Mt 25,1-13; Com ajuda de Lúcia Helena Galvão em Reflexões sobre a ansiedade

Dez virgens vão ao encontro do esposo. Cinco são insensatas e cinco prudentes. Aquelas sem azeite nas almotolias, estas com suficiente para chegarem à meta.

Diria que as pessoas insensatas vivem o caminho ansiosas, porque apoiadas em expetativas irrealistas. Não têm em conta que o depois é consequência natural do presente. O ideal está no futuro, mas não é tanto um objeto de desejos, quanto uma referência de direção (Kant). A ansiedade gerada pela insensatez nasce como consequência de momentos vazios, mecânicos. Só fazem algo (comprar azeite) se vierem a ganhar tal coisa (ter o esposo só para elas), em vez de fazerem o que se deve para realmente poderem vir alcançar o que esperam (imperativo categórico de Kant).

As pessoas prudentes têm um objetivo intrínseco, que as livra da ansiedade gerada pelas coisas difíceis, fazendo-as saber que vai valer a pena. Porque tudo o que tem valor (ligado a uma meta) tem um valor intrínseco (já assumido no caminho que leva àquela meta). Alcançam o ideal criando momentos ideais. Sabem que a soma de momentos ideias levam ao ideal e que momentos vazios não levam a ideal nenhum, a nenhum grande lugar ou encontro. Sabem qual é a meta, mas não desconsideram a maneira de como se faz a viagem.

Assim, “azeite nas almotolias” pode significar conhecimento (descartado por alguns que querem chegar ao final de um curso sem estudar, não pensando no bom desempenho que fariam depois), esperança ou perseverança (descartada por uma auto-humilhação exagerada, não colocando os próprios talentos ao serviço se uma causa), etc.

O diálogo entre as virgens insensatas e as prudentes parece o debate entre a expetativa e a esperança. Enquanto esta se apoia no realismo aquelas perdem-se na fantasia que gera angústia, esquecendo-se de aplicar a imaginação e criatividade, derivando para um campo de possibilidades fantasioso e esperando recursos espetaculares ou um lance de sorte. A expetativa não dá espaço a um bom planeamento da criatividade, porque apoiada mais na emoção que na razão, não permitindo estado ideal para superar obstáculos e conquistar objetivos. A expetativa provoca o medo e a premência de resultados, colocando-nos num péssimo estado de eficiência.

A esperança é a que nos permite caminhar no estado da lucidez. Não é só espera, mas demanda de vontade e criatividade, reunindo todas as ferramentas, usando tudo o que tem de melhor. Não minimiza as possibilidades do ser humano, mas mobiliza-as para que possa atingir um bom resultado. Enquanto que a expetativa leva a uma vida ausente a esperança leva a uma vida presente.

A esperança alimenta-se da fé. Não se compra. E a esperança, por sua vez, alimenta a caridade. As virtudes teologais são interdependentes, porque provêm das da Santíssima Trindade, concedidas gratuitamente à humanidade para que, assumidas livre e reciprocamente, a possam transcender para Deus.

Quando partires em viagem para Ítaca

faz votos para que seja longo o caminho,

pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.

Os Lestrigões e os Ciclopes,

o feroz Poseidon, não os temas,

tais seres em teu caminho jamais encontrarás,

se teu pensamento é elevado, se rara

emoção aflora teu espírito e teu corpo.

Os Lestrigões e os Ciclopes,

o irascível Poseidon, não os encontrarás,

se não os levas em tua alma,

se tua alma não os ergue diante de ti.

Faz votos de que seja longo o caminho.

Que numerosas sejam as manhãs estivais,

nas quais, com que prazer, com que alegria,

entrarás em portos vistos pela primeira vez;

para em mercados fenícios

e adquire as belas mercadorias,

nácares e corais, âmbares e ébanos

e perfumes voluptuosos de toda espécie,

e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;

vai a numerosas cidades egípcias,

aprende, aprende sem cessar dos instruídos.

Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.

É teu destino aí chegar.

Mas não apresses absolutamente tua viagem.

É melhor que dure muitos anos

e que, já velho, ancores na ilha,

rico com tudo que ganhaste no caminho,

sem esperar que Ítaca te dê riqueza.

Ítaca deu-te a bela viagem.

Sem ela não te porias a caminho.

Nada mais tem a dar-te.

Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.

 Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência,

 já deves ter compreendido o que significam as Ítacas

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
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