Filiação, fraternidade e paternidade/maternidade: âmbitos de prodigalidade, caminhos de reconciliação

[Leitura] Jos 5, 9a. 10-12; 2 Cor 5, 17-21; Lc 15, 1-3. 11-32

[Meditação] Âmbitos concomitantes do ser pessoa, etapas de crescimento e de realização vocacional − a filiação, a fraternidade e a paternidade/maternidade são expressões identitárias do ser em família. É frequente, no nome e na interpretação desta parábola, vermos acentuações que declaram estar no centro ora o filho pródigo, ora o pai misericordioso, ora o irmão ressentido. Sugiro, humildemente, que o centro deste texto sejam as “entranhas” de uma casa de família, ou seja, a relação na festa da vida. Na verdade, é desta festa que fugimos quando pensamos os bens materiais só em função do próprio ser (como o filho). É nesta que não queremos entrar quando estamos ressentidos por trabalharmos sem nos sentirmos, à partida, reconhecidos (como o irmão). É nesta festa que nos podemos sentimos sozinhos quando o nosso amor não é correspondido nem percebido (como o do pai).

«Todos somos filhos e foi em torno da filiação que, no seio da própria família, se foi estabelecendo aquele particular modo em que cada um gere a sua personalidade. A partir da experiência da filiação, torna-se também possível a fraternidade. Será pai quem continuar a ser filho e irmão» (cf. WONG, Jorge Carlos P., «Identidade e missão do presbítero no mundo atual», in: Évora, Eborensia, Ano XXVIII, 2015.  (49), 75-82; o que se diz do padre pode refletir-se na vida do cristão). Se estiver com as suas vísceras “grávidas” de misericórdia, é possível que, ao escutar a parábola que Jesus nos conta neste IV domingo da quaresma, um pai ou uma mãe olhe mais para a condição do filho mais novo; ou que um filho mais novo reflita mais a condição dos seus pais; ou um filho mais velho pense nos irmãos mais novos, etc. Também é possível, que cada um se reveja na sua condição de pai/mãe, filho caseiro ou filho em debandada. Esta é, de propósito, uma parábola com muitas virtualidades, tantas quantas permitem perceber a misericórdia multirelacionalmente, como ação de Deus e também nossa, a imitar-Lhe.

Numa sociedade em que se relativizam estes vínculos familiares retratados na parábola, somos chamados a vencer distâncias, sejam entre as pessoas, sejam nas lacunas que, por vezes, cada um sofre entre estes três âmbitos do próprio ser. Para isso, servirá (penso ser este o desafio lançado por Jesus) ir ao encontro dos que incarnam mais expressivamente o papel em que nos falta ou faltou crescer, percorrendo caminhos de reconciliação connosco próprios, com os irmãos e com Deus. Esse estar «em saída» será, certamente, um enriquecimento para todos aqueles de quem nos aproximamos para vivermos (dando ou recebendo) a justiça do perdão.

[Oração] Sal 33 (34)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo