Matrimónio: vocação de especial consagração? Vocação comunitária e vocação pessoal

Mt 19, 3-12

Há muito que defendo, como presbítero no acompanhamento vocacional, que o Matrimónio deveria ser urgentemente considerado como um caminho de especial consagração, onde também podem ser vividos a seu modo os conselhos evangélicos. Santa Joana Francisca de Chantal não consagrou só a sua vida após a morte do marido, sendo que, sob esta perspetiva, o seu percurso passaria por vários modos de consagração especial.

Ser “uma só carne” na liberdade fiel, fecundidade criativa e indissolubilidade esperançosa não é “empresa” fácil, nem é para todas as uniões entre homem e mulher. No entanto, há testemunhos de Matrimónio por detrás do pano de muitas vidas felizes, não reconhecidas por uma mais eficaz pastoral familiar e encobertas por uma sociedade que nos quer impor vários modelos de família, para além dos modelos criados pelas circunstâncias da vida.

Apesar de o Magistério da Igreja refletir sobre o acompanhamento das pessoas em todas as etapas da vida, na prática não é fácil manter os princípios essenciais da vocação comunitária sem perscrutar a diferenciação dos modos que definem os marcos de uma vocação pessoal. A existência desta diferenciação entre etapas e modos é comum a todos os estilos de vida e não é meramente uma constatação da vocação matrimonial, uma vez que as habitualmente chamadas “vocações de especial consagração” também passam por várias idades e circunstâncias.

Raramente se fala da formação permanente dos cônjuges unidos pelo Matrimónio, que certamente enriqueceria as famílias como “alfobres” vocacionais e de onde de espera que novas vocações possam partir como felizes ramificações. Nota-se como necessário este desafio nos pais dos atuais candidatos ao ministério presbiteral, muitas vezes aparecendo como estranhos aos meandros teológicos e práticos do desenvolvimento vocacional dos filhos que entregam à Igreja (vêm-se quase somente entre a porta do Seminário e a da Catedral). A atual Ratio Fundamentalis insiste numa maior interação nem sempre fácil de realizar.

A verdade é que da unidade de vida matrimonial depende, em certa medida, a unidade de vida de todos os vocacionados, seja na vocação presbiteral, seja de qualquer forma de consagração. A dureza do coração é apontada por Jesus como a causa não só das desuniões, mas também da consequente possibilidade de a falta de boas uniões contribuírem para que não haja um dos tipos de “eunucos” (os provocados por famílias destruturadas/destruturantes). Depreende-se das afirmações de Jesus que a questão não é tanto quanto à conveniência do casamento, mas quanto à conveniência de que haja uniões vocacionalmente fecundas. O/a que escolhe o Matrimónio renuncia ao seu passado e à sua terra para se unir ao/à seu/sua cônjuge, para formar com ele/a uma só carne.

Em todas as histórias de vida, cada um/a pode dizer: “a minha vocação é o meu caminho para ser feliz” (D. Ilídio Leandro).

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