As duas faces da porta da salvação: do lado do Reino a gratuidade; do lado do mundo a gratidão

[Leitura] Rom 3, 21-30a; Lc 11, 47-54

[Meditação] A liturgia de hoje pode ajudar-nos a perceber a caraterística da omnipotência no confronto com Deus. A sua omnipotência é absolutamente amorosa; a “omnipotência” do homem é absolutamente presunçosa, quando existe, excetuando na infância, compreensível por causa da total dependência dos progenitores.

A salvação é sempre uma graça gratuita! O nosso esforço em acolhê-la não pode acrescentar nada como não pode diminuir em nada o mérito infinito do amor de Deus. Esta nossa convicção não infravaloriza o esforço humano. Pelo contrário, enaltece-o já desde o interior de cada pessoa, onde o Espírito atua.

A omnipotência de Deus salva-nos; a nossa presunção pode afastar-nos dela, como nos pode levar a “matar” a salvação própria e dos outros. Portanto, a justiça que salva é Deus que a cumpre (estará, porventura, aqui o sentido da “justificação” paulina). O ser humano pode ou não exercer a sua liberdade em acolhê-la e pactuar com ela nas suas (consider)ações colaborativas. De uma vez por todas: não deixemos de fazer boas ações, mas sem nos estarmos a elevar mais do que Deus nos eleva (pois não é possível!)

[Oração] Sal 129 (130)

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As necessidades básicas dos outros não incomodam os que servem o Senhor

[Leitura] Mal 3, 13-20a; Lc 11, 5-13

[Meditação] Deus nunca se cansa, porque o amor não descansa. O ser humano é que se cansa de contemplar o amor na sua dupla face de receber e partilhar, esquecendo-se da gratidão que gera a comunhão. O Papa Francisco já nos lembrou que Deus nunca se cansa de perdoar, nós é que nos esquecemos de Lhe pedir perdão. No entanto, a história de Deus com a humanidade não é só uma história de pecado humano; é uma história de fidelidade divina ao projeto da Criação. Aquém do pecado há toda uma precedência do amor paciente de Deus sobre o qual se constrói toda a história da humanidade e de cada homem e mulher em particular, em todas as condições mais básicas foram previstas por Ele para que o se humano possam viver.

A experiência de cada ser humano é marcada por diversos tipos de necessidade dentro das dimensões física, psíquica e de realização ou busca de sentido da vida. Estas, apesar de estarem no ADN da criação do ser humano, reclamam, no plano da redenção, uma fraternidade universal. A partir desta relação, não basta perguntar se o ser humano se portou ou não bem; é necessário perguntar, na sua situação, se tem o básico que precisa para empreender o caminho que o constrói de encontro à imagem do Criador.

Aqueles que temem o Senhor não fecham as portas da caridade, sabendo que esta ressoa com o alarme da insistência de quem precisa da satisfação de necessidades básicas como as que estão na pirâmide acima. À luz da Palavra, afirmamos convictamente que, no topo, está o Espírito Santo, o Amor de Deus, o bem ainda mais básico que todos os bens, sem o qual se experimenta a mais dramática das pobrezas. A maldade está em não reconhecermos estas necessidades mais básicas como património de toda a humanidade. A bondade está na imitação da forma de Deus Pai nos amar.

[Oração] Sal 1, 1-2. 3. 4 e 6

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A misericórdia do Pai é de uma irracionalidade humoradamente racional

[Leitura] Jonas 4, 1-11; Lc 11, 1-4

[Meditação] Estou a imaginar Jonas com ciúmes, um arquétipo do filho mais velho da parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32): foi chamado a anunciar a conversão aos ninivitas e eles converteram-se diante do amor de Deus. Terá tido Jonas desejos de vingança ao ver a vida que os ninivitas levavam, face aos seus esforços de obediência a Deus? De facto, a misericórdia divina é de uma grande irracionalidade para a lógica humana.

No entanto, a Deus não escapa o drama de Jonas: monitoriza a sua irritação ajudando a racionalizar as suas motivações e a tomar consciência do seu mecanismo de transferência injusta entre o rícino e os ninivitas.

No Evangelho, encontramo-nos com a melhor escola de relação com Deus Pai: Jesus. Nele se sintetizam os melhores mecanismos de adaptação que conhecemos: estou a imaginá-l’O a sorrir (mecanismo do humor) e a recomendar (mecanismo de antecipação) uma forma de relação que reorganiza o sentido da vida, através da oração do Pai-nosso.

Também deve ter sido sob a força desta rel(or)ação que o Papa do sorriso (João XIII) convenceu a Igreja de que deveria organizar-se melhor, adaptando-se aos novos tempos com a integração de antigos e novos valores (com o Concílio Vaticano II). Com ele aprendemos que não há verdadeiro cristianismo sem um autêntico humanismo.

[Oração] Sal 85 (86)

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A unidade dos presbíteros na unidade da Igreja: um tributo à complementaridade

Hoje, o Card. Carlo M. Martini (em Come Gesù gestiva il suo tempo) faz-me compreender como a unidade de vida (interior e exterior) dos presbíteros, à luz do Decreto Presbyterorum ordinis, não pode realizar-se sem a unidade da Igreja. O sucesso de uns sempre esteve ligado à compelentaridade da comunhão da Igreja, de forma interdependente.

Pergunto: não estará a acontecer na Igreja o que se passa com a crise que invade as nossas famílias? A amalgama de ideologias − incluindo alguns “ensaios” de espiritualidade − que, de dentro e de fora, influenciam a vida social em que se procura incarnar a vida da fé têm uma força fragmentarizadora da qual ainda não seremos capazes rapidamente de dar conta e de minimizar os seus danos (quer para os padres, quer para as comunidades).

Em vez de nos debruçarmos com entusiasmo is0lado a experimentar espiritualidades (frequentemente as que dão resposta imediata aos problemas humanos), deveríamos (a meu aviso humilde, mas contundente do que fere a unidade) fazer ensaios de complementaridade, para que alguém possa vir a colher frutos não só de uma entrega feliz de consagração em favor dos outros, mas também de comunidades vivas que não fiquem somente apegadas às varandas do “sempre assim se fez” a ver passar os andores de lamentações pelos danos causados pela falta de unidade. Esta não é um “credo” de alguns , mas proposta para todos os que se declaram cristãos.

Para quando adiaremos o atrevimento da mudança. Quanto mais tempo demorarmos a entender que a distância é só (de uns e de outros, incluindo instituições) da unidade querida por Cristo, mais adiamos a possibilidade de uma experiência feliz de Igreja a caminho do Reino. Num tempo em que escasseiam as vocações: famílias, escusais de ficar à varanda a ver procissões de andores… não haverá presbíteros para os presidir. Contrariamos esta tendência?!

A cruz itinerante é antídoto para o egoísmo estagnante

[Leitura] Jer 20, 7-9; Rom 12, 1-2; Mt 16, 21-27

[Meditação] Neste XXII domingo do tempo comum contemplamos o profeta Jeremias entre a sedução do Senhor e a frustração da missão. Esta contradição não é, certamente, estranha a nós cristãos, entre a fé pessoal e o compromisso comunitário de testemunhar a Palavra de Deus na sociedade. Aliás, a sedução de Deus não se esconde por detrás de nenhum bem-estar inútil; assim como os confrontos desagradáveis não conseguem apagar o fogo do amor de Deus que arde no coração de cada um de nós (nem que seja no mais íntimo).

O convite de Jesus, de renunciarmos a nós próprios e tomar a própria cruz, em primeiro lugar, implica que cada um/uma saiba enuclear de que “madeiro” ela é feita. O que te faz sofrer, de modo a sentires-te estagnado/a? O que nos faz sofrer costuma ter como “consola” ou “base de carregamento” (como para os smartphones) o umbigo pessoal. Aquele convite tem como primeio objetivo desinstalar-nos daquilo que compreensível ou incompreensivelmente nos dói, renunciando à absoluta compreensão que nos levaria a ser donos de nós mesmos num bem-estar físico ou psicológico que nada tem de promessa espiritual. É assim que podemos compreender a tentação de Pedro.

Em segundo lugar, o convite a seguir o Mestre, de facto, implica aquela autodescentralização ou autoreferenciação, pois para efetivamente O seguirmos não basta a mera vontade de querer, mas de realizar as escolhas que combinam com a vontade de Deus, na radicalidade dos atos ou dos factos. Um distanciamento de si próprio/a que, embora na consciência da própria fraqueza, nos leve ao encontro de quem nos incentiva a ver com realismo o que somos e o que o nosso ser transformado por Cristo nos permitirá realizar.

Na possível aridez do caminho, a oração confiante do salmo 62 é remédio, não só para não desistirmos da entrega pessoal a uma missão concreta, mas também uma motivação a deixarmo-nos trabalhar por dentro, não em conformidade com este mundo, mas com a vontade de Deus, que o Espírito Santo nos vai fazendo contemplar nas palavras e atitudes de Jesus.

[Oração] Sal 62 (63)

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“Cingir os rins” é não deixar que o medo interior impeça os combates exteriores

[Leitura] Jer 1, 17-19; Mc 6, 17-29

[Meditação] É possível que algumas incoerências ou inconsistências da vida interior (normal) do ser humano adormeçam a consciência para o esforço a travar batalhas com o mundo exterior em que habita e interage com os outros. Por isso, a liturgia de hoje faz-nos ouvir a voz profética com o convite a não ter medo no confronto com o mal. O que confia acima das suas próprias forças, realiza o bem que não tem origem nele, mas em Deus, que tudo pode!

Como aconteceu com João Baptista e os Profetas que o precederam (Jeremias, etc.), a denúncia do mal nunca foi em vão, mas ao mesmo tempo protagonista do anúncio do bem. Entre aquela e este, por vezes, não é fácil para o ser humano, seja ele crente ou não, seja leigo ou consagrado, distinguir o que é a luta interior e o combate exterior. É nítido, no relato do Evangelho, que Herodes não tinha os “rins cingidos” com a verdade que João Baptista lhe pregava, não calando os medos que o impediram de dar um testemunho da verdade libertadora.

Na antropologia bíblica, os rins são os “cúmplices” do segredo pessoal e o lugar da intimidade. A partir deste órgão do corpo humano, a ciência bíblica sugere que se saiba calar interiormente a força do mal, para que exteriormente se possa deixar falar a verdade fundamental. Consagrar a vida a Deus e ao bem dos irmãos implica, pois, vestir, desde já, o que nos é prometido e percorrer este caminho entre a luta interior e o combate exterior, que coincide com a aproximação de diálogo entre o bem real que se quer conquistar e as realidade aparente que nem sempre persegue o mesmo horizonte.

[Oração] Sal 138 (139)

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A “tarde” do amor humano não desconheça a frescura da “manhã” com que Deus nos ama

[Leitura] 1 Tes 1, 1-5. 8b-10; Mt 23, 13-22

[Meditação] Conhecemos de Santo Agostinho a seguinte bela manifestação da sua conversão:

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!
Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas.
Estavas comigo, mas eu não estava contigo.
Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem.
Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez.
Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira.
Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti.
Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz…

Um professor de Psicologia disse-me, um dia: “Quando dizemos a Deus que O amamos, quase sempre estamos a ser mentirosos. Porque, frequentemente, essa afirmação egoísta é feita tendo como pressuposto a necessidade que temos do seu amor”. Esta afirmação aclarou em mim o voluntarismo com que, também frequentemente, servimos os outros, nem sempre pelo bem-em-si, mas para “engordar” o próprio “ego”.

Na “manhã” da vida, os jovens podem correr o risco de ignorar que o Amor que pressupõe qualquer mérito humano exige uma resposta. E esta, como no caso de Agostinho, pode não passar de uma retórica feita de perguntas ou procuras sem o sentido previsto pelo Criador. Menos mal que esta Beleza sempre antiga e sempre nova nunca deixa de ser a mesma. A “retórica” humana é que, enquanto adia a prática do bem, se perde em experimentações vãs, enquanto que o amor de Deus nunca corre esse risco do vazio.

Há uma semelhança entre esta “retórica” e a hipocrisia atribuída aos escribas e fariseus com os quais Jesus se debate no Evangelho. Ambas são forjadas no coração pervertido que olha para o que é secundário (ouro e oferenda) sem a ligação fundamental com o que é primário (santuário e altar).

Na “tarde” da vida, haverá sempre oportunidades para responder à ordem do amor que sempre nos amou na prática. Estaremos à altura de o acolher?! Um coração convertido é aquele que se deixa habitar por Aquele que lhe pode dar uma resposta verdadeiramente satisfatória para as questões fundamentais da vida humana.

[Oração] Sal 149

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A sensatez é o azeite da fidelidade e o coração vigilante serve-lhe de almotolia

[Leitura] Os 2, 16b. 21-22; Mt 25,1-13

[Meditação] Teresa de Ávila descobriu a sétima morada, dentro do convento, que ajudou a reformar. Teresa Benedita da Cruz entrou definitivamente nessa morada saindo do convento para a câmara de gás. Não admira que o Papa João Paulo II a tenha proclamado Padroeira da Europa. É modelo naquele tríplice caminho de conversão intelectual, moral e religiosa proposto por Bernard Lonergan (Insight). De facto, o estudo da Filosofia, o contacto com os escritos de Teresa de Ávila e a entrada para o Carmelo refletem essas etapas da conversão cristã sem as quais não se consegue chegar àquela morada que se encontra no núcleo mais profundo do coração humano.

A partir da liturgia da Palavra de hoje podemos discernir o seguinte:

1 – A sensatez é a atitude de quem atua a conversão intelectual. Esta implica um o conhecimento da realidade como ela é e não como ela simplesmente nos é apresentada. Exige um espírito crítico permanente e a humildade para acolher a verdade. Edite Stein, ao ler o Livro da Vida terá exclamado «Aqui está a verdade!». E este encontro mudou toda a sua vida.

2 – A fidelidade é o resultado da conversão moral. Uma vez que se conhece a verdade, a vida prática só pode aproximar-se na coerência com esta, para que tenha autenticidade. Assim, o Catecismo e os Sacramentos permitiram à nossa Padroeira europeia crescer nesta coerência de vida.

3 – O coração vigilante é símbolo do espaço de entrega a um amor ultramundano que constitui a conversão religiosa, capaz de aceitar a totalidade de Deus em todos os limites com a confiança sem medida. O silêncio e a oração, assim como a ajuda aos outros e o seu sofrimento em Auschwitz, tanto quanto no Carmelo, permitem-nos contemplar em Teresa Benedita da Cruz a sublimidade daquela união com Cristo no seio da adversidade.

Afirmou o Papa Francisco na homilia da Santa Missa em Fátima, no dia 13 de maio de 2017; «Quando passamos através dalguma cruz, Ele já passou antes. Assim, não subimos à cruz para encontrar Jesus; mas foi Ele que Se humilhou e desceu até à cruz para nos encontrar a nós e, em nós, vencer as trevas do mal e trazer-nos para a Luz». Eis a tal morada! Por isso, para entrar no Reino com o Esposo, não basta a virgindade (as insensatas, não a alimentando, perderam-na!). Ser casto implica, em qualquer caminho de entrega vocacional, a cruz como “acróstico” da entrega a Deus e aos outros, muitas vezes no deserto que permite inaugurar a esponsalidade definitiva entre a justiça e a misericórdia.

[Oração] Sal 44

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A rede e o tesouro: o enigma propiciatório para o caminho

[Leitura] Ex 40, 16-21. 34-38; Mt 13, 47-53

[Meditação] Na 1ª Semana dos Exercícios Espirituais, Sto Inácio de Loiola propõe-nos, para um apropriado discernimento dos espíritos, o discernimento entre virtude e pecado; e na 2ª Semana o discerniento entre o bem real e o bem aparente. Este segundo tipo de discernimento é mais difícil que o primeiro, mas não é menos importante que o primeiro para ajudar num mais maduro crescimento vocacional.

Por isso, vislumbrando o tesouro como símbolo do primeiro tipo de discernimento (entre virtude e pecado) e a rede como símbolo do segundo tipo de discernimento (entre bem real e bem aparente), vejo no Evangelho de hoje a sugestão de que o tesouro se refere a uma conversão moral ou ética, que implica discernir entre o bem e o mal segundo critérios antigos e atuais; enquanto que o trabalho de puxar a rede implica a ação humana, orientada pelos Anjos, de separar a verdade da mentira, entre o ser e o aparecer, para um caminho cuja transparência coincide com a realidade do Reino de Deus.

Para a superação deste enigma pessoal, são propiciatórios quer o Sacramento da Reconciliação, quer a Direção Espiritual, esta para o trabalho da rede e aquele diante do Tesouro que é a abundante misericórdia de Deus.

[Oração] Sal 83 (84)

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O Reino de Deus entre a expropriação e apropriação vocacional

[Leitura] Ex 34, 29-35; Mt 13, 44-46

[Meditação] Não é descabido que os presbíteros ponham tudo o que tenham para a realização da missão pastoral, incluindo a sua côngrua sustentação, conforme se lê na provisão episcopal da tomada de posse de um serviço na diocese.

As pequeninas parábolas do Reino são como que uma espécie de “provisão vocacional” não só para os que se oferecem mediante uma consagração especial, mas também para os que escolhem formar uma Família pelo Matrimónio.

No caso de quem encontra um tesouro no campo, poderíamos pensar que, conhecendo-o somente quem o encontrou, poderia imediatamente escondê-lo em sua própria casa. Porém, aquele tesouro sem o campo não seria, por si só, valioso. Daí que seja condição vender tudo para adquirir o campo onde ele se encontra escondido. Se o tesouro é o seu modo pessoal de ser feliz, o campo seria o ambiente de comunhão (comunidade) sem o qual não pode realizar a felicidade. É o caso de quem se deixa expropriar para o serviço espiritual aos outros. Impressiona-me, por isso, muito negativamente que haja padres que queiram realizar a missão da Igreja sozinhos, sem este espírito de comunhão. E o mesmo se diga dos leigos frequentemente mais clericalistas que os padres, muitas vezes dentro de movimentos ou associações.

No outro caso, o daquele que vai vender tudo para comprar a pérola (sem o campo) pode ser o de quem escolhe o projeto de fundar uma nova Família através do Sacramento do Matrimónio. Este é chamado a estar no mundo (campo sem dono) apropriando-se, nele, de uma porção de pessoas que ajuda a encaminhar para o Reino de Deus. Também me impressiona negativamente, hoje, a existência tentadora de quem vive o Matrimónio e a Família de uma forma privada, como que por uma nova espécie de “fuga mundi”, enquanto que os que escolhem a vida consagrada se tornam cada vez mais seculares.

Estes dois tipos de vocação – Especial Consagração e Família pelo Matrimónio – são cada vez mais necessários em diálogo no campo da Igreja, sem qualquer espécie de “igualdade de género”, para que não aconteça uma homologação das vocações, que seria nociva para a sua missão de construir o Reino. Não são despropositadas a este respeito as imagens de esponsalidade divina que trespassam o Antigo Testamento (em relação ao Povo) e o Novo Testamento (em relação à Igreja) e que bem podem fundamentar a necessidade aquele diálogo.

Também não é por acaso que a nova Ratio fundamentalis que regulamenta a formação sacerdotal proponha que nos estudos teológicos dos rapazes que se consagram pela Vida Religiosa sejam formados para perceber a riqueza do campo que é a Diocese em que os seus carismas se exercem; e os candidatos a presbíteros diocesanos sejam instruídos pelo valor dos institutos de vida consagrada. Não faltará qualquer coisa deste género nos Cursos de Preparação para o Matrimónio e nos projetos de formação que propõem os movimentos da família?!

[Oração] Sal 98 (99)

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