navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: 2Pd 1, 2-7; Sl 90 (91), 1-2. 14-15ab. 15c-16; Ev: Mc 12, 1-12, memória de São Justino, mártir; Dia Mundial da Criança; Dia Mundial dos Pais

Continua a soar o “diapasão” que nos ajuda a compreender a parábola do Evangelho de hoje, e que foi proclamado ontem, na solenidade da Santíssima Trindade: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita n’Ele já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus» (Jo 3, 16-18).

Os príncipes dos sacerdotes, aos escribas e aos anciãos, não obstante serem “mestres” em religião e “gestores” do culto a Deus, eram os que rejeitavam com vigor as palavras e os atos do Filho Unigénito de Deus. É interessante observar na parábola a gradação da rejeição por aqueles “vinhateiros”: um servo a quem espancaram e enviaram sem nada, outro servo a quem bateram e insultaram, e ainda outro servo a quem mataram, muitos outros foram enviados e tratados da mesma maneira. Por fim, restando o seu único filho, este foi enviado, tendo a mesma sorte dos servos. Com uma diferença: sendo filho do dono, os vinhateiros, ao matá-lo, ambicionavam ficar-lhe com a herança.

Faço nesta gradação de rejeição dos que são enviados por Deus três tipos de leitura:

  1. A primeira, a ter que ver com a pretensão de Jesus, é a de ler os acontecimentos da história acerca do plano salvífico de Deus, nem sempre acolhido com fidelidade pelo seu povo. Vários patriarcas e profetas foram enviados por Deus e rejeitados pelos homens. Até chegarmos ao próprio Cristo, o Ungido do Pai. Ao longo dos tempos, os homens não deixaram de substituir os verdadeiros enviados por “ídolos” de todo o tipo. Em vez que aceitarem acolher o Deus que se faz próximo na nossa carne e linguagem.
  2. Outra leitura possível é: aquela gradação de rejeição pode acontecer na rejeição da presença de Deus no no pai e na mãe, no educador, no catequista, no leitor da Palavra, no pregador do “Sermão”, acabando por, sem saber como, rejeitá-lo na própria Eucaristia. Deus manifestou-se em Jesus Cristo e continua a manifestar-se na Palavra, nos Sacramentos, mas também na Assembleia, e naqueles que, com caridade, se doam na edificação da comunidade e na promoção do desenvolvimento humano integral. Pode acontecer que ao rejeitarmos a presença multiforme de Deus, quando chegarmos a estar diante d’Ele como Ele quer apresentar-se, o rejeitemos de igual forma, achando um “desplante” que Ele se apresente como Ele quer. Não raramente, quando estar diante de Deus de forma excêntrica (humana e ritualmente falando, com excessos) pode significar que andámos distraídos no caminho de contacto com outras formas de presença.
  3. Por fim, uma outra leitura, prende-se com o debate atual sobre o “burnout” dos padres. Diversos artigos se podem ler na Internet (link 1, link 2, link 3, link 4, link 5, link 6) e todos eles nos trazem vários pontos de vista sobre o problema, entre as causas e os efeitos, entre a formação e a vida ministerial. O depoimento que mais me surpreendeu é aquele (descubra-se num dos links) que reflete que Jesus já nos tinha avisado que a vida de entrega a Ele na sua Igreja não iria ser fácil. E isso não tem que ver só com o uso dos meios para superar as dificuldades do ministério. Não há padres super-heróis, como Jesus Cristo também não foi super-herói. Também tem de ver com a história que se repete: não faltam episódios em que os “detritos de religião” (expressão para definir aspetos da religião que já não “funcionam” para ligar as pessoas ao divino) se sobrepõe aos planos pastorais papais e episcopais, que os presbíteros são chamados a reverenciar e a chamar à comunhão. Por isso, a parábola que Jesus conta a seu respeito pode servir, também, para caraterizar a missão do padre em cada etapa histórica.

O apóstolo Pedro deixa-nos uma uma “escada” que nos ajuda a viver o essencial da vida e missão cristã no episódio histórico que nos é dado viver: fé > virtude > ciência > temperança > constância > piedade > amor fraterno > caridade.

São Justino foi uma grande investigador da verdade e defendeu a fé cristã. Também nós a devemos defender de tudo aquilo que prejudica a sua vivência sã e frutuosa. Nas “Actas do martírio de São Justino e dos seus companheiros“, o que descobrimos não agradar aos algozes não são práticas de fé baseadas em tradições humanas, mas a relação com o Deus Criador e Jesus Salvador. A verdadeira não tem o seu alicerce em coisas a obedecer ou a fazer, como manda o perseguidor, mas a defesa de um vínculo com a qual se dá glória a Deus. Hoje vive-se o Dia da Criança. Jesus inspirou-se nas crianças para nos dizer que é como elas que entraremos no Reino dos Céus (Mt 18,3-5). Talvez seja mesmo esta capacidade de relação afetiva que Jesus quer privilegiar nas crianças como conselho para os adultos na fé.