navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: 1Cor 12, 31 – 13, 13; Sl 32 (33), 2-3. 4-5. 12 e 22 Ev: Lc 7, 31-35, na memória dos santos mártires Cornélio, papa, e Cipriano, bispo

No evangelho de hoje, Jesus põe a manifesto a contradição das pessoas que não escutam e agem meramente segundo os seus caprichos e desejos. E estes não as deixam ver as múltiplas formas com que Deus Se aproxima delas, na presença de agentes pastorais concretos, diferentes na sua forma de viver a missão, mas unidos no mesmo afã de evangelizar.

Jesus falou de João Batista que não comia pão nem bebia vinho e foi dito que ele estava com um demónio. E, falando d’Ele próprio, como de Quem come e bebe, é acusado por ser um comilão e beberrão, amigo dos pecadores. Hoje poderíamos colocar nesta lista outras comparações ou exemplos de contradição, na forma como, por vezes, se fala do papa, dos bispos e dos padres, dos catequistas, etc. Como apresentar e viver o evangelho de hoje?

Jesus mostra-nos hoje que Deus não aprova quem encontra em tudo e em todos motivos para os condenar. Há pessoas que reclamam de tudo e de todos, sem perceber que o problema está neles mesmos. E que o que é preciso mudar ou melhorar começa por eles mesmos. João Batista e Jesus eram/são muito diferentes. No entanto, fazem parte do mesmo projeto, ainda que em etapas diferentes.

Nas paróquias por onde passei contavam-se pelos das mãos (e, vá, também dos pés!) as pessoas que, apesar da mudança de párocos, continuavam a estar disponíveis para servir na Igreja, conscientes da missão que lhes cabia na corresponsabilidade batismal. Estas pessoas provam que sabem ler a realidade e o evangelho com a capacidade de unir todas as perspetivas num conjunto. Outras pessoas já eram mais fluidas, tendo em conta o estilo de padre que lhes aparecia à frente.

É verdade que cada padre tem um estilo próprio de o ser: uns mais dados ao perfecionismo pastoral (parecidos com João Batista), outros ao contacto de proximidade com as pessoas (parecidos com Jesus), conforme a sua personalidade e a sua especialização desde a formação. Também eles são chamados a ser padres para tudo e todos, na imitação do Bom Pastor. Embora nem sempre seja fácil. Neste sentido, não há só uma geração de destinatários da pastoral, mas também já vários tipos de gerações de padres. Aqui, o presbitério tem uma função importante de integração das diferenças na unidade da missão essencial do padre na Igreja. Por isso, é necessário estar atentos à história e, com a ajuda da sabedoria de Deus, tentar perceber como Deus realiza o seu projeto através de diferentes gerações de agentes.

O que hoje os padres pedem é que não sejam vistos como “super-heróis”, pedindo partilha de responsabilidades (11º Simpósio do Clero de Portugal). Por vezes, as pessoas veem os padres como “super-heróis”, talvez, porque eles também tenham querido ingenuamente comportar-se como tal, assim como, talvez, também tenham de algum modo desapreciado os dons com que Deus opera através das pessoas no seu projeto. Não é por acaso que o P. João António Pinheiro Teixeira sugira que “antes de programar, escutemos”, através de um «slow cooking» (cozedura lenta), mais do que de «fast food» (comida rápida).

Mas ainda podemos interpretar o evangelho de hoje por outro prisma: tal como personagens diferentes, há dimensões e aspetos diferentes da mensagem que nem sempre são vistos dentro da pedagogia unitária e integral de Deus a nosso respeito: se o Evangelho exige renúncia, achamo-lo demasiado austero; se oferece perdão incondicional, rotulamo-lo de ingénuo e permissivo. Tornamo-nos peritos em desculpas para nunca comparecer à vida real (Laboratório da Fé).

Talvez nos possa ajudar a “terapia” sábia do jesuíta Franz Jalics a respeito da nossa relação com Deus e com os outros:

A relação com os outros determina a nossa relação com Deus e vice-versa. A relação com Deus e a relação com as outras pessoas discorrem sempre em paralelo e que uma para a outra podem ser banco de prova ou controlo de autenticidade. Porque é o mesmo coração humano que entra em contacto com Deus e com os outros. Por esta razão, quem alcança uma atitude contemplativa no seu trato com Deus será também compreensivo com as pessoas com quem se relaciona e se abrirá a elas com confiança e paz. Claro que também é certo o contrário: quem não é capaz de entender os seus semelhantes e de comunicar-se com eles, tão pouco chegará longe na sua relação com Deus.

─ FRANZ JALICS, Escutar para ser. Dimensão contemplativa das relações interpessoais, p. 19

E:

A relação que se mantém com Deus, com os outros e consigo mesmo é exatamente proporcional. (…) Queres saber a relação que manténs com Deus? Olha a relação que tens com os outros. Se amas uma pessoa, queres bem a dez, toleras umas vinte, és indiferente a umas sessenta, há treze ou catorze que, francamente, não te fazem muito felizes, e uma ou duas às que nem sequer as podes ver; exatamente assim é a tua relação com Deus: ama-Lo em um por cento, te deixa indiferente em sessenta por cento, resulta-te agradável em uns dez por cento, tolera-l’O em vinte por cento e assim sucessivamente. (…) Se nos ficamos só nos grandes princípios, corremos o risco de a mensagem nunca chegar ao coração do homem. Em qualquer caso, tudo isto o diz a Sagrada Escritura, de forma mais retumbante: «Quem diz amar a Deus e não ama seus irmãos, é um mentiroso» (1Jo 2, 4).