Para o Reino, o esforço é superior ao número de tentativas

Lc 13, 22-30 ─ XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM (C)

Um dia, um homem chegou ao céu e apresentando-se diante de Deus, disse-Lhe: Senhor, olha como as minhas mãos estão limpas. Ao que Deus respondeu: mas vejo que estão vazias...

Esta era a situação dos Israelitas diante de Jesus, a quem já o profeta Isaías tinha profetizado. Por serem o povo eleito, pensavam que já tinham garantido o acesso à salvação. Por isso, perguntavam a Jesus “São poucos os que se salvam?”.

Por muito que nos custe ouvir, a salvação não nos está garantida só por pertencermos à Igreja Católica ou estarmos batizados e sermos assíduos à assembleia litúrgica. O profeta Isaías anuncia-nos que o Senhor não acolhe somente a oferenda feita em vasos ou mãos puras dos Israelitas ou nossas no templo do Senhor ou diante do altar; também os que nunca ouviram falar d’Ele, levados de muitas maneiras ao monte do Senhor ou trazidos por caminhos errantes à oração, serão destinatários da sua glória ou escolhidos para o seu serviço.

E como responde Jesus? Com a imagem da porta estreita, Jesus demonstra que o acesso à salvação requer esforço, não importa o número de tentativas ou de pessoas, nomeadamente pela via da justiça que é um dos maiores atributos de Deus. A parábola do banquete do Reino acentua a imagem da salvação como comunhão com Deus e com a sua vontade.

Se, por um lado, a porta é estreita e muitos tentarão entrar nela sem o conseguir, por outro, as fronteiras de acesso alargam-se para lá da pertença étnica ao povo de Israel. Prova isso é o facto de nós estarmos aqui, não só na tentativa de celebrar a fé, mas também implicados no esforço de a viver por caminhos de justiça. E curiosamente, na parábola do Evangelho, até que o dono da casa se levante, a porta está aberta, para todos.

Empreender um caminho comunitário e pessoal que nos permita ser reconhecidos pelo Senhor à porta do Reino implica não só fazer uns planos de dieta física ou espiritual em certos tempos fortes, para depois tudo voltar ao mesmo. Também a nível da vida da fé as “dietas iô-iô” podem prejudicar-nos no sentido de que quando passarmos perto do Senhor, Ele diga que não nos conhece ou corramos o risco de não o reconhecermos a Ele.

A “porta estreita” pode ser a porta de um pobre com quem sou chamado a partilhar o que sou e o que tenho (o Papa Francisco costuma lembrar que a pessoa do pobre é um passaporte para o céu!). Pode ser aquela ocasião em que me esqueci de mim para tratar de uma pessoa doente. Pode estar diante de mim naquela pessoa desconhecida com quem tive de dialogar, ouvindo os seus sonhos e testemunhando-lhe as minhas convicções.

Portanto, o esforço que precisamos de fazer para entrarmos no Reino, começa e depende de aceitarmos a nossa condição de filiação divina, deixando que Deus nos corrija como Pai que nos ama. Como diz a Carta aos Hebreus, uma correção pode não ser motivo de alegria, mas de tristeza. Porém, quando recebida com docilidade, mais tarde faz-nos obter e saborear os frutos da paz e da justiça.

Assim está a acontecer com a Igreja Católica neste tempo de purificação por causa dos abusos.

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