navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 28, 16-20. 30-31; Sl 10 (11), 4. 5 e 7 Ev Jo 21, 20-25

No tempo em que João escreveu a sua versão do Evangelho, tinha-se o martírio em alta conta. De modo que, sabendo Pedro como iria entregar a vida pelo mestre na missão, ficou curiosidade como seria o final do apóstolo João. Esta curiosidade valeu-lhe uma última lição do Mestre: «… que te importa?». Portanto, não se deve comparar ao outro. Não se deve fazer comparação entre pessoas. Nos meus largos anos de formação para o sacerdócio ministerial, este tem sido um dos maiores flagelos que, mesmo pela calada, prejudica o desenvolvimento humanos dos que se querem consagrar a Deus. E parece que, se não é curado a tempo, trespassa os seus efeitos malévolos para o relacionamento com os pares no exercício da missão.

Na resposta à curiosidade de Pedro ─ «Que será deste? (referindo-se a João)» ─ Jesus como que o faz considerar o que a Tradição diz em Gn 3 ─ A transgressão primordial e rutura da harmonia num paralelo entre a proibição de Deus ─ Mas do fruto da árvore que está no centro do pomar Deus disse: Não comais dele nem toqueis nele, para não morrerdes» (Gn 3,3) ─ e a Sua exortação em forma de afirmação e pergunta ─ Se Eu quiser que ele fique até que Eu venha, que te importa?.

Nas relações humanas não devemos ignorar a presença de uma “serpente” que teima sempre em alimentar a curiosidade desnecessária acerca das pessoas e das suas circunstâncias, em comparação umas com as outras. Esta curiosidade demoníaca tende a separar, em vez de harmonizar os relacionamentos na perspetiva da comunhão para a missão, da unidade na diversidade.

Tu, segue-Me! ─ Diz Jesus a Pedro. Este “ponto final” da conversa é só mesmo o início de uma aventura que é inclusiva (para todos), mas necessariamente diferenciada. Partindo do pressuposto de que o amor de Deus é incondicional para todos, o seguimento do Mestre começa desde o ponto e da situação em que cada pessoa se encontra, ao encontro do desígnio, da missão ou do propósito com que Deus criou cada pessoa e para o qual a redime em Jesus Cristo.

Nos temos que correm, é cada vez mais notória a necessidade de defender uma fraternidade que seja a experiência de viver a unidade que respeite as diferenças, que não obrigue a uma homologação de consciências (muito perigosa para a saúde mental e afetiva), e que nos permita de viver uma consonância de mentalidades, pondo de partida para a inclusão das sensibilidades pessoais num projeto comum. O Reino de Deus que Jesus anunciou parece-se ser assim.

A diferença é uma fórmula da Criação: o sinal do infinito, onde dentro se abre um outro círculo. Os dois círculos opostos não devem lutar entre si, mas quando se encontram abrem um espaço que se pode chamar de vazio criativo, que permite algo de completamente diverso, que não se esperava de qualquer das partes. Assim, o confronto dá lugar à paz criativa, em vez da guerra paralizante. (Cf. ANTONIO SPADARO)

O psicanalista italiano Massimo Racaltaci explica que o confim serve para delimitar uma identidade, para distinguir o interior do exterior, mas ao mesmo tempo o confim desenvolve uma função de tornar possível o intercâmbio entre a identidade e a diferença, entre o interior e o exterior. O confim tem a função de delimitar a identidade e ao mesmo tempo de consentir o trânsito entre identidade e diferença, entre identidade e o estrangeiro, entre identidade o o Outro. A virtude fundamental para aceitar o confim como meio de relacionamento é a “porosidade” (Bion). O confim é tal só se é poroso. Defini-lo assim é ressaltar a sua capacidade de tornar possível a transição, o intercâmbio, a comunicação. Se o confim perde a porosidade, se engessa ou enrijece, transforma-se em cerca. O confim transforma-se num presídio militar, militariza-se, endurece. Estamos aqui diante da patologia do confim que perde a caraterística da porosidade e, no lugar desta, emerge um fantasma da contaminação, isto é, o estrangeiro é uma ameaça, um perigo, um lugar de potencial infeção, da qual é necessário defender-se.