navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Jr 18, 18-20; Sl 30 (31), 5-6. 14. 15-16; Ev: Mt 20, 17-28

Mesmo depois de Jesus ter desapreciado o facto de os escribas e fariseus se sentarem indevidamente na cadeira de Moisés, a mãe dos filhos de Zebedeu vai fazer um pedido indevido a Jesus.

A euforia pelo sagrado mascara-se de muitas pretensões aparentemente religiosas, que, no fundo, nem ligam a Deus nem aos homens. Ou seja: o gosto pelo sagrado pode mascarar a vontade que se realizem certos desejos desmedidos.

Não é por acaso que a Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola publicou uma nota doutrinal sobre o papel das emoções no ato de fé, com o título Cor ad cor loquitur ─ o coração fala ao coração ─, declarando que a vida espiritual e o encontro com Deus “afeta a pessoa no conjunto das suas dimensões: afetiva, intelectual e volitiva”.

Naquele tempo em que Jesus caminha para Jerusalém, como neste tempo em que Ele nos ajuda, como Ressuscitado, a caminhar para a Jerusalém celeste, através da Igreja, entre o anúncio e os movimentos que surgem para lhe dar corpo é preciso dar importância ao imperativo do discernimento, para vermos como se “integram” nos movimentos e nas atividades “os sentimentos humanos”, deixando-nos ajudar no “discernimento e acompanhamento na maturação das experiências apostólicas para que possam crescer e prestar um melhor serviço a tantas pessoas que se aproximem da Igreja”.

Na formação musical, já tivemos oportunidade de estudar a importância da adequação dos modos musicais aos diversos momentos da atividade humana, religiosa ou social. Um modo usada de forma adequada significa que os sentimentos estão a ser vividos de forma adequada. E isso leva a influenciar outros a viver de maneira inadequada. A “arte de imprimir sentimentos e impressões” não é só sobre os sons da música, mas também sobre o modo de proceder em relação a Deus e aos irmãos.

Não admira que os outros 10 apóstolos se tenham sentido indignados. Jesus, para curar este indignação deixa uma lição para calar a prepotência: «Sabeis que os chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem entre vós quiser tornar-se grande seja vosso servo e quem entre vós quiser ser o primeiro seja vosso escravo. Será como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção dos homens».

Por vezes, também acontece assim na Igreja: as super-motivações de 2 podem causar a indignação das boas intenções de 10. Precisamos de continuar com o discernimento à luz do Espírito Santo. Hoje é Ele o nosso verdadeiro guia, entre a escuta da realidade e a descoberta do caminho que nos poderá melhor viver a missão que Jesus Cristo nos entregou.

Em comunicações dos Sumos Pontífices recentes, tenho escutado o conselho a não cairmos no perigo de nos habituarmos demasiado às “coisas de Deus” sem viver para Ele. O Papa Bento XVI dizia-o aos acólitos:

Não vos habitueis a este dom, para que não se torne uma espécie de hábito, sabendo como funciona e fazendo-o automaticamente, mas descobri todos os dias novamente que se realiza uma coisa grandiosa, que o Deus vivente está no meio de nós, e que podeis estar próximos dele e contribuir para que o seu mistério seja celebrado e alcance as pessoas.

O Papa Leão diz-no-lo hoje:

Nada seria mais perigoso do que habituarmo-nos às coisas de Deus sem viver em Deus. Portanto, em última análise, tudo começa — e regressa sempre — a uma relação viva e concreta com Aquele que nos escolheu sem qualquer mérito nosso. Ter uma visão sobrenatural não significa fugir à realidade, mas aprender a reconhecer a ação de Deus nos acontecimentos concretos do dia-a-dia; uma visão que não pode ser improvisada ou delegada, mas aprendida e praticada nas circunstâncias comuns da vida.

A resposta ao enigma de Jesus ao dizer “sentar-se à minha direita e à minha esquerda não pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem meu Pai o designou” não tarda em manifestar-se no momento do Calvário, uma vez que a Cruz é o lugar a partir de onde Jesus “reina”. A glória está na Cruz e não fora dela, mas a partir dela. Por isso, Ele pode conceder aos seus discípulos de “beber” daquele “cálice” do seu santo sacrifício de serviço pela humanidade inteira.