L 1: Flp 2, 5-11; Sl 21 (22), 26b-27. 28. 29-30a. 30c-32 Ev: Lc 14, 15-24
Hoje proclamamos na Liturgia da Palavra da Eucaristia o cântico ou hino pascal que costumamos recitar ou cantar na Liturgia das Horas, em todas as vésperas I de Domingo. Nele, Paulo recorda a kénosis de Jesus, ou seja, o seu aniquilamento ou arrebatamento pela humanidade, que podemos descrever em três etapas de humilhação: a sua encarnação, a sua vida pública e a sua paixão e morte.
Paulo insere este hino na sua carta como modelo da exortação à unidade e ao
comportamento segundo a nova cidadania fundada no Evangelho, seguindo o esquema da humilhação e exaltação do justo inocente, frequente na tradição bíblica. Paulo apresenta Cristo como modelo de vida fraterna, convidando os discípulos a ter os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus. Na nova tradução da Bíblia, o v. 5 diz «tende entre vós o modo de pensar de Cristo Jesus».
Paulo aproveita a visita de Epafrodito para lhes enviar esta carta num momento em que, dentro da comunidade, se viviam divisões, com a infiltração de cristãos judaizantes, que punham em causa o Evangelho pregado na comunidade, e a mentalidade laxista de alguns cristãos de Filipos (cf. introdução à carta). No v. 6, Paulo refere que, não obstante a sua condição divina, Cristo não usou para proveito próprio o facto de ser igual a Deus. Esta passagem ajuda-nos a perceber que entre o sermos criados à imagem e semelhança de Deus e o querer ser como deuses, substituindo o próprio Deus, há uma linha muito ténue que, se resvala para o abuso ─ que é sempre a substituição de um semelhante (seja Deus, seja o próximo) ─ dá-se origem a divisões e conflitos. De facto, ninguém pode substituir Deus, e nenhum de nós pode substituir o seu irmão.
Um professor meu costumava dizer que a Carta aos Filipenses foi como que escrita com “tinta de sangue”, um carta tirada do coração, sendo o mais certo que ele a tenha escrito desde a prisão. Ali, dá testemunho de Cristo como Servo de Deus, fazendo-se também o Apóstolo servo de Deus na comunidade. Portanto, a condição de servos é a única condição que nos permite viver a exaltação em Cristo Jesus, ao mesmo tempo em que nos humilhamos confiantes no seu amor misericordioso.
A respeito deste hino paulino, D. António Couto sublinha que para fazermos hoje a vontade do Pai, como o exemplo de Cristo, que desceu ao nosso nível para servir com doçura e humildade, precisamos de descer construindo uma comunidade não autorreferencial, mas fraterna, em que cada um está mais atento aos outros do que a si próprio. Na Solenidade de Todos os Santos há pouco celebrada, explicando a santidade como qadôsh (= separado), referiu que Deus é Santo porque é «separado» de si mesmo (não da sua criação nem de nós), ou seja, não se agarra ao seu mundo divino, mas sai de si por amor, esvaziando-Se de si na forma de escravo. E Jesus é visão mais clara para nós desse tipo de santidade.
Na parábola do Evangelho, Jesus como que força o colocar diante nos nossos olhos o lugar daqueles que encarnaram a pobreza, a doença ou algum defeito que limita a sua existência (os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos), impreparados, mas trazidos sem serem convidados e sendo, inclusivamente, forçados a entrar no banquete, para que não houvesse desperdício de lugares. Isto em contraposição com os que, primeiramente, foram convidados e se escusaram a participar (significando, aqui, o povo de Israel). A celebração da Eucaristia, como prefiguração do banquete do Reino, possibilita-nos, agora, a nós, a não deixarmos de fazer parte deste projeto de aliança divina nova com os homens, em Cristo, mais forte do que qualquer outra aliança humana que se possa fazer.
Quando fordes padres, à maneira dos que agora somos padres, ireis dar conta, com mais “aflição” (dentro das responsabilidades que se tem), como, por vezes, fazer o que não é politicamente correto vos fará viver mais a condição de servos de Deus do que, meramente, obedecer às expetativas dos homens. Se Jesus tivesse agradado aos homens, certamente hoje não estaríamos salvos. Já fomos várias vezes advertidos pelos Santos Padres pelo “mundanismo espiritual” de quem tenta mais agradar a expetativas do que fazer o anúncio salvífico, ao jeito de Jesus. Continua a ser delicado e, até, polémico o debate entre o proselitismo e o anúncio do Reino e o convite à conversão, que mais não é do que o convite a todos a entrar acolhendo os seus valores perenes.
Portanto, agradeçamos o que Jesus vai fazendo nas nossas vidas, não obstante as nossas imprefeições e pecados, e retribuamos-Lhe a sua misericórdia com a misericórdia uns para com os outros. São Martinho de Porres costumava dizer que “Onde está Deus, não falta nada”. Confiemos como ele, aceitando o convite do Mestre, muitas vezes através das provocações dos seus servos!
