Sab 9, 13-19 (gr. 13-18b); Sal 89 (90); Flm 9b-10. 12-17; Lc 14, 25-33 ─ DOMINGO XXIII DO TEMPO COMUM

Antes da porta estreita do Reino, o caminho de Jesus para Jerusalém começa também a estreitar, de modo que à multidão que o segue propõe as condições para ser seu discípulo. Quem segue atrás de Jesus neste caminho da entrega da vida, precisa de afinar o passo pelo passo d’Ele.

O psicólogo comportamentalista norte-americano Martin Seligman sintetiza que a vida humana é feita de duas metades: a da expansão (primeira metade) e a do afunilamento (segunda metade). Na primeira metade, o ser humano tende a fazer todas as experiências, a saber o mais que puder e a obter o mais que puder. A segunda metade começa quando a pessoa dá conta de que nem tudo é preciso para ser verdadeiramente feliz; inclusivamente, já coisas boas que podem até prejudicar o caminho de uma entrega feliz. A expansão ajuda a solidificar a auto-estima necessária, apoiada em necessidades básicas e secundárias; o afunilamento programa a oblação que ajuda a acertar na meta, na consideração das escolhas essenciais.

Seguir Jesus implica um projeto, como o de construir uma torre ou proteger (mesmo que seja através de uma qualquer guerra) o campo que se comprou por se ter encontrado lá um tesouro. Ser vencedor ou não ser humilhado implica pôr em prática algumas condições; ser discípulo implica construir uma ponte para a outra margem que Jesus constantemente propõe aos seus discípulos, colocando nela os fundamentos necessários para que essa relação que promete felicidade não vá abaixo.

Então, quais são as condições para passarmos a “ponte” entre as nossas preferências pessoais e a deferência a Cristo? Por outras palavras: como manter a fidelidade e manifestar o amor a Cristo? Eis:

1 Fazer contas à vida, quer dizer, olhar para as exigências que Ele coloca ao longo do caminho. Não se trata meramente de verificarmos ou não se O podemos seguir; trata-se, antes, de partirmos para a aventura do seguimento conscientes das exigências que Ele nos coloca. Seremos capazes de abraçar essas exigências? Acatar as condições significa estar dispostos a segui-l’O de maneira incondicional.

2 Tratar Jesus com deferência, diante das muitas preferências que temos nos nossos relacionamentos humanos, incluindo os laços de parentesco. O texto original fala mesmo de “ódio”, tal é o “ciúme” com que Cristo nos ama incondicionalmente. Jesus deseja que o nosso desejo seja obter o máximo de vitória possível. São Paulo ajuda-nos a retomar todos os relacionamentos desde a “escravatura” das preferências humanas até à irmandade ou fraternidade livre fundada em Cristo Jesus (cf. 2ª leitura).

3 Carregar a cruz pessoal com vontade firme e liberdade crente no caminho, que não é passivo, de mera aceitação, mas numa decisão ativa de fazer o caminho do Mestre, apoiado na sabedoria insondável de Deus ou dos seus misteriosos e infinitos desígnios de amor (cf. 1ª leitura).

4 Fazer escolhas quanto ao essencial para se fazer um caminho inédito, deixando de querer expandir o coração quanto às coisas da terra e abrindo o seu olhar para horizontes longínquos, para além da realidade do mundo presente, pondo os corações a gostar e desejar o que o Senhor gosta e deseja, fazendo o que Ele faz.

Em suma, seguir o caminho inédito aberto por Jesus implica retomar a relação com as pessoas e as coisas de forma transformada e transformadora, provando aquela “fraternidade mística”, presente no capítulo segundo da Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, sobre “relações novas geradas por Jesus Cristo”:

Neste tempo em que as redes e demais instrumentos da comunicação humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o desafio de descobrir e transmitir a «mística» de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada. Assim, as maiores possibilidades de comunicação traduzir-se-ão em novas oportunidades de encontro e solidariedade entre todos. Como seria bom, salutar, libertador, esperançoso, se pudéssemos trilhar este caminho! Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem. Fechar-se em si mesmo é provar o veneno amargo da imanência, e a humanidade perderá com cada opção egoísta que fizermos

─ PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho n. 87

A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura

─ PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho n. 88

O Papa Francisco faz soar o alarme quando alerta para o perigo de buscar um “Cristo sem carne e sem cruz” (EG 88), ou “Jesus Cristo sem carne e sem empenho pelo outro” (EG 80). Faltam assim “vínculos profundos e estáveis” (EG 91) que respondam a propostas alienantes (EG 88) que “fazem adoecer” (EG 91).

Trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações; e aprender também a sofrer, num abraço com Jesus crucificado, quando recebemos agressões injustas ou ingratidões, sem nos cansarmos jamais de optar pela fraternidade” (EG 91). Mais do que nunca, no momento em que a “fraternidade” não é compreendida como óbvia, é preciso que seja evidenciada a sua dimensão mística ou contemplativa. A fraternidade mística ou contemplativa consiste no “olhar a grandeza sagrada do próximo” e no “descobrir Deus em cada ser humano”, “no suportar os seus males e de viver juntos unidos ao amor de Deus”, no “abrir o coração ao amor divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o Pai bom.

─ PAPA FRANCISCO, A Alegria do Evangelho nn. 91 e 92

No caminho estreito que leva à porta estreita do Reino, cabe a autêntica fraternidade, que é já experiência de Deus (cf. EG 87), assim como cabe uma nova relação com as coisas criadas, através da “mística do quotidiano” que Teresa de Lisieux experimentou “encontrando Deus em todas as coisas” (cf. LS 233).

O Papa João Paulo I (Albino Luciani) está a ser beatificado neste domingo, 4 de setembro, na Praça de São Pedro.

Conhecido pela sua simplicidade e capacidade de acolhimento, muitos testemunham o seu estilo humilde e próximo de toda a gente.

Vários testemunhos relatam o seu estilo simples e discreto de Luciani, sempre preocupado em não dar excessivo trabalho aos seus colaboradores, incluindo as religiosas que cuidavam do serviço doméstico no apartamento pontifício.

A irmã Margherita Martin contou esta sexta-feira aos jornalistas que, um dia, ao vê-la passar cuidadosamente a ferro uma sua camisa, João Paulo I lhe disse para não perder tanto tempo com ele. “O Papa parou junto de mim e disse: Irmã, basta passar os punhos, porque ninguém vê a camisa que trago por baixo da batina”, testemunhou a religiosa.

Em conferência de imprensa organizada pelo Vaticano, Stefania Falasca, vice-postuladora do processo de beatificação, sublinhou que Albino Luciani morreu com fama de santidade e que os 33 dias do seu breve pontificado “são a ponta de um grande icebergue escondido de magistério e importantes ensinamentos”.

─ Cf. RR

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