navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Heb 5, 7-9; Sl 30; Ev: Jo 19, 25-27, na memória da Virgem Santa Maria das Dores

Vimos, ontem, na Festa da exaltação da santa Cruz, com o auxílio da homilia de D. António Couto (ponto 8), que a Cruz não é o nosso pecado, mas imagem do nosso pecado e, ao mesmo tempo, não é o amor de Deus, mas imagem do amor de Deus que Se dignou encarnar em Jesus Cristo para nos salvar na redenção da humanidade. Portanto, na mesma imagem se juntam, já nesta terra, nas duas faces da mesma Cruz, a nossa condição de pecado e o rosto amoroso de Deus humanado e redentor, para que possamos vir a gozar desta experiência de estar eternamente face a face sem as nossas desistências e inconsistências. É este o seu projeto divino de amor!

E entre estes dois lados do “madeiro” da vida terrena e eterna, Maria foi a primeira, de forma antecipada, a “encostar o ouvido ao coração de Deus” (D. António Couto), escutando bem e dialogando bem, com uma pureza que lhe permitiu compreender bem e dizer bem o sim em favor de uma relação salvífica entre nós e Jesus.

Ao lermos, na Carta aos Hebreus, que Cristo “aprendeu a obediência no sofrimento”, podemos pensar que Maria teve parte nesta aprendizagem, como “a maior educadora da história”. Num livro com este título, Auguto Cury ousa ajudar-nos a perceber o papel de Maria para que Jesus pudesse aprender a obedecer no sofrimento. Considero significativo e útil para quem participa na missão de educar alguém as seguintes intuições de A. Cury:

Educar é viajar no mundo do outro sem nunca penetrar nele. É usar o que pensamos para nos transformar no que somos. O maior educador não é o que controla, mas o que liberta. Não é o que aponta os erros, mas o que os previne. Não é o que corrige comportamentos, mas o que ensina a refletir. Não é o que observa apenas o que é tangível aos olhos, mas o que vê o invisível. Não é o que desiste facilmente, mas o que estimula sempre a começar de novo.
Um bom educador abraça quando todos rejeitam; anima quando todos condenam; aplaude os que nunca subiram ao pódio; vibra com a coragem de disputar dos que ficaram nos últimos lugares. Não procura o seu próprio brilho, mas faz-se pequeno para tornar os seus filhos, alunos e colegas de trabalho grandes. Que educador daria conta desta missão?

Aprendi com a leitura deste livro que a forma como Jesus sofreu os embates da sua vida pública até à obediência da derradeira Cruz teve por detrás uma educadora fenomenal, que O ensinou a nunca desistir. Por vezes, podemos ser levados a pensar, pelo que sabemos da sua vida pública, nos confrontos para com as autoridades deste mundo, que Jesus venceu sempre sem confrontos difíceis, mesmo considerando a vitória da ressurreição à luz da fé. No entanto, podemos ser levados a considerar também, naqueles 30 anos de vida privada, aqueles embates, desde uma nascença pobre, fugas e encontros, para as vicissitudes que Maria, com a ajuda de José, teve de empreender para que Jesus crescesse como uma criança e jovem saudável (em sabedoria, em idade e em graça, junto de Deus e dos homens; cf. Lc 2,52). Deve ter havido muito “bullying” a respeito de Jesus, que Maria soube resolver para que Jesus crescesse sem medo e ansiedade, para assumir, com uma obediência livre, a sua missão por nós.

A cena evangélica desta memória, é um convite a aprendermos, também com o auxílio desta “maior educadora da história”, a saber estar junto à Cruz redentora de Jesus. E a melhor forma é aceitando o papel de filhos de Maria. É assim, também, que viveremos bem a experiência de discípulos prediletos de Jesus, aqueles que já somos e os que hão de ser presbíteros. Receber Maria em nossa casa não é meramente ficarmos-nos por práticas de piedade popular. Utilizando o atrevimento do realismo de D. António Couto, no ponto 8 desta homilia, sobre o papel da cruz como imagem do nosso pecado e do amor de Deus, a piedade ou as devoções marianas podem ser, a seu modo, imagem de uma relação pedagógica e ontológica mais profunda, na realização da nossa configuração com Cristo.

Nas dores de Maria, ao vermos espelhadas ali as chagas de Jesus pela humanidade, somos convidados, também, a ver as nossas próprias dores, com realismo esperançoso. Nomeadamente, aprendendo a saber distinguir o que são dores verdadeiras pelos outros e as nossas resistências a “sofrermos” de forma redentora a nossa obediência ao bem que está na vontade de Deus, a nosso respeito, e da missão que Deus quer atribuir a cada um. O que Ele nos pede, como a Maria, é o nosso sim livre, quer dizer: aceitar o risco de ser visto como cúmplices de Jesus, permanecendo firmes na relação com Ele e os irmãos, sobretudo os mais frágeis, fora do triunfo fácil e sem desviar o olhar.

Que Nossa Senhora das Dores nos ajude a ser discípulos de Jesus humildes e ousados no crescimento da configuração com Ele! Como exortou o Papa Leão XIV na celebração desta memória: Que possamos receber de Nossa Senhora das Dores a força para reconhecer que a vida não é só definida apenas pelo mal sofrido, mas pelo amor de Deus que nunca nos abandona e que guia toda a Igreja.