O amor é o “estáter” superabundante tributado pela Palavra

Comentário a Mt 17, 22-27 e Ez 1,2-5.24-28c na Memória do presbítero São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores

Na história da humanidade, há figuras de homens de incontornável importância e esplendor que manifestam a glória de Deus a aproximar-se como “vento impetuoso… nuvem com grande clarão e um fogo cintilante”, cujo ruído das “asas” assemelha-se ao “marulhar das torrentes caudalosas, semelhante à voz do Omnipotente” (cf. Ez). Uma dessas figuras é Domingos de Gusmão, que não teve medo de renovar a forma da vida apostólica na Igreja, num tempo em que foi necessário lutar contra a heresia dos cátaros que, face aos maus exemplos, negavam a idoneidade do corpo e da matéria na sua relação com os fundamentos do espírito, com prejuízo, inclusivamente, para com a Criação de Deus e a Incarnação do Verbo.

Assim como o estáter é mais valioso do que a didrácma, a Palavra de Deus é mais valiosa do que qualquer matéria, sendo que esta costuma isolar as pessoas no egoísmo, ao passo que Aquela é caminho e soldo para todos.

Do cruzamento da vida de São Domingos de Gusmão e de todos os pregadores que Deus inspirou à Igreja num tempo em que foi chamada a repor a verdade, inclusivamente, com a renovação das formas apostólicas de vida (entre os quais, também, São Francisco de Assis e Santo António) e o Evangelho de hoje, ouve-se ainda mais alto a sensibilidade do Magistério atual, na fidelidade à Palavra, quanto à necessidade de a Igreja, quer dizer, as comunidades da Igreja, se reformarem na vida apostólica, para que a forma de lidar com os bens temporais não diminuam a importância da Palavra de Deus, nem esta seja proclamada em vão, quer dizer, sem sinais de mudança para o Reino.
A confirmação de uma boa incarnação da Palavra e da possibilidade de estarmos perto de Deus estará sempre na forma como lidamos com os pobres (seja de que conteúdo for), mais do que na defesa de uma cosmética aparente que, não raramente, se esquece deles.

O diálogo de Jesus com Pedro, fazem-me recorrer ao pensamento de Steven Pressfield, em “A guerra da arte”, que diz que os seres humanos organizam-se segundo duas fórmulas ou orientações: a orientação hierárquica, sob a qual uma sociedade quando se torna grande demais, essa orientação passa a ser praticada em grupos limitados (escola, religião, grupos sociais, etc.), levando as pessoas, na família como na profissão, a olhar para quem está acima (olhando o objetivo a alcançar), e para quem está abaixo (vigiando para não ser ultrapassado) e para fora (tentando saber o que os outros pensam delas e atender às suas demandas); a orientação territorial, por sua vez, faz-mos lembrar a dinâmica do caminho e da alma, onde cada pessoa é chamada a considerar os seus próprios talentos e a acolher os dons que a fazem cumprir o seu próprio propósito.

Divinamente, a Palavra de Jesus supera todos os dualismos, entre a mera obediência a preceitos externos e a iluminação da consciência pessoal, uma vez que anuncia a Ressurreição. Por isso,

Urge a capacidade de atendermos às demandas das próprias almas (e da alma comunitária da Igreja defendida pela sua Hierarquia), mais do que responder somente a expetativas. No caso da arte, por exemplo, responder só a expetativas externas vende ou faz perder a inspiração que enobrece a obra de arte. Na missão apostólica da Igreja, precisa-se de mais profetismo para que a salvação chegue a todos e não seja um bem só para alguns, nem tem que ver com alguma subsidiação espiritual em “cascata”, como acontece na economia, onde os bens são vertidos de maneira a que os primeiros arrecadam mais que os últimos. No Reino de Deus, que em Igreja somos chamados a instaurar, não é assim!

Urge a possibilidade de as comunidades da Igreja poderem ser uma experiência de união às provocações dadas pela Palavra de Deus, na diversidade dos ministérios e carismas, aprendendo cada um a ser e a fazer o melhor aquilo para que foi criado. Assim, cada pessoa aprende a superar-se não por um mero confronto de expetativas pessoais (em estilo de carreira), mas na realização do bem em si que é preciso fazer para que todos (ou o maior número possível) se sintam bem. Como se diz na vida e missão do padre, que se alimenta espiritualmente do que faz pastoralmente, também se pode dizer de qualquer pessoa crente, chamada a ser credível porque tira energia na coerência com aquilo que exerce em favor dos outros.

Requer-se, de facto, uma nova ordem, como a dos pregadores, contando que seja sempre a favor do Evangelho, unindo princípios a formas novas de possibilitar a abertura ao desígnio de salvação! O mandamento do amor não é dualista, uma vez que o Senhor nos pede que amemos a Deus e ao próximo como a nós mesmos. Jesus, neste episódio, não deixa de considerar o papel da criação, como é o caso do peixe que foi transporte do imposto devido.

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