L 1: Gl 5, 18-25; Sl 1, 1-2. 3. 4 e 6 Ev: Lc 11, 42-46. Os itálicos são de liturgia.pt
Nos meus tempos de seminarista e organista, de vez em quando, ir para a capela e punha-me a explorar não só os diversos registos do órgão, assim como a amplitude da tessitura dos registos, nos teclados e na pedaleira. A certo ponto, dava-me conta de que ao tocar umas certas notas baixas da pedaleira as portadas das janelas da capela, de uma forma bem notável, começavam a vibrar contra as paredes de granito.
A metáfora da ressonância (vibração por simpatia) versus antirressonância (interferência destrutiva) assenta com uma precisão cirúrgica no texto de Lucas 11, 42-46, revelando a dinâmica espiritual e psicológica que ocorre no confronto entre a hipocrisia e a Verdade. Vejamos:
- Entre os doutores da Lei e os fariseus havia uma vibração por simpatia, ressoando os seus ideais mesmo sem contacto direto: o formalismo exterior, a preocupação com o estatuto (“gostais do primeiro lugar nas sinagogas”) e a autojustificação moral através do cumprimento minucioso da lei (“dízimo da hortelã e da arruda”). A validação social — as “saudações na praça pública” — funcionava como um sistema de amplificação do ego. A vibração de um reforçava e legitimava a hipocrisia do outro. É curioso notarmos como o doutor da lei reage espontaneamente: “Mestre, ao dizeres essas palavras também nos insultas a nós”. Ele sentiu a “vibração” da crítica dirigida aos fariseus porque a sua estrutura interna ressoava no mesmo tom. O povo diria: assentou-lhe a mesma carapuça.
- Na relação com Jesus, quando Ele entra no ambiente dos fariseus, o efeito não é de harmonia com eles, mas de recusa, desfasamento e cancelamento do seu ruído. Há como que uma antirressonância ou uma interferência destrutiva dos ruídos. Jesus, na sua atitude de simpatia para com os pobres e humildes, recusa-Se a “vibrar” de acordo com a atitude dos fariseus e doutores da Lei. Porque Ele incarna a frequência do amor, da justiça e da verdade interior (“desprezais a justiça e o amor de Deus”), ao contrário com os corações rígidos e fixados no poder dos fariseus e doutores da Lei. Em vez de acolherem a Sua mensagem e se deixarem transformar, punham-se com resistência, tentando bloquear a sua missão de anúncio do bem.
Em síntese, Jesus e os fariseus e os doutores da Lei falavam das mesmas coisas, mas em altitudes e dimensões totalmente opostas, entre a aparência e a realidade. Jesus coloca o foco no interior, na misericórdia, no alívio dos fardos. Os fariseus prendem-se ao exterior, à aparência e à imposição de fardos insuportáveis. O discurso de Jesus desmontava (anulava) a autoridade moral dos fariseus, e o orgulho dos fariseus tentava anular a missão de Jesus. “Sois como sepulcros disfarçados, sobre os quais passamos sem o saber!” ─ o sepulcro aparece como amortecedor espiritual, pois a morte é o estado definitivo da falta de vibração (ausência de vida). O “sepulcro disfarçado” é uma estrutura por fora decorada, mas por dentro inerte, fria, incapaz de ressoar com a vida nova. Assim, fariseus e doutores da Lei agiam como amortecedor moral: em vez de transmitirem a vida de Deus ao povo, absorviam e sufocavam a fé viva, transformando a relação com o Sagrado num fardo pesado e estático, de forma que nem eles mesmos conseguiam suportá-los.
Jesus não condena as formas de vida anteriores à sua pregação, mas pretende levar os seus ouvintes a descobrir que, por detrás do cumprimento material da lei, está a justiça e o amor, a pobreza de espírito e a humildade de coração, coisas que os seus ouvintes ainda não tinham chegado a descobrir.
Os fariseus e doutores da Lei, ao terem diante de Jesus a descoberto a sua evidente distância entre a aparência e a Verdade, estavam a jeito de se deixarem transformar por Ele, a Verdade em Pessoa. Porém, não quiserem “vibrar por simpatia” a Ele. Não acreditavam no Espírito Santo.
Então, para nos deixarmos conduzir por Jesus, como Paulo sugere, deixemo-nos conduzir pelo Seu Espírito Santo, sujeitos à sua Lei do amor e não às obras da carne. Como recitámos no Salmo, deixamo-nos é pela luz da Vida que nos deixamos guiar.
