, psique e espírito. Não basta estar bem fisicamente para experimentarmos a alegria (é frequente estar com pessoas doentes que me transmitem mais alegria do que aquela que, por vezes, sinto!). Também são tão necessárias a inteligência espiritual e emocional para que a experiência da alegria nos tire daquela tensão a que chamamos estresse que, por vezes, não nos deixa comunicar com o corpo, nem sentir paz, nem, até, rezar. Experimentar a alegria cristã implica o cuidado (a irrepeensibilidade) para com essas três dimensões.

3) Abertura à novidade. Se esta atitude diante da novidade da graça de Deus, como é que a alegria cristã pode ser oferta de Deus, antes que esforço do ser humano? Se fosse um bem comprado nos hipermercados, há muito que teria acabado. Mas… continuar a “nascer” e a “renascer” em cada criança e em cada etapa do nosso viver. E, como nos anuncia o Profeta Isaías, é uma possibilidade para os mais necessitados, diante de tanta indiferença humana para com os pobres e marginalizados por diversas causas. Por isso, os tradicionalismos humanos são o pior “berço” para a alegria cristã. A Tradição da Igreja, por outro lado, procura profetizar, celebrar e anunciar esta Luz que aclara a vida humana, denunciando tudo o que a pode ofuscar.

Também o Papa Francisco tem vindo a ser um “precursor” da nossa alegria cristã, apontando-nos novos caminhos que dependem mais do encontro (físico, psíquico e espiritual) com Jesus, do que com algum empreendedorismo humano caro (porque cansativo e estressante) que possamos fazer:

A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos.

O grande risco do mundo actual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado.

A Alegria do Evangelho, nn. 1-2

[Oração] Rezar em família:

Senhor, faz de nós uma família feliz, capaz de contagiar esta alegria junto de outras famílias. Que saibamos inventar mais momentos de convívio familiar, seja à ‘volta da lareira’, seja ao ar livre com a Natureza!

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo