Um convidado inesperado e revolucionário, com etiqueta para todos

Sir 3, 19-21. 30-31; Sal 67 (68); Hebr 12, 18-19. 22-24a; Lc 14, 1. 7-14 ─ XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM C

Jesus entrou na casa de um dos principais fariseus, a um sábado. Deve ter sido convidado sem os començais o saberem, como se vê no olhar surpreendido de todos. No entanto, entra no banquete oferecendo-se como “mordomo”, recomendando etiquetas para todos.

Outrora tal sábado, hoje tal domingo! Imaginemos Jesus a entrar nas nossas casas em dia de festa sem ser convidado ou sem os nossos familiares e amigos saberem… deixá-Lo-íamos ser mordomo? Sujeitar-nos-íamos ao incómodo de alguma palavra ou proposta revolucionárias?

Na verdade, a forma como organizamos e vivemos as nossas festas domingueiras dizem um pouco da nossa fé, não só no irmos à Missa, mas também no estilo da convivência dentro das nossas casas ou vizinhanças. Aquela afirmação popular atribuída a um padre no final de uma Eucaristia – “Aqui na igreja somos todos irmãos, mas agora cada um vá comer a sua casa” – não é propriamente uma afirmação cristã, mas mundana! Não é que todos os domingos tivéssemos de fazer banquetes abertos a todos, o que provocaria uma séria calamidade, mas o facto é que desde a comunidade de Coríntios que o altar eucarístico está tão distante das mesas das casas dos fiéis, onde os primeiros cristãos se habituaram a celebrar o memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Cor 10, 16; 11, 23-26), partilhando o que tinham uns com os outros.

O projeto da Igreja, que promove a entrada no Reino pela “porta estreita”, exige o caminho da justiça, como aprendemos no passado domingo. Fica esta para os dias feriais, ficando fora do domingo? Por isso, é cada vez mais urgente promover a reconciliação entre a mesa eucarística comunitária e a mesa das refeições caseiras, entre o credo dominical recitado e o credo ferial praticado, entre os dias santos de guarda e o tempo comum. Obviamente, não se trata de deixar de vir à Assembleia celebrar a Eucaristia, mas trata-se de, tendo a Eucaristia por referência, eucaristizar a vida no mundo, não deixando que se faça um apartheid entre a celebração da fé e a vida da fé.

Então, ─ O que fazer para o caso de Jesus nos aparecer infiltrado nas nossas reuniões festivas? ─ Como tomar a dianteira, organizando a festa dentro das suas mordomias revolucionárias, que antecipam a justiça do Reino? ─ Como levar a sério as etiquetas revolucionárias de Jesus, para que as nossas reuniões domésticas festivas sejam mais transparência do Evangelho?

1 – Primeiro, há que escolher ou perceber a Sua presença. Para cada festa convidemos Jesus a estar presente. Podemos fazer a Sua presença aos nossos convidados colocando a Cruz numa das paredes, florida, se possível e sobretudo em dias de festa. Outras imagens de Jesus (Sagrado Coração, etc.) poderão estar no espaço da refeição. A sua presença está também nas pessoas que se reúnem para partilhar a mesa. Dar atenção a cada uma em particular, na sua circunstância, enriquece a festa. É importante observar os comensais, ajudando cada um a perceber qual é o seu lugar.

2 – Pode aproveitar para se propor uma oração simples, evocando quem não está e que gostaríamos que estivesse: um familiar falecido, uma família ou pobre conhecido, ou um grupo social em grande sofrimento, por causa de alguma situação grave, como os incêndios ou a guerra. Um colega meu costuma dizer que comer sem rezar é como estar diante duma gamela e não numa mesa…

3 – Terceiro (porventura o menos frequente, porque mais difícil), convidar, ao menos uma vez por ano, algum(ns) pobre(s), pessoas doentes ou pessoas em profunda tribulação, com os quais partilhar a refeição. Costuma dizer-se popularmente que “acrescenta-se mais água no tacho da sopa para mais um”. Sem esta presença, como recomenda o nosso Mestre mordomo, as nossas mesas ficarão sempre incompletas, correndo o risco de não podermos vir a obter a justa retribuição que só no Reino nos poderá ser atribuída.

4 – Quarto (contracorrente): organizar a nossa despensa e refeição de maneira éticamente sustentável, sem (inter)ferir, direta ou indiretamente, nas pessoas que vivem sem as mesmas condições. Organizar as festas sem desperdícios e, quando sobrar, dar às sobras um destino honroso, como a partilha (e porque não confecionar a contar já com a partilha?).

Esta gradação parece uma estafeta de coragem, como a subida a um monte. Tentar subi-la poderá levar-nos a vivenciar algo que nos dará uma sabedoria não alcançada pelos meros festins familiares ou amigáveis. A presença de convidados improváveis poderá ensinar-nos muito na balança entre a humildade e a soberba, como reflete a primeira leitura, e levar-nos a ganhar um lugar no banquete celeste. Como nos inspira o Salmo 67, e se Deus estiver naqueles que convidados com total gratuitidade (sem nos poderem pagar de nenhum forma)? Alegrando-nos seremos justos, “exultando e transbordando de alegria”. Então, preparar e realizar um banquete não nos fará iniciar uma semana com cansaço, mas destinatários de uma “chuva de bênçãos” por termos feito como Jesus manda.

Como reflete a Carta aos Hebreus, acolhendo um comensal improvável, não estamos diante de fogo, nuvens, trevas ou tempestade (a tristeza, a pobreza, a tribulação da pessoa ou a ridicularização de alguém por o termos feito), mas estamos diante do “monte Sião, a cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, de muitos milhares de anjos em reunião festiva, de uma assembleia de primogénitos inscritos no Céu”. Afinal, quando cantamos o “Santo, Santo, Santo” na Missa, não evocamos a corte celeste? Porque não evocá-la às nossas mesas (de casa ou do restaurante) com a presença de quem não nos pode retribuir?!

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