navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Gn 3, 9-15.20 ou At 1, 12-14; Sl 86 (87), 1-2. 3 e 5. 6-7 Ev Jo 19, 25-34, na Memória de Santa Maria, Mãe da Igreja

Foi em 2018 que o Papa Francisco inscreveu esta memória de Santa Maria, Mãe da Igreja no calendário romano, a seguir ao Domingo de Pentecostes. Já tinha sido solicitado ao povo de Deus, por Paulo VI, em 1964, que Maria fosse honrada como «Mãe de Deus». A acentuação de Maria como Mãe da Igreja, após a Solenidade de Pentecostes ajuda-nos a aprofundar ainda melhor aquilo que o Papa Bento XVI escreveu no seu testamento espiritual em 2006: Jesus Cristo é verdadeiramente o caminho, a verdade e a vida — e a Igreja, com todas as suas insuficiências, é verdadeiramente o seu corpo. Estas palavras são aquelas com que o pontífice alemão declara a “sensatez da fé” que sobressaem face a teses que pareciam “inabaláveis” e que não passaram de “simples hipóteses”.

À luz do que celebrámos no tempo pascal, agora, para nós, ─ também pela sensatez da fé ─, é mais fácil percebermos que na Sua Ascensão, Jesus levou a nossa humanidade consigo para a glória do Pai, como nossa Cabeça que é, e dali nos governa como seus membros, no seu Corpo que é a Igreja. O Missal Romano está marcado com expressões como: Deus de infinita santidade, que reunis a vossa Igreja, esposa e corpo do Senhor, no dia memorial da ressurreição… e para que a Igreja, reunida na comunhão da Trindade, apareça no mundo como corpo de Cristo e templo do Espírito Santo, para louvor da vossa infinita sabedoria. Nestas expressões podemos perceber que a missão do Espírito Santo é a animação deste Corpo a partir da sua Cabeça que é Cristo. E Maria, conforme deu espaço à incarnação do Verbo de Deus, também foi a mulher que permitiu o nascimento na Igreja, já desde a entrega de Jesus na Cruz na sua identidade, e também no Pentecostes como comunidade missionária. Estas convicções de fé estão patentes nas leituras desta memória litúrgica.

Num tempo em que, de dentro ou de fora da Igreja (conforme a perspetiva), se vai amplificando a reflexão sobre o papel da mulher na Igreja e no mundo, talvez as palavras de Jesus na cruz possam ajudar a identificar no papel nobre que atribui a Maria, também, o papel necessário que se pode atribuir às mulheres: o de serem mães na fé, para além de ser mães biológicas. As meditações do Papa Francisco sobre a teologia e o papel das mulheres na Igreja e no mundo serviram para amplificarmos o reconhecimento das suas qualidades e necessidade, para desviar de uma certa obsessão na “clericalização” do feminino. A minha humilde perceção mostra-me que quanto mais nos curarmos do clericalismo masculino, mais se evapora a reivindicação para o “clericalismo” feminino. E isto pode acontecer à medida que formos capazes de reconhecer o valor do papel das mulheres-mães (a maternidade que nutre) e o papel dos homens-pais (a paternidade que orienta), seja na dimensão espiritual, seja na dimensão biológica. Talvez uma mais expressiva pastoral familiar ─ menos aristocratizada, porque base de qualquer e toda a pastoral vocacional ─ possa ajudar a isso.

Entre a celebração da Páscoa e a missão quotidiana da Igreja, precisamos de uma pastoral (inter)vocacional corajosa, invocando o Espírito Santo para que nos ajude a dar nomes às missões que Deus sonhou para cada pessoa. Sim a tua vocação pessoal é o teu nome. E a Igreja é tua casa. Na grande Catedral que Deus está a construir com o nosso povo, cada um de nós é uma pedra insubstituível (P. Vannucci). Peçamos a Nossa Senhor, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, que nos ajude a “dar à luz” este empenho pastoral que abre as suas portas aos desígnios de Deus, que nos quer a fazer parte da Sua família divina.