navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Dn 7, 9-10. 13-14 ou Ap 12, 7-12a; Sl 137, 1-2a. 2b-3. 4-5 Ev: Jo 1, 47-51, na Festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael

No primeiro tema deste ano para reuniões das ENS ─ criados para a comunhão ─, sob a inspiração de Deus que disse «façamos o homem à nossa imagem e semelhança» (Gn 1,26), descobrimos que dos mil propósitos que podemos fazer na vida, o mais importante será sempre “ser nós próprios” e que toda a nossa vida seja orientada a partir do nosso ser mais profundo. A nossa identidade mais profunda não depende no que fazemos, mas do que somos, à semelhança de Deus: ser amor e amar. Cada um de nós é aquela «pérola de grande valor» pela qual Jesus pagou um preço por esta terra, para nos ganhar (Mt 13,45-46).

A tentação maior da vida é deixar de ser aquilo que somos e isso pode acontecer em três áreas que coincidem com as nossas faculdades da alma: a inteligência, o afeto e a vontade. Para cada uma destas faculdades é uma orientação específica que nos fazer ser originais e semelhantes a Deus ao mesmo tempo, todos e cada um à sua maneira, de forma que Deus seja tudo em todos.

Na celebração da festa dos Santos Arcanjos, ouso propor que cada um deles, dentro das missões que lhes foram dadas por Deus a nosso favor, cobre cada uma daquelas faculdades. Assim:

  1. O Arcando Miguel (Quem como Deus?) livra-nos de cair no abismo da possibilidade de deixarmos de ser pessoas. O demónio, como o definia o Papa Bento XVI, é uma não-pessoa. Por vezes, o povo pensa que ele anda à procura de almas, mas ouso dizer que anda mais à procura de corpos com alma enfraquecida ou com a alma adormecida. São Miguel ajuda-nos a alimentar a nossa inteligência segundo uma reta doutrina (ortodoxia). De maneira a não nos deixarmos possuir por ideologias que nos roubem a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus. A partir da nossa inteligência, Deus desvela a nossa origem verdadeira.
  2. O Arcanjo Gabriel (Deus é a minha força) livra-nos de cair no desespero do não-amor. Este desespero pode acontecer quando caímos em extremismos moralistas de quem antepõe as expetativas dos homens à atenção do amor de Deus. O nascimento de Jesus, para o qual Deus incluiu a missão de Gabriel, é o nascimento para toda a humanidade sem exceção. Com o seu consórcio, poderemos conseguir viver melhor a afetividade (ortopatia), sentindo-nos sempre vistos pelo Senhor como quem tem um propósito para a própria vida, antes e independentemente das formas originais como a história de cada decorre no tempo.
  3. O Arcanjo Rafael (Deus cura) livra-nos do perigo de, perscrutando os procedimentos de uma cura específica, cairmos no abismo de não levar a sério esses mesmos procedimentos. Como acontece com o irmos ao médico por causa de uma doença física e, ao recebermos uma receita médica, não a levantarmos na farmácia, não os tomando para a cura. Precisamos de boas práticas (ortopraxia), a todos os níveis. Deus inspira-nos, como aos médicos que curam os corpos, procedimentos que nos ajudam a desenhar um projeto que nos ajude a caminhar para aquele propósito que Ele nos criou desde as origens.

Tudo o que foi dito a respeito da ação mediadora dos Santos Arcanjos a nosso respeito, podemos vê-lo na relação entre Jesus e Natanael. Não fingir, ou seja, ser pessoa, implica, diante de Jesus: saber bem a sua origem profunda em Deus, sentir-se profundamente amados e acolher o propósito ou missão que Deus reserva para cada um, através dos dons que distribui. É curioso que as duas coisas fundamentais, segundo a psiquiatra Marian Rojas, para alguém se sentir pisologicamente feliz seriam: sentir-se amado (o amor) e ter um trabalho (o trabalho). Ao descobrir, com a ajuda de Filipe, a verdadeira identidade de Jesus como Filho de Deus, Natanael pôs-se a jeito de ver coisas ainda maiores.

Concluindo, ter e exercer uma boa missão decorre de nos sentirmos bem como somos diante do amor de Jesus, conscientes da nossa verdadeira origem criacional. Muito para além do uso na oração que se faz da evocação dos Santos Arcanjos, dentro de uma espiritualidade por vezes, infantilizada, podemos crescer com a ajuda deles para uma relação com Jesus que nos faça “partners”, como quem se sabe ser e fazer de filhos, irmãos e pais.

Neste dia, não almejemos só ser usufrutuários da mediação dos Arcanjos, mas também mandatados por Deus a combater o mal (como Miguel), a anunciar o bem (como Gabriel) e a cuidar dos outros (como Rafael).

Cristo, que nos guarda, diz Santo Agostinho,
adormeceu apenas uma vez, para nos salvar.
Acordou, e não dormirá jamais.
…
Estamos, pois, salvos e seguros,
com Alguém sempre por perto e vigilante.
Mas é bom saber também
que este Alguém
é Aquele-que-nos-ama,
aquele-que-nos-chama,
a nós que adormecemos tantas vezes.
…
Mas, ainda assim, deu-nos também os Anjos e os Arcanjos,
para serem a nossa Companhia e nossa Guarda,
de noite e de dia,
e acenderem na nossa alma uma luzinha de alegria
do tamanho de um grãozinho de mostarda.
…
A Igreja celebra amanhã, dia 29, a Festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.
Obrigado, Senhor, por nos dares estes companheiros,
e também mensageiros,
vigilantes e atentos,
que guiam os nossos passos em todos os momentos.
…

─ António Couto (em: mesadepalavras.org)