Sobre os ombros de um/a gigante

Mt 5, 1-12, Funeral de uma pessoa idosa

Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.

Isaac Newton

O discurso das Bem-aventuranças é, porventura, o que mais consegue unir o realismo e a esperança. O realismo acerca da vida terrena e a espera de um mais além bem sucedido. Jesus declarou-o no cimo de montanha.

De muitas formas se tem interpretado o texto das Bem-aventuranças. A que mais aprecio é a da integração psicoespiritual realizada pelo alemão Anselm Grün, frade psicoterapeuta, perscrutando nas bem-aventuranças o caminho para uma vida bem conseguida.

Esta interpretação parte da realidade em que, na experiência quotidiana, os nossos entes queridos conseguiram superar-se, escolhendo

  • a auto-estima, em vez do apego a uma máscara (1ª bem-aventurança);
  • o contacto com os recursos interiores com que se faz o luto, em vez de apegos substitutos que levam à depressão (2ª ba);
  • a doçura e não-violência (ou o não precisar de dar respostas a tudo), em vez da dureza do coração ou da auto-punição que leva a sofrer somatizações (3ª ba);
  • a coerência pessoal, em vez das ilusões que provocam divisões (4ª ba);
  • a misericórdia/simpatia/compaixão, em vez da desumanidade/insensibilidade/condenação (5ª ba);
  • a purificação das emoções (possibilitada inclusivamente por uma alimentação simples), em vez da intoxicação das ideias provocada por um desregramento corporal (6ª ba);
  • o fazer as pazes com que o há sombrio em cada pessoa, em vez de se gastarem demasiadas energias em não se assumir o mal (7ª ba);
  • uma quietude confiante e fecundidade responsável, em vez da fuga da própria realidade e das ameaças que nos rodeiam, fechando os olhos ao mundo (8ª ba).

A vida longa de alguns idosos, revisitada, pode ser a porta para a valorização dos aspetos mais essenciais da nossa existência que, afinal, não precisam de competir com os calculismos de um mundo que frequentemente os descarta (os idosos e o essencial). No final, fica registada a patente do tipo de coisas ou realidades que tivermos valorizado durante a vida terrena. E a mais essencial é a ternura que, sentida aos ombros dos nossos idosos, faz com que vejamos mais além numa perspetiva de esperança realista. A que verdadeiramente confere felicidade.

Mesmo após a existência terrena, estes “ombros” continuam disponíveis, porque a memória do que viveram e os valores de que deram testemunho são consistentes em si mesmos, não precisando de nenhuma balança comparativa. O Papa Francisco defende que a aliança entre idosos e jovens/crianças salvará a família humana. O testemunho credível de que são portadores os idosos faz com que os mais novos possam ir adiante. “O testemunho dos idosos une as idades da vida e as próprias dimensões do tempo: passado, presente e futuro, porque eles não são apenas a memória, são o presente e também a promessa”.

Ao mesmo tempo em que a despedida entristece o coração, demos graças por tão grandes testemunhas, que nos entusiasmam a continuar a vida com sentido de infinito, onde saber viver e saber morrer formam a mesma conquista.

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