navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: At 11, 21b-26; 13, 1-3; Sl 97 (98), 1. 2-3ab. 3c-4. 5-6; Ev: Mt 10, 7-13 (apropriado), na memória de São Barnabé, apóstolo

era realmente um homem bom
e cheio do Espírito Santo e de fé

Estes atributos foram suficientes para que os Apóstolos enviassem Barnabé de Jerusalém à Igreja de Antioquia para confirmar na fé a grande multidão dos que aderiam ao Senhor.

No entanto, foram os profetas e doutores que separaram Saulo e Barnabé para os enviarem em missão, depois de rezar e de lhes imporem as mãos.

O Reino dos Céus, proclamado no Evangelho como objeto de missão, implica um plano que envolve: cura, pobreza e o reconhecimento da dignidade humana e a justiça que fundam a paz duradoura. Podemos confirmar isto na Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV (nn. 32.33). Ali é recordado que o desenvolvimento integral de “todos os homens e do homem todo” é o “novo nome da paz” (n. 35). A defesa da dignidade humana na era da IA exige o dever de “permanecer profundamente humanos”, garantindo uma coexistência pacífica, justa e digna (n. 15). Isso implica “desarmar as palavras”, assumir o olhar das vítimas e orientar a inovação para o bem comum e a paz (n. 11).

Curiosamente, ao passo que a narrativa história dos Atos dos Apóstolos no processo de fazer “cristãos”, a narrativa evangélica fala-nos do compromisso com a vocação de sermos profundamente humanos. Significa que aderir ao Senhor (ser cristãos) coincide com o ser profundamente humanos. E o apóstolo Barnabé é uma manifestação desta síntese. Só é possível sermos verdadeiramente cristãos se permanecermos profundamente humanos. Ou seja: aderir ao Senhor (ser cristãos) coincide com o ser profundamente humanos.

«Recebestes de graça, dai de graça» ─ esta exortação de Jesus, no texto, parece marcar uma fronteira entre o poder que Ele mete nas nossas mãos de proclamar o Reino dos Céus (ensinar) e curar os enfermos; e o que Ele considera ser inquestionavelmente indispensável ou dispensável para a eficácia da missão. O que permitia o apóstolo Barnabé conseguir dar de graça o que recebeu de graça era o facto de ser um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé.

Aos seminaristas que estão a terminar mais um ano formativo, estando a estudar para as avaliações desta época de exames, dentro do itinerário para o presbiterado, gostaria de sublinhar um aspeto que considero muito importante: para o fim último para o qual Deus os chamou, o estudo académico tem dois objetivos: o saber das matérias e o método de estudo, em reciprocidade. No futuro, poderá acontecer que alguns conteúdos já se tenham esquecido; mas o método, de for bem organizado, tendo gravado hábitos, poderá não desaparecer e o saber está sempre em construção. Não raramente, a rigidez quando às formas advém de pouco aprofundamento e não aprimoramento de método. No final, às portas das ordenações diaconais e presbiterais, o que os Bispos haverão de averiguar é se sois homens bons, cheios do Espírito Santo e de fé.

Alguém poderia perguntar «Então não seria precise estudar tanto?». E a resposta quase óbvia será: quer quanto ao estudo, quer quanto ao ser humano, quanto ao ser espiritual e quanto ao ser pastoral, o segredo está no equilíbrio e evolução na reciprocidade entre conteúdos e métodos. O dever da formação na formação inicial para o sacerdócio é fazer do candidato alguém que é dócil a aprender a aprender. Daí que o tempo de Seminário não é total, mas um ensaio. E as experiências graduais da pastoral vão sendo “estreia” gradual, em que a “cortina” vai caindo para uma versão cada vez mais imersa no real da nossa vivência em vocação. Não tem de haver “choque de competências”, porque nestas não costuma a ver amor; terá de haver é sempre docilidade, que é a versão cristã do amor no serviço, no qual somos sempre aprendizes e sempre missionários. Não é à toa que Jesus exorta «não deixeis que ninguém vos chama mestre nem guias…» (Mt 23,10; a tradução atual é “preceptores”). Vejamos que Barnabé não decidiu a sua missão nem se enviou a si próprio! E se teve alguma iniciativa foi a de ir procurar Saulo para Antioquia. É claro que ele foi digno de paz, como diz o Evangelho!

Na leitura dos Atos, podemos entrever as várias etapas do caminho formativo e da pastoral do Barnabé, entre vários interlocutores e responsabilidades. E a formação continua, nunca acaba. Em 1Cor 3,7, Paulo afirma «De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento». Assim é pelas etapas da formação: uns plantam, outros regam, maduramente, sem pretensão de reconhecimento. Mais tarde serão outros a tomar decisões mais definitivas sobre os candidatos e a impor-vos as mãos, enviando-vos em missão.

Por isso, todos nós somos convidados a viver as etapas do caminho sem esperar reconhecimento (ainda que receber boas notas académicas seja bom). Maturidade é fazê-lo para ser homens bons, cheios do Espírito Santo e de fé. É disto que os nossos destinatários estão à espera!!

CASE STUDY

Há cem anos, Antoni Gaudí saiu do seu atelier na Sagrada Família pela última vez. Estávamos no dia 7 de junho de 1926, por volta das 18h. O arquiteto, de 73 anos, dirigia-se para a igreja de Sant Felip Neri, como fazia todos os dias para se confessar e rezar. Vestia roupas esfarrapadas e não trazia consigo qualquer documento de identificação. Vivia como um monge há anos, dormindo no seu atelier, quase não comendo e distribuindo o seu dinheiro. Na esquina da Gran Via com a Rua Bailén, deu um passo atrás para evitar um elétrico. Não ouviu o segundo a vir na direção oposta. Os registos policiais dizem que aconteceu exatamente às 18h05. Ele caiu. Bateu com a cabeça. As pessoas aglomeraram-se ao seu redor. Ninguém o reconheceu. Viram um velho magro com roupas esfarrapadas e presumiram que era um mendigo. Os taxistas recusaram-se a levá-lo ao hospital. Um médico examinou-o no local e foi-se embora. Um polícia acabou por levá-lo para o Hospital de la Santa Creu, onde recebeu os cuidados básicos oferecidos aos pobres. Só no dia seguinte é que o capelão da Sagrada Família o veio procurar e reconheceu o homem da ala de caridade como o arquiteto mais famoso de Espanha. Por esta altura, já era tarde demais. Gaudí morreu a 10 de junho de 1926, menos de duas semanas antes do seu 74º aniversário. 30.000 pessoas alinharam-se nas ruas de Barcelona para o seu cortejo fúnebre. Os comerciantes fecharam as suas portas. Fitas pretas pendiam das varandas por toda a cidade. O cortejo desceu La Rambla, passou pela Catedral de Barcelona e seguiu até à Sagrada Família, onde foi sepultado debaixo da igreja que nunca conseguiu terminar. Fonte

Por estes dias, o mundo todo contemplou a sua figura impressa no ar por drones, a fazer-nos contemplar a sua grande obra com a qual reescreveu o Evangelho e manifestou a beleza da criação, a pactuar admiravelmente com o magistério profético do Papa Leão XIV: «Primer l’amor, després la tècnica».

Portanto, verifiquemos se antes de tudo o que fazemos está o amor!