No Documento Preparatório do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade (números 17 a 21), quando somos colocados à escuta das Escrituras, são-nos apresentados os três grandes atores do Evangelho: Jesus, a multidão e os discípulos ou apóstolos. É na interação destes três personagens centrais onde a missão e a revelação do Reino de Deus ocorrem. Jesus é o protagonista que toma a iniciativa, ensina e cura; a multidão representa toda a humanidade em toda a sua diversidade e fragilidade, a quem Jesus se dirige e escuta; os discípulos/apóstolos são aqueles que Jesus chama para estar com Ele e partilha a sua missão.
É isto que temos vindo a constatar nos capítulos 13 e 14 do Evangelho segundo Mateus que estamos a proclamar nestes domingos de verão. Jesus ensinava o Reino com as parábolas, impeliu à condivisão dos pães à multidão que o perseguia, mandou os discípulos a ir de barco para a outra margem, aparecendo-lhes a caminhar sobre as águas. E é ali que acontece outro teste diagnóstico e outro momento de formação para os discípulos.
A multidão frágil e faminta persegue Jesus, mais por aquilo que sabem que Ele é capaz de fazer em favor deles, do que por aquilo que Ele é ou representa. Seja como for, nunca tinham escutado e visto alguém como Ele e Jesus, nunca deixando de Se compadecer a seu respeito, vai ensinando com parábolas que possam compreender e curando eficazmente. Como grande comunicador do Reino de Deus que era, Jesus sabia captar a atenção da multidão (início de uma boa comunicação), com as parábolas e as curas.
Já com os discípulos que O seguem mais de perto, Jesus constrói e educa-lhes desejo (o desenvolvimento de uma boa comunicação), explicando-lhes as parábolas e provando-os na fé (“dai-lhes vós mesmos de comer”, em fez de comprar, etc.). Seguir ─ diferente de perseguir ─ é reconhecer em Jesus o Filho de Deus e, como Ele, não querendo abusar das prerrogativas divinas ─ Ele que preferiu intitular-Se “Filho do homem” ─, aprender a servir como Ele os irmãos. Segundo a lógica do Reino de Deus.
Uma boa comunicação culmina, como nos últimos segundos de uma publicidade televisiva, na chamada para a ação (a promessa da marca e a carga emocional final). Nisto, Jesus também era Mestre: depois de fazer os discípulos constatarem que a partilha de bens compensa mais (na lógica do Reino) do que a mera compra por conta própria, chama-os a ir de barco para o mar alto, para os ajudar a reconhecê-l’O também no meio das tempestades da vida a caminhar “sobre o mar” (ou sobre o mal) ─ e não só nos milagres. É ali que Jesus os chama à confiança (esta “marca” do cristianismo) e a caminhar diante dos desafios onde normalmente corremos o risco de “perder o pé”.
Esta aventura de seguir Jesus, e de ser desafiado a ser e a fazer como Ele, é uma sequela carregada de mistério. Este mistério do bem que nos atrai contracorrente com o mistério do mal (ou da iniquidade). Podemos imaginar Pedro a ir-se bem porque tinha os olhos fixos em Jesus e acabara de dialogar com Ele: (Pedro) «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». (Jesus) «Vem!». Mas, “sentido a violência” começou a afundar-se. O terreno do seu coração ainda está na “etapa” Mt 13,20-21 (“Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo”). Podemos descobrir aqui que Jesus não só explicava as parábolas aos seus discípulos, mas acompanhava-os no significado prático das circunstâncias da vida.
Lendo esta passagem de uma perspetiva psicodinâmica, podemos perceber que Pedro, interiormente, estaria a gerir aquela aventura entre as suas capacidades e o dom de ter sido escolhido para ir ter com Jesus. Olhar ou contar somente com as próprias capacidades não chega. É preciso manter o olhar elevado para Cristo e obedecendo à sua palavra «Vem!». É preciso a persistência daquela semente boa semeada num coração crente.
Frequentemente, como nos lembra o referido documento preparatório do Sínodo, para além daquelas três personagens com que se tece a aventura do caminho para o Reino de Deus, aparece um “quarto ator” — o antagonista ou a tentação da divisão — que tenta afastar Jesus, os discípulos e a multidão uns dos outros. Podemos vê-lo nos sentimentos de mercantilista, medroso, indiferente, etc., a destabilizar a dinâmica do Reino. Podemos vê-lo quando, mesmo como crentes, corremos o risco de contar só com as nossas capacidades humanas, perdendo de vista o Espírito com e em que Jesus nos chama.
Há que seguir Jesus, mais além que perseguir. Quando perseguimos uma pessoa, é porque vamos ao encontro dela para obter o que ela tem ou é capaz de fazer ─ utilitaristicamente. Segui-l’O é outra coisa: é ir atrás d’Ele ou tê-l’O como referência por aquilo que Ele é, para onde nos quer levar e como. Pedro poderia ter acreditado, mas a sua “pouca fé” também serviu de instrumento para que outros, ao ver Jesus salvá-lo, pudessem exclamar «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus». Portanto, quer caminhemos com sucesso sobre o mal, quer, ao afundarmo-nos, peçamos a Jesus que nos salve, estamos na experiência misteriosa de um Deus que está sempre lá, seja em que mal ou tempestade nos assuste. Importa olhar mais para Ele do que para as nossas capacidades pessoais (embora sejam necessárias e Jesus Se queira servir delas); importa gravar no coração as suas Palavras de vida e de bonança. Para que nada nos impeça ou leve a desistir de chegarmos à outra Margem, oferecida/permitida pela sua Graça.
Neste domingo começa a 54ª Semana Nacional das Migrações, em que se convida a nossa atenção e oração para os migrantes e refugiados. O tema deste ano é “Da fragilidade à Esperança”. Na sua mensagem, D. Pedro Fernandes, bispo de Portalegre-Castelo Branco e presidente Comissão Episcopal da Mobilidade Humana, ressalta que “A experiência humana descobre assim o seu horizonte de sentido e, por isso, a fragilidade torna-se lugar de esperança, de abertura a algo maior e mais profundo, que só Deus pode dar, porém, para além desta fragilidade estrutural, profundamente humana, há outras formas de fragilidade que são impostas de modo injusto ou violento, que não são um caminho, mas processos de fragilização e empobrecimento”.
